8 de janeiro de 2017

Funcionalismo de tijolo amarelo [Crónicas de Svendborg #24]

Nasci em Lisboa, entre a Graça e Santa Apolónia, e, por isso, o funcionalismo* é, para mim, o estilo arquitetónico mais natural. Mas não há funcionalismo de tijolo amarelo em Lisboa. Bom, a cor do tijolo é um pormenor relativamente secundário num edifício. Ou, mesmo que não seja, não é por ser ou não de tijolo amarelo que gostamos de uma casa. A verdade, porém, é que dou por mim muitas vezes a achar bonitas casas de tijolo amarelo, que querem?, e achei que era bom tema para um artigo de blogue, voilà!

Encontrei no blogue A/DRIFT IN DK, de Ann Priestley, um distinção entre «dois estilos principais» de funcionalismo dinamarquês «no período entre as duas grandes guerras» (traduzo eu). Há:
Edifícios mais parecidos com os que se encontram fora da Dinamarca, muitas vezes em estilo cubista branco com coberturas planas, experimentando o betão e outros materiais novos (...), o funcionalismo internacional, (...) [e] edifícios que integram as tradições e materiais dinamarqueses, utilizando tijolo e telha (...), o funcionalismo internacional, muito mais divulgado.

Vale a pena ler todo o artigo, "Bauhaus in Denamark: it's funkis", bem como outro artigo sobre o funcionalismo dinamarquês, "Landmarks: the modern house in Denmark". Para ilustrar o funcionalismo nacional, Ann Priestley escolhe um edifício que sempre me encantou — de tijolo amarelo.

Virum Torv 2/Frederiksdalsvej 7. Foto de Ann Priestley, com autorização da autora (ver em Google Maps Street View)  
Não consegui descobrir quem o desenhou. Aliás, não consegui descobrir quem desenhou nenhum dos prédios que aqui mostro a seguir. Não são obras marcantes, notem, e nem forçosamente funcionalistas, apenas edifícios de tijolo amarelo com que me cruzo no meu dia-a-dia e que acho bonitos.

Søndre Boulevard 80, Odense. Foto minha (ver em Google Maps Street View)



Valdemarsgade 46,  Svendborg. Foto minha (ver em Google Maps Street View)

Sirenvej 53, Vindeby. Foto de Google Maps, ligeiramente tratada (ver em Google Maps Stret View)



A biblioteca de Svendborg, Svinget 1, vista de Viebæltet. Foto minha. Não se vê toda a extensão do edifício (ver em Google Maps Street View)

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Agora, uma coisa que não tem nada a ver com isto: um senhor chamado Mark Forsyth diz que, em inglês, uma sequência de múltiplos adjectivos «tem absolutamente de seguir esta ordem: opinião-tamanho-idade-forma-cor-origem-material-finalidade». Se não o fizer, a frase soará errada, embora os falantes da língua não saibam explicar porquê (leiam aqui: ) Será o mesmo em português? Mas, e se for, que tipo de qualidade é funcionalista? Não parece estar na lista… É que hesitei um bocado no título: primeiro, queria qualificar o tijolo com dois adjetivos, mas, como não conseguia decidir se me soava mais natural «tijolo funcionalista amarelo» ou «tijolo amarelo funcionalista», resolvi dar a volta à coisa. (Smile, smile)

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* Ou modernismo, se preferirem. A distinção entre os dois termos, ambos muito abrangentes, parece não ser clara, e ainda menos para mim, que não sou especialista em arquitetura, mas é funcionalismo que se usa aqui na Dinamarca para designar este tipo de arquitetura de que aqui falo.

Um amigo meu dinamarquês, que é arquiteto, disse-me uma vez que nunca ouviu falar de modernismo na Dinamarca até aparecer o pós-modernismo: «É claro, como tinham um pós-modernismo, tinham de ter um modernismo; e então começaram a designar como modernistas as coisas que nós sempre conhecemos como funcionalistas.»


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