27 de fevereiro de 2015

Línguas mortas

No dia 4 de Fevereiro de 2014, morreu Hazel Sampson e, com ela, a língua klallam, que ela era a última pessoa a ter como língua materna. Embora haja ainda algumas (poucas) pessoas que o falem como segunda língua, o klallam pode considerar-se uma língua morta. Língua morta pode precisamente definir-se como uma língua que já não é língua materna de ninguém.

Ninguém sabe ao certo o que é uma língua. Há muitas definições bastante satisfatórias de língua, mas, por um lado, é impossível definir-se os seus limites, na sua variação no tempo e no espaço; e, por outro lado, não se sabe de que consta ao certo a língua enquanto programa mental. Trocando por miúdos, e insistindo no que interessa mais para a questão que aqui trato, quer isto dizer, por exemplo, que ninguém sabe em que momento é que o romance falado na parte ocidental da península ibérica se pode passar a designar como português; e quer dizer também que não se sabe onde estão armazenados, como estão estruturados e como funcionam ao certo a imensa base de dados e os inúmeros mecanismos que nos permitem falar e compreender uma língua.

Para compreender o que é a morte de uma língua, é útil ter presente esta conceção de que a língua é uma estrutura que, em abstrato, pertence à comunidade dos seus falantes e que nela evolui, mas que, em concreto, se encontra instalada, na sua forma integral, no cérebro de cada uma das pessoas que a têm como língua materna. A língua morre de facto quando morre o seu suporte físico – quando deixa de ter falantes. Por muito que haja uma descrição exaustiva do léxico e da gramática dessa língua, essa descrição fica sempre muito aquém da estrutura complexíssima que os falantes nativos têm na mente. A analogia com um programa de computador funciona aqui relativamente bem: imaginem um programa que, por uma razão qualquer, já só existe no disco rígido de um único computador e que esse disco rígido é destruído. O programa desaparece. Pode haver uma descrição detalhada do que ele produzia, mas isso não impede que já não haja aquele programa[1].

Há dois tipos de línguas mortas: as línguas com mortes datadas (seja ou não conhecida a data da morte) e as línguas de que é impossível determinar quando morreram[2]. No primeiro caso, está uma língua como o klallam; no segundo, uma língua como o latim. No primeiro caso, o que acontece normalmente é que, por terem pais falantes de duas línguas diferentes, os filhos não adquirem a língua de um dos pais. Ou adquirem-na em bebés, mas, por não a usarem, acabam por perdê-la. Quando uma língua é muito minoritária, vão ficando, por este processo, cada vez menos falantes da língua e, a certa altura, morre o último – e, com ele, a língua. No segundo caso, a língua vai-se modificando e, ao fim de muito tempo, já toda a gente fala uma versão tão diferente da língua que é considerada outra língua. Para usar o exemplo do latim, o latim falado em grandes zonas do império foi evoluindo lentamente e foi-se diferenciando de região para região, e a certa altura, deixou de ser referido e entendido como latim[3] – passou a ser chamado português, galego, castelhano, asturiano, aragonês, catalão, valenciano, etc., etc., etc. Mas é impossível determinar-se quando o latim deixou de ser falado, porque ele foi sempre sendo transmitido de pais para filhos, sem a interrupção que se verifica em casos como o do klallam.

Lembro-me de duas máximas muito úteis que aprendi quando comecei a estudar linguística: “em cada momento, uma língua é sempre o resultado da transformação de um seu estado anterior” e “uma língua é um dialeto com exército e marinha”. O que esta última máxima quer dizer é que a identificação de uma língua é mais frequentemente de caráter político que propriamente linguístico. O norueguês bokmål e o dinamarquês são sempre considerados línguas diferentes, mas, se a Noruega e a Dinamarca não fossem países distintos, haveria, muito provavelmente, quem os considerasse duas variantes dialetais da mesma língua. Se se pensar também em variantes temporais em vez de apenas variantes dialetais, temos que o latim deixa de ser considerado latim quando desaparece o império romano e se criam, no espaço que este ocupava, várias outras unidades políticas. Mas as pessoas não mudaram de língua no ano de 476 ou lá quando se queira considerar o fim da Roma imperial, nem em nenhum momento concreto: os filhos continuaram sempre a aprender a língua dos pais – que se foi sempre alterando um bocadinho, como as línguas sempre se alteram[4].

