30 de janeiro de 2015

Paisagem desabitada e paisagem com gente a mais

Apesar das (boas) intenções de muita gente de promover, em várias partes do mundo, um desenvolvimento assente na agricultura e na pecuária, a verdade é que desenvolvimento, pelo menos no sentido mais comum da palavra, implicou sempre e continua a implicar migrações de uma grande parte da população do campo para a cidade. Em todo o mundo houve e continua a haver quem, mitificando ou não as vantagens de um estilo de vida urbano, se disponha a abandonar o campo e a vida do campo, sem saber ao certo o que a espera na cidade. Um dos resultados de uma fase inicial desse movimento é sempre a criação de enormes bairros da lata nos subúrbios das cidades, que, em vários aspetos, contrastam tanto com os centros urbanos como com as zonas rurais. Se a escolha dos migrantes tem ou não alguma base de racionalidade é algo que se discute: enquanto muitos chamam a atenção para os perigos dos subúrbios pobres, insalubres e desorganizados das grandes metrópoles e apelam à necessidade de travar o êxito rural, outros afirmam que, contra a impressão maioritária, mesmo nos caóticos bairros da lata das cidades do terceiro mundo, as pessoas têm melhores condições de vida que nas zonas rurais e que trocar a aldeia pelo bairro da lata é, pois, uma decisão mais razoável do que muitas vezes se pensa.

A tendência para o êxodo rural não parece inverter-se em lado nenhum do mundo. Nos países europeus do século XXI, porém, tem características diferentes do de outros tempos e lugares, porque, em princípio, os habitantes das zonas rurais dos países ricos têm um nível de vida que lhes permite (ou devia permitir) viver no campo com condições de vida semelhantes às da cidade. Mas não ficam nas zonas rurais. Algumas delas estão a ser rapidamente abandonadas.


Parte sul de Ærø, foto de Aconcagua, 2011, de Wikimedia Commons
A motivação imediata deste texto foi a ilha de Ærø, aqui perto de onde moro, na Dinamarca, mas fiz depois uma viagem mental a algum Portugal do interior que conheço de povoações semiabandonadas e população envelhecida. Em Ærø, a tendência há muito constante de abandonar a ilha está a agravar-se: soube que, do decréscimo anual de cerca de 75 habitantes que se verificava há vários anos, passou a haver este ano menos 150 pessoas com domicílio na ilha. “Éramos 12 mil quando a minha família para lá se mudou, era eu rapariga. Agora, somos só 6 mil”, disse-me uma senhora que conheci no comboio de Odense para Svendborg.

É igual em todo o lado, apenas mais visível em ilhas pequenas como Ærø, o ciclo vicioso dos efeitos do êxodo rural nos serviços existentes, cuja deterioração leva a mais êxodo rural: as escolas fecham, porque o preço por aluno é inaceitável – e isso obriga as famílias com crianças a abandonar a ilha; os serviços vão desaparecendo um a um – e, com eles, os poucos postos de trabalho locais; a assistência médica passa a estar disponível apenas nos centros urbano mais próximos – o que motiva os mais velhos a mudarem-se para lá…

Não analisei o assunto em pormenor. É só um esboço de reflexão que proponho – partilha de apontamentos mentais, se quiserem, de questões para que não tenho resposta satisfatória. Por exemplo: A tendência tem sido interrogar-se sobre como fazer chegar aos cada vez menos habitantes das zonas rurais os serviços disponíveis nas zonas urbanas, mas é ou não possível e desejável tomar medidas para travar e – sobretudo – inverter a tendência de êxodo rural nos países ricos? Muitos jovens deixam voluntariamente o campo, mas há também muita gente que só o faz por falta de condições para aí continuar a viver – deve obrigar-se essas pessoas a mudarem-se contra a sua vontade? Satisfaz-nos uma distribuição da população em que a grande maioria dos habitantes se concentre nas capitais e o resto do país fique deserto de gente ou queremos ver vida humana em todas as regiões? E porquê? Traz ou não problemas a concentração maciça de pessoas?

