24 de junho de 2015

Penteados, corpos, paixão

Como já aqui contei, uma vez foi-me diagnosticado um ataque cardíaco. Vá lá, foi um diagnóstico errado, feito por uma máquina, se bem que, claro, a culpa das semanas de ansiedade que se seguiram ao erro não tenha sido da máquina, mas do médico que confiou num diagnóstico automático.

Estava em Moçambique quando tive o falso ataque. A minha companhia de seguros informou-me de que tinha de ser observado por um cardiologista na África do Sul, mas, como uma pessoa que teve um ataque cardíaco não pode andar de avião sozinha, tinham de mandar um enfermeiro para me acompanhar. Demoraram muito tempo a arranjar quem me pudesse vir buscar a Chimoio e acabei por ser observado só ao fim de duas semanas – para chegar à conclusão de que, afinal, o meu coração estava muito bem, obrigado.

O enfermeiro que me veio buscar era sul-africano. De Maputo para Joanesburgo, fomos de carro e conversámos muito. Quer dizer, ele falou muito e eu fui respondendo de vez em quando.

– A África do Sul era um país muito conservador, quando eu era novo. Crescemos sem nunca ver uma mulher nua. Nem em revistas, nada. Nunca vi os seios de uma mulher até ir para cama com uma mulher para a cama a primeira vez. Quer dizer, viam-se seios étnicos [acho que foi esta a expressão que ele utilizou], nas revistas e na televisão, mas isso não contava, porque não pensávamos nessas mulheres como mulheres. Nem esses seios nos excitavam, sequer.

Não devia ser bem assim, pensei eu. Quer dizer, talvez assim fosse para alguns sul-africanos brancos, mas não para todos: havia-os que não desdenhavam o sexo com sul-africanos negros, quer o assumissem ou não. E falava-se dos que vinham a Moçambique precisamente para poderem concretizar desejos que não se atreviam a concretizar na África do Sul. Dizem, aliás, que o continuam a fazer, mas não sei.

A reação ao corpo do Outro é muito variada e amiúde contraditória, tanto na literatura como no discurso quotidiano. Às vezes, fica-se fascinado por esse corpo. Foi o que aconteceu muitas vezes quando os europeus entraram em contacto com o corpo nu dos povos das zonas tropicais das Américas e de África, embora com atitudes diferentes relativamente a esse fascínio. A referência à beleza desses corpos faz, às vezes, parte do louvor de uma vida ou de uma ordem social “natural” que é idealizada. Outras vezes, é um fascínio adversativo, se se pode dizer assim: constata-se essa beleza, apesar de os nativos serem seres inferiores, quando não sub-humanos. Parece-me claro que, independentemente da maneira como são valorizados os habitantes da América e de África e as suas sociedades, o deslumbramento perante os seus corpos resulta sobretudo de estes serem visíveis, simplesmente. É uma revelação: como o enfermeiro que me levou a Joanesburgo, os viajantes europeus vêm de sociedades onde o corpo se oculta.

Agora, também acontece a negação da beleza primitiva ou selvagem: a caracterização da negatividade do Outro pode incluir também os seus corpos, escuros, disformes, simiescos, doentes… Outras vezes, o discurso sobre o corpo do Outro é às vezes hesitante, contraditório. A mesma voz pode alternar entre exaltar a beleza do Outro e sublinhar a sua fealdade. E, às vezes, arranja-se maneira de anular o corpo do outro, embora mostrando-o. Encontrei num livro de 1905 sobre o Congo belga* esta curiosa fotografia. Segundo a legenda, estes corpos nus são apenas “exemplos de penteados”. “Amostras” talvez seja até um termo melhor, para indicar que é de mostrar que aqui se trata.

É a mesma redução etnográfica, chamemos-lhe assim, que faz com que, na juventude do enfermeiro que me acompanhou a Joanesburgo, se pudessem mostrar seios das mulheres xhosas ou zulus na África do Sul, quando não se podiam mostrar seios de mulheres africânderes: transforma-se o corpo do Outro num objeto de estudo etnográfico, em documento da vida selvagem. Em grande medida desumanizado, o corpo é, por isso, des-sexualizado. Ou antes, pretende-se que seja. Mas nem sempre se consegue.