Parecerá agora claro (espero…) a toda a gente que destas constatações simples se pode derivar que são línguas mortas todos os estados anteriores, que já ninguém fala, de uma língua atual. Usando qualificações como arcaico, antigo, medieval, clássico, etc., para as línguas existentes, obtemos forçosamente línguas mortas. Agora, se a designação de língua morta é standard para, ponhamos, o grego antigo ou clássico, a que se opõe a língua viva grego moderno, é-o talvez menos para línguas mortas como o português, o espanhol ou o francês arcaicos[5]. É claro que a proximidade temporal e, por conseguinte, a proximidade linguística, do que se designa como português arcaico e do português atual é muito maior que a do grego do tempo de Sócrates e do grego atual (e provavelmente até que a do inglês do tempo de Chaucer e do inglês atual), mas duvido que um português atual entenda sem problemas o português dessa época e até que reconheça o português dessa época como sendo a sua língua – o português atual é provavelmente mais próximo do castelhano atual, por exemplo, que do português do tempo de Afonso Henriques...

Dito de uma maneira mais pomposa, que é como se costumam resumir as coisas em fim de texto, para a grande maioria das línguas atualmente existentes[6], há um continuum de língua(s) morta(s) que são as suas fases passadas – que já ninguém fala. No fundo, a língua é (como) um organismo vivo: também para a língua, a morte é o preço a pagar pela possibilidade de evoluir.

Finalmente, a propósito da gravidade da morte das línguas, gostava de dizer algumas palavrinhas. É frequente considerar-se um drama o desaparecimento de um língua, porque, defende-se muitas vezes, é uma cultura ou uma mundovisão que desaparece com a língua que morre. Não cabe aqui desenvolver as complexas questões da relação entre língua e cultura ou entre língua e conceção/perceção da realidade (já o fiz aqui, por exemplo), mas parece-me que há uma grande dose de (etno-)romantismo nesta ideia[7]. Evidentemente, há a parte moral (e política, forçosamente) da questão: são aceitáveis os motivos que levam a que as línguas fracas sejam destruídas pelas línguas fortes? – e fraco e forte aqui também tem mais a ver com exército e marinha, que é como quem diz prestígio e poder económico, que com alguma característica propriamente linguística… E há a parte científica, sobretudo se a língua desaparecer sem dela haver bons registos e/ou descrições… E há a parte emotiva, claro. Acho muito bem que se faça tudo o que se pode para preservar uma língua de que se gosta, claro, e esse esforço nem precisa, aliás, de outras justificações que não sejam o amor que se tem a essa língua. Mas, se há alguns exemplos de revitalização de línguas, não há grandes provas de que, nas condições em que morre a maior parte das línguas, tais esforços tenham qualquer resultado e discutem-se os prós e contras de políticas de revitalização[8].

Uma maneira de desdramatizar a questão é pensar que, com rigor, a língua que qualquer ser humano fala ou falou será um dia ou é já… uma língua morta.

