31 de maio de 2015

Arqueiros, setas e alvos

Já uma vez aqui pus na Travessa este poema (é um poema completo ou um excerto?) de António Maria Lisboa:
A Seta já contém o Alvo, mas só percorre a Seta aquele que lhe conhece o Alvo. Assim é de olhos vendados que o Grande Atirador alveja.
(Isso Ontem Único. Lisboa: Contraponto, 1953)
Conheci o poema na adolescência e sempre gostei muito dele, mas não sei bem porquê. Não o consigo transformar em nada de racionalmente entendível, não consigo fazer dos seus elementos metáfora de nada que me sirva para deduzir dele uma proposição lógica; mas deve ser precisamente por isso que ele me fascina. Soa a uma sentença de alguma filosofia esotérica, e talvez o seja de facto, porque também as há assim (e muitas…) incompreensíveis para os não-iniciados que não têm a chave para as decifrar. Também pode ser apenas um arremedo desse tipo de frases, um falso aforismo místico. Ou pode ser um daqueles koans zen, que se destinam mais a fazer caretas à razão que a comunicar seja lá o que for. [Bom, nem toda a gente concordará comigo e eu próprio não tenho certeza nenhuma do que escrevo, devo confessar. É bem possível que pelos menos alguns koans sejam também metáforas, apenas de difícil interpretação...]

Seja lá como for, é inegável a força das imagens do arqueiro, da seta e do alvo. O alvo, sobretudo, é uma metáfora tão comum que o seu uso metafórico ultrapassa, nas línguas com que lido, o seu uso literal. Este texto não tem intenção outra que não seja juntar coisas díspares, que só têm em comum arqueiros, setas e alvos. Conto-vos a seguir uma história verídica. Quer dizer, eu garanto-vos que é verídica, mas, claro, eu compreendo de duvidarem da sua veracidade, porque os contadores de histórias não são nunca de fiar…
Arqueiro japonês, autor desconhecido, 1878 (Wikimedia Commons)






G.L. é dentista e caça cudos e impalas e búfalos e leões e hipopótamos, etc., com arco e flechas! Só elefantes é que não. Quer dizer, ele diz que se pode, mas que nunca o fez. Elefantes, caça-os com espingarda. Parece que caçar com arco e flecha, quando se matam muitos animais, não afugenta a bicharada de uma determinada zona, ao contrário do que acontece quando se caça com armas de fogo. Por isso, quando há excesso de animais de alguma espécie nalguma reserva no país onde G.L. mora e é preciso abater uns quantos desses supranumerários, as autoridades contactam-no, para ele ir lá caçá-los. E ele vai, de boa vontade – assim caça sem ter de pagar (e não é tão barato como isso, o que se paga para caçar animais destes) e presta um serviço à reserva. Agora, quando vai à caça, G.L. tem de levar quem oiça por ele os ruídos do mato – é que ele é muito surdo…

Os arcos e as flechas, fá-los o próprio G.L. numa oficina que tem lá casa. Uma coisa sofisticada e moderna. Aliás, tem de ser – é trabalho de precisão, digo-vos eu, que já lá fui visitar aquilo. Mas por que é que ele faz arcos e flechas em vez de os comprar apenas? Porque os arcos profissionais não são suficientemente bons. Os que ele faz são mais fortes e mais certeiros. Devem ser, não sei, é o que ele diz. Que ele mete as flechas todas na muche a uns bons 200 metros, isso é verdade. Ou mais, não sei.

Diz ele que, quando era jovem, podia ter ficado nos primeiros lugares do campeonato mundial e que foi mesmo por azar que não participou. Ossos do ofício… Ou melhor, dentes do ofício. Andava há dois anos a treinar para o campeonato mundial cinco a seis horas por dia, depois das horas de serviço. Tinha, ao que diz, marcas excelentes e até possibilidades de vir a ficar nas medalhas. Dois dias antes de partir para os campeonatos, estava a trabalhar sem óculos, saltou-lhe um bocado de dente infetado para o olho, e apanhou uma infeção na vista: adeus mundial. Ficou tão triste, tão desiludido que abandonou o tiro ao arco de competição.

O meu texto acaba aqui. O resto é a ilustração que enfeita a página e dois vídeos do YouTube (ambos em inglês).

O primeiro é sobre a ciência da flecha e do seu percurso, que é bastante interessante. Antes de ver este vídeo, não sabia que, embora a linha que vai do arco ao alvo seja reta, a trajetória do corpo da flecha o não é. E claro, não tinha sequer pensado, sequer, na questão fundamental, que é o arco estar ali mesmo no meio, entre a cauda da flecha, com que se visa, e o alvo. (G.L. usa um arco como o que se vê no vídeo a 3'30'', que não se intromete entre o atirador e o alvo.)



O segundo vídeo é sobre uma espécie de artista de circo, um arqueiro dinamarquês que desenvolveu técnicas espetaculares de tiro ao arco, que, diz ele, são as que usavam os arqueiros de antigamente, para caçar e em combate.

30 de maio de 2015

"Espiritual negro"

Flak apresentou anteontem [28.05.2015] o seu segundo álbum a solo, Nada escrito, que aconselho. Não é bem para fazer publicidade ao disco, porém, que aqui o refiro[1], mas para, a propósito da letra de uma das canções, vos falar um pouco da minha experiência de um período muito difícil da vida do Zimbábuè[2].

O texto original do que veio a ser a letra de “Vi escrito a fogo”[3] é o seguinte:
Vi escrito a fogo na água: / Vê a mágoa à tua volta! / Que ela seja mais que mágoa,
Que seja fé e revolta. // Nunca a gente desespera, / Chora só, e ri e espera / Que nos pague quem nos deve / Que a vida seja mais leve / E que haja quem que nos leve / A uma terra prometida, / Babilónia, cativeiro, / Sempre assim foi toda a vida! // Vi escrito a fogo na terra: / Olha bem ao teu redor, / Faz por ti a tua guerra, / Nunca por nenhum Senhor // Nunca a gente desespera / Chora só, e ri e espera / Que a dor que sempre teve / Seja algum dia mais leve, / E que haja quem que nos leve / A uma terra prometida, / Babilónia, cativeiro, / Sempre assim foi toda a vida! // Vi escrito a fogo no ar: / Vem, irmão, vamos embora / Vamos abrir este mar, / P’ra passar, chegou a hora!
No documento original, o texto chama-se “Espiritual negro”, tem a data de 13 de novembro de 2008 e foi escrito em Chinhoyi, no Zimbábuè. Isto ajuda a compreender o texto. Ou a intenção com que o escrevi.

Lembro-me de que, da primeira vez que fui ao Zimbábuè, em 1997, vi um artigo num jornal cujo título era “Estradas apresentam sinais de deterioração”. «É ao contrário de Moçambique», comentei eu, «lá a deterioração apresenta sinais de estrada.» Cinco anos depois do acordo de paz, uma grande parte das infraestruturas continuava por reabilitar e faltavam, aqui e ali, pontes e troços de estrada. Lembro-me de demorar quatro horas para fazer 32 quilómetros de Nicoadala a Quelimane, num camião. A rede comercial também estava ainda por restabelecer, em parte devido ao mau estado das estradas. Fora das maiores cidades, continuava a haver escassez da maior parte dos produtos. As viagens eram difíceis. Era preciso ter algum espírito de aventura para ir a certos sítios, até porque às vezes não se sabia se se ia encontrar onde dormir ou comer.

Por isso, entrar no Zimbábuè, nessa altura, era como entrar noutro mundo. Tudo funcionava bem, havia de tudo – pelo menos para quem tivesse dinheiro. É claro, havia também coisas que nos impressionaram muito negativamente. Escrevi, numa carta de novembro desse ano, que, muitas vezes, o Zimbábuè se parecia estranhamente com a Rodésia[4]:
Nas livrarias de Harare, ao lado da biografia do Mandela, A road to freedom, via se um outro livro, cujo tema posso apenas adivinhar: Rhodesians never die. E deve ser verdade. O país ainda é dos brancos e ainda é um país de apartheid. Há restaurantes para brancos e turistas e restaurantes para “indígenas”. A expressão indigenous é comummente usada pelos zimbabueanos. Em Moçambique, se se pergunta por um restaurante, ou há ou não há. No Zimbábuè, às vezes há, mas não é para brancos, porque só tem comida “indígena”. (…)
Não há terra que chegue para as pessoas cultivarem, porque a terra é toda dos farmeiros brancos. Bem, quase toda. O governo começou agora um programa de redistribuição da terra, que tem dado broncas atrás de broncas: os brancos estão descontentes, obviamente, por estarem a ser expropriados, e a população e a comunidade internacional também, porque a terra expropriada está a ser entregue a ministros e generais do Sr. Mugabe...
E acrescentava mais algumas impressões de turista, num texto de outubro do ano seguinte, escrito numas férias em Bvumba:
A população negra trabalha aqui invariavelmente nas quintas dos brancos. O sistema é de tipo feudal: as aldeias dos trabalhadores são dentro da propriedade do senhor, bem como as suas machambas, normalmente terrenos pequenos, na periferia das plantações (...). Uma parte das infraestruturas para os trabalhadores, incluindo, sempre, as suas casas, poços e lavadouros, e, às vezes, escolas e postos de saúde, são fornecidos pelo “senhor”. Mas, como estas infraestruturas nem são piores que as infra-estruturas públicas das chamadas zonas comunais, não é amanhã a véspera do dia em que rebente aqui uma jacquerie ou outra revolução qualquer. E os zimbabueanos brancos lá vão jogando o seu ténis ou o seu senúcar ao fim da tarde, no clube local, que tem um empregado de libré vermelho e tudo, e uma vista maravilhosa sobre a montanha...
A desvalorização do dólar zimbabueno tinha já começado nessa altura, vejo agora ao reler estes textos. E a queda da qualidade de vida:
Além disso, a vida no Zimbábuè, sobretudo com esta desvalorização constante que o dólar zimbabueano tem sofrido ultimamente, é muito barata. Quer dizer, para nós... Os zimbabueanos, que até tinham, em geral, uma vida bastante razoável comparada com a dos outros povos da África Austral, estão cada vez pior...
É claro, era uma desvalorização que não se podia comparar com o que viria depois. Aliás, o que veio depois estava fora do alcance mesmo da mais delirante imaginação. Quando voltámos a Moçambique em 2006, para aí vivermos 5 anos em Chimoio, o Zimbábuè era um país irreconhecível. Escrevi eu nessa altura:
A situação de dois dos países vizinhos, o Zimbábuè e o Maláui, deteriorou-se tão drasticamente que Moçambique, que tinha um nível de vida muito inferior a ambos, lhes passou claramente à frente. Uma das implicações que isso tem é que as correntes de emigração se inverteram: em vez de serem os moçambicanos a emigrar para o Zimbábuè e para o Maláui, são os zimbabueanos e os malauianos a virem procurar a sua sorte em Moçambique. E não só gente pobre – também os farmeiros brancos do Zimbabue se vieram tentar estabelecer do outro lado da fronteira, quase todos nesta província de Manica, que é das que tem mais potencial agrícola. Entre 2001 e 2004, instalaram-se 42 zimbabueanos (entre particulares e firmas) aqui na província. Falou-se do “milagre de Manica”: de repente, havia aqui montes de gente a fazer agricultura industrial, o que produz forçosamente desenvolvimento: 5000 postos de trabalho assalariado, mesmo mal pago, são ouro numa terra onde o que mais falta é dinheiro. Além disso, abriram unidades de processamento para exportação de rosas e legumes, e para produção de óleo de girassol e produtos lácteos para o mercado local e regional, que criaram centenas mais de postos de trabalho. Mas, a partir do ano passado, os zimbabueanos começaram a abandonar Moçambique. Neste momento, restam aqui em Manica meia dúzia de famílias, as mais teimosas[5].
Mas não tinha ainda ido ao Zimbábuè, quando escrevi isto. Eis um excerto de um texto de março do ano seguinte, depois da nossa primeira viagem ao Zimbábuè:
No Zimbábuè, muito provavelmente, o pior ainda está para vir, por muito que seja difícil imaginar a situação pior do que está. Fomos lá uma vez e nem queríamos acreditar no que víamos. Se há alguém que, com toda a propriedade, pode afirmar que não é deste mundo o seu reino, não há dúvida que esse alguém é Robert Mugabe… 
À primeira vista, está tudo igual, ou quase: as estradas e as infraestruturas em geral continuam a parecer muito melhores do que em Moçambique, as enormes propriedades agrícolas à beira da estrada continuam a parecer – e são, com certeza – muito mais desenvolvidas do que as farmas moçambicanas. Bom, tinha-nos chocado um bocado termos de pagar, entre dois adultos, três crianças e um carro, 125 dólares só para entrar no país. Mas, por muito que tivéssemos ouvido dizer vezes sem conta que o país estava muito mal, só nos apercebemos de como o país estava quando chegámos ao fim da tarde ao nosso destino, a pequena cidade de Chinhoyi, uns duzentos quilómetros a oeste de Harare. 
A primeira e maior surpresa foi que, como estrangeiros não residentes, não podíamos pagar o hotel com dólares zimbabueanos – tinha de ser em divisas. Agora, ao câmbio oficial, que é, claro está, o único que se pode usar nesta situação, o preço de um quarto chungoso, bastante chungoso até, era de 385 dólares americanos, isto é, para quem não está habituado a dólares, cerca de 295 euros! De longe, o quarto de hotel mais caro que pagámos, tanto eu como a Karen, em toda a nossa vida. E ficámos praticamente sem um tostão. Era preciso trocar com urgência, no mercado negro, o pouco dinheiro que nos restava, para ver se conseguíamos comer qualquer coisa, mas à noite, numa cidade pequena, sem conhecer ninguém, não sabíamos o que fazer. Acabou por ser uma senhora qualquer que passou na rua que nos vendeu os dólares zimbabuenos a metade do preço oficial. E assim, os pratinhos de esparguete que comemos ao jantar, mais a garrafinha de litro e meio de água para os cinco, ficaram-nos em cerca de 17 euros em vez dos 34 que seriam ao câmbio oficial.
Descobrimos no dia seguinte que, ao câmbio real, o dólar zimbabueano é entre 10 e 15 vezes mais barato do que ao câmbio oficial. Quer dizer, se nós fôssemos residentes no Zimbábuè e pudéssemos pagar em zim dollars, o preço real da nossa dormida teria sido entre 20 e 30 euros, o que já era mais aceitável… Mesmo assim, ao preço real, a vida é impossível para os zimbabueanos. Segundo eles dizem, o salário mínimo dá para uma família comer um dia. Mas também, que interessa isso num país onde há mais de 80% de desempregados? A inflação, oficialmente, foi de 1600 por cento no ano passado (a mais alta do mundo, claro está), mas há produtos que duplicam de preço de semana em semana. Os restaurantes já não têm preços fixos, porque o preço dos pratos aumenta de refeição para refeição. Harare é, segundo o Economist, a cidade mais cara do mundo, embora seja a capital de um dos países mais pobres!
Evidentemente, o turismo desapareceu, como vão desaparecendo os zimbabueanos que têm alguma possibilidade de sair do reino de Mugabe para fora. E Mugabe e os seus generais mantêm-se firmes no poleiro – com boicote internacional ou sem ele, com um país a apodrecer-lhes nas mãos, com a indústria e a agricultura, que eram poderosas na região, a esboroarem-se completamente, o que é que isso lhes interessa? Eles estão bem, porque o reino deles é dum mundo diferente do dos desgraçados dos seus compatriotas que não sabem o que fazer à vida. É dum mundo só deles…
Meses depois, uma descrição atualizada da situação:
O país tornou-se surrealista: o valor do dólar zimbabueano no mercado negro era, até 6 de Setembro [de 2007], mil (mil!) vezes mais baixo do que no mercado oficial: no banco um dólar americano valia 250 dólares zimbabueanos; no mercado negro valia 250 000. Depois, o dólar zimbabueano foi repentinamente desvalorizado de tal forma que um dólar americano passou a valer 30.000, mas, como esse pseudoajuste fez disparar para mais do dobro o dólar americano no mercado negro, agora o valor oficial do dólar americano é só (!) 20 vezes menos do que o câmbio real. Conseguem imaginar uma coisa assim?
Desta última vez, vimos já as lojas e as bombas de gasolina todas vazias. Para quando a rutura? «Bom, isso em África, não existe, não é?», dizia-nos alguém. «A situação pode piorar sempre mais, que a malta vai-se sempre desenrascando – cada vez pior, é certo, mas sem chegar a nada que se possa chamar uma situação de rutura…» Pode ser que sim, pode ser que não. 
Nunca tive uma nota destas, mas tive algumas com muit000000000s zeros (Imagem: Wikimedia Commons)
Imaginem o que é fazer 800 quilómetros de estrada sem ver ninguém na rua, sem ver uma loja aberta. Meia dúzia de pessoas em Harare, uma outra loja, mas literalmente nada no resto do caminho. Um cenário mesmo daqueles filmes de ficção científica em cenários pós-apocalípticos. Ninguém. Faz medo. Faz mesmo medo.

