<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-2874386790023925718</id><updated>2012-02-10T11:43:53.049+02:00</updated><title type='text'>Travessa do Fala-Só</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://llindegaard.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://llindegaard.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><link rel='next' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default?start-index=101&amp;max-results=100'/><author><name>V. M. Lucas Lindegaard</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06993438398319242184</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/__m_JLgYBQmc/SUEyD_uVH3I/AAAAAAAAAwY/luHWZ4Q7ilk/S220/V%C3%ADtor.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>320</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2874386790023925718.post-8279316817865811877</id><published>2012-02-09T17:51:00.004+02:00</published><updated>2012-02-10T00:08:49.870+02:00</updated><title type='text'>A mercearia antiga e outros ideais</title><content type='html'>&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6.0pt;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Há dias, uma amiga minha partilhou, no Facebook, uma fotografia – bonita, por sinal – de uma mercearia antiga, com os antigos armários de madeira, as antigas caixas para cereais e legumes secos, e as antigas bilhas de azeite, em metal; e, a acompanhar a foto, o também já muito antigo louvor bucolista da qualidade de vida e da autossuficiência dos tempos idos, destruídas pela terrível modernidade…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6.0pt;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Quem não se lembra da mercearia da sua juventude? Eu cá, lembro-me perfeitamente da mercearia do Sr. Mário. Lembro-me bem de que &lt;a href="http://llindegaard.blogspot.com/2009/06/prova-do-tempo-que-passa.html"&gt;escarafunchava, o sem vergonha, o narigão vermelho enquanto roubava no peso do flamengo&lt;/a&gt;. Do feijão cheio de bicho, que tinha de se escolher, também me lembro perfeitamente. E do toucinho sempre um bocadinho rançoso, ao gosto da altura, que remédio..., naquele alguidar de barro, dias, semanas a fio. Lembro-me das compras embrulhadas em papel de jornal, sem pagar mais pelas notícias – para quem soubesse ler... E lembro-me do carrascão do Bombarral e do azeite cheio de acidez, ambos diretamente do produtor… Mas vendiam-se bem, mais o tinto que o azeite, porque a mercearia também era tasca. E quando o Sr. Mário estava mal disposto, o melhor era nem se entrar lá, para não se levar roda do que calhasse. Mas isso era na mercearia do Sr. Mário, porque na outra que havia ao pé de minha casa, a do Sr. Manel... era ainda um bocadinho pior. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="margin-top: 6.0pt; text-align: center;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-size: 22pt;"&gt;* * *&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6.0pt;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;As mercearias antigas são o menos. Nem guardo rancor nenhum ao Sr. Mário, por muito trafulha e pouco asseado que fosse, e nem sequer à falta de controlo de qualidade da comida da altura. A questão é que o louvor da mercearia antiga é uma das inúmeras formas que reveste a ideologia do &lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;“&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;antigamente é que era bom&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;”&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;. E combater a idealização do passado é uma das minhas ocupações favoritas – uma das minhas lutas, se posso dizer assim. O passado não foi tão bom como o pintam, digo eu. Digo e redigo, e continua a haver muito quem não acredite em mim…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6.0pt;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Defendia uma vez o meu amigo Nuno, &lt;a href="http://llindegaard.blogspot.com/2009/10/e-onde-estao-pobres-de-nos-as-doces.html"&gt;num comentário que aqui deixou&lt;/a&gt;, que “as nossas memórias do que foi são muito seletivas”. “Eu tenho tendência para lembrar-me das coisas boas”, dizia ele. Ele e muita gente. Toda a gente até, se calhar. Mas é bom lembrarmo-nos também do resto, para perspetivarmos melhor de onde vimos e para onde queremos ir; para repensarmos se é mesmo o passado que nos há de servir de mira quando apontamos ao futuro.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/-wjeuKzXb56s/TzPqqWKVwWI/AAAAAAAABfM/zM1rZBF2OLs/s1600/mercearia+da+minha+aldeia.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" height="633" src="http://4.bp.blogspot.com/-wjeuKzXb56s/TzPqqWKVwWI/AAAAAAAABfM/zM1rZBF2OLs/s640/mercearia+da+minha+aldeia.jpg" width="640" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;A mercearia do Sr. Mário: imagem artificialmente dourada de um passado não muito distante [Foto de Pedro Malaquias] &lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6.0pt;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;A verdade é que Portugal, que agora tem uma esperança de vida acima da média da OCDE, &lt;a href="http://www.oecd-ilibrary.org/sites/health_glance-2011-en/01/01/g1-01-01.html?contentType=/ns/StatisticalPublication,/ns/Chapter&amp;amp;itemId=/content/chapter/health_glance-2011-4-en&amp;amp;containerItemId=/content/serial/19991312&amp;amp;accessItemIds=&amp;amp;mimeType=text/html"&gt;ganhou 15,6 anos de média de vida desde 1960&lt;/a&gt; – é o 9º país da OCDE que mais anos de vida ganhou desde a altura em que eu era pequenino fazia compras na mercearia do Sr. Mário. A verdade é também que, quando eu era pequeno e fazia compras na mercearia do Sr. Mário, &lt;a href="http://imagenscomtexto.blogspot.com/2008/07/evoluo-do-analfabetismo-em-portugal.html"&gt;havia em Portugal 30% de analfabetos&lt;/a&gt;, um número muito pouco europeu, e agora há 5%, o que, &lt;a href="http://www.answers.com/topic/list-of-countries-by-literacy-rate#List"&gt;sendo ainda alto&lt;/a&gt;, é um número bem mais apresentável. Podia dar-vos dezenas de indicadores de quanto a vida melhorou em Portugal desde o tempo da mercearia antiga, mas vocês também os podem encontrar com facilidade. É que é mesmo fácil verificar que o passado não era como a sua fácil idealização nos quer fazer crer…&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: 6pt;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Agora, talvez o passado tivesse mesmo alguns aspetos louváveis, quem sabe?, mas quais seriam? E haverá quem queira trocar o que se ganhou em tempo de vida e de lazer, saúde, conforto, liberdade e saber por… sei lá… sardinha de barrica, bolacha americana e fava-rica?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2874386790023925718-8279316817865811877?l=llindegaard.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://llindegaard.blogspot.com/feeds/8279316817865811877/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2874386790023925718&amp;postID=8279316817865811877' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/8279316817865811877'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/8279316817865811877'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://llindegaard.blogspot.com/2012/02/mercearia-antiga-e-outros-ideais.html' title='A mercearia antiga e outros ideais'/><author><name>V. M. Lucas Lindegaard</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06993438398319242184</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/__m_JLgYBQmc/SUEyD_uVH3I/AAAAAAAAAwY/luHWZ4Q7ilk/S220/V%C3%ADtor.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/-wjeuKzXb56s/TzPqqWKVwWI/AAAAAAAABfM/zM1rZBF2OLs/s72-c/mercearia+da+minha+aldeia.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2874386790023925718.post-2580381286813793140</id><published>2012-01-16T00:29:00.004+02:00</published><updated>2012-01-17T10:44:14.721+02:00</updated><title type='text'>Grassa a graça no paço, quando lá passo</title><content type='html'>Encontrei no YouTube um vídeo muito engraçado. É um excerto do filme de Tiago Pereira &lt;i&gt;11 burros caem no estômago vazio&lt;/i&gt;, de 2006. O vídeo tem interesse de muitos pontos de vista, mas, claro, para uma pessoa da área das línguas como eu, tem também interesse linguístico. Mostra-nos, por exemplo, a pronúncia de &lt;b&gt;s&lt;/b&gt;, &lt;b&gt;ç &lt;/b&gt;e &lt;b&gt;z&lt;/b&gt;, &lt;b&gt;ch &lt;/b&gt;e &lt;b&gt;x &lt;/b&gt;no português antigo!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;iframe allowfullscreen="" frameborder="0" height="315" src="http://www.youtube.com/embed/Es1Z05LlbB8" width="420"&gt;&lt;/iframe&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muitos reagirão imediatamente: «Mas não é português que esta gente fala!» Muito bem, assentemos que não. Não sei nada de mirandês e não consigo perceber se é mesmo mirandês que falam, ou uma mescla de mirandês e português, ou se é assim que se fala português na região, devido às interferências do mirandês. Para o que me interessa, porém, isso não importa: ouçam como estas pessoas pronunciam &lt;b&gt;s&lt;/b&gt;, &lt;b&gt;ç&lt;/b&gt; e &lt;b&gt;z&lt;/b&gt;, &lt;b&gt;ch&lt;/b&gt; e &lt;b&gt;x&lt;/b&gt; no discurso que aqui lhes ouvimos e ficam a saber como se pronunciavam em português antigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se ouvirem com a atenção necessária, verão que &lt;b&gt;c&lt;/b&gt; e &lt;b&gt;ç&lt;/b&gt; (&lt;b&gt;pertenço&lt;/b&gt;, &lt;b&gt;centeio&lt;/b&gt;, &lt;b&gt;desgraçado&lt;/b&gt;) são pronunciados como em Lisboa (predorsodentais, chama-se em linguagem técnica) e que o &lt;b&gt;s&lt;/b&gt; é pronunciado entre &lt;b&gt;s&lt;/b&gt; e &lt;b&gt;ch&lt;/b&gt;, como na Beira (ápico-alveolar). Reparem também que o &lt;b&gt;z&lt;/b&gt; (por exemplo em &lt;b&gt;fazer &lt;/b&gt;ou &lt;b&gt;catorze&lt;/b&gt;), é também pronunciado como em Lisboa, ao passo que o &lt;b&gt;s&lt;/b&gt; entre vogais (por exemplo em &lt;b&gt;casa&lt;/b&gt;, &lt;b&gt;marquesa &lt;/b&gt;ou ligando uma palavra à palavra seguinte, quando esta começa por vogal), tem uma pronúncia entre um &lt;b&gt;z &lt;/b&gt;e um &lt;b&gt;j &lt;/b&gt;do português standard moderno, como no sotaque beirão. Além disso, o &lt;b&gt;x&lt;/b&gt;, que se pronuncia como em português standard (por exemplo, em &lt;b&gt;baixo&lt;/b&gt;), é diferente do &lt;b&gt;ch&lt;/b&gt;, que se pronuncia [tch] (por exemplo em &lt;b&gt;chorar&lt;/b&gt;). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não se sabe ao certo quando é que as diferenças que se preservam neste falar transmontano desapareceram no resto do país, mas há quem defenda que tinha começado a haver confusão entre estes sons já no século XIII e a maior parte dos estudiosos aceita que no século XVI &lt;b&gt;s&lt;/b&gt; e &lt;b&gt;c&lt;/b&gt;/&lt;b&gt;ç&lt;/b&gt;, &lt;b&gt;z&lt;/b&gt; e &lt;b&gt;s&lt;/b&gt; intervocálico se pronunciavam já indistintamente em quase todo o país: na Beira, &lt;b&gt;c&lt;/b&gt;/&lt;b&gt;ç&lt;/b&gt; e &lt;b&gt;z&lt;/b&gt; passaram a pronunciar-se como &lt;b&gt;s&lt;/b&gt;; nos outros lugares, foi ao contrário, &lt;b&gt;s&lt;/b&gt; passou a pronunciar-se como o &lt;b&gt;ç&lt;/b&gt;/&lt;b&gt;c&lt;/b&gt; e &lt;b&gt;z&lt;/b&gt;. Como devem calcular, houve muito a gente a criticar a pronúncia das pessoas que já não distinguiam &lt;b&gt;s&lt;/b&gt; de &lt;b&gt;c&lt;/b&gt; nem &lt;b&gt;x&lt;/b&gt; de &lt;b&gt;ch&lt;/b&gt;, até que este empobrecimento se tornou norma e o que era antes pronúncia normal passou a ser exclusiva de um sotaque remoto lá atrás dos montes. É sempre assim.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2874386790023925718-2580381286813793140?l=llindegaard.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://llindegaard.blogspot.com/feeds/2580381286813793140/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2874386790023925718&amp;postID=2580381286813793140' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/2580381286813793140'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/2580381286813793140'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://llindegaard.blogspot.com/2012/01/grassa-graca-no-paco-quando-la-passo.html' title='Grassa a graça no paço, quando lá passo'/><author><name>V. M. Lucas Lindegaard</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06993438398319242184</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/__m_JLgYBQmc/SUEyD_uVH3I/AAAAAAAAAwY/luHWZ4Q7ilk/S220/V%C3%ADtor.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://img.youtube.com/vi/Es1Z05LlbB8/default.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2874386790023925718.post-9117595662750903933</id><published>2012-01-07T23:45:00.004+02:00</published><updated>2012-01-08T00:29:12.894+02:00</updated><title type='text'>Acordo ortográfico: quase sempre mais emoção do que observação</title><content type='html'>Encontrei no blogue &lt;a href="http://linguagista.blogs.sapo.pt/"&gt;Linguagista&lt;/a&gt;, de Helder Guégués, um excerto de um texto de José Soares sobre a nova ortografia&lt;b style="color: #660000;"&gt;*&lt;/b&gt;:&lt;br /&gt;&lt;blockquote class="tr_bq"&gt;Neste Acordo Ortográfico, dito de 1990, aparecem normas e directivas que, por uma certa racionalidade conservadora, contesto. A razia que faz às letras que se não dizem ou lêem e o concomitante apagamento de alguns diacríticos produzem em mim um certo desconforto. É o caso de vocábulos até aqui terminados em -ecto, como directo, recto, tecto, etc., que agora se escrevem direto, reto, teto, etc. Ora, não conhecendo eu as novas regras ortográficas (e mesmo conhecendo-as), posso muito bem (ou muito mal) ler e dizer dirêto, rêto, têto, etc., que é assim que, predominantemente, se lêem ou dizem as palavras em -eto, como folheto, amuleto, esqueleto, etc. É que não foi revogado, nem por fundamentação pertinente da Academia nem muito menos pelo costume, a regra implícita tradicional e etimologicamente correcta do valor fonético daquela consoante c, que faz(ia) abrir a vogal precedente. Mas penso que são incontáveis as razões de reparo que o Acordo oferece. Ou será que passa a ser indiferente qualquer modo de acentuar a tónica como muito bem nos apetecer?&lt;/blockquote&gt;Surpreende-me que, havendo outras críticas que se podem fazer ao acordo, se critique sempre e apenas o desaparecimento das chamadas consoantes mudas e dos sinais que marcam aberturas de vogais. Surpreende-me ainda mais que se argumente sempre que o acordo torna mais ilógica a relação entre a escrita e a fonética, como se existisse uma relação lógica desse tipo na ortografia anterior. E surpreende-me que se argumente com base em impressões apenas. A verdade é que este tipo de argumentos é, quase sempre, tão pouco assente em reflexão cuidada e em observáveis que uma pessoa que, como eu, preze o rigor na discussão das coisas da língua tem de reagir; e, por muito que não seja propriamente defensora do acordo, acaba por parecer que o é. Senão, vejamos:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diz José Soares que “é [com ê] que, predominantemente, se lêem ou dizem as palavras em  eto, como folheto, amuleto, esqueleto, etc.”. Bom, é verdade que talvez haja uma ínfima predominância, mas tão ínfima que é falacioso apresentá-la como ele a apresenta. É que, dito assim, quem não tenha o cuidado de verificar a afirmação de José Soares (como ele próprio, pelos vistos, não teve) ainda acredita que é significativa essa predominância. E não é: fiz uma lista (forçosamente incompleta) de 133 palavras em &lt;b&gt;-eto&lt;/b&gt;, e 65 têm o som [é] – o [ê] ganha por 3&lt;b style="color: #660000;"&gt;**&lt;/b&gt;!…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É impossível fazer uma lista definitiva de vocábulos em &lt;b&gt;-eto&lt;/b&gt;, e, conforme a lista que se faça, a percentagem de palavras com [é] variará ligeiramente. Por  outro lado, muitos falantes do português hesitam na pronúncia de algumas palavras em &lt;b&gt;-eto&lt;/b&gt;, sobretudo as muito raras, e há, como sempre, variações socioletais e dialetais nas pronúncia desta palavras. O que é prudente afirmar, porém, não é o que José Soares afirma, mas sim que &lt;b&gt;há sensivelmente o mesmo número de palavras terminadas em -eto&lt;/b&gt; &lt;b&gt;com [ê] e com [é]&lt;/b&gt;. Além disso, alguns dicionários consideram [é] a pronúncia não marcada, porque assinalam as formas com [ê] e eu acho estranho que isto, por muito que nos pareça decisão discutível (a mim, parece-me), não mereça reparo de quem escreve sobre o tema…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas voltemos à suposta predominância de -[êto] relativamente a -[éto]. Na lista que fiz, o que faz pender ligeiramente a balança para o lado do [ê] são os nomes com o sufixo &lt;i&gt;&lt;b&gt;eto&lt;/b&gt;&lt;/i&gt; (28 na minha lista): &lt;b&gt;brom&lt;i&gt;eto&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;, &lt;b&gt;clor&lt;i&gt;eto&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;, &lt;b&gt;du&lt;i&gt;eto&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;, &lt;b&gt;terc&lt;i&gt;eto&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;, etc. Se analisarmos por categoria, vemos que os adjetivos têm maioritariamente [é] (as exceções são &lt;b&gt;obsoleto&lt;/b&gt;, &lt;b&gt;palheto &lt;/b&gt;e &lt;b&gt;preto&lt;/b&gt;, e os raríssimos &lt;b&gt;peto &lt;/b&gt;e &lt;b&gt;careto&lt;/b&gt;) e, nas formas verbais, há também uma claríssima maioria de [é]. Não fossem os verbos da família de &lt;b&gt;meter &lt;/b&gt;(&lt;b&gt;prometer&lt;/b&gt;, &lt;b&gt;submeter&lt;/b&gt;, &lt;b&gt;remeter&lt;/b&gt;, etc.) e seriam uma esmagadora maioria. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto a &lt;b&gt;teto&lt;/b&gt;, é curioso, existem já duas formas, &lt;b&gt;teto&lt;/b&gt;, a língua, e &lt;b&gt;teto&lt;/b&gt;, forma rara, variante de &lt;b&gt;teta&lt;/b&gt;, com pronúncias diferentes do &lt;b&gt;e&lt;/b&gt;, pelo que &lt;b&gt;tecto&lt;/b&gt; sem &lt;b&gt;c &lt;/b&gt;apenas se torna igual a uma delas… &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que é estranho neste tipo de críticas&lt;b style="color: #660000;"&gt;***&lt;/b&gt; é que há nelas implícita uma proposta de outro acordo ortográfico e surpreende-me que ninguém proponha explicitamente o que se deduz forçosamente do texto de José Soares: se a forma natural de ler a sequência &lt;b&gt;-eto&lt;/b&gt; em final de palavra é [êto], e se &lt;b&gt;directo &lt;/b&gt;não deve passar a ser &lt;b&gt;direto&lt;/b&gt;, porque assim se passa a ler [dirêto], então &lt;b&gt;completo&lt;/b&gt;, &lt;b&gt;concreto&lt;/b&gt;, &lt;b&gt;quieto&lt;/b&gt;, &lt;b&gt;decreto&lt;/b&gt; e &lt;b&gt;neto &lt;/b&gt;(e mais 60 palavras, na minha lista forçosamente incompleta) devem passar a escrever-se &lt;b&gt;complecto&lt;/b&gt;, &lt;b&gt;concrecto&lt;/b&gt;, &lt;b&gt;quiecto&lt;/b&gt;, &lt;b&gt;decrecto &lt;/b&gt;e &lt;b&gt;necto&lt;/b&gt;, para se lerem como já se leem. Ou &lt;b&gt;complepto&lt;/b&gt;, &lt;b&gt;concrepto&lt;/b&gt;, &lt;b&gt;quiepto&lt;/b&gt;, &lt;b&gt;decrepto &lt;/b&gt;e &lt;b&gt;nepto&lt;/b&gt;, não sei… E, de facto, uma destas forma justifica-se etimologicamente: &lt;b&gt;nepto&lt;/b&gt;. É assim que, muito provavelmente, alguns acham que se deveria escrever, mesmo que nunca o digam – pelo menos, aqueles que acham que &lt;b&gt;óptimo &lt;/b&gt;não deve perder o &lt;b&gt;p&lt;/b&gt; etimológico…&lt;br /&gt;_______________ &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b style="color: #660000;"&gt;*&lt;/b&gt; “&lt;a href="http://jornal.publico.pt/noticia/06-01-2012/situacoes-incomodas-em-portugues-23731480.htm"&gt;Situações incómodas em português&lt;/a&gt;”, in &lt;i&gt;Público&lt;/i&gt;, 6.01.2012). Muito haveria a dizer sobre outras partes do texto de José Soares, mas limito-me aqui a comentar esta passagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="color: #660000;"&gt;**&lt;/span&gt;&lt;/b&gt; Eis a lista de palavras, feita a partir de uma lista obtida no site &lt;a href="http://www.poetavadio.com/"&gt;Poeta Vadio, Dicionário de Rimas&lt;/a&gt;: abeto, aboleto, acarreto, acolcheto, acometo, adieto, afreto, alfabeto, alfineto, amuleto, analfabeto, aquieto, arboreto, arremeto, arreto (n.), arreto (v.), asseto, atapeto, avioleto, beto, bisneto, breveto, brometo, calafeto, calceto, carapeto, carboneto, carbureto, careto (v.), careto (n.), carreto, cateto, cianeto, cloreto, cometo, completo (a.), completo (v.), comprometo, concreto, coreto, correto, decreto (n.), decreto (v.), derreto, descloreto, descomprometo, desinquieto, desinquieto, despoleto, discreto, dueto, embarreto, enceto, engaveto, espeto (v.), espeto (n.), espoleto, esqueleto, etiqueto, excreto (a.), excreto (v.), excreto (n.), faceto (n.), faceto (v.), feto, fileto, fluoreto, folheto, fosforeto, freto, garaveto, gaveto, gineto, graveto, greto, gueto, halogeneto, hidrocarboneto, incompleto, indiscreto, inquieto (a.), inquieto (v.), interpreto, intrometo, iodeto, irrequieto, jogueto, lanceto, largueto, libreto, maceto (v.), maceto (n.), magneto, marreto, meto, neto, neutreto, obsoleto, octeto, palheto (n.), palheto (a.), panfleto, paracleto, peto (n.), peto (a.), pirueto, poemeto, preto, prometo, quarteto, quieto, quinteto, reenceto, reinterpreto, remeto, repleto, retroceto, secreto, semianalfabeto, septeto, sexteto, soneto, submeto, sulfureto, telureto, terceto, teto (n. 1), teto (n. 2), tetraneto, vegeto, veto (v.), veto (n.), xereto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="color: #660000;"&gt;***&lt;/span&gt;&lt;/b&gt; &lt;u&gt;Neste tipo de críticas&lt;/u&gt;, sublinho, isto é, nas críticas que assentam no pretenso desaparecimento de uma lógica fonética da ortografia pré-acordo. O que digo aqui não se aplica a uma crítica ao desaparecimento das consoantes mudas que se baseie na ideia de que só se deve legislar se houver necessidade de legislação e que, portanto, este acordo não deve existir, visto que não há necessidade de alterar a ortografia.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2874386790023925718-9117595662750903933?l=llindegaard.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://llindegaard.blogspot.com/feeds/9117595662750903933/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2874386790023925718&amp;postID=9117595662750903933' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/9117595662750903933'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/9117595662750903933'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://llindegaard.blogspot.com/2012/01/acordo-ortografico-quase-sempre-mais.html' title='Acordo ortográfico: quase sempre mais emoção do que observação'/><author><name>V. M. Lucas Lindegaard</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06993438398319242184</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/__m_JLgYBQmc/SUEyD_uVH3I/AAAAAAAAAwY/luHWZ4Q7ilk/S220/V%C3%ADtor.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2874386790023925718.post-860984392993721343</id><published>2012-01-07T23:21:00.005+02:00</published><updated>2012-01-07T23:26:34.551+02:00</updated><title type='text'>Cego pela luz que tudo ilumina</title><content type='html'>E eis que me decido a concretizar uma ideia que tenho há algum tempo anotada num ficheiro chamado Travessa do Fala-Só 6, um bloco de notas digital em permanente atualização: Apresento-vos aqui em contraste dois clássicos da canção popular americana, para ver se ganham sentidos novos pela justaposição. Ou para ver qual deles tem mais capacidade de ganhar sentidos novos consoante o contexto. Ou para se ver que há textos que ganham mais facilmente sentidos novos, enquanto outros tendem a exigir-nos leituras literais... E enriqueço a apresentação com uma passagem de &lt;i&gt;Heterodoxia I&lt;/i&gt; de Eduardo Lourenço (Coimbra: Coimbra Editora, 1949), que lhe assenta que nem luva e que encontrei n&lt;b&gt;&lt;a href="http://aterceiranoite.org/2012/01/03/papeis-roubados-12/"&gt;um dos meus blogues favoritos&lt;/a&gt;&lt;/b&gt;:&lt;br /&gt;&lt;blockquote class="tr_bq"&gt;Os que se recusam à escolha, os eternos descobridores dum terceiro caminho que não existe em parte alguma (segundo as ortodoxias), os heterodoxos absolutos, devem ser destruídos quando o combate chegar. Assim pensava já o velho Sólon, a sabedoria laica de Atenas. Devem ser destruídos agora mesmo, que o combate, a luta pela verdade, está travada desde sempre. Não há lugar para os heterodoxos. Eles são incomensuráveis com Deus, com a Pátria, com o grupo, com a família, com o amor, com eles próprios. Abandonemo-los então à sua divisão tão amada e que pereçam, pois são o reino dividido em si mesmo de que fala o Evangelho. Inimigos do género humano. &lt;br /&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;blockquote class="tr_bq"&gt;Assim pensava Juliano dos cristãos e S. Domingos dos albigenses. Assim pensava Marx dos burgueses e os burgueses de Marx. Assim pensa Churchill dos comunistas e os comunistas de Churchill. Assim pensa todo o homem que possui certezas absolutas de outro homem que as nega (…). &lt;br /&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;blockquote class="tr_bq"&gt;A heterodoxia é a humildade do espírito, o respeito simples em face da divindade inesgotável do verdadeiro. Resistamos à ilusão de supor que tudo pode ser inundado de luz. Deixaríamos de ver.&lt;/blockquote&gt;&lt;b&gt;Hank Williams, “I saw the light”, 1948&lt;/b&gt; &lt;br /&gt;“Acabou-se a escuridão, a noite chegou ao fim. Agora sou tão feliz, sem a dor dentro de mim.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;iframe allowfullscreen="" frameborder="0" height="25" src="http://www.youtube.com/embed/iUUJFjLnnNo" width="420"&gt;&lt;/iframe&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Bruce Springsteen, “Blinded by the light”, 1973&lt;/b&gt; &lt;br /&gt;“No sinal, tens de virar; depois, em frente, rapaz, até a noite chegar: é sozinho que tu estás"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;iframe allowfullscreen="" frameborder="0" height="25" src="http://www.youtube.com/embed/7Iaca30QbOo" width="420"&gt;&lt;/iframe&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2874386790023925718-860984392993721343?l=llindegaard.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://llindegaard.blogspot.com/feeds/860984392993721343/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2874386790023925718&amp;postID=860984392993721343' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/860984392993721343'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/860984392993721343'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://llindegaard.blogspot.com/2012/01/cego-pela-luz-que-tudo-ilumina.html' title='Cego pela luz que tudo ilumina'/><author><name>V. M. Lucas Lindegaard</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06993438398319242184</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/__m_JLgYBQmc/SUEyD_uVH3I/AAAAAAAAAwY/luHWZ4Q7ilk/S220/V%C3%ADtor.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://img.youtube.com/vi/iUUJFjLnnNo/default.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2874386790023925718.post-7740682210399078056</id><published>2011-12-25T01:50:00.004+02:00</published><updated>2011-12-25T01:53:32.323+02:00</updated><title type='text'>Do topo verde da árvore, uma cantiga de Natal [Crónicas de Svendborg #10]</title><content type='html'>&lt;b&gt;&lt;a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Peter_Faber_%28Danish_telegraph_specialist%29"&gt;Peter Faber&lt;/a&gt;&lt;/b&gt; nasceu em Copenhaga a 7 de outubro de 1810 e morreu nesta mesma cidade a 25 de Abril de 1877. Foi diretor dos telégrafos, um dos primeiros fotógrafos da Dinamarca e poeta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-53GrdVezEBQ/TvZhl-_kBnI/AAAAAAAABe0/8N7pXeU0kh4/s1600/Peter+Faber+Ulfeldts+Plads+1840.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" src="http://1.bp.blogspot.com/-53GrdVezEBQ/TvZhl-_kBnI/AAAAAAAABe0/8N7pXeU0kh4/s1600/Peter+Faber+Ulfeldts+Plads+1840.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;A primeira fotografia dinamarquesa, um daguerreótipo da Ulfeldts Plads, foi tirada por Peter Faber em 1840 (Wikimedia Commons)&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;Bem veem, para se ser poeta não é preciso ser-se mais alto, nem morder como quem beija, nem ter por elmo manhãs de oiro e de cetim, basta fazer versos – e podem perfeitamente ser versos despretensiosos, a falar da vida prática das pessoas normais, e serem até cantados em cantigas famosas. A cantiga mais famosa que Peter Faber escreveu é conhecida agora pelo primeiro verso, &lt;i&gt;Højt fra træets grønne top&lt;/i&gt;, “Do topo verde da árvore”, e é &lt;b&gt;uma canção que se canta em todas as consoadas sem exceção&lt;/b&gt;. É, aliás, uma cantiga tão importante que a casa onde Peter Faber a escreveu, no centro de Copenhaga, ostenta uma placa a anunciar precisamente isso, que foi ali que a cantiga foi escrita. Para não alongar demasiado este texto (ou por preguiça apenas, quem me conhecer decidirá, consoante a ideia que tenha de mim) traduzo apenas a primeira, a quarta, e a oitava e última estrofes da famosa canção, esperando não desvirtuar demasiado, pela omissão do resto, o seu conteúdo. &lt;br /&gt;&lt;blockquote class="tr_bq"&gt;No topo verde da árvore / brilha o esplendor do Natal; / toca a tocar, tocador / que a dança começa agora! / Anda, dá me a tua mão, / não mexas nas passas de uva – / primeiro, dança-se e canta-se, / só depois é que se come! // [...] Não descansa a Anna enquanto / as prendas não receber: / quatro varas de lã pura / para um casaco de inverno. / Que cara me sais, menina!... / Mas, como coses tão bem, / acabamos por poupar, / não é verdade, filhinha? // [...] Crianças, já estou cansado, / já não vos dou nada mais. / A mãe está ali na cozinha, / ela que vos sirva agora / que é para isso esta bolsa, / vejam que pesada está! / Tanto que dura o Natal, / e o dinheiro que ele custa!&lt;/blockquote&gt;A edição original de 1848 da canção tem o título “A árvore de Natal, canção infantil de P. Faber composta para pianoforte por E. Horneman”. O que eu acho interessante na canção é o seu espírito despudoradamente prático – alguns dirão até um bocado avarento...–, com esta insistência um pouco incomodativa no facto de a magia da quadra natalícia custar muito dinheiro. Uma verdade simples, que, ficamos então a saber, já o era em 1848.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Ilselil Larsen com o Quinteto de Kai Rosenberg, "Højt fra træets grønne top", 1944&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;iframe allowfullscreen="" frameborder="0" height="25" src="http://www.youtube.com/embed/X1ACjqygwHA?rel=0" width="480"&gt;&lt;/iframe&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2874386790023925718-7740682210399078056?l=llindegaard.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://llindegaard.blogspot.com/feeds/7740682210399078056/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2874386790023925718&amp;postID=7740682210399078056' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/7740682210399078056'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/7740682210399078056'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://llindegaard.blogspot.com/2011/12/do-topo-verde-da-arvore-uma-cantiga-de.html' title='Do topo verde da árvore, uma cantiga de Natal [Crónicas de Svendborg #10]'/><author><name>V. M. Lucas Lindegaard</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06993438398319242184</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/__m_JLgYBQmc/SUEyD_uVH3I/AAAAAAAAAwY/luHWZ4Q7ilk/S220/V%C3%ADtor.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-53GrdVezEBQ/TvZhl-_kBnI/AAAAAAAABe0/8N7pXeU0kh4/s72-c/Peter+Faber+Ulfeldts+Plads+1840.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2874386790023925718.post-5938845702820485532</id><published>2011-12-17T00:32:00.003+02:00</published><updated>2011-12-17T00:36:20.976+02:00</updated><title type='text'>Conto de Natal</title><content type='html'>&lt;i&gt;[Este texto é uma versão revista de uma passagem das minhas Crónicas do Alto Molócuè, umas cartas coletivas que escrevia aos amigos, quando morava na Alta Zambézia, e que enviava de Quelimane, porque onde vivíamos não havia serviços de correio.]&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A história passa-se no Alto Molócuè, em Moçambique, no ano de 1997. Estava combinado um jantar com uma malta lá da terra e a Karen queria fazer uma coisa típica dinamarquesa, com almôndegas e velas e tudo. Então, lembrou‑se que tinha ali uma caixa com uns enfeites de Natal, que uma cooperante dinamarquesa lhe tinha dado um ano antes, quando ela tinha chegado a Moçambique. A caixa tinha estado uns dois meses na sala de estar da guest‑house da organização para a qual a Karen trabalhava, em Quelimane, e depois ela tinha-a levado lá para casa e tinha-a posto no quarto que me servia de escritório, a um canto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora vejam lá: quando abrimos a caixa, vimos que, além de bolinhas e coraçõezinhos brilhantes, estava lá também um envelope com 1508 dólares americanos, qualquer coisa como 1150 euros ao câmbio atual! De quem seria o dinheiro?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Karen pegou no telefone de satélite que tínhamos para emergências (ainda não havia telefone no Alto Molócuè nessa altura) e telefonou para a Dinamarca, à rapariga que lhe tinha dado as decorações de Natal, para saber se lhe tinha desaparecido muito dinheiro. Mas não. Quando a Karen lhe contou a história, a rapariga explicou‑lhe que a caixa nem era dela. Tinha estado dois anos em casa dela, mas ela nem sequer a tinha aberto. Tinha-a recebido de um casal de dinamarqueses que tinha morado naquela casa antes dela, que, por sua vez, a tinha recebido de outro casal de dinamarqueses que tinha lá morado antes... Era impossível saber de quem era o dinheiro. De maneira que…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;…um Natal cheio de caixas destas, ora aí está o que eu vos desejo!&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: white;"&gt;* &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2874386790023925718-5938845702820485532?l=llindegaard.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://llindegaard.blogspot.com/feeds/5938845702820485532/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2874386790023925718&amp;postID=5938845702820485532' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/5938845702820485532'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/5938845702820485532'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://llindegaard.blogspot.com/2011/12/conto-de-natal.html' title='Conto de Natal'/><author><name>V. M. Lucas Lindegaard</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06993438398319242184</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/__m_JLgYBQmc/SUEyD_uVH3I/AAAAAAAAAwY/luHWZ4Q7ilk/S220/V%C3%ADtor.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2874386790023925718.post-3239802281332030629</id><published>2011-12-17T00:04:00.004+02:00</published><updated>2011-12-17T01:53:20.561+02:00</updated><title type='text'>De como as cantigas se podem entender ao contrário de como eram para ser entendidas – ou talvez não</title><content type='html'>Nas letras das canções portuguesas, predomina o lirismo e a língua padrão. Não são comuns as canções narrativas, que se encontram amiúde noutros países, e não se usam, no geral, os registos coloquiais e o calão, também ao contrário do que acontece noutras tradições que conheço. Houve, ainda assim, na canção humorística portuguesa, e sobretudo na canção de revista, algum uso do linguajar popular. É um estilo de cantigas que passou definitivamente à história, creio eu, como passaram à história os modismos usados nessas mesmas cantigas. Foi também recorrente na canção humorística o tema da traulitada – que, infelizmente, era também recorrente na vida de muita gente e que não sei até que ponto já terá também passado à história. E é precisamente de duas canções sobre porradaria e em linguagem pouco culta que vos quero aqui falar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma canção que, na minha opinião, merece destaque dentro deste estilo e desta temática é o “Fado do Ganga”, um fado-canção com refrão que Estêvão Amarante cantou pela primeira vez em 1916, na revista &lt;i&gt;O Novo Mundo&lt;/i&gt;&lt;b style="color: #660000;"&gt;*&lt;/b&gt;:&lt;br /&gt;&lt;blockquote class="tr_bq"&gt;Meus amigos, esta vida, / p’ra quem lida / a moirejar cá na roça, / é uma grande assubida / que se leva de vencida / como quem puxa a carroça. / Quando a gente desanima / e a coisa vai a parar, / atão adeus ó vindima, / se não vai chicote acima, / semos uns home’s ao mar. / (…) No que respeita à sussistência, / a vocência / um inzemplo vou dar já: / quer a gente açúcar, pão, / bacalhau, arroz e grão, / dizem eles que não há. / Esta léria d’intiquetas / já não dá nem p’ò pitróleo! / Deixa-se a gente de tretas, / é sopapos e galhetas, / e acabou-se os manipólios! (…) Por isso eu digo, / ó meu amigo, / qu’este assistema / é inficaz: / é pruparar /p’a l’a pregar, / c’a mão no ar / e um pé atrás. &lt;/blockquote&gt;O refrão tem uma parte perfeitamente lamentável: “chego-me à besta e zás, / a traulitada inté fumega, / à companheira e pás, / vai dois borrachos para a sossega.” É claro, pode considerar-se que se trata apenas da denúncia realista de um facto da sociedade daquele tempo (que, não o esqueçamos, está infelizmente muito longe de ter passado à história). Mas o próprio facto de se usar a violência doméstica como situação humorística implica forçosamente que se espera de quem ouve a cantiga uma aceitação tal dessa realidade que não bloqueie o humor (&lt;a href="http://llindegaard.blogspot.com/2010/12/o-que-nem-brincar-se-diz-e-o-que.html"&gt;já uma vez aqui falei disto&lt;/a&gt;).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A canção foi mais tarde gravada por Carlos Ramos e teve algum sucesso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;iframe allowfullscreen="" frameborder="0" height="25" src="http://www.youtube.com/embed/8UllmV_X1U8?rel=0" width="640"&gt;&lt;/iframe&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não consigo descobrir quando Carlos Ramos gravou e fez reviver o “Fado do Ganga”, mas foi provavelmente nos anos 50, ou até 60, e pergunto-me a mim mesmo como foi entendido na época aquele documento da Primeira República, em que, a brincar, a brincar, se fazia uma apologia clara da insurreição individual ou até mesmo da violência revolucionária. Não é impossível que tenha sido interpretado como testemunho de uma revolta contra a situação “provocada pela&amp;nbsp; anarquia da Primeira República” que o Estado Novo teria vindo “resolver”. Não sei. A terceira parte do fado, porém, que falava da primeira guerra mundial, não faço ideia se por ter sido censurada ou se por outra razão qualquer, não aparece na versão de Carlos Ramos. E praticamente desapareceu. Vi-a escrita uma vez, era eu rapaz novo, e depois, por muito que a tivesse procurado muitas vezes, nunca a consegui encontrar em lado nenhum, até, que em janeiro deste ano, apareceu finalmente na Internet, no blogue &lt;a href="http://fadocravo.blogspot.com/2011/01/o-fado-do-ganga-ii.html"&gt;&lt;i&gt;Fado Cravo&lt;/i&gt;, de uma senhora chamada Fadista&lt;/a&gt;. Diz assim a parte da letra que Carlos Ramos não canta: &lt;br /&gt;&lt;blockquote class="tr_bq"&gt;Na guerra dos alimões / co’as nações, / tem um exemplo de estalo, / pois, no fim desta embrulhada, / o que der mais traulitada / é que há de cantar de galo. / E quando chegar o dia / em que a gente for p’rà guerra, / então, adeus ó Turquia/, a Alimanha mais a Austria / lá vão de ventas à terra. // Vai-se a Verdun e pum, / arma-se um grande trinta e um; / vai-se a Berlim e pim, / há banzanada até ao fim.&lt;/blockquote&gt;Beatriz Costa cantou em 1936, na revista &lt;i&gt;Arre Burro&lt;/i&gt;, um curioso fado que tem a mesma nobre temática da traulitada, banzanada, chinfalhada e trolha, se se pode dizer assim, e que, à primeira vista, parece ser também uma música de propaganda da “paz salazarista”, mas que talvez não o seja de facto, não sei… O “Polícia 17”&lt;b style="color: #660000;"&gt;**&lt;/b&gt; refere o tempo anterior ao Estado Novo como um tempo de pancadaria, pancadaria essa que, segundo o fado, se perpetuava nos países que não tinham tido a sorte de ter um pacificador tão eficaz como o nosso. Depois de uma introdução declamada (em que Beatriz Costa incarna um polícia “de outros tempos” que diz que na República anterior a 1926 andava tudo à pera e a levar cachaporrada da polícia), a letra da cantiga propriamente dita explica que &lt;br /&gt;&lt;blockquote class="tr_bq"&gt;desde a Abissínia ao Japão / aquilo hoje é pão, / só há trinta e um &lt;/blockquote&gt;e que o trinta e um &lt;br /&gt;&lt;blockquote class="tr_bq"&gt;chegou à Rússia e à China / em Espanha domina / e chega a Irún (…) Vai-se a Pequim, / trinta e um, há chinfrim, / vai-se a Ceilão / trinta e um, revolução, / vai-se a Nanquim, / trinta e um, há motim, / vai-se a Aragão, trinta e um, cachação. / O trinta e um / hoje em dia é comum, / é tudo a dar, a cascar, a arrear! / Ai, Portugal, é que é só conversar, / falazar, falazar…&lt;/blockquote&gt;Sendo falazar uma palavra tão incomum, o ouvinte desprevenido ouve imediatamente «Salazar, Salazar», e era provavelmente isso que os autores queriam que se ouvisse. Era provavelmente essa a moral da cantiga: que em Portugal não havia trolha, só conversa, graças ao Salazar, Salazar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda assim, sempre pensei eu, que já conheci a canção fora do seu período histórico, a letra pode facilmente interpretar-se (independentemente da intenção dos autores) como sendo muito irónica e ouvir-se o fado como uma crítica à censura: a única conversa que se podia ter em Portugal era a conversa de chacha&lt;b style="color: #660000;"&gt;***&lt;/b&gt;. Que vos parece?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;iframe allowfullscreen="" frameborder="0" height="25" src="http://www.youtube.com/embed/SZQVzRwG0l4?rel=0" width="480"&gt;&lt;/iframe&gt;&lt;br /&gt;_______________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b style="color: #660000;"&gt;*&lt;/b&gt; O “Fado do ganga” é da autoria de João Bastos, Ernesto Rodrigues e Félix Bermudes. &lt;a href="http://victor.library.ucsb.edu/index.php/matrix/detail/700008151/B-22991-Fado_do_ganga"&gt;Foi gravada em Nova Iorque, em 1919, uma versão deste fado por António Gomes&lt;/a&gt;.&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="color: #660000;"&gt;**&lt;/span&gt;&lt;/b&gt; Às vezes também referido como “Fado do 17” ou “Fado do 31”, música de Fernando de Carvalho e letra de Alberto Barbosa, José Galhardo et al.&lt;br /&gt;&lt;b style="color: #660000;"&gt;***&lt;/b&gt; No texto “L’humour como vengeance”, Fernanda Menéndez realça o contraste entre Falazar = falar demais e Salazar = proibição de falar. («L’Humour comme Vengeance» in Marillaud, Pierre et Gauthier, R. &lt;i&gt;La vengeance et ses discours (Actes du XXVIème Colloque d’Albi)&lt;/i&gt;, CALS /CPST – Toulouse, Université de Toulouse-Le Mirail, 2006, pp. 197-206.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2874386790023925718-3239802281332030629?l=llindegaard.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://llindegaard.blogspot.com/feeds/3239802281332030629/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2874386790023925718&amp;postID=3239802281332030629' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/3239802281332030629'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/3239802281332030629'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://llindegaard.blogspot.com/2011/12/de-como-as-cantigas-se-podem-entender.html' title='De como as cantigas se podem entender ao contrário de como eram para ser entendidas – ou talvez não'/><author><name>V. M. Lucas Lindegaard</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06993438398319242184</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/__m_JLgYBQmc/SUEyD_uVH3I/AAAAAAAAAwY/luHWZ4Q7ilk/S220/V%C3%ADtor.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://img.youtube.com/vi/8UllmV_X1U8/default.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2874386790023925718.post-7647105383101968495</id><published>2011-12-12T10:33:00.007+02:00</published><updated>2011-12-17T02:09:24.223+02:00</updated><title type='text'>Amores fatais (incluindo o de Elvira Madigan e Sixten Sparre [Crónicas de Svendborg #9])</title><content type='html'>Quando Matteo Bandello, lá por meados do séc. XVI, contou pela primeira vez a história de Romeu e Julieta, não podia imaginar a fortuna que a história viria a ter, sobretudo depois de ter passado pela pena mágica de William Shakespeare, meio século depois; não podia saber que, pelo menos no chamado mundo ocidental, a história dos seus jovens amantes se tornaria o maior mito do amor – o que, se calhar, quer dizer (é o que defendem alguns) que o amor é tendencialmente assim, trágico, suicida, impossível… &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seja como for, o próprio dos mitos é serem exagerados para serem exemplares, de maneira que, na vida real, é raríssimo as coisas tomarem as proporções extremas que nos mitos têm. No entanto, por muito que raro, pode acontecer. Conheço um caso verdadeiro que é uma versão vivida da história de Romeu e Julieta. Ou quase. Eu conto-vos como as coisas se passaram, para julgarem vocês mesmos de semelhanças e diferenças:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando se conheceram, algures entre Alcântara, de onde ela era, e a Tapada da Ajuda, de onde era ele, a Verónica tinha de 16 para 17 anos e o Rodrigo 18 acabados de fazer. A Verónica tinha uma família normal, com pai, mãe e uma irmã dois anos mais nova que ela. O Rodrigo era órfão de pais e vivia, desde os 8 anos, com um avô viúvo. A Verónica e o Rodrigo eram adolescentes vulgares da classe média e tinham os dois, até se conhecerem, uma existência relativamente despreocupada. Agora, de repente, deram por si mais apaixonados do que aconselharia o bom senso, a vida prática. Para saberem o que eles sentiam, lembrem se do que sentiram nas alturas da vossa vida em que a paixão vos fez sentir que corriam perigo, pensem nas alturas em que a paixão vos inspirou o mesmo respeito que uma trovoada grande mesmo por cima de vocês, relâmpago e trovão coincidentes. Se nunca tiverem tido essa experiência, então paciência, não podem saber o que sentiam a Verónica e o Rodrigo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixaram o mais possível de fazer fosse lá o que fosse que os impedisse de estar juntos: deixaram de ir à escola, de estudar, de chegar a horas a casa. No caso da Verónica, porque era menina e tinha a tal família normal, o amor deu bronca. Uma bronca que se tornou insustentável, com as negativas e as faltas do primeiro período: o pai normal que ela tinha proibiu-a, como era normal num pai assim, de ver o Rodrigo. A Verónica, muito normalmente também, não cumpriu:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Temos de conversar muito bem os dois. As coisas não podem continuar assim. Temos de tomar grandes decisões, temos de deixar claro o que queremos um do outro e da nossa vida.