31 de maio de 2015

Arqueiros, setas e alvos

Já uma vez aqui pus na Travessa este poema (é um poema completo ou um excerto?) de António Maria Lisboa:
A Seta já contém o Alvo, mas só percorre a Seta aquele que lhe conhece o Alvo. Assim é de olhos vendados que o Grande Atirador alveja.
(Isso Ontem Único. Lisboa: Contraponto, 1953)
Conheci o poema na adolescência e sempre gostei muito dele, mas não sei bem porquê. Não o consigo transformar em nada de racionalmente entendível, não consigo fazer dos seus elementos metáfora de nada que me sirva para deduzir dele uma proposição lógica; mas deve ser precisamente por isso que ele me fascina. Soa a uma sentença de alguma filosofia esotérica, e talvez o seja de facto, porque também as há assim (e muitas…) incompreensíveis para os não-iniciados que não têm a chave para as decifrar. Também pode ser apenas um arremedo desse tipo de frases, um falso aforismo místico. Ou pode ser um daqueles koans zen, que se destinam mais a fazer caretas à razão que a comunicar seja lá o que for. [Bom, nem toda a gente concordará comigo e eu próprio não tenho certeza nenhuma do que escrevo, devo confessar. É bem possível que pelos menos alguns koans sejam também metáforas, apenas de difícil interpretação...]

Seja lá como for, é inegável a força das imagens do arqueiro, da seta e do alvo. O alvo, sobretudo, é uma metáfora tão comum que o seu uso metafórico ultrapassa, nas línguas com que lido, o seu uso literal. Este texto não tem intenção outra que não seja juntar coisas díspares, que só têm em comum arqueiros, setas e alvos. Conto-vos a seguir uma história verídica. Quer dizer, eu garanto-vos que é verídica, mas, claro, eu compreendo de duvidarem da sua veracidade, porque os contadores de histórias não são nunca de fiar…
Arqueiro japonês, autor desconhecido, 1878 (Wikimedia Commons)






G.L. é dentista e caça cudos e impalas e búfalos e leões e hipopótamos, etc., com arco e flechas! Só elefantes é que não. Quer dizer, ele diz que se pode, mas que nunca o fez. Elefantes, caça-os com espingarda. Parece que caçar com arco e flecha, quando se matam muitos animais, não afugenta a bicharada de uma determinada zona, ao contrário do que acontece quando se caça com armas de fogo. Por isso, quando há excesso de animais de alguma espécie nalguma reserva no país onde G.L. mora e é preciso abater uns quantos desses supranumerários, as autoridades contactam-no, para ele ir lá caçá-los. E ele vai, de boa vontade – assim caça sem ter de pagar (e não é tão barato como isso, o que se paga para caçar animais destes) e presta um serviço à reserva. Agora, quando vai à caça, G.L. tem de levar quem oiça por ele os ruídos do mato – é que ele é muito surdo…

Os arcos e as flechas, fá-los o próprio G.L. numa oficina que tem lá casa. Uma coisa sofisticada e moderna. Aliás, tem de ser – é trabalho de precisão, digo-vos eu, que já lá fui visitar aquilo. Mas por que é que ele faz arcos e flechas em vez de os comprar apenas? Porque os arcos profissionais não são suficientemente bons. Os que ele faz são mais fortes e mais certeiros. Devem ser, não sei, é o que ele diz. Que ele mete as flechas todas na muche a uns bons 200 metros, isso é verdade. Ou mais, não sei.

Diz ele que, quando era jovem, podia ter ficado nos primeiros lugares do campeonato mundial e que foi mesmo por azar que não participou. Ossos do ofício… Ou melhor, dentes do ofício. Andava há dois anos a treinar para o campeonato mundial cinco a seis horas por dia, depois das horas de serviço. Tinha, ao que diz, marcas excelentes e até possibilidades de vir a ficar nas medalhas. Dois dias antes de partir para os campeonatos, estava a trabalhar sem óculos, saltou-lhe um bocado de dente infetado para o olho, e apanhou uma infeção na vista: adeus mundial. Ficou tão triste, tão desiludido que abandonou o tiro ao arco de competição.

O meu texto acaba aqui. O resto é a ilustração que enfeita a página e dois vídeos do YouTube (ambos em inglês).

O primeiro é sobre a ciência da flecha e do seu percurso, que é bastante interessante. Antes de ver este vídeo, não sabia que, embora a linha que vai do arco ao alvo seja reta, a trajetória do corpo da flecha o não é. E claro, não tinha sequer pensado, sequer, na questão fundamental, que é o arco estar ali mesmo no meio, entre a cauda da flecha, com que se visa, e o alvo. (G.L. usa um arco como o que se vê no vídeo a 3'30'', que não se intromete entre o atirador e o alvo.)



O segundo vídeo é sobre uma espécie de artista de circo, um arqueiro dinamarquês que desenvolveu técnicas espetaculares de tiro ao arco, que, diz ele, são as que usavam os arqueiros de antigamente, para caçar e em combate.

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