Em finais de 2008, veio visitar-nos a Chimoio um amigo inglês, que aproveitou para dar um saltinho a Harare, para visitar uns amigos que não via há muito tempo, uma senhora inglesa casada com um senhor zimbabueano. A senhora era professora universitária e o senhor, ex-combatente do ZANU, ocupava-se da farma onde viviam. O meu amigo veio de lá descorçoado. O salário mensal de um professor universitário, disse-me ele, dava para comprar três quilos de arroz.
«E a cabeça daquele homem», indignava-se ele, «ele não compreende, não compreende.»
Nas discussões que tinha tido com o amigo, com muito cuidado para não ofender o hóspede, o ex-combatente insistia que era óbvio que Mugabe não podia entregar o poder à oposição:
«Eles não fizeram nada, como é vão agora mandar no país? Fomos nós que acabámos com a Rodésia, não eles. Fomos nós que fizemos o Zimbábuè, vamos agora entregar-lhes o país?»
Costumo usar ironicamente a expressão «A revolução a quem a trabalha!» para designar esta atitude, que não existe apenas no Zimbábuè, infelizmente.

Depois de um processo eleitoral longo e violento e de muitas pressões e negociações, acabou o ZANU por ter mesmo de partilhar o poder com a oposição, cujo dirigente foi nomeado primeiro-ministro em fevereiro de 2009; mas não parece ter havido mudanças políticas significativas. A vida começou a melhorar um bocadinho, quando, em janeiro de 2009, começaram as divisas a circular oficialmente e o dólar zimbabueano desapareceu. Pagava-se tudo em dólares americanos ou randes, às vezes pagava-se numa moeda e recebia-se o troco na outra. Como estará agora aquele país? Li no outro dia que Mugabe quer indemnizar os agricultores expropriados. O que há de uma pessoa pensar de uma coisa assim?

Quero notar que houve quem não visse apenas resultados negativos do processo de “redistribuição” de terra. Não sei o suficiente do assunto para tomar posição sobre esta análise, como também não tenho conhecimentos para tentar fazer aqui uma análise política rigorosa de causas e motivações desse processo e da crise. Se não sabem nada sobre o Zimbábuè, também não quero que fiquem com a ideia que a violência do regime de Mugabe se abateu apenas sobre os poderosos farmeiros brancos, ou, como muitas vezes se salienta, sobre o grupo étnico ndebele. Nada disso. Foram vítimas de repressão todos os que se lhe opunham.

Aquilo que testemunhei foi um país em ruínas e pessoas na miséria, sobretudo as mais pobres. A ideia das imagens bíblicas na letra da canção veio-me do muito contacto que tive com imigrantes zimbueanos em Chimoio – não farmeiros brancos, que, esses, não os conheci, mas gente de todas as classes que tinha fugido a uma vida que já não se aguentava. Fiquei com a ideia – que já tinha, aliás, das minhas viagens ao Zimbábuè – de que é um país muito cristão. De que é gente habituada a sofrer, também não tenho dúvida nenhuma: «Babilónia, cativeiro, sempre assim foi toda a vida.»
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[1] Mas, claro, um bocadinho de publicidade é um efeito secundário positivo...
[2] Enquanto não escrevo um texto que tenho pensado sobre algumas propostas ortográficas que acho mal o AO90 não ter integrado, reitero aqui este desvio: uso a norma consagrada por muitos topónimos moçambicanos, que é a que para mim faz mais sentido (ver aqui)
[3] A letra que Flak canta é a seguinte:
Nunca a gente desespera, / Chora só, e ri e espera / Que nos pague quem nos deve / Que a vida nos seja leve / E a morte suave e breve (os três versos itálico são substituídos na segunda parte da cantiga por apenas dois: Que a dor que a gente sente / Seja algum dia mais leve) / E que haja quem que nos leve/ A uma terra prometida, / Babilónia, cativeiro, / Sempre assim foi toda a vida! / Vi escrito a fogo na água: / Vê a mágoa à tua volta! / Que ela seja mais que mágoa, / Que seja fé e revolta. / Vi escrito a fogo na terra: / Olha bem a teu redor, / Faz por ti a tua guerra, / Nunca por nenhum Senhor.
Que se modifiquem versos, se altere a estrutura do texto e se omitam partes (uma quadra, neste caso) ou mesmo que se acrescentem versos ou estrofes não é anómalo quando se compõem canções a partir de letras já escritas. Reconhece-se obviamente o esquema – não será o mais comum, mas também não é tão raro como isso – em que uma estrofe quase-refrão se altera um pouco de cada vez que aparece. É também óbvio que, assentando o esquema destes “refrães” nos quatro elementos clássicos, escolhi repetir sempre o fogo, relacionando-o, de cada vez, com um dos outros elementos, a água, a terra e o ar. Porque decidi destacar o fogo, não sei, já não me lembro. Provavelmente, a ideia que me surgiu para o refrão (e para a letra no seu todo) foi «Vi escrito a fogo…», ainda antes de decidir usar os quatro elementos. 
[4] Todos os excertos de textos meus que aqui incluo são de cartas coletivas, um boletim informativo sobre a minha vida, se se pode dizer assim, que, em certos períodos da minha vida, enviava aos amigos com alguma regularidade, primeiro em papel e depois por correio eletrónico. Chamaram-se Crónicas do Alto Molócué, Crónicas de Camargo, Crónicas de Copenhaga e Crónicas de Chimoio. Cada carta incluía, além do texto igual para toda a gente, uma parte pessoal.
[5] Foram apontadas várias causas para o fracasso do “milagre de Manica”: a insuficiência do investimento inicial, porque muitos farmeiros zimbabueanos estavam completamente descapitalizados; o peso da legislação moçambicana; a falta de apoios e infraestruturas a que os zimbabueanos estavam habituados, desde combustível subsidiado (como em muitos países, aliás) a estradas e a controlo fitossanitário; a falta de pesquisa sobre espécies adaptadas ao clima e ao solo locais; e o facto de os zimbabueanos não terem contactos entre a elite moçambicana nem falarem português – nem terem aceitado que isso é mesmo necessário em Moçambique…

27 de maio de 2015

Cidades com artigo e combate ao tédio

Sobre os nomes de localidades que têm artigo definido, dizem às vezes os professores de português aos seus alunos estrangeiros que, se o nome do lugar significa alguma coisa além de referir a localidade, leva artigo; senão, não leva. O Porto é o exemplo mais comum. Mas não é verdade: ninguém diz “o Castelo Branco” nem “a Vila Franca”, e diz-se “a Bobadela” e “a Azambuja”…

Não há de facto regra nenhuma para o uso de artigo com os topónimos e há até muita oscilação de falante para falante: se todos estão de acordo que se diz “a Beira” (e, consequentemente “na Beira”, “pela Beira”, “da Beira”, etc.) e que nunca se diz “o Faro”, já há quem diga, por exemplo, “o Chimoio” ou só “Chimoio” (“vivo no Chimoio” ou “vivo em Chimoio”), “o Maputo” ou só “Maputo” (“ela está no Maputo” ou “ela está em Maputo”), “a França” ou só “França” (“estivemos em França” ou “estivemos na França”), “a África” ou só África(“viveu muito tempo em África” ou “viveu muito tempo na África”), “o Algueirão” ou só “Algueirão”. Neste último caso, se alguém me disser que esteve “em Algueirão”, fico logo a saber que não é dali da zona; mas não fico nunca a saber nada de uma pessoa por ela usar ou não o artigo em Chimoio ou Maputo… 

Talvez fosse boa ideia, não sei, que se aceitasse que o artigo faz parte do nome, como se faz às vezes em França (Le Mans, Le Puy-en-Velay, Le Havre, Les Vans...): « Je viens du Puy, je vais au Mans et puis après au Havre »). Uma proposta brincalhona que ouvi várias vezes aos meus alunos estrangeiros é que, nas placas com os nomes das localidade, se ponha por baixo de cada uma “cidade/vila/etc. com artigo/sem artigo” conforme o caso: “Luanda – cidade sem artigo”; “Rio de Janeiro – cidade com artigo”; “Chimoio – cidade com ou sem artigo, à vontade do freguês…” Não sei se estão a ver…

Agora, porque é que os professores dão a tal regra aos alunos, se não é verdade? Bom, há alunos que ficam apreensivos quando se lhes diz “não há regra”. Ou mais ainda, creio eu, se se lhes diz “não sei a regra” ou “não quero dizer a regra”. (Na realidade, é bem possível que se conheça uma regra que o professor não sabe ou que a regra, por provável que seja a sua existência, seja desconhecida de toda a gente; ou que o professor até saiba a regra, mas que ela seja demasiado complicada para quem não tenha um nível muito elevado de conhecimentos de língua…). Mas nem sempre é por causa dos alunos. Também há professores que não gostam de dizer “não sei”. Conheço casos (felizmente raríssimos) de professores que inventam regras estapafúrdias só para não dizerem que não têm regra para dar. Tudo isto é bastante inútil, enfim, na maior parte dos casos, porque a grande maioria das pessoas não aprende a usar a língua tomando consciência das suas regras – mas isso é outra conversa. Outra conversa também, com uma relação mínima com o que fica para trás, é a que se segue:

Estávamos no outro dia, como sempre acontece quando se juntam pessoas que trabalharam muito tempo com cooperação para o desenvolvimento, a tentar avaliar as razões da sua falta de eficácia e a alvitrar formas possíveis de a melhorar. A certa altura, alguém comentou que as grandes mudanças de políticas de cooperação para o desenvolvimento não resultam da constatação no terreno de que a estratégia utilizada não está a funcionar, mas de uma ideia inovadora, num gabinete qualquer, de alguém que não tem de facto informação sobre o que está ou não a resultar. Isto fez-me pensar nos professores e na evolução das técnicas e materiais.

É claro que há muita investigação feita sobre aprendizagem e que essa investigação se reflete nas reformas educativas – nos programas e nos materiais disponíveis, elaborados em função de metodologias específicas. Já há muito tempo que assim é, aliás, e assim deve continuar. Mas, a um nível mais local, digamos assim, notei muitas vezes que se muda – sem saber, sem poder saber, o que se está a fazer bem e a fazer mal – apenas porque se quer variar, porque se está farto do tédio e da rotina, porque se quer fazer uma coisa nova, experimentar uma ideia que se teve, por mais indocumentada que seja a sua eficácia.

E está muito bem assim, porque não? Também conta na aprendizagem (não sei se muito, mas um bocadinho) o entusiasmo com que o professor incentiva o aluno a aprender – um professor que gosta do que faz. Tudo o que contribua para ele não se deixar enredar na rotina e no tédio está muito bem…

P.S.: Não depreendam daqui que a minha experiência me diz que os professores gostam, em geral, de passar a vida a mudar o que ensinam e como o fazem. Até há alguns que, pelo contrário, barafustam de cada vez que têm de mudar seja lá o que for…

20 de maio de 2015

Burrice

Vivemos numa época em que prevalece um perspetiva de civilidade igualitarista, não só quanto à forma como se tratam os outros no espaço público, mas, mais essencialmente, a como os concebemos e os representamos no nosso imaginário; e penso que é precisamente assim que deve ser, que é precisamente essa perspetiva que deve prevalecer. Segundo a moral que defendo, ninguém tem o direito de criticar nos outros características ou crenças – o que se pode discutir e criticar são ações – ações controladas, isto é, as que se possa escolher não realizar. Continua a haver uma característica, porém, pela qual ninguém parece ter pejo em criticar os outros: a estupidez. Ou burrice, ou chamem-lhe como quiserem – não ser muito inteligente, enfim.

Pode ser-se olhado de lado por acusar alguém de ser gordo, coxo, velho ou suábio, mas ninguém se impressiona se se disser, sobretudo se for verdade, que uma pessoa é mesmo estúpida – a não ser a pessoa visada, claro, e as que estiverem do seu lado. É claro, eu sei que, normalmente, quando se diz de alguém que é estúpido não se quer mesmo dizer que é estúpido; é uma expressão apenas, uma maneira de exprimir desacordo de forma veemente. Mas é o mesmo que acontece com outras palavras que se usam para ofender, não é verdade?, e isso não as torna aceitáveis. Devo dizer, porém, que essa utilização do termo e dos seus sinónimos não me preocupa. O problema, para mim, é que as pessoas realmente sentem e pensam que a burrice é uma característica criticável*. Oiço, mesmo de quem está atento a muitas discriminações, coisas como “Se há coisa que não suporto é gente estúpida”. Porque será?

Conhecem a tristeza profunda – ou o horror, mesmo – de uma pessoa que ouve as outras a seu lado delirarem à gargalhada sobre as incapacidades da gente burra que conhecem e tenta desesperadamente esconder que é assim como essa gente com quem gozam, que é dela que falam?
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* Como a cobardia, aliás, de que falei aqui uma vez, num texto que este vem agora comple(men)tar.

18 de maio de 2015

Louvor do formato digital e a importância da facilidade

A primeira vez que fiz uma análise de um texto em formato digital foi em 1996. Muita gente trabalhava já com computadores há muito tempo, mas, para mim, era uma coisa completamente nova – e era mesmo a ferramenta que me fazia falta. Deu-me um jeitão o find e o find&replace para saltar de uma para outra ocorrência das palavras que me interessavam e para contar essas palavras. «Se eu tivesse tido esta ferramenta antes, de cada vez que fiz à mão levantamentos de ocorrências em textos longos!...», pensei eu.

Lembro-me de que a primeira obra de que fiz um levantamento de palavras foi Os Lusíadas. No meu primeiro ano na universidade, tive um cadeira cujo programa incluía a construção do nacionalismo na literatura portuguesa e, quando vi que Os Lusíadas faziam parte das obras a estudar, fiquei surpreendido («Nacionalismo? Como pode haver nacionalismo em Camões, no tempo de Camões?») e decidi ir ver o que dizia o texto. Demorou-me nessa altura muito tempo a fazer o que acabo agora de repetir em cerca de meia-hora (por ter sido tão à pressa, pode haver um ou outro erro de contagem, mas há de ser coisa pouca): Nação ocorre 7 vezes no singular, 5 das quais referindo Portugal. O nome pátria ocorre 33 vezes no singular. Tem, nalgumas dessas ocorrências, sentido genérico, mas, fora isso, nunca refere outra pátria que não seja Portugal. Reino ocorre no singular 86 vezes, referindo Portugal 40 vezes e referindo outros reinos em vários casos.

É claro, um levantamento deste tipo diz apenas que, como seria de esperar, não há quase nação na obra e que predominam as noções de pátria ou reino, mas não diz nada sobre elas. Isso seria outra conversa. Esta conversa é só sobre fazer levantamentos em textos, antigamente e agora, para dizer que agora se fazem incomparavelmente mais depressa. No outro dia, fiz, para um texto que aqui pus, um levantamento rápido de sossego, sossegado e formas do verbo sossegar na primeira edição dos Lusíadas. Faz-se em segundos, usando a versão em formato digital, mas, se não tivesse acesso a essa versão, é óbvio que nunca o teria feito.

Não sei se o material tem sempre razão, como costuma dizer-se, mas o suporte material da informação condiciona o que se pode pensar sobre essa informação. Analisar qualquer coisa é uma atividade como outra qualquer (como preparar terrenos para cultivo, por exemplo) e depende, em grande medida, não só da vontade e da possibilidade, incluindo conhecimentos, mas também da facilidade de acesso a dados e da facilidade de os manipular, não é verdade?, do esforço que para isso tenha de se fazer.

15 de maio de 2015

Um entre mais de cem mil milhões

Muitas ideias estranhas, como a transmigração das almas ou a de ser descendente de Carlos Magno, seriam abandonadas ou clarificadas se as pessoas se pusessem a fazer contas. É certo que quem acredita na metempsicose provavelmente não quer saber de contas para nada, mas quem ache que ser descendente de Carlos Magno é uma grande honra talvez esteja interessado em saber que isso não é, afinal, nada de especial, porque Carlos Magno tem centenas de milhões de descendentes. De facto, todas as pessoas que descendem de famílias europeias há muita gerações (e não só, mas sobretudo) são não só provavelmente descendentes de Carlos Magno como têm todas um antepassado comum, se recuarmos apenas 1200 anos. Há muitos textos que explicam isto na Internet, mas podem ler, por exemplo, aqui e aqui. O modelo que permite estes cálculos com relativa certeza, elaborado por Joseph T. Chang, existe já há cerca de 17 anos, mas, em 2013, um estudo genético aleatório de 2257 europeus veio confirmar a teoria que era só matemática: não haja dúvida, somos todos primos. (Estudo propriamente dito aqui, respostas a perguntas frequentes sobre o estudo aqui).

O que é que isto interessa? Nada. Ou muito, é conforme. Destrói completamente a ideia de identidade assente na linhagem (viva a República!), a não ser que se limite essa identidade às últimas dezenas, às vezes nem isso, de gerações. E diz-nos que não vale a pena procurar ser descendente daquela senhora ou daquele senhor para ser, como dizer?... especial, porque ela ou ele, se não tiverem vivido há pouco tempo, têm mais descendentes que chapéus há para os palermas.

