24 de fevereiro de 2017

Anglicismos gregos e latinos, e outros estrangeirismos

Num comentário do meu último artigo, referia que quem se preocupa com as marcas de abertura das vogais na escrita pode começar por propor algum tipo de diacrítico nas palavras com o elemento tele-, que têm uma pronúncia altamente irregular, como se pode constatar comparando telefone, telefonia, telegrafia, telepatia, telescópio e televisão com telemóvel, teledifusão, telejornal, telenovela, telescola e televendas[1].

Quando comparei os dois grupos de palavras começadas pelo elemento tele-, à procura de alguma explicação dos dois paradigmas de pronúncia, a primeira hipótese que me surgiu foi que este elemento se pronuncia de facto [tèlè] em português e que, por isso, quando se forma alguma palavra com esse elemento e uma palavra portuguesa, tem-se a pronúncia «aberta». As palavras que se pronunciam com ee «fechados», pensei eu — ou seja, as que seguem a regra geral de pronúncia dos ee átonos — são as que foram cunhadas noutras línguas e são importadas já feitas. A palavra telefone, cunhada em francês no início do séc. XIX (segundo alguns, para designar um estranho sistema de comunicação ), foi adotada por Bell em 1876 e foi do inglês que a importámos. É muito provável que telefonia, no sentido de rádio (que é, ao que sei, exclusivo do português), derive do sentido geral inicial de telefonia, comunicação à distância. Telégrafo e telegrafia são também palavras cunhadas em francês mesmo no fim do séc. XVIII e depois adoptadas para o sistema de comunicação desenvolvido nos EUA. Telepatia foi cunhada em inglês em 1882, por Frederic Myers. Telescópio parece ter sido cunhado em italiano, na primeira metade do séc. XVII. Televisão, que não se sabe ao certo se é termo cunhado em francês ou inglês, surgiu já no séc. XX, pouco antes de surgir o aparelho a que hoje damos esse nome. As palavras com ee «abertos» seriam, pois, mais «portuguesas», se é que se pode dizer assim, por muito que possam, nalguns casos, ter sido criadas com base em modelos importados.

Infelizmente, a minha teoria não funciona tão bem como me parecia à primeira: por um lado, parece não se poder postular uma regra geral segundo a qual se abrem as vogais do primeiro elemento quando o segundo se reconhece como elemento autónomo. Visão existe em português — tal como grafia e fone, aliás, embora estes dois últimos termos sejam termos técnicos sem relação direta com telegrafia e telefone. Por outro lado, há exceções a esta regra: telemetria ou telecinesia, por exemplo, com ee «abertos» mas formadas seguramente noutra línguas, com um segundo elemento sem autonomia em português. É claro que, como solução de facilidade, se pode, apesar disso, admitir a regra... com as suas exceções...

Isto era uma espécie de introdução. Este texto é sobre estrangeirismos, palavras importadas. Tenho a impressão (mas é mesmo só isso, notem, uma impressão) que muitas pessoas não têm uma ideia clara da enorme quantidade de palavras importadas que há em qualquer língua; porque palavras importadas não são só as que se veem que são estrangeiras, são também as que já ninguém reconhece como tal. Era aí que queria chegar com os parágrafos anteriores. É uma das maneiras normais de qualquer língua se desenvolver e manter viva: importar constantemente termos de fora.

É claro, podíamos cultivar o hábito de cunhar neologismos nossos e diferentes dos que vão aparecendo noutras línguas para designar coisas novas e atividades novas, como fazem muitas vezes os islandeses, por exemplo, que não têm televisão, nem helicóptero, nem computador, só þyrla, algo como rotor; sjónvarp, projecção da visão, ou algo assim, e tölva, uma amálgama da palavra que significa «número» com a palavra que significa «profetisa», imaginem… Ou então simplesmente decalcar o termo estrangeiro, mas com elementos nossos. Em alemão e em dinamarquês (para falar de línguas de que sei um poucochinho), às vezes faz-se isso: por exemplo, Fernsehen ou fjernsyn são como televisão, mas com elemento germânicos em vez de greco-latinos; ou Unabhängigkeit ou uafhængighed que são exatamente in-de-pend-ência. Mas nós não precisamos, porque temos uma grande tradição de termos greco-latinos, de maneira que se consideram bem formados os neologismos greco-latinos do inglês ou do francês e os importamos diretamente e sem mais, só ajustando um bocadinho pronúncia e grafia. O dicionário Porto Editora diz que computador vem do latim computatore, mas é óbvio que não vem, é uma adaptação de computer. A palavra computer, é curioso, referia uma pessoa que ganhava a vida a fazer contas, numa altura em que não havia Excel nem máquinas de calcular, depois qualquer máquina de calcular e depois é que se tornou o que é hoje. Não é só o futebol, o andebol e o basquetebol, os penáltis e os golos, o lanche e o bife (que é uma palavra inglesa importada do francês, como muitas palavras inglesas…) — do inglês vêm-nos também coisas tão pouco germânicas como, por exemplo, placebo, interferência[2] e empatia, esta última palavra cunhada em 1909 por um psicólogo britânico para traduzir um conceito de um filósofo alemão

