19 de junho de 2015

Mais 3 notas avulsas sobre coisas da língua

1 [Concordância de tempo] 
Quando era rapaz novo, havia músicas de que não gostava, porque eram repetitivas e não tinham solos instrumentais, e hoje gosto dessas mesmas músicas, porque são repetitivas e não têm solos instrumentais. Como as coisas são!...

E como é a gramática!... Vejam lá: essas músicas eram repetitivas e hoje são repetitivas, como se tivessem um antigamente e um agora… Mas digam-me, que eu tenho dúvidas em relação a isto: apesar de ser normalmente o presente que designa, em português, o que não tem tempo («A toninha é um mamífero», «A 7ª sinfonia de Sibelius só tem um andamento»), não se diz «havia músicas de que não gostava, porque são repetitivas e não têm solos instrumentais”, pois não? Não é pergunta retórica, queria mesmo saber o que dizem e ouvem dizer, e agradeço antecipadamente a vossa colaboração.

2 [Ainda a propósito de ]
Escrevi eu aqui uma vez que, a par das duas propostas mais conhecidas da origem de (de rapaz e de compadre), se podia considerar outra, a das onomatopeias epá e opá, comuns a uma vasta zona de línguas ibéricas (ver aqui o desenvolvimento da ideia). Há ainda, tinha-me esquecido, a possibilidade de vir de pai. Já vi e ouvi algumas vezes na minha vida “Ó paizinho” como vocativo popular, dirigido não ao progenitor, mas a um desconhecido, e também a exclamação “Ena pai!”, que voltei a encontrar há pouco tempo no conto “José Valentim”, de Fialho de Almeida (Mem Martins: Europa-América, s/d). É claro, pode muito bem ser ao contrário: que de se tenha “reconstruido” um étimo fictício pai, talvez por analogia com tio, que também se usava muito como vocativo na língua popular. Vá lá uma pessoa saber…

3 [Bacon: da necessidade, ou não, de palavras importadas, mais uma vez] 
Bacon é um bom exemplo de uma palavra estrangeira que se adota com um produto novo. A minha avó conheceu o produto bacon na mesma altura em que eu o conheci e aceitou o nome inglês, que pronunciava beique. À pergunta “É mesmo necessária a palavra inglesa?”, a resposta é que não, como nunca é, nem que tenha de se criar uma palavra nova. Como se diz então bacon em português?

Em abstrato, creio que não se pode mesmo traduzir diretamente sempre da mesma maneira, porque a palavra inglesa não refere um produto apenas, mas vários e, ao que sei, não temos nenhum termo ou expressão que cubra os mesmos significados. A tradução toucinho fumado, que já vi proposta, pode funcionar às vezes, se for de smoked bacon que se está a falar, mas nem todo o bacon é fumado, e nem sequer curado, porque há bacon fresco (green bacon). O bacon do ombro e outros cortes de bacon não têm mesmo nada de toucinho.

Mas é certo que isto são produtos mais raros, não precisam tanto de tradução... Atenhamo-nos então ao bacon mais comum, o chamado streaky bacon, vá, para não nos perdermos em complexidades gastronómicas. Como a palavra toucinho é muito abrangente (fumado ou não, é às vezes fat, às vezes lard e às vezes bacon), para o streaky o melhor seria, provavelmente, usar entremeada, que é como se costuma chamar a esse toucinho entremeado. Até porque toucinho fumado só, sem mais, faz-me antes vir à mente um tipo específico de bacon com pouca ou nenhuma carne – que se encontra, sob várias designações, em vários países (o que se vê nesta imagem). Posso, aliás, querer dizer que no outro dia (é verdade), o supermercado tinha bacon fumado (røget bacon) mais caro que (arrisco…) toucinho fumado (røget spæk). Não sei se se tinham enganado a pôr os preços, porque normalmente é ao contrário

Entremeada curada, ou salgada e defumada, ou algo assim, tem poucas possibilidades de vingar e é mais realista aceitar, estou eu em crer, que bacon é palavra importada que veio para ficar em português e em muitas outras línguas. Talvez se possa começar antes a pensar numa maneira de aportuguesar a grafia, mas bêicone, hmmm, não me cheira… (E depois, em resolvendo isto do bacon, a ver se começamos a pensar em como chamar em português às costeletas kasseler…)

2 comentários:

jj.amarante disse...

Em vez de «havia músicas de que não gostava, porque são repetitivas e não têm solos instrumentais” que me soa mal eu diria «havia músicas de que não gostava, por serem repetitivas e não terem solos instrumentais” que me soa melhor. Há bastante tempo que me esqueci das regras gramaticais que se usavam quando as estudei, agora funciono mais por "soa-me bem" ou "soa-me mal", isto para dizer que não estou em condições de argumentar sobre este tema.

Vítor Santos Lindegaard disse...

Obrigado, José Júlio, e desculpe o atraso na resposta. A sua solução com infinitivo é realmente mais elegante. A minha intenção aqui não era tanto encontrar uma regra (a regra é, em princípio, a concordância dos tempos), mas antes saber se se diz ou não se diz doutra maneira, independentemente de ser ou não considerado correto. Mas não tenho muitas respostas, como seria, aliás, de prever :), pelo que tenho de fazer a pergunta noutros lado. De resto, acho que soar bem ou mal é critério suficiente para a maior parte das pessoas. Mesmo quem sabe muitas regras e tem muitas ideias sobre como se deve escrever ou dizer acaba, de vez em quando, por seguir apenas essa intuição.