Agora, uma questão interessante, quando a gente se põe a fazer contas sobre as pessoas que viveram antes de nós é, precisamente…quantas pessoas viveram antes de nós? No site Population Reference Bureau, Carl Haub publicou pela primeira vez as suas contas em 1995, atualizou-as em 2012 e voltou a atualizar os dados em 2011. Não se pode saber com exatidão, até porque a humanidade não começa num momento concreto, mas é bastante provável que Usain “Lightning” Bolt tenha, de facto, corrido 100, 150 e 200 metros mais depressa que mais de cem mil milhões de seres humanos que existiram até hoje.

14 de maio de 2015

A dimensão humana

Discute-se às vezes se a recusa de alguns sectores antirracistas de “descer” ao ponto de discutir em público com a extrema-direita racista contribui(u) para o crescimento dessa mesma extrema-direita, deixada assim livre para apresentar a sua versão dos “factos”, sem ninguém para lhe contrapor factos sem aspas. O mesmo se discute em relação a muito disparate de pseudociência, parapsicologia, medicinas ditas alternativas e toda a sorte de crenças bizarras que por aí pululam: uma pessoa deve rebaixar-se ao nível de discutir se as campanhas de vacinação da Organização Mundial de Saúde têm como finalidade a eliminação dos africanos, injetando-lhes venenos que os matam? E depois, aliás, como se discute um absurdo desses? E serve de alguma coisa tentar convencer quem acredita numa coisa assim?

Mais do que apenas uma questão estratégica para a ação antirracista ou para a divulgação da medicina científica[1], esta atitude de não querer “descer tão baixo” levanta também uma questão moral. E eu acho que, por muito que discorde radicalmente de uma pessoa, não posso deixar de considerar que ela tem exatamente a mesma capacidade moral que eu, pelo que é de uma grande arrogância (paternalismo é palavra que diz insuficientemente a imoralidade da atitude) recusar discutir, seja lá com quem for, ideias que têm em abstrato o mesmo valor que as minhas – até eu demonstrar, se o conseguir, que as minhas são melhores. É claro que uma recusa simples de discussão não pode ser moralmente equiparada à aniquilação física daqueles de quem discordo, mas é um mesmo princípio de dogmatismo fundamental que revela.

Por outro lado, eu sei que não é sempre arrogância, mas às vezes também cansaço, quando não desespero, que motiva a recusa de discussão. É até certo ponto compreensível que se desista de discutir com fanáticos, quer se trate de ideias sobre o conhecimento do mundo, incluindo religião, ciência, etc., quer se trate de questões morais, incluindo política. É que a discussão com quem se recusa liminarmente a ser convencido é muito mais cansativa que a discussão com quem tem apenas convicções fortes. E é, por norma, improdutiva. Por isso mesmo, admiro a paciência e louvo o trabalho de quem, por exemplo e para me centrar em áreas que acompanho, se dedica a discutir diariamente os fundamentos da religião e das religiões, e das ditas “medicinas” alternativas e de milhares de delirantes teorias de conspirações. Penso que não o faço eu próprio tanto como devia, mas hoje, para me redimir um bocadinho dessa falta, contribuo para a discussão da ideia da comunicação com Deus. O meu argumento é este: se existir a divindade suprema dos monoteísmos mais divulgados, os humanos não têm nenhuma possibilidade de a compreender, pelo que a própria crença e a própria prática dessas religiões negam os atributos que dizem que Deus tem.

Na palestra Cosmic Quandaries (Palladium, St. Petersburg, Flórida, 26-03-2009), Neil DeGrasse Tyson diz que não vê como seja possível comunicar com extraterrestres (tradução minha):
Se virmos o parente geneticamente mais próximo dos seres humanos, os chimpanzés – temos mais de 98% de ADN idêntico –, somos mais inteligentes que um chimpanzé. Vamos lá inventar uma medida de inteligência que faça dos humanos seres únicos. Digamos que a inteligência é a capacidade de compor poesia, sinfonias, fazer arte, matemática e ciências, digamos assim. Usemos por agora esta definição arbitrária de inteligência. Os chimpanzés não sabem fazer nada dessas coisas. E, no entanto, temos 98/99% de ADN idêntico. O chimpanzé mais inteligente de sempre talvez saiba comunicar com gestos. Bem, as crianças sabem fazer isso (...).
Tudo o que somos, que nos distingue dos chimpanzés, vem dessa diferença de 1% no ADN. Tem de ser, porque essa é a diferença. O telescópio Hubble [está] nesse 1% (...).
Imaginem outra forma de vida que seja 1% diferente de nós, no sentido em que somos diferentes do chimpanzé. Pensem nisso. Temos 1% de diferença e construímos o telescópio Hubble. Avance-se mais 1%. O que somos nós para eles? Seríamos patetinhas na presença deles (...). Pensem na inteligência que haviam de ter. A mecânica quântica seria intuitiva para os bebés deles. Os miúdos haviam de compor sinfonias inteiras. E, como eu disse, só para pôr na porta do frigorífico – assim como expomos na porta do frigorífico as colagens que os nossos miúdos fazem.
Portanto, a noção de que vamos encontrar seres inteligentes e conversar com eles... Quando é que foi a última vez que pararam para conversar com uma minhoca? Ou com um pássaro? Quer dizer, podem ter conversado som eles, mas acho que não estavam à esperava de uma resposta, ou estavam?
No sítio onde fui buscar a transcrição da palestra, porque não me apetecia nada estar eu próprio a transcrevê-la, tinha alguém comentado (traduzo com ortografia corrigida):
Sigo o raciocínio do Dr. Neil: se houver seres extraterrestres que tenham 1% de diferença do nosso ADN, também podem ser considerados deuses, porque a sua inteligência nos faz parecer parvos.
Bom, deixando de lado a discussão da abstrusa tese de que os deuses são astronautas, pode considerar-se que este comentário aponta precisamente para o que motivou este texto: a possibilidade de comunicação entre o humano e o divino. É certo que divindades há muitas, mas centremo-nos na que mais diametralmente se opõe aos humano por tudo poder, tudo saber e tudo ser, enfim. É claro, entre o Deus das religiões monoteístas e os seres humanos não há propriamente diferença genética, mas não é por isso que deixa de haver diferença entre a capacidade de entendimento do dito criador e das suas ditas criaturas. E convenhamos que seria seguramente considerado blasfemo, por quem acredita nesse deus, afirmar que não é infinitamente maior a diferença entre a inteligência de Deus e a inteligência de uma pessoa do que a diferença entre a inteligência de uma pessoa e a inteligência de, ponhamos, uma minhoca.

Outra maneira de ver a questão é que, sendo absoluto e perfeito o entendimento divino, há, para todos os efeitos práticos, a mesma diferença (uma diferença infinita) entre essa inteligência infinita e a inteligência de qualquer ser com inteligência finita, pelo que, na relação com um deus perfeito, um ser humano não está num plano superior a uma minhoca. E, se podemos aceitar que Deus nos possa compreender, porque ele, por definição, pode tudo, não faz sentido nenhum pensar que uma pessoa alguma vez possa entender o que quer, pensa ou planeia um entendimento infinitamente superior ao seu como é o do deus das religiões monoteístas. Seria infinitamente mais difícil que uma minhoca entender isto que estou aqui a escrever. E estamos de acordo que uma minhoca não entende isto, não estamos[2]?

Já se argumentou muitas vezes que é blasfemo agir em nome de um Deus que tudo pode; mas é pelo menos tão blasfemo acreditar que se pode compreender o que pensa esse Deus – e, por conseguinte, o que deseja de nós. De maneira que a única atitude religiosa que me parece coerente quando se tem uma conceção tão elevada do divino é a dos místicos que propõem, como única forma possível de comunicação com o divino, o esvaziar-se de todo o seu entendimento. No nada, cabe tudo; na nossa compreensão, não.
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[1] Peço perdão pela redundância, mas sou obrigado a usá-la, numa época em que prolifera o uso de expressões como “medicina tradicional”, “medicina natural”, “medicina alternativa”, medicina isto-e-mais-aquilo… Alguém me contava uma vez, mas esqueci nomes e pormenores, infelizmente, de um fundador de um departamento de Psicologia Experimental numa universidade que se queixava de ser necessário chamar-lhe assim, como se toda a Psicologia não tivesse de ser de alguma forma experimental…
[2] «Não!», ouvi uma voz gritar perto de mim. Assustei-me. Não estava ninguém em casa. Ou, pelo menos, não devia estar, àquela hora. A voz parecia ter vindo chão. Olhei e era uma minhoca. Tinha sido ela a gritar, claro. Pronto, estava esclarecido o mistério do grito. Mas faltava esclarecer outro mistério: como teria uma minhoca ido parar ao meu escritório?