Quem acha que a economia não se deve regular e que deve ser a economia desregulada a determinar os movimentos de populações achará que tudo isto é, quando muito, uma evolução triste – mas inevitável. Quem pensa que compete à política ajudar a modelar o futuro de um país, empurrando na direção que a maioria das pessoas acha correta, e tendo em conta mais que apenas o custo imediato das diversas opções, pode tentar tomar medidas para contrariar a tendência de êxodo rural. Que haja muito mais gente a viver da terra, mesmo que se incentive e se desenvolva a produção biológica, é impensável hoje em dia. Para alterar esta tendência,  é preciso, no fundo,  ponderar, calcular e propor uma forma de manter fora dos grandes centros urbanos uma vida com as características associadas durante muito tempo à vida urbana, mas sem a concentração de prédios e pessoas. As regalias fiscais, quer para as empresas que criem postos de trabalho no campo, quer para as pessoas que aí comprem propriedade e aí se instalem, parecem uma das medidas mais óbvias. Mas é uma questão complexa, parece-me a mim, e, a menos que se gaste muito dinheiro – que literalmente de alguma forma se pague às pessoas para ficar ou investir onde os outros não ficam nem investem –, ninguém vai querer viver nem investir onde os impostos são baixos e o imobiliário barato, se não houver escolas, clínicas médicas e outros serviços básicos. E estes têm de existir à partida para atrair as pessoas; não acredito que possam ser criados numa segunda fase em que, depois de as pessoas terem sido atraídas sem eles, se justifique a sua criação.

Como disse, são sobretudo dúvidas que tenho. Também pode ser que se esteja a empolar o problema de ficar com países inteiros de paisagem humanizada por séculos de vida rural e agora desabitada de humanos, e com a população toda – ou quase – reunida nas grandes metrópoles. Mas, insisto na pergunta inicial, é isso que queremos? Ou é isso que devemos aceitar?, se preferirem. No caso de Portugal, por exemplo, o que pensamos da ideia de tornar literal o velho rifão localista que diz que Portugal é Lisboa – ou o Porto – e o resto é paisagem?

22 de janeiro de 2015

O inglês em Portugal e o inglês dos portugueses

I
Em meados de Novembro último, foi publicada em jornais de vários países, uma notícia sobre a competência em inglês em 63 países em todo o mundo, 23 dos quais europeus, mas nem todos da União Europeia. Vi alguns portugueses reagiram à notícia de que Portugal era dos países onde pior se falava inglês na Europa (só a Eslováquia, a Itália, a França, a Rússia e a Ucrânia têm piores resultados) com alguma surpresa e até indignação – como é possível que digam que os espanhóis falam melhor inglês que nós? E houve quem apontasse que o estudo referido na notícia não era fiável, porque os números resultavam sobretudo de um teste voluntário em linha, feito por uma escola de línguas.

Tem a razão a crítica. Mas os resultados que apresenta não me parecem, no geral, surpreendentes por aí além. Não consegui, na pesquisa rápida que fiz, encontrar informação fiável sobre a competência em inglês como língua estrangeira na Europa e sobre qual o nível dos portugueses nessa língua. Mas encontrei alguns números que me parecem interessantes sobre o conhecimento de línguas estrangeiras em estudos da UE. Falar mais e falar melhor são, naturalmente, coisas diferentes e a informação que se segue diz, às vezes, respeito só a quantidade, às vezes a qualidade, e outras vezes às duas coisas.

Segundo o estudo da UE How many adults actually speak a foreign language?, com dados de 2007 e publicado em outubro de 2010 (UE 2010)[1], 26% dos portugueses dizem falar bem pelo menos uma língua estrangeira e outros 22% dizem ter conhecimentos básicos/razoáveis de pelo menos uma língua estrangeira[2]. Portugal está abaixo da média europeia e também da média dos outro países latinos. Portugal e a Hungria são os países onde menos adultos falam línguas estrangeiras. Estes números são confirmados em 2012, no relatório Europeans and their Languages (UE 2012)[3]. Segundo este estudo, Portugal, com 61% de pessoas que não falam nenhuma língua estrangeira, está efetivamente na cauda da UE em termos de cohecimentos de línguas estrangeiras. Só a Itália e a Hungria têm maior percentagem de pessoas que só falam a sua língua. Os portugueses, juntamente com os húngaros, são também os que menos falam duas línguas estrangeiras (só 13%). Em Portugal, as línguas estrangeiras mais faladas são o inglês (27%) e o francês (15%); em Espanha, são também o inglês (22%) e o francês (16%); em França, o inglês (39%) e o espanhol (13%); e, em Itália, inglês (34%) e francês (16%). Os franceses, apesar dos preconceitos existentes contra o seu interesse e capacidade em inglês, têm de facto uma média acima da europeia. Portugal ocupa, juntamente com a Eslováquia, o quarto lugar a contar do fundo da tabela da percentagem de pessoas que dizem falar suficientemente bem o inglês para manter uma conversa nessa língua. Além disso, e isto é também muito interessante, em Portugal, 68% das pessoas que falam línguas estrangeiras usam só ocasionalmente a sua primeira língua estrangeira. Com apenas 7% de pessoas que a usam todos os dias ou quase, Portugal tem a mais baixa percentagem de uso diário regular de língua estrangeira – é um país onde a vida decorre a bem dizer sempre em português. Portugal tem também a maior percentagem de inquiridos que nunca estudaram uma língua estrangeira (48%), seguido da Espanha (41%), e de Itália e do Reino Unido (32% cada um). Parece-me também interessante que Portugal tem de longe a maior percentagem de pessoas (32%) que, quando lhes perguntam que duas línguas estrangeiras considera mais importantes para seu desenvolvimento pessoal, respondem “nenhuma”.