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[1] No caso de um programa de computador, é provavelmente mais fácil, a partir apenas da descrição das funções e resultados de um programa que não sabe qual é, criar outro programa que, embora diferente, tenha funções e produza resultados semelhantes. No caso da língua, as ciências linguísticas e as neurociências estão muito, muito longe de conseguir (por exemplo), a partir de uma descrição do klallam, pôr na cabeça de alguém alguma programação linguística que produza os mesmos resultados que produzia aquela que Hazel Sampson e os outros falantes da língua tinham no cérebro…
[2] Já encontrei quem distinga os dois tipos chamando línguas extintas e não línguas mortas às primeiras, mas não me parece que esta distinção seja muito comum.
[3]
Na região do Trentino-Alto Adige e do Vêneto, em Itália, porém, continuou sempre a ser designado como ladin. Também a língua dos judeus sefarditas continuou sempre a chamar-se ladino.
[4] Isto não acontece sempre de forma contínua e progressiva. Pode haver momentos de ruptura em que há grandes transformações, devido a, por exemplo, imposição política de uma língua estrangeira, grandes migrações de populações, etc. Mesmo estas convulsões não produzem mudanças num momento determinado, mas sim num espaço de tempo mais alargado, de várias gerações.
[5] …e provavelmente menos ainda para coisas como ndebele arcaico…
[6] Os crioulos, línguas nascidas “de repente”, “sob pressão”, são exceção a esta regra geral.
[7] Um bom exemplo de uma visão hiper-romântica da questão é a ideia de suicídio linguístico como forma de suicídio cultural, que se encontra neste texto de Caroline Davies (em inglês). Proponho, para contrabalançar tanto romantismo, uma discussão simples e muito sensata (também em inglês) da questão das morte das línguas por Morris Alper.
[8] A entrada da Wikipédia sobre a questão da revitalização das línguas dá informação básica sobre o assunto e pode também ser um bom ponto de partida para quem queira aprofundar a questão.

17 de fevereiro de 2015

O tempo e a sua falta

Sempre me custou perceber a afirmação, tantas vezes repetida, de que o tempo não tem realidade, que é só ilusão que criámos e veneramos. Nunca tal se diz do espaço, porque será?, só do tempo – como se se pudesse ficar nalgum lado ou ir a algum lado sem que passe tempo. Existir no espaço sem tempo e no tempo sem espaço é atributo de ubíquas e eternas divindades, nada que os animais conheçam. O que os animais conhecem é o que lhes dizem os sentidos. E eu e o meu cão, os tordos e as abelhas, todos sentimos o tempo passar. E ainda bem que assim é. Tentem conceber alguém que não tivesse a capacidade de sentir o tempo, para quem não houvesse antes e depois. Não conseguem, pois não?, é-vos tão impossível conceber tal coisa como conceber alguém para quem o mundo não tivesse profundidade e vivesse apenas dentro de uma imagem plana.

Ilusão, o tempo? Criação nossa apenas, ficção? Ora, haverá no mundo alguma coisa em que esbarremos mais que no tempo, outra coisa que tenha uma tão cruel materialidade? Ah, porque se pode perceber de maneiras várias, porque uma hora com uma rapariga bonita é mais curta que um minuto sentado em cima do bico aceso de um fogão*… Claro, como tudo o que existe. Mas isso só mostra bem que existe fora da maneira como cada um o percebe, senão como poderia ser percebido por cada um de maneira diferente?

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Às vezes, uma pessoa esforça-se tanto por dizer coisas novas que acaba por dizer coisas que têm pouca ou nenhuma relação com a realidade. E está muito bem assim. Outras vezes, quer mesmo falar do que acha importante e não tem remédio senão repetir o que já disseram milhares de pessoas antes dela, porque o que é importante para cada um de nós foi e continua a ser importante para muitos outros em muitos tempo e lugares. Escrevi muitos textos sobre tempo, quase todos a rimar. Falam do contra-senso que encerra a expressão matar o tempo, que é coisa que não se pode (pois se é o tempo que nos vai matando a nós!); falam de envelhecimento como consciência cada vez mais aguda de que um dia tudo se acaba. Que pode haver de mais importante e de mais banal que isto?

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Quando era rapaz novo, impressionava-me a deslumbrada ânsia de viver de Dean Moriarty, personagem de On the road de Jack Kerouac, e o seu “conhecimento do tempo”. “Nós conhecemos o tempo”, repete ele várias vezes no livro. Para Dean, conhecer o tempo é ser capaz de o desacelerar e curtir a vida, e, para isso, é preciso deixar de tomar decisões, de querer decidir o futuro, deixar-se ir apenas – atrás da vida, para onde ela o chamar. E eu e os meus amigos, aspirantes a beatnicks que éramos, tentávamos convencer-nos mutuamente da validade dessa fascinante ideia e de que tínhamos essa superior capacidade. “Nós conhecemos o tempo!”, repetíamos nós, “Nós conhecemos o tempo!”

A personagem de Dean Moriarty é inspirada numa pessoa concreta, Neal Cassady. Em The First Third, um texto autobiográfico, Neal Cassady conta que o seu irmão Jimmy o fechava numa cama embutida na parede, às vezes horas a fio. Neal diz que, literalmente emparedado, sentia que o tempo “ia acelerando até atingir o triplo da sua velocidade normal”. E ele, horrorizado, com medo de se mexer e de gastar a sua reserva de oxigénio, aprendeu a “viajar no tempo”, deixando-se, às vezes, ir na corrente do tempo e transformando-a, outras vezes, numa enxurrada. A única maneira de resistir ao pânico, ao mais absoluto desespero, era aprender a “conhecer o tempo”, a modelar a perceção que dele tinha. Que mais pode fazer – se o conseguir… – quem deixa literalmente de ter tempo, quem não vê, depois deste agora que está a chegar ao fim, nem um bocadinho de futuro?

Não é dar o dito por não dito, não é isso. É dar conta de dor, de impotência. É certo – pode ser certo – que, às vezes, o tempo não existe. Falta-nos, não há. Se for só para acabar de pintar a cave ou para dar forma definitiva a um texto de blogue ou para ler aquele livro que queríamos mesmo ler, ainda é como o outro… Que nos falte, não há problema. Mas pode-se, aos 28 anos, por exemplo, não ter já tempo para nada a não ser sofrer dores e a angústia da morte iminente. Um mês mais, mais seis meses? Uma vez, ouvi alguém desimportantizar um anúncio de morte: “Morte anunciada, como na crónica do outro, o que é isso?” A morte, dizia essa pessoa, é-nos anunciada a todos em criança. É uma afirmação insuportavelmente cruel para aqueles a quem tenha sido anunciado que não lhes resta já muito tempo. E é assim também, não é?, a asserção ligeira de que “o tempo, isso não existe, nós é que o fazemos, o tempo”, para uma pessoa que não pode fazer – nem desfazer – tempo nenhum...


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* Esta explicação que Einstein deu da relatividade mostra que nem ele a consegue explicar de maneira simples – é que esta explicação não explica nada, convenhamos… (Mas desta vez, é mesmo dele, vá lá, são referidas em três obras formulações ligeiramente diferentes da mesma ideia: James B. Simpson:1957; William Hermanns:1983; Alice Calaprice: 2005)

12 de fevereiro de 2015

O motivo da sombra como origem do desenho

Giorgio Vasari, Autorretrato, 1561-1569
Em meados do século XVI, Giorgio Vasari pintou um fresco chamado Autorretrato, em que uma personagem se desenha a si própria, usando os contornos da sua sombra na parede.

Matías de Arteaga, A Origem da Arte da Pintura, 1665?

Cerca de 100 anos posterior a este fresco é um quadro chamado A Origem da Arte da Pintura, de Matías de Arteaga[1], que repete o motivo do desenho do contorno de uma sombra na parede. Não é agora um autorretrato que a obra representa, mas um homem que desenha, também numa parede, o contorno da sombra de outro homem, perante vários observadores. No dístico em baixo à direita, lê-se “Tubo [sic] de la sombra origen la que admiras hermosura en la célebre pintura” [“Teve na sombra origem a que admiras formosura na célebre pintura”].

Joachim von Sandrart, 1675
A estranha ideia de que se começou a desenhar contornando uma sombra surge em dois textos clássicos do séc. I, publicados com poucos anos de intervalo entre eles. No livro X da Institutio Oratoria (95), Quintiliano diz que, se todos se tivessem limitado a imitar os seus predecessores, “não haveria poesia superior à de Livius Andronicus, nem em História nada que ultrapassasse os Anais dos Pontifícios; os nossos barcos seriam ainda jangadas e a arte da pintura limitar-se-ia a contornar com um risco as sombras que projetam os corpos à luz do sol[2]”. No capítulo 12 do livro XXXV da sua História Natural (77-79), Plínio, o Velho, conta que Cora, a filha de um oleiro de Sicião chamado Butades, traçou numa parede o contorno da sombra nela projetada pelo rosto de um rapaz por quem estava apaixonada e que partia para o estrangeiro. O gravador alemão Joachim von Sandrart publica em 1675, na sua Teutsche Academie, uma gravura representando os dois textos fundadores da ideia. A imagem de Quintiliano, que era muito mais simples, nunca se tornou um motivo da pintura europeia; a de Plínio, porém, que era muito mais sedutora pela história de amor que incluía, foi, desde essa altura, pintada várias de vezes.