13 de maio de 2015

Passar de é a deve ser

Pode ser que uma parte de valores e comportamentos sociais que temos tendência a considerar essencialmente culturais tenha origem em estruturas primitivas inatas, em lugares fundo das pessoas. Pode ser ou pode não ser, as discussões sobre o tema estão muito longe de ser conclusivas. E isto aplica-se tanto às atitudes que louvamos (a solidariedade, por exemplo) como às que criticamos (por exemplo, a discriminação). Talvez algumas das discriminações tenham até origem nos mecanismos que fundam também a solidariedade. O reconhecimento de parentesco, por exemplo, se de facto existir, é um mecanismo egoísta para os nossos genes se protegerem a si próprios em que pode assentar originalmente a criação de círculos de identidade e pertença («sou deste grupo»), que resulta forçosamente no reconhecimento simples da diferença («X não é deste grupo») que modela a discriminação. Tor Nørretranders (de quem já aqui falei) explora muito a noção de egoísmo como base do altruísmo e defende que é a vontade de se valorizar para seduzir os outros que nos leva a fazer coisas por eles, para eles. Pode dizer-se que, nesta perspetiva, há uma profunda relação entre dois sentidos comuns da expressão ser bom: «ser capaz, habilidoso, competente» e «ser bondoso».

Tirando a elegante formulação da questão que proponho na frase anterior, acabadinha de descobrir, não disse ainda, neste texto, nada que não tenha já dito noutros textos deste blogue. Não é, porém, para apresentar a minha descoberta retórica que escrevo, mas para sublinhar que, mesmo que acreditemos que estão assim fundamente ancorados em nós, que são tão naturais como inevitáveis, os vários mecanismos que fundam provavelmente todas as morais, não devemos perder de vista que esses mecanismos são moralmente contraditórios e nem por obsessão de realismo, portanto, a discussão ética se pode centrar na constatação do que é, do como somos – a constatação duma pretensa natureza humana. É que do que é, mesmo havendo sobre ele um consenso que atualmente não há, não pode fazer derivar-se direta e univocamente um deve ser – mas antes muitos, muitos!...

12 de maio de 2015

Uma página de paródia… Perdão, uma página da Paródia e algumas questões etimo(i)lógicas


A Paródia, Ano 1, N.º 1, 17 Jan. 1900, p. 5, na Hemeroteca Digital
Ao contrário do que se possa pensar, a reforma ortográfica de 1911 não foi uma reforma cem por cento contra a perspetiva etimológica. Acabou com uma lógica assente na tradição e instaurou uma grafia de base fonológica e se, em muitos casos, isto implicou recusar grafias etimológicas, pseudoetimológicas ou de outra forma… “tradicionais”, também houve casos em que a reforma veio acabar com grafias sem justificação etimológica que existiam antes dela, recuperando a forma etimológica.

Para não sair da página da Paródia aqui ao lado [clicar para ver em maior], socego e aceio voltaram a ter os ss que lhes vêm de *sessicare e *assedare, que se pensa que deram, respetivamente, sossegar e assear. É claro, pode sempre duvidar-se, porque são formas não atestadas (quando virem um * antes de um étimo, significa que se pensa ser esse o étimo, mas nunca se encontrou a palavra escrita em texto nenhum). É certo, porém, que, recuando mais no tempo, é com ss e não com c que sossego se escreve. Para continuar na página da Paródia, e aproveitando a citação dos Lusíadas que lá vem, podemos comparar com a grafia da primeira edição da obra de Camões. Se, em edições oitocentistas dos Lusíadas, estava a “linda Ignez” “posta em socego”, na primeira edição da obra, a linda Ines – sem g, sem z, sem acento – estava “posta em sosego”. Assim mesmo, com um s apenas, não é gralha. Ou antes, é provável que seja, mas não gralha minha. E é uma gralha que se repete três vezes*, mas, se calhar, não havia revisores naquele tempo. Seja como for, predominam no texto as formas com ss, por exemplo em «Iulga qualquer juyzo sossegado» e em mais 8 ocorrências do radical sosseg-. Assinalo, de passagem, que este y de juyzo não é etimológico e uso essa anomalia como ponte para o regresso a 1911 e ao tema do meu texto:

Houve ii etimológicos que foram também repostos na reforma ortográfica republicana, como é o caso de lyrio ou lagryma, que voltaram a escrever-se com o i de liliu- e lacrima- (que é também, já agora,  como se escreviam no tempo de Camões**). Ainda a propósito de yy, também cysne abandonou uma pretensa etimologia latina para passar a escrever-se como no francês antigo de que parece provir em português e castelhano. (É também cisne, note-se que se escreve na edição original dos Lusíadas: «A longo da agoa o niueo Cisne canta».) Mas, claro, quem goste de considerar as etimologias últimas e não as imediatas, achará que é de cycnus ou cygnus que a palavra vem…

Para essas pessoas, porém, podemos dizer (e agora, que me caiam em cima o Carmo e a Trindade, embora, juro, a intenção não seja provocar mas apenas tirar peso à conversa) que, no caso das palavras de origem grega, também o desaparecimento de th e ph é um restaurar da etimologia, pois não havia no étimo último duas letras que correspondessem a tais dígrafos. Transcrever ɸ por ph é um bocado sem razão, venha de que tradição vier, e perfeitamente desnecessário na latina; quanto a transcrever θ por th, se mais compreensível, por falta de símbolo latino adequado, não tinha, claro está, nenhuma vantagem em relação a uma transcrição por apenas t. (A julgar pela maneira como os portugueses pronunciam o som /θ/ em inglês ou castelhano, a transcrição mais natural de θ é, para nós, um s, eh eh eh…)

[Risos, uns francos e ruidosos, e outros bastante amarelos, sem som absolutamente nenhum; aplausos e apupos; desce o pano. E ouve-se outra voz:]

Para continuarmos nesta página de paródia… perdão, da Paródia, se a grafia tem mesmo influência na pronúncia, como insistem em afirmar alguns, temendo, pelos vistos, que se abatam cataclismos incontáveis sobre a maneira de dizermos certas palavras por causa da nova maneira de as escrevermos…, foi só por muita sorte que época, depois de ter-se escrito epocha tanto tempo, não passou a pronunciar-se [e’poʃɒ]. Ufa, e ainda bem!

[Mais ruídos diversos, semelhantes aos anteriores, de trás do pano.]

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* «Mas o velho a quem tinhão ja obrigado / Os trabalhosos annos, ao sosego», «Torna a dormir quieto & sosegado» e «Affonso que não sabe sosegar»
** Entre muitas outras ocorrências, em «Mas moura em fim nas mãos das brutas gentes, / Que pois eu fuy: & nisto de mimosa / O rosto banha, em lagrimas ardentes». Ups, outro y não etimológico em fuy, muito imaginativas eram estas grafias.

11 de maio de 2015

Nós mesmo nós e outros nós

Richard Rorty escreveu que é «um conjunto de crenças partilhadas que determina a referência da palavra nós*». Hmmm… Não vou discutir agora as ideias de Rorty (embora as ache, no mínimo, muito discutíveis…), mas sim a referência da palavra nós. E, embora a Rorty não devessem importar muito os factos linguísticos (nem outros factos…), a verdade é que a palavra nós pode ter muitas referências diferentes. Falo a seguir do português, mas do inglês poder-se-ia dizer mais ou menos o mesmo…[E sim, sim, eu sei que não é de língua que Rorty fala e que o que digo a seguir não serve de crítica às suas ideias, era só uma brincalhona provocação.]

Há línguas com formas diferentes (do pronome ou do verbo), conforme a primeira pessoa do plural inclua ou não a pessoa com quem se fala. Também pode haver formas diferentes para uma primeira pessoa do plural que inclua apenas a pessoa que fala e a pessoa com quem ela fala. A Wikipédia em português diz que «[e]m português, essa diferença se faz sentir entre os pronomes nós (inclusivo) e nós outros (exclusivo), e também entre nós (inclusivo) e a gente (exclusivo)», mas se isso for verdade em certas variantes do português do Brasil e do galego, não se aplica certamente ao português de Portugal. Em Portugal, onde a forma nós outros é quase inexistente, arcaica ou limitada a raros usos literários ou dialetais, tanto as formas nós como a gente podem ser inclusivas ou exclusivas.