Tendo em conta a história da educação em Portugal, com níveis altíssimos de analfabetismo até há meio século, pode pensar-se que estes resultados refletem resíduos dessas lacunas anteriores. Parece-me provável, até porque, mesmo nos países com maiores níveis de escolarização há mais tempo, se notam acentuadas diferenças geracionais: segundo UE 2010, a média europeia de 63% de conhecimento de pelo menos uma língua estrangeira sobe para 74% se contarmos apenas a faixa etária dos 25 aos 34 anos e desce para 47% para as pessoas entre os 55 e os 64 anos. Esta tendência é confirmada em UE 2012: 74% da população dos 15 aos 24 falam pelo menos uma língua, baixando esta percentagem para 64% na faixa etária dos 25 aos 39, para 45% dos 40 aos 54 e para 38% para as pessoas com mais de 55. Além disso, segundo o Eurobarometer survey on languages in Europe, de novembro de 2009, a classe ocupacional que mais línguas estrangeiras fala é, como seria de esperar, a dos estudantes, de que 80% falam pelo menos outra língua além da sua. Segundo UE 2012, esta percentagem é de 86%[4].

E, se além do “estudo” referido no início do texto, não conheço documentação do nível geral dos portugueses em inglês, existe um estudo do desempenho dos alunos do secundário (14-16 anos) em 14 países da UE, o First European Survey on Language Competences[5]. Segundo este estudo[6], os alunos do ensino secundário que aprendem inglês em Portugal têm, de facto, um desempenho melhor que o dos alunos franceses e flamengos (a Bélgica foi dividida em 3 comunidades) e muito próximo dos espanhóis e polacos, mas muito inferior aos dos países com melhores resultados, a Suécia, Malta e os Países Baixos, bastante inferior aos dos três seguintes, a Estónia, a Eslovénia e a Croácia, e um pouco inferior aos da Grécia, das comunidades francófona e germanófona da Bélgica, e da Bulgária.

II
Há mais coisas, porém, que gostava de dizer sobre esta questão, mesmo correndo o risco de ter de ser, às vezes, um bocadinho técnico demais para o gosto de alguns leitores. Uso, porém, uma transcrição fonética simplificada baseada na escrita do português, esperando que o que se perde assim em rigor se possa ganhar em facilidade de leitura – para quem não conheça o alfabeto fonético, bem entendido.

A pronúncia não é o fator principal de um bom desempenho linguístico, e é muitas vezes sobrevalorizado. Para dar um exemplo extremo e famoso, Joseph Conrad, que é considerado por muitos um dos grandes nomes da literatura de língua inglesa, nunca se livrou de um forte sotaque polaco, porque só começou a aprender inglês aos vinte e tal anos. A questão é que há vários tipos de desempenho linguístico em que se pode ser bom, alguns dos quais, como o de Conrad na escrita, não implicam boa pronúncia – nem pronúncia nenhuma. Conheço o caso de uma excelente tradutora de literatura portuguesa que fala pouco português. Não sei qual o seu grau de entendimento do português falado, mas, pelos vistos, entende muito bem o português escrito.

Lembro-me que li, há já uns bons anos (perdoar-me-ão não vos apresentar referência, mas foi documento que ardeu – literalmente), um artigo em que se defendia que a boa pronúncia é mais valorizada pelos falantes nativos (e não só?) que outras competências dos falantes estrangeiros. Não há, porém, razão objetiva para dizer que uma pessoa com melhor pronúncia fala melhor que outra que tenha uma sintaxe mais correta ou um vocabulário mais rico – a não ser, claro, que tenha uma pronúncia tão deficiente que seja difícil entendê-la, mas é raríssimo isso acontecer em pessoas com boa sintaxe e um léxico amplo.

