31 de julho de 2015

Reforma e acordo: a parte não ortográfica

Como já aqui disse algumas vezes, se não sou detrator do AO90, também não sou propriamente seu defensor – embora na prática o tenha sido muitas vezes, como outras pessoas, por reação a muitos ataques sem fundamento que são feitos à nova ortografia. Adotei-o há já algum tempo, por ser a grafia oficial. Já antes escrevia com a grafia oficial, de que também não era detrator nem defensor, pelo que, a esse respeito, não se alterou nada.

A minha experiência é que, ao contrário do que muitos afirmam (sobretudo quem não mudou), não é mesmo nada difícil mudar para as novas regras. Aliás, escrevo todos os dias com a nova grafia e com a grafia anterior ao acordo, porque escrevo muitos textos para Moçambique; e mesmo isso, saltar de uma grafia para a outra, não cria complicações nenhumas. Pode haver um engano de vez em quando, mas isso há sempre, use-se que grafia se usar.

Como também já aqui disse, não vejo que o AO90 tenha introduzido na escrita do português alguma incoerência que não existisse já[1] e acho que, nalguns aspetos, contribuiu para se avançar no espírito inicial – e fundamental! – da reforma ortográfica de 1911: abandonar a lógica essencialmente etimológica para passar a uma lógica essencialmente fonológica[2].

Uma parte das críticas ao AO90 diz respeito a aspetos não ortográficos. Já vi essas críticas isoladas[3] e são de facto questões completamente distintas das levantadas pela reforma ortográfica. É também útil, por uma questão de organização da discussão, distinguir reforma ortográfica de acordo de unificação da ortografia nos países de língua oficial portuguesa. Uma pessoa pode, em última análise, não ter nada contra as alterações introduzidas na ortografia, mas discordar da necessidade da reforma ou de acordo (ou, numa versão fraca deste desacordo, da sua oportunidade), achar que o processo foi pouco democrático, que a mudança é demasiado onerosa, a todos os níveis, que o acordo acaba por não alcançar os objetivos que se propunha alcançar, que um dos seus resultados é a proliferação de grafias oficiais (três em vez das duas que havia) e ter ainda outras objeções ao AO90 que eu não conheça ou de que me esteja agora a esquecer. Admito de bom grado a pertinência de algumas destas críticas e, embora nem sempre as possa avaliar devidamente, por falta de informação, passo em revista as objeções acima listadas.

Comecemos pela questão da necessidade e da oportunidade. Na realidade, uma reforma ortográfica nunca é necessária, se aceitarmos uma escrita tão opaca que se escreva Constantinopla e se pronuncie [ištãbul], como diz uma amiga minha. O inglês ou o francês, por exemplo, que têm uma grafia meio milénio atrasada em relação à língua, nunca tiveram problemas de maior por causa disso[4]. Por muito que isso não agrade a quem, como eu, prefira encontrar nas regras em geral, ortográficas ou não, um sistema o mais lógico possível, em vez da prevalência de uma tradição, a inércia ortográfica pode de facto defender-se[5]. Nem sequer é necessário, em última análise, definir normas ortográficas. Vivemos muito tempo sem isso, não foi[6]?

Que o acordo não é necessário, também o posso admitir: cada país podia continuar a ter a sua ortografia. Bom, é um pouco contra o espírito dos tempos, já que as outras línguas mais internacionais têm padrões comuns definidos (embora, no caso do inglês, com predominância regionalmente determinada das formas em que se admite variação) e é um pouco contra o meu espírito normalizador, mas é uma posição possível. Quando digo que tenho espírito normalizador, quero dizer que sempre me pareceu muito útil a padronização transnacional, quer se trate de passos de rosca, fichas e tomadas, sistemas de DVD ou medidas de comprimento e capacidade, e não vejo que mal possa advir da uniformização das regras ortográficas – mesmo que produzam algumas formas diferentes, como não pode deixar de ser, dada a grande variação dialetal do português. É de simplificação que se trata. Mas necessário, em sentido estrito, não é.

Juntando à constatação da falta de necessidade o postulado de que só se deve legislar quando necessário, tem-se um argumento sólido contra todas as reformas e toda a uniformização ortográfica – mas, insisto, terá de se aceitar que a grafia possa distanciar-se indefinidamente da língua. Senão, põe-se a questão da oportunidade. A questão complexa é definir qual o momento oportuno para um ajuste. Os defensores da grafia anterior ao AO aceitam que 1911 foi um momento oportuno. Porquê 1911 e não 1990? E quando será o próximo momento oportuno?

