23 de julho de 2015

23 de julho, sete e meia da manhã

Acordei sobressaltado com um pesadelo horrível: uns homens disformes, monstruosos, queriam matar-me para se vingarem de qualquer coisa que o meu pai tinha feito. Ainda bem que consegui acordar antes de eles me matarem, porque morrer é uma experiência muito desagradável, mesmo que seja só em sonhos. Eu sei, porque já me aconteceu. E ser morto violentamente – isso nunca me aconteceu – deve ser ainda pior. Também acho que ninguém deve pagar pelo que os pais fizeram.

Eram cinco e pouco da manhã quando acordei. Já não voltei a adormecer. Ontem tive dores de cabeça à tarde, uma coisa que nunca tenho, e pensei que podia ser por ter dormido pouco. Espero não ter hoje dores de cabeça outra vez.

O céu estava ameaçador. Enfiei uns calções e fui apanhar a roupa que estava estendida no quintal. Estava toda quase seca e era uma pena deixá-la encharcar-se, se começasse a chover. Mas não choveu nem vai chover. O tempo limpou e vamos ter outro dia de sol.

Fui estender a roupa no quarto de hóspedes e pensei que faço tudo demasiado depressa, com pouca calma. Tenho de começar a desacelerar progressivamente os gestos, até ficar por fim completamente imóvel. Quando morrer, quero eu dizer.

Voltei para a cama e estive a ler Gary Snyder e John McWhorter. O livro de Gary Snyder é difícil para mim, tem muitas palavras que não conheço. Vou fazer uma leitura do livro sem dicionário e relê-lo depois com o dicionário. Achei graça ao truque literário simples de separar com vírgula nomes de adjetivos e pus-me a especular como traduziria
Dried, shrimp
       smoked, salmon 
Fiz também uma nota mental: procurar Dōgen em Google e a auto-estrada 99 em Google maps.

Poderia ter sido eu a escrever muitas das coisas que McWhorter escreve. Aliás, já escrevi muitas das coisas que McWhorter diz. A ideia de que a língua condiciona o pensamento pode ter surgido com a intenção louvável de reconhecer a diversidade cultural, o que foi sem dúvida importante num certo período histórico, mas parece-me que é hoje mais importante insistir na igualdade fundamental de todos os seres humanos. Ou, como o resume Steven Pinker na contracapa do livro,
«Algumas ideias populares são piores que erradas – têm uma ponta de verdade em questões de somenos importância, mas ajudam a criar incompreensões em questões muito importantes. (…) Apesar da sua superficial sofisticação, a hipótese [de que a língua modela o pensamento] oculta verdades profundas: que o pensamento é bem mais rico que a língua; que as línguas são mais o produto de uma caprichosa memética que reflexos de obsessões culturais; e que as semelhanças cognitivas entre as pessoas são mais fundas que as diferenças entre elas.» 

Decidi que vou começar a escrever poesia e contos outra vez – apenas pelo prazer que isso me dá.

A minha filha Siri faz hoje 11 anos. Está uma mulherzinha, como se costuma dizer.



2 comentários:

dilamar santos disse...

Um bom vinho muitas vêzes é o melhor remédio para dor de cabeça. Feliz aniversário para Siri.

Vítor Santos Lindegaard disse...

Um obrigado MUITO atrasado, Dilamar, o seu comentário tinha ficado esquecido, não sei porquê. Não posso beber, infelizmente, por causa de uma doença que tenho, mas concordo que um bom vinho é remédio para muita coisa!