Para vos dar uma lista reduzida, a cena de Cora desenhando a sombra do seu amado foi pintada, no séc. XVIII e no séc. XIX, por Jean Raoux (1717), David Allan (1775), Joseph Wright (1784), Jean Baptiste Regnault (1785), Joseph Benoit Suvee (1793), Felice Giani (data desconhecida, início do séc. XIX), Heinrich Eddelien (1830), Karl F. Schinkel (1830), Eduard Daege (1832), Mariano Fortuny (1858) e Ignotas Mauricijus Ščedrauskas (1865).


La fanciulla di Corinto, de Felice Giani, início do séc. XIX e duas versões de Cora, A filha de Butades de Sicião, de Mariano Fortuny (1856-1858)
O motivo extravasa também da pintura. Particularmente interessante é esta fotografia e o seu título: “O primeiro negativo”.
Oscar Gustav Rejlander, The First Negative, 1857
Aparece nalgumas edições de obras de Johann Kasper Lavater uma máquina de desenhar silhuetas por ele concebida. Esta é uma das gravuras que a representam, desenhada por J. R. Schellenberg para uma edição inglesa de 1781, mas há outras imagens desta máquina. Não sei se alguma vez chegou a ser produzida e também não sei se o inventor se inspirou ou não na história de Plínio.

Agora, que se chame a estes quadros a “invenção” ou a “origem” da “pintura” ou do “desenho” mostra que, como seria talvez de esperar, a ideia se espalhou oralmente e não através da leitura de Plínio, já que a história original descreve não a invenção da pintura ou do desenho por Cora, mas sim da invenção da “arte de modelar retratos de barro” pelo seu pai (embora Butades tenha feito essa invenção “por intermédio dela”). O capítulo chama-se, aliás, “Os inventores da arte de modelar” e a história acaba assim[3]:
Aplicando-lhe barro a este contorno, fez um modelo em relevo, que cozeu depois com os seus outros trabalhos de cerâmica. Diz-se que este modelo foi conservado vários séculos no Santuário das Ninfas, em Corinto, até Lúcio Múmio destruir a cidade.



[Este pequeno artigo não tem muito de original, já que apenas reorganizei, acrescentando apenas um ou outro ponto, a informação e as pinturas já recolhidas noutros blogues, nomeadamente aqui, aqui, aqui, aqui e aqui. Há também várias obras mais modernas em que o motivo subsiste, mas começa a aplicar-se a novas personagens e a novos jogos de referência com intenções diversas. Encontram algumas delas nas cinco hiperligações no primeiro período deste parágrafo. Fico também sempre com muitas dúvidas sobre como se vê uma página com tantas imagens em ecrãs mais pequenos ou maiores que aquele em que foi concebida. Se a formatação vos surgir disparatada, peço desculpa, é obviamente uma das limitações deste formato de blogue. No meu ecrã, está tudo certo...]

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[1] O quadro encontra-se no Museu Nacional de Arte da Roménia. Segundo o site do Museu, o quadro é da autoria de Matías de Arteaga, se bem que encontre o nome Esteban Murillo na moldura. Noutros sites, bem menos fiáveis, é certo, o quadro é atribuído a Murillo, que foi professor de Arteaga. Segundo Jesusa Vega González, em Ciencia, arte e ilusión en la España ilustrada, o quadro era antigamente atribuído a Murillo, mas é atualmente atribuído a Arteaga.

[2] Traduzo eu, a partir desta e desta traduções inglesas.