Se há argumento a que sou sempre sensível é o da (falta de) democracia. Mas não é, neste caso, um argumento muito óbvio.

Por um lado, é sempre complicado sobrepor o critério da democraticidade a outros critérios, em questões deste tipo. Já aqui discuti um pouco a questão há 4 anos, usando o exemplo da introdução da “vírgula lógica” no dinamarquês (semelhante à que se usa em português, inglês, francês, etc.), substituindo a tradicional “vírgula gramatical” (em que todas as orações são divididas por vírgula, como na ortografia alemã, por exemplo): é certo que o Sprognævn, a entidade que regula as coisas da língua na Dinamarca, deu um exemplo de democraticidade ao voltar atrás na sua proposta de novas regras de uso da vírgula, porque a maioria das pessoas preferia (claro) a pontuação que tinha aprendido e a que estava habituada; mas esse recuo faz com que a Dinamarca continue com um sistema de pontuação muito minoritário no contexto europeu e contribui para que os dinamarqueses, um dos povos mais competentes em inglês como segunda língua, continuem a dar erros na pontuação em inglês. É claro para mim que o Sprognævn tinha razão na sua proposta, como é claro que, em coisas de escrita, se a decisão for deixada aos utentes, estes preferirão sempre o que conhecem à introdução de sistema novos, por muito que obviamente melhores.

Por outro lado, quando a crítica à democraticidade do processo de imposição de uma escrita vem de defensores da ortografia anterior, é curioso que se recuse a atual grafia por imposta e se aceite a anterior, que não foi menos imposta. Aliás, ao que sei (mas é certo que não sou um especialista da matéria, pode haver casos que ignoro), tirando casos raros como o atrás referido da nova vírgula dinamarquesa, o estabelecimento de normas ortográficas não parece ser especialmente democrático em lado nenhum[7].

Mais uma vez, pode separar-se, se se quiser, a questão da democraticidade da reforma da questão da democraticidade do processo de acordo. Devo confessar que não acompanhei o processo de acordo e que não tenho, sequer, uma opinião clara sobre como deveria ser conduzido um processo deste tipo, mas, ao que sei, foi conduzido por (alguns dos) órgãos que se espera que conduzam um processo deste tipo: a Academia Brasileira de Letras, a Academia das Ciências de Lisboa[8], a CPLP, os Ministérios da Educação e os Governos dos países em questão. Podiam ter sido outros órgãos, podia seguramente ter-se alargado o processo de produção e debate do acordo, podiam ter-se feito – podem sempre fazer-se – as coisas de outra maneira, mas duvido que pudessem ter sido feitas de maneira a que toda a gente aceitasse a alteração da grafia sem uma contestação semelhante àquela a que se assiste agora...

Quanto ao argumento de que a reforma é cara, vi-o algumas vezes usado relativamente ao AO90 em geral e algumas vezes relativamente aos casos particulares de Angola e Moçambique. A questão do preço é outra sobre a qual não tenho grandes dados, devo dizer. Tenho a ideia de qualquer reforma tem um custo, mas não faço ideia, nem aproximada, do preço que esta possa ter[9]. Compreendo bem que se possa argumentar que é um desperdício inutilizar manuais escolares com ortografia antiga e produzir novos com grafia nova, mas sinto-me incapaz de me pronunciar informadamente sobre a questão, porque não sei qual é a realidade no terreno em Angola e Moçambique, que níveis de reutilização de manuais há, e nem sequer se foi acordada alguma coisa sobre isto [10]. Agora, se o argumento é possivelmente válido para esses países, onde a ortografia ainda não foi alterada, em Portugal é válido agora apenas no sentido contrário: como já não há manuais com a ortografia antiga, voltar a ela, como alguns pretendem, é que implicaria custos adicionais. É de notar também que a questão só se põe em relação a manuais usados em níveis em que alunos que não tenham solidificada a competência de leitura, porque pode de facto ser confuso nessa altura contactar simultaneamente com duas ortografias. Os outros podiam e podem ler na ortografia anterior sem problemas, sobretudo porque há muito poucas diferenças (muito mais difícil é ler na ortografia anterior a 1911, mas, mesmo isso, não é muito difícil para quem leia bem). Quanto aos restantes livros (dicionários incluídos!), a questão não se põe: nenhum livro perde atualidade, e muito menos utilidade, só porque muda a ortografia.