A um conjunto de ideias sobre o Outro e de imagens desse Outro corresponde, em princípio, um conjunto de sentimentos sobre ele. Algumas ideologias racistas levam à a recusa do corpo do Outro – os corpos nus das etnias desprezadas não excitam sequer. Como me explicava o enfermeiro. É aquilo a que se chamou “o racismo da aversão”, por oposição a um “racismo da dominação”, que não desdenha apropriar-se sexualmente do dominado. Agora, tenho a certeza de que, em muitos casos, não é diretamente sobre os sentimentos que a censura do racismo age, mas sim sobre a expressão desses sentimentos. Parece-me muito provável que a exposição do corpo selvagem como curiosidade etnográfica escondesse, afinal, um deslumbramento por esse corpo. Um deslumbramento que as regras sociais não deixavam dizer.
*** 
Encontrei no outro dia, num passeio pela Internet que nem me lembro já que objetivo tinha, uma passagem interessante de um romance que nunca li, de Carlos Fuentes**.
A pergunta essa noite foi proposta por mim: Porque refreamos as nossas grandes paixões?
– O que é que queres dizer? – perguntou o ator – Que se as refrearmos voltamos à lei selva? Isso já nós sabemos – disse ele, com um gesto acre do nariz e os lábios torcidos, muito característico dos seus papéis no cinema.
– Não – expliquei-me. – Peço-lhes que muito pessoalmente declarem por que razão, na maioria dos casos, quando surge a oportunidade de viver uma grande paixão pessoal a deixamos passar, fazemo-nos tontos, parecemos, às vezes, cegos, diante da melhor oportunidade de nos empenharmos numa coisa que nos dará una satisfação superior, uma...
– Ou uma profunda insatisfação – disse Diana.
– Também é verdade – disse eu. – Mas vamos por partes. Lew.
– Ok, não direi que toda a grande paixão nos devolve ao estado animal e dá cabo das leis da civilização. Mas está sempre a acontecer, desde o sexo com a nossa mulher até à política. Talvez o mais secreto temor seja que uma paixão cega, irrefletida, nos faça sair do grupo a que pertencemos, nos torne culpados de traição...
O velho falava de forma dorida. Interrompi-o, sem me dar conta de que estava a violar a minha própria premissa. Não o deixava entregar-se à sua paixão, porque senti que estava a personalizar, a pensar demasiado na sua própria experiência... Diana olhou para mim com curiosidade, sopesando a minha propensão às boas maneira, a evitar fricções...
– Dizes isso por causa do sexo, referes-te à paixão sexual?
Não, disse-me Cooper com o olhar. – Sim. É isso. A paixão arranca-nos ao grupo familiar. Pode violar a endogamia. Endogamia e exogamia. São essas as duas leis fundamentais da vida. O amor com o grupo ou fora dele. O sexo dentro ou fora. Decidir isso, saber se o sangue fica em casa ou se faz vagabundo, errante, é isso que nos impede de seguir a grande paixão. Ou nos atira de cabeça para o abismo do desconhecido. Necessitamos de regras. Não importa que sejam implícitas. Têm de ser seguras, claras para o nosso espírito. Casas-te dentro do clã. Ou casas-te fora dele. Os teus filhos serão da nossa família ou serão estranhos. Ficas aqui junto ao lar dos teus avós. Ou sais para o mundo.
Ao ler isto, lembrei-me de um amigo me falar, há muitos anos, de uma teoria segundo a qual a paixão amorosa teria tido origem na necessidade de exogamia, de “renovar o sangue”. Por mais voltas que dê a palavras-chave, não consigo descobrir na Internet que teoria era essa. Talvez esteja a lembrar-me mal. Mas não importa. O que me parece fazer sentido é que, independentemente de ter ou não surgido para arrancar as pessoas ao seu clã, a paixão amorosa acaba sempre por ter também essa função, quando as pessoas não conseguem controlar-se como o Lew Cooper da novela de Fuentes (e muita gente…) acha que se devem controlar. “Na perspetiva evolutiva, a dosagem de exogamia e endogamia foi sempre delicadamente equilibrada para garantir ao mesmo tempo coesão do grupo e diversidade genética.”*** Há casos, porém, em que não é equilíbrio nenhum, delicado ou não; em que se torna simplesmente um inferno a vida de quem se deixe deslumbrar por um corpo Outro, por uma alma Outra. Mas não há como o impedir: nem que só muito raramente, há de haver quem se deslumbre. Quem deixe o lar dos avós e se atire de cabeça para o abismo do desconhecido, quem saia para o mundo. Ámen.

