12 de dezembro de 2017

Obrigado pela dança [Crónicas de Svendborg #27]


Imagem: Pixabay. CC0 Creative Commons
Na Dinamarca, é costume agradecer certas coisas que em Portugal não temos por hábito agradecer. Por exemplo, quando se acaba de comer, diz-se sempre «obrigado pela comida» a quem fez a comida; quando se acaba um jogo – de bilhar, ténis, seja do que for –, diz-se «obrigado pelo jogo»; quando uma pessoa se vai embora, diz «obrigado por agora»; e, quando encontra de novo uma pessoa com quem se esteve em qualquer situação de convívio, diz «obrigado pela última vez». Etc., etc., etc. Aqui na zona, que é zona rural, muita gente até agradece ao motorista, quando sai do autocarro: «Obrigado pela viagem!» Sei que tudo isto é muito semelhante nos outros países escandinavos, pelo menos, mas não sei se é exatamente igual.

Agora, todos conhecem aquela situação em que duas pessoas se cruzam num espaço estreito e uma desvia-se para a direita e a que vem no sentido contrário para a esquerda e quase chocam e desviam-se as duas para o lado contrário e esbarram de novo uma na outra e repetem a mesma coisa mais uma ou duas vezes, com uns desculpas e uns sorrisos pelo meio, até que, finalmente, lá conseguem passar…. Nessa situação, já ouvi mais que uma vez uma pessoa dizer à outra, no fim, com ar galhofeiro:

«Obrigado pela dança!» 
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Nota talvez desnecessária, para o caso de alguém ler aqui o que não era minha intenção escrever:

Este texto não é sobre cortesia. É sobre uma piada que eu vi alguém fazer na rua. E achei curioso ter já visto a mesma piada antes. Das duas, uma: ou foi por coincidência que pessoas diferentes fizeram a mesma piada, ou a piada está espalhar-se. É bem possível que eu, da próxima vez também diga «obrigado pela dança» à pessoa com que que esbarro e que hesita, como eu, no lado para que deve desviar-se. Mas não é uma expressão, nada disso. Contei o acontecido à minha mulher e ela, que nunca tinha ouvido essa piada, riu-se, naturalmente. Agora, para contar a piada, tinha de fazer uma pequena introdução ao «obrigado por» escandinavo, que é o que motiva a piada. É só isso.

Quando à cortesia propriamente dita, a minha experiência é que a cortesia é sensivelmente igual em todo o lado. Vivi em sítios muito diferentes uns dos outros, mas, se em todo o lado vi pessoas mais corteses que outras, não vi diferenças no grau geral de cortesia de uns sítios para os outros. E, no fundo, as pessoas agradecem, pedem desculpa, condoem-se e aplaudem de formas semelhantes em situações semelhantes. As variações são de superfície, de pequenas fórmulas ou rituaizinhos que fazem parte dos hábitos em certos lugares.

Os portugueses não podem agradecer e alguns agradecem de facto as mesmas coisas que os escandinavos e longe de mim ver maior cortesia nos hábitos dinamarqueses que portugueses. É certo que, em Portugal e em muitos outros países, quando se dá por terminada a refeição, não diz toda a gente, quase em coro «obrigado pela comida», como acontece aqui em todas as refeições. Se, ponhamos, dois casais passam uma tarde juntos, a fazer seja lá o que for, não é normal em Portugal dizerem, quando se separam para irem cada um para sua casa, «obrigado por hoje» ou «obrigado por esta vez», como aqui é. E, no outro dia, quando se encontram, não se cumprimentam com «obrigado por ontem», como se faz aqui. Mas não vejo que haja por essas diferençazinhas nem maior nem menor educação num ou noutro lugar.

30 de novembro de 2017

Triscaidecaquê?


As sextas-feiras 13 não são dias raros. Houve 172 nos últimos cem anos e este ano já houve duas, em janeiro e outubro. Há anos em que ocorre três vezes, como aconteceu o ano passado, em fevereiro março e novembro. Curiosamente, aliás, o dia 13 do mês calha com mais frequência a uma sexta-feira que a qualquer outro dia da semana.

Isto dos dias de azar é uma coisa muito antiga e parece que a sexta-feira é um dia aziago em várias tradições. Também é muito antigo acreditar que o número 13 dá azar. Sobre quando e por que razão se deu a fusão das duas superstições, há várias ideias. É capaz de ser também uma coisa relativamente antiga. Aliás, não surpreende que se tenham inventado estas coisas em épocas em que se sabia pouco do funcionamento do universo, só surpreende é que não tenham ainda desaparecido… Bom, eu não conheço ninguém que leve a sério a história da sexta-feira 13, mas parece que há mesmo quem acredite nisso.

Enfim, não é bem de superstição que vos queria falar, mas sim de palavras. Há estranhas palavras para designar os medos que as superstições geram – como há estranhas palavras para designar os medos todos: chama-se triscaidecafobia o medo do número 13 e o meda da sexta-feira 13 chama-se parascevedecatriafobia. É claro, podemos sempre agarrar em parasceve, sexta-feira em grego, e fazer *parascevefobia para o medo da sexta-feira, mas não encontrei a palavra  em lado nenhum. Já a versão inglesa paraskaviphobia, sim, aparece numa busca em Google. E isto leva-me a duas propostas de reflexão.

Podemos ponderar se são necessários palavrões destes e palavrões técnicos em geral; se não vale mais reservar os nomes greco-latinos para as conversas entre especialistas e preferir, foras delas,  «medo das alturas» a acrofobia, «médico de ouvidos, nariz e garganta» a otorrinolaringologista e assim sucessivamente...

E podemos também refletir sobre o que significa uma palavra fazer parte de uma língua. Parascevefobia é português ou não? Podemos considerar que há vários tipos de palavras que fazem parte de uma língua: as que, mesmo sem existirem ainda, estão na sala de espera dessa língua, preparadas para serem inventadas de acordo com as regras que os falantes têm na mente; as que estão na mesma sala de espera para serem inventadas segundo regras de «boa formação» relacionadas com a tradição etimológica e não com a capacidade de os falantes as compreenderam (é deste grupo, obviamente, que faz parte a parascevefobia); as que, embora façam parte dos dicionários, só foram usadas uma vez ou duas, por algum poeta, filósofo ou cientista; e também as que, embora usadas todos os dias pelos falantes da língua, nunca ganharam direitos de cidadania, e que «os lexicógrafos remetem, se lhes [vêm] ao gadanho, para o cemitério da língua, por espúrias e indecentes», para usar uma descrição de Aquilino Ribeiro. E as outras…

Para terminar, voltemos ao número 13, que não à sexta-feira. A tal triscaidecafobia dá azo a práticas esquisitas: há hotéis e hospitais sem quartos 13; teatros sem camarotes 13; gente que vai a correr convidar alguém para a sua mesa, se o número de convivas chega a 13. Agora, nunca vi nenhum livro que salte da página 12 para a página 14, mas, quem sabe?, é capaz de ter havido já algum autor mais supersticioso que o tenha exigido ao editor….

25 de novembro de 2017

Design, restauração e geração espontânea: o esperanto e outras línguas… naturais

Em dinamarquês, quando alguém diz alguma coisa que que não se percebe, diz-se que é volapyk. Mas volapyk devia ser, precisamente, o contrário disso. O volapuque («língua mundial», em volapuque) devia ser, como o nome indica, uma língua para todos se perceberem, para acabar com a incomunicação que resulta da babélica multiplicação das línguas humanas.

Há muitas línguas auxiliares construídas, como o volapuque, e o esperanto é a mais famosa de todas elas. Foi criado por L. L. Zamenhof no final do século XIX, com o propósito explícito de «ser diretamente um meio de comunicação internacional». A sua estrutura racional, com poucas regras e sem exceções, deveria «tornar o estudo da língua tão simples que a sua aquisição seja uma mera brincadeira para o estudante».

O pai de um amigo meu dizia que o esperanto, como todas as línguas construídas, nunca poderia vingar, porque não se consegue insultar um chofer de táxi em esperanto. Para quê inventar-se uma língua, que, por ser inventada, tinha de ser de alguma forma defetiva, em vez de promover uma língua natural a língua de comunicação mundial? A verdade é que o esperanto foi sempre, neste aspeto, uma língua diferente de outras línguas artificiais. Desde o início, a ideia era «aprender e usar [o esperanto] como [língua] viva, e não apenas como último recurso».

Lembro-me de ficar muito surpreendido quando me veio parar às mãos uma obra do japonês Masao Miyamoto, que Manuel de Seabra traduzira para português (Da arte e da morte, Lisboa: Futura, 1973). Conhecia as traduções de Manuel de Seabra de poesia em inglês e catalão e pensei: «O quê, Manuel de Seabra também traduz do japonês?» Mas, no prefácio, Manuel de Seabra respondia precisamente à minha interrogação, que ele previa em muito leitores: que não, que japonês não sabia, mas aquela obra não tinha sido escrita em japonês, mas sim numa língua que ele dominava bem, o esperanto. E isto causou-me nova surpresa: mas havia então quem escrevesse literatura em esperanto? Obviamente, o esperanto tinha uma dimensão – ou dimensões – que eu desconhecia…

Uns anos mais tarde, conheci em Paris duas pessoas que falavam esperanto entre elas. X., parisiense, e B., madrilena, tinham-se conhecido através de uma revista de esperantistas e corresponderam-se em esperanto algum tempo antes de finalmente se conhecerem pessoalmente. Quando se conheceram, por muito que cada um deles falasse relativamente bem a língua materna do outro, continuaram, naturalmente, a falar esperanto. Perdi o contacto com eles e não sei se tiveram filhos ou não, mas, se os tiveram, os filhos deles são hoje falantes nativos de esperanto. Não seriam os únicos. Soube há pouco tempo que se calcula entre mil e dois mil o número de falantes nativos de esperanto e não é apenas um fenómeno recente. Até se chegou já, pelo menos num caso, à terceira geração de falantes nativos. O esperanto é já, então, além de língua construída, também uma língua natural.