O mesmo se passa em muitas outras línguas. É possível determinar, a partir de outros elementos discursivos, o valor inclusivo ou exclusivo de nós e o seu valor dual (referindo apenas o locutor e mais uma pessoa, o interlocutor ou outra) ou plural, mas a única coisa que se pode com certeza afirmar que é comum a todos os seus valores de base é referir a pessoa que fala e mais alguém.

Esperem, esperem, não é bem assim! Referir a pessoa que fala e mais alguém é o mais comum dos valores de nós, mas não é comum a todos os seus valores. Há um valor de nós, vejam lá, que nem é de primeira pessoa do plural, mas de segunda pessoa do singular: «Então, como nos sentimos hoje?» Eu chamo-lhe o «nós dos médicos», mas não são só médicos que o usam.

E há ainda, claro, um nós mais majestático que o dos senhores doutores, singular como ele, mas sem chegar a ser segunda pessoa – primeiríssima pessoa apenas. Agora, há algumas restrições ao uso deste nós dos monarcas: se o jovem Luís XIV tivesse dito «O Estado somos nós», não sei se se teria tornado famosa a sua afirmação; mas não teria, com certeza, sido entendido que o Estado era ele

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*«According to this view, what counts as rational or as fanatical is relative to the group to which we think it necessary to justify ourselves – to the body of shared belief that determines the reference of the word “we”.» “The priority of philosophy to democracy” (in Objectivity, Relativism, and Truth: Philosophical Papers, Vol. 1. Nova Iorque: Cambridge University Press, 1991, p. 177) Não é o único caso em que Rorty fala, neste sentido, da referência do pronome da primeira pessoa do plural. Outro exemplo: «For pragmatists, the desire for objectivity is not the desire to escape the limitations of one's community, but simply the desire for as much intersubjective agreement as possible, the desire to extend the reference of 'us' as far as we can.» (“Solidarity or objectivity” (ibid. p. 23).

8 de maio de 2015

Nacionalismo, mais uma vez

Vejo alguns amigos divulgarem, por e-mail ou no Facebook, textos de Eça de Queirós e Guerra Junqueiro sobre o estado da nação no seu tempo, louvando a atualidade desses textos[1]. É conhecido o processo de engrandecimento das nações que consiste na sua subtração a todas as realidades históricas para as transformar em gloriosos entes fantásticos cujo espírito e valor permanecem inalterados através dos tempos. Nesta reação à consciência sofrida do estado atual de Portugal, porém, já não é o Bem que é a-histórico, mas sim o Mal: a “atualidade” destes textos diz-nos que Portugal sempre sofreu (quase século e meio é um pouco como uma eternidade em ponto pequeno) dos males de que sofre agora. O que se diz, afinal, é que o problema reside no imutável espírito dos (maus) portugueses e não nas condições históricas atuais.

Também começaram a circular, há uns tempos, excertos do “Ultimatum futurista às gerações portuguesas do século XX”, de Almada Negreiros (Portugal Futurista, 1917[2]). É um texto estranhíssimo, a espaços assustador[3]. Não é minha intenção analisá-lo aqui, mas quero referi-lo como exemplo daquilo que eu chamo uma apelativa suspensão da racionalidade.
Eu não tenho culpa nenhuma de ser português, mas sinto a força para não ter, como vós outros, a cobardia de deixar apodrecer a pátria. 
A primeira parte da frase está certa, embora se perceba mal o uso da palavra culpa. Espera-se a negação de culpa relativamente a características ou ações consideradas negativas, não é verdade? Se dissermos Ele não tem culpa de ver mal ou Ele não teve culpa de ter deixado entrar a bola, assumimos que ver mal ou deixar entrar a bola são coisas negativas. Como pode Almada Negreiros, em pleno fervor nacionalista, assumir a portugalidade como algo negativo de que não tem a responsabilidade? Não se espera antes, neste tipo de discurso, uma asserção como «Eu sei que não sou português por decisão própria, mas…»? Talvez o uso de culpa tenha implícita uma crítica aos outros portugueses que têm a “cobardia de deixar apodrecer a pátria” – talvez Almada Negreiros pretenda implicar que é assim que esses tais cobardes sentem a sua portugalidade, como uma culpa… Também a ligação lógica entre as duas proposições da frase me surpreendeu: deve esperar-se uma correlação positiva entre a culpa de ser português e a força de não deixar apodrecer a pátria? Pode ser apenas que Almada Negreiros seja bastante descuidado na sua lógica, e que, por isso, não valha a pena tentar encontrar o meio dia às quatro da tarde, como dizem os franceses; ou, neste caso, encontrar lógica e coerência num texto que prima pela emotividade pré-racional e pela incoerência... O certo é que textos como este são altamente apelativos: quando é de apelo ao patriotismo que se trata, suspende-se muitas vezes a racionalidade, pondo-se a dedicação incondicional à pátria como valor a priori (Almada Negreiros, mais adiante no mesmo texto: «[O] patriotismo condicional degenera e suja; o patriotismo desinteressado glorifica e lava.»). Qualquer pessoa, porém, que recuse a infantilidade do adquirido acriticamente como forma de orientar a sua conduta tem, mais que direito, o dever de ser interrogar: que boas razões há para ser nacionalista ou patriota [4][5]?

***
Acompanhando de longe a reação do meu círculo de relações à situação de crise em Portugal, vejo surgir em vários amigos meus que nem considerava especialmente nacionalistas um nacionalismo assertivo, por vezes eivado, ainda por cima, de um confrangedor discurso antialemão e antieuropeu. Agora, por muito que nem sempre seja agradável e chegue, às vezes, a ser aterradora, essa efusão nacionalista não me surpreende por aí além. Tempos de crise exacerbam sempre o nacionalismo. Uma das respostas mais imediatas ao que se sente ser o degradar da nação é a exortação ao patriotismo heroico de salvação nacional – algo em que uma parte da esquerda nunca se distinguiu da direita, aliás… Quero deixar claro que sou também fortemente crítico das políticas do atual governo, das medidas austeritárias em geral e da obsessão da economia neoliberal que domina muitos dirigentes europeus. Mas entristece-me ver as pessoas suspenderem a racionalidade, como o Almada Negreiros do texto acima, ao ponto de se recusarem a analisar a situação atual, reduzindo-a a um mal permanente, intemporal, ou a amalgamarem a CDU alemã com a Alemanha ou o povo alemão, o predomínio da ideologia neoliberal na União Europeia atual com a própria União Europeia. Esta amálgama encerra, aliás, uma contradição fundamental: seguindo a mesma lógica e identificando a nação e o povo portugueses com o seu governo atual, que recusam, deveriam também recusar Portugal… Mais uma vez, para aceitar este tipo de generalizações nacionalistas, é preciso mesmo suspender a racionalidade.

Tudo isto é óbvio e foi já muitas vezes repetido. Também já expliquei aqui que não acredito em conceitos trans-históricos ou a-históricos de identidade nacional, que haja alguma coisa essencial que me faça semelhante aos portugueses de há três, cinco ou sete séculos; e que também não acredito em identidades nacionais em bloco: sou muito mais parecido, mas muito mais!, com muitos alemães que conheço que com outros portugueses da minha geração. Juntando isto tudo, sou, enfim, um português sem vergonha nem orgulho nenhum de o ser. E vejo mal como poderia ter uma atitude diferente se fosse croata, balúchi ou filipino… Mas, por banais que sejam, aqui ficam estas observações, nem que apenas como notas a que possa rapidamente lançar mão para alicerçar futuras discussões sobre o tema.

*** 
Não sei até que ponto o que se segue é menos banal. É, em certa medida, um aparte, mas diz também respeito à discussão do nacionalismo. Quero defender aqui que, seja em que circunstâncias for, não acho correto defender ou criticar um programa de governação por ele favorecer ou desfavorecer uma nação. Um amigo meu defendia uma vez, respondendo a uma crítica minha à atuação do ministério dos negócios estrangeiros de um determinado país, que essa atuação se justificava, porque estavam a defender os interesses do seu país. Ora, para uma pessoa que, como eu, entende a política com uma parte da ética, um programa político só pode ser louvado ou condenado por estar ou não de acordo com os princípios – éticos em sentido lato – que essa pessoa defende. Aceitar que a defesa dos interesses nacionais é fundamento suficiente para a atuação política implica considerar que mal ou bem ou não contam ou não são atributos do que se faz, e que a mesma ação possa ser julgada de duas formas diferentes consoante quem a executa e a favor de quem.