Muitas vezes, também, a ideia de má pronúncia é criada a partir de um traço muito conspícuo, sem que, efetivamente, se possa falar de pronúncia especialmente má: um caso óbvio é o da ideia de que Mário Soares fala um francês péssimo, apenas porque rola os rr. De resto, a pronúncia de Mário Soares tem os mesmo erros que a pronúncia da maior parte dos portugueses, mas a maior parte dos portugueses não sabe ver isso. A maior parte dos portugueses também não sabe que há pessoas de língua materna francesa, algumas delas francesas, que também rolam os rr – mas há.

Alias, os falantes de uma língua têm, naturalmente, grande dificuldade – se não impossibilidade, a maior parte deles – de perceber que erros dão ao falar uma língua estrangeira, porque são surdos para muitas distinções fonéticas das outras línguas. Muitos falantes do português têm uma crença estranha na qualidade da sua pronúncia das línguas estrangeiras. Ora a mim, a pronúncia portuguesa nas outras línguas chama-me especialmente a atenção. É uma reação algo pateta e exagerada, mas creio que vem de ser essa a pronúncia que tenho combatido toda a vida para falar melhor outras línguas – sem, em muitos casos, a ter conseguido afastar dos meus automatismos.

Evidentemente, as características da língua materna condicionam a pronúncia das línguas estrangeiras e o espanhol e o francês dão aos seus falantes algumas desvantagens na pronúncia do inglês (e de outras línguas, claro), sobretudo a impossibilidade de encontros consonânticos do espanhol e a acentuação fixa na última sílaba do francês. Não digo que a pronúncia portuguesa do inglês não soe algo mais elegante ou menos marcada aos ouvidos dos falantes nativos que a pronúncia espanhola ou francesa. É natural que sim, embora não tenha maneira de o comprovar. Agora, a confiança dos portugueses na sua natural aptidão para a pronúncia do inglês assenta sobretudo em ouvirem o inglês com ouvidos portugueses. Eis uma lista simples dos erros típicos que eu noto na grande maioria dos portugueses ao falarem inglês:

Excesso de [z], às vezes excesso de [s]: Se a grafia não influencia a pronúncia da língua materna, influencia sem dúvida nenhuma a pronúncia das línguas estrangeiras aprendidas na escola. Assim, os portugueses tendem a pronunciar como [z] o s entre vogais e em fim de palavra e os ss depois de consoante ou duplos. Ora, se se pode confiar na grafia portuguesa relativamente à distinção entre [z] e [s]. o mesmo não acontece em inglês: muitas vezes, os ss escritos entre vogais ou no fim de palavra leem-se [s], como em house, close (advérbio), case, etc. e a grande maioria dos plurais; e há ss depois de consoante ou duplos que se leem [z], como em observe, dissolve ou dessert. Os franceses fazem geralmente o mesmo erro que os portugueses, mas os espanhóis, que não têm o som [z], pronunciam normalmente todos os ss e zz como [s], um erro que fazem também os escandinavos, pois também não há [z] em nenhuma língua escandinava.

Não pronunciar o h: Um erro típico dos falantes europeus de línguas latinas, exceto os espanhóis, que pronunciam o h como o jota espanhol[7]. Muitas vezes, por excesso de correção, os portugueses pronunciam também o h onde não devem: como sabem que têm de pronunciar o h de hate, os mais zelosos são capaz de dizer hi hate – ou até hi ate[8].

Não distinguir o chamado i breve do chamado i longo: Mais um erro que partilhamos com os falantes das outras línguas latinas – e não só. De facto, estes “ii” não são longos nem breves, mas dois sons diferentes, sendo que o i breve é mais próximo dos nosso [ê]. Mas soa mal dizer hit como heat, bit como beat ou beet, live como leave e assim por diante, não soa?

Não distinguir a de e: Porque a maior parte dos portugueses não consegue ouvir a distinção entre aquele som que fica entre o [á] e o [é] na pronúncia educada britânica ou na maior parte dos outros países de língua inglesa (em bad, por exemplo) e o [é] propriamente dito (de bed), reduzem o primeiro a [é] e pronunciam bad como bed e assim sucessivamente. E isto soa mesmo estranho. Não há jet leg, só jet lag e as duas vogais da expressão são diferentes! De facto, em muitas variantes do inglês, a pronúncia destes (e muitos!) aa é como a do [á] português da palavra , por exemplo, de maneira que este erro não se justifica: basta pensar que bad é [bád] e bed é [béd], voilá!, e dizer [djét lág] e por aí fora.

Confundir o th surdo com s e o th sonoro com d: Pronunciar they como day, etc., é um erro que também se nota muito. É certo que há falantes de muitas outras línguas que também pronunciam o th surdo, de think ou both, por exemplo, como [s] e o th sonoro de this ou they como [d] ou [z]. Agora, por muito engraçado que achemos os franceses ou os alemães pronunciarem o th como [z] (zey speak like zis), pelo menos mantêm, assim, a coerência do sistema, ao passo que quem pronuncia o th como [s] e [d] já não mantém a oposição entre a versão surda e sonora do “mesmo som” e não o distingue de [d]. O problema, para os portugueses – e não só, insisto – é que, em português europeu, o som inicial de they é uma variante do som [d] em certos contextos, pelo que não é entendido como som diferente: se ouvirem com muita atenção, os dois sons ocorrem em dado, o d de day na posição inicial e o th de they entre as vogais[9].



Pronúncia de vogais nasais: Uma coisa muito portuguesa e francesa, porque não há muitas línguas que tenham vogais nasais: em vez de dizer [tent], os portuguese dizem [tẽt], em vez de dizer [paint] dizem [pãit], em vez de [stand] dizem [stãd] e assim sucessivamente. É muito difícil livrar-se disto, é muito difícil ouvir o erro e, pela minha experiência, é um dos primeiros traços a ser comentados, quando alguém comenta a nossa pronúncia (“uma pronúncia assim nasal, um bocado francesa”.

E chega de pronúncia. Para terminar: Distingue-se agora às vezes entre inglês verdadeiro e inglês língua franca, mas as fronteiras entre os dois conceitos são difíceis de definir, se não se usar apenas o critério de ser ou não língua materna. O nível de inglês de muitas pessoas que têm o inglês como língua segunda é muito próximo do inglês verdadeiro e pode ser em muitos aspetos mais rico que o dos falantes nativos. O certo é que, à medida que se vai internacionalizando como língua de comunicação, o inglês língua franca começa a ter peso suficiente para se impor como regra alternativa ao inglês verdadeiro: há às vezes propostas de nomenclatura em inglês ou criação de expressões que depois vingam, em diversas áreas técnicas, que vêm de falantes do inglês como língua estrangeira e há diversas propostas de ensino do inglês como língua estrangeira assentes no inglês língua franca e não no inglês verdadeiro. O facto de terem de lidar desde pequenos com a sua língua falada por estrangeiros faz com que os falantes do inglês sejam melhores que os falantes de outras línguas a compreender a sua língua falada com as pronúncias, expressões e sintaxes mais diversas e mais estranhas que imaginar se possa. E dá-lhes, pelos vistos, uma humildade que nós não temos, de aceitar que venha gente de fora imiscuir-se na nossa língua. Mas eu tenho, às vezes, pena deles…

[Repito, na parte II deste texto, algumas ideias de um texto de dezembro de 2008, “Do you speak English? Atão amanda a corda!”]