[3] Traduzo eu desta tradução inglesa

Não saber

Dizia alguém no outro dia (já não me lembro quem, peço desculpa) que é raro assumir-se a ignorância no espaço público, que ninguém quer dizer que não sabe, mesmo quando é óbvio que é esse o caso. Não sei se é bem assim. Também não faço ideia se a assunção da ignorância é mais rara no espaço público que em privado. É curioso: dou-me conta de que a frase “não sei se é bem assim” não é normalmente uma simples declaração de ignorância, que era o que eu aqui queria fazer, mas antes um desacordo cortês ou moderado, correspondendo a algo como “creio que não é bem assim”…

Sublinha-se muitas vezes, e com toda a justeza, que a assunção da ignorância, nem que só perante si próprio, é uma posição cognitivamente válida, e umas das mais válidas até, porque é o ponto de partida para o inquérito e, portanto, para a expansão do conhecimento: se não assumir que não sei, não vou estar disposto a aprender. Mas não só: a assunção da ignorância pode valorizar-se também como posição puramente negativa de racionalidade, arrumação da vida e modéstia, que não leva forçosamente à procura de conhecimento: “Isto não sei e não vou saber, porque não é o que mais me interessa e não tenho tempo para procurar saber tudo – deixo isto a quem saiba ou queira saber desta questão.”

Uma questão relacionada com esta é a dos resultados negativos, seja na investigação científica seja em qualquer outro tipo de pesquisa: “Pensei que podia ser isto, mas não é; depois, pensei que podia ser antes isto, mas também não é… Não sei o que poderá ser.” Muitas vezes, estes resultados não se aceitam, pura e simplesmente, e são outras vezes olhados de soslaio: “Então?” Mas eu acho que se devem aceitar os resultados nulos de qualquer investigação como tendo exatamente o mesmo valor de qualquer conclusão positiva, até porque os resultados nulos não são nulos em sentido estrito – saber que não é o que se pensou que pudesse ser já é saber muito. [Ah, apesar dos preconceitos contra os resultados negativos, existem algumas revistas especializadas na publicação de resultados negativos, como o Journal of Negative Results e outros.]

5 de fevereiro de 2015

Do correto e do incorreto, politicamente ou não

Parece que dizer mal do “politicamente correto”, da pretensa tirania do “politicamente correto”, se tornou politicamente correto em certos círculos, mas eu acho isso incorreto (também politicamente), como acho incorreto definir-se o politicamente correto como se se tratasse de um determinado conjunto de ideias ou posições. Esta frase diz, a bem dizer, tudo o que quero dizer, mas, para não ser mal interpretado, explico-me melhor:

O que é politicamente correto varia conforme a perspetiva política de cada pessoa. Correto é um termo de aprovação*. Para um conservador, é correto (em qualquer sentido do termo) afirmar que o feminismo veio dar cabo da ordem social, que é natural as mulheres terem menos cargos de chefia, etc., ou que a desigualdade é um fenómeno natural entre humanos, pelo que o igualitarismo é uma utopia com maus resultados, e por aí fora. Para um feminista ou uma igualitarista, como eu, é o contrário disto que é correto. Não se vê, portanto, por que razão há de um conservador chamar politicamente correto ao que acha incorreto, para vir, em seguida, dizer que o “politicamente correto” causa muitos problemas, em vez de dizer, muito simplesmente, que acha incorreto o que afirmam certas pessoas (e explicar porquê, de preferência, mas não obrigatoriamente…).

Insisto: correto é, quando aplicado a ideias morais, exatamente como bom: um termo de aprovação, sem veleidades referenciais. Imaginemos que eu acho que aquilo de que o meu amigo Zé gosta é feio. Em vez de dizer que acho feio, devo antes pôr-me a dizer que o bom gosto dele é problemático? A ideia, muitas vezes implícita, às vezes explícita, na crítica ao politicamente correto é que o pretenso “politicamente correto”, por ser dominante, implica autocensura ou ostracismo de quem pense de outra forma. Mas continua a ser uma ideia estapafúrdia: a autocensura e o ostracismo existem sempre que há uma posição dominante, independentemente de ela fazer ou não parte do que os críticos do “politicamente correto” definam como “politicamente correto”. Quando racismos e xenofobias várias (acho que não poder dizer mal ou troçar das pessoas de outras etnias e crenças é um dos pretensos erros que imputam ao tal “politicamente correto”, gostava de perceber porquê…) eram a maneira de pensar dominante, por exemplo, muitas pessoas autocensuravam declarações igualitárias ou eram ostracizadas por as terem feito. E se uma pessoa é criticada por afirmações racistas ou xenófobas, não é porque exista a tirania de nenhum politicamente correto, é porque as pessoas que a criticam acham, com toda a justeza, que são criticáveis afirmações desse tipo. Voilà!