Sobre o problema do aumento do número de grafias oficiais, acho não se deve confundir com o acordo os problemas criados pelo seu incumprimento. Se coexistem, neste momento, várias normas ortográficas, não é por ter sido assinado um acordo, é por ele ainda não ter sido posto em prática, é outra coisa.

Agora, se não se pode culpar a AO90 da sua não-aplicação, pode-se acusá-lo de ser de difícil execução. Mas isso já se sabia à partida. Eu, pelo menos, nunca tive ilusões quanto a isso. Aliás, a impressão que tenho é que, ao introduzir uma reforma ortográfica, ter em conta a dificuldade de execução leva forçosamente à inércia, sobretudo porque dar erros não é crime – nem deve ser – e, portanto, a fixação de uma norma de escrita nem chega a ser legislação em sentido estrito... Acho que quem tivesse refletido um pouco sobre as questões da ortografia e tivesse informação sobre a aplicação de reformas ortográficas esperava, com toda a certeza, muita resistência, alguma confusão, e um longo período até a reforma e o acordo estarem estabilizados. É sempre assim.


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[1] Ao que vejo, o mais polémico do AO90 é terem deixado de se escrever letras etimológicas não pronunciadas. Muito do resto se ignora, em qualquer sentido da palavra ignorar, agora os cc e os pp que desaparecem é que nunca. Um argumento frequente – e compreensível – era que deixa de ser marcado na escrita o timbre “aberto” da vocal átona anterior, mas essa falta de marca de “abertura” acontecia já na grafia anterior. Basta pensar em vocábulos tão comuns como aquecer ou arrefecer, mas há dezenas e dezenas de outros exemplos. Por vezes, o desaparecimento da letra veio criar coerência, como no caso de óptimo, cujo p era anómalo no sistema.
[2] Não fonética, mas fonológica. Tenho-me dado conta de que isto é uma questão demasiado técnica para a maior parte das pessoas e também não é agora que vou insistir neste ponto. Duma maneira simples, o que quero dizer com isto é que se mantém o mesmo símbolo para unidades que mudam de pronúncia conforme sejam acentuadas ou não e consoante os sons que têm antes ou depois, e que podem ou não pronunciar-se. Exemplos disto são: os dois dd de dado, no português europeu; os dois ll de leal, em toda a lusofonia; os oo de comer e de come; os ss de mesmo e de mestre, e os ss finais de olhos nas sequências olhos azuis, olhos verdes e olhos pretos; o e de mexe, que, mesmo não se pronunciando, existe no sistema (como se constata por o x se pronunciar sempre /š/ independentemente do que venha a seguir, ao contrário do que acontece com o s final de s em mês de janeiro) ou o e de vale, tanto verbo como nome, que também existe no sistema mesmo não se pronunciando (como o provam o plural vales ou a forma com pronome vale-o), etc., etc., etc.
[3] De facto, a ideia que tenho é que, como na grande maioria dos casos tem uma base essencialmente afetiva, a contestação ao acordo lança mão de todas as críticas, sem se dar conta, muitas vezes, de que umas são incompatíveis com as outras, quando não contraditórias. Um bom exemplo é acusar-se o acordo de ser “foneticista” e, ao mesmo tempo, de fazer desaparecer marcas do timbre das vogais…
[4] Há quem defenda que estas grafias causam de facto algumas dificuldades de aprendizagem e também há quem diga que o número de erros na escrita é muito maior numa língua de grafia muito opaca, como o francês, que numa língua de grafia muito transparente, como o finlandês. Também é verdade que já vi a tese contrária, de que a opacidade da escrita é benéfica para a aprendizagem, mas não conheço, infelizmente (não digo que não haja), trabalho experimental que o confirme.
[5] Uma das coisas que me desagrada no AO é precisamente continuar-se, nalguns pontos, a invocar a tradição, em vez de propor uma verdadeira regra – ou seja, uma regra computável. A meu ver, quer se trate de ortografia como de moral, a tradição é má justificação para uma regra. De facto, acho que é antes uma injustificação.
[6] Até 1911, nunca houve ortografia oficial.