Quando soube da existência de esperanto materno, procurei trabalhos que descrevessem o que acontece ao esperanto ao passar de língua artificial a natural, isto é, ao tornar-se língua materna de alguém, um processo designado como nativização. Basicamente, a minha pergunta era: o que muda quando o input artificial dos pais é filtrado – ou talvez ajustado, não sei qual é a palavra correta – pelos mecanismos naturais de aquisição e processamento da língua? Pensei, por exemplo, que, sendo uma língua sem formas irregulares, talvez começassem a surgir as irregularidades comuns a todas as línguas naturais; ou que surgissem regras novas, de tempo ou aspeto verbal, ou de marcação de caso, ou de qualquer outro tipo, não presentes no esperanto não materno.

Esta passagem de língua artificial a língua natural é, em princípio, a mesma que acontece quando uma língua de comunicação, um pidgin, se torna língua materna de alguém e nasce assim, numa geração, uma nova língua natural, um crioulo. Mas, como assinala Benjamin K. Bergen[a], há diferenças significativas nas condições de nativização (todas as traduções do artigo são minhas, desenvolvendo siglas para facilitar a leitura):
[Versteegh] sugere[b] que, em determinadas situações, a aquisição do esperanto como segunda língua é homóloga à pidginização, na medida em que é usado um código comunicativo sem total regularidade, e esse código torna-se o idioma nativo da próxima geração. Por exemplo, se duas pessoas cuja única língua em comum é o esperanto têm uma filha antes de serem totalmente fluentes no idioma, esta filha funcionaria como uma crioulizadora, e pode prever-se o surgimento de regularidade no idioma da criança, onde a regularidade é limitada no contributo dos pais. Versteegh defende, porém, que não é provável que o esperanto seja objeto de mudanças estruturais fundamentais, porque, na realidade, os pais dos falantes de Esperanto Nativo geralmente aprendem o idioma fazendo cursos e usando gramáticas, dicionários e outros instrumentos de aprendizagem de línguas que não estão presentes em situações de pidginização. Isto, pensa ele, confere-lhes um grau de experiência linguística a que os falantes de pidgins não têm acesso.
Pode acrescentar-se que, quando surgem os crioulos, os primeiros falantes não vivem em comunidades de uma determinada língua e as línguas maternas dos seus pais eram muitas vezes muito diferentes, pelo que, além do pidgin, o único input linguístico regular a que esses primeiros falantes nativos tinham acesso era a língua da sua mãe, se se mantinham junto dela. Ora, como diz Bergen, «a maior parte dos falantes nativos de esperanto têm pais com a mesma língua, o que faz, portanto, com que o esperanto não seja usado como código de emergência» e «embora existam muitas organizações de famílias que falam esperanto, a grande maioria dos falantes nativos do esperanto não participa nesses grupos, e mesmo que o façam, geralmente não passam mais de uma semana por ano com esperantófonos fora da família.»

Mas, nota Jouko Lindstedt[c], «a crioulização não é o único paralelo para a nativização do esperanto. Como o assinala Versteegh, esta nativização pode ser comparável com a revitalização do hebraico quase na mesma altura em que surgiu o esperanto». E explica:
Ambos os casos têm a ver com uma decisão educativa tomada por pais com uma consciência linguística extremamente elevada. Quando o primeiro falante nativo do hebraico moderno nasceu em 1882, a sua situação não era de modo nenhum diferente da situação das crianças que adquirem o esperanto, de que os pais não são falantes nativos: o pequeno Ben-Zion Ben Yehuda não podia aproveitar o facto de o hebraico ter tido falantes nativos um milénio e meio antes. A descrição de Fellman[d] da primeira família de língua hebraica da era moderna mostra que os pais estavam em considerável desvantagem relativamente aos modernos pais falantes de esperanto, no que diz respeito à existência de nomes para objetos quotidianos ou à possibilidade de adquirir livros infantis.
No artigo de Bergen já citado, apontam-se ainda mais duas diferenças importantes nos dois processos:
(1) O input linguístico para os estudantes de hebraico como língua segunda [dos pais dos primeiros falantes nativos] era variado e idiossincrático em comparação com os de esperanto como língua segunda: e (2) o hebraico como língua segunda começou como um sistema fonológico e morfologicamente complexo e opaco, enquanto o esperanto como língua segunda é extremamente regular e transparente.
Apesar disso, notaram-se muito poucas alterações no hebraico nativizado relativamente ao hebraico língua segunda que lhe tinha servido de input; e, no trabalho feito até agora, exatamente o mesmo se pode afirmar da nativização do esperanto: as transformações que se observam no esperanto nativo relativamente ao esperanto como segunda língua – a existirem* – são mínimas e como é previsível, parecem depender, se não totalmente, pelo menos em grande medida, da influência da outra língua materna, que é também a língua da comunidade dos falantes nativos de esperanto (o adstrato, como se chama). Os possíveis filhos de X. e B., de que falava atrás, se criados em França com pai francês e mãe espanhola, fixariam, provavelmente, a ordem da língua em sujeito-verbo-objeto, o que tornaria redundante a marca de acusativo nos nomes. Pelo menos, isto foi efetivamente observado por Bergen* em falantes nativos de esperanto de língua materna também francesa. Mas os falantes bilingues de esperanto e eslovaco, por exemplo, mantiveram sempre a marcação do acusativo.

O que se conclui de tudo isto? Não muito, provavelmente. Quando comecei a escrever o que viria a dar este texto, há mais de um ano, interrogava-me sobre o seguinte: «Até que ponto é plástica a nossa capacidade da linguagem? A língua humana pode ter todas as características que a nossa mente consiga imaginar – e pode, assim, tornar-se língua materna de alguém uma língua com propriedades inventadas que nunca existiram em nenhuma língua natural? Ou devemos antes pensar que só as propriedades constatáveis nas línguas naturais, atualmente existentes ou já extintas, se podem fixar num cérebro humano? Dito de outra maneira, conseguimos imaginar línguas que não podem ser adquiridas por humanos, conseguimos descrever em pormenor uma língua inventada que, por mais que se tente, não possa tornar-se língua materna de ninguém?»

Estou convencido de que a experiência se pode fazer, embora não tenha a certeza de que valha a pena – e coitada da criança que tivesse de tentar adquirir uma língua inadquirível, se fosse esse o caso. Agora, com a pesquisa que fiz para este texto, aprendi não só que a nativização do esperanto está feita há muito, mas também que essa nativização não serve para responder à minha pergunta, porque o esperanto, mesmo antes de ser língua materna de alguém, já era de facto uma língua natural. Dou de novo a palavra a Jouko Lindstedt (ele próprio falante de esperanto como língua segunda e pai de falantes nativos), que o explica muito bem:
A gramática do esperanto nunca foi completamente descrita e codificada, nem mesmo quando Zamenhof era ainda a única pessoa a escrever na língua. Para dar um exemplo óbvio: as dezasseis regras da gramática do esperanto apresentadas pela primeira vez por Zamenhof em 1887 e por ele declaradas inalteráveis no trabalho normativo básico da língua, em 1905, não dizem nada sobre a ordem das palavras em frases simples ou complexas. No entanto, sempre ficou claro que o esperanto é uma língua Sujeito-Verbo-Objeto, com uma ordem relativa livre dos principais constituintes; que tem sintagmas nominais, sintagmas verbais e sintagmas preposicionais; que a maioria dos especificadores fica à esquerda dos seus núcleos e a maioria dos complementos à direita; e assim por diante. Isto é assim porque, desde o início, o uso do esperanto foi aprendido através da leitura de textos reais e audição de enunciados reais, primeiro os de Zamenhof, mas logo depois por outros escritores e palestrantes. Assim, é pelo uso real que o Esperanto foi ajustado à gramática universal: mesmo que os falantes do idioma tenham sido na sua maioria não-nativos, não introduziram nele nada que um idioma natural não pudesse incluir.


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[a] Bergen, Benjamin K., «Nativization processes in L1 Esperanto», in J. Child Lang. 28 (2001), pp. 575–595. Cambridge University Press, 2001
[b] Versteegh, Kees, «Esperanto as a first language: language acquisition with a restricted input». Linguistics 31, 1993, pp. 539–55.
[c]Lindstedt, Jouko, «Native Esperanto as a Test Case for Natural Language», in A Man of Measure Festschrift in Honour of Fred Karlsson, a special supplement to SKY Journal of Linguistics, vol. 19, 2006 (pp. 47–55)
[d]Fellman, Jack, The Revival of a Classical Tongue: Eliezer Ben Yehuda and the Modern Hebrew Language. Haia & Paris: Mouton, 1973

* Por enquanto, o número de observação e de falantes observados em cada uma delas é demasiado pequeno para se chegar a conclusões muito definitivas.

19 de outubro de 2017

Luvas, enxadas e andaimes

[Este texto é uma colagem de coisas que me vêm à cabeça a propósito de trabalho manual e de cuidados ou falta deles. Está um bocado desorganizado, sou o primeiro a reconhecer, mas acho que se percebe onde quero chegar.]

Tive um amigo que montava andaimes. Ganhava prémios por trabalhar sem cinto de segurança, porque sem cinto de segurança se trabalha muito mais depressa. E morre-se, se se cai. Não sei se a legislação permitia este incentivo ao suicídio, mas fazia-se. E havia quem fosse nisso, a troco de mais umas coroas. Quando, como o meu amigo, se é jovem e, mais que destemido, imortal, há sempre quem alinhe em qualquer tipo de comportamento, mesmo suicida, a troco de mais umas coroas…

A verdade é que, em certos trabalhos, se morre mesmo tendo cuidado. Em obras grandes, por exemplo, morrem sempre pessoas. Por exemplo, na construção da ponte do Storebælt (1991–1998), aqui relativamente perto de casa, morreram pelo menos 7 pessoas. Aliás, o trabalho na construção é sempre uma atividade de risco. Evidentemente, a situação não é tão má como já foi. Não só a legislação é agora muito mais estrita – racional, apenas, ou humana, diria eu –, como é mais eficaz a fiscalização. E é claro que devemos continuar a tentar melhorar tanto as leis de segurança no trabalho como o controlo da sua aplicação. Agora, há a lei e há os hábitos, a cultura de trabalho. A cabeça da gente, digamos assim.

Van Gogh: «Camponesa a apanhar batatas», 1985. Museu Van Gogh, Amsterdão



Traduzi o ano passado um livro sobre a cultura material de Moçambique. Num capítulo sobre «Ferramentas e alfaias agrícolas», lê-se que «gerações sucessivas de mulheres das zonas rurais reconhecerão que, de todas as tarefas femininas no cultivo da terra, capinar com um sacho é a pior e mais demorada, fonte de cansaço e de dores nas costas. Mas, paradoxalmente, está profundamente enraizada na mente das pessoas a ideia de que trabalhar com o corpo em posição vertical é sinal de preguiça. Talvez essa seja a razão por que não houve a iniciativa de introduzir ferramentas que tornassem a tarefa mais fácil», como «por exemplo, um sacho mais ergonómico que facilitasse a monda»*. Não há aqui nada de específico da cultura moçambicana. Encontrei a mesma ideia em quase todos os sítios por onde andei. É a tal ideia de que, no trabalho, não se deve procurar conforto. Nunca vivi muito tempo no campo e muito menos vivi alguma vez da agricultura, mas, em jovem, fiz muitas vezes trabalhos sazonais no campo, para financiar a minha vagabundagem. Lembro-me que não se deixava – e não só nos trabalhos do campo – trabalhar as pessoas de joelhos ou sentadas no chão. Tinham de se dobrar. Porque davam assim mais rendimento? Duvido. Mas porque «não se trabalha sentado», voilà!

Vejo muitas vezes no Facebook fotos de ferramentas, enxadas, pás, serrotes, etc., etc., com a irritante legenda «aparelhos de musculação». «Ginásio, para se manter em forma? Vá mas é trabalhar!», é obviamente a mensagem que se quer fazer passar. Mas a verdade é que o trabalho manual pesado nunca deu saúde a ninguém. Talvez desenvolva alguns músculos, não sei, mas dá cabo de muitos outros – e de tendões e ossos, e de tudo. Dá cabo da pessoa toda. Mas, enfim, trabalho é assim, e só se queixa quem não quer dar o corpo ao manifesto, como se diz. Há coisas difíceis de perceber. Nunca percebi, por exemplo, os sacos de cimento de 50 quilos. Só mesmo para dar cabo das costas dos serventes de pedreiro?

No outro dia, apanhei um texto a fazer troça do neorruralismo, seja lá isso o que for. Parece que uma das ridículas extravagâncias dos neorrurais, é «cavar a terra com luvas de jardinagem». Não sei nada dos neorrurais, nem até que ponto merecem ser objeto de chacota, mas vejo bem em que assenta a zombaria. Então, mas esses meninos não sabem que trabalhar faz calos, como diz o provérbio. E note-se que frase não quer apenas dizer que de facto os faz – trabalhar deve fazer calos! Luvas? Proteger as mãos quando se trabalha? Capacetes e cintos de segurança? Ora…

A verdade é que às vezes me esqueço de calçar luvas quando trabalho. Deve ser porque fui educado para ser um verdadeiro trabalhador… No outro dia, estava sem luvas a deitar abaixo um barracão velho, armado de martelo e pé-de-cabra, e a minha filha Joana, de 15 anos, veio logo chamar-me a atenção:
«Pai, não se trabalha sem luvas, e muito menos a fazer trabalhos desses.» 
Ao contrário do que dizem muitos pessimistas que conheço o mundo vai melhorando, acreditem.
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* A enxada é, por si, uma escolha estranha, relativamente à pá de cavar, que se usa em muitos países, e que permite o trabalho na posição vertical. Será que são as características dos solos que justificam essa escolha ou só uma ideia de como deve ser o verdadeiro trabalho?

17 de outubro de 2017

Sobre independências

Este textinho não é especificamente sobre a Catalunha, mas é também sobre a Catalunha – e sobre todas as independências nacionais, passadas e futura.

Independentemente do que se ache da oportunidade e da justeza de uma determinada pretensão independentista[1], não vejo bem que argumentos éticos possa haver a favor da independência de uma determinada nação ou contra ela que não seja a vontade das pessoas que lá vivem[2].

Há quem pareça acreditar que as fronteiras atuais refletem uma ordem suficientemente perfeita para ser conservada para sempre, mas não há nada de especialmente natural nas atuais nações. Parece-me também claro que nunca são suficientemente sólidos, quando chegam a ter alguma solidez, os argumentos etnicistas, incluindo os de um pretenso direito ancestral assente numa ocupação «originária» de um determinado território por um determinado «povo».

A singularidade cultural, linguística ou mesmo genética de um povo é, na maior parte dos casos, extremamente difícil de determinar[3], mas, a aceitar-se que existe, também não é, por si só, justificação para a independência – nem nenhum argumento de natureza étnico-cultural serve para justificar uma recusa de independência.

Para se ser independente, é preciso querer ser-se independente. Numa abordagem racional e democrática, a condição necessária e suficiente para a independência é a vontade expressa da maioria dos habitantes de um território de fazer parte de um determinado estado ou de constituir outro estado[4]. É um direito que decorre naturalmente do direito básico de cada pessoa a decidir sobre a sua vida, já que é apenas o direito de uma comunidade a decidir sobre a sua vida. É que não vejo mesmo como possa ser de outra maneira.

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[1] Pessoalmente, considero prioritário neste momento pôr a funcionar, de forma realmente democrática, as instâncias supranacionais. Descreio em soluções nacionais para a maioria dos problemas das nações e não me agrada a restrição dos círculos de solidariedade nem a proliferação de estados-nação. Se fosse catalão, provavelmente não quereria a independência. Mas digo provavelmente, porque, se fosse catalão, uma parte do meu querer seria determinada por emoções e razões que, como português, desconheço. 

[2] Na minha perspetiva, são, por isso, políticos, no sentido mais essencial do termo, já que considero que a política é a parte da ética e da moral que trata da vida social. Admito que possa haver argumentos de ordem mais prática, incluindo argumentos de ordem económica, mas não é dessa discussão que aqui se trata. 

[3] Na maior parte dos casos, grupo étnico significa grupo linguístico. Mas mesmo o critério linguístico raramente é claro. No caso do povo catalão, por exemplo, que nem é dos mais complexos, não há diferença significativa, do ponto de vista linguístico, entre o catalão e o valenciano, embora as pessoas das duas regiões muitas vezes julguem que sim, com base em pequenas diferenças de léxico e pronúncia. Aliás, por ser assim tão difícil delimitar-se objetivamente a identidade étnica que se usa muitas vezes a autoidentificação como critério suficiente.

[4] Admito que há casos complicados, em que é difícil aceitar este princípio na sua forma mais simples, como quando há uma rápida colonização do território com o fim de os colonizadores virem a ser maioria no território, mas a discussão dessas situações não cabe neste minitexto sobre um princípio ético/político de base.

14 de agosto de 2017

Bornholm: dois pequenos apontamentos [Crónicas de Svendborg #26]

1. 
Há muitas regras de comportamento iguais, ou quase, em todas as sociedades humanas de todos os tempos e de todos os lugares; há outras que variam, às vezes muito, de sítio para sítio e de uma para outra época; e, de vez em quando, há costumes que nos surpreendem, porque, por preconceito, não esperamos encontrá-los numa determinada sociedade. Descobri há pouco tempo, em painéis com informação histórica que há num bonito percurso para caminhadas entre Hasle e Vang, em Bornholm, que os barcos que encalhavam nas costas rochosas eram uma importante fonte de receita para as comunidades pesqueiras da zona, que rapidamente os aliviavam de toda a carga, mal a tripulação os abandonava – e que, muitas vezes, essas mesmas populações «ajudavam o destino» (é a expressão usada no painel), atraindo os navios com falsas luzes para os fazer encalhar. É mais que roubo, note-se, é pôr em grande risco vidas humanas, pois que nem sempre as tripulações dos navios saiam ilesas dos encalhes.

Vários amigos meus dinamarqueses garantiram-me alguns que esta pirataria de costa estava longe de ser uso apenas daquela zona; que a mesma prática criminosa era comum, e «socialmente aceite», noutras partes do país – e nomeadamente na costa oeste da Jutlândia, por exemplo. Não sei qual é a parte de história e a parte de lenda nestas histórias que se contam, mas não me surpreende nada que, se se fazia em Bornholm, se fizesse o mesmo noutros lugares. E não só na Dinamarca, claro está. Quem sabe se não seria prática comum noutros lugares do mundo...
2.
A ocupação nazi da Dinamarca terminou a 5 de maio de 1945, quando as forças alemãs se renderam às forças aliadas comandadas pelo general Montgomery, que tinham chegado a Lüneburg, na Alemanha. Em Bornholm, porém, não foram as tropas de Montgomery que exigiram a rendição alemã, mas sim as tropas soviético. E os alemães não quiseram render-se-lhes – aos aliados ocidentais, rendiam-se; ao Exército Vermelho, não! Os russos avisaram então que Rønne e Nexø, as duas maiores cidades da ilha, tinham de ser evacuadas, porque iam ser bombardeadas. E foram, no dia 7 e no dia 8.

A minha sogra é de Bornhom e tinha dez anos nessa altura. Foi mandada, com a irmã de 13 e o irmão de dois, para a quinta dos avós. Tiveram de fazer a pé, o irmão num carrinho de bebé, os cerca de 9 km que separam Rønne da quinta. Ainda não tinham chegado ao seu destino quando começou o bombardeamento. Ficaram a ver de longe as explosões e a cidade a arder, sem saber da sorte dos pais, que tinham ficado na cidade.

 

A minha sogra diz sempre que a ocupação russa, que durou cerca de um ano, foi pior que a ocupação alemã, mas não se deve lembrar de grande coisa. Muito provavelmente, está mais a repetir o que se dizia que a dar conta daquilo que realmente viveu. Fui ver no Museu da Defesa, em Rønne, uma exposição sobre a ocupação soviética de Bornholm. Explica-se que houve, claro está, um ou outro problema com os soldados russos, como seria de esperar que houvesse com qualquer força militar de ocupação, mas parece que os soldados viveram, em geral, muitos isolados da população. Agora, eram gente muito estranha para a população da ilha, com uma cultura bem mais diferente da sua que a dos ocupantes alemães; e, sobretudo, as pessoas tinham medo que os comunistas ocupassem a ilha para sempre.

