9 de julho de 2017

In hoc signo vinces: uma bandeira caída do céu [Crónicas de Svendborg #25]

A bandeira da Dinamarca chama-se Dannebrog[1]. Diz a lenda que a Dannebrog caiu do céu a 15 de junho de 1219 e por isso o dia 15 de junho é o dia da bandeira. Nesse dia, veem-se ainda mais bandeiras que nos outros dias, mas a verdade é que há sempre muitas dannebrog por todo o lado em todos os dias do ano. É que os dinamarqueses usam a bandeira de uma forma às vezes diferente de como os povos de outras nações usam a sua…

Durante muito tempo, a bandeira dinamarquesa teve apenas o uso oficial mais comum das bandeiras nacionais e chegou até a ser proibido o seu uso privado. Atualmente, porém, a Dannebrog é usada para assinalar qualquer género de festividades, desde todos os tipos de aniversários até celebrações religiosas e académicas, etc., e é também comummente usado para receber visitantes ou pessoas que voltam de uma viagem, ou até para anunciar saldos ou ofertas especiais em lojas ou venda privada informal de bens de segunda mão ou ... ovos.
E também faz muitas vezes parte da decoração da árvore de Natal...

A maioria dos dinamarqueses não tem consciência de usar a bandeira de maneiras muito originais. Sei que também se usam bandeiras em aniversários noutros países escandinavos e é provável que mais alguns dos usos pouco canónicos da bandeira que referi atrás se alarguem à Noruega e à Suécia, talvez às ilhas Faroés e à Islândia, não vos sei dizer, mas não se devem alargar a muitos mais países...

***
Como já referi, a Dannebrog caiu do céu. É uma história alguma originalidade, mas, por outro lado, inscreve-se num modelo de lendas cristãs que se podem designar com uma famosa frase latina: in hoc signo vinces, «com este sinal, vencerás». Dá-se muitas vezes como origem deste motivo recorrente na cultura europeia uma lenda registada no século IV[2]: quando o seu exército se preparava para uma batalha, o imperador romano Constantino viu no céu uma cruz de luz com o célebre lema escrito em grego por baixo[3]. Constantino não entendeu o sinal que tinha visto até Jesus lhe explicar, num sonho, que era aquele o sinal que deveria usar contra seus inimigos.

Existem umas quantas variações deste meme cristão e a Dannebrog que cai do céu na Estónia é uma delas. Dignas de nota são também, entre outras, algumas lendas ibéricas do mesmo tipo, como a da famosa visão do primeiro rei português antes da batalha de Ourique em 1139 e a da reconquista de Alcácer do Sal por D. Afonso II em 1217, onde, diz-se, apareceu no céu uma cruz, assinalando a intervenção divina que deu a vitória aos cristãos[4]. Num artigo de 1951[5], J. O. Kock encontra uma referência à lenda da conquista de Alcácer nos escritos de dois outros historiadores dinamarqueses e dá conta de que essa e outras histórias ibéricas semelhantes eram conhecidas no norte da Europa; mas considera, naturalmente, que é impossível estabelecer se há ou não algum tipo de influência direta das lendas ibéricas na história da Dannebrog[6].

A Dannebrog caiu dos céus em Lindanise durante as campanhas militares de Valdemar II na Estónia. Berengária de Portugal, filha de D. Sancho I, era na altura rainha da Dinamarca e creio que é esta relação existente na época entre Portugal e a Dinamarca que suscita a hipótese da influência portuguesa na lenda dinamarquesa. A verdade, porém, é que não se sabe muito das relações entre os dois reinos na altura, nem sequer que relação Berengária mantinha com Portugal, de onde tinha saído dois anos antes de se casar com Valdemar II, nem que informação tinha do que por lá se dizia acontecer. A influência das lendas ibéricas na lenda da Dannebrog não é impossível, mas também não parece haver nenhuma razão para a considerar provável.
_______________

[1] Note-se que o elemento dan(ne) não tem nada a ver com os Danos que dão o nome à Dinamarca, é uma palavra que não se encontra em dinamarquês moderno e que quer dizer «vermelho»; brog é «pano» e outra palavra inexistente no dinamarquês atual.
[2] O fantástico acontecimento é referido por dois autores do séc. IV, Lactâncio e Eusébio de Cesareia, em, respectivamente, Lucii Caecilii liber ad Donatum Confessorem de Mortibus Persecutorum e Vita Constantini.
[3] Curiosamente, não encontro referência a esta lenda nas várias páginas portuguesas sobre Alcácer do Sal que consultei para escrever este texto. Mas não é só no texto de Kock que refiro mais adiante que há referências a esta lenda. Na página da Wikipédia em inglês sobre Alcácer do Sal, por exemplo, cita-se uma obra de Joseph F. O'Callaghan que alude à lenda da intervenção de (traduzo eu) «um grupo de cavaleiros celestes todos vestidos de branco»  e de visões do «sinal da santa cruz no céu, como sinal da [sua] vitória».
[4] Infelizmente, só em dinamarquês: Kock J. O., “Sagnet Om Dannebrog” in Danske Studier For Universitetsjubilæets Danske Samfund, Udgivne Af Gunnar Knudsen Under Medvirkning Af Ejnar Thomsen, Copenhaga: J. H. Schult Z Forlag, 1951
[5] ἐν τούτῳ νίκα, algo como «com isto, conquista».
[6] Seja como for, a lenda parece ter surgido muito depois das cruzadas bálticas. Os relatos das expedições de Valdemar contemporâneos dos eventos não mencionam eventos milagrosos e os primeiros registos da lenda da Dannebrog datam do século XVI, nos escritos de Petrus Olai (Danmarks Tolv Herligheder), Christiern Pedersen (Danske Krønike) e Arild Huitfeldt (“Chronologia”, in Danmarks Riges Krønike).

Sem comentários: