27 de fevereiro de 2015

Línguas mortas

No dia 4 de Fevereiro de 2014, morreu Hazel Sampson e, com ela, a língua klallam, que ela era a última pessoa a ter como língua materna. Embora haja ainda algumas (poucas) pessoas que o falem como segunda língua, o klallam pode considerar-se uma língua morta. Língua morta pode precisamente definir-se como uma língua que já não é língua materna de ninguém.

Ninguém sabe ao certo o que é uma língua. Há muitas definições bastante satisfatórias de língua, mas, por um lado, é impossível definir-se os seus limites, na sua variação no tempo e no espaço; e, por outro lado, não se sabe de que consta ao certo a língua enquanto programa mental. Trocando por miúdos, e insistindo no que interessa mais para a questão que aqui trato, quer isto dizer, por exemplo, que ninguém sabe em que momento é que o romance falado na parte ocidental da península ibérica se pode passar a designar como português; e quer dizer também que não se sabe onde estão armazenados, como estão estruturados e como funcionam ao certo a imensa base de dados e os inúmeros mecanismos que nos permitem falar e compreender uma língua.

Para compreender o que é a morte de uma língua, é útil ter presente esta conceção de que a língua é uma estrutura que, em abstrato, pertence à comunidade dos seus falantes e que nela evolui, mas que, em concreto, se encontra instalada, na sua forma integral, no cérebro de cada uma das pessoas que a têm como língua materna. A língua morre de facto quando morre o seu suporte físico – quando deixa de ter falantes. Por muito que haja uma descrição exaustiva do léxico e da gramática dessa língua, essa descrição fica sempre muito aquém da estrutura complexíssima que os falantes nativos têm na mente. A analogia com um programa de computador funciona aqui relativamente bem: imaginem um programa que, por uma razão qualquer, já só existe no disco rígido de um único computador e que esse disco rígido é destruído. O programa desaparece. Pode haver uma descrição detalhada do que ele produzia, mas isso não impede que já não haja aquele programa[1].

Há dois tipos de línguas mortas: as línguas com mortes datadas (seja ou não conhecida a data da morte) e as línguas de que é impossível determinar quando morreram[2]. No primeiro caso, está uma língua como o klallam; no segundo, uma língua como o latim. No primeiro caso, o que acontece normalmente é que, por terem pais falantes de duas línguas diferentes, os filhos não adquirem a língua de um dos pais. Ou adquirem-na em bebés, mas, por não a usarem, acabam por perdê-la. Quando uma língua é muito minoritária, vão ficando, por este processo, cada vez menos falantes da língua e, a certa altura, morre o último – e, com ele, a língua. No segundo caso, a língua vai-se modificando e, ao fim de muito tempo, já toda a gente fala uma versão tão diferente da língua que é considerada outra língua. Para usar o exemplo do latim, o latim falado em grandes zonas do império foi evoluindo lentamente e foi-se diferenciando de região para região, e a certa altura, deixou de ser referido e entendido como latim[3] – passou a ser chamado português, galego, castelhano, asturiano, aragonês, catalão, valenciano, etc., etc., etc. Mas é impossível determinar-se quando o latim deixou de ser falado, porque ele foi sempre sendo transmitido de pais para filhos, sem a interrupção que se verifica em casos como o do klallam.

Lembro-me de duas máximas muito úteis que aprendi quando comecei a estudar linguística: “em cada momento, uma língua é sempre o resultado da transformação de um seu estado anterior” e “uma língua é um dialeto com exército e marinha”. O que esta última máxima quer dizer é que a identificação de uma língua é mais frequentemente de caráter político que propriamente linguístico. O norueguês bokmål e o dinamarquês são sempre considerados línguas diferentes, mas, se a Noruega e a Dinamarca não fossem países distintos, haveria, muito provavelmente, quem os considerasse duas variantes dialetais da mesma língua. Se se pensar também em variantes temporais em vez de apenas variantes dialetais, temos que o latim deixa de ser considerado latim quando desaparece o império romano e se criam, no espaço que este ocupava, várias outras unidades políticas. Mas as pessoas não mudaram de língua no ano de 476 ou lá quando se queira considerar o fim da Roma imperial, nem em nenhum momento concreto: os filhos continuaram sempre a aprender a língua dos pais – que se foi sempre alterando um bocadinho, como as línguas sempre se alteram[4].