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* Wack, Henry Wellington. The story of the Congo Free State; social, political, and economic aspects of the Belgian system of government in Central Africa. Nova Yorque & Londres: G. P. Putnam's sons, 1905. Foto da página 151.
** Fuentes, Carlos. Diana, o la Cazadora Solitaria (Mexico: Alfaguara Hispánica, 1994. Traduzo eu.
*** Graham Richards, Race, Racism and Psychology: Towards a Reflexive History Paperback, Londres e Nova Iorque: Routledge, 2011. Traduzo eu. Foi no mesmo livro que encontrei a distinção que uso neste texto entre racismo de aversão e racismo de dominação (aversive racism e dominative racism). 

19 de junho de 2015

Ao correr do teclado, sobre investigadores e investigações

Tenho andado a re/ver no YouTube algumas aulas e conversas de Richard Feynman, que é alguém que vale sempre a pena ouvir: grande capacidade de comunicação, grande poder de síntese, exemplos sempre à mão e muitos conhecimentos e ideias interessantes. Um dos vídeos que primeiro me chamou a atenção é de uma aula na Universidade de Cornell em 1964. Feynman fez aí uma descrição do trabalho de procura de uma lei científica que ficou famosa, ao que percebo, e que foi depois publicada em livro:
Em geral, procura-se uma nova lei pelo seguinte processo: começamos com uma conjetura; depois, calculamos as consequências dessa conjetura para vermos as implicações da lei, se estivesse correta; depois ainda, comparamos o resultado do cálculo com a Natureza por meio da experiência ou da experimentação. A comparação é efetuada diretamente com as observações para vermos se a lei funciona. Se não concordar com a experiência, está errada. Nesta simples afirmação reside a chave da ciência. Não importa a beleza da nossa suposição. Não importa a nossa inteligência ou a reputação de quem fez a conjetura − se a lei não concordar com a experiência está errada. E é tudo[1].
Tomando a expressão lei científica em sentido lato, referindo-se, sei lá...,  tanto às leis da termodinâmica como à aquisição da pronúncia da língua materna, poderia dizer-se que, neste resumo, Feynman descreve de facto todo o processo científico; mas seria uma grande injustiça para todos os que, pacientemente, vão apenas recolhendo informação, sem por isso proporem quaisquer leis. É essencial em ciência o papel das bases de dados (não forçosamente no sentido informático da expressão, claro), ou seja, do conjunto de descrições da realidade que nos permitem, precisamente, aferir a validade de qualquer lei ou teoria.

Como interagem a formulação de hipóteses e os dados recolhidos é uma questão interessante. No outro dia, comprei em segunda mão uma edição ilustrada das quatro novelas de Sherlock Holmes. Nunca tinha lido nenhuma história de Sherlock Holmes, vejam lá. Tinha lido coisas de Conan Doyle e até já falei aqui dele, mas não eram aventuras de Sherlock Holmes. Na primeira novela, o célebre investigador adverte para o perigo de formular hipóteses antes de ter recolhido os dados. Diz ele (e traduzo eu):
É um erro enorme teorizar antes de ter os indícios todos. Faz-nos ser tendenciosos.[2]
Descobri depois, na Wikipédia, que Holmes repete a mesma ideia em As aventuras de Sherlock Holmes:
É um erro enorme teorizar antes de ter dados. Sem o sentir, uma pessoa começa a distorcer os factos para os fazer corresponder às teorias, em vez de fazer teorias que correspondam aos factos.[3]
Exame do crânio de Piltdown. John Cooke, 1915 (de Wikimedia Commons)
Na história verídica do Homem de Piltdown juntam-se a aventura de detetives e a investigação científica
(e talvez também Conan Doyle, mas isso é só uma conjetura… 
O trabalho do detetive é basicamente o mesmo que o do cientista e de quem quer que procure a verdade com base em observações que podem ser feitas por toda a gente. Pode pensar-se, talvez, que as conclusões da investigação criminal costumam ser mais definitivas (descobre-se o culpado, pronto) que as da Química, da Linguística ou da História, por exemplo, que são mais passíveis de posterior revisão, para serem aperfeiçoadas ou substituídas por novas conclusões. Mas, mesmo na investigação criminal, também não há verdades definitivas, como no-lo mostram os muitos casos em que se revela, às vezes muitos anos depois, que o condenado não era afinal culpado. Em qualquer tipo de investigação, é fundamental a honestidade do investigador, antes de mais consigo mesmo – tentar sempre pôr em causa os seus sentidos e toda a classe de sentimentos. Deve observar-se, digamos assim, uma rigorosa ética de renúncia ao eu, um pouco como a propõem alguns místicos de várias religiões.