[7] A minha amiga Edite Gonçalves tem um texto no seu blogue em que dá conta das preocupações de muita gente relativamente à ideia de sujeição a referendo de questões como esta, uma ideia defendida por certos opositores do AO90. É claro que a democraticidade de um processo deste tipo não passa forçosamente por um referendo, podendo antes pensar-se em constituição democrática dos órgão responsáveis. Bom, em órgãos responsáveis de política linguística, a tradição parece antes ser a nomeação, nos poucos casos que conheço, mas não digo que não pudesse haver formas mais democráticas de constituição desses órgãos, contanto que se assegurasse o nível científico indispensável – uma coisa que não acontece forçosamente com os sistemas de convite atuais, porque não é necessário ter conhecimentos técnicos sobre língua para se fazer parte destes órgãos, mas antes ser-se antes o que se poderia designar como «utilizador de alta qualidade».
[8] Ao contrário de muitos países, não temos um órgão exclusivo para coisas de língua, mas a as secções de Literatura e Estudos Literários e de Filologia e Linguística da Academia das Ciências de Lisboa são, creio eu, o que me mais se aproxima de uma «Academia Portuguesa». Notem que me escuso a discutir aqui a minha opinião sobre a competência e a utilidade desta (e doutras) instituições oficiais de língua, que é assunto à parte.
[9] Aliás, a própria ortografia tem um preço, como tudo na vida. Mas é um preço muito difícil, se não mesmo impossível, de contabilizar. Uma vez, propus aqui (uma provocadora brincadeira, a terminar um texto sério) que se calculasse a poupança de eliminar letras desnecessárias em inglês e francês. Imaginem que a coisa se alarga à grafia de todas as línguas… De facto, não sei, nunca fiz a experiência, mas seria interessante comparar o volume de texto das diversas grafias ao volume de texto das mesmas línguas com uma escrita racionalizada, por exemplo com o Alfabeto Fonético Internacional. Agora, sabiam que o português escrito (experiência própria, dezenas de vezes repetida sempre com os mesmos resultados) gasta cerca de 10% mais papel e tinta que o inglês? Parece-me extremamente improvável que a produção de som seja de facto maior numa língua que noutra, mas nunca vi nada sobre o assunto. Esta informação agradará, sem dúvida, aos defensores de ortografias opacas.
[10] A questão ortográfica tem um peso diferente em países onde a língua oficial é uma língua segunda ou estrangeira para a maior parte da população. Se a ortografia não afeta a pronúncia é porque não é pela escrita que aprendemos palavras e, mesmo quando as aprendemos pela escrita, ouvimo-las também uma quantidade de vezes suficiente para interiorizarmos assim a forma fonética comum. Só quando isto não acontece é que há influência da grafia na pronúncia e é isso o que acontece, precisamente, na aprendizagem de línguas estrangeiras, por exemplo em situação escolar, em que apenas o input da pronúncia do professor não é suficiente para se sobrepor ao impacto da grafia. Há sempre dois condicionadores da pronúncia, o sistema fonético interiorizado da língua materna e a grafia das palavras escritas. A questão da influência da grafia na pronúncia faz-se ainda mais sentir quando não só os alunos mas também os professores têm outras línguas maternas – e pouca formação pedagógica. Há, por exemplo, fenómenos que se observam na pronúncia dos moçambicanos que não têm o português como língua materna que dificilmente se explicam a não ser pela insistência, no ensino da língua, numa correspondência biunívoca som-letra. (Não conheço Angola, mas não me surpreenderia que se verifique lá o mesmo fenómeno.) É claro que, em certas zonas, a pronúncia estrangeira acaba por influenciar a pronúncia dos falantes nativos, que crescem com essa pronúncia como input principal. Pode argumentar-se que, nesta situação, o que ajudaria não é tanto uma escrita fonológica, mas antes uma escrita mais fonética, que, de qualquer forma, a reforma ortográfica, no geral, não produz. É certo, e é um problema para que não vejo solução – a não ser o tempo, que dizem que tudo soluciona. Também haverá quem diga que mais importante que a fixação da grafia é a definição de uma norma morfossintática (a norma europeia, que continua, por inércia, a vigorar, já está um pouco desfasada da norma usada na comunicação social, por exemplo), mas também tenho muitas dúvidas sobre o interesse – e a possibilidade – de se definir, pelo menos agora, uma coisa dessas…

28 de julho de 2015

Uma versão nova de um velho aforismo

Diz uma frase famosa: de um senhor chamado H. L. Mencken que «A cura para os males da democracia é mais democracia.»* Muitos aforismos comummente citados são mais bem achados que verdadeiros, mas não me parece que seja o caso desta frase: é que não vejo mesmo que soluções não democráticas se possam propor para quaisquer problemas que possam surgir de uma comunidade ou sociedade funcionar de forma democrática.