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[1] Os resultados assentam em autoavaliação e não em observação ou testagem e são calculados pelo CEDEFOP com base no Inquérito sobre a Educação de Adultos da Eurostat. Esta metodologia muito simplificada deve, em princípio, produzir resultados acima dos reais, pelo que o nível real (também o número?), em Portugal e nos outros países, pode ser inferior ao declarado.
[2] Agora, quando se fala de falar línguas estrangeiras, de que línguas se está a falar? Segundo o Eurobarometer survey on languages in Europe (2009), o inglês é falado como língua estrangeira por um terço da população da UE, seguindo-se-lhe o alemão (12%), o francês (11%) e o russo e o espanhol ex æquo no quarto lugar. Em UE 2012, a situação descrita é diferente: inglês (38%), francês (12%), alemão (11%), espanhol (7%) e russo (5%). Evidentemente, há também diferenças geracionais. Como se sabe, o conhecimento do francês como primeira língua estrangeira é típico de gerações mais velhas (e não só em Portugal, onde é a língua em maior declínio, com -9% que num estudo da UE de 2005 (UE 2012)), tendo sido substituído pelo inglês nas gerações mais novas. O lugar de destaque do russo é um resíduo da União Soviética e do bloco socialista, sendo falado sobretudo por pessoas mais velhas nos países do Leste europeu. Sem querer fazer futurologia, parece-me provável que o espanhol, depois de ultrapassar o russo, venha a ultrapassar, dentro de relativamente pouco tempo, também o francês e o alemão. É isso que, tendo em conta a importância das línguas europeias à escala mundial faz mais sentido.
[3] Elaborado pela TNS Opinion & Social para as direções-gerais de Educação e Cultura, Tradução, e Interpretariado da EU, e para a Direção-Geral de Comunicação da União Europeia. É, mais uma vez, um inquérito, não um estudo objetivo, mas, principalmente nos aspetos negativos (não falar, não ter estudado, não considerar importante, falar só uma língua), não me parece provável que haja grandes exageros dos inquiridos.
[4] Há (como seria talvez previsível?) uma relação inversa da idade (a partir dos 15 anos) e uma relação direta dos anos de escolaridade com os conhecimentos de/em línguas estrangeiras: quanto mais novo se é e mais anos de estudo se tem, melhor se falam línguas estrangeiras e mais línguas estrangeiras se falam (ver quadro p. 18). Os estudantes são a classe ocupacional que mais línguas estrangeiras fala.
[5] Trata-se aqui de um estudo de competência feito com testes e não de autoavaliação em resposta a um inquérito.
[6] Ver na, página 94, um resumo dos resultados agregados das três competências testadas, leitura, escrita e compreensão oral. A produção oral não foi testada.
[7] É certo que se encontra o fenómeno de hipercorreção ao lado dos hh por pronunciar, que atestam, na literatura, o soldado Ortheris de KiplingNow I’m sick to go ‘ome - go ‘ome go ‘ome! … I’m sick for London again; sick for the sounds of ‘er, an’ the sights of ‘er, and the stinks of ‘er; orange-peel and hasphalte an’ gas comin’ in over Vaux’all Bridge. Sick for the rail goin’ down to Box’Ill, … an’ the Copper that takes you up is a old friend that tuk you up before,when you was a little, smitchy boy lying loose ‘ tween the Temple an’ the Dark Harches..»), por exemplo, ou a Eliza Doolitlle de G. B. Shaw («In 'artford, 'ereford and 'ampshire 'urricanes 'ardly hever 'appen.»), mas o que acontece com mais frequência nos falares menos educados de quase toda a Inglaterra (e só aí) é não se pronunciar o h e não pronunciar hh a mais.
[8] Os falantes do português do Brasil pronunciam o h como r gutural. Se bem que não seja a mesma coisa, é um som próximo e vale mais essa pronúncia ligeiramente ao lado que a sua ausência, acho eu. Quanto aos falantes das variantes de português africano, não sei. Creio que a maior parte dos moçambicanos, devido ao contacto com as línguas bantas, não têm problemas com a pronúncia do h, até porque há palavras de uso corrente em português de Moçambique, como mahala, em que se pronuncia o h.
[9] Também é certo que th é reduzido a [t] e [d] em vários dialetos do inglês, ou a [f] e [v], mas em nenhuma variante se transforma em [s] e [d], só quando é falado por estrangeiros.

19 de janeiro de 2015

Criação humana e criação divina

Eis dois excertos de um conto que escrevi há quase 15 anos. São partes de uma conversa sobre criação que os protagonistas retomam de cada vez que se encontram.


Artista anónimo, cerca de 1220-1230.
Codex Vindobonensis, Biblioteca Nacional da Áustria.
“Aqui cria Deus céu e terra, sol e lua e todos os elementos”
(Wikimedia Commons)
– Você acha que para criar é preciso ter algumas qualidades especiais além de ser escritor ou músico ou dominar, enfim, uma determinada forma de expressão artístico?
– Explique-se lá, que eu não sei se o percebo... Que tipo de qualidades especiais?
– Não sei, mas há muito quem apregoe que os artistas têm mais qualquer coisa que os outros... Mais sensibilidade, mais sentimento, um olhar mais acutilante...
– Isso é tudo mentira, meu amigo, é uma grande mentira em que, infelizmente – você tem toda a razão nisso –, há muito quem acredite... Então, mas se há tanta gente tão sensível, tão inteligente, tão tudo, que é incapaz de arte!... E tão grandes artista – mas grandes artistas de verdade, em todos os domínios – que não passam de uns burgessos, de uns alarves, umas bestas! Eu conheço alguns, se quer saber...
– Bom, se o criador, para o ser, não precisa de maior sensibilidade que as outras pessoas, menos precisa então de maior sabedoria, de maior inteligência ou de maior sentido de justiça.
– Exatamente, não poderia estar mais de acordo consigo. Não tenho dúvidas que há personagens que têm em triplicado as qualidades morais e intelectuais do seu autor. O criador – como já disse, mas repito –, do que precisa é de alguma coisa que se pode definir de uma forma vaga como “espírito criativo”, ou “capacidade criativa”, e que tem a ver muito diretamente com o domínio em que cria.
– Então, diga-me lá, porque é que não há de ser assim com toda a criação?
– Com toda a criação?
– Sim, com toda a criação. Mesmo que admitamos que o universo tem de ter um criador, isso não implica que esse criador tenha de ter mais nenhuma qualidade especial a não ser essa competência criativa de que você falava – não é por ter criado os mundos que existem que Deus tem de ser mais justo, sabedor ou inteligente que as suas criaturas!