O tio Sam… ba, uma família de canções

Provavelmente, não é mesmo uma família, e nem sequer um motivo ou tema recorrente, são apenas umas quantas canções que dialogam umas com as outras, não sei, mas não deixa de ser curioso.

A primeira que conheço é “Brasil Pandeiro”, que Assis Valente escreveu em 1940 para Carmen Miranda e que esta recusou, acabando por ser gravada no ano seguinte pelos Anjos do Inferno.



Famosa foi também a versão dos Novos Baianos em 1972, que eu prefiro:



Diz a canção:
Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor
Eu fui à Penha, fui pedir a padroeira para me ajudar
Salve o Morro do Vintém, pendura a saia, eu quero ver
Eu quero ver o Tio Sam tocar pandeiro para o mundo sambar
O Tio Sam está querendo conhecer a nossa batucada
Anda dizendo que o molho da baiana melhorou seu prato
Vai entrar no cuscuz, acarajé e abará
Na Casa Branca já dançou a batucada de ioiô iaiá
Brasil, esquentai vossos pandeiros
Iluminai os terreiros
Que nós queremos sambar
Em 1959, Odete Amaral gravou “Chiclete com banana”, de Gordurinha e Almira Castilho, que foi um grande êxito por Jackson do Pandeiro no ano seguinte e voltou a ser gravada por Gilberto Gil.







A letra de Chiclete com banana é diferente da letra de Brasil pandeiro: se nesta se trata da divulgação samba nos EUA (através do sucesso de Carmem Miranda naquele país), naquela exige-se para o samba estatuto de igualdade relativamente às músicas importadas: só quando o samba influenciar a música americana é que hei de deixar que a música americana influencia o samba. Mas têm as duas as mesmas imagens de «fusão» e em ambas aparece a figura do Tio Sam.
Só ponho bebop no meu samba
Quando o tio Sam pegar no tamborim
Quando ele pegar no pandeiro e no zabumba
Quando ele entender que o samba não é rumba
Aí eu vou misturar Miami com Copacabana
Chicletes eu misturo com banana
E o meu samba vai ficar assim
Quero ver a grande confusão
É o samba-rock, meu irmão
Mas em compensação
Quero ver o boogie-woogie de pandeiro e violão
Quero ver o tio Sam de frigideira
Numa batucada brasileira
«Quero ver o boogie-woogie de pandeiro e violão» remete-nos para uma música menos conhecida que se encaixa também neste topos. De uma forma menos sofisticada, talvez, encontram-se as mesmas ideias e a mesma figura do tio americano no tema “Boogie Woogie na Favela”, de Dênis Brean (Augusto Duarte Ribeiro), gravado por Cyro Monteiro em 1945:


Chegou o samba minha gente
Lá da terra do tio Sam com novidade
E ele trouxe uma cadência bem maluca
Vai mexer toda a cidade
O boogie-woogie boogie-woogie, boogie-woogie
A nova dança que balança
Mas não cansa
 A nova dança que faz parte
Da política da boa vizinhança
Chegou o samba minha gente...
E lá na favela toda batucada
Já tem boogie-woogie
Até as cabrochas já dançam
Já falam do tal boogie-woogie
E o nosso samba foi por isso que aderiu
No Amazonas, Rio Grande São Paulo e Rio
O boogie-woogie Boogie-woogie, boogie-woogie
A nova dança que surgiu!
É difícil definir o que cabe nesta linhagem, que, com rigor, implica não apenas a fusão de géneros brasileiros e norte-americanos, mas referências expressas a fusão de elementos culturais dos dois países; mas não há dúvida nenhuma de que “América do Norte”, de Seu Jorge (2007), é cantiga-irmã das que referi atrás. Nem falta a menção explícita do Tio Sam. E outras há de haver, seguramente, que não conheço.


Se segura que é balanço que chegou p'ra balançar
América do Norte vai sambar também
América do Norte vai sambar again
 Americana linda com esses olho azul
Vem balançar comigo América do Sul
Pode remexer e balançar a trança
Não esquente a cabeça pois a noite é uma criança
Vem dançar o samba-rock lá do Grajaú
Americana vamo' nesse samba-blue
Me diga eu te amo e eu I love you
É um vento quente, uma onda boa
Sinto falta da garôa, das crianças, da patroa
Hot dog is very nice, but I like angú

13 de agosto de 2017

Jejum e Genebra – um texto um bocadinho nerd

[Isto dos blogues generalistas é um bocado complicado e já pensei em dividir este blogue em dois ou três. Muitas vezes, autocensuro-me temas, principalmente relacionados com língua, porque os acho demasiado especializados e desconfio dos meus dotes de vulgarizador... Mas nem sempre sou coerente nessa autocensura e às vezes publico coisas que acho que não interessam a ninguém — ou interessam só a muito, muito pouca gente. Este texto, por exemplo, que decidi publicar só porque lhe acho graça, fala de coisas tão nerd que espero mesmo que interessem só a meia dúzia de pessoas – senão, é sinal de que o mundo está perdido, valha-nos Santa Edwiges da Silésia!…]

Em francês standard, as palavras  jeune, «jovem», e jeûne, «jejum», têm pronúncias diferentes*. Quando vivi em Genebra, porém, dei-me conta de que, no sotaque local, as duas palavras se pronunciam da mesma maneira. É uma pronúncia, explicaram-me, típica da Suíça e do Leste da França; mas parece que há outros francófonos que anulam a distinção nestas duas palavras.

Uma pequena curiosidade, que descobri agora: Victor Hugo ou também falava assim (mas não creio que isso se explique por ele ser de Besançon, porque não viveu lá muito tempo) ou considerava que jeune e jeûne eram rimas visuais:
Hélas ! l'ombre d'Allah n'a pas rompu le jeûne ;
La sultane est gardée, et son fils est trop jeune ;
« La douleur du pacha », in Les Orientales, 1829

Aos meus leitores que não estejam familiarizados com esta diferença entre jeune e jeûne, dou de TPC repetir em frente ao espelho
« Jamais je ne vois les jeunes genevois pratiquer le jeûne genevois »
até a coisa fluir com naturalidade.

Deixem-me explicar, já agora, que a frase é mais do que um trava-línguas forçado, já que existe mesmo o feriado do Jejum Genebrino, que a Wikipédia em português explica da seguinte maneira:
O Jeûne Genevois, que se poderá traduzir literalmente por «Jejum Genebrino», é um dia feriado no cantão de Genebra, Suíça, na quinta-feira seguinte ao primeiro domingo de Setembro (dia 7, este ano). Os outros cantões suíços festejam o Jeûne Fédéral no terceiro domingo desse mês.
 A página em francês tem mais informação sobre o assunto. A tradição é antiga, mas, depois de várias peripécias de institucionalização e supressão, o dia é agora feriado desde 1966.

Não deixa de ser divertido que a assembleia de representantes dos diversos cantões que instituiu o feriado do Jejum Federal se chamasse… a Dieta Federal.

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* Vão ao Larousse ouvir a diferença, se a não conhecem, ou ao Forvo: o -eu- de jeune pronuncia-se como em peur [œ] e o -eû- de jeûne como em peu [ø].

13 de julho de 2017

A tentativa de convencer e a colonização do outro

Um dia destes, houve alguém que se retirou de uma discussão que estava a ter comigo (devo ter sido assertivo demais, se é que não fui mesmo bruto) com uma citação que dizia ser de Saramago:
«Aprendi a não tentar convencer ninguém. O trabalho de convencer é uma falta de respeito, é uma tentativa de colonização do outro.» 
Não consegui confirmar se a frase é mesmo de Saramago, mas pode bem ser. Pelo menos, é citada por muita gente como sendo dele. Mas também não importa: não são as ideias de Saramago que quero discutir, até porque as não conheço, mas a ideia expressa nesta frase, seja ela de quem for.

No geral, discordo completamente da ideia de que não se deve tentar convencer ninguém. Não querer convencer o outro implica sempre não dizer o que se pensa — ou dizer o que se pensa, mas recusar-se à sua discussão com os outros, que é apenas outra forma de não dizer o que se pensa.

[Note-se que escrevi «recusar-se à sua discussão com os outros». O discutir consigo próprio é um processo que não pode ser visado na crítica de «falta de respeito» ou «colonização do outro», pelo que o ignoro nesta discussão.]
É que não há, como é óbvio, maneira de discutir tentando não convencer a pessoa com quem se discute, porque o que se faz ao defender uma posição é sempre justificá-la, isto é, tentar convencer o outro da validade dos pressupostos ou observáveis em que essa posição se baseia. É o que estou a fazer agora aqui: tentar convencer quem me leia de que tenho razão. Ora, não fazer nenhum esforço para tentar convencer o outro da validade da nossa opinião acaba por ser sempre sinónimo de não dizer o que pensamos, porque o omitimos na justificação da nossa opinião. Não tentar convencer o outro é, assim, uma recusa de exprimir aquilo em que se acredita.

Não tentar convencer o outro é também uma atitude de egoísmo e/ou desprezo: é ignorar o outro, excluí-lo do que cremos ser a verdade — e, portanto, do que cremos ser o bem. Se se pensa estar na posse de uma verdade, seja ela qual for, que boa razão pode haver para a guardar para si e deixar os outros no que se acredita ser a mentira ou a ignorância?

*** 
É claro, toda a verdade é falível e é preciso ter consciência disso. Aliás, por mais profundamente convencidos que estejamos do valor de verdade das nossas opiniões, não podemos derivar desse valor de verdade em que cremos o direito de impor seja o que for a quem não queira partilhar a nossa convicção. Por outras palavras, o eventual valor de verdade de um postulado não lhe dá superioridade moral. A descrição de como é o universo, incluindo a psique humana e as relações sociais, não serve de justificação a uma proposta de como devem ser as relações entre pessoas. Uma crença não pode nunca justificar imposições de práticas ou ordens sociais.