Quando tanta gente põe em causa a ideia de União Europeia, por razões compreensíveis, o que me vem à cabeça, a mim que acredito cada vez menos que haja ainda soluções nacionais para os problemas de cada nação, é uma adaptação da frase de Mencken: «A cura para os males da Europa é mais Europa.» Também se podia dizer de outra maneira: «A cura para os males da Europa é mais Europa mais democrática.»

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* Não conheço Mencken, nunca o li e não sei a que propósito escreveu a frase, e isso agora também pouco importa. Mas sei que a frase é de Notes on Democracy, 1926: The cure for the evils of democracy is more democracy.

23 de julho de 2015

23 de julho, sete e meia da manhã

Acordei sobressaltado com um pesadelo horrível: uns homens disformes, monstruosos, queriam matar-me para se vingarem de qualquer coisa que o meu pai tinha feito. Ainda bem que consegui acordar antes de eles me matarem, porque morrer é uma experiência muito desagradável, mesmo que seja só em sonhos. Eu sei, porque já me aconteceu. E ser morto violentamente – isso nunca me aconteceu – deve ser ainda pior. Também acho que ninguém deve pagar pelo que os pais fizeram.

Eram cinco e pouco da manhã quando acordei. Já não voltei a adormecer. Ontem tive dores de cabeça à tarde, uma coisa que nunca tenho, e pensei que podia ser por ter dormido pouco. Espero não ter hoje dores de cabeça outra vez.

O céu estava ameaçador. Enfiei uns calções e fui apanhar a roupa que estava estendida no quintal. Estava toda quase seca e era uma pena deixá-la encharcar-se, se começasse a chover. Mas não choveu nem vai chover. O tempo limpou e vamos ter outro dia de sol.

Fui estender a roupa no quarto de hóspedes e pensei que faço tudo demasiado depressa, com pouca calma. Tenho de começar a desacelerar progressivamente os gestos, até ficar por fim completamente imóvel. Quando morrer, quero eu dizer.

Voltei para a cama e estive a ler Gary Snyder e John McWhorter. O livro de Gary Snyder é difícil para mim, tem muitas palavras que não conheço. Vou fazer uma leitura do livro sem dicionário e relê-lo depois com o dicionário. Achei graça ao truque literário simples de separar com vírgula nomes de adjetivos e pus-me a especular como traduziria
Dried, shrimp
       smoked, salmon 
Fiz também uma nota mental: procurar Dōgen em Google e a auto-estrada 99 em Google maps.

Poderia ter sido eu a escrever muitas das coisas que McWhorter escreve. Aliás, já escrevi muitas das coisas que McWhorter diz. A ideia de que a língua condiciona o pensamento pode ter surgido com a intenção louvável de reconhecer a diversidade cultural, o que foi sem dúvida importante num certo período histórico, mas parece-me que é hoje mais importante insistir na igualdade fundamental de todos os seres humanos. Ou, como o resume Steven Pinker na contracapa do livro,
«Algumas ideias populares são piores que erradas – têm uma ponta de verdade em questões de somenos importância, mas ajudam a criar incompreensões em questões muito importantes. (…) Apesar da sua superficial sofisticação, a hipótese [de que a língua modela o pensamento] oculta verdades profundas: que o pensamento é bem mais rico que a língua; que as línguas são mais o produto de uma caprichosa memética que reflexos de obsessões culturais; e que as semelhanças cognitivas entre as pessoas são mais fundas que as diferenças entre elas.» 

Decidi que vou começar a escrever poesia e contos outra vez – apenas pelo prazer que isso me dá.

A minha filha Siri faz hoje 11 anos. Está uma mulherzinha, como se costuma dizer.