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As conclusões da longa conversa que tiveram uma tarde no quarto do Rodrigo, depois de fazerem amor, foram as que, cada um por seu lado, comunicaram com firmeza, ela à sua família normal, ele ao avô:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tomámos uma decisão e não há nada que nos possa fazer voltar atrás: vamos casar-nos e vamos viver juntos.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pai e a mãe da Verónica não deram consentimento para a filha menor se casar. As cenas sucederam-se entre o pai da Verónica e a filha, e também entre o pai da Verónica e o Rodrigo, mas eram cenas que impressionavam pouco aquela Alcântara tão habituada a cenas. E, por mais que a vigilância da família da Verónica aumentasse, continuavam a arranjar maneira de passar um no outro, se se pode dizer assim, longas tardes de amor. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O quarto do Rodrigo era num primeiro andar de uma casa de dois pisos que o avô tinha herdado do bisavô e que este tinha já herdado do tetravô. A mobília e a pintura do quarto eram antigas, já escamadas, e davam ao quarto um ar triste, pesado, tal e qual como se ia tornando, cada vez mais, o amor que lá viviam. Sentiam-se velhos com aquela idade. O quarto tinha uma porta para uma varanda pequena, que dava para um jardim muito bonito, com tamareiras e vários tipos de flores, mas nunca iam à varanda para não serem vistos e para não arranjarem, dessa maneira, mais problemas que os que já tinham, e então sentiam que a vida deles era assim, precisamente, com uma porta que dava para um jardim, mas que não se podia abrir. E um dia decidiram que era melhor matarem-se que continuar a viver assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há muito tempo, antes de a Igreja ter imposto a sua condenação oficial do suicídio, que acabou por ter letra de lei em vários países, não era preciso ir ao longínquo Japão para ver o gesto da autoaniquilação encarado como sendo de honra e de coragem. Quando Zénon Ligre, personagem de um famoso romance de Margarida Yourcenar, chegou à conclusão, ao cabo da sua mística busca, que a única maneira de partilhar de alguma forma o poder divino era decidir, pelo menos, o fim da vida, já que no resto não tinha podido mandar, estava apenas a chegar uma conclusão a que Séneca tinha já chegado antes dele: o suicídio pode ser o último ato de liberdade do ser humano. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Imaginem como se deve ter sentido o avô do Rodrigo quando entrou no quarto dele e deu com o neto e a Verónica nus na cama, um ao lado do outro, de barriga para o ar, pernas e braços ligeiramente abertos e o rosto virado para cima, olhos fechados, ambos com o peito coberto de sangue, que lhes vinha de dois buracos grandes, abertos a facalhão de cozinha, à altura do coração. O Rodrigo tinha a faca espetada no peito, mas ainda estava vivo. A Verónica estava já fria. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Rodrigo sobreviveu – a faca não lhe tinha atingido o coração. Mal lhe foi dada alta, foi julgado pelo assassinato da Verónica. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Assassinato! Eles são doidos! Porque é que falam de assassinato?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi, evidentemente, considerado culpado e passou cinco anos na prisão. Só o conheci depois disso. Era um rapaz afável e não se lhe notavam, no trato quotidiano, marcas nenhumas do drama por que tinha passado. Mas devia tê-las, porque não vejo que se possa passar por uma coisa assim sem ficar marcado na alma por cicatrizes gémeas das que a faca lhe deixou no peito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;***&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Uma das atrações da ilha de Tåsinge, onde vivemos, é ter sido o cenário de uma famosa história de amor fatal. Esta não a conto eu, faço apenas uma adaptação resumida, d&lt;a href="http://da.wikipedia.org/wiki/Elvira_Madigan"&gt;a entrada Elvira Madigan da Wikipédia em dinamarquê&lt;/a&gt;s: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Elvira Madigan era o nome artístico de Hedvig Antoinette Isabella Eleonore Jensen, nascida em 1867 em Flensburg, na Alemanha. A mãe de Elvira, Eleanora, era finlandesa e o pai, Frederik, dinamarquês. Conheceram-se no Cirque du Nord, onde ambos trabalhavam, ela como funâmbula e ele como acrobata. Frederik morreu quando Elvira tinha dois anos. Eleanor trabalhava nessa altura no circo François Loissset onde conheceu o americano John Madigan, com quem começou a viver. John era domador de cavalos e ensinou Elvira a montar. Elvira fez a sua estreia no circo aos  cinco anos de idade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 1879, John e Eleanora fundaram o seu próprio circo, o pequeno Circo Madigan, onde Elvira e uma meia irmã atuavam como "irmãs Elvira e Gisella Madigan", ambas dançando na corda bamba. O circo fez uma turnê na Escandinávia e, em 1886, deu um espetáculo no Tivoli, em Copenhaga, para o rei Christian IX, que premiou com uma cruz de ouro cada artista. O circo teve um grande sucesso com as suas duas bailarinas funâmbulas e deu espetáculos em várias cidades europeias: Paris, Londres, Berlim, Bruxelas, Amesterdão e até Odessa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 1888, o circo chegou a Kristianstad, na Escânia, Sul da Suécia, onde Sixten Sparre, nobre sueco e tenente do Regimento de Dragões da Escânia,&amp;nbsp; assistiu ao espetáculo. Ficou imediatamente tão fascinado com a jovem Elvira que voltou quase todas as noites, e outra vez no verão seguinte, quando o circo estava em Ljungbyhed. Elvira e Sixten começaram uma relação, que tiveram de manter secreta: Sixten era casado e tinha dois filhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Continuaram em contacto por carta até 22 de junho de 1889, quando o circo chegou a Sundsvall, no Norte da Suécia. Elvira tinha à sua espera uma carta de Sixten em que ele lhe dizia que se tinha divorciado e que esperava por ela na estação de Bollnäs. Elvira empenhou as joias e fugiu. Sixten também tinha desertado do regimento. Foram para Estocolmo, donde seguiram, de comboio, para Copenhaga e depois para Svendborg. Alojaram-se aí num hotel, apresentando-se como um casal em lua de mel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A 15 de julho de 1889, chegou a Svendborg o Circo Bergman. Com medo que os reconhecessem, Elvira e Sixten foram para Troense, um aldeia na ilha de Tåsinge, onde ficaram numa pensão. Entretanto, acabou-se-lhes o dinheiro. Sixten enviou um telegrama à família a pedir mais dinheiro, mas a família não acedeu ao pedido. A 20 de julho, Elvira e Sixten disseram que iam dar uma volta pelo bosque e levaram consigo uma cesta de piquenique. Em Nørreskoven, no meio da floresta, Sixten matou Elvira a tiro, matando-se a si próprio a seguir. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O jornal &lt;i&gt;Øresundsposten&lt;/i&gt; de 25 de julho de 1889 descreveu desta forma os últimos momentos do casal:&lt;br /&gt;&lt;blockquote class="tr_bq"&gt;Depois d[e saírem da pensão], só foram vistos em vida num casa de Nørreskov, onde pediram um copo de água. Daí, continuaram por um terreno pantanoso, até chegarem a uma clareira onde merendaram sob as faias. O cesto da comida estava vazio. Estavam deitados numa manta e tinham com eles um guarda-chuva e um guarda-sol. Sixten estava à esquerda de Elvira e o tiro tinha-lhe atingido a têmpora direita. Elvira tinha sido atingida por um tiro do mesmo revólver na têmpora esquerda. Era óbvio que Sixten tinha disparado sobre ela e depois sobre si mesmo, porque ela tinha os braços cruzados sobre o peito e ele estava deitado de braços estendidos ao lado dela, com a arma. Tinham ambos uma expressão bastante calma no rosto.&lt;/blockquote&gt;O casal está sepultado no cemitério de Landet.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-IVirLoEuSZM/TuW8A-WC4AI/AAAAAAAABeY/JaezgzdG-mY/s1600/Elvira+Madigan+%2526+Sixten+Sparres+grav.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="480" src="http://3.bp.blogspot.com/-IVirLoEuSZM/TuW8A-WC4AI/AAAAAAAABeY/JaezgzdG-mY/s640/Elvira+Madigan+%2526+Sixten+Sparres+grav.jpg" width="640" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;Uma maneira de descrever com bastante rigor os sentimentos de Verónica e Rodrigo, e Elvira e Sixten é esta que usa o grupo de teatro &lt;a href="http://www.baggaardteatret.dk/about.html"&gt;Baggårdteatret&lt;/a&gt;, de Svenbdborg, na apresentação em video da sua peça &lt;i&gt;Elvira Madigan&lt;/i&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;iframe allowfullscreen="" frameborder="0" height="360" src="http://www.youtube.com/embed/ILNR1Emy4Bg?rel=0&amp;amp;hd=1" width="640"&gt;&lt;/iframe&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A história de Elvira Madigan e Sixten Sparre não é, pelos vistos, conhecida apenas na Escandinávia: descobri na Wikipedia que o grupo britânico Mr. Fox a pôs em rima e lhe deu uma melodia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Mr. Fox, “Elvira Madigan”, 1971&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;iframe allowfullscreen="" frameborder="0" height="360" src="http://www.youtube.com/embed/oEH_1hATqHQ?rel=0" width="480"&gt;&lt;/iframe&gt; &lt;br /&gt;&lt;blockquote class="tr_bq"&gt;Elvira was a circus girl who walked the tightrope bravely.&lt;br /&gt;She travelled through Europe, and she knew what men were for.&lt;br /&gt;He was in the cavalry, wore braid upon his tunic;&lt;br /&gt;A handsome bearded horseman, who had never been to war.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CHORUS&lt;br /&gt;You would say, if you met them, they were golden eyed children,&lt;br /&gt;For the one thing they wanted they gave up health and fame.&lt;br /&gt;God help Elvira, and God help her lover,&lt;br /&gt;And God help anyone who tries to do the same.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;He left his wife and children in the regiment behind him,&lt;br /&gt;Stripped the braid from his tunic, tossed his buttons on the ground.&lt;br /&gt;She left the roaring crowds and the lights of the circus&lt;br /&gt;To go with a deserter and run from town to town.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;And many's the time they thought they'd found their safety,&lt;br /&gt;A room to love and shelter from the wind and the rain.&lt;br /&gt;But a knock on the door, a face at the window,&lt;br /&gt;And many's the time they were on the move again.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CHORUS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;She sold her last possessions and bought a loaf and butter.&lt;br /&gt;He robbed a henhouse, and they left once more to roam.&lt;br /&gt;In the middle of a meadow they both sat down to picnic,&lt;br /&gt;When he touched Elvira she was cold as a stone.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Elvira knew that the pistol was hidden in the basket.&lt;br /&gt;She whispered to her lover, “Make it soon, make it soon,”&lt;br /&gt;Elvira chased the butterfly and caught it in her fingers,&lt;br /&gt;She fell from the tightrope and the audience went home.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CHORUS&lt;/blockquote&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2874386790023925718-7647105383101968495?l=llindegaard.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://llindegaard.blogspot.com/feeds/7647105383101968495/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2874386790023925718&amp;postID=7647105383101968495' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/7647105383101968495'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/7647105383101968495'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://llindegaard.blogspot.com/2011/12/amores-fatais-incluindo-o-de-elvira.html' title='Amores fatais (incluindo o de Elvira Madigan e Sixten Sparre [Crónicas de Svendborg #9])'/><author><name>V. M. Lucas Lindegaard</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06993438398319242184</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/__m_JLgYBQmc/SUEyD_uVH3I/AAAAAAAAAwY/luHWZ4Q7ilk/S220/V%C3%ADtor.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/-IVirLoEuSZM/TuW8A-WC4AI/AAAAAAAABeY/JaezgzdG-mY/s72-c/Elvira+Madigan+%2526+Sixten+Sparres+grav.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2874386790023925718.post-4499928174248599903</id><published>2011-12-07T22:43:00.004+02:00</published><updated>2011-12-08T00:11:04.579+02:00</updated><title type='text'>Um bocadinho de publicidade</title><content type='html'>[Isto é um re-post sem querer. Corrigi umas coisas num post antigo e ei-lo que me aparece aqui de repente. Bom, já que aqui está, pois que fique...]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixo-vos aqui as primeiras 1500 palavras do primeiro conto do meu livro de contos  &lt;i&gt;faz de conta que histórias&lt;/i&gt;, a ver se acham alguma graça e ficam com vontade de ler mais. Se não, comprem na mesma...&lt;br /&gt;&lt;div style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none;"&gt;Lindegaard, Vítor, faz de conta que histórias. Lisboa: Campo da Comunicação, 2010. ISBN: 978-972-8610-94-4&lt;/div&gt;&lt;div align="center" style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none;"&gt;&lt;a class="cssButton" href="javascript:void(0)" id="publishButton" target=""&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;&lt;img border="0" height="640" ox="true" src="http://3.bp.blogspot.com/__m_JLgYBQmc/TIisDdpv_rI/AAAAAAAABXQ/SOVieKZh-zg/s640/Faz+de+conta+que+hist%C3%B3rias+frente.jpg" width="402" /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none;"&gt;&lt;b&gt;“Silêncio” (excerto)&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;blockquote class="tr_bq"&gt;&lt;div style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none;"&gt;&lt;i&gt;Deus disse: «Façamos o homem à nossa imagem, segundo a nossa semelhança e que ele domine os peixes do mar, as aves do céu, os animais, toda a terra e todos os pequenos animais que se movem sobre a terra!»&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none;"&gt;&lt;i&gt;Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; macho e fêmea o criou.&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;div style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none;"&gt;Estes versículos 26 e 27 do livro da Génese, que a tradição atribui a Moisés, tratam um mistério tão fundamental que não podem senão abrir-se generosamente a qualquer proposta de interpretação. Eis a de Venmani Tirunal Patire, o protagonista da curiosa história que vos quero dar a conhecer:&lt;/div&gt;&lt;blockquote class="tr_bq"&gt;&lt;div style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none;"&gt;Tudo o que é exclusivamente humano foi directamente dado aos homens por Deus, ao contrário daquilo que os homens compartilham com outras criaturas, que resulta de uma evolução do mundo natural (a que Deus só não é completamente alheio porque foi Ele também que criou esse mundo natural e pôs em marcha essa evolução, mas sem que tivesse nem para as coisas da natureza nem para o desfilar dos tempos nenhum desígnio específico…). É isso que quer dizer sermos à semelhança de Deus. Misturem-se as feições de todos os humanos, existidos já ou que venham ainda a ser, e obteremos o rosto de Deus; juntem-se os nomes de todos os homens pretéritos, presentes e futuros, e o nome radioso e impronunciável que resultar é o nome verdadeiro da divindade; adicionem-se todas as qualidades e anseios dos mortais e a soma será a imortal essência divina! E a quem me peça que explique o que quero com isto dizer, respondo da forma mais clara que sei: isto quer dizer, por exemplo, que Deus sabe construir vasos e fortificações, mas não compreende as línguas da serpente ou do leopardo.&lt;/div&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;div style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none;"&gt;Noutros tempos e noutros espaços, esta heresia teria sido ferozmente combatida tanto pela espada como pela pena, como o foram outras semelhantes, mas as notas em que Venmani Tirunal Patire dá conta das crenças de base da sua fé foram escritas em 1732, na ecuménica cidade de Trivandrum, onde não chegou nunca a fúria da Roma, e, muito provavelmente, nunca foram sequer dadas a conhecer a ninguém.&lt;/div&gt;&lt;div style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none;"&gt;De Venmani Tirunal Patire, pouco se sabe, e nada com absoluta certeza. Tudo leva a crer que tenha sido cristão da antiga igreja de Malabar, diz a lenda que fundada pelo apóstolo Tomás, e que, na altura em que Venmani Tirunal Patire viveu, estava oficialmente unida com o rito sírio, embora as suas notas revelem uma completa dissidência relativamente aos dogmas dos cristãos do Sul da Índia. Sabemos, porque no-lo diz, que foi estudante de música, e isso leva-nos a concluir que deve ter estudado a tradição musical carnática, que, mesmo para um cristão, era, naquele tempo, a única música que se podia estudar na região. Terá também sido, como todas as pessoas cultas daquela época e daquele lugar, senhor de alguma fortuna pessoal, pelo menos se foi mandado construir por ele o mausoléu onde foram encontradas as notas que aqui refiro e que são tudo o que dele nos chegou. O estranho mausoléu, recentemente descoberto e escavado por arqueólogos ingleses, é completamente atípico na região. Não tem, aliás, parecenças com os mausoléus de nenhuma outra tradição: é constituído por três cúpulas de pedra, semiesféricas, concêntricas e muito estanques, que se sobrepõem e que, provavelmente, eram subterrâneas quando foram construídas. Os textos, escritos numa forma ligeiramente arcaica de malaialame, encontravam-se dentro de uma caixa bem selada de madeira dura, como se lhes tivesse sido destinada a sorte que realmente tiveram, a de virem a ser achados séculos mais tarde. Junto da caixa, um esqueleto com três séculos de um homem que se supõe ser o autor das notas, o próprio Venmani Tirunal Patire. São os próprios textos que, como verão, levam a essa suposição.&lt;/div&gt;&lt;div style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none;"&gt;Ao contrário do que possa fazer-nos esperar a nota introdutória que transcrevi acima, o resto do texto de Venmani Tirunal Patire é mais narrativo do que ensaístico. E, também ao contrário do que acontece na primeira nota, ao pé da qual há a menção clara «cidade de Trivandrum, no ano de 1732», na segunda parte do texto, que parece ter sido escrita toda na mesma altura, não há qualquer referência à data da sua redacção. Quanto ao local em que foi escrito, o texto indicia, como verão, que terá sido o próprio mausoléu em que foi encontrado. E cumprida que é a minha função de apresentador, dou a palavra a Venmani Tirunal Patire:&lt;/div&gt;&lt;div style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none;"&gt;"Quando me surgiu pela primeira vez a questão a cuja resposta havia de dedicar o resto dos meus dias – Qual é a música de Deus? –, antes de me preocupar em clarificar a questão que se me punha, enveredei pelo caminho mais óbvio para o estudante de música que eu era: embrenhar-me nas obras dos grandes músicos, as obras escritas com Deus na alma e no coração. Tinha já a certeza, que conservo, de ser a Música um dos atributos divinos que, como a Mente, a Palavra e a Sabedoria, Deus tinha directamente oferecido aos homens para eles serem à Sua imagem e semelhança. Toda a música é, então, em certa medida, de Deus, mas, pensava eu, devia haver uma música mais divina do que todas as outras, uma música mais próxima da sua origem celestial, e essa não podia ser senão a música dos grandes mestres. Vim a decidir, no entanto, ao fim de algum tempo de intenso estudo, que assim não era – por bela que fosse, essa música era demasiado humana, sentia eu, para ser a música de Deus.&lt;/div&gt;&lt;div style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none;"&gt;Confesso que me senti algo desesperado: a música que eu conhecia, apesar de ser a melhor de todos os tempos, era uma imagem tão distorcida do atributo divino original que o seu conhecimento me era totalmente insatisfatório. Sentia que era preciso ir mais longe, mas não sabia como. Durante muitos anos não atinei com vislumbre que fosse de resposta à questão que me obcecava. Em vez de resposta, foram mais questões que se me vieram colocar. Eu procurava a música de Deus, mas o que queria eu dizer com «a música de Deus»? Música de Deus é a música, inacessível aos ouvidos dos mortais, que d’Ele emana, como, para alguns, d’Ele emana o excedente da sua superabundante grandeza?; ou música de Deus é a música por Ele inspirada aos homens, como, para outros, foi inspirada por Ele, em sonhos ou em fugazes materializações do Seu inconhecível Ser, a palavra dos livros sagrados?; ou a música de Deus é a música que, produto de esforçados anos de estudo e entrega dos mais sábios humanos, embora de humana origem, nos dê do Ser Divino a compreensão mais exacta que a criatura possa ter do seu criador? Não sabia e não sabia a quem perguntar. O meu mais querido amigo, única pessoa com quem eu partilhava a excitação e o fracasso da minha busca, aconselhava-me a desistir dessa tarefa que, dizia ele, não estava ao alcance de nenhum ser humano. Pensar que se podia aceder à música de Deus não era, só por si, uma blasfémia? Talvez, mas eu não era suficientemente forte nem para desistir nem para encontrar uma via plausível. Pensei, como alguns correm o mundo à procura do rio que lava todos os pecados ou da fonte cuja água serve de remédio para todas as doenças, percorrer os caminhos da terra à procura de outras músicas mais divinas, que talvez existissem para além das montanhas ou do outro lado dos mares. Mas no fundo de mim duvidava, sem saber bem porquê, que pudesse vir a encontrar, noutra parte do mundo, essa música que satisfizesse a minha ânsia de perfeição, e acabei, assim, por nunca empreender tal viagem.&lt;/div&gt;&lt;div style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none;"&gt;Foi, no entanto, uma viagem que veio revelar-me o que hoje me parece tão óbvio que custa a perceber como demorei tanto tempo a descobri-lo. Um dia recebi em minha casa dois velhos conhecidos, meus conterrâneos, que acabavam de regressar de uma viagem de vários anos aos países do Norte. Entre as várias aventuras que me contaram, prendeu-me a atenção a descrição que me fizeram da travessia do Grande Deserto de Thar.&lt;/div&gt;&lt;div style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none;"&gt;«O que é mais difícil de imaginar a quem não tenha atravessado nunca essas infindáveis extensões de areia, mais do que o calor sufocante do dia ou a fúria assassina das tempestades de areia», explicou-me um deles no tom grave de quem recorda um perigo mortal ou uma inexplicável traição, «é o silêncio de certas noites em certos lugares.»&lt;/div&gt;&lt;div style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none;"&gt;«Um silêncio aterrador», confirmou o outro, «um silêncio tão completo que se ouve em pormenor os ruídos todos do nosso corpo – o coração a bater, o sangue a correr, o ar a descer-nos pela garganta, os alimentos a serem digeridos no estômago. Acho que é isso, precisamente, que assusta no silêncio, essa repentina consciência de nós…»&lt;/div&gt;&lt;div style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none;"&gt;O silêncio, é claro! De repente, como numa revelação, percebi que, fosse qual fosse a interpretação dada à expressão &lt;i&gt;música de Deus&lt;/i&gt;, essa música tinha de ser o silêncio! (...)"&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none; clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/__m_JLgYBQmc/TIisDdpv_rI/AAAAAAAABXQ/SOVieKZh-zg/s1600/Faz+de+conta+que+hist%C3%B3rias+frente.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2874386790023925718-4499928174248599903?l=llindegaard.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://llindegaard.blogspot.com/feeds/4499928174248599903/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2874386790023925718&amp;postID=4499928174248599903' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/4499928174248599903'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/4499928174248599903'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://llindegaard.blogspot.com/2010/09/um-bocadinho-de-publicidade.html' title='Um bocadinho de publicidade'/><author><name>V. M. Lucas Lindegaard</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06993438398319242184</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/__m_JLgYBQmc/SUEyD_uVH3I/AAAAAAAAAwY/luHWZ4Q7ilk/S220/V%C3%ADtor.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/__m_JLgYBQmc/TIisDdpv_rI/AAAAAAAABXQ/SOVieKZh-zg/s72-c/Faz+de+conta+que+hist%C3%B3rias+frente.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2874386790023925718.post-6893497843357036943</id><published>2011-11-26T22:18:00.003+02:00</published><updated>2011-11-26T22:20:58.167+02:00</updated><title type='text'>[Crónicas de Svendborg #8] Sábado de novembro em Taasinge, um quase haiku</title><content type='html'>&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: white;"&gt;*&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;Hoje está suave, como dizem os franceses.&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;O sol brilha frio, mas, a desafiar os 10 graus,&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;dlim dlim, dlim, a carrinha dos gelados!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;span lang="PT" style="color: white;"&gt;*&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2874386790023925718-6893497843357036943?l=llindegaard.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://llindegaard.blogspot.com/feeds/6893497843357036943/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2874386790023925718&amp;postID=6893497843357036943' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/6893497843357036943'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/6893497843357036943'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://llindegaard.blogspot.com/2011/11/cronicas-de-svendborg-8-sabado-de.html' title='[Crónicas de Svendborg #8] Sábado de novembro em Taasinge, um quase haiku'/><author><name>V. M. Lucas Lindegaard</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06993438398319242184</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/__m_JLgYBQmc/SUEyD_uVH3I/AAAAAAAAAwY/luHWZ4Q7ilk/S220/V%C3%ADtor.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2874386790023925718.post-1369511588020012804</id><published>2011-11-25T21:37:00.000+02:00</published><updated>2011-11-25T21:37:35.062+02:00</updated><title type='text'>Dick Annegarn, Li Bo, a lua e as sombras</title><content type='html'>Dick Annegarn é um compositor de canções e cantor dos Países Baixos que tem vivido e trabalhado sobretudo na Bélgica e em França. Quando o conheci (a música dele, seja…), na segunda metade da década de 70, era muito mal visto gostar de Dick Annegarn nos círculos que eu frequentava, mas eu, mesmo assim, gostei logo das poucas canções dele que ouvi. Na altura, “Sacré géranium” e “Bruxelles” eram as mais conhecidas, acho eu. Depois, perdi o contacto com ele durante muitos anos, até que ouvi uma canção, num CD bónus de uma revista de televisão, e gostei tanto dela que não hesitei em comprar o álbum em que ela vinha, &lt;i&gt;Approche-toi&lt;/i&gt; (1997). E não me arrependi. Comprei depois o disco seguinte, &lt;i&gt;Adieu Verdure&lt;/i&gt; (1999), e são dois discos que vos aconselho. São álbuns que em que ele percorre todos os estilos possíveis de músicas e de orquestrações, desde o blues à música da Europa Central e do Médio Oriente, desde a pequena orquestra de jazz até ao exclusivamente eletrónico, mas são sobretudo Dick Annegarn e Dick Annegarn é um bocado difícil de explicar o que é, até porque não se parece mesmo com mais nada…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A canção de 1997 que me veio relembrar que Dick Annegarn existia e fazia boas canções chama-se “Buvant seul” e é mais uma atualização do motivo do bebedor solitário. O que eu vim a descobrir mais tarde, já não me lembro como, é que é baseada num poema famoso de um grande poeta chinês, &lt;a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Li_Bai"&gt;&lt;b&gt;Li Bo&lt;/b&gt;&lt;/a&gt; (também Li Po ou Li Bai), que viveu entre 701 e 762. Aliás, mais do que dizer-se que a letra da canção de Dick Annegarn é baseada no poema, poder-se-ia mesmo dizer que é uma tradução muito livre do poema.&lt;br /&gt;Deixo-vos a seguir: a canção de Annegarn, com o respetivo texto em francês; uma tradução portuguesa do poema de Li Bo por António Graça de Abreu; e um link para um página onde, além do poema original de Li Bo se podem ainda ler mais 43 (!!!) traduções em inglês, uma das quais de Ezra Pound. Estão a ver que não exagerei quando escrevi que o poema&amp;nbsp;era famoso...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Dick Annegarn, "Buvant seul", 1997&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;iframe allowfullscreen="" frameborder="0" height="315" src="http://www.youtube.com/embed/g-gK7vyCAMA" width="420"&gt;&lt;/iframe&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Je suis solitaire à boire dans les fleurs / Une cruche de balthazar comme consœur / Je me lève et lève mon verre à la lune / Sa silhouette me suit nous sommes trois / La lune ne sait même pas boire que nenni / C'est en vain et sans espoir qu'elle me suit / Il fait vivre avec plaisance au printemps / Quand la lune et la nuit dansent pour un temps / Nous sommes sobres et solidaires camarades / Nous sommes ivres et nos chimères nous baladent / La bonne nuit nous envahi bien trop tôt / Nous vivrons dans d'autres vies d'autres eaux&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;_______________&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Bebendo ao luar&amp;nbsp;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;(Tradução de&amp;nbsp;António Graça de Abreu, in&amp;nbsp;Abreu,&amp;nbsp;António Graça, &lt;i&gt;Poemas de Li Bai&lt;/i&gt;, Macau, 1990, encontrado &lt;a href="http://people.zeelandnet.nl/henklensen/libai-abreu.htm"&gt;&lt;b&gt;aqui&lt;/b&gt;&lt;/a&gt;)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um jarro de vinho entre as flores,&lt;br /&gt;bebo sozinho, sem amigos.&lt;br /&gt;Levanto o copo e convido o luar,&lt;br /&gt;com a minha sombra somos três.&lt;br /&gt;Ah, mas a lua não sabe beber,&lt;br /&gt;a sombra só sabe acompanhar meu corpo.&lt;br /&gt;O luar por amigo, a sombra por escrava,&lt;br /&gt;vamos todos fruir a primavera, festejar.&lt;br /&gt;Eu canto e passeiam no ar&lt;br /&gt;os raios de luar.&lt;br /&gt;Eu danço e volteia no espaço&lt;br /&gt;a sombra de mim.&lt;br /&gt;Lúcidos, nós três desfrutámos prazeres suaves,&lt;br /&gt;bêbados, cada um segue seu caminho.&lt;br /&gt;Que possamos repetir muitas vezes&lt;br /&gt;nosso singular festim&lt;br /&gt;e nos encontremos, por fim,&lt;br /&gt;na Via Láctea.&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;_______________&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;a href="http://clatterymachinery.wordpress.com/2007/01/26/li-bai-drinking-alone-with-the-moon-his-shadow-32-translators/"&gt;Li Bai bebendo sozinho (com a lua, a sua própria sombra e 43 tradutores)&lt;/a&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="center" style="background: white; margin-bottom: .9pt; margin-left: 6.75pt; margin-right: 6.75pt; margin-top: 6.75pt; text-align: center;"&gt;&lt;span lang="DA" style="font-family: 'MS Mincho'; font-size: 10pt;"&gt;花間一壺酒&lt;/span&gt;&lt;span lang="DA" style="font-family: 'Lucida Sans Unicode'; font-size: 10pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span lang="DA" style="font-family: 'MS Mincho'; font-size: 10pt;"&gt;獨酌無相親&lt;/span&gt;&lt;span lang="DA" style="font-family: 'Lucida Sans Unicode'; font-size: 10pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span lang="DA" style="font-family: 'MS Mincho'; font-size: 10pt;"&gt;舉杯邀明月&lt;/span&gt;&lt;span lang="DA" style="font-family: 'Lucida Sans Unicode'; font-size: 10pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span lang="DA" style="font-family: 'MS Mincho'; font-size: 10pt;"&gt;對影成三人&lt;/span&gt;&lt;span lang="DA" style="font-family: 'Lucida Sans Unicode'; font-size: 10pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span lang="DA" style="font-family: 'MS Mincho'; font-size: 10pt;"&gt;月既不解飲&lt;/span&gt;&lt;span lang="DA" style="font-family: 'Lucida Sans Unicode'; font-size: 10pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span lang="DA" style="font-family: 'MS Mincho'; font-size: 10pt;"&gt;影徒隨我身&lt;/span&gt;&lt;span lang="DA" style="font-family: 'Lucida Sans Unicode'; font-size: 10pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span lang="DA" style="font-family: 'MS Mincho'; font-size: 10pt;"&gt;暫伴月將影&lt;/span&gt;&lt;span lang="DA" style="font-family: 'Lucida Sans Unicode'; font-size: 10pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span lang="DA" style="font-family: 'MS Mincho'; font-size: 10pt;"&gt;行樂須及春&lt;/span&gt;&lt;span lang="DA" style="font-family: 'Lucida Sans Unicode'; font-size: 10pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span lang="DA" style="font-family: 'MS Mincho'; font-size: 10pt;"&gt;我歌月徘徊&lt;/span&gt;&lt;span lang="DA" style="font-family: 'Lucida Sans Unicode'; font-size: 10pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span lang="DA" style="font-family: 'MS Mincho'; font-size: 10pt;"&gt;我舞影零亂&lt;/span&gt;&lt;span lang="DA" style="font-family: 'Lucida Sans Unicode'; font-size: 10pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span lang="DA" style="font-family: 'MS Mincho'; font-size: 10pt;"&gt;醒時同交歡&lt;/span&gt;&lt;span lang="DA" style="font-family: 'Lucida Sans Unicode'; font-size: 10pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span lang="DA" style="font-family: 'MS Mincho'; font-size: 10pt;"&gt;醉後各分散&lt;/span&gt;&lt;span lang="DA" style="font-family: 'Lucida Sans Unicode'; font-size: 10pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span lang="DA" style="font-family: 'MS Mincho'; font-size: 10pt;"&gt;永結無情遊&lt;/span&gt;&lt;span lang="DA" style="font-family: 'Lucida Sans Unicode'; font-size: 10pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span lang="DA" style="font-family: 'MS Mincho'; font-size: 10pt;"&gt;相期邈雲漢&lt;/span&gt;&lt;span lang="DA" style="font-family: 'Lucida Sans Unicode'; font-size: 5pt;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2874386790023925718-1369511588020012804?l=llindegaard.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://llindegaard.blogspot.com/feeds/1369511588020012804/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2874386790023925718&amp;postID=1369511588020012804' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/1369511588020012804'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/1369511588020012804'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://llindegaard.blogspot.com/2011/11/dick-annegarn-li-bo-lua-e-as-sombras.html' title='Dick Annegarn, Li Bo, a lua e as sombras'/><author><name>V. M. Lucas Lindegaard</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06993438398319242184</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/__m_JLgYBQmc/SUEyD_uVH3I/AAAAAAAAAwY/luHWZ4Q7ilk/S220/V%C3%ADtor.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://img.youtube.com/vi/g-gK7vyCAMA/default.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2874386790023925718.post-8327011868069364892</id><published>2011-11-25T18:47:00.006+02:00</published><updated>2011-11-25T21:24:35.546+02:00</updated><title type='text'>2 histórias da 1ª guerra mundial</title><content type='html'>&lt;b&gt;1. Soldados belgas e franceses no Cemitério Auxiliar de Copenhaga [Crónicas de Svendborg #7]&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;Todas as histórias de guerra são tristes e cruéis, porque a guerra é sempre triste e cruel. E nem sequer deixa de ser cruel quando não é ela a causadora direta da morte dos que, por ela, tiveram de deixar a sua terra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na parte católica do bucólico Assistens Kirkegård, o Cemitério Auxiliar de Copenhaga, reparei uma vez em túmulos de soldados belgas e franceses, e surpreendeu-me ver que tinham datas de 1919. Eram soldados,&amp;nbsp;explicou-me alguém,&amp;nbsp;que tinham sido prisioneiros algures na costa norte da Alemanha e que, quando a guerra acabou em novembro de 1918, vieram de barco para a Dinamarca, para daqui seguirem para casa. Isto foi no início de 1919. Havia nessa altura na Europa uma epidemia de uma gripe violenta conhecida como gripe espanhola. Foi a gripe que matou aqueles soldados. Depois dos horrores da guerra e do cativeiro no país inimigo, quando o cansaço se começava a diluir, seguramente, na euforia do retorno a casa, veio um vírus, que não uma bala alemã, cortar-lhes a vida aos vinte e poucos anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-FDlEk5fGcvs/Ts_DPbOQUQI/AAAAAAAABeI/DQ1Gt3sh-Sw/s1600/Assistens+Krkegard.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" height="473" src="http://1.bp.blogspot.com/-FDlEk5fGcvs/Ts_DPbOQUQI/AAAAAAAABeI/DQ1Gt3sh-Sw/s640/Assistens+Krkegard.jpg" width="640" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Trebuchet MS', sans-serif; font-size: xx-small;"&gt;Em memória dos soldados franceses e belgas mortos de gripe em 1919. Wikimedia Commons.&lt;/span&gt;&amp;nbsp;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;&lt;b&gt;2. A guerra em Moçambique&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;Aproveito ser hoje aniversário da &lt;a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Battle_of_Ngomano"&gt;batalha de Ngomano&lt;/a&gt; para lembrar aqui que a Primeira Grande Guerra chegou à África Austral e houve combates entre tropas portuguesas e alemãs em Moçambique. Há algumas páginas online onde podem ler mais sobre o assunto (por exemplo, as que indicarei a seguir) e não é minha intenção desenvolvê-lo aqui, mas tão-só referir aqui um facto que seria apenas surrealista se não fosse trágico e revoltante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Francisco Proença Garcia [&lt;a href="http://www.triplov.com/miguel_garcia/mozamb/mozamb_02.htm"&gt;Moçambique na 1ª Guerra Mundial - do Rovuma ao Nhamacurra (1)&lt;/a&gt;] cita Azambuja Martins, que escreve:&lt;br /&gt;&lt;blockquote class="tr_bq"&gt;Portugal mobilizou para aquele território, ao longo dos vários anos, 19.438 militares da metrópole, 985 portugueses recrutados localmente e 10.278 africanos, e recrutou 90.000 carregadores, 60.000 fornecidos ao Exército português e 30.000 às forças britânicas&amp;nbsp;["A campanha de Moçambique", in Martins, Ferreira, &lt;i&gt;Portugal na Grande Guerra&lt;/i&gt;, Vol. II, Lisboa, 1938, p. 186.].&amp;nbsp;&lt;/blockquote&gt;Os números são confirmados por outras fontes em &lt;a href="http://www.arqnet.pt/portal/portugal/grandeguerra/pgm_mocam05.html"&gt;A guerra em Moçambique. 5. última fase da campanha&lt;/a&gt;, de Manuel Amaral (negrito meu):&lt;br /&gt;&lt;blockquote class="tr_bq"&gt;As forças portuguesas vindas sucessivamente da Metrópole atingiram 18.613 praças, enquadradas por 825 oficiais.&lt;br /&gt;As 30 companhias indígenas e as 6 baterias indígenas de metralhadoras mobilizaram 303 oficiais, 682 graduados europeus e 10.278 soldados indígenas, havendo mais a contar duas baterias de montanha e uma companhia montada da Guarda Republicana de Lourenço Marques. As forças de marinha mobilizaram um batalhão de duas companhias. Mobilizaram-se também 8.000 auxiliares indígenas das capitanias mores de Moçambique [&lt;i&gt;Livro de Ouro da Infantaria&lt;/i&gt;, pág. 100. Artigo de Álvaro de Castro].&lt;br /&gt;Assim as nossas forças mobilizadas atingiram nesta colónia um total de 39.201 homens.&lt;br /&gt;Os carregadores portugueses fornecidos às tropas inglesas elevaram-se a 30.000 10 e os empregados pelas nossas tropas atingiram 60.000; &lt;b&gt;as perdas totais na nossa população indígena de Moçambique deviam ter-se aproximado de 100.000 almas&lt;/b&gt; [Dr. Egas Moniz, &lt;i&gt;Um ano de política&lt;/i&gt;, 1919. (Apontamentos da Delegação à conferência da paz)].&amp;nbsp;&lt;/blockquote&gt;Se já não devia ser fácil, para alguns soldados portugueses, compreender que guerra era aquela e por que combatiam, imaginem o que significaria a guerra para todos aqueles moçambicanos, que pouco ou nenhum contacto tinham tido com europeus e que eram recrutados à força e obrigados a lutar e a morrer por nações que não tinham, para eles, o mínimo significado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;table cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-IHgXKgcmHzI/Ts_EBqWo8eI/AAAAAAAABeQ/YSMp25NdwJM/s1600/General+Smuts+inspecting+a+South+African+native+labour+unit+in+France.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; margin-bottom: 1em; margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" height="484" src="http://3.bp.blogspot.com/-IHgXKgcmHzI/Ts_EBqWo8eI/AAAAAAAABeQ/YSMp25NdwJM/s640/General+Smuts+inspecting+a+South+African+native+labour+unit+in+France.jpg" width="640" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;&lt;h1 class="photo-title" id="title_div4700488088" property="dc:title" style="background-color: #fefefe; font-weight: normal; line-height: 1.3em; margin-bottom: 12px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 12px; padding-bottom: 0px; padding-left: 0px; padding-right: 0px; padding-top: 0px; text-align: left;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Trebuchet MS', sans-serif; font-size: xx-small;"&gt;"General Smuts inspecionando uma unidade nativa sul-africana em França", provavelmente por&amp;nbsp;&lt;span class="Apple-style-span" style="line-height: 15px;"&gt;John Warwick Brooke.&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="background-color: #ebebeb; line-height: normal;"&gt;http://digital.nls.uk/74548224&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="line-height: 15px;"&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/h1&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2874386790023925718-8327011868069364892?l=llindegaard.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://llindegaard.blogspot.com/feeds/8327011868069364892/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2874386790023925718&amp;postID=8327011868069364892' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/8327011868069364892'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/8327011868069364892'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://llindegaard.blogspot.com/2011/11/2-historias-da-1-guerra-mundial.html' title='2 histórias da 1ª guerra mundial'/><author><name>V. M. Lucas Lindegaard</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06993438398319242184</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/__m_JLgYBQmc/SUEyD_uVH3I/AAAAAAAAAwY/luHWZ4Q7ilk/S220/V%C3%ADtor.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-FDlEk5fGcvs/Ts_DPbOQUQI/AAAAAAAABeI/DQ1Gt3sh-Sw/s72-c/Assistens+Krkegard.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2874386790023925718.post-1656079585944481385</id><published>2011-11-10T11:26:00.001+02:00</published><updated>2011-11-10T11:27:03.401+02:00</updated><title type='text'>Homenagem a Carl Stalling, no dia do 120º aniversário do seu nascimento</title><content type='html'>&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Quando eu era rapaz, pensei muitas vezes que devia ser giro ouvir só a música dos desenhos animados sem ver os bonecos, mas nunca me dei mesmo ao trabalho de gravar as bandas sonoras da televisão. Houve, porém, quem tivesse pensado o mesmo que eu sem se ficar pela ideia. John Zorn, por exemplo. John Zorn, considera Carl Stalling, o compositor das bandas sonoras dos cartoons da Warner Bros., uma das suas grandes influências e um dos grandes inovadores da música do século XX e de todos os tempos. Segundo ele, Carl Stalling é inovador sobretudo a nível no tempo; mas também na conceção de que não há estilos de música melhores do que outros e que, portanto, todas as músicas se podem juntar; e na substituição da regras tradicionais da música (“desenvolvimento, tema e variações, etc.”) por “um caleidoscópio em constante transformação de estilos, formas, melodias, citações e […] descrições sónicas de eventos visuais”*.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;John Zorn foi o consultor de produção de &lt;i&gt;The Carl Stalling Project, music from Warner Bros. cartoons 1936-1958&lt;/i&gt;, o primeiro disco de música de Stalling, que foi publicado em 1990 (Volume II em 1995), mas que, como Zorn diz, devia ter sido publicado muito antes. Mas enfim, mais vale tarde que nunca e eu fiquei, quando conheci o disco, muito contente de ter visto finalmente realizado um projeto de juventude. A música de Carl Stalling é um delírio, seja qual for o sentido que se dê à palavra.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;iframe allowfullscreen="" frameborder="0" height="315" src="http://www.youtube.com/embed/B7pMocPz04g" width="560"&gt;&lt;/iframe&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;___________&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;* Traduzo eu das notas do CD &lt;i&gt;The Carl Stalling Project, music from Warner Bros. cartoons 1936-1958&lt;/i&gt;. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2874386790023925718-1656079585944481385?l=llindegaard.