Creio que é este o problema essencial do aforismo em discussão: uma lamentável confusão entre imposição e tentativa de convencimento. Da imposição pode dizer-se que é uma falta de respeito. A colonização, no sentido literal, é uma imposição, não uma tentativa de convencimento. Por isso mesmo, justifica-se o seu uso metafórico relativamente à imposição, mas não parece correto neste aforismo.

Em vez de falta de respeito, tentar convencer o outro é antes uma prova — a única possível? – de respeito. Sendo a única possibilidade em qualquer discussão racional, é o dever de quem considera que os outros estão ao mesmo nível na discussão. Implica, ou deveria implicar, que as opiniões se baseiam em algo suficientemente objetivo para ser exterior a cada um e estar ao alcance de todos.

[É de notar que as tentativas de convencimento não se fazem no vazio: têm agarradas a elas condições económicas, sociais, relações de poder várias, etc. Aceitamos com menos reservas as propostas de pessoas a quem atribuímos algum tipo de estatuto superior – ou a quem a sociedade atribua um estatuto superior. Se tivermos em conta também formas de imposição mais subtis que a imposição pela lei e pela força, podemos considerar que uma grande aprovação social, a sedução, ou a força da autoridade intelectual ou espiritual resultam em formas indiretas de imposição, mais que de verdadeiro convencimento. Isto é algo a ter em conta na análise da transmissão de convicções, mas, note-se, não afeta em nada o argumento de que se pode e deve tentar convencer.]
Além disso, não querer convencer implica – a não ser que se aceitem assimetrias nas relações – não querer ser convencido!... Ou seja, não querer convencer redunda, bem vistas as coisas, no louvor do dogma. O conhecimento não evolui, nunca evoluiu, sem que haja alguém a convencer e a alguém a ser convencido...

Por mim, gostava de convencer toda a gente da necessidade de discutirmos tudo, de não ignorarmos ninguém, de tentarmos sempre convencer os outros da nossa verdade até haver quem nos convença de que essa verdade afinal não o é. O que dirá Saramago sobre reconhecer que o outro tem razão?

11 de julho de 2017

Sobre a negativa da injunção em língua de cão, ão-ão

Lembro-me de ter aprendido há muito tempo que há línguas em que se podem usar formas diferentes do imperativo do mesmo verbo, conforme se queira, por exemplo, dizer a alguém que está a comer uma coisa para parar de a comer ou dizer a uma pessoa que não deve comer uma coisa que ainda não começou a comer.

Em português, se é certo que «não comas isso» pode cobrir ambos os casos, também há maneiras de distinguir entre a injunção para parar de comer e a injunção para não começar a comer. A entoação é uma delas: o «não comas isso» desgostado de quem diz a outra pessoa para parar de comer uma coisa que descobriu estar bem fora de prazo, por exemplo, é muito diferente do «não comas isso» de alarme de quem pensa que a outra pessoa vai provar um fruto venenoso. Além disso, o imperativo da perífrase estar a comer ou estar comendo só se pode usar para mandar parar de comer – não se pode dizer «não estejas a comer isso» a quem ainda não meteu nada à boca.

*** 
Mosaico romano, séc. II, Museu Arqueológico de Sousse, Túnisia. 
Wikimedia Commons, daqui.
Cada vez tenho mais a convicção de que a ideia da linguagem como capacidade exclusivamente humana não faz grande sentido. De que a linguagem humana é mais complexa que a linguagem de um cão, não tenho dúvidas, mas é apenas isso que ela é, mais complexa. Um cão, como muitos outros animais, tem também a capacidade de estabelecer relações de certos sinais com o mundo físico e os estados mentais dos seres vivos que o habitam – pelo menos...

Além disso, tenho também a certeza de que, ao contrário do que ouvi muitas vezes afirmar, os animais têm um sentido do porvir.
Uma amiga minha dizia-me há pouco tempo, depois de ter passado um bocado a fazer truques simples de prestidigitação à minha cadela, que era óbvio que os cães têm expetativas sobre o que se vai passar, donde decorre forçosamente um sentido de futuro, mesmo que, mais uma vez, provavelmente menos complexo que o nosso. É claro que tinha toda a razão.

*** 
Agora, voltando aos imperativos negativos, tenho a ideia de que a minha cadela percebe facilmente a ordem para deixar de fazer alguma coisa („Nej!”), mas que não percebe a ordem para não iniciar o que não quero que ela inicie… A não ser, talvez, naquele momento em que já decidiu o que vai fazer, mas não teve ainda tempo de iniciar a ação...


9 de julho de 2017

In hoc signo vinces: uma bandeira caída do céu [Crónicas de Svendborg #25]

A bandeira da Dinamarca chama-se Dannebrog[1]. Diz a lenda que a Dannebrog caiu do céu a 15 de junho de 1219 e por isso o dia 15 de junho é o dia da bandeira. Nesse dia, veem-se ainda mais bandeiras que nos outros dias, mas a verdade é que há sempre muitas dannebrog por todo o lado em todos os dias do ano. É que os dinamarqueses usam a bandeira de uma forma às vezes diferente de como os povos de outras nações usam a sua…

Durante muito tempo, a bandeira dinamarquesa teve apenas o uso oficial mais comum das bandeiras nacionais e chegou até a ser proibido o seu uso privado. Atualmente, porém, a Dannebrog é usada para assinalar qualquer género de festividades, desde todos os tipos de aniversários até celebrações religiosas e académicas, etc., e é também comummente usado para receber visitantes ou pessoas que voltam de uma viagem, ou até para anunciar saldos ou ofertas especiais em lojas ou venda privada informal de bens de segunda mão ou ... ovos.
E também faz muitas vezes parte da decoração da árvore de Natal...

A maioria dos dinamarqueses não tem consciência de usar a bandeira de maneiras muito originais. Sei que também se usam bandeiras em aniversários noutros países escandinavos e é provável que mais alguns dos usos pouco canónicos da bandeira que referi atrás se alarguem à Noruega e à Suécia, talvez às ilhas Faroés e à Islândia, não vos sei dizer, mas não se devem alargar a muitos mais países...

***
Como já referi, a Dannebrog caiu do céu. É uma história alguma originalidade, mas, por outro lado, inscreve-se num modelo de lendas cristãs que se podem designar com uma famosa frase latina: in hoc signo vinces, «com este sinal, vencerás». Dá-se muitas vezes como origem deste motivo recorrente na cultura europeia uma lenda registada no século IV[2]: quando o seu exército se preparava para uma batalha, o imperador romano Constantino viu no céu uma cruz de luz com o célebre lema escrito em grego por baixo[3]. Constantino não entendeu o sinal que tinha visto até Jesus lhe explicar, num sonho, que era aquele o sinal que deveria usar contra seus inimigos.

Existem umas quantas variações deste meme cristão e a Dannebrog que cai do céu na Estónia é uma delas. Dignas de nota são também, entre outras, algumas lendas ibéricas do mesmo tipo, como a da famosa visão do primeiro rei português antes da batalha de Ourique em 1139 e a da reconquista de Alcácer do Sal por D. Afonso II em 1217, onde, diz-se, apareceu no céu uma cruz, assinalando a intervenção divina que deu a vitória aos cristãos[4]. Num artigo de 1951[5], J. O. Kock encontra uma referência à lenda da conquista de Alcácer nos escritos de dois outros historiadores dinamarqueses e dá conta de que essa e outras histórias ibéricas semelhantes eram conhecidas no norte da Europa; mas considera, naturalmente, que é impossível estabelecer se há ou não algum tipo de influência direta das lendas ibéricas na história da Dannebrog[6].

A Dannebrog caiu dos céus em Lindanise durante as campanhas militares de Valdemar II na Estónia. Berengária de Portugal, filha de D. Sancho I, era na altura rainha da Dinamarca e creio que é esta relação existente na época entre Portugal e a Dinamarca que suscita a hipótese da influência portuguesa na lenda dinamarquesa. A verdade, porém, é que não se sabe muito das relações entre os dois reinos na altura, nem sequer que relação Berengária mantinha com Portugal, de onde tinha saído dois anos antes de se casar com Valdemar II, nem que informação tinha do que por lá se dizia acontecer. A influência das lendas ibéricas na lenda da Dannebrog não é impossível, mas também não parece haver nenhuma razão para a considerar provável.
_______________

[1] Note-se que o elemento dan(ne) não tem nada a ver com os Danos que dão o nome à Dinamarca, é uma palavra que não se encontra em dinamarquês moderno e que quer dizer «vermelho»; brog é «pano» e outra palavra inexistente no dinamarquês atual.
[2] O fantástico acontecimento é referido por dois autores do séc. IV, Lactâncio e Eusébio de Cesareia, em, respectivamente, Lucii Caecilii liber ad Donatum Confessorem de Mortibus Persecutorum e Vita Constantini.
[3] Curiosamente, não encontro referência a esta lenda nas várias páginas portuguesas sobre Alcácer do Sal que consultei para escrever este texto. Mas não é só no texto de Kock que refiro mais adiante que há referências a esta lenda. Na página da Wikipédia em inglês sobre Alcácer do Sal, por exemplo, cita-se uma obra de Joseph F. O'Callaghan que alude à lenda da intervenção de (traduzo eu) «um grupo de cavaleiros celestes todos vestidos de branco»  e de visões do «sinal da santa cruz no céu, como sinal da [sua] vitória».
[4] Infelizmente, só em dinamarquês: Kock J. O., “Sagnet Om Dannebrog” in Danske Studier For Universitetsjubilæets Danske Samfund, Udgivne Af Gunnar Knudsen Under Medvirkning Af Ejnar Thomsen, Copenhaga: J. H. Schult Z Forlag, 1951
[5] ἐν τούτῳ νίκα, algo como «com isto, conquista».
[6] Seja como for, a lenda parece ter surgido muito depois das cruzadas bálticas. Os relatos das expedições de Valdemar contemporâneos dos eventos não mencionam eventos milagrosos e os primeiros registos da lenda da Dannebrog datam do século XVI, nos escritos de Petrus Olai (Danmarks Tolv Herligheder), Christiern Pedersen (Danske Krønike) e Arild Huitfeldt (“Chronologia”, in Danmarks Riges Krønike).