*** 
Não me entendam mal: não tenho nada contra uma pessoa gostar do sítio onde nasceu, como não tenho nada contra uma pessoa gostar de pais e irmãos e amigos de infância. Acho natural que gostemos daquilo com que convivemos há muito tempo, daquilo que conhecemos bem: “familiaridade gera gosto”, dizem, vertendo assim, não sei se da melhor maneira, familiarity pelo seu cognato português… E é assim mesmo, gostamos do que o acaso nos pôs na vida, como havia de ser doutra maneira? Aliás, distinguir entre esses afetos resultantes apenas de uma fortuita proximidade e outros afetos escolhidos (“não se escolhe a família, mas escolhem-se os amigos”, etc.) é provavelmente uma distinção artificial, porque ninguém escolhe de facto gostos nenhuns – em última análise, é sem grande sentido a ideia de haver uma entidade exterior ao eu que gosta a decidir de que gosta esse eu. Mas adiante. Não tenho absolutamente nada contra gostar-se da sua terra em geral, ou de aspetos particulares da sua terra, nem tenho nada contra não gostar dela, ou de alguns dos seus aspetos, ou ser-lhe indiferente; como não tenho nada contra não gostar de pais e irmãos ou ser-lhes indiferente, se isso acaso acontecer… Gosta-se do que se gosta e pronto, não vejo nisso nenhum mal nem nenhum bem. Não é que não haja nada a fazer relativamente aos gostos que temos, porque há sempre algo a fazer quando nos inquieta gostar do que gostamos ou vice-versa (no gosto não há moral; e a moral não deve subjugar-se ao gosto, acho eu), mas, enfim, que se goste do que nos é familiar, repito, isso eu compreendo. Aquilo com que não concordo é que se infiram do gosto deveres e valores. Também compreendo que toda o empenhamento cívico ou político tem de ter um âmbito e que uma das escolhas mais razoáveis é empenhar-nos na comunidade em que mais imediatamente nos inserimos, incluindo, claro está, a nação. Mas essa escolha não implica nenhuma das atitudes nacionalistas que critico neste texto.
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[1] Têm tido grande fortuna os excertos de “Uma campanha alegre”, de Eça de Queirós, e do “Balanço patriótico” das “Anotações” a Pátria, de Guerra Junqueiro, que aqui aparecem os dois numa única página da Internet.
[2] Pode ler-se aqui o texto integral.
[3] Assustam-me, por exemplo, os seguintes incitamentos:
Fazei predominar os sentimentos fortes sobre os agradáveis.
Tende a arrogância dos sãos e dos completos.
Fazei a apologia da Força e da Inteligência.
Fazei a apoteose dos Vencedores, seja qual for o sentido, basta que sejam Vencedores. Ajudai a morrer os vencidos.
[4] Fui buscar o termo infantilidade e uma parte da formulação deste parágrafo à discussão proposta aqui por Aires Almeida.
[5] Em rigor, podem distinguir-se estes dois conceitos e até afinar-se ainda mais a distinção entre vários tipos de sentimentos positivos pelo seu país, mas não o farei aqui.

5 de maio de 2015

Mudar de ideias: uma experiência muito interessante

Isto de fazer experiências consigo próprio é complicado, sobretudo quando as experiências implicam uma descrição do que se sentiu, como é o caso da experiência que se descreve mais adiante. Parece-me improvável que Rodolfo Llinás esteja a mentir sobre o que sentiu (isso é, aliás, fácil de verificar fazendo a experiência com outras pessoas, mas não sei se foi já feito ou não), mas, claro, é uma possibilidade que os mais céticos poderão pôr. Outra possibilidade é que Llinás esteja a ser vítima de um viés que o faz sentir o que ele acredita que se sente naquela situação. Mas também é muito possível que esteja apenas a dar conta de um facto simples, sem nenhuma interpretação tendenciosa. E, se assim for, estamos perante uma prova – para muitos perturbadora, tenho a certeza – de que a ideia de livro arbítrio precisa mesmo de ser repensada. Não forçosamente abandonada, mas muito bem repensada, com um olhar novo sobre o que significa, para cada um de nós, tomar decisões.

Há muito tempo que existe a proposta de que as nossas pretensas decisões sejam de facto posteriores às ações a que dizem respeito. São célebres as experiências de Benjamin Libet, embora não haja nenhum consenso sobre que conclusões delas se podem tirar. Mas a experiência de Llinás vem dar uma nova dimensão à questão: mesmo a perfeita consciência de que uma determinada decisão não está a ser tomada por mim na altura, mas foi antes previamente planeada – por mim ou outra pessoa –, não impede que, se quando a ponho em prática, eu sinta forçosamente que foi aquilo que quis fazer. Traduzo eu, de uma conversa entre Rodolfo Llinás e Roger Bingham num filme da TSN em 2007 (transcrição disponível). Llinás não é muito eloquente, pelo menos em inglês, mas creio que, apesar do registo hesitante e, por vezes, confuso, se percebe bem a descrição desta fascinante experiência:
Llinás: ... O que eu quero eu dizer com “mente”? Quero dizer “estado interno do cérebro”. Definível. Há quem me diga que não se pode definir a mente. E a resposta é: que disparate! Agora, se disser “livre-arbítrio” – como se define o livre-arbítrio? Mas posso dizer-lhe que defino livre-arbítrio como as atividades que acontecem que o cérebro sabe que estão prestes a acontecer. (...) Entendo que o livre-arbítrio não existe; entendo que a única maneira racional de nos relacionarmos uns com os outros é assumir que existe, embora no fundo saibamos que não é assim. Agora, a pergunta que você pode fazer-me é: “Como sabe?” E a resposta é que, bem, eu fiz uma experiência muito bonita comigo mesmo. Foi de facto extraordinário.
Há um instrumento usado em neurologia chamado estimulador magnético (...). É um instrumento que tem uma bobina que se põe junto à cabeça e onde passa corrente de forma a gerar um grande campo magnético que ativa diretamente o cérebro, sem necessidade de se abrir nada. Portanto, se se pega numa bobina dessas e se a põe junto à cabeça, pode gerar-se um movimento. (…) Então, pode estimular-se diretamente  diversas partes do cérebro e ter uma sensação do que acontece quando ativamos o cérebro, sem, entre aspas, sermos nós a fazê-lo. (…) Então, decidi pô-la no alto da cabeça, onde considero ser o córtex motor, e estimulá-lo, e encontrar um sítio bom que fizesse o meu pé direito mexer-se para dentro. E zás, não foi difícil. Fizemos isso várias vezes e tive de dizer ao meu colega: “Sei anatomia, sei fisiologia, posso dizer que estou a fazer batota. Dê o estímulo e eu mexo, sinto que estou a mexê-lo”. E ele disse: “Bem, sabe, não há maneira nenhuma de saber mesmo.” Eu disse: “Eu digo-lhe como sei. Eu sinto, mas dê o estímulo e eu vou mexer o pé para fora. Vou fazer isso.” Então, dou o estímulo e o pé mexe-se para dentro outra vez. E eu disse: “Então, que se passa?” E disse: “Mudei de ideias”. E repeti. Repeti meia dúzia de vezes.

Bingham: E mexeu-se sempre para dentro?

Llinás: Sempre. E eu então disse: “Deus meu, não consigo distinguir a diferença entre a atividade exterior e o que considero ser um movimento voluntário. Se sei que vai acontecer, penso que o fiz (…). Agora entendo essa coisa do livre-arbítrio e da volição. Volição é o que está a acontecer noutro lugar no cérebro, de que eu sei e, portanto, decido que fui eu que fiz. (…)

Bingham: (…) Então, está a dizer que, como há essa ligação direta entre o estímulo e o pé mexer-se para dentro e que isso acontece sempre, mesmo que queira mexê-lo para fora, ele continua a mexer-se para dentro… Está a dizer que, ainda assim, pensou que a sua sensação era tê-lo mexido para fora?

Llinás: Não! A sensação foi outra: fui eu que fiz aquilo.

Bingham: Embora estivesse a mexer-se para dentro.

Llinás: Mexeu-se para dentro e a sensação é: “Bom, mexi-o para dentro”. Não podia, o meu sistema, não podia ter uma sensação diferente da que teria se o tivesse mexido para dentro. (…) «Sentiu que havia algum problema?» «Não, não senti que houvesse problema nenhum. Mexi-o para dentro.» «Mas pensou, decidiu, que ia movê-lo para fora!» «Sim, mas mexi-o para dentro.» E depois, uma pessoa pensa e dá-se conta de que está a dizer isso depois de o ter mexido para dentro, porque ele se mexeu para dentro e sabia que isso ia acontecer, portanto apropria-se disso. Por outras palavras, o livre arbítrio é saber o que vai fazer, é só isso. Não forçosamente desejá-lo. Lamento imenso.