17 de janeiro de 2017

A grafia como memória etimológica: duas curiosidades sobre ss e acentos circunflexos

A regra é esta: qualquer alteração na grafia, em qualquer língua, em qualquer altura, será sempre contestada.

Já desde 1990 que se deve suprimir a maioria dos acentos circunflexos no i e no u, mas a maior parte das pessoas continua a escrever como aprendeu («está bem, mas eu foi assim que aprendi, é assim que escrevo» é uma justificação frequente da não adesão a reformas ortográficas) e, de vez em quando, reaviva-se a contestação ao desaparecimento dos circunflexos. O argumento é às vezes a perda da memória etimológica: esses circunflexos assinalam o desaparecimento de um s latino.

Há quem argumente — com toda a pertinência, na minha opinião — que à maior parte das pessoas não interessa para nada a etimologia e que os que por ela se interessam não é com ortografias «etimologizantes» que a aprendem. Também se pode argumentar, porém, que essas grafias são um auxiliar do conhecimento etimológico que se adquire sem grande custo ao aprender a escrever, de maneira que é mais ganho que perda.

Não vou discutir aqui qual a melhor grafia para se aprender a escrever, até porque não domino bem o assunto. Vejo que os dinamarqueses, que têm uma grafia nem sempre muito fonética, aprendem a escrever com uma grafia artificial mais fonética («escrita de crianças») que é mais tarde corrigida — e parecem ter com isso bons resultados, ao que observo à minha volta. Mas não sei. O que sei, e é disso que quero falar agora, é que as grafias etimológicas, além de terem sido elas próprias muitas vezes introduzidas rompendo com a evolução natural da escrita, nem sempre são realmente etimológicas. Dou-vos dois exemplos, dos muitos que podia dar, dessas grafias etimoilógicas, como eu lhes chamo, porque de lógicas não têm muito.

Boite vem do latim buxida, que deu buxita, que deu bustia, bostia, boiste e boîte. Então, ao contrário do que muitas vezes se diz, o acento circunflexo de boîte não assinala(va) o desaparecimento de um s etimológico, mas apenas o desaparecimento de um s que houve numa determinada fase da evolução da palavra. De facto, ortografias conservadoras como a do francês não são etimológicas em sentido estrito (e existirá tal coisa?), mas muitas vezes refletem antes maneiras antigas de pronunciar as palavras — de várias épocas misturadas… E convém esclarecer, já agora, que a escrita parou numa época, há muitos séculos, em que se dizia /boite/como se escreve, mas, como sabem, a palavra continuou a evoluir: passou a dizer-se /buete/ e depois a /buate/, como se pronuncia agora.

Já em île, o acento circunflexo marca(va) mesmo o desaparecimento do s que tinha havido no latim i(n)sula. Agora, porque acharão os defensores das marcas etimológicas que se deve assinalar o desaparecimento do s latino e não o desaparecimento do u latino, por exemplo? É estranho. Aliás, não é só impossível definir o que se há de conservar do étimo, como é impossível definir o próprio étimo: as palavras latinas também têm uma história, não foram criadas do nada. Mesmo que, para simplificar, tomemos como étimo as primeiras formas escritas, a coisa é complicada: o étimo de boite passa a ser grego (πυξίς) e põe-se mais uma questão às preferências etimológicas: que escrita etimológica se deve ou pode usar para o que vem de outros alfabetos ou de outros sistemas de escrita?

Mas enfim, deixemos isso, tenho a certeza de que, chegados aqui, os meus leitores estão já mais que convencidos de que isso da grafia etimológica é uma grande confusão… Em île, dizia eu, o acento circunflexo assinala que houve ali um s que desapareceu da escrita e da pronúncia. Já no inglês isle, que vem do francês, o s nunca desapareceu… da escrita. Agora, o mais curioso é que island, que se pode relacionar semanticamente com isle, tem um s etimologicamente injustificado. A forma que deu island, igland, não tem s nenhum, mas alguém achou por bem ir buscá-lo a isle e acrescentá-lo à palavra, só para enfeitar... É de notar, já agora, que o isle inglês foi ile antes de ser isle, porque foi assim que foi importado do francês, numa altura em que as grafias il(l)e e isle coexistiam. Quando os franceses resolveram fixar, no séc XVI, a grafia com aquele bonito s, os ingleses acharam por bem imitá-los. Depois, os franceses substituíram o s por um acento circunflexo no i, mas os ingleses preferiram manter o s. Uma bonita história, não é?

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