Dito isto, e por fundamentados que sejam os receios de Sherlock Holmes relativamente à tendência de confirmar na observação aquilo em que se acredita à partida, é importante realçar que o controlo da validade das conclusões de uma investigação não é apenas pessoal, interior: vai haver (devia sempre haver…) outras pessoas a julgar as provas e as deduções do detetive e do historiador, e a refazer os cálculos e as experiências do cientista, e é assim que se certifica que os dados não foram escolhidos a dedo ou torturados até dizerem o que o investigador queria que eles dissessem.

Se continuarmos a seguir a aula de Feynman atrás referida, vemos que não é qualquer palpite que serve de ponto de partida ao trabalho científico, mas que deverá ser, é claro, uma conjetura abalizada[4]. Não basta “montar um grande computador com uma roda que faz uma sucessão de conjeturas” ao acaso e testá-las todas, quanto mais melhor. Quer dizer, se não forem possibilidades realmente intestáveis e que, por isso, não podem aspirar ao estatuto de observáveis, sobre, por exemplo, o que sentiram os americanos originais quando viram chegar os primeiros europeus, a reprodução das sereias ou a alma das nações, podem de facto verificar-se até hipóteses mesmo muito disparatadas, mas não há razão nenhuma para se gastar tempo e dinheiro para o boneco (a não ser em casos em que se pretende justamente desmantelar uma hipótese disparatada que alguém insista em considerar “um facto”, como certos postulados das pseudociências...).

Fazer uma boa conjetura é, pois, uma parte importante do trabalho. Tão importante que, se a hipótese for boa, recorda-nos Priyamvada Natarajan numa conversa recente no site Edge, ninguém passa a considerar menos o seu autor quando ela se revela falsa. A beleza da ciência, diz ela, é poder provar-se que uma pessoa tem ou não razão. Uma das belezas, sem dúvida. Outra é essa de ninguém perder valor por não ter razão, se tiver feito devidamente o seu trabalho. Notem que não é de modo nenhum de astrofísica que aqui se trata, até porque não é assunto sobre o qual me sinta com capacidade de escrever seja lá o que for, pelo que salto a explicação das teorias que ela descreve e que poderão conhecer, se for do vosso interesse, seguindo a link atrás. Notem também como este processo segue rigorosamente a descrição de Feynman: há um fenómeno que não se sabe explicar, pelo que é necessário uma lei nova; aventa-se uma proposta de explicação; calculam-se as consequências que essa lei teria, a ser verdadeira; e verifica-se se essas consequências se observam ou não na realidade. Traduzo eu:
Propusemos [a] ideia dos Buracos Negros de Colapso Direto que são muito maciços e se formam muito cedo no universo […]. Claro, há consequências da formação de buracos negros, ou de uma população deles, desta maneira, em vez de ser por meio de estrelas. A principal previsão deste cenário é que se devem ver quasares muito brilhantes muito mais cedo no universo […] É uma previsão que será testada pelo Telescópio Espacial James Webb, que esperamos que seja inaugurado em 2018.

Vai ser muito emocionante provar-se se temos razão ou não. É essa a beleza da ciência. Uma pessoa poder sentar-se no seu escritoriozinho em New Haven e fazer um cálculo que uma comunidade leva suficientemente a sério para o testar, e é fantástico que o façam num prazo de dez, quinze anos […]. É claro, seria bom ter razão.