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://llindegaard.blogspot.com/feeds/1656079585944481385/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2874386790023925718&amp;postID=1656079585944481385' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/1656079585944481385'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/1656079585944481385'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://llindegaard.blogspot.com/2011/11/homenagem-carl-stalling-no-dia-do-120.html' title='Homenagem a Carl Stalling, no dia do 120º aniversário do seu nascimento'/><author><name>V. M. Lucas Lindegaard</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06993438398319242184</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/__m_JLgYBQmc/SUEyD_uVH3I/AAAAAAAAAwY/luHWZ4Q7ilk/S220/V%C3%ADtor.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://img.youtube.com/vi/B7pMocPz04g/default.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2874386790023925718.post-1473222824636441798</id><published>2011-11-09T16:58:00.002+02:00</published><updated>2011-11-10T11:32:23.511+02:00</updated><title type='text'>Crónicas de Svendborg #7:  Novembro</title><content type='html'>Em 1986, Henrik Nordbrandt escreveu um dos mais famosos poemas dinamarqueses, provavelmente o poema que mais dinamarqueses sabem de cor&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;*&lt;/span&gt;:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ano tem 16 meses: Novembro&lt;br /&gt;Dezembro, Janeiro, Fevereiro, Março, Abril&lt;br /&gt;Maio, Junho, Julho, Agosto, Setembro&lt;br /&gt;Outubro, Novembro, Novembro, Novembro, Novembro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_______________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;* O poema nr. 2 de &lt;i&gt;Håndens skælven i november&lt;/i&gt; (Copenhaga: Gyldendal, 1986): “Året har 16 måneder: november / december, januar, februar, marts, april / maj, juni, juli, august, september / oktober, november, november, november, november”&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="PT" style="color: #333333; font-family: inherit; font-size: 12pt;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2874386790023925718-1473222824636441798?l=llindegaard.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://llindegaard.blogspot.com/feeds/1473222824636441798/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2874386790023925718&amp;postID=1473222824636441798' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/1473222824636441798'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/1473222824636441798'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://llindegaard.blogspot.com/2011/11/novembro.html' title='Crónicas de Svendborg #7:  Novembro'/><author><name>V. M. Lucas Lindegaard</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06993438398319242184</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/__m_JLgYBQmc/SUEyD_uVH3I/AAAAAAAAAwY/luHWZ4Q7ilk/S220/V%C3%ADtor.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2874386790023925718.post-3226809482335113536</id><published>2011-11-09T16:10:00.006+02:00</published><updated>2011-11-09T16:14:57.319+02:00</updated><title type='text'>Avós</title><content type='html'>&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Há pouco mais de uma semana, uma amiga minha publicou, no seu mural do Facebook, o seguinte texto:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;blockquote class="tr_bq"&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Definição de avó – artigo redigido por uma menina de 8 anos no Jornal do Cartaxo, Portugal…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;blockquote class="tr_bq"&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Uma avó é uma mulher que não tem filhos, por isso gosta dos filhos dos outros. As avós não têm nada para fazer, é só estarem ali. Quando nos levam a passear, andam devagar e não pisam as flores bonitas nem as lagartas. Nunca dizem «Despacha-te!». Normalmente são gordas, mas mesmo assim conseguem apertar-nos os sapatos. Sabem sempre que a gente quer mais uma fatia de bolo ou uma fatia maior. As avós usam óculos e às vezes até conseguem tirar os dentes. Quando nos contam histórias, nunca saltam bocados e nunca se importam de contar a mesma história várias vezes. As avós são as únicas pessoas grandes que têm sempre tempo. Não são tão fracas como dizem, apesar de morrerem mais vezes do que nós.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Toda a gente deve fazer o possível por ter uma avó, sobretudo se não tiver televisão.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Perante um texto assim, o mais natural é reagir, estou eu em crer, como reagiu &lt;a href="http://perguntassobre.blogspot.com/2009/03/o-que-e-uma-avo.html"&gt;João Soares Barros no seu blogue &lt;i&gt;Perguntas sobre…&lt;/i&gt;&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;blockquote class="tr_bq"&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Este artigo circula na Internet como sendo redigido por uma menina de 8 anos e publicado no &lt;i&gt;Jornal do Cartaxo&lt;/i&gt;. Provavelmente a história não será bem esta, até porque creio que nem existe um jornal exatamente com este nome, mas sim chamado &lt;i&gt;Jornal O Povo do Cartaxo&lt;/i&gt;. Mas tudo isto são pormenores, perante a verdadeira delícia que é este texto.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Agora eu, embora concordando completamente que a origem do texto não afeta em nada o seu conteúdo e a sua graça, reagi de uma maneira um pouco diferente, porque aquele texto não era novo para mim. Foi-me oferecida em 1993 uma cassete do cantautor &lt;b&gt;&lt;a href="http://www.paultracey.org/"&gt;Paul Tracey&lt;cite&gt;&lt;span style="font-style: normal;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/cite&gt;&lt;/a&gt;&lt;/b&gt;. Chama-se &lt;i&gt;Songs &amp;amp; Stories&lt;/i&gt; e inclui uma canção chamada “Grandmothers” [“Avós”], cuja letra não sabia toda de cor, mas de que me lembrava que começava com &lt;/span&gt;&lt;span lang="EN-GB"&gt;“&lt;i&gt;a grandmother is a woman with no children of her own…&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt; [“uma avó é uma mulher que não tem filhos seus…]” e terminava com &lt;/span&gt;&lt;span lang="EN-GB"&gt;“&lt;i&gt;…everybody should have one, especially if your living room has no television&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt; [“…toda a gente devia ter uma, sobretudo se a sala de jantar não tiver televisão]”. A minha reação foi, então: “Ah, mas que curioso – isto é uma tradução adaptada da canção de Paul Tracey!”&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-1Obc47VnoVU/TrqE57PwOiI/AAAAAAAABd8/1uFcUlDM-nA/s1600/scan0001.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="382" src="http://3.bp.blogspot.com/-1Obc47VnoVU/TrqE57PwOiI/AAAAAAAABd8/1uFcUlDM-nA/s400/scan0001.jpg" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Por via das dúvidas, meti-me a pesquisar na Internet. Cheguei relativamente depressa à conclusão de que o texto é muito popular, circula em muitas línguas&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="color: #660000;"&gt;[1]&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;, e atribuem-se-lhe origens várias: nalguns casos, diz-se que foi escrito por uma menina, cuja idade varia entre os 4 e os 9 anos; noutros, &lt;a href="http://learnwithgrandma.com/whatisagrandma.htm"&gt;que foi escrito por um rapaz de 8 anos e encontrado numa igreja galesa&lt;/a&gt;; noutros, &lt;a href="http://www.grandparenting.org/Bulletin_Board.htm"&gt;que foi compilado de trabalhos de uma turma de crianças de 8 anos&lt;/a&gt;, etc.&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;No &lt;a href="http://amadurecermulher.blogspot.com/2007/09/o-que-uma-av.html"&gt;blogue de Raquel Moura,de Mogi Mirim, São Paulo&lt;/a&gt;, encontrei uma primeira referência concreta à origem da frase&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;b&gt;[2]&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;: &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;blockquote class="tr_bq"&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Li isto num livro chamado &lt;i&gt;Lar Doce Lar&lt;/i&gt; de um dos meus autores prediletos, o Dr. James Dobson. Ele conta que "há muitos anos, uma menina de 4 anos, chamada Sandra Louise Doty, sentou-se numa banqueta numa floricultura, enquanto sua avó atendia os compradores. Quando a avó e a neta conversaram, a menina começou a descrever o que ela achava ser uma avó. A idosa senhora anotou as palavras de Sandra, que têm sido citadas em todos o mundo. Sandra é atualmente a Sra Andrew De Mattia, e deu-nos permissão para transmitir a você sua composição original, intitulada “O que é uma avó”. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;O texto que se seguia tinha, em parte, o mesmo conteúdo que o texto publicado pela minha miga no Facebook, mas acrescentava-lhe alguns pontos: acrescentava referência ao avô (“Um avô é um homem avó” [que] sai para passear com os meninos e eles falam sobre pescaria, tratores e outras coisas semelhantes”) e acrescentava à descrição das avôs que “são velhas, por isso não devem brincar muito nem correr”; que “já fazem muito quando nos levam de carro até as lojas, onde está o cavalo de mentira, e levam uma porção de moedinhas separadas”; que, além de óculos, usam também “roupas de baixo esquisitas”; que não sabem tirar só os dentes, mas também as gengivas”; que “não têm de ser muito inteligentes, somente responder a perguntas como «Por que os cachorros odeiam os gatos e Deus não é casado?»; e que “não falam como os bebés falam, como fazem os visitantes, porque é difícil de entender”. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Ao princípio, pensei que se tratasse de uma referência ficcional, sobretudo porque não encontrei nenhum livro de James Dobson chamado &lt;i&gt;Home sweet home&lt;/i&gt; e porque, juntando numa única pesquisa “James Dobson” e “Sandra Louise Doty”, só me apareceram páginas em português e espanhol&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;b style="color: #660000;"&gt;[3]&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;. Mas descobri que &lt;a href="http://livros.gospelmais.com.br/livro-lar-doce-lar-james-dobson.html%20"&gt;a referida edição de James Donson em português existe mesmo&lt;/a&gt;: é de 2000 e é a tradução de um livro chamado &lt;i&gt;Home with a Heart&lt;/i&gt; (Living Books, 1999). Mais recente, &lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;portanto, &lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt; que a cassete de Paul Tracey, pensei eu. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;No dia seguinte, depois da grande limpeza de sábado de manhã, fui buscar a cassete de Paul Tracey (&lt;a href="http://llindegaard.blogspot.com/2011/08/inventarios-2-cassetes-um-inventario.html"&gt;uma das poucas cassetes que conservo&lt;/a&gt;), para tirar a letra. E dei-me conta de que acabávamos de deitar fora o único leitor de cassetes que havia cá em casa. Era uma aparelhagenzinha que estava cozinha e que estava funcionar tão mal que decidíramos, nessa mesma manhã, deitá-la para o lixo. Mas fui buscar a aparelhagem ao lixo e tirei a letra da canção [traduzo eu]: &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;blockquote class="tr_bq"&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Uma avó é uma senhora que não tem filhos seus, / mantém-se sempre ocupada a coser coisas que precisam de ser cosidas. / Gostam das meninas dos outros e dos meninos também, / mas tens de ter cuidado, senão tropeça-te nos brinquedos. / Não tem de fazer muito, a não ser só estar ali, / nunca tem de dizer «Despacha-te lá» nem de olhar quando estás nu. / As avós usam todas óculos e roupa interior esquisita, / e conseguem tirar dentes e gengivas e depois levá-los a consertar. / Não têm de ser espertas, mas têm de saber, as avós, / por que Deus não é casado e que altura tem o céu. / Nunca falam à bebé, como as outras visitas, / e são incrivelmente justas a fazer coisas à vez – agora és tu, agora é ela. / Um avô é um homem-avó; traz o carvão para dentro, / vai pôr o lixo lá fora, depois acha que vai dar uma voltinha… / As avós leem-te histórias, todos deviam ter uma, / sobretudo se na sala de estar não houver televisão&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;b style="color: #660000;"&gt;[4]&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Agora, como podia ter a certeza de que era este texto que tinha dado origem a todos os outros? O melhor, pensei eu, era perguntar ao autor se eram dele estas ideias. E foi o que eu fiz: “O texto é inteiramente seu, como eu parto do princípio que é”, escrevi eu a Paul Tracey, “ou baseou a sua canção textos, anedotas ou aforismos preexistentes sobre as avós?”&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Continuei a pesquisar na Internet. E encontrei &lt;a href="http://www.fcfonline.org/content/1/sermons/092897m.pdf"&gt;uma referência bibliográfica clara num texto de Steven J. Cole&lt;/a&gt;: Adoro esta perspicaz redação de uma menina da terceira classe, chamada “O que é uma avó?” (James Dobson, &lt;i&gt;What Wives Wish Their Husbands Knew About Women&lt;/i&gt; [Tyndale], pp. 47-48).&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;A lista de livros de James Dobson da &lt;i&gt;Wikipedia&lt;/i&gt; diz que o livro é de 1995, mas verifiquei que há pelo menos duas edições mais antigas deste livro, uma de &lt;span class="citationbook"&gt;1981 (Living Books) e uma de&lt;/span&gt; 1982 (Tyndale House Publishers). A cassete de Paul Tracey, essa, não fazia ideia de quando seria, porque não tem qualquer data… Aliás, o próprio autor também não sabe quando gravou a música, como me explicou na resposta ao meu e-mail. Paul Tracey foi extremamente amável e respondeu-me imediatamente, contando-me a história da canção:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;blockquote class="tr_bq"&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;A minha mãe vivia em Inglaterrase há muito tempo – anos antes de haver Internet – encontrou as ideias de base para a canção sobre as avós apresentadas como se tivessem sido criadas por uma criança algures. A minha mãe mandou-me o texto. Não faço ideia de quem o terá escrito de facto, mas fiquei desconfiado e duvidei de que tivesse realmente sido uma criança.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Transformei o texto na minha canção, tirando alguma coisas que não conseguia encaixar e fazer rimar, e acrescentado alguns bocados meus.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Tenho de admitir, porém, que é uma das minhas canções de que gosto menos! Talvez seja porque sou agora tão egocêntrico que só canto canções que tenha escrito eu próprio! Não é bem verdade, mas quase. Decididamente, roubei as ideias do original e não é nada o meu estilo!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;E acrescentava que ele próprio tinha conhecimento de que o texto circula por aí:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;blockquote class="tr_bq"&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Para o seu blogue, sugiro que esta obra em particular de facto não viajou nada depressa. Se, como me diz, anda agora a circular, isto demorou muito tempo a acontecer. Acho que, pessoalmente, já topei com ela 3 vezes desde que escrevi a canção há cerca de 40 anos&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Fiquei assim a saber que, ao contrário do que eu pensara inicialmente, o conteúdo do texto não foi criado por Paul Tracey. Provavelmente, devia simplesmente partir do princípio que a autora era mesmo a tal Sandra que James Dobson referira. Mas, enquanto não me decidia a dar por terminada a pesquisa, ia displicentemente variando um pouco as pesquisas em Google. E tive de repente novos resultados: Há no site &lt;i&gt;Jokes from the Web&lt;/i&gt;, de Richard Lowe, &lt;a href="http://www.funy.net/otherjokes810.asp"&gt;uma carta de uma senhora chamada Sandra L. DeMattia, que reclama a autoria do texto&lt;/a&gt; [traduzo eu]:&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote class="tr_bq"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;A obra que publicou chamada “O que é uma avó?” não foi escrita por uma turma de crianças de oitos anos nem por uma menina da terceira classe. Foi uma conversa que uma menina de 3 anos teve com a avó em 1952. Foi publicada pelo primeira vez em meados dos anos setenta pelo Dr. James Dobson e depois noutro livro seu de 1996 chamado Home with a Heart. Esta entrada aparece nas páginas 20 e 21. Se for possível, poderia corrigir a autoria? Como já disse a outros administradores de sites da Internet, sei que sou um bocadinho forte – como a minha avó – mas não tanto que se me possa considerar um grupo ou uma turma. Continue, por favor, a usar o texto, já que ele parece fazer sorrir avós em todo o mundo. Como já deve ter adivinhado, sou eu a menina de três anos – 53 anos mais tarde. Se quiser mais alguma informação sobre o assunto, sinta-se à vontade para me contactar&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;b&gt;[5]&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;span lang="PT"&gt;É fácil verificar que James Dobson publicou de facto livros nos anos 70. O facto de a referência ser mais uma vez vaga (só a referência à edição de 1996 é que dá páginas) e de não haver uma identificação mais concreta desta Sra. DeMattia não ajuda muito a acreditar que estejamos finalmente perante a verdadeira autora do texto original&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;b style="color: #660000;"&gt;[6]&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;. Bom, podia ter escrito a Richard Lowe a perguntar, podia ter encomendado um ou mais livros de James Dobson, ou até ter-lhe escrito também, para tentar descobrir mais alguma coisa, mas não – prefiro desistir desta história e dedicar-me antes a outras… como direi?... atividade mais proveitosas. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Um texto – ou uma canção, ou qualquer outro objeto intelectual, artístico ou não, tem sempre um autor concreto. Mesmo que seja uma variação sobre um objeto anterior, essa variação tem um autor, como o tem o objeto sobre o qual foi feita. Quando se fala de objetos artísticos “tradicionais”, por exemplo, aquilo de que se está a falar de facto é de objetos de autoria(s) desconhecida(s). A história do texto das avós ilustra bem, acho eu, o processo, ora voluntário ora involuntário, de apagamento ou ficcionalização da autoria de um objeto literário – e da sua transformação ao passar de mão em mão. Agora, se as coisas se passam assim no séc. XXI, imaginem como se passavam antes, quando a ideia de autor tinha muito menos importância do que agora e ninguém tinha aprendido a fazer referências bibliográfica – nem que se as deve fazer… Lembro-me de &lt;a href="http://youtu.be/18t0yNFWAWY"&gt;um documentário muito interessante de Adela Peeva chamado &lt;i&gt;Whose song is this?&lt;/i&gt;&lt;/a&gt;, sobre uma canção que gregos, macedónios, turcos, sérvios e búlgaros acreditam todos ser uma canção tradicional da sua terra. Há centenas de casos assim. A “&lt;a href="http://youtu.be/Tlm_Xl6GCqg"&gt;Raspa&lt;/a&gt;”, para dar o primeiro exemplo que me vem à cabeça, de que país acham que é?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;______________________________________________________________________&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;b style="color: #660000;"&gt;[1]&lt;/b&gt;&lt;/span&gt; Eis os resultados das minhas pesquisas em francês, português e inglês: uma pesquisa fechada com aspas de "une grand-mère est une femme qui n'a pas d'enfants" deu-me 17.200 ocorrências em Google; "une grand-mère est une femme qui n'a pas d'enfant" (é preciso contar com este pormenor, veem?, quando se faz pesquisas de frases específicas em francês…) tinha 18.600 ocorrências; “uma avó é uma mulher que não tem filhos” deu-me 10.400 ocorrências; e “grandmother is a lady who has no children” deu-me 12.800. Também se encontram versões com &lt;b&gt;dame&lt;/b&gt;, &lt;b&gt;senhora &lt;/b&gt;e &lt;b&gt;lady &lt;/b&gt;em vez de &lt;b&gt;femme&lt;/b&gt;, &lt;b&gt;mulher &lt;/b&gt;e &lt;b&gt;woman&lt;/b&gt;, respetivamente, mas têm muito poucas ocorrências. Evidentemente, nem todas as frases fazem parte de variações do texto em causa, mas a esmagadora maioria faz, como qualquer verificação aleatória rapidamente nos indica… O texto tem especial popularidade em setores religiosos do ciberspaço.&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;span style="color: #660000; font-size: x-small;"&gt;&lt;b&gt;[2]&lt;/b&gt;&lt;/span&gt; Publicado a 30 setembro 2007. &lt;a href="http://www.blogger.com/goog_477516714"&gt;Edite Esteves, de Lisboa, publicou no seu blogue, &lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/goog_477516714"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;o mesmo texto, &lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;a href="http://meditacaoparaasaude.blogspot.com/2011/07/s-ao-u-e-m-ri-n-c-e-m-u-v-o-muitos-anos.html"&gt;a 26 de julho de 2011&lt;/a&gt;, &lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;mas com uma referência bibliográfica (quase) completa: James Dobson, &lt;i&gt;Lar, Doce Lar&lt;/i&gt;, Editora United Press Ltda, 2000&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;span style="color: #660000; font-size: x-small;"&gt;&lt;b&gt;[3]&lt;/b&gt;&lt;/span&gt; &lt;a href="http://dotys.net/sandra/index.php?page=her-story"&gt;A Sandra Louise Doty mais fácil de encontrar&lt;/a&gt; é uma esposa de um diplomata, que veio a tornar-se agente da CIA e que faleceu a 8 de abril 8 de 2010 com 69 anos. Não se pode tratar desta Sandra Louise Doty, porém, porque esta nunca se tornou DeMattia. Pelo contrário, ganhou pelo casamento o apelido Doty. &lt;a href="http://www.census-online.us/search/DEMATTIA,SANDRA"&gt;O site Census Data Online diz que há 11 pessoas com o nome Sandra DeMattia&lt;/a&gt; nos EUA. E diz também que, para saber mais, há que pagar, imaginem vocês…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-size: 13pt;"&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;b style="color: #660000;"&gt;[4]&lt;/b&gt;&lt;/span&gt; &lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;i&gt;A grandmother is a lady with no children of her own, / She’s always keeping busy sewing things that should be sewn. / She likes other people’s little girls and also little boys, / But you’ve got to be so careful or she’ll trip up on you toys, / She doesn’t have to do much except for just be there, / She should never say “Now, hurry up!” or look when you are bare. / Grandmothers all wear spectacles and funny underwear, / They can take their teeth and gums off and then take them for repair. / They don’t have to be clever, but grandmothers should know why / Why God isn’t married and how high up is the sky. / They never talk baby talk like others visitors, / They’re awfully fair at taking turns – it’s yours and then it’s hers. / A grandfather is a man grandmother; he brings in the coal, / He takes out the garbage, then he thinks he’ll take a stroll… / Grandmothers read you stories, everybody should have one,&amp;nbsp; / Especially if your living room has no television. &lt;/i&gt;&lt;b&gt;&lt;i&gt;Television&lt;/i&gt;&lt;/b&gt; é pronunciado de maneira a rimar com &lt;b&gt;&lt;i&gt;one&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;, para obter efeito humorístico.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;span style="color: #660000; font-size: x-small;"&gt;&lt;b&gt;[5]&lt;/b&gt;&lt;/span&gt; A versão do texto apresentada neste blogue era ligeiramente diferente das que tinha visto até essa altura. Além de estar apresentada por pontos (15 pontos numerados), aparecem algumas ideia diferentes das que se encontram na maior parte das outras versões. Há sobretudo, mais perguntas a que as avós têm de responder: “As minhocas bocejam?”, “Porque é que os cães perseguem os gatos?", "A vaca saltou mesmo por cima da lua [referência a uma lengalenga infantil inglesa]?" e "Porque é que as pessoas se beijam debaixo do visgo [referência a uma velha tradição do Norte da Europa]”?"&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;span style="color: #660000; font-size: x-small;"&gt;&lt;b&gt;[6] &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;Além de que a riqueza retórica do texto é tal – e assente, ainda por cima, numa lista cuidadosamente elaborada dos clichés associados à imagem da avó na cultura ocidental – que só por ingenuidade, digo eu, se o atribui a uma menina de três anos. Mas isto é só uma impressão, não o posso provar.&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2874386790023925718-3226809482335113536?l=llindegaard.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://llindegaard.blogspot.com/feeds/3226809482335113536/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2874386790023925718&amp;postID=3226809482335113536' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/3226809482335113536'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/3226809482335113536'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://llindegaard.blogspot.com/2011/11/avos.html' title='Avós'/><author><name>V. M. Lucas Lindegaard</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06993438398319242184</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/__m_JLgYBQmc/SUEyD_uVH3I/AAAAAAAAAwY/luHWZ4Q7ilk/S220/V%C3%ADtor.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/-1Obc47VnoVU/TrqE57PwOiI/AAAAAAAABd8/1uFcUlDM-nA/s72-c/scan0001.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2874386790023925718.post-3271889148681406099</id><published>2011-11-07T16:13:00.001+02:00</published><updated>2011-11-07T21:27:58.413+02:00</updated><title type='text'>Livros em segunda mão #2: Storm P. 1940-1948 [Crónicas de Svendborg # 6]</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Comprei numa feira da ladra em Svendborg, pela mó&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;dica quantia de 10 coroas*, um livro chamado &lt;i&gt;Robert Storm Petersen, Desenhos e textos 1939-1949&lt;/i&gt;. Ninguém conhece Robert Storm Petersen por este nome – é &lt;a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Robert_Storm_Petersen"&gt;Storm P&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;. que lhe chamam e era também assim que assinava textos e desenhos. Figura de culto, Storm P. é, para mim, sobretudo uma figura estranha: irregular no traço e nas piadas, tem desde desenhos muito bons a de&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;senhos bastante sofríveis e o mesmo se pode dizer das suas graças, que são às vezes muito engraçadas e outras v&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;ezes sem graça por aí além. Mas fez um pouco de tudo e foi às vezes pioneiro nesse um pouco de tudo que fez: banda desenhada, por exemplo, e animação. Há também quem defenda que é ele, e não Yogi Berra, o autor daquela frase célebre que se usa muito em conversas sobre futebol, “É difícil fazer previsões, sobretudo sobre o futuro”. Deixo-vos aqui alguns cartoo&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;n&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;s que tirei do livro que comprei numa feira da ladra em Svendborg, pela módica quantia de 10 coroas, lembram-se?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;table cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-IKdOIgZ-xHw/TrfS_ExrJDI/AAAAAAAABb0/-CqU1OCujk0/s1600/Storm+P.+1+Trav..jpg" imageanchor="1" style="clear: left; margin-bottom: 1em; margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" height="640" src="http://3.bp.blogspot.com/-IKdOIgZ-xHw/TrfS_ExrJDI/AAAAAAAABb0/-CqU1OCujk0/s640/Storm+P.+1+Trav..jpg" width="452" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr align="center" style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif;"&gt;&lt;td class="tr-caption"&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-size: small;"&gt;O globo tem vindo a tomar uma nova forma,&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="PT" style="font-size: small;"&gt;mas não foi ainda decidido que for&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT" style="font-size: small;"&gt;ma será ao certo… (1940)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: left;"&gt;&lt;table cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/-6hLwareTgmk/TrfYJ8iM6TI/AAAAAAAABdE/-wBpwlbyDrQ/s1600/Storm+P.+2+Trav.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; margin-bottom: 1em; margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" height="526" src="http://2.bp.blogspot.com/-6hLwareTgmk/TrfYJ8iM6TI/AAAAAAAABdE/-wBpwlbyDrQ/s640/Storm+P.+2+Trav.jpg" width="640" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif; text-align: center;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-size: small;"&gt;Isto seria mesmo horrível,&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="PT" style="font-size: small;"&gt;se não fosse por prazer (1940)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: left;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;&lt;/div&gt;&lt;table cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-RhCU4FV0RMs/TrfYtK3pTxI/AAAAAAAABdM/f_HZ4Wl1_8I/s1600/Storm+p.+3+Trav..jpg" imageanchor="1" style="clear: left; margin-bottom: 1em; margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" height="640" src="http://1.bp.blogspot.com/-RhCU4FV0RMs/TrfYtK3pTxI/AAAAAAAABdM/f_HZ4Wl1_8I/s640/Storm+p.+3+Trav..jpg" width="542" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif; text-align: center;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-size: small;"&gt;– Mas afinal, Péricles, o que é profundidade?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif; text-align: center;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-size: small;"&gt;– É quando uma pessoa fica calada e franze o sobrolho. (1941)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;&lt;table cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-EUxENDeqM9E/TrfZzYdDa-I/AAAAAAAABdU/E43wxPHwcOk/s1600/Storm+P.+4+Trav.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; margin-bottom: 1em; margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" height="640" src="http://3.bp.blogspot.com/-EUxENDeqM9E/TrfZzYdDa-I/AAAAAAAABdU/E43wxPHwcOk/s640/Storm+P.+4+Trav.jpg" width="448" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif; text-align: center;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-size: small;"&gt;– Ouve, Teseu, isto agora já não dá para pedir uma ajuda para um cafezinho.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif; text-align: center;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-size: small;"&gt;– Não, o melhor agora é dizer que é para meia dúzia de ostras. (1942)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: left;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: left;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: left;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: left;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: left;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;&lt;table cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="clear: left; margin-bottom: 1em; margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-0IxrkzpIOSI/Trfa5RpRbdI/AAAAAAAABdc/jdql3J-VDqU/s1600/Storm+P.+Trav.+5.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; margin-bottom: 1em; margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" height="640" src="http://3.bp.blogspot.com/-0IxrkzpIOSI/Trfa5RpRbdI/AAAAAAAABdc/jdql3J-VDqU/s640/Storm+P.+Trav.+5.jpg" width="456" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif;"&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: center;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-size: small;"&gt;– Plantam-se todos os anos 50,000 árvores de fruto,&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="PT" style="font-size: small;"&gt;mas há que esperar 5 anos até começarem a dar fruto.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: left;"&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-size: small;"&gt;– Porque não as plantam cinco anos antes, então? (1943)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-Mx651lgYKvY/TrflBXJSTiI/AAAAAAAABd0/PIWHHqxDNyw/s1600/Storm+P.+Trav.+6.jpg" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" height="640" src="http://3.bp.blogspot.com/-Mx651lgYKvY/TrflBXJSTiI/AAAAAAAABd0/PIWHHqxDNyw/s640/Storm+P.+Trav.+6.jpg" width="422" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif;"&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;– Como agora se conseguiu fabricar uma bomba que destrói tudo,&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;torna-se, pois, necessário fabricar outra bomba que consiga destruir a primeira.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;&lt;/div&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;&lt;table cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-3xz0p05naqo/TrfdOxQAeHI/AAAAAAAABds/khNV4HVtpiU/s1600/Storm+P.+Trav.+7.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; margin-bottom: 1em; margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" height="640" src="http://1.bp.blogspot.com/-3xz0p05naqo/TrfdOxQAeHI/AAAAAAAABds/khNV4HVtpiU/s640/Storm+P.+Trav.+7.jpg" width="449" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr align="center" style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif;"&gt;&lt;td class="tr-caption"&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-size: small;"&gt;– E temos finalmente paz.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-size: small;"&gt;–&amp;nbsp; Sim – só falta agora é cerveja (1945).&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: left;"&gt;&lt;table cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-Wrymwscgz5Y/TrfXpwjpWuI/AAAAAAAABc8/vGiCndvnVBQ/s1600/Storm+P.+Trav.+8.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; margin-bottom: 1em; margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" height="640" src="http://1.bp.blogspot.com/-Wrymwscgz5Y/TrfXpwjpWuI/AAAAAAAABc8/vGiCndvnVBQ/s640/Storm+P.+Trav.+8.jpg" width="464" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;div style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif; text-align: center;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-size: small;"&gt;– Não é fácil, porque, quando se arranja num lado, estraga-se noutro. (1948)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-size: small;"&gt;_______________&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-size: small;"&gt;* No meu  tempo, 10 coroas eram 5 escudos, mas isso são  outras quinhentas...  Outras coroas, seja. E que presunção, no meu  tempo, como se eu alguma  vez tivesse tido um tempo meu...&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2874386790023925718-3271889148681406099?l=llindegaard.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://llindegaard.blogspot.com/feeds/3271889148681406099/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2874386790023925718&amp;postID=3271889148681406099' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/3271889148681406099'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/3271889148681406099'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://llindegaard.blogspot.com/2011/11/livros-em-segunda-mao-2-storm-p-1940.html' title='Livros em segunda mão #2: Storm P. 1940-1948 [Crónicas de Svendborg # 6]'/><author><name>V. M. Lucas Lindegaard</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06993438398319242184</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/__m_JLgYBQmc/SUEyD_uVH3I/AAAAAAAAAwY/luHWZ4Q7ilk/S220/V%C3%ADtor.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/-IKdOIgZ-xHw/TrfS_ExrJDI/AAAAAAAABb0/-CqU1OCujk0/s72-c/Storm+P.+1+Trav..jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2874386790023925718.post-8373314818875330551</id><published>2011-11-07T14:13:00.007+02:00</published><updated>2011-11-07T21:33:26.867+02:00</updated><title type='text'>Livros em segunda mão #1: Os dois lados de tudo</title><content type='html'>&lt;span lang="PT"&gt;I – Comprei em Maputo, a um rapaz que estava a vender livros na rua, a obra &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;Expansão da Língua Portuguesa no Oriente nos Séculos XVI, XVII e XVIII&lt;/i&gt; (Lisboa: Portucalense Editora, 1969 (1ª ed. 1935)), de David de Melo Lopes. É um livro com informação interessante sobre muitas palavras, de que talvez fale aqui noutra ocasião; e é também um livro que se inscreve no quadro ideológico do louvor da “expansão portuguesa”. O autor, aliás, deixa claro isso bem claro logo de início:&amp;nbsp;&lt;/span&gt;  &lt;br /&gt;&lt;blockquote class="tr_bq"&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Descoberto o caminho marítimo da Índia, abriu-se à expansão portuguesa um campo ilimitado de atividade em todo o Oriente: sem falar da costa oriental de África (…), desde os portos da Abissínia e da Arábia até os da China e do Japão (…), as caravelas e naus de Portugal, ou vitoriosas na guerra ou abarrotadas de especiarias, dominaram, certamente, os mares de todo o século XVI. Os escritores estrangeiros que trataram dessa história fazem justiça ao esforço maravilhoso dos Portugueses e não lhes regateiam a sua admiração. «A audácia impetuosa da heroica pequena nação, diz um grande escritor inglês nosso contemporâneo, é pura epopeia, comparado com o qual o nosso primeiro esforço na Índia é prosa chã [Hunter, &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;A History of British India&lt;/i&gt;, 1, página 3]». «O Oriente, cheio de mistérios e de riquezas, o Oriente donde vinham as sedas, as pérolas, os perfumes, as especiarias, a Índia e a China, principalmente, exerceram sobre as imaginações vivas e curiosas dos nossos antepassados uma verdadeira fascinação. Encontrar um caminho mais curto ou mais seguro para chegar a essas regiões privilegiadas, fazer concorrência aos Venezianos… era então o alvo dum grande número de espíritos ousados e aventureiros. Daí as tentativas insistentes que os marinheiros portugueses prosseguiram durante quase um século, para eterna honra sua, com uma heroica perseverança. (…) Disse-se com verdade que nenhuma nação fez tão grandes coisas como Portugal, em comparação com a sua superfície e população [Leroy-Beaulieu, De la colonisation chez les peuples modernes, I, páginas 2 e 41]».&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Não há nisto nada de muito original: há muito quem tenha tido este tipo de discurso e, por muito que tivéssemos, muitos de nós, chegado a acreditar que ele não sobreviveria a um regime que já passou, ou pelo menos a uma época de nacional-ensimesmamento que, em princípio, também já acabou, há também muito quem continue a tê-lo. Mas eis que, como para deixar claro que há outros mistérios tão misteriosos como os do Oriente, David Lopes continua assim:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;blockquote class="tr_bq"&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Todavia, em França ainda há quem escreva a história assim: «Depois da tomada de Malaca pelo grande Albuquerque, os Portugueses… espalharam-se pelos países da Indochina. Não se pode dizer que os seus atores foram nobres, nem que a sua influência foi feliz: eles comportaram-se em quase toda a parte como verdadeiros piratas… [Lavisse e Rambaud, Histoire Générale, V, pág, 924]».&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Porque será que David Lopes, a encerrar a secção dos elogios dos historiadores estrangeiros à épica coragem dos portugueses, referiu uma opinião tão contrária à sua, quando não tinha, aparentemente, nenhuma boa razão para o fazer? Nem sequer, pelos vistos, a ideia de a combater, pois que limita a sua crítica a Lavisse e Rambaud a uma vaga nota de rodapé: “O autor vê o argueiro luso e não vê o cavaleiro cristianíssimo”. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;É claro, podia argumentar-se com a mesma ligeireza em sentido contrário: Todos os que insistem no louvor enviesado da épica expansão lusitana veem os detalhes que querem ver, mas não veem o óbvio quadro geral.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;II – Como as coisas são: eu que, aspirante a místico, passei anos da minha vida a querer descobrir uma unidade essencial por baixo da corriqueira ilusão do dualismo, digo agora que, tirando as &lt;b&gt;&lt;a href="http://en.wikipedia.org/wiki/M%C3%B6bius_strip"&gt;fitas de Möbius&lt;/a&gt;&lt;/b&gt;, as coisas do mundo têm sempre dois lados e que ilusão, ilusão a sério, é querer ver só um deles. Quando o imperador do Japão expulsou os portugueses em 1587, fê-lo por os considerar propagadores de uma imoralidade fundamental: na boca deles, Deus deixava de ser Tudo para passar a ser apenas o lado bom das coisas, Deus era reduzido a metade&lt;span style="color: #660000; font-size: x-small;"&gt;&lt;b&gt;[1]&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;. Pois, bem, do mesmo crime contra a sua nação-divindade se pode acusar quem, na tentativa de louvar a expansão lusa, vê só bem nos feitos dos portugueses, fechando os olhos ao mal. Não acho disparate ver-se na expansão portuguesa – ou noutra expansão qualquer – uma epopeia. O que acho disparatado é querer retirar-se a essa epopeia piratarias, crimes hediondos e, no geral, todos os atos menos louváveis. Então as epopeias não são – por natureza, diria eu – relatos de todo o rol de heroicas imoralidades? Não é isso mesmo a Odisseia e a Eneida, em que a valorização positiva dos heróis &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;a priori&lt;/i&gt; é que define o valor das suas ações e não uma qualquer perspetiva moral? Quem quiser louvar a pura epopeia e a heroica perseverança dos navegadores portugueses não deite fora, por favor, bocados importantes desses feitos épicos só porque eles são moralmente criticáveis&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt; (&lt;a href="http://llindegaard.blogspot.com/2010/10/o-ataque-miri-uma-historia-de-outro.html"&gt;às vezes até muito&lt;/a&gt;)&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;III – Um problema das identidades é serem &lt;a href="http://blog.criticanarede.com/2010/03/patria-e-infantilidade.html"&gt;alógicas&lt;/a&gt; e amorais, como tudo o que é apenas gosto, sentimento fundo. Para se ultrapassar isto, é preciso disciplina. Podemos habituar-nos a ver com olhos outros que não os nossos, um grande exercício de realismo; e podemos forçar-nos para ver daquilo que gostamos também os aspetos negativos. Insisto que as coisas do mundo têm sempre dois lados – e que não há bela sem senão, como se costuma dizer. Estou a falar não só de nacionalismos, nacionalismos e bairrismos, mas também de todas as outras paixões, definam elas ou não uma identidade.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Encontrei há dias um blogue duplo&lt;span style="color: #660000; font-size: x-small;"&gt;&lt;b&gt;[2]&lt;/b&gt;&lt;/span&gt; interessante: de um lado, &lt;a href="http://cidadesurpreendente.blogspot.com/"&gt;as coisas bonitas do Porto&lt;/a&gt;; do outro, &lt;a href="http://outra-face.blogspot.com/"&gt;as feias&lt;/a&gt;. Agora, é por apresentar o lado feio do Porto que o seu autor é menos portista? Claro que não. Até, porque, se as coisas bonitas do Porto servem para justificar o amor (não para o causar, note-se, que ele é, em boa regra, anterior a elas e delas independente; apenas para o justificar), as coisas feias podem servir para dar a esse amor uma ética, um sentido de futuro: “Isto está mal, não é assim que o Porto &lt;b&gt;deve&lt;/b&gt; ser”. E eu não consigo ver, nem nunca ninguém me apresentou, nenhuma razão para que o amor se limite à aceitação de que o que se ama é como é, como está agora na moda propor, sem passar pelo desejo de melhorar o que se reconhece como negativo naquilo que se ama.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Que já estou longe de onde comecei? De certa maneira, sim… Conversa de blogue é como cesta de cerejas…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;table cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-ZM_g9DH2k5w/TrfPM6MIb2I/AAAAAAAABbs/r2zLrEx-a1M/s1600/Frederick%2Bvan%2BValckenborch_Landschap%2Bmet%2Bde%2Bschipbreuk%2Bvan%2BAeneas.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; margin-bottom: 1em; margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" height="454" src="http://1.bp.blogspot.com/-ZM_g9DH2k5w/TrfPM6MIb2I/AAAAAAAABbs/r2zLrEx-a1M/s640/Frederick%2Bvan%2BValckenborch_Landschap%2Bmet%2Bde%2Bschipbreuk%2Bvan%2BAeneas.jpg" width="640" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif;"&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Frederik van Valckenborch, Paisagem com naufrágio,1603, óleo sobre tela, 100 × 199,5 cm, Museu Boijmans Van Beuningen, Roterdão (Wikimedia Commons)&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;&lt;span lang="PT"&gt;_______________ &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;span style="color: #660000; font-size: x-small;"&gt;&lt;b&gt;&amp;nbsp;[1]&lt;/b&gt;&lt;/span&gt; &lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Excerto de carta do imperador Toyotomi Hideyoshi ao vice‑rei português das Índias de 1591: «A nossa terra é a terra de Deus, e Deus é espírito. Tudo na natureza existe pelo espírito. Sem Deus, não há espiritualidade. Sem Deus, não há caminho. Deus reina em tempos de prosperidade como em tempos de declínio. Deus é positivo e negativo e incompreensível. Por isso, Deus é a origem de toda a existência&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=2874386790023925718#_ftn1" name="_ftnref1" style="mso-footnote-id: ftn1;" title=""&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;span lang="PT" style="color: black; font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; font-size: 11pt;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;.» Traduzi eu de &lt;i&gt;Sources of Japanese Tradition,&lt;/i&gt; vol. I. New York: Columbia University Press, 1958. O texto inglês diz “Ours is the land of the Gods”, mas eu, como as frases seguintes do texto inglês têm God no singular, traduzo também no singular esta ocorrência da palavra no plural.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;span style="color: #660000; font-size: x-small;"&gt;&lt;b&gt;[2]&lt;/b&gt;&lt;/span&gt; Em inglês, surge-me logo a palavra doublog, mas em português é mais difícil – nem dublogue nem duplogue resultam bem…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2874386790023925718-8373314818875330551?l=llindegaard.