7 de julho de 2015

Ambiguidade e ordem das palavras


[Homonímia e ambiguidade]
Dizia-me alguém, numa discussão sobre o acordo ortográfico, que a homonímia de ato (do verbo atar) e ato (ação) podia causar ambiguidade em certas frases. Se for verdade, é preciso dar muitas voltas à cabeça para encontrar um caso em que isso possa acontecer; e eu, que até tenho jeito (gaba-te, cesto…) para descobrir este tipo de curiosidades, não consigo inventar uma frase com uma ambiguidade que resulte de uma coisa dessas. Imaginem o que seria se se confundissem de alguma forma calo e calo, coma e coma, falo e falo, mato e mato, nada e nada, rio e rio, saia e saia… e os outros milhares de casos em que há uma forma verbal e um nome com a mesma forma fonética e gráfica (é um jogo engraçado, vejam lá quantas homónimas deste tipo conseguem encontrar).

Eu diria antes que, em princípio, nunca há ambiguidade entre homónimas de categorias morfológicas diferentes – que não podem, por isso, ocorrer no mesmo contexto. Mais provável seria a ambiguidade criada por homónimas da mesma categoria ou, como é mais comum, palavras que podem referir vários entes ou objetos, ou que podem deles predicar várias qualidades, estados, atividades, etc., como corrente, mangueira, número, esperar, comer, etc. Mesmo para estas palavras, porém, é preciso dar muitas voltas à cabeça e não vejo bem, por exemplo, em que situação alguém fique na dúvida, quando ouve falar de gatos, se se trata de felinos domésticos, de enganos nas contas, de grampos, ou de pieira…

Significa isto que não existem frases ambíguas? De modo algum. É claro que existem frases ambíguas!, mas são outras as causas da verdadeira ambiguidade – ou anfibologia, como só agora descobri que também se pode chamar. A ambiguidade mais comum, estou eu em crer, resulta da maneira como se ordenam na frase certos elementos – de não se poder decidir se uma expressão modifica, por exemplo, a frase toda ou um sintagma apenas. Dou-vos um exemplo tirado de um e-mail que recebi um dia destes:
Havemos de descobrir como fazer o pagamento antes de ele começar o trabalho.
Sem mais informação, uma pessoa não sabe se a ideia é fazer o pagamento adiantado ou apenas descobrir antes do início de trabalho como será feito o pagamento (era este último significado que se queria dar à frase.)

[Posição livre e posição fixa de advérbios nas frases]
Não vos vou maçar agora com uma lista de exemplos de ambiguidades, há dezenas de páginas na Internet sobre o assunto. Quero só referir uma coisa curiosa, a propósito da posição dos advérbios e locuções adverbiais nas frases: ouvi dizer várias vezes, algumas delas a mim próprio, que, nas línguas latinas, a posição dos advérbios é livre, ao contrário do que acontece em dinamarquês (e creio que várias outras línguas germânicas, mas só conheço bem o caso do dinamarquês). Mas isto nem sempre é verdade. E nem sempre é só para resolver ambiguidades que o advérbio tem de estar, em português, numa determinada posição. É certo que, como declaração simples, tanto faz dizer Amanhã vou a Copenhaga como Vou amanhã a Copenhaga como Vou a Copenhaga amanhã, mas Sempre vou a Copenhaga nas férias é diferente de Vou sempre a Copenhaga nas férias e tanto ?Vou a Copenhaga sempre nas férias como ??Vou a Copenhaga nas férias sempre são fases muito estranhas, se não claramente agramaticais.

Como se passam as coisas nas línguas em que há uma posição fixa dos adverbiais? Não pode isso também criar ambiguidades? Quando comecei a aprender dinamarquês, achava muito estranho, por exemplo, que se fizesse obrigatoriamente a negativa de verbos de opinião e afins e nunca das suas completivas. Não se pode, por exemplo, construir uma frase com a estrutura que corresponde diretamente a Acho que ele não tem razão, tem obrigatoriamente de usar-se a estrutura correspondente a Não acho que ele tenha razão. Pode pensar-se que a questão da negativa simples é outra história, mas, se substituirmos não por nunca ou sempre, a regra continua a aplicar-se. A verdade é que, por muito que a frase Acho que ele nunca tem razão não seja, stricto sensu, o mesmo que Nunca acho que ele tenha razão, não há, na prática, diferença nenhuma entre as duas frases e há que dar algumas voltas à cabeça para encontrar uma frase em que a negativa da principal produza um sentido diferente da negativa da completiva. E o mesmo se pode dizer em relação a um advérbio como sempre: Acho sempre que ele toca bem é, na prática, o mesmo que Acho que ele toca sempre bem.