A questão de se provar várias vezes que uma pessoa está errada e essa pessoa ser, ainda assim, uma cientista respeitada é uma excelente questão. Tem havido muitos casos em que houve grandes espíritos que propuseram ideias fortes, muitas das quais se tem provado que estão erradas, e eles são considerados, ainda assim, os mais brilhantes astrofísicos.
Eu sei o que estão a pensar: que este tipo de reconhecimento não é de modo algum exclusivo da ciência, que há muito quem continue a ser admirado depois de se provar que não tinha razão – e não só por familiares e amigos. É certo. Quando, porém, se trata de formas de “conhecimento” não sujeitas à confrontação com a observação e ao escrutínio de outros especialistas, sejam elas religiosas, pseudofilosóficas ou pseudocientíficas, o mais normal é nunca se provar que alguém não tem razão, simplesmente porque não há nada a provar, é tudo só uma questão de crer[4]...
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[1] Richard Feynman, O que é uma Lei Física, Lisboa: Gradiva, 1989. Tradução de Carlos Fiolhais. No vídeo da aula de Feynman de que é tirado o texto,os alunos riem-se quando ele diz “First, you guess”, o que não aconteceria, penso eu, se alguém dissesse, em português, “começamos com uma conjetura”. Isto tem a ver com o leque mais amplo de significados da palavra guess, mas não me parece que a tradução seja incorreta, parece-me até muito acertada.
[2] “A Study in Scarlet” in Sherlock Holmes, The Complete Illustrated Novels, Londres: Bounty Books, 2005: “It is a capital mistake to theorize before you have all the evidence. It biases the judgment.”
[3] “A Scandal in Bohemia”, in The Adventures of Sherlock Holmes, Londres: George Newnes, 1892: “It is a capital mistake to theorize before one has data. Insensibly one begins to twist facts to suit theories, instead of theories to suit facts.” Uma coisa que me veio logo à cabeça, quando li estas sentenças de Sherlock Holmes (não me atrevo a sugerir que se deve ler nas afirmações do investigador a opinião do seu autor…), foi que, em abstrato, pode também pensar-se exatamente o contrário: que basear-se sempre em dados previamente recolhidos pode influenciar a formulação da hipótese, limitando-a. Por cercear a imaginação, digamos assim. É-me difícil, porém, pensar em exemplos concretos dessa possível limitação.
[4] E depois, mas isso é outra história, há os casos de vários guias espirituais de todo o tipo que, depois de serem desmascaradas as suas fraudes ou as enormes incoerências entre o que pregam e o que fazem, não perdem a legião de discípulos e admiradores – os discípulos não reconhecem que o seu mentor espiritual estava errado, nem sequer, muitas vezes, aceitam as críticas que lhe fazem, sobretudo porque, se o fizessem, teriam de aceitar o seu próprio equívoco… Como me sugeriu j.j.amarante, esta referência a guias espirituais deve também incluir políticos.

Mais 3 notas avulsas sobre coisas da língua

1 [Concordância de tempo] 
Quando era rapaz novo, havia músicas de que não gostava, porque eram repetitivas e não tinham solos instrumentais, e hoje gosto dessas mesmas músicas, porque são repetitivas e não têm solos instrumentais. Como as coisas são!...

E como é a gramática!... Vejam lá: essas músicas eram repetitivas e hoje são repetitivas, como se tivessem um antigamente e um agora… Mas digam-me, que eu tenho dúvidas em relação a isto: apesar de ser normalmente o presente que designa, em português, o que não tem tempo («A toninha é um mamífero», «A 7ª sinfonia de Sibelius só tem um andamento»), não se diz «havia músicas de que não gostava, porque são repetitivas e não têm solos instrumentais”, pois não? Não é pergunta retórica, queria mesmo saber o que dizem e ouvem dizer, e agradeço antecipadamente a vossa colaboração.