A tendência de importar palavras — «bem formadas» ou completamente estranhas — não é de modo nenhum recente. Fernando Venâncio mostra que Camões, por exemplo, vai buscar ao castelhano uma grande quantidades de latinismos criados naquele idioma. Aéreo, aquoso, árido, áureo, canino, canoro, ciente, diáfano, dissonante, espumante, estupendo, famélico, fétido, fraudulento, fugaz, fulgente, fulminante, furibundo, hispano, impudico, inerte, inúmero, inusitado, lácteo, malévolo, náutico, plácido e vasto são alguns dos adjetivos castelhanos que Camões importou, para ficarem de vez em português, e que, ao contrário de, sei lá, airoso, hediondo ou sangrento, são tão portugueses que ninguém pensa neles como antigos estrangeirismos. Mas não foi só Camões que importou castelhanismos, longe disso. Foi prática bastante corrente durante vários séculos. Como foi prática corrente importar palavras francesas e italianas… e outras. Nisso, não há nada de novo.

Também não deve ser nova a indignação contra essas importações. Justificada, concedo, de vez em quando: para quê palavras estrangeiras para dizer coisas que não custa nada dizer em português? Também reajo mal a estarem sempre a arranjar-se maneiras novas de dizer coisas que não precisam nada de ser ditas com outras palavras, sejam elas importadas ou não. Mas nem sempre é fácil saber quando há que importar ou cunhar palavras novas e há muitas reações exageradas a certos estrangeirismos ou neologismos. Já aqui falei algumas vezes disso, hoje tenho mais um exemplo muito concreto de uma reação provavelmente exagerada — com a melhor das intenções: irritava-se um amigo meu com o que ele considerava uma perfeita estupidez, usar inicializar em vez de iniciar um programa de computador. É certo que inicializar é um neologismo que é uma tradução do inglês com um cognato, o que muitas vezes dá disparate. Mas é preciso ver que initialise não é initiate. Initiate, sim, significa «iniciar». Mais ou menos, vá. Initiate ou start são «iniciar». Mas initialise é pôr nos valores de base, no estado inicial. E pode, por isso, considerar-se um neologismo bem formado, porque o sufixo -izar é precisamente muito produtivo para formar verbos a partir de adjetivos, tendo sempre o valor de «tornar x»: humanizar é tornar humano, realizar é tornal real, concretizar é tornar concreto e assim sucessivamente[2]. A malta da informática não é toda pedante, nem há mais pedantes entre os informáticos que noutro grupo profissional qualquer. Mas, como os mecânicos ou as costureiras, têm de arranjar palavras que lhes deem jeito para trabalhar. É certo que podiam dizer «pôr os valores a zero» ou «voltar ao estado inicial», mas é pouco prático, sobretudo quando depois tem de se arranjar nomes correspondentes aos verbos. E, se inicializar é um neologismo bem formado e que diz bem o que deve dizer, porque não usá-lo?

Dos estrangeirismos que se usam em determinada altura, uns ficam e outros não. O vocabulário do futebol, para dar um exemplo simples, era todo ele inglês quando a modalidade surgiu, mas nem todos os termos ficaram: já ninguém fiz match, nem forwards nem half-backs, nem outras palavras futebolísticas que se diziam há uma centena de anos, como já ninguém diz shake-hands, uma expressão que me lembro de ver em textos de Eça de Queiroz. Não sei se alguém ainda chamará poche a uma bolsa de guardar agulhas e carros de linhas, ou se alguém ainda vai à cabeleireira fazer uma mise en pli, mas, nalguns dicionários, relais já só aparece com a grafia portuguesa relé (e acho muito bem). É assim a vida. Os estrangeirismos que ficam, naturalizam-se e deixam de ser estrangeirismos: botas ou constatar, duas palavras importadas do francês, são agora palavras tão genuinamente portuguesas como o hão de ser em breve, sei lá, alocação ou dauneloude, perdão, download[4]...

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[1] Estas palavras deviam também contribuir para tranquilizar aquelas pessoas que têm medo que a escrita influencie a pronúncia da língua. Não se preocupem: se não acontece com aquecer, esquecer, padaria e telemóvel — e muitos outros exemplos — , também não acontece com conceção, sim?

[2] Não é fácil chegar a uma conclusão sobre a origem de interferência, mas parece certo que a palavra entra em português em meados do século XIX. A. Geraldo da Cunha diz que vem do francês e data de 1844 a primeira ocorrência em português, mas J. Pedro Machado e Joan Coromines concordam com o CNRTL e outros dicionários quanto à origem inglesa do termo (atestado em inglês em 1783) e à sua composição com o sufixo em -ence a partir de uma falsa etimologia: seguiu o modelo de difference, que vem de differre, mas interfere, atestado já no século XV, não viria do latim interferre, como alguns dicionários postulam, mas do francês antigo entreférir, derivado de férir, «ferir». Coromines não gosta de interferência: «…el verbo interferir, “inmiscuirse, perturbar”, como el sustantivo en el sentido correspondiente, son anglicismos tan superfluos como feos».

[3] Já customizar, por exemplo, que se vê às vezes, é realmente uma palavra mal formada.

[4] Ambos os termos estão já dicionarizados, mas são ainda, claro, sentidos como estrangeiros.

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