19 de março de 2017

De passagem

1. «Estou só de passagem» era um mote recorrente da minha adolescência vagabunda, que muitas vezes ilustrei, em qualquer papel que apanhasse à mão. Este desenho aqui por cima foi feito numa folha de bloco pautada (tirei-lhe as linhas com um programa de tratamento de imagem). É de finais dos anos setenta e foi um amigo que o guardou e mo fez chegar. (Ah, os amigos!...)

A minha figura que passava – não me lembro de o fazer conscientemente, mas posso agora constatá-lo – inspirava-se seguramente no icónico «Just passin’ thru», de Robert Crumb.

Não é preciso acreditar que há alguma coisa depois da morte para pôr as coisas nestes termos: estar de passagem – ou passar apenas, até – é uma excelente metáfora da vida. E acho que era isso, mais que a descrição da minha condição de vagabundo, que me fascinava na tão repetida figura que apenas passa.

2. Se é verdade que, como postulam alguns e a mim me parece fazer todo o sentido, os sistemas nervosos dos animais se desenvolveram para controlar movimento e que continua a ser essa uma das suas funções principais, não é de surpreender que as noções espaciais estejam na base de todas as noções abstratas com que raciocinamos, em que encaixamos o mundo.

Pasar é, diz o dicionário da Real Academia Espanhola, «cruzar de una parte a otra» ou «ir más allá de un punto limitado o determinado». Tem mais 62 aceções, mas creio que decorrem todas destas duas, que, bem vistas as coisas, são afinal uma única: « mover-se em direção a X, seja X um ponto ou um espaço, e continuar a mover-se depois de ter atingido X».

É o que fazemos toda a vida, como dizia e bem Antonio Machado:
Todo pasa y todo queda, / pero lo nuestro es pasar, / pasar haciendo caminos, / caminos sobre la mar.
«Proverbios y cantares XLIV», in Campos de Castilla, 1917)

3. Podemos sempre perguntar «O que se passa?» ou «O que se passou?» e todos os acontecimentos servem de resposta a esta pergunta. De cada vez que atingimos o tal X – e estamos sempre a atingi-lo – o que percorremos já é o passado, claro está. Um dia, passa a vida por nós e somos nós passado.

 Agostinho de Hipona:
O que é, pois, o tempo? Se ninguém mo pergunta, sei o que é; mas se quero explicá-lo a quem mo pergunta, não sei: no entanto, digo com segurança que sei que, se nada passasse, não existiria o tempo passado, e, se nada adviesse, não existiria o tempo futuro, e, se nada existisse, não existiria o tempo presente. De que modo existem, pois, esses dois tempos, o passado e o futuro, uma vez que, por um lado, o passado já não existe, por outro, o futuro ainda não existe? Quanto ao presente, se fosse sempre presente, e não passasse a passado, já não seria tempo, mas eternidade. Logo, se o presente, para ser tempo, só passa a existir porque se torna passado, como é que dizemos que existe também este, cuja causa de existir é aquela por que não existirá, ou seja, não podemos dizer com verdade que o tempo existe senão porque ele tende para o não existir?

4. Para Agostinho de Hipona, o passado só existe por estar presente – ou talvez melhor, por ser presente – na memória:
Se existem coisas futuras e passadas, quero saber onde estão. Mas (…), onde quer que estejam, aí não são futuras nem passadas, mas presentes. (…) Até a minha infância, que já não existe, existe no tempo passado, que já não existe; mas vejo a sua imagem no tempo presente, quando a evoco e descrevo, porque ainda está na minha memória. (Ibid, XVIII. 23) 
Existem na minha alma estas três espécies de tempo e não as vejo em outro lugar: memória presente respeitante às coisas passadas, visão presente respeitante às coisas presentes, expectação presente respeitante às coisas futuras. (Ibid. XX. 26) 
A obra de Agostinho de Hipona é um clássico, como é clássica a sua reflexão sobre o tempo. Os «Proverbios y cantares» de Machado também são já um clássico, e creio que se pode dizer que o Mr. Natural de Crumb também já o é. Perenes, provavelmente não são, mas resistem bem a passar apenas.

É possível alguém permanecer em vez de estar só de passagem? Ficar para sempre presente nalguma memória, se soube ganhar a fama e a glória? Qual! Figura de estilo apenas, ou então ilusão: se tivermos feito obras valerosíssimas, quem se liberta da morte são as obras, que não nós. Ao fim de uma ou duas gerações, já não existimos na memória de ninguém.

2 comentários:

jj.amarante disse...

Uma vez fiz um post (http://imagenscomtexto.blogspot.pt/2016/01/teorias-de-tudo-por-john-d-barrow.html) sobre um livro (Teorias de Tudo de John D.Barrow) de que cito:

«...
Prossegue (o autor do livro) depois sobre o tema do Tempo, citando

- este graffiti de um anónimo no Texas:
«O tempo é o modo como Deus evita que as coisas aconteçam todas ao mesmo tempo»;

- Bernard Shaw:
«Os ingleses não são um povo muito espiritual. Então, inventaram o críquete que lhes dá alguma noção de eternidade»;

- e “A Cidade de Deus” de Santo Agostinho:
«O mundo foi então seguramente feito, não no tempo, mas simultaneamente com o tempo. Porque aquilo que é feito no tempo é feito tanto antes como depois de algum tempo – depois disso, que é passado, e antes disso, que é futuro. Mas então nada podia ser passado, pois não existia nenhuma criatura cujos movimentos pudessem ser medidos para determinar a sua duração. Mas simultaneamente com o tempo o mundo foi criado.».

considerando que esta visão da simultaneidade da criação do Universo e do tempo é a opinião dominante dos cientistas de hoje, que corresponde à opinião de Santo Agostinho, manifestada no século V.
...»

Vítor Santos Lindegaard disse...

Bons aforismos! É de facto de uma surpreendente modernidade, o filósofo Agostinho. Eu lembro-me de que o conheci (e concretamente estes textos das Confissões que cito) quando comecei a estudar tempo nas línguas naturais, que foi um assunto a que me dediquei muito, há muitos anos. Agostinho concebe Deus (que tem o exclusivo da eternidade, que não pode ser unidirecional) como estando fora do tempo – não posso dizer "como sendo anterior ao tempo", porque, nesta perspetiva, isso seria uma contradição.