8 de julho de 2017

Mictlantecuhtli em redondilha maior



Mictlantecuhtli, deus asteca dos mortos. 
Estátua encontrada em Teotihuacan e exposta no 
Museu Nacional de Antropologia da Cidade do México. 
Wikimedia Commons, daqui.
Feio é, como é morte
ou como às vezes a vida,
feio como a nossa sorte,
sempre a meio interrompida,
feio bicho que trazemos
escondido dentro de nós
e se revela sem qu’rermos
num olhar ou tom de voz
– deus do in-mundo final,
que importa se se lhe chama
Aita, Hel, Ereshkigal,
Demo, Osíris ou Yama?















[A Wikipedia tem uma longa lista de divindades da morte em diversas religiões e culturas.]

30 de março de 2017

"Urge for going" – a ânsia de partir.

Joni Mitchell escreveu, provavelmente em 1966, uma canção maravilhosa chamada “Urge for going”. Embora a tenha cantado ao vivo nessa altura*, só em 1972 foi publicada uma gravação de estúdio como lado B do single “You Turn Me On, I'm a Radio”.
 
Nas duas apresentações da canção transcritas na página que lhe é dedicada no site de Joni Mitchell, a autora afirma que se trata de uma canção sobre o inverno da sua terra natal, Saskatoon, Saskatchewan:

Quando chega o inverno, chega mesmo, e a temperatura desce para 10 graus abaixo de zero. e toda a gente se farta de se queixar, mas nunca ninguém faz nada. … Só se queixam e dizem «ah, eu gostava de estar na Flórida» e os agricultores e as pessoas que têm dinheiro para isso vão mesmo até à Flórida ou a alguma ilha para passarem o inverno. Mas, então, os outros, coitados de nós, as pessoas normais, temos de nos sentar e aguentar o inverno até ao fim. E era nisto que eu estava a pensar quando escrevi esta canção, mas acho que significa coisas diferentes para cada pessoa.
É precisamente o que diz a canção (perdoem-me a tradução desajeitada, original aqui):
Quando o sol traidor se torna frio
e as árvores todas tiritam de frio em renques nus,
sinto ânsias de partir.
Mas depois não vou.
Sinto ânsias de partir,
quando a erva de prado começa a ficar castanha,
o verão se esvai e o inverno nos vai cercando. 
Mas diz mais que isso. Há quem fique, mas há quem satisfaça a ânsia de partir.
Tive um homem no verão,
de pele cor de sol quente,
e nenhuma outra moça da terra
lhe soube conquistar o coração. 
Mas quando as folhas se espalharam pelo chão,
vieram ventos fortes
e enterraram-nas na neve.
Veio-lhe a ânsia de partir
e eu tive de o deixar ir.
Veio-lhe a ânsia de partir,
quando a erva de prado começou a ficar castanha,
o verão a esvair-se e o inverno a cercar-nos.
Há um tópico, um motivo recorrente na música popular, uma linhagem de canções, digamos assim, a que chamo ramblin’ man, o «homem errante», o «vagabundo», o «vadio». Nem todas têm exatamente esse título, mas um bom exemplo desta temática é a canção que Ray Pennington gravou em 1967 e que se chama precisamente “I'm a ramblin’ man”:
Deixei uma rapariga na Virgínia Ocidental, / lá onde os campos são verdes, pois deixei. / tenho uma rapariga em Cincinnati, / à espera, ali onde passa o rio Ohio, coitada. / Sou um vadio [ramblin’ man] / Não te apaixones por um vadio. 
O ramblin’ man não pode fixar-se em lado nenhum, tem de seguir viagem. A razão não é clara nem racional, mas é apresentada como imperiosa, uma espécie de fatalidade. Como dizia Hank Williams, no seu clássico “Ramblin’ man” (1951), que gravou com o pseudónimo de Luke the Drifter, «Gosto de ti, miúda, / mas tens de perceber, / que quando Deus me fez, / fez-me vagabundo».

Quando Deus nos faz assim, não podemos ser de outra maneira – a malvada ânsia de partir. Agora, o destino de um ramblin’ man não é apenas seguir sempre em frente, é quase sempre também deixar alguém para trás. No fundo, é como a imagem conhecido dos marinheiros com um amor em cada porto. Aliás, também há canções que falam dessa errância dos marinheiros e que podem incluir-se, creio eu, na mesma grande família temática. Assim traduziu Chico de Buarque a canção “4/3/1943 (1971) de Lucio Dalla:
Ele assim como veio partiu, não se sabe p’ra onde / e deixou minha mãe com o olhar / cada dia mais longe, / esperando, parada, pregada na pedra do porto, / com seu único velho vestido, / cada dia mais curto.
Se não é a ânsia de partir, é o dever. A vida, enfim. E é uma coisa de homens, notem. Se há ramblin’ women, não se veem...

Voltemos à nossa canção. “Urge for going” inscreve-se neste modelo temático concreto, acho eu. Se o aspeto climático da canção, digamos assim, lhe dá alguma originalidade dentro do tópico, não deixa de tratar de um homem que tem de partir, por alguma razão imperiosa, e que deixa atrás de si uma mulher. Mas é uma canção que dá a volta ao tema, alterando-lhe, se não o conteúdo, pelo menos a perspectiva; e dando uma voz à mulher que fica. Ela também sente a ânsia de partir, mas acaba por ficar. As mulheres dos ramblin’ men talvez quisessem partir também, mas não as deixavam, ou elas sentiam que não deviam.

***
Também de pode ver a vadiagem dos ramblin’ men como viagem iniciática. São solitárias, não é verdade? as viagens dos monges (não monjas!) de várias religiões, que deambulam em busca da iluminação. Mas claro, para uns poderem atingir a mais alta e perfeita iluminação, outros há (outras há?) que têm de ficar a tomar conta das crianças. Bom, alguns dirão que o tao também se pode se atingir mudando e lavando fraldas, mas porque não escolhem então essa via os santos e os sādhus?…
Yasodharā segura Siddhartha, Museu de Calcutá. Foto: Dharma, Penang, Malásia (daqui

No filme Samsara, de Pan Nalin (2001), a personagem principal, Tashi, é um monge que, a dada altura, renuncia à vida monástica, casa-se e tem um filho. Um dia, porém, resolve voltar à procura da iluminação e sai de casa sem dizer nada a ninguém. A sua mulher, Pema, apanha-o no caminho (a cena começa a 2:03:50, em princípio o link aponta já para esse momento):
Yasodharā...», diz-lhe ela, «Conheces Yasodharā? Toda a gente conhece Gautama, Buddha, Siddhartha, mas quantos conhecem Yasodharā? Yasodharā era esposa de Siddhartha e amava-o muito.
Pema lembra a Tashi que Siddhartha Gautama abandonou o lar à noite, quando Yasodharā e Rahul, o filho do casal, estavam a dormir para procurar a Iluminação – tal como ele, Tashi, acabava de fazer. E continua:
Quem sabe se Buda não lhe deve a ela [Yasodharā] a sua iluminação? Como podemos saber se ela se sentiu zangada, amargurada e só quando Sidarta os deixou? … Como podia ela responder à eterna pergunta de Rahul “Onde está o meu pai”?
«Só um homem abandona um filho a meio da noite», diz Pema, mas isto não é de modo algum verdade. O discurso dos instintos maternos sempre foi e continua a ser o discurso dominante e uma maneira eficaz de justificar uma parte dos papéis reservados às mulheres, mas não é verdade. Uma mulher também é capaz de abandonar o filho a meio da noite, milhares, milhões de mulheres o fizeram. E porque não havia de ser capaz? E porque não havia de o fazer, se for o melhor que pode fazer?

Na primavera de 1964, Joni Mitchell ficou grávida de «um artista de Calgari», que, diz ela na canção “Little Green”, de 1971 , «foi a para a Califórnia, porque ouviu dizer que é tudo mais quente por lá». Não se pode saber se é ele o homem que a voz feminina de “Urge for going”. diz ter tido no verão, mas pode especular-se que talvez seja, que podia ser. A história pode ser lida no site de Joni Mitchell, mas também se a pode ler na letra de “Little Green”:
Escreves-lhe uma carta a dizer a dizer que ela [o bebé] tem olhos azuis. Ele manda-te um poema. E ela está perdida para ti. Uma criança com uma criança, a fingir. Estás farta das mentiras que mandas p’ra casa. Assinas todos os papéis em nome da família. Estás triste, lamentas, mas não te envergonhas.
É claro que não tem se envergonhar. Envergonhar-se de quê? De ter cedido ela também à ânsia de partir, quando partir foi o melhor que, nas circunstâncias, podia fazer?
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* Por exemplo na televisão, a 17 de agosto de 66 e a 24 de outubro de 66; e ao vivo no Second Fret, a 6 november 1966. Cliquem nos links e vejam/oiçam os vídeos, porque vale mesmo a pena.

Entretanto, a canção foi gravada por várias pessoas e teve algum sucesso na sua primeira gravação, por Tom Rush (1966, uma grande versão, por tal sinal), e na terceira, por George Hamilton IV (1967). O site Second Hand Songs lista apenas 23 versões da canção, mas o site de Joni Mitchel lista 93 versões.

25 de março de 2017

Sweet lonely sixteen

Para vocês verem como as coisas eram[1]. Jerry Lee Lewis casou-se com Myra Gale Brown tinha ela 13 anos, em 1957. Ele tinha 22. Foi um escândalo, sobretudo em Inglaterra, mas, parece que, no lugar donde eles vinham, era normal uma coisa assim e que Jerry Lee Lewis nem percebia bem porquê tanta confusão. Elvis Presley também se apaixonou por Priscilla Wagner em 1959, tinha ela 14 anos e ele 24. Mas casar-se mesmo só se casaram já ela tinha 21 anos, em 1967.

