15 de maio de 2015

Um entre mais de cem mil milhões

Muitas ideias estranhas, como a transmigração das almas ou a de ser descendente de Carlos Magno, seriam abandonadas ou clarificadas se as pessoas se pusessem a fazer contas. É certo que quem acredita na metempsicose provavelmente não quer saber de contas para nada, mas quem ache que ser descendente de Carlos Magno é uma grande honra talvez esteja interessado em saber que isso não é, afinal, nada de especial, porque Carlos Magno tem centenas de milhões de descendentes. De facto, todas as pessoas que descendem de famílias europeias há muita gerações (e não só, mas sobretudo) são não só provavelmente descendentes de Carlos Magno como têm todas um antepassado comum, se recuarmos apenas 1200 anos. Há muitos textos que explicam isto na Internet, mas podem ler, por exemplo, aqui e aqui. O modelo que permite estes cálculos com relativa certeza, elaborado por Joseph T. Chang, existe já há cerca de 17 anos, mas, em 2013, um estudo genético aleatório de 2257 europeus veio confirmar a teoria que era só matemática: não haja dúvida, somos todos primos. (Estudo propriamente dito aqui, respostas a perguntas frequentes sobre o estudo aqui).

O que é que isto interessa? Nada. Ou muito, é conforme. Destrói completamente a ideia de identidade assente na linhagem (viva a República!), a não ser que se limite essa identidade às últimas dezenas, às vezes nem isso, de gerações. E diz-nos que não vale a pena procurar ser descendente daquela senhora ou daquele senhor para ser, como dizer?... especial, porque ela ou ele, se não tiverem vivido há pouco tempo, têm mais descendentes que chapéus há para os palermas.

Agora, uma questão interessante, quando a gente se põe a fazer contas sobre as pessoas que viveram antes de nós é, precisamente…quantas pessoas viveram antes de nós? No site Population Reference Bureau, Carl Haub publicou pela primeira vez as suas contas em 1995, atualizou-as em 2012 e voltou a atualizar os dados em 2011. Não se pode saber com exatidão, até porque a humanidade não começa num momento concreto, mas é bastante provável que Usain “Lightning” Bolt tenha, de facto, corrido 100, 150 e 200 metros mais depressa que mais de cem mil milhões de seres humanos que existiram até hoje.

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