***

– Li uma vez que o poder de destruir é maior que o poder de criar apenas. Nenhum criador pode desfazer o que criou.
– Isso agora depende de você ter uma visão mais ou menos materialista do mundo. Se você acreditar que nada existe sem um suporte material, basta agarrar no suporte material da criação – o caderno manuscrito, o livro impresso, a tela pintada, a pauta ou a gravação, tudo isso –, e queimá-lo, rasgá-lo, dar cabo dele seja lá como for e já não há a criação. Mas se você acreditar que as coisas existem primordialmente enquanto ideias, noções, conceitos apenas, bem, então não, não se pode desfazer a criação...
– Pois olhe, eu considero-me um materialista, mas a postura materialista dura que você acabou de referir não me parece muito defensável. Bom, em última análise, depende também um pouco das características de cada tipo de obra de arte... Aceito que um quadro que já vi e que foi destruído “já não exista”, porque a recordação que tenho dele, por excelente que seja, não me impressionará nunca – e digo impressionar no sentido do estímulo percetivo, da sensação – como vê lo de facto, ali, diante de mim. Aceito que uma música que já foi tocada e que nunca mais volte a ser tocada, porque os registos todos que há dela, escritos como sonoros, foram destruídos, também possa ser considerada como “já não existente”, pelas mesmas razões. Mas não me convenço de que, se forem queimados todos os exemplares existentes de Crime e Castigo, e já não houver o texto, e, por isso mesmo, maneira de o voltar a imprimir, Raskolnikov, para só falar da personagem principal, deixa, de repente, de existir...

18 de janeiro de 2015

Olhos azuis

Ninguém tem pigmento azul no corpo e os olhos azuis são azuis devido a um fenómeno ótico semelhante ao que faz com que o céu seja azul. Há quem afirme com muita certeza que os olhos azuis se devem a uma mutação num único indivíduo, mas não se pode saber ao certo, claro está, nem onde nem quando. O que parece muito consensual é que, ao contrário da cor da pele, a cor dos olhos e do cabelo não dão qualquer vantagem seletiva. É provável, pois, que os olhos azuis se tenham espalhado apenas por seleção sexual (preferência por parceiros de olhos azuis)[1][2], embora não se possa pôr de lado a hipótese de que uma secção de ADN tenha partilhado a disposição para os olhos azuis e para a pele mais clara (essa sim, com vantagem adaptativa às regiões com menos sol) e que, agindo a seleção sobre a cor da pele, os olhos azuis tivessem “apanhado boleia” da pele clara.
***
Uma das razões do êxito da famosa fotografia Rapariga afegã de Steve McCurry são talvez os surpreendentes olhos claros da fotografada, Sharbat Gula. Está agora também a ganhar fama a foto de uma menina curda de impressionantes olhos azuis, do fotógrafo Youssef Boudlal. É claro que não (só?) é a cor dos olhos que faz delas grandes fotografias, mas sobretudo, a expressão que captam[3]. Os olhos são o espelho da alma, não é o que se diz?

Pormenor de Meisje met de parel (Rapariga com pérola) de Johannes Vermeer, c. 1665. Mauritshuis, Haia 


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[1] Há quem proponha explicações para a maior diversidade de cores de olhos e cabelo nos europeus. Ver aqui.

[2] Sabe-se que os homens de olhos azuis têm preferência por mulheres de olhos azuis, mas as mulheres de olhos azuis não têm preferência por nenhuma cor de olhos dos parceiros, nem as mulheres e homens de olhos castanhos. Esta preferência dos homens de olhos azuis é às vezes interpretada como “reflexo de estratégias para reduzir a incerteza da paternidade”, uma vez que os olhos azuis são um traço recessivo – só se expressa quando existe em ambos os progenitores. Mas, claro, esta explicação, a não ser que seja herdada de contextos demográficos muitos anteriores e diferentes dos atuais, não se aplica a sociedades como as escandinavas, em que há grande predominância de olhos azuis, ou seja, em que os concorrentes de cada homem têm a mesma cor de olhos que ele.

Não deixa de ser curioso, a propósito (?), que, em dinamarquês, o adjetivo blåøjet, “de olhos azuis”, signifique também “ingénuo”. Parece-me que os sul-europeus têm tendência a considerar ingénuos os nórdicos, pelo que se podia prever uma expressão semelhante nas línguas latinas, mas não deixa de ser curioso que a expressão tenha este significado numa língua falada por pessoas de olhos azuis.