Mas é sempre assim? Bom, a frase, Acho que ele não é muito inteligente, por exemplo, é já claramente diferente de Não acho que ele seja muito inteligente, se esta última frase se usar para negar a superior inteligência de alguém sem lhe negar inteligência – que é o que se faz com a primeira frase: nega-se-lhe a inteligência, precisamente. Mais complicadas também são frases como Penso às vezes que ele é uma pessoa atormentada e Penso que ele às vezes é uma pessoa atormentada, que são bem diferentes uma da outra, não é verdade? E então, como resolvem isto as línguas de posição fixa do advérbio? No primeiro caso, a ambiguidade desfaz-se normalmente com seleção de palavras diferentes: para negar a inteligência de alguém, dir-se-á o que, diretamente traduzido, corresponde a Acho que ele não é especialmente inteligente; e, para negar que alguém é tão inteligente como se afirma, usa-se a estrutura corresponde ao português Acho que ele não é [assim] tão inteligente; e em nenhum caso a frase com muito inteligente é bem aceite pelos falantes. No segundo caso, como se trata de desfazer realmente uma ambiguidade, aceita-se o que nos outros casos não se aceita, e pode passar-se a locução adverbial às vezes para a completiva. Como é mesmo necessário, pode dizer-se Penso que ele às vezes é uma pessoa atormentada, com a locução adverbial na subordinada.

Tudo isto para concluir que se deve ter confiança nas línguas, porque elas desenvolvem naturalmente maneiras de evitar as ambiguidades. As ambiguidades são raras e nunca resultam de defeitos do léxico ou da sintaxe, apenas de alguns usos abstrusos (a cacofonia é propositada) das possibilidades que as línguas nos dão.

[Uma digressão: modificadores apositivos e modificadores restritivos]
A propósito de ambiguidades e de línguas germânicas, uma pequena excursão. Saio do domínio da língua e passo para o da escrita. Problemático, por causar frequentes ambiguidades (aqui, podia ser também “por causar frequentemente ambiguidades”, com modificador do verbo, sem alteração do significado) é o uso da vírgula gramatical, à maneira alemã ou dinamarquesa, que obriga a delimitar todas as subordinadas e não distingue, por exemplo, relativas apositivas de relativas restritivas – isso cria ambiguidade:
As associações da região que integravam o projeto receberam formação sobre variedades híbridas.
Com uso obrigatório de vírgulas a delimitar a relativa, ficamos sem saber se receberam formação apenas as associações que integravam o projeto e as outras não (frase acima), ou se todas as organizações da região integravam o projeto e receberam por isso formação, que é o que diz a frase com vírgulas em português:
As associações da região, que integravam o projeto, receberam formação sobre variedades híbridas.
Esta história também tem uma moral: como na escrita se eliminam muitas redundâncias e se usam estruturas normalmente ausentes do discurso oral, podem criar-se na escrita ambiguidades que nunca surgem na oralidade. 

[Ambiguidade ou deselegância?] 
Mas voltemos às ambiguidades causadas pela má ordenação dos elementos da frase, para rematar. É de notar que muitos dos exemplos apresentados quando se fala de ambiguidade são um pouco exagerados. Quer dizer, são frases de facto textualmente ambíguas, mas o contexto ou o senso comum do interlocutor resolve a ambiguidade.

Veja-se, por exemplo, a frase O José falou com o Rui deitado no chão. Vi uma frase semelhante referida como exemplo de anfibologia e é, de facto, uma frase ambígua, mas só se não houver mesmo contexto nenhum, e uma frase assim costuma fazer parte de uma narrativa. Vi algures outro exemplo do tipo O homem disparou sobre o assaltante de pijama. Bom, neste caso, mesmo que não haja contexto nenhum, é difícil imaginar um ladrão de pijama, não vos parece?

O mesmo em relação a estas duas frases curiosas:
Durante o julgamento, a defesa protestou contra o uso de algemas pelo traficante, alegando que ele feria decisão do Supremo 
e
Resgatada mulher sequestrada após passar 21 anos em uma cova
Também é certo que, sem mais contexto, cada uma delas tem duas leituras possíveis, mas uma das leituras é tão estranha que a recusamos imediatamente: o que seria um traficante ferir uma decisão do Supremos e isso ser motivo para recusar o uso de algemas? E não seria azar a mais ser sequestrado depois de passar 21 anos numa cova? Ambiguidade? Em última análise, sim, mas, na prática, é mais de deselegância, de falta de estilo, que se trata nestes três últimos casos, não vos parece?, que propriamente de ambiguidade…