21 de fevereiro de 2019

Palavra puxa palavra: uma conversa numa rede social

Faz agora um ano, o meu amigo Stefaan Dondeyne e eu tivemos uma conversa curiosa no Facebook. Fui eu que comecei, com a seguinte publicação:
Em francês, distinguia-se – e há ainda com certeza quem distinga, apesar de a regra ter sido alterada em 1990 – entre cuissot, uma coxa de um animal de caça, e cuisseau, uma coxa de vitela, por muito que as duas palavras se pronunciem, claro, da mesma maneira e tenham, evidentemente, a mesma origem.
Agora, se isto vos aparece extravagante, vejam que o Porto Editora diz que uma escola islâmica se chama uma madraça, a não ser que seja na Guiné-Bissau ou em Moçambique, onde é uma madrassa
Era dar conta de uma curiosidade e não uma crítica. Provavelmente, até é certo que a grafia predominante na Guiné e em Moçambique é com ss e nas outras variantes com ç. (O que está com certeza mal é que a grafia moçambicana não tem origem no mandinga, mas isso é outra história…)
E respondeu-me Stefaan (traduzo eu de forma bastante livre, porque ele não me respondeu em português):
Em suaíli, darasa (no singular, madarasa no plural.) significa apenas aula ou sala de aulas. Ok, isto não está diretamente relacionado com a ideia central da tua publicação, mas fiquei a pensar em qual seria o significado de darasa em árabe. Parece-me provável que também signifique apenas «sala de aula».
Fui dar uma voltinha ao Google e respondi-lhe:
Stefaan, em árabe, a palavra tem o ma- no singular e no plural e significa apenas «escola», qualquer tipo de escola (مدرسة‎, madrasah, plural مدارس, madāris).
Na altura, pesquisei apenas madrasah em árabe, mas não pesquisei se darasa também significava alguma coisa nessa língua – que era a dúvida de Stefaan. E significa, de facto, pelo menos a fiarmo-nos no Wiktionary —não «sala de aula», como Stefaan previa, mas «aula», «lição» ou «estudo». Ou seja, tem afinal, um significado igual a um dos significados de darasa em suaíli. Além disso, como verbo, pode também significar «estudar» e «aprender». De facto, madrasah forma-se como nome de lugar do verbo: é um lugar de estudar ou de aprender. Mas isto só o soube ontem. Na altura, o que me veio à cabeça foi outra coisa diferente:
É de facto interessante, Stefaan, agora que penso nisso: como o ma- é marca de plural nas língua bantas, o suaíli cria uma forma de singular de uma palavra que não é originalmente plural, só porque começa com ma-. O mesmo acontece, por exemplo, em português quando algumas pessoas dizem «uma sande». Partem do princípio de que o s final de sandes é uma marca de plural e criam, por isso uma forma singular sem s [quando de facto o s final de sandes vem do ch final de sandwich, singular].
Muito provavelmente, e mesmo sem saber, na altura, da existência de darasa em árabe, tenho razão na minha análise da formação do singular darasa em suaíli, com o significado de «sala de aula» – mas talvez não, talvez esse significado tenha derivado diretamente do significado «aula»...

Stefaan, pegando na deixa da chamada etimologia popular (ou, mais concretamente, de ressegmentação, metanálise ou retroformação, não chego à conclusão de que termo é mais usado em português), tinha algo a acrescentar sobre este tema:
Vítor, não é regra geral, mas há com certeza outros exemplos. Um deles é kitabu, «livro», no singular, que dá vitabu, no plural. Kitabu vem do arábe kitab [ كِتَاب‎ — a primeira sílaba é pois interpretada com o prefixo suaíli ki- do singular de uma classe de nomes, pelo que passa a vitabu, que é o plural dessa classe]. Também na brincadeira (ou como calão), há quem faça o singular de video como kideo…. A classe ki-/vi- é uma classe de nomes para «coisas». [Ver aqui uma explicação do sistema das classes de nomes em suaíli.]
Já se sabe, as palavras são como as cerejas e, palavra puxa palavra, uma pessoa começa a falar de palavras com grafia dupla e, de repente, ena, onde a conversa já vai!

9 de fevereiro de 2019

Uma sopa improvisada

Dizia-me uma vez um amigo que, em culinária, o mais importante é a imaginação. Mas imaginação só não chega. É certo que é muito importante atrever-se a experimentar, mas há que ter também uma boa noção de como se equilibram sabores e consistências, para que os produtos da imaginação não sejam tão inovadores como intragáveis.

Faço muitos pratos de muitos sítios diferentes, mas nem sempre os faço da uma maneira canónica. Creio que sou nisso igual à maior parte das pessoas que gostam de cozinhar – acaba-se sempre por se dar um toque pessoal… Também faço, porém, muitos pratos que não são de lado nenhum, que são invenções minhas. Ou apenas variações sobre pratos existentes, em que, de tão afastadas, já ninguém reconhece o original. Dos pratos que invento, há muitos que, por razões várias, não volto a fazer, mas também há alguns que repito e alguns que passo até a fazer com regularidade. A invenção de que vos falo hoje já foi repetida e há de sê-lo mais vezes, estou em crer – ficou uma coisa mesmo ao gosto da malta cá de casa.

Antes de passar à receita da sopa, deixem-me só explicar que, cá em casa, raramente se fazem compras para fazer especificamente este ou aquele prato. Quando vamos ao supermercado, compramos o que houver de bom e barato e depois vai-se diariamente decidindo o que se faz com os produtos que há na despensa, no frigorífico ou no congelador.

No outro dia, dei com um frigorífico, um frigorífico relativamente vazio. Havia talos de aipo, uns pimentos vermelhos, um resto de abóbora (por acaso, daquela a que se chama hoikkado ) e um resto de couve coração-de-boi. Havia cebolas na despensa e tomate em pacote já passado e havia no congelador uma mistura de mariscos congelada, que costumo usar para fazer arroz de marisco. E pronto, é esta a lista dos ingredientes sólidos da sopa. É claro que a fica ainda melhor se se usar marisco fresco e tomate fresco, passado no robô ou com a varinha.

Piquei muito grosseiramente a cebola, o talo de aipo e os pimentos e pus a refogar tudo em azeite, em lume muito brando. Entretanto, ralei a abóbora no robô, com a lâmina de ralar mais grossa, e juntei ao refogado. Deixei estar aquilo muito tempo, a apurar, a apurar, até começarem a aparecer sucos castanhos – é mesmo antes de começar a queimar, sabem?

Queria então molhar com um copinho de vinho branco, mas, que chatice!, tinha-se acabado. Um bocadinho de conhaque ou afim havia de ficar bem, pensei eu, mas também não havia. Espera! E um bocadinho de vinho do Porto? Um bocadinho só, para não adoçar a sopa, mas o suficiente para cortar o ácido ao tomate que vinha a seguir e, claro, para dar à sopa um travo especial.

Quando o cheiro a vinho deixou de sobressair, juntei o tomate. Continuou tudo a refogar muito devagarinho, até ficar o estufado a precisar de líquido. Juntei aí a couve cortada aos bocados e a mistura de mariscos, que sempre dão algum líquido, e continuou tudo a estufar mais um bocado.

Quando secou, deitei-lhe um bocado de água de cozer couve-flor e curgete do dia anterior. Eu guardo sempre os caldos de cozer coisas, porque me podem ser úteis em molhos ou sopas, como este foi neste caso. É claro, se tivesse sido água de cozer marisco, melhor seria…

Não deixei cozer muito mais, só uns dez minutos, uma coisa assim, porque não queria a couve a os mariscos muito cozidos. Uns minutos antes de apagar o lume, ajustei o sal e juntei à sopa meia grama de açafrão (açafrão mesmo, curcuma não!), para rematar o paladar e, de bónus, melhorar a cor.

Não foi preciso ligar a sopa com coisa nenhuma, porque a consistência estava como eu a queria. Ainda assim, como tinha no frigorífico um bocado de cevada cozidos (ou cevadinha francesa, como também se chama), deitei uns bagos no meu prato. Os outros comensais não quiseram, preferiram a sopa sem mais entulho.

Bom proveito!