11 de maio de 2015

Nós mesmo nós e outros nós

Richard Rorty escreveu que é «um conjunto de crenças partilhadas que determina a referência da palavra nós*». Hmmm… Não vou discutir agora as ideias de Rorty (embora as ache, no mínimo, muito discutíveis…), mas sim a referência da palavra nós. E, embora a Rorty não devessem importar muito os factos linguísticos (nem outros factos…), a verdade é que a palavra nós pode ter muitas referências diferentes. Falo a seguir do português, mas do inglês poder-se-ia dizer mais ou menos o mesmo…[E sim, sim, eu sei que não é de língua que Rorty fala e que o que digo a seguir não serve de crítica às suas ideias, era só uma brincalhona provocação.]

Há línguas com formas diferentes (do pronome ou do verbo), conforme a primeira pessoa do plural inclua ou não a pessoa com quem se fala. Também pode haver formas diferentes para uma primeira pessoa do plural que inclua apenas a pessoa que fala e a pessoa com quem ela fala. A Wikipédia em português diz que «[e]m português, essa diferença se faz sentir entre os pronomes nós (inclusivo) e nós outros (exclusivo), e também entre nós (inclusivo) e a gente (exclusivo)», mas se isso for verdade em certas variantes do português do Brasil e do galego, não se aplica certamente ao português de Portugal. Em Portugal, onde a forma nós outros é quase inexistente, arcaica ou limitada a raros usos literários ou dialetais, tanto as formas nós como a gente podem ser inclusivas ou exclusivas.

O mesmo se passa em muitas outras línguas. É possível determinar, a partir de outros elementos discursivos, o valor inclusivo ou exclusivo de nós e o seu valor dual (referindo apenas o locutor e mais uma pessoa, o interlocutor ou outra) ou plural, mas a única coisa que se pode com certeza afirmar que é comum a todos os seus valores de base é referir a pessoa que fala e mais alguém.

Esperem, esperem, não é bem assim! Referir a pessoa que fala e mais alguém é o mais comum dos valores de nós, mas não é comum a todos os seus valores. Há um valor de nós, vejam lá, que nem é de primeira pessoa do plural, mas de segunda pessoa do singular: «Então, como nos sentimos hoje?» Eu chamo-lhe o «nós dos médicos», mas não são só médicos que o usam.

E há ainda, claro, um nós mais majestático que o dos senhores doutores, singular como ele, mas sem chegar a ser segunda pessoa – primeiríssima pessoa apenas. Agora, há algumas restrições ao uso deste nós dos monarcas: se o jovem Luís XIV tivesse dito «O Estado somos nós», não sei se se teria tornado famosa a sua afirmação; mas não teria, com certeza, sido entendido que o Estado era ele

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*«According to this view, what counts as rational or as fanatical is relative to the group to which we think it necessary to justify ourselves – to the body of shared belief that determines the reference of the word “we”.» “The priority of philosophy to democracy” (in Objectivity, Relativism, and Truth: Philosophical Papers, Vol. 1. Nova Iorque: Cambridge University Press, 1991, p. 177) Não é o único caso em que Rorty fala, neste sentido, da referência do pronome da primeira pessoa do plural. Outro exemplo: «For pragmatists, the desire for objectivity is not the desire to escape the limitations of one's community, but simply the desire for as much intersubjective agreement as possible, the desire to extend the reference of 'us' as far as we can.» (“Solidarity or objectivity” (ibid. p. 23).

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