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://llindegaard.blogspot.com/feeds/8373314818875330551/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2874386790023925718&amp;postID=8373314818875330551' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/8373314818875330551'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/8373314818875330551'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://llindegaard.blogspot.com/2011/11/livros-em-segunda-mao-1-os-dois-lados.html' title='Livros em segunda mão #1: Os dois lados de tudo'/><author><name>V. M. Lucas Lindegaard</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06993438398319242184</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/__m_JLgYBQmc/SUEyD_uVH3I/AAAAAAAAAwY/luHWZ4Q7ilk/S220/V%C3%ADtor.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-ZM_g9DH2k5w/TrfPM6MIb2I/AAAAAAAABbs/r2zLrEx-a1M/s72-c/Frederick%2Bvan%2BValckenborch_Landschap%2Bmet%2Bde%2Bschipbreuk%2Bvan%2BAeneas.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2874386790023925718.post-8602032452024677168</id><published>2011-10-22T20:36:00.003+02:00</published><updated>2011-10-22T20:40:10.181+02:00</updated><title type='text'>Dory Previn: A vida em canções?</title><content type='html'>[Recuperado e adaptado de um blogue apagado e publicado aqui no dia em que Dory Previn faz 86 anos… ou 82? Sejam lá quantos forem, muitos parabéns!]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Dory_Previn"&gt;Dory Previn&lt;/a&gt;&lt;/b&gt; (Langdon antes de se ter casado com &lt;a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Andr%C3%A9_Previn"&gt;André Previn&lt;/a&gt;) é uma pessoa com uma vida no mínimo curiosa e tem sido afirmado muitas vezes que uma das suas características mais marcantes é expor-se completamente nas suas canções. Não só os factos da sua vida, mas também recantos mais obscuros da sua psique, tudo ela revela sem rodeios nas canções. Catarse, disse alguém. É verdade que, conhecendo um pouco da vida de Dory Previn, não podemos deixar de constatar que é a autora de carne e osso a protagonista de muitas das suas canções e de nos surpreender com a revelação de intimidades que não é muito comum tornar públicas em canções. Estou a falar, por exemplo, da relação doentia com um pai mentalmente perturbado (“amor de pai e demónios emaranhados na mente”) que descreve em várias canções &lt;span style="color: #660000;"&gt;[&lt;/span&gt;&lt;i style="color: #660000;"&gt;Com o meu pai no sótão / É aí que está a minha negra atração / Com a loucura em cima da mesinha de cabeceira / Ao lado da arma carregada / Na aterrorizadora proximidade do seu olhar&lt;/i&gt;&lt;span style="color: #660000;"&gt; (“With My Daddy in the Attic”)]&lt;/span&gt;; da sua crise conjugal quando o marido se apaixonou por Mia Farrow, com quem veio a casar &lt;span style="color: #660000;"&gt;[&lt;/span&gt;&lt;i style="color: #660000;"&gt;Cuidado com raparigas novas / Que te aparecem à porta / Melancólicas e pálidas / Com vinte e quatro anos / E te oferecem margaridas / Com mãos delicadas // Cuidado com essas meninas / Muitas vezes anseiam / Chorar num casamento / E dançar num enterro&lt;/i&gt;&lt;span style="color: #660000;"&gt; (“Beware of Young Girls”)]&lt;/span&gt;; dos problemas que a levaram a dois internamentos em hospitais psiquiátricos &lt;span style="color: #660000;"&gt;[&lt;/span&gt;&lt;i style="color: #660000;"&gt;Os meus botões azuis / Estão a ficar soltos / Soltos / Frouxos / Lucy Brown / A Lucy no céu / Luce / Luzente / Lúcida / Lucidez / Lúcifer / Luz / Enforquem a Luce / Mantém-te calma / Eu / Como é que eu fiquei assim / Eu ia / O que é que eu ia dizer? / Eu ia a / Como vim aqui parar? / Eu ia a caminho / Não estive aqui no ano passado? / Eu ia a caminho de / Porque me fecharam aqui? / Eu ia a caminho de onde?&lt;/i&gt;&lt;span style="color: #660000;"&gt; (“Mr. Whisper”)]&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;iframe allowfullscreen="" frameborder="0" height="315" src="http://www.youtube.com/embed/26omIh_6lLw" width="420"&gt;&lt;/iframe&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este confessionalismo pode ser encarado tanto positivamente (prova de grande coragem) como negativamente (despudor, uma obsessão doentia consigo própria), mas, independentemente desses julgamentos, podemos perguntar-nos simplesmente se tem algum interesse como processo de criação artística. O que eu acho é que não é por ser autobiográfica como tal que uma obra de arte tem interesse, a não ser, precisamente, para quem se interesse pela vida do seu autor; mas que, se essa exposição de si próprio for um meio, como é no caso das canções de Dory Previn, de criar uma grande intensidade emocional, é bem vinda – e a obra de arte interessará também a quem não se interesse pela vida do autor.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2874386790023925718-8602032452024677168?l=llindegaard.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://llindegaard.blogspot.com/feeds/8602032452024677168/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2874386790023925718&amp;postID=8602032452024677168' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/8602032452024677168'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/8602032452024677168'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://llindegaard.blogspot.com/2011/10/dory-previn-vida-em-cancoes-recuperado.html' title='Dory Previn: A vida em canções?'/><author><name>V. M. Lucas Lindegaard</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06993438398319242184</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/__m_JLgYBQmc/SUEyD_uVH3I/AAAAAAAAAwY/luHWZ4Q7ilk/S220/V%C3%ADtor.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://img.youtube.com/vi/26omIh_6lLw/default.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2874386790023925718.post-6302560412633799656</id><published>2011-10-04T23:02:00.004+02:00</published><updated>2011-10-04T23:18:52.495+02:00</updated><title type='text'>Citius, altius, fortius</title><content type='html'>&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Correr é fixe. Tinha um amigo que dizia sempre que uma corrida é a melhor maneira de começar um dia e acho que tem razão. Bom, a questão da saúde é o único senão: às vezes, correr não é muito indicado para certas pessoas, e, no meu caso, por exemplo, não tenho ideia se me faz bem ou mal. Mas faz sentir‑me bem, o que já não está mal. E não é só a mim. Há até quem diga que &lt;a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Endorphin#Runner.27s_high"&gt;correr é como uma droga&lt;/a&gt;, mas eu, pelo menos, nunca me viciei em corrida. &lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Gosto só de correr.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; font-size: 12.0pt; mso-ansi-language: PT; mso-bidi-language: AR-SA; mso-fareast-font-family: SimSun; mso-fareast-language: ZH-CN;"&gt;Gosto de correr, mas nunca podia ter sido corredor.&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;span lang="PT"&gt; É verdade que comecei a correr já velho, com mais de quarenta anos, mas, mesmo assim… Corro seis quilómetros a cerca de metade da velocidade a que os maratonistas correm os &lt;span style="color: black;"&gt;42 km e 195 m da maratona… Acho que, para ser corredor a sério, uma pessoa tem de nascer já corredor. E conto-vos duas histórias,&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;span style="color: black;"&gt; famosas e divertidas,&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;span style="color: black;"&gt; a apoiar a minha teoria: &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT" style="color: black;"&gt;Nos Jogos olímpicos de Londres, em 1948, &lt;a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Emil_Z%C3%A1topek"&gt;Emil Zátopek&lt;/a&gt; tinha ganho a medalha de ouro dos 5 mil metros e a de prata dos 10 mil metros. Quatro anos depois, nas Olimpíadas de Helsínquia, fez ainda melhor. Depois de já ter ganho os 5 mil e os 10 mil, Zátopek decidiu inscrever‑se na maratona, uma prova que nunca tinha corrido. Precisamente por não conhecer a prova, achou por bem manter‑se junto do favorito, o inglês Jim Peters. Peters começou a prova a boa velocidade. Depois de seguir ao lado de Peters durante os primeiros quinze quilómetros, Zatopek perguntou‑lhe, em inglês: &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT" style="color: black;"&gt;«O ritmo, Jim, o ritmo está bom assim?»&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT" style="color: black;"&gt;«Está muito lento, Emil!&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT" style="color: black;"&gt;»&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT" style="color: black;"&gt;, respondeu Peters, e deu um esticão. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT" style="color: black;"&gt;Zatopek não só o acompanhou como acabou por deixá‑lo para trás, acabando a corrida com menos dois minutos e meio que Peters e um novo record mundial! &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Outra história boa, melhor ainda que a de Zátopec, e que prova mesmo que existe o dom inato para correr é a do cubano &lt;i&gt;Andarín&lt;/i&gt; Carvajal nos Jogos Olímpicos de St. Louis em 1904: &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;a href="http://es.wikipedia.org/wiki/F%C3%A9lix_Carvajal"&gt;Félix Carvajal&lt;/a&gt; era carteiro de Havana e tinha a paixão do atletismo. Sobretudo, da maratona. Treinava sozinho, pelas ruas de Havana e estava decidido a participar na próxima maratona olímpica, fosse lá como fosse. Quando chegou a altura das Olimpíadas, juntou as economias que tinha e lá foi ele. O dinheiro não chegou para a viagem toda e teve de fazer cerca de 1000 km a pé. Mas chegou a tempo. Um bocado antes de começar a maratona (que, como se sabe, é a última prova dos Jogos), Carvajal apresentou‑se ao juiz da prova e disse que queria participar. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;«Mas você está inscrito?» &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Que não, não estava, mas que se inscrevia agora, não havia problema. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;«Ó senhor, eu vim de tão longe, gastei o meu dinheiro todo, fartei-me de andar a pé para aqui chegar, não me faça agora esta desfeita de não me deixar correr!» &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;E o juiz teve mesmo pena dele: pronto, estava bem, que corresse. Mas ia correr assim, como estava vestido?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;«Não tenho outra roupa, ó senhor...» &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;O juiz mandou trazerem‑lhe uma tesoura e cortou ele mesmo as calças de Carvajal, para ele ir, ao menos, de calções. E assim foi, de calças cortadas à tesoura, de camisa e... de botas! &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Durante os vinte primeiros quilómetros da prova, Carvajal manteve‑se em primeiro lugar, apesar de ter saído algumas vezes da estrada para apanhar maçãs – não tinha equipa de assistência e estava cheiínho de sede. A partir do vigésimo quilómetro, começaram os problemas: o Carvajal voltou a ter de sair várias vezes da estrada, só que, em vez de apanhar maçãs, ia agora desfazer‑se delas – as maçãs verdes tinham‑lhe dado a volta ao estômago e o pobre Carvajal, por causa das interrupções a que a diarreia o forçou, não conseguiu mais que um quarto lugar.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span lang="PT" style="color: black;"&gt;***&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT" style="color: black;"&gt;Para além de condições físicas que não sei quais são mas que imagino que sejam necessárias a um bom corredor (aliás, devem ser diferentes conforme o tipo de provas que corre), tenho a certeza que é também fundamental uma enorme capacidade de abnegação e resistência, e, sobretudo, uma enorme capacidade de concentração. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT" style="color: black;"&gt;Digo isto porque sempre gostei muito de atletismo e vi muitas vezes na televisão, com muita atenção, campeonatos europeus, campeonatos mundiais, jogos olímpicos e outras provas avulsas, e sempre vi os bons corredores passarem as corridas todas extremamente concentrados no que se estava a passar à volta deles – jogadas estratégicas, sinais de cansaço, oportunidades casuais, tudo. O que eu digo de mim é que, mesmo que tivesse um físico são e adequado, e tivesse começado a treinar desde miúdo, essa capacidade de concentração nunca a havia de ter e nunca poderia, por isso, ser bom corredor. Quando corro, faço antes ao contrário: para a corrida me correr bem (sic!), não posso pensar que estou a correr, porque senão sinto-me cansado demais (pelo menos até começar a tal pedrada de endorfina) e só quero parar. E então perco-me em devaneios, que normalmente passo para o papel quando chego a casa. Alguns deram contos, outros pequenos textos de reflexão. Um desses devaneios, de que vos dou conta agora a seguir é sobre o fascínio especial (eu diria mesmo o aspeto místico, se não fosse o medo de levar roda de comentador desportivo...) que o atletismo tem: &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;O que é normal nos bichos é ver se arranjam comida e água, amor, calor ou fresco e pouco mais, e, direta ou indiretamente, mexerem‑se apenas para satisfazer essas necessidades baixamente vitais... O desporto, na sua essência, é como, por exemplo, o jejum e a castidade: é uma afirmação da diferença da nossa espécie, uma assunção extrema da nossa humanidade, uma tentativa de a purificar da animalidade que ela tem lá dentro, e é provavelmente por isso que o desporto é fascinante, como o são o jejum e a castidade... &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Agora, se todo o desporto é fascinante, o atletismo é o que a mim mais me fascina. Porquê? &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Bom, não é por ser um desporto muito democrático, embora essa seja também uma das suas virtudes: a corrida e o salto são dos desportos mais igualitários que existem, provavelmente porque requerem pouco ou nenhum equipamento para uma pessoa começar a dar provas do seu valor&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;&lt;b style="color: #660000;"&gt;[1]&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;.&lt;/span&gt; E também não é por ser um desporto básico, simples, primordial – essencial, diria eu –, embora essa seja outra das suas virtudes. Acho que é fundamentalmente por ser um desporto em que se batem recordes&lt;b&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;&lt;span style="color: #660000;"&gt;[2]&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;. Eu explico: &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Todos os desportos têm uma componente de luta contra os limites que o corpo de cada atleta lhe impõe: é necessário aguentar, não se ir abaixo, fazer melhor, superar‑se. E quase todos os desportos (já que os desportos solitários, não competitivos, são raros) têm também uma componente de luta contra um adversário: é preciso ganhar. O que é interessante nos desportos em que se batem recordes, que são poucos, é uma terceira componente de luta contra a humanidade inteira: há que ser a/o mais rápida/o, mais forte, mais ligeira/o – de todas/os, desde sempre... É isto que o atletismo tem mais do que os outros desportos.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span lang="PT"&gt;***&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Agora, quem é que não deu consigo já a pensar, fascinado, na questão dos limites das capacidades físicas humanas? Toda a gente. Quem não se perguntou já onde chegarão os limites do corpo desapetrechado ou que sofisticação técnica nas medições ou outros estratagemas se hão de ainda inventar para que se possa correr, saltar, ser &lt;i&gt;citius&lt;/i&gt;, &lt;i&gt;altius&lt;/i&gt;, &lt;i&gt;fortius&lt;/i&gt;? Se há algum possível significado para a expressão “fim da História”, só pode ser o tempo em que já não se batam recordes de velocidade, arremesso e salto…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;_______________&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;span style="color: #660000; font-size: xx-small;"&gt;&lt;b&gt;[1]&lt;/b&gt;&lt;/span&gt; Se é verdade que Zátopek era coronel do exército, já &lt;a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Haile_Gebrselassie"&gt;Haile Gebrselassie&lt;/a&gt; é um camponês que se tornou o que é à força de correr 20 km todos os dias para ir à escola... Já agora: talvez não saibam que, por ter apoiado a chamada Primavera de Praga do Dubček, Zatopek foi expulso do Partido e despromovido…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;b style="color: #660000;"&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;[2]&lt;/span&gt;&lt;/b&gt; A natação também, porque é, na essência, um forma de atletismo – na água.&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2874386790023925718-6302560412633799656?l=llindegaard.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://llindegaard.blogspot.com/feeds/6302560412633799656/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2874386790023925718&amp;postID=6302560412633799656' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/6302560412633799656'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/6302560412633799656'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://llindegaard.blogspot.com/2011/10/citius-altius-fortius.html' title='Citius, altius, fortius'/><author><name>V. M. Lucas Lindegaard</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06993438398319242184</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/__m_JLgYBQmc/SUEyD_uVH3I/AAAAAAAAAwY/luHWZ4Q7ilk/S220/V%C3%ADtor.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2874386790023925718.post-1462819378812466247</id><published>2011-09-28T21:21:00.004+02:00</published><updated>2011-09-28T21:30:13.755+02:00</updated><title type='text'>Bom e interessante</title><content type='html'>&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Karim, a personagem principal de &lt;a href="http://www.amazon.co.uk/Buddha-Suburbia-Hanif-Kureishi/dp/0571245870/ref=sr_1_1?s=books&amp;amp;ie=UTF8&amp;amp;qid=1314775271&amp;amp;sr=1-1"&gt;&lt;i&gt;The Buddha of Suburbia&lt;/i&gt;&lt;/a&gt;, de &lt;a href="http://english.emory.edu/Bahri/Kureishi.html"&gt;Hanif Kureishi&lt;/a&gt;, tem de escolher entre o pai e a mãe que se separam. E acaba por escolher o pai, porque o ambiente de atores, músicos, festas e sexo em que este vive com a sua namorada Eva é muito mais interessante do que o insípido universo doméstico da sua mãe. Traduzo eu:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;blockquote style="color: #660000;"&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Pensei na diferença entre as pessoas interessantes e as pessoas boas. E como não podem ser sempre as mesmas. As pessoas interessantes, queríamos estar com elas – tinham espíritos fora do vulgar; com elas, víamos coisas de uma forma nova e não era tudo morte e repetição. (…) E depois havia as pessoas boas, que eram desinteressantes e não queríamos saber o que elas pensavam fosse lá do que fosse. Eram como a minha mãe, boas e simples e mereciam mais amor. Mas eram as pessoas interessantes, como Eva com a sua personalidade bem definida, atraente, que acabavam por ficar com tudo (…).&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Já antes, Karim, tinha confessado: “&lt;span style="color: #660000;"&gt;Comecei a considerar o charme, e não a cortesia nem a honestidade, e nem sequer a decência, o dom social de base. E até comecei a gostar de pessoas frias ou más, desde que fossem interessantes&lt;/span&gt;.”&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Estas linhas ficaram-me sempre na cabeça; e surpreende-me, quando penso agora nisso, não me lembrar de outras reflexões sobre a questão, que é das mais fundamentais na vida de qualquer pessoa e sobre a qual, por isso mesmo, já todos refletimos muito, não é verdade? &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Que, para seduzir os outros seres da espécie, exibamos &lt;a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Handicap_principle"&gt;sinais que nos saem caros, comodiz Amotz Zahavi&lt;/a&gt;, isto é, que façamos coisas difíceis e por isso interessantes, eis a causa de muitas coisas bonitas – e de muitos problemas. Como seria tudo mais simples se a nossa estratégia primeira para seduzir os outros fosse sermos bons para eles…&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;table cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="float: left; margin-right: 1em; text-align: left;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/-Rivku6XPXDM/ToNzpkJVsuI/AAAAAAAABbU/YRoEKtsoGj8/s1600/Pav%25C3%25A3o.JPG" imageanchor="1" style="clear: left; margin-bottom: 1em; margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" height="480" src="http://4.bp.blogspot.com/-Rivku6XPXDM/ToNzpkJVsuI/AAAAAAAABbU/YRoEKtsoGj8/s640/Pav%25C3%25A3o.JPG" width="640" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;[Foto de Jebulon. Wikimedia Commons]&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2874386790023925718-1462819378812466247?l=llindegaard.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://llindegaard.blogspot.com/feeds/1462819378812466247/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2874386790023925718&amp;postID=1462819378812466247' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/1462819378812466247'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/1462819378812466247'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://llindegaard.blogspot.com/2011/09/bom-e-interessante.html' title='Bom e interessante'/><author><name>V. M. Lucas Lindegaard</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06993438398319242184</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/__m_JLgYBQmc/SUEyD_uVH3I/AAAAAAAAAwY/luHWZ4Q7ilk/S220/V%C3%ADtor.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/-Rivku6XPXDM/ToNzpkJVsuI/AAAAAAAABbU/YRoEKtsoGj8/s72-c/Pav%25C3%25A3o.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2874386790023925718.post-684266496568495945</id><published>2011-09-28T00:42:00.009+02:00</published><updated>2011-09-28T01:01:11.581+02:00</updated><title type='text'>Chaudrées, chowders, caldeiradas</title><content type='html'>&lt;span lang="PT"&gt;Em português moderno e corrente&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;b style="color: #660000;"&gt;[1]&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;, a palavra &lt;b&gt;caldeirada &lt;/b&gt;tem, como se sabe, dois sentidos distintos: 1. guisado com batatas, cebola, tomate e pimento e 2. &lt;/span&gt;&lt;span class="descricao"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Embrulhada, salsada,&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt; confusão, balbúrdia&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;b style="color: #660000;"&gt;[2]&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;. &lt;/span&gt;  &lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Parece provável que o sentido 2. do termo derive do sentido 1, mas esta deriva metafórica tem de ter origem na associação de caldeirada a miscelânea, passando-se daí ao sentido de confusão, porque se há ideia que não pode derivar de uma caldeirada é a de rebuliço – uma caldeirada não se mexe, numa caldeirada não se mexe.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Bom, é verdade que caldeiradas há muitas (muitas!), tantas que parece, à primeira vista, impossível encontrar traço comum a todas elas, que defina, portanto, a essência da caldeirada. Talvez se possa, porém, ir por esta ideia de que uma caldeirada não se mexe. É uma maneira de alargar o conceito de caldeirada de modo a incluir as &lt;i&gt;chowders &lt;/i&gt;dos Estados Unidos e do Canadá, que também não se mexem, como bem explica a primeira receita impressa de &lt;i&gt;chowder &lt;/i&gt;que se conhece&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span lang="PT" style="color: #660000;"&gt;[3]&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;blockquote&gt;De cebola, uma camada, p’ra o toucinho não queimar,&lt;br /&gt;Que depois, na caldeirada, já não se pode tocar; &lt;/blockquote&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;E pronto, traduzi &lt;b&gt;chowder &lt;/b&gt;por &lt;b&gt;caldeirada&lt;/b&gt;. Porque ficava feia uma palavra inglesa ali e porque me deu jeito para rimar; e sobretudo porque, bem vistas as coisas, as &lt;i&gt;chowders &lt;/i&gt;da América do Norte são mesmo caldeiradas de pleno direito. Até no nome: segundo o site &lt;a href="http://www.etymonline.com/index.php?allowed_in_frame=0&amp;amp;search=chowder&amp;amp;searchmode=none"&gt;Etymology online&lt;/a&gt;, que parece de confiança, a &lt;i&gt;chowder &lt;/i&gt;(palavra atestada pela primeira vez em 1751, talvez na receita que acabo de referir e grafada ainda &lt;i&gt;chouder&lt;/i&gt; nessa altura), foi &lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;“&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;aparentemente nomeada pela panela em que se cozinhava: do francês &lt;i&gt;chaudière&lt;/i&gt;, &lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;"caldeira&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;", do latim tardio &lt;b&gt;caldaria&lt;/b&gt; (de onde vem, claro está, a palavra &lt;b&gt;caldeira&lt;/b&gt;)&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;”&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;. Segundo este mesmo site, “A palavra e a prática teriam sido introduzidas na Terra Nova por pescadores bretões, tendo daí chegado à Nova Inglaterra.”.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Quando quiserem variar da caldeirada portuguesa, experimentem uma &lt;i&gt;chowder&lt;/i&gt;. Já fiz e gostei. Podem experimentar, por exemplo, esta receita de Lydia Maria Child, no livro &lt;i&gt;The American Frugal Housewife&lt;/i&gt;, de 1829&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;b style="color: #660000;"&gt;[4]&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Quatro libras de peixe são suficientes para fazer uma &lt;i&gt;chowder &lt;/i&gt;para quatro ou cinco pessoas; meia dúzia de fatias de carne de porco salgada no fundo do tacho; pendure o tacho alto, para a carne de porco não queimar; tire-o quando estiver muito tostado; ponha uma camada de peixe, cortado em tiras no sentido do comprimento, e depois uma camada de bolachas de água e sal, cebolinhas pequenas ou cortadas às rodelas, e batatas cortadas em rodelas com a espessura de uma moeda de quatro &lt;i&gt;pence&lt;/i&gt;, misturadas com os bocados de carne de porco que fritou; em seguida, mais uma camada de peixe e assim sucessivamente. Seis bolachas são suficientes. Deite um pouco de sal e pimenta por cima de cada camada; por cima de tudo, deite uma tigela de farinha, e água, até ficar ao nível&amp;nbsp; dos ingredientes que tem no tacho. Um limão às rodelas dá mais sabor. Uma chávena de &lt;i&gt;catsup&lt;/i&gt; de tomate é também excelente. Há quem ponha cerveja. Umas quantas amêijoas são também um agradável suplemento. Deve-se tapar de modo a não deixar sair nem uma partícula de vapor. Não destape, a não ser quando estiver quase pronto, para provar se está bom de temperos.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;É uma receita difícil, eu sei, de tão vaga que é: Que carne de porco é esta? E estas bolachas? Bom, o porco salgado não sei que seria; as bolachas são as antigas bolachas muito duras que eram a base de alimentação da gente de mar e que creio que já não se encontram em lado nenhum; como também é agora praticamente impossível encontrar este &lt;i&gt;ketchup&lt;/i&gt; à moda antiga… Simplifiquemos, então: uma camada de bacon, depois cebolas e batatas e peixe, como as nossas caldeiradas, com tomate e outros legumes, conforme se queira ou não ou não. E no fim juntar, dois minutinhos antes de tirar do lume, um bocadinho de nata? &lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Há de também ficar bem&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt; não vos parece&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;b style="color: #660000;"&gt;[5]&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;__________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;span style="color: #660000; font-size: x-small;"&gt;&lt;b&gt;[1]&lt;/b&gt;&lt;/span&gt; Digo “em português moderno e corrente”, porque os dicionários registam outras aceções de caldeirada em que a palavra raramente ou nunca é usada: “&lt;/span&gt;&lt;span class="descricao"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;conteúdo de uma caldeira&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;”; “pancada de água&lt;/span&gt;&lt;span class="descricao"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;, bátega, chuvarada.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;”, “&lt;/span&gt;&lt;span class="descricao"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;grande porção de líquido que se despeja&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;”...&lt;/span&gt;&lt;span class="doltraduztrad"&gt;&lt;span lang="PT"&gt; E é, evidentemente, do significado “conteúdo de uma caldeira” que derivam os outros. Em castelhano, a palavra &lt;b&gt;calderada&lt;/b&gt; tem também este significado, tendo derivado dele um outro, o de “cantidad exagerada de algo, especialmente de comida”, que a palavra não tem em português.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="doltraduztrad"&gt;&lt;span lang="PT"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;b style="color: #660000;"&gt;[2]&lt;/b&gt;&lt;/span&gt; Jogando com os dois sentidos da palavra, mas sem nunca usar a palavra caldeirada no seu segundo sentido, alguém (não consigo saber quem...) fez este fabuloso fado que Raul Solnado cantou:&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Fado Maravilhas&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;blockquote&gt;Fui no domingo a Cacilhas  &lt;br /&gt;Mais o Chico Maravilhas  &lt;br /&gt;Comer uma caldeirada.  &lt;br /&gt;A gente não nada em taco  &lt;br /&gt;Mas vai dando pr’ò tabaco  &lt;br /&gt;E p’ra regar a salada.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É po’que ist’ é me’mo assim  &lt;br /&gt;A gente morre e o pilim  &lt;br /&gt;Não vai para a cova c’a gente.  &lt;br /&gt;E antes gastá-lo no tacho  &lt;br /&gt;Que na farmácia, é que eu acho  &lt;br /&gt;Qu’isto é que é, principalmente.   &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Terminada a refeição  &lt;br /&gt;Ao entrar na embarcação  &lt;br /&gt;Começou a grande espiga.  &lt;br /&gt;Um mangas abriu o bico  &lt;br /&gt;Pôs-se a mandar vir c’o Chico  &lt;br /&gt;O Chico arriou a giga.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu, para acalmar a tormenta  &lt;br /&gt;Ainda disse ao Chico «Òguenta!»,  &lt;br /&gt;Mas o mangas insistiu.  &lt;br /&gt;E o Chico sem intenção  &lt;br /&gt;Deu-lhe um ligeiro encontrão  &lt;br /&gt;Atirou c’o tipo ao rio.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um sócio do outro meco  &lt;br /&gt;Quis-se armar em malandreco  &lt;br /&gt;A gente já estava quentes.  &lt;br /&gt;Vei’ p’ra mim desnorteado  &lt;br /&gt;Eu dei-l’e c’o penteado  &lt;br /&gt;E pu-lo a cuspir os dentes.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Veio outro, eu dei outra ideia  &lt;br /&gt;Desarrumei-lhe a plateia  &lt;br /&gt;Mais outro, fui-lhe ao focinho.  &lt;br /&gt;E o Chico pelo seu lado  &lt;br /&gt;Só para não ficar parado  &lt;br /&gt;Aviou quatro sozinho.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fez-se uma grande molhada  &lt;br /&gt;Desatou tudo à estalada  &lt;br /&gt;Eu e o Chico no centro.  &lt;br /&gt;Naquela calamidade  &lt;br /&gt;Apareceu a autoridade  &lt;br /&gt;E meteu-nos todos dentro.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não tenho vida p’ra isto  &lt;br /&gt;E de futuro desisto  &lt;br /&gt;De me meter noutra alhada.  &lt;br /&gt;Nunca mais vou a Cacilhas  &lt;br /&gt;Mais o Chico Maravilhas  &lt;br /&gt;Comer outra caldeirada!  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;iframe allowfullscreen="" frameborder="0" height="315" src="http://www.youtube.com/embed/IWDyG1JhoGg" width="420"&gt;&lt;/iframe&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Notem, já agora, que a caldeirada tem batatas e molho e que batatada e molho são, precisamente, sinónimo de caldeirada, quando, como neste caso, é estalo que a palavra refere.&lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;b style="color: #660000;"&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;[3]&lt;/span&gt; &lt;/b&gt;Segundo Jasper White, no seu livro &lt;i&gt;50 Chowders&lt;/i&gt;. A receita, curiosamente em verso, é do &lt;i&gt;Boston Evening Post&lt;/i&gt; de 23 de setembro de 1751. Eis o texto original dos dois primeiros versos que traduzi:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;blockquote&gt;First lay some Onions to keep the Pork from burning&lt;br /&gt;Because in Chouder there can be not turning;&lt;/blockquote&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Encontrei esta informação na página "&lt;a href="http://whatscookingamerica.net/History/ChowderHistory.htm"&gt;History of Chowder&lt;/a&gt;" do site &lt;i&gt;What’s cooking America&lt;/i&gt;.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="PT"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;b style="color: #660000;"&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;[4]&lt;/span&gt; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;O livro encontra-se, em edições mais recentes, na Amazon (por exemplo, &lt;a href="http://www.amazon.com/American-Frugal-Housewife-Lydia-Maria/dp/048640840X"&gt;esta de 1999&lt;/a&gt;); mas, como já prescreveram os direitos de autor, está também disponível, &lt;a href="http://www.gutenberg.org/files/13493/13493-h/13493-h.htm"&gt;em versão eletrónica, no Projeto Gutenberg (versão revista de 1832)&lt;/a&gt;. Descobri a receita não nesse livro, mas em &lt;i&gt;Cod&lt;/i&gt;, de Mark Kurlansky (Londres: Vintage Books, 1999), que, além de contar a história da pesca e do consumo de bacalhau, traz muitas receitas do dito, de vários tempos e vários lugares.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="PT"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;b style="color: #660000;"&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;[5]&lt;/span&gt; &lt;/b&gt;Numa versão bretã de caldeirada, referida também por Kurlansky em &lt;i&gt;Cod&lt;/i&gt;, usa-se aipo e alho francês, por exemplo. Não pode senão ficar bem. Também se propõe, nessa receita, juntar &lt;i&gt;crème fraîche&lt;/i&gt; à caldeirada, na altura de a comer. Quanto à ideia das natas, também não é minha: há várias receitas de &lt;i&gt;chowder &lt;/i&gt;em que entram natas. Só mais uma palavra-como-as-cerejas: esta caldeirada bretã chama-se &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span lang="FR"&gt;bouillabaisse&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;i&gt; de Fécamp&lt;/i&gt; (porque a palavra original &lt;i&gt;chaudrée &lt;/i&gt;entretanto desapareceu, diz Kurlansky), mas não tem nada a ver com &lt;i&gt;bouillabaisse &lt;/i&gt;no sentido normal da palavra. &lt;a href="http://youtu.be/o8AGbtopmf0"&gt;A verdadeira &lt;i&gt;bouillabaisse&lt;/i&gt;&lt;/a&gt;, porém, embora seja muito mais complicada, porque implica a preparação prévia da sopa onde vão cozer os peixes, talvez se possa também considerar uma caldeirada… ou talvez não…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2874386790023925718-684266496568495945?l=llindegaard.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://llindegaard.blogspot.com/feeds/684266496568495945/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2874386790023925718&amp;postID=684266496568495945' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/684266496568495945'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/684266496568495945'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://llindegaard.blogspot.com/2011/09/chaudrees-chowders-caldeiradas.html' title='Chaudrées, chowders, caldeiradas'/><author><name>V. M. Lucas Lindegaard</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06993438398319242184</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/__m_JLgYBQmc/SUEyD_uVH3I/AAAAAAAAAwY/luHWZ4Q7ilk/S220/V%C3%ADtor.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://img.youtube.com/vi/IWDyG1JhoGg/default.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2874386790023925718.post-3650689570983252603</id><published>2011-09-27T23:42:00.004+02:00</published><updated>2011-09-27T23:51:35.565+02:00</updated><title type='text'>De Mary Read e outras três Marias</title><content type='html'>&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;b&gt;[I Introdução] &lt;/b&gt;&lt;a href="http://beijo-de-mulata.blogspot.com/2011/09/loucura-uma-definicao.html"&gt;Beijo de Mulata publicou há coisa de duas semanas uma definição de loucura deAntónio Cunha em D. Maria, a Louca&lt;/a&gt;:&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="PT"&gt;«A loucura não é uma porta que se fecha mas muitas janelas que se abrem, só que todas ao mesmo tempo...» &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Tem visos de verdade. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Agora, diz o dito que há mais Marias na terra. Na História também, há muitas Marias. E juntar muitas Marias da História num texto só é capaz de ser como demasiadas janelas abertas – uma loucura. Ou uma maluquice, seja, que a loucura é capaz de não chegar … Mas enfim, seja uma coisa ou outra, há de ser algo que não convém à História, que é, em princípio, assunto sério. A verdade, porém, é que cada um se rala com o que quer; e as histórias que conto a seguir são, sobretudo porque são de rainhas, História a reinar… &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Tudo nasceu de um acaso, já lá vai uma dezena de anos: &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Um dia, quando acabei de reler a &lt;i&gt;Historia Universal de la Infamia&lt;/i&gt;, decidi ver o que dizia a minha enciclopédia eletrónica dos heróis desse livro de J. L. Borges. Dos dois primeiros contos, a enciclopédia não conhecia nem protagonistas nem personagens secundárias. Chegado ao terceiro conto, “La viuda Ching, pirata”, antes de escrever no motor de pesquisa da enciclopédia o nome do malogrado marido da pirata, resolvi procurar a Mary Read que aparece na introdução à história. E já não procurei mais, porque fiquei fascinado com o resultado da pesquisa. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;O nome da capitã de piratas era referido apenas uma vez na entrada “Dame Flore Robson”, como título de uma peça levada à cena no West End de Londres em 1934. Sabendo que a &lt;i&gt;Historia Universal de la Infamia&lt;/i&gt; foi escrita entre 1933 e 1934, pode especular-se se J. L. Borges teria ou não assistido à peça e se não será dela que lhe veio a ideia de que, traduzo, “a palavra corsárias corre o risco de despertar uma recordação que é vagamente incómoda: a de uma já descolorida zarzuela, com as suas teorias de evidentes criadas, que faziam de piratas coreográficas em mares de notável cartão”. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Quanto aos outros artigos propostos, nenhum deles continha, de facto, o nome Mary Read, mas sim uma série de outras estranhas associações do nome Marie ou Mary com uma série de palavras que têm em comum apenas o começarem por “read…”. É dessas associações – e de outras de que a enciclopédia não dá conta – que trata o texto que segue.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;b&gt;[II Maria Tudor] &lt;/b&gt;Como a maior parte de vocês saberá, Maria Tudor ou Maria I de Inglaterra, nasceu em 1516 e aos 37 anos tornou-se rainha de Inglaterra. No ano seguinte, casou-se com Filipe II de Espanha, que tinha 27 anos e tinha sido já casado com outra Maria. O casamento católico de Espanha com Inglaterra foi tão mal recebido pelos ingleses que houve logo quem armasse uma revolta para tentar pôr no trono, em lugar desta vendida Maria, a sua meia irmã Isabel. E não deixavam de ter alguma razão os revoltados: por causa da aliança de Maria I com Filipe II, a Inglaterra juntou-se a Espanha na guerra em que esta estava metida contra França, o que valeu àquela perder Calais, se é que me faço entender.&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Diz-se que, quando os generais da Tudor voltaram, desanimados, empoeirados e sedentos, da terrível batalha em que os franceses tinham recuperado o enclave inglês, a rainha perguntou, com voz gelada, cortante, a um dos chefes do seu exército: “Então, Calais?” E que, provavelmente para tentar aligeirar um pouco a atmosfera pesada do salão, este se teria rido, com um riso forçado, pateta, e teria respondido, abrindo os braços e virando para cima a palma das mãos, “Pas de Calais!”, o que lhe valeu, a partir de então, o cognome de O Belga (&lt;i&gt;The Sprout&lt;/i&gt;) no seio do exército britânico.&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Maria Tudor respondeu séria, mas mais triste que despeitada, ignorando a idiotia do comandante das suas tropas: “Pois bem, quando eu morrer e me abrirdes o coração, aí encontrareis Calais!” Mas nem com a tirada teatral o povo inglês a desculpou… Não lhe perdoou Calais nem as perseguições religiosas que matrocinou. O vodka com sumo de tomate existe para no-lo recordar.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;b&gt;[III Maria Rainha dos Escoceses] &lt;/b&gt;A outra Maria a seguir é a Maria que os escoceses tiveram, que aos 16 anos e no ano da morte da Maria anterior, se casava, para cumprir um contrato que tinham feito por ela à nascença, com um Francisco de 14 anos que viria a ser Francisco II de França no ano seguinte.. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;“Father, dear father, you have done to me great wrong / You’ve married me to a boy who is too young…”&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Assim conta uma canção que a jovem rainha se teria queixado, em inglês, a seu pai. E a mesma canção diz que o pai lhe respondeu como segue: &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;“Daughter, dear daughter, I have done to you no wrong / I married you to the French King’s son!”&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-c-L41oDyXZM/ToJCMPeXq1I/AAAAAAAABbM/i1uu1Or7L1E/s1600/Daily+Growing.gif" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="640" src="http://1.bp.blogspot.com/-c-L41oDyXZM/ToJCMPeXq1I/AAAAAAAABbM/i1uu1Or7L1E/s640/Daily+Growing.gif" width="480" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;span lang="PT"&gt;A canção deve ter tido grande sucesso na época, a julgar por dois factos: um, o de ter chegado aos nossos dias, se bem que n&lt;a href="http://youtu.be/sMapQc9gK2U"&gt;uma versão ligeiramente modificada&lt;/a&gt;; outro, o de serem conhecidas não apenas uma mas três versões portuguesas, com pequenas variações entre si, que não serão provavelmente muito posteriores ao original e das quais a mais famosa é a seguinte:&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;“Pai, querido pai, tanto mal que me fizeste / Quando por esposo uma criança me deste… / Minha filha linda, sei quem por esposo te dei / Jovem será, mas também filho de um rei!”&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Não se sabe se para contentamento de Maria ou não – é bem provável que se divertissem, apesar de tudo, a brincar um com o outro –, Francisco II morreu no ano a seguir à coroação. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Sabe-se que foi feita na época outra canção, esta em francês, em que a rainha se queixa, mas agora da perda do seu jovem par. Esta canção não teve a fortuna da canção em inglês anteriormente referida e, ao contrário dela, não chegou aos nossos dias, fosse em que forma fosse. Se se sabe que ela existiu é porque existe uma tradução portuguesa dos finais do séc. XVI em que é referido um original francês com o título &lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;“&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Ballade de la Jeune Reyne Marie d’Escosse&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;”&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;. Além disso, o facto de esta canção portuguesa estar escrita num verso bem pouco comum entre nós, o de oito sílabas, parece confirmar que se trata de uma tradução de um original francês, língua em que essa medida é normal. A versão portuguesa, extensa demais para a transcrevermos aqui na íntegra, começa assim:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;“Meu pai deu-me um rei por marido / Que me queria, mas que eu não quis / Mas agora que o hei perdido / Como sou, Deus meu, infeliz…”&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Um famoso estudioso português da cultura portuguesa, que escuso de nomear aqui, recriou, a partir da tradução, o original francês. Era uma coisa que ele gostava muito de fazer (apesar de não conhecer bem a língua francesa...), sobretudo em ressacas de grandes bebedeiras que apanhava com os amigos, aos fins de semana, numa quinta que tinha ali para os lados da Várzea de Colares. Uma pessoa bem se pode perguntar como é que ele chegou dum texto ao outro, mas enfim, estranhos são os desígnios de alguns intelectuais… &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;“Mon père, vous m’avez fait grand tort / En me mariant à ce jeune roi / Dieu merci, le voilà qui est mort / Et je ris et chante de joie” &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Quando lhe aconteceu essa desgraça de se ver assim viúva aos 18 anos, pobre Maria!, achou ela que o melhor era deixar aquela França onde tinha sido criada e voltar à Escócia de que era rainha desde o berço, mas a que nunca tinha dado muita importância… Depois de muitas voltas e reviravoltas – que dariam, como deram, textos bem mais interessantes do que este –, Maria foi, em 1567, presa e forçada a abdicar do trono. Podia ter tudo acabado aqui, mas ela era uma mulher de armas: fugiu da prisão e juntou um exército de 6.000 homens. Desafortunadamente, derrotada e obrigada a fugir para Inglaterra. E a Isabel que era lá rainha nesta altura – a que sucedeu à Maria da história anterior –, em vez de dar asilo à rainha dos escoceses, deu-lhe antes prisão perpétua. Maria dos Escoceses era maior do que ela própria, como acontece a &lt;a href="http://youtu.be/dDzxn66W3uM"&gt;muitas estrelas da música pop e a ídolos de outras áreas&lt;/a&gt;… Havia quem achasse que não devia ser só dos escoceses e que devia ser rainha dos ingleses também. É claro, perante isto, Isabel fez, como todos nós fazemos constantemente, o que as circunstâncias lhe mandavam fazer. Maria foi executada a 8 de fevereiro de 1587 em Inglaterra. Tinha 45 anos e uma exuberante cabeleira postiça vermelha, sobre a qual muito se tem especulado.&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;b&gt;[IV Maria de Medici]&lt;/b&gt; 14 anos antes, mudando agora de assunto, tinha nascido outra Maria – florentina de nascimento, mas não de costumes, para usar uma fórmula com que Dante se apresentou uma vez... Esta Maria era da família Medici, que mandou em Florença durante séculos, e foi rainha consorte de Henrique IV de França. Foi ela a responsável da escalada política de Richelieu, esse cardeal que faz papel de mau nos filmes de capa e espada e que, um dia, virou de repente a casaca de cetim e veludo e deixou de ser amigo dos espanhóis amigos da Maria. Maria montou uma intentona para o afastar do poder, mas o golpe falhou e foi ela que acabou por ser deportada o resto da vida. Nos últimos anos de exílio, poderia ter pensado assim, um pouco como uma cortesã que recordo de um velho poema chinês:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span lang="PT"&gt;“Florença estava magnífica no último verão que lá passei… &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Há quanto tempo foi isso? Não sei, já não sei… &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Sei que nessa altura não fazia ideia do que era ter poder, &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="PT"&gt;nem de quanto poder viria a ter. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="PT"&gt;E para, Deus meu, o quê?, afinal, para acabar aqui &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="PT"&gt;a imaginar o que não fiz e o que não vi &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="PT"&gt;desse mundo que deixei passar ao meu &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="PT"&gt;lado, na tonta ilusão que era eu &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="PT"&gt;que o fazia girar, pelo menos em parte &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="PT"&gt;pela minha – como o cri eu? – estratégia, arte? &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Devia ter amado antes, que me cantassem &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="PT"&gt;como à rainha escocesa, que se lembrassem &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="PT"&gt;de mim, arrebatada e triunfante, &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="PT"&gt;mais que como rainha como amante… &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Mas perdi de meia vida o tempo, e agora &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="PT"&gt;nem os prazeres me restam de outrora &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="PT"&gt;com que enfeitar em sonho a solidão, &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="PT"&gt;a velhice e o exílio… E tempo não &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="PT"&gt;tenho já para transformar em tempo de vida &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="PT"&gt;o tempo que me resta pouco… Ofendida, &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="PT"&gt;é assim que me sinto, mas não p’lo cardeal, &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="PT"&gt;ou p’lo meu filho… Porquê?, se o mal &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="PT"&gt;que me fizeram é menor que o que me fiz &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="PT"&gt;ao não querer da vida apenas ser feliz… &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Não, se me sinto ofendida é só por mim &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="PT"&gt;própria. E espero ofendida o meu fim.” &lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;b&gt;[V Remate]&lt;/b&gt; Do ponto de vista do estilo, esta última parte do texto é claramente de inspiração arcádica, o que é estranho porque o estilo arcádico há muito que não inspira ninguém… Chamam-se também Três Marias às três estrelas em linha que se encontram no centro da constelação de Orion, por muito que elas se chamem de facto Mintaka, Alnilan e Alnitaka…&amp;nbsp;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Mas &lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Tr%C3%AAs_Marias"&gt;Três Marias há muitas&lt;/a&gt;...&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-UsXNMo2-HHQ/ToJCkcN7MqI/AAAAAAAABbQ/gZ9wON-HoqQ/s1600/Orion.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="640" src="http://3.bp.blogspot.com/-UsXNMo2-HHQ/ToJCkcN7MqI/AAAAAAAABbQ/gZ9wON-HoqQ/s640/Orion.jpg" width="524" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2874386790023925718-3650689570983252603?l=llindegaard.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://llindegaard.blogspot.com/feeds/3650689570983252603/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2874386790023925718&amp;postID=3650689570983252603' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/3650689570983252603'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/3650689570983252603'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://llindegaard.blogspot.com/2011/09/de-mary-read-e-outras-tres-marias.html' title='De Mary Read e outras três Marias'/><author><name>V. M. Lucas Lindegaard</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06993438398319242184</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/__m_JLgYBQmc/SUEyD_uVH3I/AAAAAAAAAwY/luHWZ4Q7ilk/S220/V%C3%ADtor.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-c-L41oDyXZM/ToJCMPeXq1I/AAAAAAAABbM/i1uu1Or7L1E/s72-c/Daily+Growing.gif' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2874386790023925718.post-4765087861640146041</id><published>2011-09-01T21:08:00.006+02:00</published><updated>2011-09-01T21:16:01.829+02:00</updated><title type='text'>improvérbios (provérbios improváveis)</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-Q6u27DKjyKs/Tl_YBQuHQaI/AAAAAAAABZc/wqazSETIKbA/s1600/Improv%25C3%25A9rbios.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="104" src="http://3.bp.blogspot.com/-Q6u27DKjyKs/Tl_YBQuHQaI/AAAAAAAABZc/wqazSETIKbA/s400/Improv%25C3%25A9rbios.jpg" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Mais vale cair na Graça do que ser um desgraçado.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000; font-family: Verdana,sans-serif; text-align: left;"&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;&lt;b&gt;&lt;br /&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Dia santo na loja, patrão fora. [A não ser que faça questão em ostentar, pela sua presença na loja em dia santo, o seu ateísmo.] &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000; font-family: Verdana,sans-serif; text-align: left;"&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;&lt;b&gt;&lt;br /&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Pode levar-se a mula ao rio, mas não se a pode obrigar a beber aquela água toda.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000; font-family: Verdana,sans-serif; text-align: left;"&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;&lt;b&gt;&lt;br /&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Água mole em pedra dura mais tempo mole do que água fresca em barro dura fresca. [???]&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000; font-family: Verdana,sans-serif; text-align: left;"&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;&lt;b&gt;&lt;br /&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Casa roubada, trancas à porta; marralhos, pés à parede.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000; font-family: Verdana,sans-serif; text-align: left;"&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;&lt;b&gt;&lt;br /&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Mais vale um mal só do que um mal acompanhado. [Só que um mal nunca vem só. E a morte, quando vem... Trás! ...Sempre uma desculpa!]&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;span style="background-color: white; color: white;"&gt;*&lt;/span&gt; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2874386790023925718-4765087861640146041?l=llindegaard.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://llindegaard.blogspot.com/feeds/4765087861640146041/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2874386790023925718&amp;postID=4765087861640146041' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/4765087861640146041'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/4765087861640146041'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://llindegaard.blogspot.com/2011/09/normal-0-21-false-false-false.html' title='improvérbios (provérbios improváveis)'/><author><name>V. M. Lucas Lindegaard</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06993438398319242184</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/__m_JLgYBQmc/SUEyD_uVH3I/AAAAAAAAAwY/luHWZ4Q7ilk/S220/V%C3%ADtor.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/-Q6u27DKjyKs/Tl_YBQuHQaI/AAAAAAAABZc/wqazSETIKbA/s72-c/Improv%25C3%25A9rbios.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2874386790023925718.post-930596590866349280</id><published>2011-08-30T23:15:00.007+02:00</published><updated>2011-08-31T08:36:10.381+02:00</updated><title type='text'>O rosto de Deus</title><content type='html'>Reciclo um excerto de &lt;a href="http://llindegaard.blogspot.com/2008/11/e-o-medo-que-malta-tem-de-no-passar-de.html"&gt;um texto de há três anos&lt;/a&gt;, para servir de introdução a este de hoje (que é um desenvolvimento do outro, noutra direção…):  &lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Lembrei-me no outro dia de uma conversa com uma colega da faculdade depois de uma aula que ela teve sobre uma famosa experiência sobre dilatação de pupilas que Eckhard Hesse e James Polt fizeram em 1959 (traduzo &lt;a href="http://www.muskingum.edu/%7Epsych/psycweb/history/hess.htm"&gt;o resumo que dela faz um senhor Jason Waite&lt;/a&gt;): «(...) Hess e Polt apresentaram a um grupo de 20 homens duas fotos idênticas de uma mulher, que diferiam num único aspeto. Numa, as pupilas da mulher tinham sido muito ampliadas, ao passo que, na outra, as pupilas eram extremamente pequenas. Em média, [a dilatação das pupilas] nos homens em resposta à fotografia com as pupilas aumentadas era duas vezes maior do que em fotografia com as pupilas pequenas. Após a experiência, pediu-se aos homens que comentassem as fotografias e a maior parte disse que eram idênticas. Entre os pouco que não disseram que as fotos eram iguais, alguns afirmaram que numa a mulher [com as pupilas dilatadas, entenda-se] era “mais bonita” ou “mais feminina”. Nenhum dos participantes no teste tinha notado a diferença de tamanho das pupilas da mulher da fotografia». &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;“Ficou tudo histérico na aula, quando o professor aventou a possibilidade de a nossa conceção de beleza ser determinada por mecanismos fisiológicos primários. Houve mesmo quem reagisse mal. A própria ideia de que se façam estudos puramente etológicos de seres humanos é chocante para muitos dos meus colegas.” &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Está bem que eram estudantes de Humanidades, mas mesmo assim… A reação é típica: ninguém quer ser considerado um animal, quanto mais uma máquina… Lembro-me de que costumava, mais por provocação do que por estar verdadeiramente convencido do valor de verdade da proposta, de postular que se toda a gente acha que “aquela triste e leda madrugada” é uma frase de génio, deve ser porque corresponde diretamente a uma organização preferencial dos sons que nós trazemos connosco à nascença… Escusado dizer que toda a gente se chocava – avaliarmos, assim, maquinalmente, a beleza de Camões?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="color: #660000; text-align: center;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span lang="PT"&gt;***&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Referia &lt;a href="http://llindegaard.blogspot.com/2011/08/cronicas-de-svendborg-4-e-inventarios-3.html"&gt;aqui&lt;/a&gt; no outro dia, sem o questionar, o famoso adágio “A beleza está nos olhos de quem olha”. Este tipo de relativismos, porém, sempre me levantou muitas dúvidas. Tendo em conta apenas a minha experiência de vida, a minha tendência é rejeitá-lo, que as coisas não são bem assim. Lembro-me da passagem do filme &lt;a href="http://www.imdb.com/title/tt0104036/"&gt;&lt;i&gt;Crying games&lt;/i&gt;&lt;/a&gt; em que um dos protagonistas do filme mostra ao outro a fotografia da sua namorada, comentando que ela é o seu ideal de mulher. “Acho que deve ser o ideal de mulher de qualquer homem”, responde o outro. E é isso que tenho observado quase sempre na vida – que, no que diz respeito a beleza, que é o que está aqui em causa, porque numa fotografia só se vê a cara sem ver o coração, o ideal de mulher de um homem é o ideal de mulher de quase todos; e o ideal de homem de uma mulher é o ideal de quase todas. Sempre tenho visto, de facto, um muito grande consenso quanto à beleza – e à fealdade – dos seres humanos. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;É certo que isto são só impressões, que é coisa mais para encher conversa do que para a adiantar. Mas Adam Rubinstein, Judith Langlois e Lori Raggman, que estudam de forma sistemática a perceção da beleza, confirmam a minha impressão: no que toca aos rostos humanos, pelo menos, há muita evidência empírica que mostra claramente que a ideia da subjetividade do conceito de beleza é falsa; que há, pelo contrário, grande universalidade no julgamento de atratividade: “(…) Examinámos 130 amostras de classificações de atratividade de 94 estudos da literatura sobre perceção do rosto. Esta meta-análise avaliava quantitativamente o acordo (ou desacordo) de milhares de pessoas, jovens e velhas, homens e mulheres. (…) Contrariamente ao que diz o adágio, os resultados indicavam um grande acordo sobre atratividade, mesmo de tipos de entrevistados muito diferentes.” &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Poupo-vos pormenores técnicos, mas os resultados obtidos, tanto para classificações de atratividade de rostos de adultos como de rostos de crianças, e incluindo classificações interétnicas (classificações de vários grupos étnicos por entrevistados vivendo na mesma cultura) e interculturais &lt;/span&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;(classificações de vários grupos étnicos por entrevistados de culturas diferentes) &lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;são altamente fiáveis do ponto de vista estatístico e “mostram um acordo consistente entre entrevistados, independentemente da sua experiência particular com diversos tipos de rostos”.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;“A nossa meta-análise”, prosseguem os autores, também examinou variáveis que podem moderar o acordo, como sejam o ano de publicação, tamanho da amostra, género da pessoa avaliada e situação em que a pessoa foi avaliada (por exemplo, avaliação de fotografias ou avaliação &lt;i&gt;in situ&lt;/i&gt;). Um pouco para nossa surpresa, nenhum moderador teve efeitos constantes ou substanciais nos níveis de acordo. Se bem que se pudesse pressupor que as diferenças metodológicas ou a pertença a um grupo pudesse influenciar as classificações de atratividade, o que se constata é antes que há uma característica fundamental do rosto humano responsável pelo consenso relativamente à atratividade dos rostos.”&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;“Estes resultados indicam que a beleza não está apenas nos olhos de quem olha”, concluem os autores do trabalho&lt;b style="color: #660000;"&gt;*&lt;/b&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Que característica é esta? Há mais consenso em dar-se por factual a universalidade do conceito de beleza de um rosto do que em explicar em que traços se centra esse conceito que todos temos interiorizado sem saber. Segundo os autores, as experiências mostram que quanto mais um rosto se aproximar da média de todos os rostos, mais atraente é considerado. Com técnica modernas de processamento de imagem, fazem-se rostos que são a média exata de vários rostos; e quanto mais rostos constituírem a informação de que é feita a média, mais consenso há sobre a sua beleza. Há várias críticas à conclusão de Rubenstein, Langlois e Roggman, algumas delas pertinentes; e é também aceitável e relativamente minuciosa a sua defesa. Como acontece sempre em ciência, a discussão continua. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="color: #660000; text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;***&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Tudo isto me faz lembrar um texto de Venmani Tirunal Patire, protagonista d&lt;a href="http://www.fnac.pt/Faz-de-Conta-que-Historias-Vitor-Lindegaard/a317558"&gt;o meu conto “O silêncio”&lt;/a&gt;:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Tudo o que é exclusivamente humano foi diretamente dado aos homens por Deus, ao contrário daquilo que os homens compartilham com outras criaturas, que resulta de uma evolução do mundo natural (a que Deus só não é completamente alheio porque foi Ele também que criou esse mundo natural e pôs em marcha essa evolução, mas sem que tivesse nem para as coisas da natureza nem para o desfilar dos tempos nenhum desígnio específico…). É isso que quer dizer sermos à semelhança de Deus. Misturem-se as feições de todos os humanos, existidos já ou que venham ainda a ser, e obteremos o rosto de Deus; juntem-se os nomes de todos os homens pretéritos, presentes e futuros, e o nome radioso e impronunciável que resultar é o nome verdadeiro da divindade; adicionem-se todas as qualidades e anseios dos mortais e a soma será a imortal essência divina!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Algum tempo depois de escrever este texto, Venmani Tirunal Patire veio a concluir que, afinal, não se podia deduzir Deus da soma dos seres por Ele criados. Para chegar a Deus, havia antes que subtrair sistematicamente tudo de tudo, porque Ele não podia ser senão a matriz vazia onde coubessem todas as coisas, criadas já ou ainda por criar. Se a hipótese de Rubenstein, Langlois e Roggman estiver certa, Venmani Patire tem razão: a soma de todos os rostos não é o rosto de Deus – é apenas o rosto essencial da Humanidade, aquele que todos nós achamos atraente!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;_______________&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;* Rubenstein, A.J., Langlois, J.H., &amp;amp; Roggman, L.A. (2002). “What makes a face attractive and why: The role of averageness in defining facial beauty”. In G. Rhodes &amp;amp; L.A. Zebrowitz (Eds.), &lt;i&gt;Facial attractiveness: Evolutionary, cognitive, and social perspectives&lt;/i&gt;. Ablex: Westport, CT. PDF Version (9.5 MB) © Ablex. Este e muitos outros estudos sobre a perceção de rostos estão disponíveis em formato PDF &lt;a href="http://homepage.psy.utexas.edu/homepage/group/langloislab/Publications.html"&gt;no site da Universidade do Texas&lt;/a&gt;. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2874386790023925718-930596590866349280?l=llindegaard.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://llindegaard.blogspot.com/feeds/930596590866349280/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2874386790023925718&amp;postID=930596590866349280' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/930596590866349280'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/930596590866349280'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://llindegaard.blogspot.com/2011/08/o-rosto-de-deus.html' title='O rosto de Deus'/><author><name>V. M. Lucas Lindegaard</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06993438398319242184</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/__m_JLgYBQmc/SUEyD_uVH3I/AAAAAAAAAwY/luHWZ4Q7ilk/S220/V%C3%ADtor.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2874386790023925718.post-8936686041857125881</id><published>2011-08-26T12:23:00.003+02:00</published><updated>2011-08-26T12:25:54.132+02:00</updated><title type='text'>Crónicas de Svendborg #5: Mães e pais e trabalhadoras da construção civil</title><content type='html'>&lt;span lang="PT"&gt;Os (pre)conceitos relativamente aos papéis dos géneros adquirem-se muito cedo. Quando o nosso filho Alexander veio da Colômbia para a Dinamarca, com três anos e meio de idade, tinha já uma ideia muito clara do que eram profissões para homens e profissões para mulheres: «As mulheres não podem conduzir autocarros!», afirmou ele, perentório, da primeira vez que viu uma motorista de autocarro.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Talvez por isso, esses preconceitos são muito fundos. Tenho a certeza de que, quando chegam à Dinamarca, muitos estrangeiros ficam surpreendidos por verem mulheres a trabalhar na construção civil. Podem, é claro, valorizar positiva ou negativamente esse facto, conforme a sua visão dos papéis femininos, mas ficam surpreendidos, porque trabalhadoras da construção civil&lt;b&gt;&lt;span style="color: #660000;"&gt;*&lt;/span&gt;&lt;/b&gt; é coisa que não existe na grande maioria dos países&lt;b&gt;&lt;span style="color: #660000;"&gt;**&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Aqui, há cada vez mais mulheres na construção civil, sobretudo na pintura. Segundo uma conhecida nossa, que é pintora da construção civil, a maior parte das firmas de pintura de construção civil são agora de mulheres, pelo menos aqui na zona.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Agora, na reunião de pais a que fui ontem na escola dos meus filhos, havia dezassete mulheres e quatro homens. E os quatro homens que havia estavam acompanhados pelas mulheres. Há, pelos vistos, áreas em que, na Dinamarca, os papéis de género se continuam a distribuir de maneira muito tradicional.&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;_______________&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;b style="color: #660000;"&gt;*&lt;/b&gt; José António Saraiva escreveu &lt;b&gt;&lt;a href="http://sol.sapo.pt/inicio/Opiniao/interior.aspx?content_id=26867&amp;amp;opiniao=Pol%EDtica+a+S%E9rio"&gt;um texto&lt;/a&gt;&lt;/b&gt; muito e muito justamente criticado (por exemplo, &lt;b&gt;&lt;a href="http://conversa2.blogspot.com/2011/08/eu-nao-vou-boicotar-o-semanario-sol.html%20"&gt;aqui&lt;/a&gt;&lt;/b&gt;) em que parece defender que o facto de (segundo ele…) não existir uma palavra consolidada pelo tempo e pelo uso que defina a relação marital entre dois homens é um argumento contra o casamento de pessoas do mesmo sexo. &lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;É&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt; bem capaz de haver quem seja contra as mulheres na construção civil por não haver palavra “consolidada” que designe uma mulher que faz paredes. «Pedreira? Ora…» &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;b style="color: #660000;"&gt;**&lt;/b&gt; Convém talvez explicar aqui que o trabalho de construção civil é, aqui, diferente do que se faz noutros países que eu conheço. A construção é um negócio exclusivamente dinamarquês, onde os dinamarqueses não deixam entrar os estrangeiros. É um trabalho muito bem pago, onde só há mestres, sem serventes para o trabalho pesado, porque se trabalha com máquinas e sempre com paredes pré-construídas. Para fazer um prédio, são necessári@s 2 ou 3 pedreir@s, 2 ou 3 eletricistas, 2 ou 3 canalizador@s, 2 ou 3 carpinteir@s, 2 ou 3 pintor@s…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2874386790023925718-8936686041857125881?l=llindegaard.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://llindegaard.blogspot.com/feeds/8936686041857125881/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2874386790023925718&amp;postID=8936686041857125881' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/8936686041857125881'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/8936686041857125881'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://llindegaard.blogspot.com/2011/08/cronicas-de-svendborg-5-maes-e-pais-e.html' title='Crónicas de Svendborg #5: Mães e pais e trabalhadoras da construção civil'/><author><name>V. M. Lucas Lindegaard</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06993438398319242184</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/__m_JLgYBQmc/SUEyD_uVH3I/AAAAAAAAAwY/luHWZ4Q7ilk/S220/V%C3%ADtor.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2874386790023925718.post-5538488628785690189</id><published>2011-08-24T13:07:00.001+02:00</published><updated>2011-08-25T23:11:15.252+02:00</updated><title type='text'>Passeio matinal: coelhos, lebres e o género da marcha</title><content type='html'>Os campos recém ceifados perto da nossa casa estão cheios de vida. Hoje de manhã fui passear e vi uma ratazana e um coelho, além dos muitos corvos que debicavam os restos de cereais&lt;b style="color: #660000;"&gt;*&lt;/b&gt;. A ratazana, vi-a à beira da estrada, longe dos bandos de corvos. O coelho, esse, saltitava de um lado para o outro mesmo no meio dos corvos. Quer dizer, não sei se era um coelho ou uma lebre, porque não consigo distinguir coelhos de lebres...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aliás, é uma confusão a distinção entre lebres e coelhos. Há até um género, &lt;i&gt;Carolus&lt;/i&gt;, que às vezes é considerado lebre e outras coelho. Não convém nada, sobretudo, tentar esclarecer essa confusão recorrendo a outras línguas, porque não há correspondência biunívoca entre &lt;b&gt;lebre &lt;/b&gt;e, por exemplo, &lt;b&gt;hare &lt;/b&gt;em inglês… A Wikipédia, que muita gente diz que não é de fiar mas que até nem costuma ser má nestas coisas simples (?) de ciências da natureza, &lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Lebre"&gt;diz&lt;/a&gt; que “uma das diferenças entre lebres e coelhos é o fato de que os filhotes daquelas já nascem com pequena capacidade motora e visual, enquanto que os filhotes desses nascem completamente cegos e ficam no ninho por algumas semanas até poderem sair sozinhos”. Presumo que isto seja verdade para o género Lepus. Mas diz também, na entrada &lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Coelho"&gt;&lt;b&gt;coelho&lt;/b&gt;&lt;/a&gt;, que “seu corpo também é sempre menor que o das lebres” e &lt;a href="http://youtu.be/Uo5lsTtBX9I"&gt;&lt;b&gt;isso custa-me muito a acreditar&lt;/b&gt;&lt;/a&gt;… &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cruzaram-se comigo, durante o meu passeio matinal, várias pessoas de fato de treino e cão pela trela. Muita gente aproveita passear o cão para fazer exercício – ou vice-versa. E dei-me conta de uma coisa simples, daquelas que, de tão óbvias, talvez, tão banais, nunca nos suscitam reflexão: a grande distância, muito antes de ter possibilidade de distinguir as formas do corpo e muito menos ainda os traços do rosto, já sabia o sexo da pessoa que se aproximava. Pelo andar, está claro. E isto é interessante, acho eu. Temos um programa de reconhecimento de movimentos que sabe distinguir a marcha dos dois sexos, por muito que ninguém seja, nem de longe, capaz de descrever a diferença entre como andam os homens e as mulheres&lt;b style="color: #660000;"&gt;**&lt;/b&gt;. As coisas complexas que nós sabemos sem muitas vezes saber que as sabemos e nem sonhar como as sabemos…&lt;br /&gt;___________&lt;br /&gt;&lt;b style="color: #660000;"&gt;*&lt;/b&gt; Ainda escrevi aqui que "os corvos andavam a pastar", mas resolvi refazer a frase, porque achei que o &lt;b&gt;pastar&lt;/b&gt; era capaz de ser aqui mal recebido. Mas que estaria correto, isso sem dúvida.&lt;br /&gt;&lt;b style="color: #660000;"&gt;** &lt;/b&gt;Há, isso sim, um andar estereotipadamente feminino, que consiste basicamente em andar com um pé sempre diante do outro, a ponta do pé apontando sempre na direção que se segue, mas são muito poucas as mulheres que andam dessa maneira.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2874386790023925718-5538488628785690189?l=llindegaard.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://llindegaard.blogspot.com/feeds/5538488628785690189/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2874386790023925718&amp;postID=5538488628785690189' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/5538488628785690189'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/5538488628785690189'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://llindegaard.blogspot.com/2011/08/passeio-matinal-coelhos-lebres-e-o.html' title='Passeio matinal: coelhos, lebres e o género da marcha'/><author><name>V. M. Lucas Lindegaard</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06993438398319242184</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/__m_JLgYBQmc/SUEyD_uVH3I/AAAAAAAAAwY/luHWZ4Q7ilk/S220/V%C3%ADtor.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2874386790023925718.post-2050133053765766144</id><published>2011-08-23T21:50:00.015+02:00</published><updated>2011-08-23T22:14:01.869+02:00</updated><title type='text'>Crónicas de Svendborg #4 e Inventários #3: Da Dinamarca como país exótico</title><content type='html'>&lt;span lang="PT"&gt;O exotismo é como a beleza de um célebre ditado inglês&lt;b style="color: #660000;"&gt;*&lt;/b&gt;: está nos olhos de quem acha exótico. No caso desta pequena selecção de coisas exóticas dinamarquesas, esses olhos são os meus, claro está. Mas não são os meus olhos de agora. A lista é de coisas que eu achava bastante exóticas quando aqui comecei a viver pela primeira vez, em 2001 – e que hoje já me parecem bastante normais…&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;&lt;i&gt;- &lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;i&gt;Amargermad&lt;/i&gt;, uma sandes de &lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Amager"&gt;Amager&lt;/a&gt;. Não só é surpreendente existir uma sandes assim, uma fatia de pão escuro de centeio sobre um bocado de pão claro, com manteiga ou com um bocado de queijo no meio, como é surpreendente haver &lt;a href="http://da.wikipedia.org/wiki/Amagermad"&gt;uma página da Wikipédia em dinamarquês&lt;/a&gt; dedicada a essa estranha sandes. A entrada da Wikipédia explica que “uma teoria proposta &lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;é que, a certa altura, era mal visto comer pão branco ao domingo, mas, estando o pão branco por baixo, Deus não o via”.&lt;/span&gt;  &lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;/span&gt;  &lt;/div&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;&lt;i&gt;- &lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;i&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Mellemlægspapir&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span lang="PT"&gt;, papel para pôr no meio. É um papel absorvente que serve para se pôr entre as sandes (que são normalmente abertas, ou seja, um fatia de pão escuro com qualquer coisa lá em cima, donde a necessidade do papel) na caixinha de plástico que serve de lancheira!&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/-KDDz1mt8YDw/TlQG7MB4W9I/AAAAAAAABZU/OeU9-YrkTU8/s1600/Sm%25C3%25B8rre+madpakke.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" height="640" src="http://4.bp.blogspot.com/-KDDz1mt8YDw/TlQG7MB4W9I/AAAAAAAABZU/OeU9-YrkTU8/s640/Sm%25C3%25B8rre+madpakke.jpg" width="480" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span lang="PT"&gt;A arte de “barrar merendas”, como se diz em dinamarquês. É entre estas sandes que se põe o tal papel…&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;&lt;i&gt;- &lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Rygeost, requeijão fumado,. Uma especialidade aqui desta zona. É fumado com palha de cereais e eu por acaso até gosto, mas é uma coisa um bocado especial… Exótica, enfim, com sabor a fumo… Também tem direito a &lt;a href="http://da.wikipedia.org/wiki/Rygeost"&gt;página de Wikipédia&lt;/a&gt;.&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-YVRJN6nqBu0/TlQHqAeou4I/AAAAAAAABZY/z0UCTgY5eIk/s1600/Rygeost.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" height="158" src="http://1.bp.blogspot.com/-YVRJN6nqBu0/TlQHqAeou4I/AAAAAAAABZY/z0UCTgY5eIk/s400/Rygeost.jpg" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;&lt;b&gt;Rygeost, requeijão fumado&lt;/b&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;&lt;i&gt;- &lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;a href="http://www.dmiluftguitar.dk/"&gt;Campeonato nacional de guitarra de ar&lt;/a&gt;, que é como quem diz, um campeonato para ver quem é o melhor a fingir que está a tocar guitarra.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: center;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-size: small; font-weight: normal;"&gt;&lt;iframe allowfullscreen="" frameborder="0" height="345" src="http://www.youtube.com/embed/W-QzaqNJo74" width="420"&gt;&lt;/iframe&gt;&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-size: small; font-weight: normal;"&gt;_______________&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;h1 style="font-family: inherit;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-size: small; font-weight: normal;"&gt;&lt;b style="color: #660000;"&gt;*&lt;/b&gt; Bom, eu conheço-o como provérbio inglês, “Beauty is in the eye of the beholder”, A beleza está nos olhos de quem olha”, mas, segundo Elizabeth Knowles, em &lt;i&gt;The Oxford Dictionary of Phrase and Fable&lt;/i&gt; (OUP, 2005), o dito é muito mais antigo: “O provérbio está atestado em inglês a partir de meados do século XVIII, mas encontra-se nos &lt;i&gt;Idílios &lt;/i&gt;de Teócrito (c. 300-260 a.C.), um dito grego do séc. III a.C. relacionado com ele: «Aos olhos do amor, o que não é belo parece muitas vezes que o é».” É claro, pode argumentar-se que é ir longe de mais relacionar a frase de Teócrito com o provérbio inglês, de tão diferentes que são. Agora, pode-se, isso sim (e deve-se, provavelmente), ver no aforismo de Teócrito a origem do provérbio português “Quem feio ama, bonito lhe parece”.&lt;/span&gt;&lt;/h1&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2874386790023925718-2050133053765766144?l=llindegaard.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://llindegaard.blogspot.com/feeds/2050133053765766144/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2874386790023925718&amp;postID=2050133053765766144' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/2050133053765766144'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/2050133053765766144'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://llindegaard.blogspot.com/2011/08/cronicas-de-svendborg-4-e-inventarios-3.html' title='Crónicas de Svendborg #4 e Inventários #3: Da Dinamarca como país exótico'/><author><name>V. M. Lucas Lindegaard</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06993438398319242184</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/__m_JLgYBQmc/SUEyD_uVH3I/AAAAAAAAAwY/luHWZ4Q7ilk/S220/V%C3%ADtor.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/-KDDz1mt8YDw/TlQG7MB4W9I/AAAAAAAABZU/OeU9-YrkTU8/s72-c/Sm%25C3%25B8rre+madpakke.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2874386790023925718.post-7252939784272841889</id><published>2011-08-22T18:13:00.004+02:00</published><updated>2011-08-22T18:19:45.462+02:00</updated><title type='text'>Inventários #2: Cassetes (um inventário com música e publicidade escondida)</title><content type='html'>&lt;span lang="PT"&gt;Li há algum tempo, não me lembro onde, que os jovens consideram o disco rígido do computador o suporte físico natural da música. Já nem CDs conhecem, quanto mais discos de vinil ou cassetes. E nós, vejam lá, desfizemo-nos agora, primeiro ao sair de Moçambique e depois ao fazer a mudança de Copenhaga para Svendborg, de umas boas centenas de cassetes. Para que queríamos nós cassetes? Bom, em Moçambique usávamo-las para ouvir música no carro. Em muitas daquelas estradas não se consegue ouvir CDs, porque estão constantemente a saltar. E então, quando comprámos o carro, pedimos expressamente um antiquado leitor de cassetes em vez de leitor de CDs e passámos 5 anos a viajar ao som de cassetes. Agora, de volta à Dinamarca, duvidávamos que as cassetes voltassem a ter alguma utilidade e desfizemo-nos delas todas. Bom, de todas, não: ficámos com 5&lt;b&gt;:&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;span lang="PT"&gt;1. &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Paul Tracey’s songs and stories&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;&lt;span lang="PT"&gt;, que tem de um lado canções e do outro lado histórias, todas eles maravilhosas, e que não se encontra já em lado nenhum, nem na loja d&lt;b&gt;&lt;a href="http://www.paultracey.org/%20"&gt;o autor&lt;/a&gt;&lt;/b&gt;… Já lhe escrevi a dizer que não tem o direito de deixar desaparecer assim da História a sua música e ele respondeu-me que a imortalidade lhe interessa pouco… Mas vejam e ouçam este vídeo, para ficarem com uma ideia de como é a música dela. É, ao que sei, o único que se encontra dele na internet e é um vídeo curioso: Pelo que percebo, Paul fez uma canção para a sua filha Sarah; e outra filha, Devon, fez um vídeo para a canção do pai.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;iframe allowfullscreen="" frameborder="0" height="345" src="http://www.youtube.com/embed/ZAF06w47ucQ" width="420"&gt;&lt;/iframe&gt; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="PT"&gt;2. &lt;i&gt;&lt;b&gt;L’organiste barbare&lt;/b&gt;&lt;/i&gt;, uma obra, que “&lt;a href="http://oreneta.com/my-barrel-organ/2010/07/05/voiceorgan-balance/"&gt;infelizmente não parece estar legalmente disponível em lado nenhum&lt;/a&gt;”&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;, do famoso (?) &lt;b&gt;&lt;a href="http://www.claudereboul.com/index.htm"&gt;Claude Reboul&lt;/a&gt;&lt;/b&gt;. Podem vê-lo aqui em ação a partir do segundo minuto:&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;iframe allowfullscreen="" frameborder="0" height="345" src="http://www.youtube.com/embed/ZbjulOx34Yk" width="420"&gt;&lt;/iframe&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;b&gt;3.&lt;/b&gt; &lt;b&gt;Um concerto gravado na mesa de mistura do Rock Rendez Vous a 9 de outubro de 1983&lt;/b&gt;, de uma banda que viria mais tarde a ser bastante conhecida. E eis o primeiro concurso da Travessa: quem adivinhar que banda é, ganha um prémio!...&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;b&gt;4. Uma seleção sem título de música alegre, por uma grande banda alemã chamada Trio Bagatelli&lt;/b&gt;. Também já não existe e, se editou algum disco, não se o consegue encontrar em lado nenhum, mas pelo menos &lt;a href="http://www.campingorchester.de/beeg.php"&gt;um dos membros&lt;/a&gt; faz hoje parte desta &lt;a href="http://www.campingorchester.de/musik/keltischer.mp3"&gt;Campingorchester&lt;/a&gt;)&lt;b&gt;.&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;b&gt;5. &lt;i&gt;Desert voices I&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;, &lt;b&gt;do sul-africano Jason Armstrong e do moçambicano Gito Balói&lt;/b&gt;, infelizmente já falecido. E &lt;i&gt;Desert Voices I&lt;/i&gt;, acho que só mesmo em cassete; de &lt;i&gt;Desert Voices II&lt;/i&gt;, podem ouvir &lt;b&gt;&lt;a href="http://www.myspace.com/desertvoices"&gt;aqui &lt;/a&gt;&lt;/b&gt;4 temas). &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Agora, não é de ânimo leve que se deitam fora as cassetes, pelo menos as que têm histórias, e tínhamos muitas cassetes que tinham vindo de todos os lugares que ficam entre S. Francisco, nos EUA, Sucre, na Bolívia, e Medan, na Indonèsia, e que eram recordações de todo o tipo de pessoas, lugares e acontecimentos. Normalmente, o que de menos interessante tinham era a música; ou, se a música por acaso era interessante, já a tínhamos também em CD…&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="PT"&gt;[Post Post 1] Uma grande parte das nossas cassetes, como uma grande parte das cassetes de toda a gente, eram cópias ilegais, feitas em casa ou compradas já copiadas. Nunca autores nem executantes das músicas viram de direitos delas nem um tostão. É curioso, não se percebe bem porque é que, fazendo-se tanto barulho agora com os &lt;i&gt;downloads &lt;/i&gt;e as cópias ilegais de música, nunca ninguém fez muito barulho em relação às cassetes…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="PT"&gt;[Post Post 2] Isto de só ter guardado 5 cassetes é mentira! Guardei mais, só que as outras não as quis pôr neste mini-inventário…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2874386790023925718-7252939784272841889?l=llindegaard.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://llindegaard.blogspot.com/feeds/7252939784272841889/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2874386790023925718&amp;postID=7252939784272841889' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/7252939784272841889'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/7252939784272841889'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://llindegaard.blogspot.com/2011/08/inventarios-2-cassetes-um-inventario.html' title='Inventários #2: Cassetes (um inventário com música e publicidade escondida)'/><author><name>V. M. Lucas Lindegaard</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06993438398319242184</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/__m_JLgYBQmc/SUEyD_uVH3I/AAAAAAAAAwY/luHWZ4Q7ilk/S220/V%C3%ADtor.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://img.youtube.com/vi/ZAF06w47ucQ/default.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2874386790023925718.post-4631385249256335411</id><published>2011-08-21T22:21:00.003+02:00</published><updated>2011-08-21T22:31:58.521+02:00</updated><title type='text'>Adaptado de um blogue apagado #2: Cantar anedotas</title><content type='html'>&lt;blockquote style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Um rei de Espanha, ou então de França tinha um calo num pé. Era no pé esquerdo, penso eu. Coxeava que metia dó. Os cortesãos, gente hábil, esforçaram-se por imitá-lo e, uns com o pé esquerdo, outros com o direito, aprenderam todos a coxear. Depressa se tornaram evidentes os benefícios de uma moda assim e, da antecâmara aos gabinetes, toda a gente coxeava.&lt;/span&gt;  &lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Um dia, um nobre da província, esquecendo a seu novo dever, passou diante do rei, firme e direito como fuso. Começou toda a gente a rir, menos o rei que, baixinho, murmurou:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;“Senhor, que quer isto dizer? Não vos vejo coxear…”&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;“Equivocais-vos, Majestade… Tenho os pés repletos de calos, vede! Se caminho mais direito do que os outros, é porque coxeio dos dois pés.”&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Contado assim, é uma anedota, não há dúvida nenhuma. Podem achar-lhe graça ou não, mas é óbvio que é uma anedota. O que é curioso é que é, de facto, uma canção, originalmente em quadras, com métrica e rima emparelhada perfeita, mas que eu, para lhe deixar claro o caráter prosaico, resolvi traduzir em prosa &lt;span style="color: #660000; font-size: xx-small;"&gt;&lt;b&gt;[1]&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;. A canção é de &lt;b&gt;&lt;a href="http://fr.wikipedia.org/wiki/Gustave_Nadaud"&gt;Gustave Nadaud&lt;/a&gt;&lt;/b&gt;, que, segundo &lt;a href="http://www.dialogus2.org/BRA/leroiboiteux.html"&gt;uma página do site Dialogus&lt;/a&gt;, «foi um cantautor prolífico e muito famoso no seu tempo. Além de romances, ópera e poemas diversos, compôs mais de 300 canções, geralmente ligeiras e divertidas, às vezes sentimentais, muitas das quais foram publicadas em três volumes. Foi o primeiro cantautor a ser condecorado com uma ordem nacional, na altura do Segundo Império. Um dos feitos que lhe trouxe maior fama foi ter feito publicar, em 1884, as obras do &lt;i&gt;communard&lt;/i&gt; Eugène Pottier, autor d’“A Internacional”».&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Agora, a fama de Nadaud não se manteve até aos nossos dias, e eu nunca teria conhecido esta canção se Brassens não tivesse agarrado na letra (por alguma razão, não quis aproveitar a música…) e a tivesse musicado e cantado.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;b&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Georges Brassens, “Le roi boiteux”, 1979&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;iframe frameborder="0" height="25" src="http://www.youtube.com/embed/gDUm-l6TYwk" width="640"&gt;&lt;/iframe&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Conheço muitas canções que são verdadeiras anedotas, mas esta é das poucas anedotas cantadas que conheço. Há dezenas de formas relativamente codificadas de canção humorística, mas a anedota cantada é muito rara. Percorram mentalmente o repertório dos cantores ou dos compositores de canções humorísticas que conhecem, e vejam lá se não me dão razão&lt;span style="color: #660000; font-size: xx-small;"&gt;&lt;b&gt;[2]&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;. O que não quer dizer que seja esta a única anedota cantada. Conheço mais umas quantas...&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Em relação a esta do rei coxo, não sei se Nadaud musicou uma anedota que ele conhecia ou se inventou ele a anedota. Há casos, no entanto, em que tenho a certeza de que os autores se limitaram a transformar em canção uma anedota já existente, porque eu já conhecia as anedotas antes de as canções existirem. Um destes casos é o da “Chanson dégueulasse”, de Renaud, que de tão dégueulasse e tão sem graça, me recuso aqui a contar.&amp;nbsp; Outro é daquela anedota já velha que os Sparks musicaram no álbum &lt;i&gt;Lil’ Beethoven&lt;/i&gt; e que eu acho que não produz o devido efeito na minha pobre tradução: Um homem pergunta a um transeunte o caminho para o Carnegie Hall: «Desculpe, como é que eu daqui chego ao Carnegie Hall?» «Pratique, senhor, pratique, é preciso ensaiar muito!», responde o outro. Bom, está bem…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Sparks, “How do I get to Carnegie Hall?”, 2002&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;iframe frameborder="0" height="25" src="http://www.youtube.com/embed/doK9Jo0wVx8" width="640"&gt;&lt;/iframe&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Melhor que essas todas é uma canção-anedota nacional de que eu tenho pena de não saber a letra completa para a pôr agora aqui. Era cantada, se a memória me não falha, pelo Duo Humorístico Crispim e é a história de dois grandes mandriões que estão a bater uma sorna à sombra de uma árvore. De repente, um deles acorda excitado e desperta o outro: &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;«Eh, pá, tive um sonho maravilhoso! Sonhei que tinham inventado uma máquina que, com ela, um gajo já não precisava de fazer nada – era só carregar num botão e aparecia tudo feito!»&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;«Grande máquina, sim senhor, uma coisa assim dava um jeitão!», responde o outro, ensonado. «Mas ouve lá, não estás a contar comigo para carregar no botão, pois não?»&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Há uns dias, dizia &lt;a href="http://llindegaard.blogspot.com/2011/08/adaptado-de-um-blogue-apagado-1-cantar.html"&gt;&lt;b&gt;aqui &lt;/b&gt;&lt;/a&gt;que há temas de canções que são mais típicos de certos países que doutros. O louvor da preguiça é, sem dúvida, um tema bem português. Pois, a saudade, pode ser… Mas muita preguiça também. No fundo, a preguiça é também um forma de saudade – saudade daquela Idade de Ouro primordial em que um gajo vivia sem ter de vergar a mola… Ou saudades do futuro, como dizia o outro, do tal futuro perfeito em que terá sido inventada&lt;span style="color: #660000; font-size: xx-small;"&gt;&lt;b&gt;[3]&lt;/b&gt;&lt;/span&gt; a máquina que faz tudo… carregando-se só num botão!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Pois… Ou, como diz outra canção que há, «O que é que querem? / São os ócios do ofício!»&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Agora, para não ficarem a pensar que me levo muito a sério a mim mesmo e que acredito que o louvor da preguiça é mesmo uma particularidade da canção portuguesa, posso dizer-vos que Aristide Bruand, um dos mais importantes cantautores franceses&lt;b&gt;&lt;span style="color: #660000; font-size: xx-small;"&gt;[4]&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;, escreveu por volta de 1900 um monólogo chamado &lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;“&lt;/span&gt;&lt;b&gt;&lt;a href="http://www.wat.tv/audio/aristide-bruant-lezard-1rkz8_2gh7d_.html"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Lézard&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;/b&gt;&lt;span lang="PT"&gt;”&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;, em que faz a apologia de chular a irmã e o cunhado, em nome do direito a não fazer nenhum: «Uma pessoa ganha hábitos aos quinze anos / depois cresce e já não os perde / E eu gosto é de xonar / e não gramo trabalhar / Trabalhar é uma chatice.»&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Tirando isso, houve mais gente boa da &lt;i&gt;chanson&lt;/i&gt;, como &lt;a href="http://youtu.be/hLnHNTxlsCs"&gt;Henry Salvador&lt;/a&gt; (uma vez até &lt;a href="http://youtu.be/AYUSdKTsj2E"&gt;em colaboração com Boris Vian&lt;/a&gt;) ou &lt;a href="http://youtu.be/KjeOwryPBn0"&gt;Georges Moustaki&lt;/a&gt;, a fazer, uns &lt;a href="http://www.musicme.com/#/Georges-Moustaki/albums/Georges-Moustaki-0044007602027.html?play=0044007602027-01_11"&gt;mais a sério&lt;/a&gt;&amp;nbsp; do que os outros a brincar, o elogio do sagrado ripanço…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;_______________&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;&lt;b style="color: #660000;"&gt;[1] &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;Assim mesmo: para lhe deixar claro o caráter &lt;b&gt;prosaico&lt;/b&gt;, traduzi-a em &lt;b&gt;prosa&lt;/b&gt;. Ou pensavam que era sem querer?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;&lt;b style="color: #660000;"&gt;[2]&lt;/b&gt;&lt;/span&gt; Quando falo de anedotas, não falo de uma piada qualquer, nem sequer de uma letra narrativa humorística, mas sim de uma história com um desfecho que cria um efeito cómico – em princípio, visando provocar a gargalhada, mas, vá lá, no mínimo, um sorrisinho... &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;&lt;b style="color: #660000;"&gt;[3]&lt;/b&gt;&lt;/span&gt; Notem que a forma verbal “terá sido inventada” é um &lt;b style="mso-bidi-font-weight: normal;"&gt;futuro perfeito passivo&lt;/b&gt;, como convém à conversa…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;&lt;b style="color: #660000;"&gt;[4]&lt;/b&gt;&lt;/span&gt; De Aristide Bruant, muitas pessoas conhecem &lt;a href="http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/f/fe/Henri_de_Toulouse-Lautrec_002.jpg"&gt;o retrato feito por Henri de Toulouse-Lautrec&lt;/a&gt;, mas desconhecem as centenas de canções que compôs… Pois vale a pena conhecê-las!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2874386790023925718-4631385249256335411?l=llindegaard.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://llindegaard.blogspot.com/feeds/4631385249256335411/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2874386790023925718&amp;postID=4631385249256335411' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/4631385249256335411'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/4631385249256335411'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://llindegaard.blogspot.com/2011/08/adaptado-de-um-blogue-apagado-2-cantar.html' title='Adaptado de um blogue apagado #2: Cantar anedotas'/><author><name>V. M. Lucas Lindegaard</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06993438398319242184</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/__m_JLgYBQmc/SUEyD_uVH3I/AAAAAAAAAwY/luHWZ4Q7ilk/S220/V%C3%ADtor.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://img.youtube.com/vi/gDUm-l6TYwk/default.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2874386790023925718.post-5640066817975595133</id><published>2011-08-18T23:03:00.002+02:00</published><updated>2011-08-18T23:15:40.283+02:00</updated><title type='text'>Adaptado de um blogue apagado #1: Cantar a amizade, a primavera e o inverno</title><content type='html'>Há temas de canção que são recorrentes na tradição de um determinado país e que não se encontram ou são raros na tradição de outro país. O louvor da amizade, por exemplo, é um tema recorrente na canção francesa, mas não me parece que seja muito importante na canção portuguesa. É claro, não me citem nisto, porque se trata aqui de uma impressão apenas e não do resultado de uma pesquisa séria, mas não consigo lembrar-me de nenhuma canção portuguesa sobre amizade e lembro-me logo, sem ter de puxar muito pela cabeça, de muitas canções francesas com esse tema. Aliás, são sobre amizade algumas das minhas canções francesas preferidas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Georges Brassens, “Les copains d’abord” ("Primeiro os amigos"), 1964 &lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;iframe frameborder="0" height="25" src="http://www.youtube.com/embed/-3LsczFpwmQ" width="640"&gt;&lt;/iframe&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou convencido de que, depois do amor (que é sempre o tema mais recorrente nas canções de todas épocas e todos os lugares) a primavera e o verão, a chegada do bom tempo e o bom tempo, enfim, são os temas mais recorrentes na canção dinamarquesa. OK, talvez esteja a exagerar. Tenho de reconhecer mais uma vez que não é coisa que tenha verificado com rigor. Mas que é dos temas mais importantes da canção dinamarquesa, disso não tenho dúvida nenhuma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Benny Andersen &amp;amp; Povl Dissing, “Hilsen til forårssolen” ("Saudação ao sol da primavera", 1981 &lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;iframe frameborder="0" height="25" src="http://www.youtube.com/embed/IHKynhXCj44" width="640"&gt;&lt;/iframe&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É natural num país frio, dir-me-ão. No Canadá, porém, que é um país realmente frio, com um inverno incomparavelmente mais difícil do que o inverno dinamarquês (se bem que menos escuro, é verdade), é o próprio inverno que se canta, não a primavera nem o verão. E deixem-me agora corrigir o que acabo de escrever, sim? Não sei é assim em todo o Canadá, porque não conheço a canção canadiana de língua inglesa, mas, na canção quebequense que conheço, o inverno é um tema fundamental. Não é que não se cante também a primavera (estou a pensar, por exemplo, em &lt;a href="http://youtu.be/MSa9Ri2oCaw"&gt;“Hymne au Printemps”, de Félix Leclerc&lt;/a&gt;), mas creio que o inverno é tema mais recorrente. A beleza do Inverno, a sua força. E isso não cantam os dinamarqueses. Nem os portugueses nem os franceses. Mas é capaz de haver mais quem cante…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Gilles Vigneault, “Mon Pays” ("O meu país"), 1965&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;iframe frameborder="0" height="25" src="http://www.youtube.com/embed/AimhTD5oMEY" width="640"&gt;&lt;/iframe&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2874386790023925718-5640066817975595133?l=llindegaard.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://llindegaard.blogspot.com/feeds/5640066817975595133/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2874386790023925718&amp;postID=5640066817975595133' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/5640066817975595133'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/5640066817975595133'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://llindegaard.blogspot.com/2011/08/adaptado-de-um-blogue-apagado-1-cantar.html' title='Adaptado de um blogue apagado #1: Cantar a amizade, a primavera e o inverno'/><author><name>V. M. Lucas Lindegaard</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06993438398319242184</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/__m_JLgYBQmc/SUEyD_uVH3I/AAAAAAAAAwY/luHWZ4Q7ilk/S220/V%C3%ADtor.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://img.youtube.com/vi/-3LsczFpwmQ/default.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2874386790023925718.post-2034043445908402803</id><published>2011-08-17T21:09:00.007+02:00</published><updated>2011-08-17T21:14:54.322+02:00</updated><title type='text'>Matriculomancia</title><content type='html'>&lt;span lang="PT"&gt;A matriculomancia (inglês &lt;i&gt;platomancy&lt;/i&gt;, francês &lt;i&gt;placomancie&lt;/i&gt;) é a adivinhação do futuro a partir das matrículas dos carros. Este método divinatório assenta nos famosos princípios filosóficos de que nada acontece por acaso, porque Deus não joga aos dados, como se sabe; de que tudo está forçosamente interligado, porque senão o universo não faria sentido; e de que o que está em baixo é igual ao que está em cima, sendo o que está escrito nas chapas de matrícula, naturalmente, o mesmo que está escrito no grande livro do destino. Et cætera. &lt;/span&gt;  &lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Nenhum carro passa perto de nós sem que haja uma razão para tal. Pensem bem: de todos os carros do mundo porque haveria &lt;b&gt;aquele&lt;/b&gt; carro passar n&lt;b&gt;aquele&lt;/b&gt; lugar n&lt;b&gt;aquele&lt;/b&gt; momento? Mais do que razão, deve até falar-se de um sentido cósmico dessa passagem. E quem tiver olhos para ver verá. Se estivermos com atenção ao que se passa à nossa volta, todos temos – ou pelo menos eu tenho – várias possibilidades de comprovar na prática que as matrículas dos carros falam frequentemente connosco. Ainda no outro dia, por exemplo, o carro à frente do nosso tinha a matrícula FB 23 183 e era conduzido por uma amiga minha do Facebook. FB = FaceBook. Não vos parece que é demasiada coincidência? É evidente que aquela matrícula me queria dizer alguma coisa. Sabendo ler o significado oculto de letras e números, obtemos da matrícula de qualquer carro informações preciosas sobre o que o fado nos reserva. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-vE_kiMuu42g/TkwRkPx4ivI/AAAAAAAABZM/bpF-YpzBCKk/s1600/Mensagem+divina.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" height="311" src="http://1.bp.blogspot.com/-vE_kiMuu42g/TkwRkPx4ivI/AAAAAAAABZM/bpF-YpzBCKk/s640/Mensagem+divina.jpg" width="640" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Em cada chapa de matrícula, uma mensagem do divino&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Como ler o significado oculto das matrículas? Uma entrada de blogue não é o lugar ideal para revelar tão complexo conhecimento, mas, agora que sou dele depositário, estou a pensar, precisamente, em organizar uns seminários e uns cursos por correspondência para o divulgar. E a preços por tal sinal bastante em conta. Manter-vos-ei informados. &amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;O quê, não vos cheira? Bom, não sei porquê. Não é nem mais nem menos plausível do que qualquer outro método divinatório de que já tenham ouvido falar.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;––––––––&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Atenção!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;É frequente a confusão de &lt;b&gt;matriculomancia &lt;/b&gt;com &lt;b&gt;matriculomania&lt;/b&gt;, o vício de fazer apostas sobre as matrículas dos próximos carros a passar num determinado local. Tirando o facto de se centrarem as duas atividades nos carros que passam e de haver em ambas tentativa de adivinhação, não têm, claro está, nada a ver uma com a outra…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Muitos pensarão que a matriculomancia é uma forma de aritmancia ou numerologia (adivinhação pelos números), de nominomancia (adivinhação através de letras) ou até uma mistura das duas. Mas não. Pensar-se que letras e algarismos fazem sentido só por si ou como componentes de qualquer palavra ou número é, no mínimo, uma ideia abstrusa. Os números só fazem sentido quando reunidos numa placa de matrícula!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2874386790023925718-2034043445908402803?l=llindegaard.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://llindegaard.blogspot.com/feeds/2034043445908402803/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2874386790023925718&amp;postID=2034043445908402803' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/2034043445908402803'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/2034043445908402803'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://llindegaard.blogspot.com/2011/08/matriculomancia.html' title='Matriculomancia'/><author><name>V. M. Lucas Lindegaard</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06993438398319242184</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/__m_JLgYBQmc/SUEyD_uVH3I/AAAAAAAAAwY/luHWZ4Q7ilk/S220/V%C3%ADtor.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-vE_kiMuu42g/TkwRkPx4ivI/AAAAAAAABZM/bpF-YpzBCKk/s72-c/Mensagem+divina.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2874386790023925718.post-7272867389188702783</id><published>2011-08-17T00:11:00.003+02:00</published><updated>2011-08-17T21:03:32.870+02:00</updated><title type='text'>Medo das alturas</title><content type='html'>&lt;span lang="PT"&gt;&lt;b&gt;&lt;a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Acrophobia"&gt;Acrofobia&lt;/a&gt;&lt;/b&gt; é o medo das alturas. É um medo de que eu sofro e que, de vez em quando, me causa problemas. Neste momento, causa-me mesmo um grande problema: Quando alugámos a casa aqui em Tåsinge, que é uma ilha, descurámos um pormenor: a ilha só está ligada à cidade mais próxima, Svendborg, por uma ponte; e eu, vim a constatá-lo depois, não sou capaz de a atravessar nem a pé nem de bicicleta. Dificulta-me, dificulta-nos muito a vida. E encarece-a, também, porque o autocarro custa 19 coroas dinamarquesas (2,5 €). &lt;/span&gt;  &lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;É claro, não me limito a aceitar isto como um facto, pronto, ponto. Sei que há terapias para isto e espero ultrapassar em breve esta patetice. Agora, quando vejo fotos como uma que Studiolum publicou no seu diário &lt;a href="http://mesa-revuelta.blogspot.com/2011/08/rio-deva_10.html"&gt;&lt;i&gt;&lt;b&gt;mesa revuelta&lt;/b&gt;&lt;/i&gt;&lt;/a&gt;, fico mesmo &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: center;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;b&gt;&lt;a href="http://www.studiolum.com/wang/liebana/cable.jpg"&gt;sem palavras&lt;/a&gt;&lt;/b&gt;.&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2874386790023925718-7272867389188702783?l=llindegaard.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://llindegaard.blogspot.com/feeds/7272867389188702783/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2874386790023925718&amp;postID=7272867389188702783' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/7272867389188702783'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/7272867389188702783'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://llindegaard.blogspot.com/2011/08/medo-das-alturas.html' title='Medo das alturas'/><author><name>V. M. Lucas Lindegaard</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06993438398319242184</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/__m_JLgYBQmc/SUEyD_uVH3I/AAAAAAAAAwY/luHWZ4Q7ilk/S220/V%C3%ADtor.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2874386790023925718.post-6071434987103148468</id><published>2011-08-17T00:03:00.005+02:00</published><updated>2011-08-17T00:05:57.680+02:00</updated><title type='text'>O inferno</title><content type='html'>&lt;span lang="PT"&gt;Todos ouvimos já muitas vezes falar de infernos de gelo de outras tradições e até de tradições onde coexistem infernos de fogo e de gelo; e se o nosso Inferno mais regular é de fogo, &lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;também há partes do inferno que são geladas&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt; em descrições cristãs do inferno (ou, se preferirem, descrições do inferno cristão).&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Para a minha saudosa avó, o inferno era de chuva. Parece que a estou a ouvir, a conversar com a vizinha do lado:&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;  &lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;«Olhe, fiz agora um tanque de roupa, mas esta chuva é um inferno para enxugar…»&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/-_lK6VZQi4Ds/TkrooDgT6BI/AAAAAAAABZI/O3Yw5EBXVrg/s1600/Gustave+Dore+Inferno.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="503" src="http://4.bp.blogspot.com/-_lK6VZQi4Ds/TkrooDgT6BI/AAAAAAAABZI/O3Yw5EBXVrg/s640/Gustave+Dore+Inferno.jpg" width="640" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: left;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;b style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif;"&gt;&amp;nbsp;Gustave Doré, gravura para o canto 22, linha 19, do Inferno de Dante&lt;/b&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif;"&gt;(Wikimedia commons)&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2874386790023925718-6071434987103148468?l=llindegaard.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://llindegaard.blogspot.com/feeds/6071434987103148468/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2874386790023925718&amp;postID=6071434987103148468' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/6071434987103148468'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/6071434987103148468'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://llindegaard.blogspot.com/2011/08/o-inferno.html' title='O inferno'/><author><name>V. M. Lucas Lindegaard</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06993438398319242184</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/__m_JLgYBQmc/SUEyD_uVH3I/AAAAAAAAAwY/luHWZ4Q7ilk/S220/V%C3%ADtor.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/-_lK6VZQi4Ds/TkrooDgT6BI/AAAAAAAABZI/O3Yw5EBXVrg/s72-c/Gustave+Dore+Inferno.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2874386790023925718.post-7158338742188006507</id><published>2011-08-16T23:48:00.008+02:00</published><updated>2011-08-17T00:16:57.887+02:00</updated><title type='text'>Caligrafia, língua e cultura</title><content type='html'>&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;A letra das pessoas é, creio eu, culturalmente determinada. É certo que a variação individual é muito maior no que noutros componentes da cultura, como a língua, por exemplo. Na língua, a variação individual nunca se sobrepões ao que é comum a todos os falantes, mas na caligrafia isso é possível. Dito de outra maneira, ninguém fala português de uma forma não identificável como sendo de um determinado lugar (quanto mais não seja, europeu, brasileiro, moçambicano, etc.), mas é perfeitamente possível ter uma letra que ninguém saiba de onde é. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;O que é mais normal, no entanto, é ter a letra da sua terra. Creio que isto é óbvio para pessoas que, como eu, tenham passado muitos anos a ver caligrafia de gente de muitas nacionalidades. Com um certo treino, consegue-se até adivinhar, em muitos casos, a nacionalidade de pessoa só pela sua letra – se ela tiver uma letra standard do seu país, claro está. Só à laia de exemplo, deixo-vos três bocadinhos de textos manuscritos de pessoas de nacionalidade alemã, todas elas nascidas por volta de 1960. Como podem ver, há um padrão comum a todas elas, que é diferente do padrão de caligrafia de portugueses ou franceses da mesma idade.&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/-dNKZsHCF0YM/TkrjGZgkIDI/AAAAAAAABZA/sjfrkLXQDdo/s1600/3+German.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="508" src="http://4.bp.blogspot.com/-dNKZsHCF0YM/TkrjGZgkIDI/AAAAAAAABZA/sjfrkLXQDdo/s640/3+German.jpg" width="640" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Agora, a caligrafia, como muitos outros aspetos da cultura de cada um, deve levar-nos a refletir sobre aspetos da cultura que se costumam deixar de lado quando se fala das culturas étnico-nacionais – “a cultura portuguesa” ou “a cultura dinamarquesa”, etc. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Um aspeto fundamental muitas vezes esquecido é que nenhuma cultura é trans-histórica: uma caligrafia portuguesa do século passado é mais parecida com, ponhamos, uma caligrafia polaca do século passado do que com uma caligrafia portuguesa de hoje – e provavelmente passa-se o mesmo com a cultura no seu todo… &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;E o facto de os padrões de caligrafia variarem em função não só de nacionalidades mas também de gerações leva-nos forçosamente a questionarmo-nos sobre como se processa a transmissão de cultura. Não parece fazer sentido que ela se passe apenas (sob a forma de &lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Meme"&gt;memes&lt;/a&gt; ou sob outra forma qualquer) de uma geração para a geração seguinte, como se costuma postular. O que se passa com a caligrafia é, aliás, observável de forma ainda mais evidente relativamente à língua. &lt;a href="http://judithrichharris.info/"&gt;Judith Harris&lt;/a&gt; defende que, se os filhos falam com o sotaque do meio em que cresceram e não com o sotaque dos pais (a não ser claro, que os pais falem com o sotaque do meio em que as crianças cresceram...&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;), devíamos tirar desse facto simples algumas ilações sobre como se transmite a cultura (e a personalidade, mas deixo agora de lado essa questão) – ou, no mínimo, interrogar-nos e rever as conceções dominantes sobre essa transmissão vertical. Independentemente do que se possa pensar da teoria de Harris relativamente à formação da personalidade, há que considerar seriamente a hipótese de a cultura, como a língua, ser transmitida essencialmente por pares e não pelas gerações anteriores. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;b&gt;&lt;a href="http://www.edge.org/3rd_culture/serpentine07/Harris_J.html"&gt;Fórmula deJudith Harris&lt;/a&gt; para &lt;a href="http://www.edge.org/3rd_culture/serpentine07/serpentine07_index.html"&gt;Formulae for the 21st Century&amp;nbsp;do World Question Center da Edge.org&lt;/a&gt;&lt;/b&gt; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/-Hkz49mjthtw/Tkrk9XTIAGI/AAAAAAAABZE/58oIILSZZdI/s1600/Judith+Harris+Diagram.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="636" src="http://2.bp.blogspot.com/-Hkz49mjthtw/Tkrk9XTIAGI/AAAAAAAABZE/58oIILSZZdI/s640/Judith+Harris+Diagram.jpg" width="640" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;E o que eu digo é o mesmo: não pode ser com os professores que as pessoas aprendem a sua caligrafia, senão teriam a mesma caligrafia que eles. Tem de ser com os seus pares. Com os pares ligeiramente mais velhos, seguramente, mas com os seus pares. Assim, já faz sentido haver caligrafias nacionais e geracionais.&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;span style="color: #660000;"&gt;[Para mais discussão do conceito de cultura neste blogue, vejam, por exemplo,&lt;/span&gt; &lt;b&gt;&lt;a href="http://llindegaard.blogspot.com/2008/02/sandes-diz-ele-com-garfo-e-batatas.html"&gt;aqui&lt;/a&gt;&lt;/b&gt; &lt;span style="color: #660000;"&gt;e&lt;/span&gt; &lt;b&gt;&lt;a href="http://llindegaard.blogspot.com/2011/02/cultura-de-novo-uma-sintese-de-ideias.html"&gt;aqui&lt;/a&gt;&lt;/b&gt;. &lt;span style="color: #660000;"&gt;Para mais discussão do papel dos pares na transmissão da língua, vejam&lt;/span&gt; &lt;b&gt;&lt;a href="http://llindegaard.blogspot.com/2008/01/por-que-que-os-midos-no-falam-como-os.html"&gt;aqui&lt;/a&gt;&lt;/b&gt;]&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2874386790023925718-7158338742188006507?l=llindegaard.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://llindegaard.blogspot.com/feeds/7158338742188006507/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2874386790023925718&amp;postID=7158338742188006507' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/7158338742188006507'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/7158338742188006507'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://llindegaard.blogspot.com/2011/08/normal-0-21-false-false-false-style.html' title='Caligrafia, língua e cultura'/><author><name>V. M. Lucas Lindegaard</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06993438398319242184</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/__m_JLgYBQmc/SUEyD_uVH3I/AAAAAAAAAwY/luHWZ4Q7ilk/S220/V%C3%ADtor.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/-dNKZsHCF0YM/TkrjGZgkIDI/AAAAAAAABZA/sjfrkLXQDdo/s72-c/3+German.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2874386790023925718.post-5762008142499210634</id><published>2011-08-09T23:39:00.001+02:00</published><updated>2011-08-10T00:57:45.179+02:00</updated><title type='text'>Crónicas de Svendborg #3: Muito azeite e muita manteiga</title><content type='html'>&lt;span lang="PT"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Costuma traçar-se linhas que unem zonas de, por exemplo, igual temperatura, as isotérmicas. Em dialetologia, traçam-se linhas que dividem zonas de pronúncia ou léxico diferentes, a que se chama &lt;b&gt;&lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Isoglossa"&gt;isoglossas&lt;/a&gt;&lt;/b&gt;. Também é possível fazer o mesmo em relação à gastronomia (e alguém já o deve ter feito...), mas não sei como se poderia chamar a essas linhas. Aceito propostas – desde que não sejam isogástricas, isso está fora de questão.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Na Europa, por exemplo, uma linha fundamental que se pode traçar é a que separa a cozinha a azeite da cozinha a manteiga (tradicionalmente, note-se, porque hoje cozinha-se com todos os ingredientes em todo o lado)&lt;b style="color: #660000;"&gt;*&lt;/b&gt;. E a cultura do azeite e a cultura da manteiga têm, cada uma, marcas linguísticas surpreendentes, para quem venha da outra cultura: os dinamarqueses admiram-se quando eu lhes digo que temos uma expressão (ser coruja) para designar o hábito de pôr muito azeite na comida e os portugueses surpreendem-se quando lhes digo que existe em dinamarquês um nome, &lt;i&gt;tandsmør&lt;/i&gt;, que designa o ato de pôr muita manteiga no pão. Muita mesmo, assim uma camada com meio centímetro ou mais de espessura…&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="PT"&gt;______________&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;span style="color: #660000; font-size: small;"&gt;&lt;b&gt;*&lt;/b&gt;&lt;/span&gt; É uma divisão diferente da que assinalam as isotérmicas  ou as isoglossas, note-se, porque também há manteiga na zona de cozinha a azeite, mas não há azeite na zona de cozinha a manteiga...&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2874386790023925718-5762008142499210634?l=llindegaard.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://llindegaard.blogspot.com/feeds/5762008142499210634/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2874386790023925718&amp;postID=5762008142499210634' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/5762008142499210634'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/5762008142499210634'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://llindegaard.blogspot.com/2011/08/cronicas-de-svendborg-3-muito-azeite-e.html' title='Crónicas de Svendborg #3: Muito azeite e muita manteiga'/><author><name>V. M. Lucas Lindegaard</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06993438398319242184</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/__m_JLgYBQmc/SUEyD_uVH3I/AAAAAAAAAwY/luHWZ4Q7ilk/S220/V%C3%ADtor.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2874386790023925718.post-2250774471376019973</id><published>2011-08-09T23:19:00.002+02:00</published><updated>2011-08-09T23:22:38.166+02:00</updated><title type='text'>Algumas notas sobre conservadorismo</title><content type='html'>&lt;span lang="PT"&gt;George Orwell escreveu uma vez sobre Rudyard Kipling: «Embora não estivesse diretamente ligado a nenhum partido político, Kipling era um Conservador, uma coisa que não existe hoje em dia». &lt;a href="http://orwell.ru/library/reviews/kipling/english/e_rkip"&gt;O texto que cito&lt;/a&gt; é de fevereiro de 1942, e é isto que acho interessante: Segundo Orwell, já não havia conservadores naquela altura.&lt;/span&gt;  &lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="PT"&gt;É bem possível que já não houvesse muitos, como hoje, muito provavelmente (isto são tudo impressões apenas, de Orwell e minhas…), também não há muitos. Pelo menos, nos programas políticos e no discurso político. Conservador é alguém que quer conservar as coisas como elas estão e, mesmo nos partidos que se dizem conservadores, estou convencido que não há muita gente assim. Encontro com muito mais frequência conservadorismo na conversa de autocarro ou de café do que no discurso político, que propõe quase sempre alterações – nem que seja, como diz o conhecido aforismo, para no fundo tudo continuar exatamente na mesma… &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="color: #660000; text-align: center;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-size: large;"&gt;***&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Muitas vezes me lembro da frase célebre de Paul Valéry &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span lang="FR"&gt;Le monde ne vaut que par les extrêmes et ne dure que par les moyens Il ne vaut que par les ultras et ne dure que par les modérés&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="color: #660000;"&gt;[1]&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;, “O mundo só vale pelos extremos e só dura pelos médios. Só vale pelos radicais e só dura pelos moderados”. E muitas vezes a reinterpreto substituindo &lt;b&gt;moderados&lt;/b&gt; por &lt;b&gt;conservadores&lt;/b&gt;, dando a estes últimos um papel afinal importante na História do mundo: ser um dos pólos da sua tensão, resistir às mudanças. Acho até que, de alguma forma, toda a gente acaba por ser conservadora nalguma coisa, de se acomodar no conforto do que já é, do que não precisa de ser inventado e construído. Mas, no geral, surpreende-me a posição conservadora: ser conservador só faz sentido num mundo que se considera suficientemente bom para não se o querer alterar – e não é nada assim que eu considero o mundo em que vivo. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="color: #660000; text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;***&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Se se associa normalmente conservadorismo à direita, a verdade é que o conservadorismo não tem de ser, nem é de facto, exclusivamente de direita. Não só há gente de esquerda conservadora, como há até módulos conservadores em certas ideias de esquerda, nomeadamente no que toca ao respeito de tradições e identidades, e também à preservação da natureza &lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="color: #660000;"&gt;[2]&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;. &lt;a href="http://fr.wikipedia.org/wiki/Pierre-Andr%C3%A9_Taguieff"&gt;Pierre-André Taguieff&lt;/a&gt;, por exemplo, propõe um conservadorismo de esquerda: «&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Perante o imperativo único de “andar para a frente” (reforma perpétua e revolução interminável”, a resistência tem de apoiar‑se num projeto de conservação ou de preservação», diz ele em &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span lang="FR"&gt;Résister au bougisme&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span lang="FR" style="color: #660000;"&gt;[3]&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;. «Se o termo “conservadorismo” não se tivesse tornado difícil de usar devido à acumulação de maus usos que dele foram feitos (…), poderia desempenhar o papel de indicador, e até mesmo de bandeira, da nova postura “resistencial”. Porque, na conjuntura atual, é apenas com base em exigências conservadoras que pode redefinir‑se a resistência à desumanização técnico‑mercantil do mundo.» E cita, a propósito, o «filósofo e militante antinuclear» &lt;/span&gt;&lt;a href="http://en.wikipedia.org/wiki/G%C3%BCnther_Anders"&gt;&lt;span lang="DE"&gt;Günther Anders&lt;/span&gt;&lt;span lang="DE"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span lang="PT"&gt; («Sou um “conservador” em questões de ontologia, porque o que me importa hoje, pela primeira vez, é conservar o mundo tal como ele é.»), o filósofo &lt;/span&gt;&lt;span lang="FR"&gt;&lt;span id="goog_466449308"&gt;&lt;/span&gt;&lt;a href="http://fr.wikipedia.org/wiki/Jean-Claude_Mich%C3%A9a"&gt;Jean-Claude Michéa&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/"&gt;&lt;/a&gt;&lt;span id="goog_466449309"&gt;&lt;/span&gt; (“um certo grau de conservadorismo crítico constitui agora um dos alicerces indispensáveis de toda a crítica radical da modernidade capitalista”. ) e o «liberal lúcido» &lt;/span&gt;&lt;a href="http://fr.wikipedia.org/wiki/Pascal_Bruckner"&gt;&lt;span lang="FR"&gt;Pascal Bruckner&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span lang="FR"&gt;&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt; (“O conservadorismo inteligente deveria tornar‑se um valor de esquerda: a vontade de salvaguardar o mundo, de preservar para as gerações futuras as possibilidades de uma vida humana”).&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Ora, se, por um lado, não considero o estado do mundo suficientemente perfeito para o querer conservar, tenho, por outro lado, uma visão da evolução do mundo muito mais otimista do que estes senhores e do que a maior parte dos conservadores; e, não receio, ao contrário de Camus, que “o mundo se desfaça&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="color: #660000;"&gt;[4]&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;”. É certo que as mudanças não são desejáveis só por si e que nem todas as mudanças são positivas, mas acho que, no geral, tudo tem mudado mais para melhor do que para pior e o mundo é hoje, com as suas muitas injustiças, mais justo do que em qualquer outro período da História humana; e a vida das pessoas, com os muitos sofrimentos que persistem, alguns desnecessariamente, é mais longa, mais saudável e mais fácil do que alguma vez foi para a maioria dos seres humanos.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="color: #660000; text-align: center;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-size: large;"&gt;***&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Parece-me que uma das razões do sucesso da extrema-direita atual vem de ela ter incorporado a ideologia conservadora das conversas de autocarro e de café que o resto da direita já não ostenta no discurso político. De facto, os neofascismos de hoje assumem-se como conservadores, coisa que os fascismos originais, digamos assim, o nacional-socialismo e o fascismo italiano, em princípio não eram&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="color: #660000;"&gt;[5]&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;_______________&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;&lt;b style="color: #660000;"&gt;[1]&lt;/b&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;i&gt;Tel quel I&lt;/i&gt;, 1941, p. 192.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;b style="color: #660000;"&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;[2]&lt;/span&gt;&lt;/b&gt; &lt;span style="font-size: small;"&gt;Relativamente a isto de conservar, podem dar-se casos curiosos, como aquele que foi motivação direta deste texto: O Partido Popular Dinamarquês, de extrema-direita, apoiou a resistência dos ecologistas à instalação de moinhos de vento em Østerild Klitplantage, em Thy. Mas, claro, pode discutir-se até que ponto é que o Partido Popular Dinamarquês, que é, em muitos aspetos, extremamente conservador, neste caso não o é apenas por estratégia política…&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="color: #660000;"&gt;[3]&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-size: small;"&gt;Esta citação e as citações de Günther Anders, Jean-Claude Michéa e Pascal Bruckner por Taguieff, que aparecem a seguir, são de &lt;i&gt;Resistir ao Para-a-frentismo&lt;/i&gt;, Lisboa: Campo da Comunicação, 2002, p. 132.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="color: #660000;"&gt;[4] &lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Albert Camus, &lt;a href="http://nobelprize.org/nobel_prizes/literature/laureates/1957/camus-speech-f.html"&gt;discurso proferido emEstocolmo a 10 de dezembro de 1957, na entrega oficial do prémio Nobel&lt;/a&gt;, também citado por Taguieff.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="color: #660000;"&gt;[5]&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-size: small;"&gt;Foram-no muito outros fascismos, é certo, como o fascismo espanhol e o fascismo português; mas talvez um pouco menos do que pode parecer à primeira vista, porque uma parte do que se propunham “conservar” tinha sido, afinal, inventado por eles…&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2874386790023925718-2250774471376019973?l=llindegaard.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://llindegaard.blogspot.com/feeds/2250774471376019973/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2874386790023925718&amp;postID=2250774471376019973' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/2250774471376019973'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/2250774471376019973'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://llindegaard.blogspot.com/2011/08/algumas-notas-sobre-conservadorismo.html' title='Algumas notas sobre conservadorismo'/><author><name>V. M. Lucas Lindegaard</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06993438398319242184</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/__m_JLgYBQmc/SUEyD_uVH3I/AAAAAAAAAwY/luHWZ4Q7ilk/S220/V%C3%ADtor.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2874386790023925718.post-3803201216057139371</id><published>2011-08-08T16:21:00.007+02:00</published><updated>2011-08-09T23:52:31.333+02:00</updated><title type='text'>Inventário # 1: O sótão da memória</title><content type='html'>&lt;span lang="PT"&gt;&lt;b&gt;Sótão da memória&lt;/b&gt; (cerca de 5800 ocorrências em Google) parece ser uma metáfora comum para a parte mais recôndita das nossas recordações&lt;b style="color: #660000;"&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;[1]&lt;/span&gt;,&lt;/b&gt; mas a verdade é que os sótãos conservam muito melhor o passado do que seja lá que parte for da memória&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;&lt;b style="color: #660000;"&gt;[2]&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;. &lt;/span&gt;  &lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Subi e desci umas 50 vezes a escada das traseiras do nº 15 da &lt;a href="http://ef-brohus.dk/"&gt;Brohus&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;, em Copenhaga, &lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;onde temos um apartammento no rés do chão. A 75 degraus para cima e outros 75 para baixo, dá 7500 degraus. Em dois dias, é verdade, mas não deixa de ser um bom exercício para as pernas. Foi ir buscar o que tínhamos empacotado em regulares &lt;/span&gt;&lt;a href="http://www.linds.dk/img/8803072/mg/10-stk-flyttekasser-556x380x373mm-senior.aspx.jpg"&gt;&lt;i&gt;flytekasser&lt;/i&gt;&lt;/a&gt;&lt;span lang="PT"&gt;, “caixas de mudança”, há 5 anos ou mais; desempacotar; seleccionar o que fazia sentido guardar; e voltar a empacotar para trazer para a nova casa em Svendborg. Agora, como disse várias vezes a minha mulher, nós sabíamos que tínhamos uma vida anterior a Moçambique, mas não sabíamos bem que vida era. E ficámos a saber. Guardadas no sótão estavam coisas como&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;&lt;b style="color: #660000;"&gt;[3]&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;um dicionário de expressões do Yorkshire, onde se fica a saber, por exemplo, que &lt;i&gt;powfagged&lt;/i&gt; significa “estafado” ou que &lt;i&gt;kag ‘anded&lt;/i&gt; (assim mesmo, sem agá) significa “canhoto” ou “desajeitado”;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;um berço de vime, com uma pele de cordeiro por cima do minúsculo colchão, onde a Karen dormiu em bebé, e antes dela as irmãs mais velhas, e depois dela o irmão mais novo e todas as seis sobrinhas, e a Siri, e não sabemos a quem servirá a seguir;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;a href="http://cgi.ebay.com/4-CUSTOM-Scandinavia-Knife-Bushcraft-Camping-Hunting-/250752201175"&gt;uma faca da Lapónia&lt;/a&gt;, com cabo diz que de osso de rena, que me ofereceram uma vez pelo Natal, em &lt;a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Haparanda"&gt;Haparanda&lt;/a&gt;; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;o &lt;i&gt;Feiticeiro de Oz&lt;/i&gt;, &lt;a href="http://youtu.be/8hXxwpCTfEA"&gt;em versão &lt;i&gt;pop up&lt;/i&gt; de Robert Sabuda&lt;/a&gt;, comprado em Bradford pela módica quantia de 16,99 libras, porque foi impresso na Colômbia e todo montado à mão no Equador, onde o trabalho é pago a preços de miséria…;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;fotocópias de uma edição bilingue da poética de Aristóteles, no original grego e em francês;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;duas cadeiras malauianas de madeira apenas e várias cadeiras dinamarquesas de assentos com listas verdes e vermelhas;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;um par de esquis, com as respetivas botas e os respetivos bastões;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;uma máquina de coser Singer, que a minha avó – e muita gente – pronunciava com o som [&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Ʒ&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;] de singelo;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;uma canequinha de Coimbra, com um desenho de um gnomo montado num caracol, em que eu bebia leite em pequeno e as tigelas e pratos amarelos em que a Karen toda a infância tomou o pequeno-almoço;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;um livro de moradas que me acompanhou creio que de 1983 a 1996, cheio de endereços e números de telefones que pessoas que não faço ideia onde param, que já morreram ou que nem me lembro, nalguns casos, quem são (e que tem um desenho à largura das guardas, com o seguinte texto: “Cá ‘stou mais um vez / tomara que a derradeira / sem ter nada em que pensar / a não ser na vida inteira”).&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/-KL662fAp8yU/Tj_wHqOD7MI/AAAAAAAABY8/KEON8sbvL2E/s1600/C%25C3%25A1+estou+eu+mais+uma+vez.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="530" src="http://2.bp.blogspot.com/-KL662fAp8yU/Tj_wHqOD7MI/AAAAAAAABY8/KEON8sbvL2E/s640/C%25C3%25A1+estou+eu+mais+uma+vez.jpg" width="640" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Chiça, que tenho – temos todos – tantas coisas! … Que não servem, a maior parte delas, para coisíssima nenhuma…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;___________&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;&lt;b style="color: #660000;"&gt;[1]&lt;/b&gt;&lt;/span&gt; A não ser que se entenda também esta preposição &lt;b&gt;de&lt;/b&gt; como uma marca de identificação e a expressão queira dizer que a memória é que é o sótão. Como diz, e muito bem, o Fernando Relvas na explicação, a quem não fale português, do que significa o título do seu blogue, &lt;a href="http://urso-do-relvas.tumblr.com/"&gt;&lt;i&gt;Urso do Relvas&lt;/i&gt;&lt;/a&gt;, este &lt;b&gt;de&lt;/b&gt; ambíguo tanto nos pode levar a concluir que o Relvas tem um urso como que o Relvas é um urso… &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;&lt;b style="color: #660000;"&gt;[2]&lt;/b&gt;&lt;/span&gt; Continuando na maré de ambiguidades iniciada na nota de rodapé anterior, eis aqui mais um excelente exemplo de uma frase ambígua, que é algo de gosto muito (gosto muito de frases ambíguas, entenda-se, não de excelentes exemplos de frases ambíguas, embora, claro, como amante de ambiguidades não possa deixar de apreciar os excelentes exemplos das ditas …): de facto, o que eu quero dizer e espero que tenham compreendido é que os sótãos conservam melhor o passado do que a memória conserva o passado, e não que os sótãos conservam melhor o passado do que os sótãos conservam a memória… Hmmm… Enfim, eu percebo-me, como dizem os franceses. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="color: #660000;"&gt;[3] &lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;Como processo literário, o inventário (desculpem a cacofonia, sim?) é tipicamente surrealista, ou, talvez antes, tipicamente &lt;a href="http://fr.wiktionary.org/wiki/inventaire_%C3%A0_la_Pr%C3%A9vert"&gt;prevertiano&lt;/a&gt;. Poder-se-ia dizer que Prévert &lt;b&gt;preverteu&lt;/b&gt; o inventário. Em português, só conheço os inventários de Alexandre O’Neill (por exemplo, &lt;b&gt;&lt;a href="http://bloguedeletras.blogspot.com/2008/03/inventrio-de-alexandre-oneill.html"&gt;este&lt;/a&gt;&lt;/b&gt;), que não são verdadeiros inventários surrealistas, até porque O’Neill provavelmente nunca embarcou realmente no devaneio surrealista. Outra maneira de dizer isto é que O’Neill sempre foi mais o’neillíco do que o’nírico… &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2874386790023925718-3803201216057139371?l=llindegaard.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://llindegaard.blogspot.com/feeds/3803201216057139371/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2874386790023925718&amp;postID=3803201216057139371' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/3803201216057139371'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/3803201216057139371'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://llindegaard.blogspot.com/2011/08/inventario-1-o-sotao-da-memoria.html' title='Inventário # 1: O sótão da memória'/><author><name>V. M. Lucas Lindegaard</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06993438398319242184</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/__m_JLgYBQmc/SUEyD_uVH3I/AAAAAAAAAwY/luHWZ4Q7ilk/S220/V%C3%ADtor.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/-KL662fAp8yU/Tj_wHqOD7MI/AAAAAAAABY8/KEON8sbvL2E/s72-c/C%25C3%25A1+estou+eu+mais+uma+vez.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2874386790023925718.post-7168741770142003765</id><published>2011-08-08T16:03:00.002+02:00</published><updated>2011-08-08T16:04:44.040+02:00</updated><title type='text'>Crónicas de Svendborg #2: Strandby</title><content type='html'>&lt;span lang="PT"&gt;A quem pense que a primeira loja de qualquer povoação é sempre uma taberna, apresento-lhe a vila de &lt;b&gt;&lt;a href="http://da.wikipedia.org/wiki/Strandby_Havn"&gt;Strandby&lt;/a&gt;&lt;/b&gt;, no Norte da Jutlândia:&lt;/span&gt;   &lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Strandby é um dos maiores portos de pesca da Dinamarca. No porto, perto da lota e dos vários armazéns de firmas de exportação de peixe, há um restaurante chamado A Estrela do Mar, onde nos sentamos a tomar uma bebida.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;“Um café com toldos da Carlsberg em Strandby! Quem imaginaria uma coisa assim quando eu era rapaz novo?”, comenta o meu cunhado.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;A família da minha mulher viveu – e uma parte dela ainda vive – ali na zona. Foi ali que a minha mulher cresceu.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Quando eles eram jovens, explicam a minha mulher e o irmão dela, era completamente impossível comprar um gota de álcool que fosse em Strandby e arredores. O sítio mais próximo onde se podia tomar uma cerveja ou uma aguardente era um quiosque em Bratten. Chamavam-lhe &lt;/span&gt;&lt;i&gt;drukrutte&lt;/i&gt;&lt;span lang="PT"&gt;, a “rota da bebedeira”. Em Strandby, não havia nem sequer uma pastelaria.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;“Havia só a casa dos pescadores, onde se podia beber café. Álcool, em Strandby? ‘Tás maluco ou quê? Nem sonhar.”&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Estou-vos a falar de há 30 anos, não de há 150, e Strandby não era nenhum lugarejo perdido. Já nessa altura havia a lota e as firmas de exportação de pescado, já a vila era um porto de pesca importante. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;“Era a cultura da gente da pesca. Eram todos da &lt;i&gt;&lt;b&gt;&lt;a href="http://en.wikisource.org/wiki/The_New_International_Encyclop%C3%A6dia/Inner_Mission"&gt;Indre Mission&lt;/a&gt;&lt;/b&gt;&lt;/i&gt;, a &lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;“&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Missão Interior”. Também não se podia cortar relva, nem fazer fosse lá o que fosse ao domingo; ninguém podia usar joias nem nenhum tipo de adornos; e os miúdos não podiam ir a festas de aniversário dos colegas, porque todas as festas eram proibidas…”&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Strandby, portanto, no Norte da Dinamarca, nos anos 80 do século XX.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2874386790023925718-7168741770142003765?l=llindegaard.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://llindegaard.blogspot.com/feeds/7168741770142003765/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2874386790023925718&amp;postID=7168741770142003765' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/7168741770142003765'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/7168741770142003765'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://llindegaard.blogspot.com/2011/08/cronicas-de-svendborg-2-strandby.html' title='Crónicas de Svendborg #2: Strandby'/><author><name>V. M. Lucas Lindegaard</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06993438398319242184</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/__m_JLgYBQmc/SUEyD_uVH3I/AAAAAAAAAwY/luHWZ4Q7ilk/S220/V%C3%ADtor.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2874386790023925718.post-2453981019584341166</id><published>2011-08-08T16:00:00.005+02:00</published><updated>2011-08-15T23:41:50.915+02:00</updated><title type='text'>Crónicas de Svendborg # 1: Søren Kanne</title><content type='html'>&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;O comboio que, à chegada à Dinamarca, apanhámos de Copenhaga para Slagelse chamava-se Søren Kanne. Gosto da ideia de os comboios terem &lt;a href="http://www.dsb.dk/om-dsb/virksomheden/tog-i-drift/navne-og-udsmykning/"&gt;nomes&lt;/a&gt;, que são também temas. No Søren Kanne, conta-se, em painéis espalhados pelo comboio, a história do camponês da Jutlândia que lhe deu o nome. Ou melhor, o seu feito heroico, porque é a esse feito heroico que se resume hoje a história do homem. Traduzo &lt;a href="http://da.wikipedia.org/wiki/S%C3%B8ren_Kanne"&gt;o texto da Wikipédia em dinamarquês&lt;/a&gt;, que não é muito diferente do texto que se pode ler no comboio:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;blockquote style="color: #660000;"&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;A 15 de fevereiro de 1835, afundou-se o navio Benthe Marie, de Helsingør, a cerca de 50 metros de Grenå Sønderstrand. Um dos três tripulantes afogou-se e outro nadou para terra, ficando o capitão Ole Jensen Jyde agarrado aos restos do barco. Søren Kanne, que morava na Casa da Praia, em Hessel Hede, a sul de Grenå, foi, com dois cavalos, até ao barco, montou o capitão num dos cavalos e trouxe-o assim para terra, salvando-o. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;O acontecimento foi referido em vários jornais, na sequência do artigo de 24 de março do &lt;i&gt;Semanário do Camponês Dinamarquês&lt;/i&gt;. Em Århus, na sequência do artigo do jornal &lt;i&gt;Aarhuus Stiftstidende&lt;/i&gt;, fez-se uma coleta para uma bandeja de prata para Søren Kanne e o rei Frederico VI condecorou-o com uma Medalha de Salvamento de Afogados e deu-lhe 40 táleres. Steen Steensen Blicher escreveu também um poema, “&lt;/span&gt;En ny Vise om en Sømand og en Landmand&lt;span lang="PT"&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;&lt;b style="color: #660000;"&gt;[1]&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;”, sobre o feito de Søren Kanne. E vejam lá, a poesia, que normalmente não serve para nada, serviu neste caso para preservar e divulgar a história de Søren Kanne. Não fosse o poema de Blicher e não haveria hoje, tenho a certeza, nenhum comboio chamado Søren Kanne. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;“O resto da vida de Søren Kanne”, continua o texto da Wikipédia, “foi sem grandes acontecimentos e, ironicamente, veio a morrer afogado no ribeiro de Grenå&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;&lt;b style="color: #660000;"&gt;[2]&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;.” &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Acabasse aqui o texto da Wikipédia e teríamos, na minha opinião, mais uma prova de que &lt;a href="http://llindegaard.blogspot.com/2008/06/mortes-anunciadas-de-gente-e-igrejas-o.html"&gt;há textos que, sem a isso aspirarem, conseguem maravilhas de literariedade&lt;/a&gt;.&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;_______________&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;&lt;b style="color: #660000;"&gt;[1]&lt;/b&gt;&lt;/span&gt; “Uma nova canção sobre um marinheiro e um camponês”, &lt;b&gt;&lt;a href="http://www.adl.dk/adl_pub/pg/cv/AsciiPgVaerk2.xsql?nnoc=adl_pub&amp;amp;p_udg_id=195&amp;amp;p_vaerk_id=7115"&gt;aqui&lt;/a&gt; &lt;/b&gt;em dinamarquês, para quem saiba ler a língua de Blicher… Porque não o traduzo eu? Sinceramente, porque acho que não vale o trabalho... &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="color: #660000;"&gt;[2]&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt; Na Dinamarca, não sei se os meus leitores o saberão, não há um único rio – só cursos de água muito pequenos. Pequena como esses ribeiros é a palavra que os designa em dinamarquês, &lt;b style="mso-bidi-font-weight: normal;"&gt;å&lt;/b&gt;. Juntamente com &lt;b style="mso-bidi-font-weight: normal;"&gt;ø&lt;/b&gt;, que significa ilha, é um dos substantivos mais curtos das línguas europeias. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2874386790023925718-2453981019584341166?l=llindegaard.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://llindegaard.blogspot.com/feeds/2453981019584341166/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2874386790023925718&amp;postID=2453981019584341166' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/2453981019584341166'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/2453981019584341166'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://llindegaard.blogspot.com/2011/08/cronicas-de-svendborg-1-sren-kanne.html' title='Crónicas de Svendborg # 1: Søren Kanne'/><author><name>V. M. Lucas Lindegaard</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06993438398319242184</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/__m_JLgYBQmc/SUEyD_uVH3I/AAAAAAAAAwY/luHWZ4Q7ilk/S220/V%C3%ADtor.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2874386790023925718.post-7517521227628799304</id><published>2011-05-31T11:51:00.001+02:00</published><updated>2011-05-31T11:51:48.296+02:00</updated><title type='text'>De Chimoio para Svendborg: Encerrados para férias [um post para os amigos]</title><content type='html'>&lt;h1&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=2874386790023925718&amp;amp;postID=7517521227628799304" name="_Toc294600267"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;/h1&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Não conheço Gaza e conheço pouco Inhambane e Cabo Delgado. Nunca fiz a viagem de comboio de Nampula para Cuamba. Já me disseram que é sinal de que hei-de voltar. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;No total, a Karen e eu vivemos aqui 7 anos – o que, se vivermos o que se costuma nas nossas terras, é quase um décimo da nossa vida. Para o Alexander, a Joana e a Siri, esta é, em grande parte, a sua terra, porque viveram mais aqui do que noutro sítio qualquer. Havemos todos de ter muitas saudades do planalto de Manica, isso é certo, como já temos de Nampula e, sobretudo, da Alta Zambézia. Havemos todos de ter muitas saudades de Moçambique, seja.&amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Saímos de Moçambique no dia 15, mas fico sem internet hoje. O blogue encerra, então, para férias e mudança de instalações, digamos assim. Quando reabrir, deveria, pela lógica, passar a estar incluído no agregador de blogues e sites da Dinamarca, mas duvido que isso exista… E ‘tou com’ò outro que diz: “Agradecemos a vossa continuação”!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2874386790023925718-7517521227628799304?l=llindegaard.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://llindegaard.blogspot.com/feeds/7517521227628799304/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2874386790023925718&amp;postID=7517521227628799304' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/7517521227628799304'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/7517521227628799304'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://llindegaard.blogspot.com/2011/05/de-chimoio-para-svendborg-encerrados.html' title='De Chimoio para Svendborg: Encerrados para férias [um post para os amigos]'/><author><name>V. M. Lucas Lindegaard</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06993438398319242184</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/__m_JLgYBQmc/SUEyD_uVH3I/AAAAAAAAAwY/luHWZ4Q7ilk/S220/V%C3%ADtor.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2874386790023925718.post-9047074265662453708</id><published>2011-05-31T11:45:00.006+02:00</published><updated>2011-06-06T09:20:15.482+02:00</updated><title type='text'>Um bicho de muitas cabeças</title><content type='html'>&lt;span lang="PT"&gt;Vi na semana passada &lt;i&gt;&lt;b&gt;&lt;a href="http://youtu.be/rFH9P7W8MO0"&gt;Mother and Child&lt;/a&gt;&lt;/b&gt;&lt;/i&gt;, um filme do realizador colombiano &lt;b&gt;&lt;a href="http://es.wikipedia.org/wiki/Rodrigo_Garc%C3%ADa_Barcha"&gt;Rodrigo García Barcha&lt;/a&gt;&lt;/b&gt;. É um filme sobre &lt;b&gt;adopção&lt;/b&gt; (acho que se pode reduzir o tema do filme a uma única palavra) e levanta muitas questões interessantes, independentemente do que se achar dele como obra cinematográfica. Provavelmente, aliás, o facto de levantar demasiadas questões é um dos seus pontos menos positivos como obra cinematográfica, mas não me adianto mais na crítica, porque não é minha ideia discutir o filme. Apenas aconselhá-lo, como matéria de reflexão, e usar esta referência para introduzir algumas pequenas considerações sobre a questão da adopção.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Fundamentalmente, o&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt; que me parece interessante notar é que, ao filme Mother and Child, como a outra narrativas sobre adopção e à discussão geral sobre esta questão, subjaz uma ideia forte que, mesmo que não se recuse completamente, deve ser repensada e muito matizada: a ideia de que dar para adopção ou adoptar é naturalmente problemático e gerador de conflitos e tensões, porque não é o rumo natural das coisas. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Parece-me indiscutível que é a protecção da criança que deve constituir o cerne da legislação e é verdade que se pode constatar (segundo a informação que recebi durante o curso de adopção que fiz e que já tive oportunidade de ver algumas vezes confirmada depois disso) percentagens mais elevadas de crianças com problemas físicos ou psíquicos entre os adoptados do que entre não adoptados, bem como de crianças vítimas de maus-tratos. No caso dos problemas físicos e psíquicos que não sejam causados pelos pais adoptivos (e estes são muito, muito poucos), porém, é impossível, demonstrar que é a adopção que causa os problemas dos adoptados e nem sequer há melhores razões para valorizar essa hipótese relativamente a outra hipótese que faça derivar a maior percentagem de problemas dos adoptados de circunstâncias pré-adopção&lt;b&gt;&lt;span style="color: #cc0000;"&gt;*&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Candidatámo-nos a adopção em 2001 e fizemos um curso de adopção em 2002. O curso é obrigatório na Dinamarca e o seu conteúdo parece dar-me razão quando afirmo que adoptar é uma forma tão natural como outra qualquer de ser mãe ou pai, porque se passou o curso todo a falar de questões gerais, que não dizem mais respeito a adoptantes que a pais biológicos. Quando, em Abril de 2003, nos propuseram duas crianças colombianas, tornou-se mais uma vez claro que um dos problemas maiores da adopção são as leis de adopção – ou a sua inexistência, em certos países... Na altura, foi-me difícil conseguir o documento que me era exigido, comprovando que tinha um emprego fixo, porque estava a trabalhar como tradutor e professor em regime de free-lance. E até nem ganhava mal a vida. A minha mulher, sim, tinha um emprego fixo com um bom salário, mas, segundo a lei colombiana, o homem é o chefe de família e, por isso, o homem é que tem de ter emprego fixo para adoptar… Escrevi nessa altura um texto que, ligeiramente revisto, vos deixo a seguir:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;blockquote style="color: #660000;"&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Só partindo do princípio que adoptar não é uma forma natural de ter um filho se compreende que as leis de adopção, que deveriam apenas assegurar que sejam respeitados os direitos de todas as partes envolvidas no processo de adopção, antes de mais das crianças adoptadas, acabem por exigir dos pais adoptivos condições e acções que nunca são exigidas a quem faz um filho. Ora, na minha opinião, adoptar é uma maneira tão natural como a outra de ser mãe ou pai – ou, se preferirmos ver as coisas do ponto de vista dos filhos, ser adoptado é uma maneira tão natural como qualquer outra de ser filho. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;É claro que reproduzir-se é responder a uma pulsão fundíssima, essencial para a preservação da espécie, mas isso não justifica, por si só, que a maternidade e a paternidade biológicas sejam mais naturais ou melhores que a maternidade e a paternidade por adopção. Porque, para a preservação da espécie, não é só necessário que os indivíduos se reproduzam, mas também que haja mecanismos de protecção para que eles se mantenham vivos. E os sentimentos que qualquer criança desprotegida causa num adulto são, precisamente, um desses mecanismos: se vemos que uma criança precisa de comida, abrigo, ou qualquer tipo de ajuda, há em nós uma tendência natural para tratarmos dela, por muito que não a conheçamos de lado nenhum. É verdade que o mesmo acontece relativamente a outros adultos em perigo ou em sofrimento – é a tão celebrada solidariedade da espécie. O apelo mudo à ajuda e à protecção de uma criança indefesa é apenas uma das muitas formas de &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;simpatia&lt;/i&gt; para com os seres humanos. Quando se trata de uma criança, porém, parece haver uma diferença de grau – porque o sentimento de solidariedade que desperta num adulto é, em geral mais intenso, do que aquele que despertaria um adulto em desgraça – e também uma diferença de tipo – porque uma criança desprotegida não apela apenas a que a socorramos agora, mas também, frequentemente (no caso de a sabermos sem outros adultos a quem pertença, evidentemente), a que tomemos conta dela indefinidamente. Dito de outra maneira, &lt;b style="mso-bidi-font-weight: normal;"&gt;os adultos humanos são mães e pais potenciais de todas as crianças&lt;/b&gt;. O que faz todo o sentido, do ponto de vista da preservação da espécie: uma criança sozinha não sobrevive.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;A concepção da maternidade e da paternidade que enforma as leis de adopção existentes é uma visão muito restrita destas condições, com base na ideologia da família nuclear moderna, de pais e filhos biológicos, e está longe de ser a concepção dominante em todos os lugares e tempos. Em muitas sociedades, uma criança, qualquer criança, não é criada mais com a mãe do que com outros adultos da família ou da comunidade&lt;b style="color: #cc0000;"&gt;**&lt;/b&gt;. Também o mesmo se passava na Europa até há pouco tempo, por muito que isso hoje nos surpreenda&lt;b style="color: #cc0000;"&gt;***&lt;/b&gt;: era normal que fossem outras pessoas que não os pais a tomar conta das crianças. As crianças das famílias com posses eram criadas com preceptores e amas, muitas vezes num espaço físico diferente daquele em que viviam os seus pais. As crianças das famílias pobres eram muitas vezes distribuídas por casas de parentes (ou mesmo de não-parentes) mais desafogados economicamente.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Mas não era pior assim? Não é melhor para a criança ter uma família como a conhecemos hoje? Não há provas nenhumas disso – os europeus modernos são mais felizes que as pessoas de outros tempos e de outros lugares? É bem possível que as crianças tenham nas sociedades modernas melhores condições para se desenvolverem, mas não se pode fazer derivar isso do facto de viverem num determinado tipo de família. O necessário, diz-nos o bom senso, é que a criança seja fisicamente cuidada e estimada e socializada e isso tem as mesmas possibilidades de acontecer em qualquer sistema familiar. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Mais: a adopção não só não é menos natural, como também só é invulgar se o quisermos, se fizermos com que assim seja. Numa sociedade como a moçambicana, por exemplo, em que adoptar e ser adoptado é perfeitamente normal sem se passar por processo burocrático algum, não só se resolvem assim uma série de problemas práticos (como é o caso da integração social dos milhares de órfãos que a guerra deixou, muitos deles crianças soldados), como também se esvai completamente o conceito do adoptado como diferente. Adoptar e ser adoptado só é estranho se for uma condição tão rara que um adoptado se sinta um marciano ou se for cultivada essa estranheza, insistindo (como o fazem, implicitamente, os processos de adopção) na tal pretensa pouca naturalidade do adoptar crianças relativamente ao fazer crianças; ou considerando &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;a priori &lt;/i&gt;que uma criança adoptada deve ser uma criança com problemas, como eu vi fazer aos meus filhos no jardim-de-infância em Copenhaga. É muito natural que, por ser considerada diferente e potencialmente problemática e tratada, por isso, com atenção especial, uma criança comece a sentir-se efectivamente diferente. E eis um início de um círculo vicioso que eu duvido que seja muito são. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Insisto, para concluir: As leis de adopção devem assentar na defesa dos interesses das partes mais frágeis no processo, as crianças. Uma parte importante dessa defesa é assegurar que sejam adoptadas por pessoas responsáveis, mas essa proposição contém outra proposição fundamental: Uma parte importante dessa defesa é assegurar que sejam adoptadas. Os problemas relacionados com a adopção vêm mais de certas leis de adopção e da maneira como fomos condicionados para encarar a adopção do que do simples e natural acto de adoptar. A discussão das diversas leis de adopção nos diversos países é demasiado complexa para um texto de blogue, mas há, na minha opinião, alguns princípios básicos em que todas deviam assentar: não se poder escolher os filhos adoptivos, não haver períodos à experiência, e reduzir-se a possibilidade de contacto com os pais biológicos (só por vontade expressa dos filhos, quando atingirem a maioridade). Devolver à adopção a sua naturalidade: dar uma família a crianças que a não têm.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;_______________&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="color: #cc0000;"&gt;*&lt;/span&gt; &lt;/b&gt;E isto quer se pressuponha que eles derivam de traumas precoces, segundo as &lt;b&gt;&lt;a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Attachment_theory"&gt;teorias da vinculação ou do apego&lt;/a&gt;&lt;/b&gt;, quer se defenda antes uma abordagem assente na genética, segundo a qual são os mesmos traços de carácter que levaram os pais às situações problemáticas resultantes no abandono ou negligência dos filhos que resultam nos problemas desses mesmo filhos. Seja qual for a posição relativamente à questão, uma destas duas ou outra qualquer, toda a gente concordará que a criança tem sempre a ganhar em ser adoptada e em ser adoptada o mais cedo possível. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;b style="color: #cc0000;"&gt;**&lt;/b&gt; Quero referir aqui, a propósito, um dito que encontrei n&lt;b&gt;&lt;a href="http://beijo-de-mulata.blogspot.com/2010/03/olavula-emakhwa-falar-macua.html"&gt;o blogue Beijo-de-mulata&lt;/a&gt;&lt;/b&gt; e que vi noutros lados referido como “provérbio africano”: «Para criar uma criança é preciso uma aldeia inteira.» Venha ela donde vier, a frase descreve uma realidade simples em muitos tempos e lugares. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;b style="color: #cc0000;"&gt;***&lt;/b&gt; Lembro-me, por exemplo, de como fiquei surpreendido com os dados apresentados em &lt;b&gt;&lt;a href="http://www.evene.fr/livres/livre/elisabeth-badinter-l-amour-en-plus-10611.php"&gt;&lt;i&gt;L’Amour en plus&lt;/i&gt;, de Elizabeth Badinter&lt;/a&gt;&lt;/b&gt;, quando o li há muitos anos: em 1780, de 21.000 nascidas em Paris, menos de 1.000 são amamentadas pela mãe e 1.000 são amamentadas por uma ama em casa dos pais. O tema do livro é o amor materno e não a família nuclear, mas tem muitos dados que mostram claramente que a família nuclear como nós a conhecemos é uma instituição recente.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2874386790023925718-9047074265662453708?l=llindegaard.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://llindegaard.blogspot.com/feeds/9047074265662453708/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2874386790023925718&amp;postID=9047074265662453708' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/9047074265662453708'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/9047074265662453708'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://llindegaard.blogspot.com/2011/05/um-bicho-de-muitas-cabecas.html' title='Um bicho de muitas cabeças'/><author><name>V. M. Lucas Lindegaard</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06993438398319242184</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/__m_JLgYBQmc/SUEyD_uVH3I/AAAAAAAAAwY/luHWZ4Q7ilk/S220/V%C3%ADtor.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2874386790023925718.post-1481450285605523410</id><published>2011-05-30T10:43:00.003+02:00</published><updated>2011-05-30T10:49:12.172+02:00</updated><title type='text'>A paciência de um Santos, seguido de três pequenas notas sobre resignar-se, adaptar-se e envelhecer</title><content type='html'>&lt;h1&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=2874386790023925718&amp;amp;postID=1481450285605523410" name="_Toc294334496"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/h1&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Svendborg, Dinamarca, Agosto de 2009, férias de Verão, jantar no terraço de uma amiga. Conversa de ocasião de um amigo da amiga, enquanto aquece a grelha para as salsichas. Diz que nunca viveu em África, mas que já lá esteve, que tem amigos que lá viveram. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;«Isso de viver em África, onde o ritmo de vida é tão mais lento, deve tornar as pessoas mais pacientes.» &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;E eu, com toda a sinceridade:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;«Pode ser, não sei o que acontece às outras pessoas… Em mim, viver em Moçambique tem tido antes o efeito contrário – perdi a paciência toda…»&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Não acredito, sinceramente, no que digo. É o passar dos anos que me faz perder a paciência, não viver em Moçambique. E ainda hei-de ser um velho mesmo rabugento, hão-de ver. Agora, se reajo assim à conversa do amigo da amiga, é porque me arrelia um bocadinho este preconceito primitivista. O ritmo de vida é mais lento? O que eu acho, sinceramente, é que quem assim pensa nunca viu as pessoas a trabalhar nas suas casas e machambas, nunca os viu a andar carregados, a pé ou de bicicleta, por estradas e caminhos… É verdade que se encontram pessoas a dormir a sesta às onze da manhã, mas essas pessoas levantaram-se às 4, para trabalharem o mais que podiam enquanto o calor não as impede de continuar. Conheço muitos moçambicanos que literalmente não param, entre o trabalho, que é muito, os estudos à noite e o mais que é necessário para arredondar o fim do mês, como dizem os franceses. Ritmo lento? Ora…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;De que se fala então? Dos empregados de lojas, cafés e repartições públicas? Aí sim, é verdade, o ritmo aqui é muito lento. E em relação a essa lentidão – provavelmente por estar a tornar-me rabugento com a idade, pois… – não ganhei precisamente paciência nenhuma. Eu sei que há quem veja tudo isso como um traço cultural das sociedades menos desenvolvidas. E um traço cultural positivo: ausência de stress, uma bênção das culturas “pré-modernas”. É bem possível que seja um traço cultural, se aceitarmos uma definição de cultura que inclua não só a falta de tradição de trabalho assalariado como também a falta de formação técnico-profissional, os salários de miséria e o autoritarismo e incompetência das chefias, por exemplo. Talvez esta lentidão pareça hoje muito exótica a muitos europeus, que, com um olhar ingénuo, vêm nela a sobrevivência de uma paciência perdida no mundo desenvolvido. A mim, porém, é-me difícil ver o que tal lentidão tem de positivo, sobretudo para os desgraçados que esperam horas e horas nas repartições ou meses e meses por documentos oficiais que nunca mais vêem…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;_______________ &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;b&gt;Nota 1, sobre paciência e resignação: &lt;/b&gt;A paciência é uma grande virtude, recordava-me constantemente a minha avó. É verdade, pelo menos no sentido em que é a negação da impaciência – uma atitude de que (suponho que há nisto grande consenso) não resulta nada de muito bom. Muitas vezes, porém, aquilo a que se chama paciência é de facto resignação e a resignação já não é virtude. Talvez não se lhe possa tampouco chamar vício, mas é algo que tem de ser negativamente valorizado quando lhe avaliamos as consequências, porque, bem vistas as coisas, é contribuir para que se perpetue o que há de indesejável no mundo. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Há muitos moçambicanos que não se resignam perante o mau funcionamento dos serviços. Explicam a razão e a lógica dos mesmos, e exigem e barafustam. Agora, claro, há muitos mais que se resignam. Passando do nível das consequências para o das causas, acho que há mais uma coisa importante que é preciso dizer sobre resignação e que explica o facto de ela estar muito espalhada em certas sociedades e em certas camadas populacionais: resignação está directamente relacionada com ausência de poder. Não é determinada por ela e há às vezes pessoas com pouco poder que não se resignam. Mas é da ausência de poder que a resignação deriva mais normalmente e não surpreende que haja mais resignação entre aqueles que não têm, nunca tiveram, poder algum.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;b&gt;Nota 2, sobre adaptação&lt;/b&gt;: Está bastante espalhada a ideia de que, vivendo fora da nossa cultura, há que adaptar-se, aceitando que as coisas são como são na cultura em que vivemos. Trata-se, como a entendo, de uma perspectiva puramente estratégica, descartando a ponderação ética. Porque, se o que achamos que está bem ou que está mal muda conforme o lugar onde nos encontramos, é porque não assenta em nada de muito sólido; ou porque temos da moral uma perspectiva, digamos, etimológica (&lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;mores&lt;/i&gt; significa “costumes” em latim, não é verdade?) e aceitamos que são apenas os costumes que devem reger a nossa ideia de bem e de mal. Ora eu, que não sou maquiavélico, que sou um moralista racional, daqueles que acham que se deve repensar constantemente os princípios que devem reger as nossas acções, não posso aceitar tal posição: no geral, não aceito nem na Dinamarca nem em Moçambique o que não aceito em Portugal.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Se digo no geral, é porque há, ainda assim, diferenças que têm de ser tidas em conta e que podem justificar, nalguns casos, alguma flexibilidade tanto no que se aceita como no que se exige. No caso de Moçambique, por exemplo, há que ver que não se pode dar saltos no desenvolvimento, que o baixo nível de cultura profissional e de formação são obstáculos que levam algum tempo a vencer. Ainda assim, alguém tem de fazer aqui as mesmas exigências que outras pessoas fizeram já noutros lugares para que mudassem lá as coisas que aqui ainda não mudaram. É certo que, em absoluto, Moçambique não é apenas uma versão mais antiga nem da Europa nem de nenhuma outra parte do mundo e que, por isso, nunca as coisas foram noutro sítio exactamente como são aqui. Mas há coisas aqui que também já houve noutros lugares e de lá desapareceram porque as pessoas fizeram alguma coisa para elas desaparecerem.&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;O que muitas vezes se considera aqui adaptação de um estrangeiro à vida local é uma evolução imoral e discriminatória: começar a aceitar que &lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;“&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;estas pessoas&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;”&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt; são essencialmente diferentes de &lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;“&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;nós&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;”&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt; e que, portanto, não se pode ou deve esperar ou exigir (diferentes nuances modais, conforme a nossa postura, mais ou menos activa, perante o mundo…) delas e para elas o mesmo que exigimos das “nossas” pessoas e para as “nossas” pessoas. Esta “adaptação” é também passar a aceitar assimetrias inaceitáveis: que o sistema feudal é uma realidade inelutável e que há que aceitar os privilégios dos privilegiados, sejam eles régulos, administradores ou ministros; que os pobres morrem “naturalmente” em África e que não há nada a fazer contra isso; que haver uns a meter ao bolso o dinheiro do Estado ou dos outros é a maneira normal de “estes países” funcionarem, e por aí adiante. Resignação…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;b&gt;Nota 3, sobre envelhecer&lt;/b&gt;: Não é só rabugenta que uma pessoa se torna, ao ir para a idade: é chata também, repetitiva. Já viram que, num texto tão pequeno, repito três vezes (esta é a terceira!) que me estou a tornar rabugento com a idade? &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2874386790023925718-1481450285605523410?l=llindegaard.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://llindegaard.blogspot.com/feeds/1481450285605523410/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2874386790023925718&amp;postID=1481450285605523410' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/1481450285605523410'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/1481450285605523410'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://llindegaard.blogspot.com/2011/05/paciencia-de-um-santos-seguido-de-tres.html' title='A paciência de um Santos, seguido de três pequenas notas sobre resignar-se, adaptar-se e envelhecer'/><author><name>V. M. Lucas Lindegaard</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06993438398319242184</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/__m_JLgYBQmc/SUEyD_uVH3I/AAAAAAAAAwY/luHWZ4Q7ilk/S220/V%C3%ADtor.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2874386790023925718.post-6014623897680681662</id><published>2011-05-20T16:34:00.003+02:00</published><updated>2011-05-20T16:41:29.728+02:00</updated><title type='text'>Caminhos de Chuquisaca</title><content type='html'>&lt;h1&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/h1&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Dentro de alguns anos, lembrar-me-ei com certeza do planalto de Manica com as mesmas saudades com que me lembro agora das montanhas da Alta Zambézia ou do planalto andino.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Vivi dois anos em Camargo, na Bolívia (a 50 metros da igreja que se vê n&lt;b&gt;&lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Camargo_%28Bol%C3%ADvia%29"&gt;a página da Wikipedia sobre esta pequena cidade&lt;/a&gt;&lt;/b&gt;), e muitas vezes dou comigo perdido em nostálgicos devaneios, a passear mentalmente pelos cerros de &lt;b&gt;&lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Chuquisaca"&gt;Chuquisaca&lt;/a&gt;&lt;/b&gt;. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Encontrei ontem um vídeo no YouTube, feito por turistas brasileiros, que dá uma ideia de como é a estrada de Tarija para Potosí, que eu fiz dezenas e dezenas de vezes, sempre cheiínho de medo. Sim, porque a gente habitua-se um bocadinho àquelas estradas, mas nunca se habitua completamente.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;iframe allowfullscreen="" frameborder="0" height="390" src="http://www.youtube.com/embed/IxV7pchdjj8" width="480"&gt;&lt;/iframe&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Agora, o que o vídeo não mostra bem é a beleza assoberbante da paisagem. O azul (azul!) das montanhas arredondadas – são montanhas velhas, os Andes – até perder de vista lá para os lados da fronteira com a Argentina. E também não mostra as cruzes que há dos lados da estrada, a assinalar acidentes mortais. Uma vez, conheci pessoalmente um sobrevivente de uma dessas frequentes tragédias. Eis um excerto de uma carta que escrevi de Camargo nessa altura:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;O mestre pintor que pintou a nossa casa chama‑se Celso. É professor de desenho e trabalhos manuais na escola secundária local e pintor de tudo, desde paredes a cartazes, montras e quadros. Um dia, já não sei a propósito de quê, perguntou‑me se eu era crente. Eu disse‑lhe que não. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;«Isso é porque você nunca passou pelo que eu passei», disse ele. Ele coxeia, mas eu não sabia, até essa altura, a razão de ele coxear:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;«O autocarro em que eu ia caiu por uma ribanceira. Excesso de velocidade, sabe? Morreu muita gente, foram 100 metros de queda. Mas eu safei‑me. Tinha a perna toda desfeita, mas estava vivo. Nessa altura, já tinha os meus dois filhos e acho que foi isso que me deu mais força. Agora, você vê, coxeio um bocado, mas consigo andar. E isso, ninguém acreditava que fosse possível. Mas foi. Tive de tornar‑me crente e de rezar muito. Crente em tudo: em Deus, na Virgem, na &lt;b&gt;&lt;a href="http://es.wikipedia.org/wiki/Pachamama"&gt;Pachamama&lt;/a&gt;&lt;/b&gt;...»&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Tenho uma descrição da minha primeira viagem nas estradas daquela zona, escrita no Verão de 1999, ainda antes de lá morarmos, quando estávamos a fazer um curso de castelhano em Cochabamba:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Fomos visitar a nossa futura terra. Apanhámos um avião até Tarija e veio um colega da Karen buscar‑nos para nos levar a Camargo. A primeira coisa que vos quero dizer é que decidi que, durante os próximos dois anos, só vou sair de Camargo quando for mesmo imprescindível. E isto não é porque a vilazinha seja assim tão apaixonante que eu não queira mais nada no mundo. É antes porque as estradas que ligam Camargo ao resto do mundo (a Tarija e a Potosí, concretamente) são tão medonhas que eu não aguento. É uma tortura. Sabem que eu tenho pânico das alturas, vertigens, tudo isso. Então agora imaginem dezenas de quilómetros de estrada de montanha de cascalho solto, de quatro metros e às vezes menos de largura, em curvas permanentes, a mais de 90º às vezes, sem nenhuma protecção lateral e ribanceiras a pique de &lt;b&gt;centenas&lt;/b&gt; de metros (isto não é exagero!), o carro a derrapar forçosamente um bocadinho de vez em quando, tudo isto com um trânsito que, sem ser intenso, é, ainda assim, razoável, sobretudo de camiões e camionetas de passageiros. Que caem, de vez em quando, como seria de esperar. Na estrada da Camargo para Potosí, por exemplo, no fundo duma ribanceira ainda lá estava a carcaça de um autocarro de passageiros. «Nos dois últimos meses caíram aqui dois nesta zona», explica o Pedro, o tal colega da Karen. «Cerca de vinte e cinco mortos de cada vez». Ou seja, a carga total das camionetas – é claro que, numa queda assim, é mínima – ou nula – a possibilidade de escapar vivo. No dia seguinte, em Potosí, recebemos a notícia de mais um desastre desses: 27 mortos, desta vez. Então, já decidi: de Camargo, só saio quando for mesmo imprescindível…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;E conservo também uma descrição da minha última viagem de Tarija para Camargo, dois anos mais tarde (não me lembro já porque foi imprescindível ir a Tarija nessa altura…):&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Enquanto espero pelo autocarro em Tarija, sento-me a beber umas cervejas num dos muitos botequins que há em frente ao terminal rodoviário. Vem servir-me, sorridente, uma miudinha dos seus 10 anos. Depois, vem a mãe dela meter conversa comigo: se estava tudo bem, de onde era, para onde ia. É claro, como a maior parte das pessoas aqui, não faz ideia de onde seja Portugal. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;«Uh, é longe!...», digo‑lhe eu, «Do outro lado do oceano!»&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Quando lhe digo que vivo em Camargo há quase dois anos, fica um bocado preocupada:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;«E não lhe faz confusão estar assim longe da sua terra tanto tempo, com outras gentes, outras comidas, outras maneiras de ser?»&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;«Ah, não, eu estou bem em qualquer lado. Sinto falta dos amigos, mas de resto tanto me faz estar aqui como noutro sítio qualquer...»&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;«Ah, eu acho que não aguentava. Eu fui uma vez a La Paz e outra a Cochabamba, e só queria voltar a casa o mais depressa possível – as pessoas são estranhas, a comida é estranha, uma pessoa não se sente à vontade...»&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;E é assim a vida: há quem, como eu, se congratule com a sorte que tem de poder sair do seu mundo e de poder conhecer outras maneiras de viver; mas há muito para quem seja um drama ter de abandonar, nem que por pouco tempo, o seu mundo, o seu cantinho...&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Tinha comprado um livrinho com o pomposo título de &lt;i&gt;Bestiário de máscaras – papéis perversos do ciclo psicótico&lt;/i&gt; e entretive-me a lê-lo. Era um desses livros que há, publicados em edição de autor ou em pequenas editoras marginais, escritos por jovens literatos que citam escritores malditos e se sentem um deles: “A voz da literatura é um fio de água na terra seca dos discursos do poder. Essa voz imperceptível corrói as máscaras; diz a antipolítica, diz a contra-realidade, diz a periferia e os exilados mentais, diz a memória dos índios, diz os herméticos filósofos hereges e as sociedades secretas que são e foram, diz o variado bestiário da decadência, a misantropia e a loucura”.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;As cervejas fizeram-me bem. Tinha, aliás, bebido de propósito para relaxar e foi isso que confessei ao senhor que ia a meu lado, com quem mantive uma animada conversa toda a viagem:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;«Bebo sempre umas cervejas antes destas viagens, sabe?, para perder um pouco o medo dos precipícios…»&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;«Deixe estar que não é só você», respondeu-me ele, «muita gente faz a mesma coisa. Até os condutores dos autocarros…» &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2874386790023925718-6014623897680681662?l=llindegaard.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://llindegaard.blogspot.com/feeds/6014623897680681662/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2874386790023925718&amp;postID=6014623897680681662' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/6014623897680681662'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/6014623897680681662'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://llindegaard.blogspot.com/2011/05/caminhos-de-chuquisaca.html' title='Caminhos de Chuquisaca'/><author><name>V. M. Lucas Lindegaard</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06993438398319242184</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/__m_JLgYBQmc/SUEyD_uVH3I/AAAAAAAAAwY/luHWZ4Q7ilk/S220/V%C3%ADtor.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://img.youtube.com/vi/IxV7pchdjj8/default.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2874386790023925718.post-5488185585500203432</id><published>2011-05-09T09:32:00.004+02:00</published><updated>2011-05-09T09:36:17.186+02:00</updated><title type='text'>Teoria e prática, ciência e técnica, reflexão e acção</title><content type='html'>&lt;span lang="PT"&gt;Veio-me à memória, no outro dia, uma conversa com um cooperante dinamarquês meu conhecido, em Tete, há muitos anos&lt;b&gt;&lt;span style="color: #cc0000;"&gt;[1]&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;. Queixava-se ele de que, no trabalho de desenvolvimento, havia que deixar-se de discussões e passar antes à acção. Acho que quando uma pessoa diz uma frase assim, conta, à partida, com todo o apoio do interlocutor. É como quando alguém diz que os políticos só querem é encher-se ou que as pessoas são cada vez mais individualistas ou coisas assim desse género – espera-se, como resposta standard, um enfático assentimento, “não tenha dúvidas, meu amigo, não tenha dúvidas…”, e fica-se normalmente surpreendido, às vezes quase chocado, quando a resposta é, como a minha foi, a expressão de um completo desacordo&lt;b style="color: #cc0000;"&gt;[2]&lt;/b&gt;:&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="PT"&gt;«Penso exactamente o contrário», expliquei eu ao meu conhecido. «O mal do trabalho de desenvolvimento é fazer-se muita coisa sem se pensar muito bem sobre o que se está a fazer ou sobre o que se vai fazer».&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Em parte, foi por provocação que lhe respondi assim: não há, de modo algum, excesso de reflexão no trabalho de desenvolvimento, mas há efectivamente um excesso de reformas metodológicas, de elaboração de princípios e políticas, de avaliações e monitorias que nunca vêm a ter nenhuma utilidade… Mas isso é uma conversa muito comprida, que merece um texto específico. Aqui trata-se de várias formas da dicotomia reflexão &lt;i&gt;versus&lt;/i&gt; acção e a minha provocação tinha uma base ideológica: é que discordo da tão costumeira desvalorização daquela relativamente a esta.