Ninguém sabe quanto anos tinha a rapariguinha da escola de “Good Morning Little School Girl” que Sonny Boy Williamson tinha gravado em 1937. Dezasseis anos já parecia uma idade mais aceitável para uma rapariga ver louvados os seus encantos e as raparigas de dezasseis anos são um motivo recorrente da canção popular: Ahmet Ertegun escreveu em 1952 uma canção chamada “Sweet Sixteen”, que Joe Turner gravou; Alan Freed e Buck Ram escreveram outra “Sweet Sixteen”, gravada pelos Colts em 1956; Chuck Berry escreveu e gravou “Sweet Little Sixteen” em 1958[2], Sam Cooke também gravou uma “Only Sixteen em 1959; Johnny Burnette gravou em 1960 “You’re Sixteen” de Richard e Robert Sherman; Al Green, compôs e gravou mais uma “Sweet Sixteen” em 1973, e Billy Idol também escreveu e gravou mais outra “Sweet Sixteen” em 1986. Et cetera, et cetera.

Billy Page escreveu a única canção de voz feminina que conheço com este motivo da sweet sixteen, que Janie Black gravou em 1961. É sempre interessante ver o que os homens põem na boca das mulheres[3]. Diz assim o eu feminino da canção: « ... Não te quis quando tinha 14, não te consegui resistir quando tinha 15 e agora não te posso ter aos 16 ... Quando tinha 15, já era crescida. ... Agora, tenho 16 anos e fartaste-te de mim. ... »

 

P. S. : A versão de Anne Reilly com os Echomen, de 1964, é muito melhor.
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[1] Nos EUA e em todo o lado, naturalmente. Para um resumo muito breve da questão nos EUA, ver esta recensão do livro American Child Bride de Nicholas L. Syrett.
[2] Em 1961, Chuck Berry também foi condenado a 20 meses de prisão, acusado de ter transportado de um estado para outro uma rapariga de 14 anos, para «fins imorais». Parece que ela lhe disse que tinha 21… É uma história polémica, enfim, e esta é uma das descrições do caso.
[3] O que não quer dizer de modo algum que a canção não podia ter sido escrita por uma mulher, note-se.

19 de março de 2017

De passagem

1. «Estou só de passagem» era um mote recorrente da minha adolescência vagabunda, que muitas vezes ilustrei, em qualquer papel que apanhasse à mão. Este desenho aqui por cima foi feito numa folha de bloco pautada (tirei-lhe as linhas com um programa de tratamento de imagem). É de finais dos anos setenta e foi um amigo que o guardou e mo fez chegar. (Ah, os amigos!...)

A minha figura que passava – não me lembro de o fazer conscientemente, mas posso agora constatá-lo – inspirava-se seguramente no icónico «Just passin’ thru», de Robert Crumb.

Não é preciso acreditar que há alguma coisa depois da morte para pôr as coisas nestes termos: estar de passagem – ou passar apenas, até – é uma excelente metáfora da vida. E acho que era isso, mais que a descrição da minha condição de vagabundo, que me fascinava na tão repetida figura que apenas passa.

2. Se é verdade que, como postulam alguns e a mim me parece fazer todo o sentido, os sistemas nervosos dos animais se desenvolveram para controlar movimento e que continua a ser essa uma das suas funções principais, não é de surpreender que as noções espaciais estejam na base de todas as noções abstratas com que raciocinamos, em que encaixamos o mundo.

Pasar é, diz o dicionário da Real Academia Espanhola, «cruzar de una parte a otra» ou «ir más allá de un punto limitado o determinado». Tem mais 62 aceções, mas creio que decorrem todas destas duas, que, bem vistas as coisas, são afinal uma única: « mover-se em direção a X, seja X um ponto ou um espaço, e continuar a mover-se depois de ter atingido X».

É o que fazemos toda a vida, como dizia e bem Antonio Machado:
Todo pasa y todo queda, / pero lo nuestro es pasar, / pasar haciendo caminos, / caminos sobre la mar.
«Proverbios y cantares XLIV», in Campos de Castilla, 1917)

3. Podemos sempre perguntar «O que se passa?» ou «O que se passou?» e todos os acontecimentos servem de resposta a esta pergunta. De cada vez que atingimos o tal X – e estamos sempre a atingi-lo – o que percorremos já é o passado, claro está. Um dia, passa a vida por nós e somos nós passado.

 Agostinho de Hipona:
O que é, pois, o tempo? Se ninguém mo pergunta, sei o que é; mas se quero explicá-lo a quem mo pergunta, não sei: no entanto, digo com segurança que sei que, se nada passasse, não existiria o tempo passado, e, se nada adviesse, não existiria o tempo futuro, e, se nada existisse, não existiria o tempo presente. De que modo existem, pois, esses dois tempos, o passado e o futuro, uma vez que, por um lado, o passado já não existe, por outro, o futuro ainda não existe? Quanto ao presente, se fosse sempre presente, e não passasse a passado, já não seria tempo, mas eternidade. Logo, se o presente, para ser tempo, só passa a existir porque se torna passado, como é que dizemos que existe também este, cuja causa de existir é aquela por que não existirá, ou seja, não podemos dizer com verdade que o tempo existe senão porque ele tende para o não existir?

4. Para Agostinho de Hipona, o passado só existe por estar presente – ou talvez melhor, por ser presente – na memória:
Se existem coisas futuras e passadas, quero saber onde estão. Mas (…), onde quer que estejam, aí não são futuras nem passadas, mas presentes. (…) Até a minha infância, que já não existe, existe no tempo passado, que já não existe; mas vejo a sua imagem no tempo presente, quando a evoco e descrevo, porque ainda está na minha memória. (Ibid, XVIII. 23) 
Existem na minha alma estas três espécies de tempo e não as vejo em outro lugar: memória presente respeitante às coisas passadas, visão presente respeitante às coisas presentes, expectação presente respeitante às coisas futuras. (Ibid. XX. 26) 
A obra de Agostinho de Hipona é um clássico, como é clássica a sua reflexão sobre o tempo. Os «Proverbios y cantares» de Machado também são já um clássico, e creio que se pode dizer que o Mr. Natural de Crumb também já o é. Perenes, provavelmente não são, mas resistem bem a passar apenas.

É possível alguém permanecer em vez de estar só de passagem? Ficar para sempre presente nalguma memória, se soube ganhar a fama e a glória? Qual! Figura de estilo apenas, ou então ilusão: se tivermos feito obras valerosíssimas, quem se liberta da morte são as obras, que não nós. Ao fim de uma ou duas gerações, já não existimos na memória de ninguém.

15 de março de 2017

Pobre Jenny, pobres de nós


Enganou-vos quem vos disse que sujeito é quem pratica uma ação. Sujeito é quem está por baixo, aquele sobre quem recai alguma coisa, aquele que a sofre.
«Peço desculpa a quem gosta de mim, mas a vida dói-me demasiado. Sinto-me enfim liberta.» 
Não há sofrómetros. Não há nada mais subjetivo que a dor. Pobre Jenny, pobres de nós.

Hugo Gerhard Simberg: O anjo ferido, 1903, Ateneumin taidemuseo, Helsínquia. Wikimedia Commons, daqui)

9 de março de 2017

Do marxismo e outros -ismos

[Eis um texto que anda há anos à espera de forma definitiva. Esta é uma forma definitiva provisória, se é que tal coisa existe, porque ainda não fiz a investigação que gostava de ter feito sobre o assunto — uma forma publicável em blogue, digamos assim… Para iniciar uma discussão, serve; e, se não o publicar assim, se calhar nunca o venho a publicar.] 

Há quase 4 anos, escrevia Helder Guégués no seu Linguagista:
 O original, italiano, fala «dell’idea marxiana di società senza classi», e o tradutor deixou «marxiana», que nós não usamos, porque há-de ter consultado um dicionário, talvez o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que para «marxista» regista que é o «relativo ao marxismo». Ora, não é apenas isso, é o relativo a Karl Marx, à sua obra ou ao marxismo. Em italiano, há especialização de sentidos, pois «marxista» diz respeito apenas ao marxismo e às ideias de Karl Marx. 
Compreendo perfeitamente a ideia de Helder Guégués, até porque marxiano também me pareceu muito estranho da primeira vez que o vi, mas a questão é um pouco mais complexa. Não sei até que ponto a especialização de marxista e marxiano se deu naturalmente em italiano. Uma breve pesquisa na Internet mostra que é uma distinção estranha a muitos italianos, mas pode tratar-se, naturalmente, de casos de ignorância da terminologia académica. Por outro, a questão do uso de marxiano para o que diz respeito a Karl Marx não se põe só em português. Em várias páginas na Internet se encontra a discussão do uso do par correspondente, noutras línguas,  a marxiano e marxista.

É interessante constatar que, em inglês, a forma Marxian, embora minoritária relativamente a Marxist, está longe de ser apenas marginal: Marxian, um termo acolhido em vários dicionários de inglês, tem cerca de milhão e meio de ocorrências em Google, contra cerca de 13 milhões e meio de Marxist; e Marxian theory tem mais de 90.000 ocorrências, contra um pouco mais de 500.000 de Marxist theory. A desproporção é menor em Google Scholar, com 15.500 ocorrências de Marxian theory e apenas 5 vezes mais de Marxist theory (77.400 ocorrências). Também em francês se atesta marxien com alguma solidez: mais de 20.000 ocorrências de marxien e perto de 35.000 de marxienne, sem ir para os plurais. Marxiste é, claro está, impossível de contar, porque a busca gera resultados em diversas línguas. Théorie marxienne ocorre cerca de 11 vezes menos que théorie marxiste em Google (4330 vs 47300), mas apenas 8,8 vezes menos em Google Scholar (779 vs 6.850). Em português, também se atesta marxiano e não me parece que possa apenas ser resultado de inadvertência nem abuso esporádico: uma busca em Google Scholar dá 2400 de textos académicos em português com ocorrências do sintagma teoria marxiana.