Parecerá agora claro (espero…) a toda a gente que destas constatações simples se pode derivar que são línguas mortas todos os estados anteriores, que já ninguém fala, de uma língua atual. Usando qualificações como arcaico, antigo, medieval, clássico, etc., para as línguas existentes, obtemos forçosamente línguas mortas. Agora, se a designação de língua morta é standard para, ponhamos, o grego antigo ou clássico, a que se opõe a língua viva grego moderno, é-o talvez menos para línguas mortas como o português, o espanhol ou o francês arcaicos[5]. É claro que a proximidade temporal e, por conseguinte, a proximidade linguística, do que se designa como português arcaico e do português atual é muito maior que a do grego do tempo de Sócrates e do grego atual (e provavelmente até que a do inglês do tempo de Chaucer e do inglês atual), mas duvido que um português atual entenda sem problemas o português dessa época e até que reconheça o português dessa época como sendo a sua língua – o português atual é provavelmente mais próximo do castelhano atual, por exemplo, que do português do tempo de Afonso Henriques...

Dito de uma maneira mais pomposa, que é como se costumam resumir as coisas em fim de texto, para a grande maioria das línguas atualmente existentes[6], há um continuum de língua(s) morta(s) que são as suas fases passadas – que já ninguém fala. No fundo, a língua é (como) um organismo vivo: também para a língua, a morte é o preço a pagar pela possibilidade de evoluir.

Finalmente, a propósito da gravidade da morte das línguas, gostava de dizer algumas palavrinhas. É frequente considerar-se um drama o desaparecimento de um língua, porque, defende-se muitas vezes, é uma cultura ou uma mundovisão que desaparece com a língua que morre. Não cabe aqui desenvolver as complexas questões da relação entre língua e cultura ou entre língua e conceção/perceção da realidade (já o fiz aqui, por exemplo), mas parece-me que há uma grande dose de (etno-)romantismo nesta ideia[7]. Evidentemente, há a parte moral (e política, forçosamente) da questão: são aceitáveis os motivos que levam a que as línguas fracas sejam destruídas pelas línguas fortes? – e fraco e forte aqui também tem mais a ver com exército e marinha, que é como quem diz prestígio e poder económico, que com alguma característica propriamente linguística… E há a parte científica, sobretudo se a língua desaparecer sem dela haver bons registos e/ou descrições… E há a parte emotiva, claro. Acho muito bem que se faça tudo o que se pode para preservar uma língua de que se gosta, claro, e esse esforço nem precisa, aliás, de outras justificações que não sejam o amor que se tem a essa língua. Mas, se há alguns exemplos de revitalização de línguas, não há grandes provas de que, nas condições em que morre a maior parte das línguas, tais esforços tenham qualquer resultado e discutem-se os prós e contras de políticas de revitalização[8].

Uma maneira de desdramatizar a questão é pensar que, com rigor, a língua que qualquer ser humano fala ou falou será um dia ou é já… uma língua morta.

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[1] No caso de um programa de computador, é provavelmente mais fácil, a partir apenas da descrição das funções e resultados de um programa que não sabe qual é, criar outro programa que, embora diferente, tenha funções e produza resultados semelhantes. No caso da língua, as ciências linguísticas e as neurociências estão muito, muito longe de conseguir (por exemplo), a partir de uma descrição do klallam, pôr na cabeça de alguém alguma programação linguística que produza os mesmos resultados que produzia aquela que Hazel Sampson e os outros falantes da língua tinham no cérebro…
[2] Já encontrei quem distinga os dois tipos chamando línguas extintas e não línguas mortas às primeiras, mas não me parece que esta distinção seja muito comum.
[3]
Na região do Trentino-Alto Adige e do Vêneto, em Itália, porém, continuou sempre a ser designado como ladin. Também a língua dos judeus sefarditas continuou sempre a chamar-se ladino.
[4] Isto não acontece sempre de forma contínua e progressiva. Pode haver momentos de ruptura em que há grandes transformações, devido a, por exemplo, imposição política de uma língua estrangeira, grandes migrações de populações, etc. Mesmo estas convulsões não produzem mudanças num momento determinado, mas sim num espaço de tempo mais alargado, de várias gerações.
[5] …e provavelmente menos ainda para coisas como ndebele arcaico…
[6] Os crioulos, línguas nascidas “de repente”, “sob pressão”, são exceção a esta regra geral.
[7] Um bom exemplo de uma visão hiper-romântica da questão é a ideia de suicídio linguístico como forma de suicídio cultural, que se encontra neste texto de Caroline Davies (em inglês). Proponho, para contrabalançar tanto romantismo, uma discussão simples e muito sensata (também em inglês) da questão das morte das línguas por Morris Alper.
[8] A entrada da Wikipédia sobre a questão da revitalização das línguas dá informação básica sobre o assunto e pode também ser um bom ponto de partida para quem queira aprofundar a questão.