2 [Ainda a propósito de ]
Escrevi eu aqui uma vez que, a par das duas propostas mais conhecidas da origem de (de rapaz e de compadre), se podia considerar outra, a das onomatopeias epá e opá, comuns a uma vasta zona de línguas ibéricas (ver aqui o desenvolvimento da ideia). Há ainda, tinha-me esquecido, a possibilidade de vir de pai. Já vi e ouvi algumas vezes na minha vida “Ó paizinho” como vocativo popular, dirigido não ao progenitor, mas a um desconhecido, e também a exclamação “Ena pai!”, que voltei a encontrar há pouco tempo no conto “José Valentim”, de Fialho de Almeida (Mem Martins: Europa-América, s/d). É claro, pode muito bem ser ao contrário: que de se tenha “reconstruido” um étimo fictício pai, talvez por analogia com tio, que também se usava muito como vocativo na língua popular. Vá lá uma pessoa saber…

3 [Bacon: da necessidade, ou não, de palavras importadas, mais uma vez] 
Bacon é um bom exemplo de uma palavra estrangeira que se adota com um produto novo. A minha avó conheceu o produto bacon na mesma altura em que eu o conheci e aceitou o nome inglês, que pronunciava beique. À pergunta “É mesmo necessária a palavra inglesa?”, a resposta é que não, como nunca é, nem que tenha de se criar uma palavra nova. Como se diz então bacon em português?

Em abstrato, creio que não se pode mesmo traduzir diretamente sempre da mesma maneira, porque a palavra inglesa não refere um produto apenas, mas vários e, ao que sei, não temos nenhum termo ou expressão que cubra os mesmos significados. A tradução toucinho fumado, que já vi proposta, pode funcionar às vezes, se for de smoked bacon que se está a falar, mas nem todo o bacon é fumado, e nem sequer curado, porque há bacon fresco (green bacon). O bacon do ombro e outros cortes de bacon não têm mesmo nada de toucinho.

Mas é certo que isto são produtos mais raros, não precisam tanto de tradução... Atenhamo-nos então ao bacon mais comum, o chamado streaky bacon, vá, para não nos perdermos em complexidades gastronómicas. Como a palavra toucinho é muito abrangente (fumado ou não, é às vezes fat, às vezes lard e às vezes bacon), para o streaky o melhor seria, provavelmente, usar entremeada, que é como se costuma chamar a esse toucinho entremeado. Até porque toucinho fumado só, sem mais, faz-me antes vir à mente um tipo específico de bacon com pouca ou nenhuma carne – que se encontra, sob várias designações, em vários países (o que se vê nesta imagem). Posso, aliás, querer dizer que no outro dia (é verdade), o supermercado tinha bacon fumado (røget bacon) mais caro que (arrisco…) toucinho fumado (røget spæk). Não sei se se tinham enganado a pôr os preços, porque normalmente é ao contrário

Entremeada curada, ou salgada e defumada, ou algo assim, tem poucas possibilidades de vingar e é mais realista aceitar, estou eu em crer, que bacon é palavra importada que veio para ficar em português e em muitas outras línguas. Talvez se possa começar antes a pensar numa maneira de aportuguesar a grafia, mas bêicone, hmmm, não me cheira… (E depois, em resolvendo isto do bacon, a ver se começamos a pensar em como chamar em português às costeletas kasseler…)

5 de junho de 2015

Objetos artificiais, pessoas e outros animais atingidos por meteoritos

Na Internet encontra-se de tudo (e já se encontra muito de grande parte das coisas…). É como na botica, a bem dizer, mas, boticas assim, há muito que não nas há, a não ser no Canadá.

Até se encontra quem conte objetos artificiais, animais e pessoas atingidas por meteoritos! E fica a saber-se que só se conhece com relativa certeza de um caso antes de 1775 e que, a partir daí, o número de casos registados aumenta progressivamente. Porque caem agora mais meteoritos? Claro que não.

Isto ensina, entre outras coisas, a ter bom senso e a nunca se esquecer de ter em conta todos os fatores: seja doentes de asma ou quedas de meteoritos, não basta dizer que há cada vez mais, é preciso contar também que somos mais agora e que há cada vez mais registos de tudo. Além de que, no que toca a doenças com maior incidência em idades mais avançadas, se vive muito mais tempo hoje; e, claro, se se morria de uma infeção na boca aos 25 anos não se chegava a morrer de cancro da próstata aos 65