10 de janeiro de 2016

Às escuras

A minha filha Joana dizia um dia destes ao jantar que gosta de estar no quarto de luz apagada, mas que eu, quando lá entro e a vejo assim, lhe digo sempre a mesma coisa: «Então, estás aqui no escuro?»

A Joana é dinamarquesa, para quem não saiba. A frase «Então, estás aqui no escuro?» está correta e ela pronuncia-a bem, sem sotaque estrangeiro. Aquele «no escuro», porém, chama-me a atenção. Ele sempre me ouviu dizer a mesma frase (ela tem agora 13 anos), mas nunca foi essa a frase que ela ouviu: eu digo sempre «às escuras» quando quero dizer «de luz apagada». Quer dizer, não é impossível que ela tenha ouvido dizer «no escuro» a outras pessoas, com esse mesmo sentido, mas é bastante improvável que o tenha ouvido muitas vezes.

Há duas possíveis explicações: uma é que seja a influência do seu dinamarquês materno que a leve a dizer assim: «no escuro» é a transposição direta do «i mørket» dinamarquês; outra é que crie ela próprio a forma regular portuguesa, a partir do léxico e regras que tem interiorizadas. E digo «regular», porque «às escuras» é obviamente uma expressão cristalizada, desviante em relação à lógica mais comum do português (no quarto, na escuridão…). Uma expressão idiomática, se preferirem, que se aprende inteira.

O que é preciso para produzir expressões que vão contra as regras que se aprenderam, não sei. É uma discussão muito complicada. Mas parece certo que têm de ouvir-se muitas vezes. Numa situação como a da Joana, para quem o português não é exatamente língua estrangeira, mas também não é uma língua com que tenha ou tenha tido muito contacto, parece que, quando a expressão idiomática compete com uma construção semelhante vinda da gramática interiorizada, é esta última que ganha.

Também é preciso ver que se aprende a dizer «no escuro» com muitas frases em que entra a preposição em e/ou o nome escuro, mas só se aprende a dizer «às escuras» ouvindo precisamente essa expressão ― ou ouvindo a expressão «às claras», desconfio.

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