10 de janeiro de 2016

Velhice [Crónicas de Svendborg #24]

A morte não custa, o que custa é envelhecer, cantava Brel: «Mourir, cela n'est rien / Mourir, la belle affaire / Mais vieillir... Ô, vieillir…» A canção é do último disco, gravado em 1977 já com a morte à vista. E é de morte que fala o texto da canção, não de velhice. Para que servirá este refrão?

 

Uma expressão de que gosto para referir a velhice é «ir para a idade»: «Ah, agora já estou a ir para idade, já há muita coisa que eu não posso fazer.» Se pensarmos nisso, a expressão dá conta de uma verdade fundamental: só a velhice é que é idade-idade, aquilo que se pode chamar idade. Antes de lá se chegar, há uma pré-idade, digamos assim: vai-se fazendo anos, mas a quantidade de vida que se concebe diante de si próprio pouco ou nada se altera — é sempre «a vida toda»...

Não há consenso nenhum sobre quando começa a velhice, até porque não é nada que aconteça assim de repente. Há uma altura em que se é velho, mas não se é ainda mesmo velho. Depois, vem uma altura em que a velhice é apenas óbvia, um facto simples da vida. Uma boa definição de velhice (continuo o meu papel natural de divulgador da cultura dinamarquesa nestas Crónicas de Svendborg) é a do poeta Halfdan Rasmussen, que ele escreveu já com mais de oitenta anos*:
«Velhice é quando uma pessoa se dobra para atar os sapatos e pensa: “Não haverá mais nada que eu possa aproveitar para fazer aqui em baixo, já que aqui estou?”»


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Fica aqui o link, mas é mais para mim, se eu um dia quiser saber onde fui buscar isto, que para vocês, a não ser que saibam ler dinamarquês...

4 comentários:

Edite Leal Gonçalves disse...

A velhice em Portugal é um drama. Não será para todos, mas para uma grande maioria. Trata-se de uma luta com duas frentes, a individual, e a exterior ao próprio individuo, duma sociedade sem apoios sociais e com a mentalidade de que os "velhos" só incomodam. Acredito, espero, que não seja assim na Dinamarca. É um assunto que dá pano para mangas. Se soubesse dinamarquês leria o teu link.

Vítor Santos Lindegaard disse...

O artigo em dinamarquês não é sobre a velhice, é sobre um poeta, que nem é aquele que eu cito.
A velhice é difícil em todo o lado, mas é com certeza mais difícil onde há menos apoio social. Pelo menos é o que a minha experiência me diz - e eu vivi em vários países com níveis muito diferentes de apoio social. A família é uma instituição que não se desenvolveu para tomar conta de velhos, até porque velhos em grande quantidade são coisa nova. E a família é uma coisa cheia de sentimentos, com as raivas surdas ou os conflitos que daí advêm.
Há uma coisa que talvez seja diferente aqui, mas não sei como evoluíram ou estão a evoluir as coisas em Portugal: as pessoas não têm a mesma expetativa em relação à família. Mesmo os que são velhos agora, mas, sobretudo, os que estão agora a entrar na reforma não esperam que sejam os filhos a ajudá-los. Nem querem, acho eu. Pessoalmente, a última coisa que eu quero é que os meus filhos sintam que têm algum dever de me ajudar na velhice.

Edite Leal Gonçalves disse...

Eu, pessoalmente, e digo-o muitas vezes, também não quero sobrecarregar as minhas filhas com a minha velhice. Mas pergunto: será que não devíamos querer? Será que esse raciocínio está correto? Enfim, como digo é um assunto que dá pano para mangas.

Vítor Santos Lindegaard disse...

Para mim, o raciocínio de que deve ser o Estado e não a família a ter responsabilidade dos idosos está correto, mas depende da conceção dos papéis do Estado e da família que cada um tenha. Não quer dizer que os filhos não possam fazer o que quiserem, mas para mim é claro que não devem ter essa obrigação. Aliás, acho que ninguém se deve sentir na obrigação de ter filhos para poder ter uma velhice digna.