[E eu, que não tenho olhos azuis, o que prefiro? Bom, aos olhos castanhos do Francisco José, prefiro sem dúvida os olhos azuis pálidos dos Velvet Underground...]

[3] Pode pensar-se que, nas duas fotografias que refiro, o que chama a atenção são os olhos claros num tipo de rosto que normalmente não associa a esta cor de olhos, o que o obriga a reconsiderar a tipologia dos humanos que tem interiorizada. Mas não me parece… Se me dissessem que a menina iazídi da fotografia de Youssef Boudlal era croata ou sueca, por exemplo, eu acreditava.

17 de janeiro de 2015

Pequena nota sobre dogmatismo e outras enfermidades do raciocínio

Numa loja de roupa em segunda mão, na semana passada, uma conversa entre duas senhoras idosas:

– …
– O quê?
– Nada, estava a falar sozinha.
– É uma coisa sensata. Assim, ninguém te contradiz.



8 de janeiro de 2015

Je suis Charlie moi aussi

Acompanhei as notícias sobre o ataque ao Charlie Hebdo desde o início e nunca mais me decidia a escrever um texto sobre ele. Como acontece muitas vezes, houve muito quem dissesse mais depressa e melhor que eu o que eu queria dizer: a monstruosidade do ataque, de todos os ataques assassinos; o horror das motivações e os perigos das consequências; a necessidade de distinguir a religião do crime, porque os deuses, por cruéis que possam ser, nunca puxam gatilhos reais, só as pessoas sabem ser desumanas dessa maneira; o circo ridículo das teorias da conspiração; a importância de não sucumbir ao medo, mesmo sabendo que do medo ninguém decide; tudo isso. Vi muita gente que nunca gostou do Charlie Hebdo e que com certeza não se revia na sua sátira, referir agora como heróis os seus jornalistas e caricaturistas; vi outros tentarem desimportantizar o horror, «assassinatos há tantos… de tantos tipos…», como se algum horror se possa desimportantizar por haver outros horrores; e vi a explosão da revolta em centenas de solidários e irreverentes cartunes.

Teria ficado abalado pela morte de Wolinski e Cabu, nem que tivesse sido natural e pacífica. «Se tivesse sido feito por um louco e não por islamistas, não se falava tanto do ataque” é um dos muitas provocações que me puseram à frente. Todos sabemos que a importância de uma morte não depende só da causa, mas também de quem morre e, às vezes, como. As vidas de Wolinski e Cabu valiam exatamente o mesmo que as vidas dos outros assassinados e as de qualquer outro ser humano, mas eles eram, para muitos, também símbolos importantes. Daniel Cohn-Bendit disse numa entrevista ao Libération que foi “uma das últimas formas do espírito de Maio de 68 que foi assassinada.” Também é isso. “O que é aqui atacado”, continuou ele, “é o direito à crítica radical de todas as religiões. Charlie Hebdo é o radicalismo anticlerical, foi por isso que foram mortos.” Conheci muito mal o Charlie Hebdo da nova geração, de 1992 para cá. Aliás, nem posso dizer que conhecia o trabalho de Charb, Tignous e Honoré. Mas a irreverência radical de Wolinski e Cabu (como a de Cavanna, Reiser ou Willem, por exemplo) fizeram sempre parte do meu mundo natural, desde os tempos da revista Hara-Kiri.

Dizia-me ontem um amigo que os cartunistas e os outros assassinados tinham morrido em combate. Uma das coisas que o fanatismo religioso faz, seja ele qual for, é literalizar metáforas. Na interpretação dos textos sagrados, mas não só. Muitos cartunes que surgiram na onda de pesar e solidariedade que se seguiu ao crime assentam na ideia do cartune como arma – a que se opõem as armas reais – e é a literalização dessa ideia que justifica, na mente dos assassinos, o ato criminoso. É muito difícil jogar com o segundo sentido, se tudo for compreendido literalmente”, disse uma vez Charb. “Não tenho a impressão de degolar ninguém com uma caneta de feltro”. A arma do cartune não tira vidas nem se destrói com balas. É ao contrário: neste caso, o terror vem dar novas munições ao humor desenhado. O combate dos que foram ontem assassinados há de continuar nos cartunes, mas é importante que continue cada vez mais fora deles. Não queremos nem este nem nenhum terror, nem este nem nenhum fascismo. E ignoremos, para nos unirmos nesta recusa, a divergência das razões que há para dizer “je suis Charlie”: Je suis Charlie moi aussi.