Traduzi há dezena e meia de anos alguns textos de um especialista em Marx que defende a existência de dois termos distintos, o filósofo marxiano Lucien Sève. Para ele, o termo marxista[1] implica a redução do pensamento complexo de Marx a um «campo» ideológico-político. Dizia ele num debate em Lisboa em 2002:
De um adepto de Descartes diz-se que é cartesiano, um adepto de Kant é um kantiano, um adepto de Bergson é um bergsoniano, de Husserl um husserliano, de Nietzsche um nietzschiano, e de Marx… um marxista! O que é este -ista? Porquê marxista? Na minha opinião, esta terminação não revela apenas uma adesão a um pensamento, que é o que diz o adjetivo em iano (cartesiano, kantiano…), ela diz sim a inscrição num campo: se sou marxista, é porque adiro a um campo organizado, a uma estrutura política, a um movimento político. Parece-me que este -ista implica uma forma de adesão que vai muito para além do facto de se inspirar num pensamento, tentar com ele trabalhar o presente.
Embora compreendendo a tentação de se deixar levar por esse tipo de explicação, notei imediatamente que precisava, pelo menos, de ser revista e afinada. Por exemplo, Sève explicava mais adiante que o caso de marxista não é único, diz-se também espinozista de um seguidor de Espinoza. Ora a razão não podia ser a de identificar os seguidores do pensamento de Espinoza com «um campo organizado, [...] uma estrutura política, [...] um movimento político»… E Sève não estava a ter em conta todos os possíveis nomes e adjetivos em -ista: não há apenas marxista e espinozista; há também rousseauista, tomista, e darwinista, muitos mais.

Não vejo boa razão para pressupor que os adjetivos e nomes formados a partir dos nomes de filósofos e políticos não sigam as regras que modelam a formação de nomes e adjetivos a partir de nomes próprios em geral. Picassiano, em «a estética picassiana» deve, em princípio, obedecer à mesma lógica derivacional que husserliano em «a abordagem husserliana». Convêm saber, pensei eu então, se as palavras em questão foram criadas por sufixação diretamente a partir do nome próprio ou a partir de um outro nome, criado, por sua vez, a partir do nome próprio. Evidentemente, o caso de mediação mais comum, se não exclusivo, é o nome em -ismo definindo, em sentido lato, o programa consciente ou inconsciente (filosófico, político, estético, etc.) da pessoa em questão. Depois de muitas voltas à questão, proponho agora que os adjetivos e nomes em -ista não derivam diretamente do nome próprio, mas sim de um nome em -ismo, formado, esse, do nome próprio, ao passo que os nomes em -iano derivam diretamente do nome próprio[2].

Acho que o dicionário da Porto Editora e Sève têm quase razão: o adjetivo em -iano formado de um nome próprio diz apenas a relação com o portador do nome, ao passo que a terminação em -ista diz a adesão a um campo, mas um campo não tem de ser um campo político — pode ser uma corrente ou movimento estético, filosófico, religioso, etc. Dito de outra forma, X-ista diz respeito a X-ismo e não diretamente a X; um X-ista é um adepto do X-ismo e não diretamente de X. Tomista remete para o tomismo mais que para S. Tomás de Aquino, darwinista para o darwinismo e não diretamente para Darwin; e um marxista é um seguidor do marxismo e não de Marx. É por isso que, se eu quiser falar de algo estritamente pessoal de Marx ou Darwin, como o seu estilo, corro obviamente o risco de ser mal compreendido, se disser ou escrever «o estilo marxista» ou «o estilo darwinista», que se tenderá a interpretar como «o estilo dos marxistas» ou «o estilo dos darwinistas», isto é, como referindo algum pretenso traço comum ao estilo dos adeptos dessas ideologias. O que se diria normalmente nessa situação seria (se não se quiser usar marxiano...) «o estilo de Marx» ou «o estilo darwiniano/de Darwin»[3]. Compreendo, pois, que, se alguém quer referir-se ao pensamento de Karl Marx ou afirmar-se seu seguidor em vez de referir ou seguir a amálgama de pensadores e pensamentos que se afirmam derivar dele, deve seguir a proposta de Sève: não é marxista que deve dizer e sim marxiano[4]. É o que faz – um exemplo entre muitos possíveis – o economista David F. Ruccio, que fala de análise económica marxiana e não marxista. Mas é claro, há a tal questão fonética... Ainda continuo a sentir que marxiano é alguém do planeta Marx... Quando de facto alguém do planeta Marx é antes um marxista...
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Agora, será marxiano uma forma antiga ou recente? Marxiano e as formas correspondentes nas línguas mais próximas da nossa podem ter surgido espontaneamente, porque -iano é um sufixo relacional vulgar nestas línguas; ou pode antes ter surgido da tentativa de separar Marx e o seu pensamento da massa vaga das muitas e variadas correntes políticas e económicas que se dizem suas seguidoras. Faltam-me dados para optar por uma das duas hipóteses. Para o inglês, porém, tenho uma ferramenta, que, por inconclusiva que seja, me pode ajudar a ficar com uma ideia de como se distribui no tempo a ocorrência de marxian: o Ngram Viewer, que trabalha com um corpus bastante grande de livros em inglês. O problema é que, como o aponta o Etymology online (um site bastante fiável, baseado em várias obras de referência), «a forma adjetival Marxian é às vezes usada (por Groucho, entre outros) para distinguir a trupe de cómicos americanos [Irmãos Marx] do comunista alemão». Por muito que, como vimos, isto não seja inteiramente verdade e que que Marxian seja também usado com o significado de «relativo a Karl Marx», Marxian tem, em inglês, ou talvez sobretudo na tradição americana, um significado duplo que não me deixa fiar-me nos resultados do Ngram Viewer. A palavra Marxian tem claramente o auge da sua utilização nos anos 40/50 e isto pode, sem dúvida, dever-se aos irmãos Marx, mas mantém-se até ao século XXI; o uso de Marxist vai aumentando progressivamente até ao início da década de 80 e começa depois a diminuir. Com uma base de dados fiável, seria interessante ver até que ponto não foi a ampliação do uso de marciano e afins nas línguas mais próximas da nossa que veio bloquear um marxiano surgido naturalmente de Marx. Parecerá óbvio a muita gente que a razão pela qual marxiano nos soa mal é a proximidade fonética e gráfica com esta palavra tão comum, mas não sei desde quando se terá falado de marcianos com tanta frequência.

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E então, pode-se ou não se pode, e deve-se ou não, usar marxiano e as suas correspondentes diretas nas línguas mais próximas da nossa: marxiano (es, it), marxien (fr), Marxian (en), etc.? Pessoalmente, não vejo razão para não usar. É vantajoso distinguir o que diz respeito a Marx do que diz respeito ao marxismo em sentido lato e as duas possíveis desvantagens do termo nem sequer o chegam a ser. Por um lado, o contexto nunca deixa que haja ambiguidade na referência a Karl Marx ou aos irmãos Marx (questão que, de qualquer forma, que não parece pôr-se fora dos EUA). Aliás, também nunca ninguém deixou de usar gregoriano por poder remeter tanto para Gregório I (o canto) como para Gregório XIII (o calendário). E quanto à questão, a que sou sensível, de «soar mal», por evocar imediatamente homens verdes com antenas de caracol, a verdade é que a evidente cacofonia não impede a utilização de termos como hobbesiano, humiano, kantiano ou smithiano[5]...
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[1] Ou marxiste, em francês, claro, mas vai dar ao mesmo. Para simplificar o discurso, uso sempre as palavras portuguesas em -ista, -ismo e -(i)ano, mas refiro-me a todas as do mesmo tipo nas línguas mais próximas, como as francesas em -iste, -isme e -(i)en e as inglesas em -ist, -ism e -(i)an, respetivamente.

[2] Como sempre, a questão é mais complicada do que parece: diz-se maometano, luterano e cristão (para o que aqui nos interessa, cristão é uma forma do tipo -iano, apenas posteriormente transformada) e, mas budista e calvinista. E porque se diz platónico, maquiavélico, pitagórico ou socrático, que não são -ista nem -(i)ano? Porque é que o adjetivo mais usado derivado de Estaline é estalinista – ou o seu equivalente – em português, espanhol, italiano e inglês, mas stalinien em francês? Porque é que os adjetivos mais usados derivados de Maquiavel e Aristóteles são maquiavélico e aristotélico – ou os seus correspondentes – em português, espanhol, italiano e francês, mas Machiavellian e Aristotelian em inglês? Os quatro possíveis nomes/adjetivos em -ico dizem respeito a filósofos antigos e há também o adjetivo crístico, relativo a Cristo, também uma personagem antiga. Note-se que crístico se entende apenas como relativo a Cristo, ao passo que cristão tende a não poder interpretar-se desta maneira, mas apenas como respeitante ao cristianismo. Evidentemente, era preciso saber em que línguas foram cunhados os nomes e adjetivos que referem os discípulos dos vários filósofos, porque o sistema fonético-morfológico da língua em que a palavra foi cunhada pode impedir ou favorecer um determinado tipo de sufixação. E quem diz a língua diz o período em que a palavra foi cunhada, porque as regras morfológicas de uma mesma língua podem ir variando ao longo dos tempos.

[3] É de notar que de Darwin derivam, em todas as línguas, duas palavras comuns, uma em -ista e outra em -(i)ano. O que pode significar, precisamente, que é standard em relação a Darwin e ao darwinismo o que ainda não é — ou talvez nunca a venha a ser — em relação a Marx e ao marxismo.

[4] Engels diz em duas cartas que Marx afirmara não ser marxista (traduzo eu):
«Agora, o que se conhece em França como “marxismo” é, na realidade, um produto bem peculiar — de tal maneira que Marx uma vez disse a Lafargue: “O que é certo é que eu não sou marxista.”» Carta a Bernstein, 1882 
«A conceção materialista da história tem muitos [amigos perigosos] hoje em dia, a quem serve como desculpa para não estudarem história. Como Marx dizia, num comentário aos “Marxistas” franceses do fim da década de [18]70: “O que eu sei é que não sou marxista.”» Carta a Schmidt, 1890
[5] É certo que as formas em -ista não soariam muito menos cacofónicas nestes casos… Mas é preciso ver que, na maior parte dos casos, a cacofonia é um fenómeno percetivo resultante do hábito e não tem origem em nenhuma incompatibilidade intrínseca do sistema fonético ou morfológico.