A moral da história é simples: politicamente correto é, para cada pessoa, o que ela achar politicamente correto. Quando essa pessoa quiser discordar das ideias políticas dos outros, faça isso mesmo, discorde, por favor, diga que acha essas ideias políticas incorretas, sem o disparatado artifício retórico de dizer que há algum problema num pretenso conjunto fixo de ideias a que se possa chamar politicamente correto.

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* Correto é sempre um termo de aprovação, mas não tem sempre o mesmo valor modal: há contextos em que correto significa “verdadeiro”:
“Grande parte de Lisboa foi destruída por um terramoto em 1755”
“Sim, isso é correto”
ou
“Sete vezes seis são quarenta e nove”
“Não, isso não é correto”.
No contexto da discussão que aqui tenho, a expressão não tem este valor. Isto não significa que a expressão signifique uma coisa para cada pessoa: é porque ela significa o mesmo para toda a gente que podemos discordar daquilo a que ela se aplica. Isto também não significa de modo algum que eu defenda algum tipo de relativismo radical segundo o qual o recurso a universais ou observáveis de algum tipo não cabe na discussão moral (a política é uma parte da moral); mas não posso arredar da discussão política quem se recuse a aceitar evidência, além de que, sobre muitas questões morais, não há evidência conclusiva ou as partes em conflito invocam evidências mutuamente contraditórias, cada qual a seu favor.

Defesa de um bocadinho de realismo, mais uma vez: um argumento económico

Interrogar-se-ão os meus amigos e talvez também outros leitores: “Mas porque insiste este homem nesta conversa?” Bom, não será bem espírito de missão, mas é certo que esta é uma das minhas guerras, digamos assim, e, para não ser tão pesada a insistência, achei por bem mudar de tom – uma vez sem exemplo, vá. A razão mais imediata do texto, porém, foi uma aparição. Um ser bastante fantástico, talvez anjo, talvez demónio, apareceu-me em sonhos, revelou-me a verdade e instruiu me. “Os argumentos económicos têm muita força”, disse-me ele para concluir a sua revelação, “porque o que manda na vida da malta é o carcanhol…”

Às minhas leitoras e aos meus leitores que acreditem que verdade é apenas outra maneira de dizer crença e que acreditem que não há nada objetivo, mas apenas olhares sobre o mundo, cada qual tão válido como qualquer outro, quero comunicar que me devem 120 euros, que agradeço que me paguem com a maior brevidade possível, muito obrigado, porque (cito não uma pessoa específica, mas muitas pessoas ao mesmo tempo) “a vida custa a todos e isto ‘tá mau”.

Podem argumentar que não têm conhecimento da dívida e que não posso provar que me devem esse dinheiro. Mas isso é a vossa visão, eu tenho outra diferente, que também é verdade, não se esqueçam. Ou seja, é verdade que me devem dinheiro. Além disso, sabem com certeza que é impossível provar a inexistência seja lá do que for, de maneira que é inútil tentarem provar que a vossa dívida não existe – o que seria, aliás, contra os vossos princípios de que não há provas definitivas de coisa nenhuma e que a verdade é só uma crença. Evidentemente, podem não pagar e eu não tenho maneira de vos obrigar a fazê-lo, porque a lei retrógrada que temos se baseia no disparatado princípio positivista de que é preciso provar que alguém nos deve dinheiro para se lhe exigir pagamento; mas não se livram de vos considerar uns grandes caloteiros, porque essa é que é a (minha) verdade.

As outras minhas leitoras e os outros meus leitores que acreditam que o bom senso nos obriga a aceitar por verdade apenas aquilo que se pode demonstrar de modo a ser percebido por todos, esses não me devem nada.