12 de julho de 2016

Sei um ninho... de cotovia

Uma coincidência engraçada, que achei que merecia referência aqui no blogue:

O verbo dinamarquês at vide corresponde bastante diretamente ao verbo português saber, mas é mais radical na recusa de nomes como objetos diretos. Em português, é possível saber a verdade ou saber o caminho; em dinamarquês, não — só saber qual é a verdade ou saber como se vai. Seja como for, saber um ninho é uma frase tão agramatical como simpática em ambas línguas, e faz parte, em ambas, de um poema conhecido — em Portugal, o “Segredo” de Miguel Torga (Diário, 1956) e, na Dinamarca, “Jeg ved en lærkerede", de Harald Bergstedt (1921), que, com uma melodia de Carl Nielsen (1924), se tornou uma célebre canção infantil.

É curioso, não vos parece?, encontrar o mesmíssimo desvio literário nos dois textos.


[Piano: Claus Jørgensen; Barítono: Thomas Späth]



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O texto de Torga, que todos conhecem: Sei um ninho. / E o ninho tem um ovo. / E o ovo, redondinho, / Tem lá dentro um passarinho / Novo. // Mas escusam de me atentar; / Nem o tiro, nem o ensino. / Quero ser um bom menino / E guardar este segredo comigo. / E ter depois um amigo / Que faça o pino / A voar…

O texto de Bersgtedt, numa tradução bastante imperfeita, mas que dá conta do significado: Sei um ninho de cotovia. / Mais não digo. / Está numa charneca / Num sítio que ninguém vê. // No ninho, estão passarinhos / Ainda com penugem. / Piam e têm línguas / E o ninho é tão quentinho. // E as duas cotovias mais velhas, / Esvoaçam em redor. / Creio que sabem / Que não lhes faço mal. // Escondo-me atrás de um abrunheiro, / Mesmo muito perto, / E vou pé ante pé, / Sustendo a respiração. // Que a raposa está com fome / E os rapazes andam às amoras / Mas ninguém há de saber / Onde é que o ninho está.

5 de julho de 2016

Portugal é uma maçã da China e outras curiosidades linguísticas — sobre laranjas

Uma vez, num autocarro em Copenhaga, ouvi duas senhoras atrás de mim a falar uma língua que não faço ideia qual seria repetindo muitas vezes uma palavra que eu identificava como Portugal. «O que estarão elas a dizer de Portugal?», pensei eu, até que me levantei e vi que tinham dois grandes sacos cheios de laranjas. É claro que era de laranjas que estavam a falar, não de Portugal.

Segundo o que descobri numa pesquisa rápida na internet, laranja é portokall em albanês, البرتقال (burtuqal) em árabe, портокал (portokal) em búlgaro, purtugàl em emiliano-romanholo, ფორთოხალი (p'ort'oxali) em georgiano, πορτοκάλι (portokáli) em grego, portokal em ladino, pertügal em lombardo, Портокал (portokal) em macedónio, purtuallo em napolitano, partugal em parmesão, پرتقال (portexal) em persa, përtugal em piemontês, portocal em romeno e portakal em turco, Parece que isto se deve a terem sido os mercadores portugueses a introduzir a laranja doce na Europa, no séc. XVI. Gil Marks, na sua Encyclopedia of Jewish Food (Wiley, 2010) dá até duas datas concretas, 1529 para a primeira variedade e 1635 para uma segunda variedade mais doce.

Nas línguas europeias, além dos nomes de tipo Portugal, há os do tipo orange/pomarange, cuja etimologia última parece ser o sânscrito naranga-s, passando pelo árabe e pelo persa; e do tipo Apfelsine (d), appelsin (dk), sinaasappel (nl), etc., «maçã da China», de origem germânica, mas que se espalhou também a línguas eslavas. É quase assim também o nome botânico: Citrus × sinensis.

E laranja, a cor? É claro que, antes de haver laranjas na Europa, não havia nas línguas europeias expressões para designar a cor de laranja. A cor era designada com outras palavras, normalmente compostos de vermelho ou amarelo. Não consegui encontrar informação sobre como era designada a cor em português antigo, mas sei que em inglês, por exemplo, se usava vermelho amarelado (ġeolurēad), como aliás em alemão (gelbroth), entre outras designações.

Fonte: Wikimedia Commons
A oposição entre cor de laranja sem hífenes e cor-de-rosa com hífenes irrita muita gente. Não há 100% de acordo (há quem aceite cor de rosa sem hífenes), mas são estas formas que se encontram na maior parte dos dicionários. A explicação comum é que cor de laranja é isso mesmo, a cor das laranjas, ao passo que há rosas de tantas cores que não se pode dizer que cor-de-rosa seja a cor das rosas. Bom, a verdade é que há laranjas que têm a casca verde quando estão maduras e vivi já em sítios onde as laranjas verdes são muito mais comuns que as laranjas cor de laranja; mas é certo que, mesmo as laranjas verdes têm a polpa… cor de laranja.

Este post é bastante desnecessário — é apenas uma compilação de informação que se encontra com relativa facilidade em muitas páginas em linha. A única coisa original que tinha a dizer sobre laranjas, disse-a aqui já há algum tempo: em dinamarquês, as laranjas não têm gomos, têm barcos. (E não acham estranho que em inglês tenham apenas segmentos?)

2 de julho de 2016

Meio enchido e meio esvaziado

Há a famosa história do copo meio cheio ou meio vazio, mas, como explica uma pequena filósofa que tenho cá em casa, isto de cheio e vazio não existe no vácuo, perdoem-me a gracinha pateta: o estado do copo depende de alguma ação — que tende para algum fim. Isto sou eu a dizer, que ela não diz assim. O que ela diz é o seguinte:
Se está meio cheio ou meio vazio depende de como estava antes: se estava cheio, agora está meio vazio e daqui a bocado está completamente vazio; se estava vazio, agora está meio cheio e, se não enchermos mais, nunca chega a ficar mesmo cheio.

1 de julho de 2016

Cantar a amizade, a primavera e o inverno

Há temas de canção que são recorrentes na tradição de um determinado país e que não se encontram ou são raros na tradição de outro país. O louvor da amizade, por exemplo, é um tema recorrente na canção francesa, mas não me parece que seja muito importante na canção portuguesa. É claro, não me citem nisto, porque se trata aqui de uma impressão apenas e não do resultado de uma pesquisa séria, mas não consigo lembrar-me de nenhuma canção portuguesa sobre amizade e lembro-me logo, sem ter de puxar muito pela cabeça, de muitas canções francesas com esse tema. Aliás, são sobre amizade algumas das minhas canções francesas preferidas.

 Georges Brassens, “Les copains d’abord” ("Primeiro os amigos"), 1964

 

Estou convencido de que, depois do amor (que é sempre o tema mais recorrente nas canções de todas épocas e todos os lugares) a primavera e o verão, a chegada do bom tempo e o bom tempo, enfim, são os temas mais recorrentes na canção dinamarquesa. OK, talvez esteja a exagerar. Tenho de reconhecer mais uma vez que não é coisa que tenha verificado com rigor. Mas que é dos temas mais importantes da canção dinamarquesa, disso não tenho dúvida nenhuma.

 Benny Andersen & Povl Dissing, “Hilsen til forårssolen” ("Saudação ao sol da primavera"), 1981
 (a canção começa ao segundo 47)

 

É natural num país frio, dir-me-ão. No Canadá, porém, que é um país realmente frio, com um inverno incomparavelmente mais difícil do que o inverno dinamarquês (se bem que menos escuro, é verdade), é o próprio inverno que se canta, não a primavera nem o verão. E deixem-me agora corrigir o que acabo de escrever, sim? Não sei é assim em todo o Canadá, porque não conheço a canção canadiana de língua inglesa, mas, na canção quebequense que conheço, o inverno é um tema fundamental. Não é que não se cante também a primavera (estou a pensar, por exemplo, em “Hymne au Printemps”, de Félix Leclerc), mas creio que o inverno é tema mais recorrente. A beleza do Inverno, a sua força. E isso não cantam os dinamarqueses. Nem os portugueses nem os franceses. Mas é capaz de haver mais quem cante…

 Gilles Vigneault, “Mon Pays” ("O meu país"), 1965 

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