3 comentários:

jj.amarante disse...

Gostei de ler, não sou entusiasta de grandes apoios às línguas, a não ser quando tenham sido vítimas de um acidente excepcional. Deixem morrer as línguas em paz.

Edite Leal Gonçalves disse...

Já li o texto várias vezes, e, de todas elas me vem à cabeça, uma resposta é uma linha de raciocínio diferentes. É nesses momentos que fico contente de também conhecer o lado oposto das ciências em que dois mais dois são efetiva e inevitavelmente quatro. Enfim, é só um desabafo! Na verdade, o que estudei nesta área foi sob um ponto de vista mais restrito, e prendeu-se mais com o "nascimento" e evolução duma língua, do que propriamente com a sua morte, e, na verdade, do que estudei de latim, pareceu-me mais morto que vivo (estou a brincar!), mas todo o pensamento e informação que me facultaste foram bem-vindos, e agradeço. Uma das coisas que me parece óbvia, e não é mais do que, por oposição concordar plenamente contigo, é que uma língua é tanto mais viva quanto mais falantes tiver,e, é por isso que temos que agradecer ao Brasil, nosso país irmão, o facto de chamar português ao seu português brasileiro, o que, felizmente para nós, é ainda para eles, uma vantagem política. O que te parece? Na verdade isto são só considerações que gosto de fazer, e que deviam ser proibídas a uma dona de casa. Obrigada por todos os esclarecimentos.

Vítor Santos Lindegaard disse...

Obrigado, Edite, pelo comentário. Não tenho a certeza de compreender a parte inicial, mas aqui vai a resposta ao resto.

Em sentido estrito, vivo e morto são conceitos não graduáveis, o que quer dizer que não há mais vivo e menos vivo, mas eu percebo bem onde queres chegar: quanto mais falantes tiver uma língua, mais forte ela é, mais possibilidade tem não só de sobreviver como também de se impor às línguas com menos falantes que com ela convivam (mas isso depende também de outras coisas, como as características socioeconómicas dos falantes da língua, do seu prestígio como língua de cultura, etc.).

Uma outra característica que, em princípio, tem uma língua com mais falantes é que tem provavelmente mais variantes, mas, mais uma vez, a questão é complexa, porque a variação depende também de outros factores, como, por exemplo, o isolamento das comunidades de falantes. O que, em princípio, deveria acontecer às línguas europeias que se espalharam pelo mundo é o mesmo que aconteceu ao latim: acabam por divergir tanto que deixam de ser consideradas a mesma língua. Mas é difícil prever como isso acontecerá, porque hoje os fatores de coesão (padronização através do discurso escrito , comunicação entre os falantes das várias variantes, etc.) são maiores que antigamente. O facto é que, já hoje, muitos brasileiros não me percebem, como muitos americanos não percebem malta inglesa que eu conheço, de maneira que… Volta-se sempre ao mesmo problema: o que é apenas variação dialetal e o que é já outra língua?

Quanto ao nascimento de uma língua, ele nunca existe, a não ser, como diga na nota [6] do texto, no caso dos crioulos, em que há uma primeira pessoa, ou um primeiro grupo de pessoas, que é falante da língua (que, normalmente, na fase anterior era um pidgin, um sistema rudimentar de comunicação sem as características de uma língua natural). É por isso que houve tanto interesse no "laboratório crioulo", a ideia de que, estudando os crioulos, se podia aceder a estruturas primitivas, inatas, a partir das quais esses crioulos deviam ter sido construídos, por não terem sido recebidos de outros falantes da mesma língua, por a língua não existir antes. Mas a hipótese nunca foi verdadeiramente demonstrada...