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="color: #660000; text-align: center;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span lang="PT"&gt;––––––––––&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;A ideia de que a acção vale mais do que a reflexão é uma ideia bastante difundida. E uma variante também muito divulgada dessa ideia é a que valoriza a reflexão para a acção em relação à reflexão para a interpretação apenas. Nas &lt;i&gt;Teses sobre Feuerbach&lt;/i&gt; (1845), Marx tem uma frase famosa (tese 11), &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span lang="DE"&gt;Die Philosophen haben die Welt nur verschieden interpretiert; es kommt aber darauf an, sie zu verändern&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span lang="PT"&gt;, que tem sido interpretada de diversas maneiras e, se calhar, nalguns casos muito transformada (aqui têm um exemplo de coincidência de interpretação e transformação, smile, smile…), mas que se pode traduzir – e se traduz – desta maneira: &lt;i&gt;Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de diversas maneiras; mas o que importa &lt;/i&gt;[ou&lt;i&gt; a questão &lt;/i&gt;ou&lt;i&gt; o que conta&lt;/i&gt;…]&lt;i&gt; é transformá-lo&lt;/i&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Deixo para os estudiosos de Marx discussão de significado e sentido exactos da 11ª tese sobre Feuerbach. O que eu quero aqui dizer é que, independentemente de qual seja o real sentido da frase de Marx, não me parece correcto afirmar, como se afirma muitas vezes, que &lt;b&gt;o que importa&lt;/b&gt; é transformar o mundo. O que importa é compreender o mundo (sempre)&lt;b&gt; e&lt;/b&gt; transformar o mundo quando não concordarmos com o seu estado actual. E o filósofo pode, se quiser, ser um homem de acção; pode, mesmo sem ser um homem de acção, contribuir pela sua reflexão para a transformação do mundo; mas o papel do filósofo não é, &lt;b&gt;enquanto filósofo&lt;/b&gt;, transformar o mundo, mas sim tentar contribuir para chegar à verdade sobre o mundo – e o que lhe fica ao redor (depende muito, claro está, do que se considere o mundo…). &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Nesse aspecto, o filósofo não é, aliás, fundamentalmente diferente do cientista: Para o dizer com a elegância de Tchekhov – ou melhor, de uma sua personagem –­, “cada ciência no mundo deve ter sempre um único passaporte, que é sempre o mesmo e sem o qual ela não faz sentido – deve aspirar à verdade&lt;b style="color: #cc0000;"&gt;[3]&lt;/b&gt;”. Como não é ao filósofo que cabe agir sobre o mundo, também não é ao biólogo nem ao químico nem ao linguista que cabe agir sobre ele. Não cabe ao cientista transformar o mundo e é erradamente que se imputa muitas vezes à ciência acções negativas sobre a realidade. A ciência apenas explica o mundo; dos males que advenham da utilização do conhecimento para intervir no mundo acusem a técnica, não a ciência; mas, quando a utilização do conhecimento teve bons resultados, dêem à técnica apenas uma parte dos louvores, reservando o resto dos elogios para a ciência que produziu esse conhecimento.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Parece-vos que temos aqui parcialidade, não é? Então quando a técnica faz mal com o conhecimento que a ciência produziu, culpamo-la só a ela; e quando a técnica faz bem com o conhecimento que a ciência produziu, louvamo-la a ela e à ciência que produziu o conhecimento por ela utilizado? Mas não, não há aqui nada de errado, se pressupusermos, como eu pressuponho, que a produção de conhecimento é sempre e só positiva e que o que pode ser positivo ou negativo é a aplicação desse conhecimento&lt;b style="color: #cc0000;"&gt;[4]&lt;/b&gt;. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Quanto a transformar o mundo, é dever de todos os que acharem que ele deve ser transformado (todos os não conservadores, portanto) e, por conseguinte, também de quem se especializou em filosofia, biologia, química, serralharia, contabilidade ou gastronomia, mas não na sua qualidade filósofo, biólogo, químico, serralheiro, contabilista ou cozinheiro, mas enquanto membro de uma comunidade, cidadão, ser político – e isso somos todos nós, sem necessidade de nenhuma especialização em nenhuma área do saber ou da técnica.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="text-align: center;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&lt;span style="color: #660000;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;b style="color: #660000;"&gt;––––––––––&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Maldita tendência para a excursão. Voltemos à conversa com o meu conhecido em Tete. Não é só o trabalho de desenvolvimento a enfermar de ânsia de fazer desprezando a vontade de reflectir – estou convencido de que o mundo em geral sofre mais de excesso de acção pouco reflectida do que de excesso de discussão teórica relativamente à prática. E mesmo a vida emotiva de cada um. No outro dia, encontrei no Facebook a sedutora frase (traduzo eu da frase original em inglês) “Podes passar minutos, horas, dias, semanas ou até meses a sobreanalisar uma situação, tentando juntar as peças, justificando o que podia ter acontecido, o que teria acontecido – ou podes deixar apenas as peças no chão e ala!, seguir em frente”. Não sei o que significa ao certo &lt;b style="mso-bidi-font-weight: normal;"&gt;sobreanalisar&lt;/b&gt; e a ideia com que fico é que o prefixo sobre- foi colado ao verbo apenas para conotar negativamente a tentativa de análise. Tirando isso, é claro que se pode, pode sempre seguir-se em frente desistindo de perceber o que se passou ou o que se está a passar. Mas é aconselhável? &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Encontrei várias vezes na internet, em várias línguas e com pequenas variações de forma, a frase “um grama de acção vale mais do que uma tonelada de teoria”&lt;b style="color: #cc0000;"&gt;[5]&lt;/b&gt;. Para mim, é quase ao contrário. Não é bem ao contrário, porque não vejo grande sentido em afirmar que um grama de teoria vale mais do que uma tonelada de acção. Mas uma tonelada de acção, se tiver para a sustentar apenas um grama de reflexão, tem quase cem por cento de probabilidades de vir a dar buraco… &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: left;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span lang="PT"&gt;_______________&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;b style="color: #cc0000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;[1]&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span lang="PT"&gt; Para ele ser &lt;b style="mso-bidi-font-weight: normal;"&gt;cooperante&lt;/b&gt; em vez de &lt;b style="mso-bidi-font-weight: normal;"&gt;assessor&lt;/b&gt;, bem podem ver há quanto tempo não foi…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;b style="color: #cc0000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;[2]&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span lang="PT"&gt; E também o teria sido se ele me tivesse dito que os políticos só se querem é encher ou que as pessoas são cada vez mais individualistas…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;b style="color: #cc0000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;[3]&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span lang="PT"&gt; No conto “On the way”, Selected Stories. Ware: Wordsworth, 1996. Traduzo eu. &amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;b style="color: #cc0000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;[4]&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;span style="color: #cc0000;"&gt; &lt;/span&gt;Do que se pode concluir – com alguma boa vontade, talvez… – que a teoria vale, em abstracto, mais do que a prática. Mas eu já nem quero ir por aí…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;b style="color: #cc0000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;[5]&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span lang="PT"&gt; A frase é, o mais das vezes, atribuída a Friedrich Engels, mas é duvidoso que seja de facto uma frase de Engels. Eu, pelo menos, não o consegui confirmar. Também é às vezes atribuída a Ralph Waldo Emerson ou a Lenine, ou é ainda apresentada com um provérbio. &lt;a href="http://message.snopes.com/showthread.php?t=55276"&gt;Há uma página de Snopes.com em que se discute, precisamente, a autoria da frase&lt;/a&gt;. Mas a autoria da frase é completamente irrelevante para a sua discussão, pelo menos no presente contexto.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2874386790023925718-5488185585500203432?l=llindegaard.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://llindegaard.blogspot.com/feeds/5488185585500203432/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2874386790023925718&amp;postID=5488185585500203432' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/5488185585500203432'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/5488185585500203432'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://llindegaard.blogspot.com/2011/05/teoria-e-pratica-ciencia-e-tecnica.html' title='Teoria e prática, ciência e técnica, reflexão e acção'/><author><name>V. M. Lucas Lindegaard</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06993438398319242184</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/__m_JLgYBQmc/SUEyD_uVH3I/AAAAAAAAAwY/luHWZ4Q7ilk/S220/V%C3%ADtor.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2874386790023925718.post-1306766426535106028</id><published>2011-05-08T14:27:00.003+02:00</published><updated>2011-05-08T15:14:09.660+02:00</updated><title type='text'>Hoje é a brincar</title><content type='html'>Não há que esperar de letras de canções populares prodígios de literariedade. A canção popular é, normalmente, “um domínio muito pobre”, como dizia Jacques Brel, e, claro, isso aplica-se tanto à música como às letras. Sobretudo as que são escritas para uma determinada melodia (e é assim que se trabalha muitas vezes na canção popular…) são muito limitadas e não devem, por isso, ser comparadas com poesia – na poesia, em princípio, as limitações de métrica e de extensão do texto ou não existem (na poesia moderna) ou são muito menores – mesmo quando pensamos em formas rigidamente codificadas, o autor pode escolher a forma codificada que quer para o seu poema, o que lhe dá, ainda assim, muito mais liberdade&lt;b style="color: #cc0000;"&gt;*&lt;/b&gt;. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que há que esperar da letra de uma canção popular é que soe bem. No mínimo, acentuações rítmicas rigorosas (na sua forma ideal a soar como percussão: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“&lt;span style="color: #660000;"&gt;nega do cabelo duro / qual é o pente que te penteia&lt;/span&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="color: #cc0000;"&gt;**&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;” – tchikitchi… tchikitchi…), &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e elegância nos jogos de timbres de vogais e consoantes&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(&lt;span style="color: #660000;"&gt;I will com&lt;b&gt;p&lt;/b&gt;&lt;i&gt;&lt;b&gt;o&lt;/b&gt;se&lt;/i&gt; / in fancy rhyme / or just &lt;b&gt;p&lt;/b&gt;&lt;i&gt;l&lt;/i&gt;&lt;b&gt;ai&lt;/b&gt;n pr&lt;i&gt;&lt;b&gt;o&lt;/b&gt;se&lt;/i&gt; / a s&lt;i&gt;&lt;b&gt;o&lt;/b&gt;&lt;/i&gt;ng of &lt;b&gt;p&lt;/b&gt;&lt;i&gt;r&lt;/i&gt;&lt;b&gt;ai&lt;/b&gt;se / for you / my &lt;b&gt;p&lt;/b&gt;&lt;i&gt;r&lt;/i&gt;&lt;b&gt;ai&lt;/b&gt;rie r&lt;i&gt;&lt;b&gt;o&lt;/b&gt;se&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;b style="color: #cc0000;"&gt;***&lt;/b&gt;).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois, se se puder acrescentar-lhe algum significado digno desse nome, melhor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apresento então a quem a não conheça, ou recordo-a apenas a quem tem já esse prazer, a canção “A Luz Azul”, dos Rádio Macau, com letra de Pedro Malaquias. É que me apeteceu, vá lá eu saber porquê, dizer sobre ela umas palavrinhas:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;iframe frameborder="0" height="25" src="http://www.youtube.com/embed/jkAwiSwPpaI" width="640"&gt;&lt;/iframe&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="color: #660000;"&gt;P’la janela entra a luz azul da lua. / Das cortinas desliza p’lo chão. / Enche o quarto o frio silêncio nu da rua, / envolvente em mansa lassidão. // Tenho em mim / ruim pressentimento / de já ter vivido este momento. / Se estou a sonhar, / quando acordar, / vou correr o estore e vou deixar / a luz entrar. // Baila sobre o fio brilhante e tentador / um pontinho azul que me seduz / e num gesto exacto e breve / bebo a minha vida em contraluz. // Tenho em mim / ruim pressentimento / de já ter vivido este momento. / Se estou a sonhar, / quando acordar, / vou correr o estore e deixar / a luz entrar. // Um pontinho azul que me seduz, / fecho os olhos tento não pensar… / Não pensar…&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Parece-me que se trata de um caso em que a elegância formal está sempre ao serviço de um significado. Vejam a frase “P’la janela entra a luz azul da lua”. A &lt;b&gt;lu&lt;/b&gt;z da &lt;b&gt;lua&lt;/b&gt; é &lt;b&gt;a&lt;/b&gt;z&lt;b&gt;ul&lt;/b&gt; porque tem &lt;b&gt;z&lt;/b&gt;. &lt;b&gt;Azul&lt;/b&gt; é &lt;b&gt;lua&lt;/b&gt; ao contrário mais o &lt;b&gt;z&lt;/b&gt; final de &lt;b&gt;luz&lt;/b&gt;, que é quase &lt;b&gt;lua&lt;/b&gt; também. Já o f&lt;b&gt;r&lt;/b&gt;io que enche o qua&lt;b&gt;r&lt;/b&gt;to vem da &lt;b&gt;r&lt;/b&gt;&lt;u&gt;ua&lt;/u&gt;, não da &lt;b&gt;l&lt;/b&gt;&lt;u&gt;ua&lt;/u&gt;, embora talvez também pudesse vir da &lt;b&gt;l&lt;/b&gt;ua por ser si&lt;b&gt;l&lt;/b&gt;êncio (e se nada disto é líquido para vocês, para mim é-o com certeza, porque é isso que são o &lt;b&gt;r&lt;/b&gt; e o &lt;b&gt;l&lt;/b&gt;: consoantes líquidas). Será que vê letras do alfabeto quando escreve letras de cantigas, o Pedro Malaquias? Se o faz, faz bem. E fá-lo bem, também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, o que na letra mais importa, na minha opinião, é que &lt;b&gt;luz azul&lt;/b&gt;, &lt;b&gt;luzazul&lt;/b&gt;, é um palíndromo. No centro há um &lt;b&gt;a&lt;/b&gt;, o princípio, rodeado de dois &lt;b&gt;zz&lt;/b&gt;, que são o fim. É essa a sedução. O brilho ofuscante do princípio rodeado de fim por todos os lados. Que remédio há, perante tão sedutora e luminosa revelação, senão beber, de repente, a vida em &lt;b&gt;contra&lt;/b&gt;|&lt;b&gt;luz&lt;/b&gt;? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um &lt;i&gt;déjà-vu&lt;/i&gt;? Um sonho? Seja lá o que for, a vida há-de continuar. Não pensemos agora nisso, sim? Como a interpreto, a letra fala de um &lt;i&gt;flirt&lt;/i&gt; com o suicídio. Também a interpretam assim? E, já agora: não é desse &lt;i&gt;flirt&lt;/i&gt; que fala também “Hoje é a brincar”, do álbum seguinte, também com letra de Pedro Malaquias?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="color: #660000;"&gt;Sobre o pulso tenso a bater / Encosto o aço frio devagar / Amanhã talvez seja a valer / Hoje é a brincar.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;iframe frameborder="0" height="25" src="http://www.youtube.com/embed/90-dusl-W_w" width="640"&gt;&lt;/iframe&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje é a brincar às análises estruturalistas, se ainda não tinham percebido. O que a gente se diverte! E um grande abraço ao Pedro Malaquias, mestre de cantigas.&lt;br /&gt;________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="color: #cc0000;"&gt;*&lt;/span&gt;&lt;/b&gt; Enfim, tudo isto é muito discutível, eu sei, porque a lírica, tal como nós a conhecemos hoje, autónoma e livre na forma, nasceu para ser cantada em canções que não eram, muitas delas, fundamentalmente diferentes da canção popular actual. Reconheço que a simplificação que faço do assunto, de tão exagerada, pode facilmente soar mais a mentira do que a simplificação. Se, ainda assim, opto por ela, é porque não é de discutir a letra da canção popular como manifestação estética que aqui se trata, mas de fazer uma análise algo delirante de uma letra de uma canção em particular. E, para introdução a uma análise dessas, estas afirmações, por muito que pouco rigorosas, até nem ficam mal de todo, acho eu…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="color: #cc0000;"&gt;**&lt;/span&gt;&lt;/b&gt; &lt;b&gt;&lt;a href="http://youtu.be/cyLtO7ZnZUI"&gt;“Nega do cabelo duro”, de David Nasser e Rubens Soares, 1942&lt;/a&gt;&lt;/b&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="color: #cc0000;"&gt;***&lt;/span&gt;&lt;/b&gt; &lt;b&gt;&lt;a href="http://youtu.be/AUVMlPcNwWc"&gt;“Prairie rose”, de Brian Ferry, 1974&lt;/a&gt;&lt;/b&gt; [Prairie rose é também o nome de uma flor, a &lt;b&gt;&lt;a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Rosa_arkansana"&gt;&lt;i&gt;Rosa arkansana&lt;/i&gt;&lt;/a&gt;&lt;/b&gt;.]&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2874386790023925718-1306766426535106028?l=llindegaard.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://llindegaard.blogspot.com/feeds/1306766426535106028/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2874386790023925718&amp;postID=1306766426535106028' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/1306766426535106028'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/1306766426535106028'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://llindegaard.blogspot.com/2011/05/hoje-e-brincar.html' title='Hoje é a brincar'/><author><name>V. M. Lucas Lindegaard</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06993438398319242184</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/__m_JLgYBQmc/SUEyD_uVH3I/AAAAAAAAAwY/luHWZ4Q7ilk/S220/V%C3%ADtor.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://img.youtube.com/vi/jkAwiSwPpaI/default.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2874386790023925718.post-5885175689706247114</id><published>2011-05-06T14:42:00.004+02:00</published><updated>2011-05-06T14:50:30.651+02:00</updated><title type='text'>Notas de uma juventude suburbana</title><content type='html'>&lt;span lang="PT"&gt;É sempre interessante reler textos que se escreveu há muito tempo. São, normalmente, a prova mais cabal de que a identidade individual é, em grande parte, uma ficção – que, além do nome que figura nos documentos, pouco há de duradouro em cada um de nós. Para mim, por exemplo, a pessoa que escreveu o texto que publico a seguir é, em grande parte, outra pessoa – apesar de ter sido eu que o escrevi, em 1986. Tinha 27 anos e morava ainda na Rinchoa.&lt;/span&gt;  &lt;br /&gt;&lt;blockquote style="color: #660000;"&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Se se escolhe os subúrbios para local de habitação, a escolha prende‑se sempre com questões pragmáticas. Os subúrbios não são ideal de ninguém. Rebusquemos o sótão do imaginário colectivo. Eis que uma personagem nos afirma, com os olhos a brilhar de gananciosa esperança: «Ah, eu quero mais do que isto! Eu não fui feito para o campo! Não, que eu tenho outras ambições e essas só na cidade as poderei satisfazer!» A personagem em questão renuncia à sua condição inata de campesino. Decide tornar‑se citadino. Agora o exemplo contrário, tão fácil de encontrar como o primeiro: «Acho que não aguento o fumo, o stress, a violência, a desconfiança... Vou largá‑la de vez, a cidade, isto está a dar cabo de mim!» E lá vai para o campo. Citadino, quer deixar de o ser. Claro que ambas estas personagens darão provavelmente conta do engano em que caíram e, na maior parte dos casos, reconsiderarão. Mas isso é outra história. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: center;"&gt;&lt;b style="mso-bidi-font-weight: normal;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Escolhe‑se ir passar a férias a Genève, a Roma ou a Londres, ou numa aldeia ou vila qualquer, mas nunca em Cergy‑Pontoise ou no Algueirão. A não ser que aí se fique a passar férias porque é aí que mora o tal casal amigo que nos alberga. Só que, nesse caso, contar‑se‑á no fim das férias que elas foram passadas em Paris ou em Lisboa. Os subúrbios são só uma parte da cidade. Como o nome indica, são a parte de baixo da cidade, não no sentido físico, obviamente, mas nos outros sentidos todos… Subúrbios são a sub‑cidade.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: center;"&gt;&lt;b style="mso-bidi-font-weight: normal;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Um dos traços constantes da sub‑urbanidade é o sub‑urbanismo. No caso específico de Portugal, o urbanismo nem sequer é sub‑urbanismo, porque é inexistente. Salvo raríssimas excepções, os subúrbios são feios. Há uns mais feios que outros, naturalmente; há uns mais arborizados, mais confortáveis, menos cinzentos. Parece‑me, no entanto, não exagerar, se considerar sub‑urbanizações a quase totalidade das urbanizações suburbanas: os graffitti, nem sempre políticos, nem sempre com um propósito qualquer; o muro branco das escolas secundárias debruado a arame farpado, bastante mais do que vagamente concentracional; a pintura escamada; os elevadores avariados…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: center;"&gt;&lt;b style="mso-bidi-font-weight: normal;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;E um sempiterno tédio a pairar sobre as torres. Nos subúrbios, creio que já alguém o disse antes de mim, o tédio acarinha‑se como a um amigo. O tédio esfrega o tacão da bota bicuda contra a esquina dos prédios. O tédio passa horas sem conta à porta do café, a ver‑se desfilar na gente que passa. O tédio é sem cessar entornado nas mesas dos cafés, com gestos nervosos, impacientes: «Deixe ‘tar, que eu já limpo!», acorre solícito o empregado. E a salvação é sempre um transporte. De ou para a cidade.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: center;"&gt;&lt;b style="mso-bidi-font-weight: normal;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Os sub-urbanos gozam de um respeito de que antes só gozavam certos habitantes da cidade, as camadas pobres dos chamados bairros populares. Para obter no nosso interlocutor o mesmo efeito que outrora se conseguia respondendo à pergunta «de onde é que você é?» com um «Alfama» ou «Ménilmontant» secos, basta agora dizer, com a mesma entoação, «Cacém» ou «Sarcelles». Não se pode dizer que tenha sido a mais simpática das conquistas da sub‑urbanidade, mas é, sem dúvida, uma das mais importantes. No imaginário colectivo, o subúrbio tornou‑se cóio de malandros, a escumalha apanhou os comboios tranvias ou as carreiras suburbanas e, da cidade, foi toda instalar‑se nos seus arredores. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: center;"&gt;&lt;b style="mso-bidi-font-weight: normal;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Na maior parte destes antros de desolação cultivava‑se hortaliças e passava‑se férias há 30 anos. E menos. Em Cergy, não havia água canalizada há 40 anos. Há 20 anos, onde é hoje, na Rinchoa, a Urbanil, só havia algumas tamareiras e uma vacaria. Os subúrbios era ainda verdes há pouco tempo e habitado por saloios. Debaixo de cada subúrbio há uma aldeia. E, às vezes, os restos da aldeia são ainda visíveis – se já não restam muitos dos aldeãos de Cergy, há‑os ainda em Belas ou na Abelheira. É claro que o futuro de todos os subúrbios é igual, sem lugar para nem sequer vestígios do campestre…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;b&gt;&lt;a href="http://llindegaard.blogspot.com/2009/06/prova-do-tempo-que-passa.html"&gt;Há aqui na Travessa outro texto que complementa este&lt;/a&gt;&lt;/b&gt;. (Foi escrito na mesma altura, mas, talvez por ser em verso, resistiu melhor ao tempo, acho eu.) Estou agora muito longe de tudo isto. Revejo os subúrbios quando vou a Portugal de férias e já não os reconheço como meus ou como fazendo parte de mim, eu que lá cresci, imaginem vocês. Aliás, em muitos casos, pura e simplesmente não reconheço os lugares. Não sei como serão agora Belas ou a Abelheira. Provavelmente, ficam à beira de auto-estradas e já não lhes resta nada de aldeia que ainda eram um bocadinho há 25 anos.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2874386790023925718-5885175689706247114?l=llindegaard.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://llindegaard.blogspot.com/feeds/5885175689706247114/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2874386790023925718&amp;postID=5885175689706247114' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/5885175689706247114'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/5885175689706247114'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://llindegaard.blogspot.com/2011/05/notas-de-uma-juventude-suburbana.html' title='Notas de uma juventude suburbana'/><author><name>V. M. Lucas Lindegaard</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06993438398319242184</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/__m_JLgYBQmc/SUEyD_uVH3I/AAAAAAAAAwY/luHWZ4Q7ilk/S220/V%C3%ADtor.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2874386790023925718.post-4377829949806860616</id><published>2011-05-06T14:19:00.002+02:00</published><updated>2011-05-06T14:33:36.187+02:00</updated><title type='text'>Uma peça de teatro</title><content type='html'>&lt;h1&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=2874386790023925718&amp;amp;postID=4377829949806860616" name="_Toc292435316"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/h1&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Escrevi &lt;b&gt;&lt;a href="http://llindegaard.blogspot.com/2011/04/um-rider-haggard-de-1933-na-nevoa-de.html"&gt;aqui no outro dia&lt;/a&gt;&lt;/b&gt; que tinha trocado, em Bvumba, um livro de contos de Tchekhov por uma edição de 1933 de &lt;i&gt;King Solomon’s Mines&lt;/i&gt; de Rider Haggard; mas era mentira. Quer dizer, mentira não era, mas pretendia ser literatura, que é parecido. A verdade é que vou conservar o livro de contos de Tchekhov, pelo menos até arranjar uma edição melhor – ou uma edição maior, se a qualidade for a mesma. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;De facto, guardo poucos livros. Antigamente não, guardava os livros todos e tinha uma biblioteca que, não sendo muito grande, me ocupava ainda assim uma parede de cerca de 15 m&lt;sup&gt;2&lt;/sup&gt;. Um dia, &lt;b&gt;&lt;a href="http://llindegaard.blogspot.com/2011/04/mais-uma-cancao-sobre-edificios-arder.html"&gt;ardeu-me a casa&lt;/a&gt;&lt;/b&gt; e aprendi com o incêndio uma coisa que tinha obrigação de saber antes dele, mas que, pelos vistos, não sabia: que não devemos guardar nada que não consideremos muito provável vir a utilizar. Faço agora circular todos os livros que compro ou que me dão, excepto, claro está, os de consulta ou que possam como tal vir a ser usados, e meia dúzia de obras que sei que, mais cedo ou mais tarde, hei-de reler. Os contos de Tchekhov, está agora decidido, são uma dessas obras.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Dizem que Tchekhov está para o conto como Schubert está para o &lt;i&gt;Lied&lt;/i&gt;. Não tenho maneira de avaliar a proposição, porque os meus conhecimentos de contos e de &lt;i&gt;Lieder&lt;/i&gt; não chegam para tal, mas posso confirmar que Tchekhov escreve contos muito bem escritos – dos mais bem escritos que conheço. Ora, como sabem, Tchekhov é conhecido não só como contista, mas também como dramaturgo. Não sei se será mais conhecido como contista ou como dramaturgo, mas – e chegamos aqui à ideia central deste texto, à ideia que me levou a escrevê-lo – parece-me que os contos de Tchekhov são também, essencialmente, sketches ou quadros teatrais; e que mesmo aqueles em que há algum movimento por diversos espaços e tempos [a maioria tem a unidade espácio-temporal típica do drama] podem, com truques simples, ser adaptados ao palco. Foi isso que fiz com este conto a que chamei &lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;“&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;O visitante importuno&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;”&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt; e que traduzi e adaptei das traduções inglesas de Constance Garnett em 1921 (“The troublesome visitor”, in &lt;b&gt;&lt;a href="http://www.gutenberg.org/catalog/world/readfile?fk_files=1491501"&gt;&lt;i&gt;The Horse-Stealers and Other Stories&lt;/i&gt;&lt;/a&gt;&lt;/b&gt;) e de Marian Fell em 1914 (“The troublesome guest”, in &lt;b&gt;&lt;a href="http://www.archive.org/stream/storiesofrussian00chekuoft/storiesofrussian00chekuoft_djvu.txt"&gt;&lt;i&gt;Stories of Russian Life&lt;/i&gt;&lt;/a&gt;&lt;/b&gt;) . Quero deixar claro, para não me criticarem depois a falta de rigor, que se trata de uma tradução dita &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;livre&lt;/i&gt;, até porque não tenho maneira de verificar, no original russo, qual das duas traduções segue de mais perto o original, quando existem discrepâncias &amp;nbsp;entre as duas – e há muitas; e quero avisar também que tirei ao conto alguns pormenores descritivos, que não se deixavam transformar bem nem em indicações de cenário nem em didascálias, e o gato e o cão, que a maior parte dos encenadores não consegue dirigir...&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;b&gt;_______________ &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;(Interior de uma cabana pequena, de tecto baixo. Estão dois homens sentados sob o ícone escuro: ARTEM, o dono da cabana, um camponês de alguma idade com uma barba pequena; e um CAÇADOR, um jovem alto de camisa nova carmim e grandes botas enlameadas. Estão sentados num banco a uma mesa de três pés sobre a qual arde uma vela metida no gargalo de uma garrafa. Fora da janela está tudo escuro. Um vidro partido da janela está tapado com papel.)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;ARTEM (numa voz meia murmurada, fixando assustado o CAÇADOR com olhos esbugalhados): Vou dizer-te uma coisa, bom cristão. Não tenho medo de lobos nem de ursos, nem de animais selvagens, sejam lá eles quais forem, mas tenho medo do homem. Dos bichos, uma pessoa pode salvar-se, com uma espingarda ou outra arma qualquer, mas não há maneira de escapar a um homem mau.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;CAÇADOR: Isso é certo, pode-se disparar contra um bicho, mas, se se dispara contra um ladrão, tem de se responder por isso: vai-se parar à Sibéria.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;ARTEM: Há trinta anos, rapaz, que sou guarda-florestal e nem queiras saber o que eu tenho passado com homens de mau carácter. Têm passado por aqui muitos. A cabana está numa clareira, na estrada das carroças, e é isso que os traz, esses demónios. Não há rufião que aqui não apareça e, sem sequer tirar o boné nem fazer o sinal da cruz, não comece logo a exigir: «Dá-nos lá pão, anda!» Onde é que eu vou arranjar pão para lhes dar? E que direito têm eles de mo pedir? Será que sou algum milionário, para dar de comer a todos os bêbedos que aqui passem? Mas eles parece que estão cegos de maldade e, sem hesitar, gritam-me aos ouvidos: «Dá-nos pão!» Bom, e eu dou-lhes... Não me vou pôr à pancada com esses pagãos! Alguns medem dois metros de ombro a ombro e têm punhos do tamanho das tuas botas e eu, bem vês a fraca figura que sou. Um desses tipos era capaz de me esmagar com o dedo mindinho. E então, pronto, dou-lhes pão, eles empanturram-se e estendem-se para aí na barraca a descansar e nem obrigado me dizem. Há alguns que ainda me pedem dinheiro. «Diz lá, onde é que tens o dinheiro?» Como se eu tivesse dinheiro! Onde é que eu havia de o arranjar?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;CAÇADOR (rindo): Um guarda-florestal sem dinheiro! Recebes todos os meses e de certeza que vendes madeira às escondidas.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;(ARTEM olha de esguelha para o CAÇADOR e puxa a barba).&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;ARTEM: És ainda muito novo para me dizeres uma coisa dessas. Terás de responder perante Deus por essas palavras. Quem és tu? De onde és?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;CAÇADOR: Sou de Viazofka. Sou filho de Nefed, o meirinho da aldeia.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;ARTEM: Andas por aí aos pássaros de espingarda na mão. Eu também gostava de caçar, quando era rapaz novo. (Boceja.) Ah, grandes pecadores que nós somos. É triste! Há pouca gente boa, mas não faltam para aí bandidos e assassinos – Deus tenha piedade de nós.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;CAÇADOR: Parece que também estás com medo de mim... &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;ARTEM: Ora essa! Porque havia de ter medo de ti? Eu vejo as coisas... Compreendo-as... Entraste, e não entraste de qualquer maneira, benzeste-te, fizeste uma vénia, com decência, como se deve... Eu percebo bem as coisas... Posso dar-te pão... Sou viúvo, nunca acendo o fogão, vendi o samovar... Não tenho dinheiro que chegue para ter carne em casa, nem nada parecido, mas podes servir-te de pão. (Faz uma breve pausa.) Dizes então que és de Viazofka… Gente esquisita, essa gente de Viazofka. A igreja foi assaltada duas vezes no espaço de um ano... Como pode haver gente assim tão malvada? Não têm medo dos homens e também não têm medo de Deus! Roubar o que pertence ao Senhor! Enforcá-los ainda é pouco! Antigamente, os governadores mandavam cortar a cabeça a facínoras dessa espécie.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;CAÇADOR: Pode-se castigá-los de qualquer maneira, mandar chicoteá-los ou seja lá o que for, não serve de nada, não se consegue tirar o mal a quem tem o mal dentro de si.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;ARTEM: Que a Virgem Santa tenha piedade de nós e nos proteja, e nos salve dos nossos inimigos e de quem nos quer mal! (Suspira.) A semana passada em Volóvi Zaimíchtchi, um ceifeiro abriu o peito a outro com uma foice... Matou-o logo ali naquele instante! E aquilo tudo porquê, valha-me Deus? Sai um ceifeiro da taberna, bêbedo; o outro topa com ele, também bêbedo…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;(O CAÇADOR estica-se de repente para a frente, fica com uma expressão tensa e interrompe o relato de ARTEM.)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;CAÇADOR: Espera. Parece que está alguém a gritar.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;(O CAÇADOR e ARTEM ficam calados a escutar, de olhar fixos. Ouve-se distintamente lá fora alguém gritar por socorro.)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;CAÇADOR (levantando-se): Olha, por falar em assassinos… Está alguém a ser assaltado!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;ARTEM (murmurando): O Senhor tenha piedade de nós!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;(ARTEM também se levanta. O CAÇADOR olha pela janela e põe-se a andar de um lado para o outro.)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;CAÇADOR: E que noite esta, que noite esta! Não se vê um palmo à frente do nariz! É mesmo noite para assaltos. Ouviste? Gritaram outra vez.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;(ARTEM olha para o ícone na parede e depois para o CAÇADOR e senta-se de novo no banco.)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;ARTEM: Amigo, vai ali à entrada e tranca a porta. E também temos de apagar a luz.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;CAÇADOR: Para quê?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;ARTEM: Podem vir dar cá a casa... Pobres de nós, pecadores!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;CAÇADOR: Então nós devíamos era ir lá e tu estás-me a dizer que tranque a porta? Ora aí está uma coisa inteligente! Vens ou não?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;(O CAÇADOR põe a arma ao ombro e o boné na cabeça.)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;CAÇADOR: O que é que estás a fazer aí sentado? Não me vais dizer que não vens…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;ARTEM: Onde?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;CAÇADOR: Ajudar!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;ARTEM: Porque é que havia de ir? Deixa-os lá estar…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;CAÇADOR: Porque é que não vens?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;ARTEM: Depois das conversas tenebrosas que tivemos, recuso-me a aventurar-me no escuro. Deixa-os lá estar! Já vi acontecerem coisas horríveis nessa mata… &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;CAÇADOR: Mas de que é que tu tens medo? Não tens uma espingarda? Vamos lá embora, por favor. O que mete medo é ir sozinho; é melhor irmos os dois. Estás a ouvir? Mais um grito. Levanta-te, vá!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;ARTEM: Mas por quem me tomas tu, rapaz? Pensas que sou tontinho, para ir agora lá para fora e alguém me dar cabo do canastro?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;CAÇADOR: Então não vens?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;(ARTEM não responde.)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;CAÇADOR: Vens ou não?, estou eu a perguntar!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;ARTEM: Não me estejas a chatear! Se queres ir, vai tu.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;CAÇADOR: Velhaco, é o que tu és!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;(O CAÇADOR sai e deixa a porta aberta. A luz apaga-se. ARTEM, às apalpadelas, vai trancar a porta.)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;ARTEM (murmurando): Pela minha alminha! Que tempo nos manda Nosso Senhor!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;(Sempre às apalpadelas, vai para junto do fogão, deita-se e cobre a cabeça e o corpo com uma pele de ovelha.)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;ARTEM: Ele é mas é doido. Aposto que até treme de medo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;(Escuro e silêncio, durante dois ou três minutos. Batem à porta com força.)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;ARTEM: Quem é?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;CAÇADOR: Sou eu. Abre lá a porta.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;(ARTEM acende a vela e vai até à porta. Entra o CAÇADOR.)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;ARTEM: O que era?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;CAÇADOR (ofegante): Uma camponesa numa carroça. A carroça despistou-se e ficou presa numa moita.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;ARTEM: Pateta da mulher! E assustou-se, está claro... E então, puseste-lhe a carroça na estrada outra vez?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;CAÇADOR: Não me apetece falar com patifes da tua laia. (Pousa o boné no banco.) Sei agora que és um patife e o mais reles dos homens. E ainda por cima és pago para ser guarda! És uma vergonha dum guarda!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;(ARTEM aproxima-se do fogão, pigarreia e baixa-se. O CAÇADOR estende-se no banco e fica com ar pensativo. Passado pouco tempo, levanta-se, apaga a vela e volta a estender-se. Vira-se e cospe para o chão.)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;CAÇADOR: Estava com medo, vejam lá… E se estivessem a matar a mulher? Defendê-la para quê? Está velho, coitado… E diz que é cristão… Um nojento, é o que ele é, não passa disso.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;(ARTEM pigarreia e suspira profundamente.)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;CAÇADOR: Com que então, tanto se te dava que matassem a mulher? Ora, raios me partam, não fazia ideia de que tipo de pessoa é que tu eras… (Faz uma pausa.) E se fosses tu a gritar por socorro, em vez de ser a mulher? Gostavas que ninguém viesse em teu auxílio, meu animal? Pões-me doente com a tua cobardia, raios te partam! (Faz uma longa pausa.) Mas tu deves ter dinheiro, para teres tanto medo das pessoas! Um pobre não tem medo assim dessa maneira...&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;ARTEM: Hás-de responder perante Deus pelo que estás a dizer. Não tenho dinheiro nenhum.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;CAÇADOR: Deixa-te de lérias! Os velhacos como tu têm sempre dinheiro... Porque é que tens medo das pessoas, então? Tens dinheiro, pois! Apetece-me roubar-te, só por pirraça, para te dar uma lição!...&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;(ARTEM desce do fogão, acende mais uma vela e senta-se debaixo do ícone.)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;CAÇADOR: É isso mesmo, vou-te roubar. O que é que achas? Gente como tu merece uma lição. Diz lá então, onde é que escondeste o dinheiro?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;(ARTEM puxa para si as pernas e pisca os olhos.)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;CAÇADOR: Estás aí a contorcer-te para quê? Onde é que está escondido o dinheiro? Não tens língua, ó pateta? Porque é que não me respondes? (Põe-se de pé de um salto e vai até perto de ARTEM.) Está piscar os olhos, parece uma coruja! Então? Dás-me o dinheiro ou dou-te um tiro?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;ARTEM: Mas porque é me estás a atormentar? (Chora.) Que mal é que eu fiz? Deus vê tudo! Há-de responder perante Deus por cada palavra que disseste. Não tens direito nenhum de me pedires dinheiro.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;(O CAÇADOR olha para ARTEM, franze o sobrolho e começa a andar de um lado para o outro. De repente, põe o boné com um gesto irado e pega na espingarda.)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;CAÇADOR: Bah! Fico mal disposto só de olhar para ti. Aqui é que eu não fico a dormir. Adeus!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;(O CAÇADOR sai, batendo com a porta. ARTEM tranca a porta, benze-se e vai-se deitar outra vez junto do fogão.)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2874386790023925718-4377829949806860616?l=llindegaard.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://llindegaard.blogspot.com/feeds/4377829949806860616/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2874386790023925718&amp;postID=4377829949806860616' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/4377829949806860616'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/4377829949806860616'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://llindegaard.blogspot.com/2011/05/uma-peca-de-teatro.html' title='Uma peça de teatro'/><author><name>V. M. Lucas Lindegaard</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06993438398319242184</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/__m_JLgYBQmc/SUEyD_uVH3I/AAAAAAAAAwY/luHWZ4Q7ilk/S220/V%C3%ADtor.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2874386790023925718.post-3434878090123515843</id><published>2011-04-29T15:06:00.009+02:00</published><updated>2011-04-29T15:23:58.877+02:00</updated><title type='text'>O caixão itinerante</title><content type='html'>Nunca li, confesso, as aventuras de Dirk Pitt, que são o que deu fama e dinheiro a &lt;b&gt;&lt;a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Clive_Cussler"&gt;Clive Cussler&lt;/a&gt;&lt;/b&gt;; mas posso imaginar, pelo muito pouco que conheço do autor, a exibição de auto-regozijo que hão-de ser essas novelas – se o herói de Cussler for, como o imagino, um alter-ego do grande ego do seu criador. [Ia a dizer que acabo de inventar um novo tipo de crítica, que consiste em dizer mal de livros que não se leu, mas pensando melhor, é extremamente provável que tal crítica já exista, se não for mesmo bastante comum, sem que se o saiba… Agora, se me permito julgamentos tão perversos como infundados é porque, de tudo o que a vida me ensinou, só há uma coisa que tenho como certa: desses best-sellers que se vendem em aeroportos e supermercados, não há um de que se possa dizer benza-te deus. Agora chamem-me snob, a ver se eu me ralo…] Em &lt;i&gt;&lt;b&gt;&lt;a href="http://www.cusslermen.com/seahunters.htm"&gt;The Sea Hunters&lt;/a&gt;&lt;/b&gt;&lt;/i&gt;, porém, Cussler escreveu várias histórias interessantes – permanentemente salpicadas da tal irrefreável vaidade, é certo, mas interessantes ainda assim. O livro conta as aventuras reais do autor e da sua Agência Marinha e Submarina Nacional, NUMA, à procura de navios enterrados no lodo dos rios ou nas areias do fundo dos mares; e Cussler inventa, antes de cada uma dessas narrativas, a descrição do naufrágio de cada embarcação. Além de histórias de barcos, conta-se também no livro a história de uma locomotiva e de 3 submarinos. Foram as histórias dos submarinos que mais me impressionaram. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sabiam que passaram mais de 68 anos entre o primeiro e o segundo ataques bem sucedidos de um submarino a um navio de superfície? Pois é verdade: em Fevereiro de 1864, o submarino confederado &lt;i&gt;Horace H. Henley&lt;/i&gt; afundou o &lt;i&gt;Housatonic&lt;/i&gt;, um navio da União; e só em Setembro de 1914 é que o submarino alemão &lt;i&gt;U-21&lt;/i&gt; voltou a repetir a proeza, afundando o navio britânico &lt;i&gt;Pathfinder&lt;/i&gt;. A partir daí, os submarinos alemães, sobretudo, não cessaram mais a sua acção destruidora, mas mais na primeira grande guerra do que na segunda (traduzo da obra de Cussler todas as passagens a castanho): &lt;span style="color: #660000;"&gt;«[Durante a Primeira Guerra Mundial,] os primeiros navios submarinos da Alemanha afundaram o impressionante número de 4838 navios (…), mais 2009 do que os seus descendentes na Segunda Guerra Mundial»&lt;/span&gt;. Mas deixemos estas generalidades enciclopédicas e voltemos à primeira destas terríveis máquinas de guerra, o &lt;i&gt;Horace H. Hunley&lt;/i&gt;, que é o protagonista deste texto:&lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="PT"&gt;O &lt;i&gt;Hunley&lt;/i&gt; (tratemo-lo assim daqui para a frente, para poupar letras) era o terceiro submarino subsidiado pela dupla Horace L. Hunley e Baxter Watson e concebido por James McClintock. O irmão mais velho do &lt;i&gt;Hunley&lt;/i&gt;, o &lt;i&gt;Pioneer&lt;/i&gt;, é um nado-morto: depois de ter completado com êxito alguns ensaios mas antes de ter sido oficialmente dado por apto para o serviço militar a valer, o &lt;i&gt;Pioneer&lt;/i&gt; foi destruído pelo seu próprio criador, para o impedir de cair nas mãos dos nortistas, quando estes conquistaram Nova Orleães, onde o submarino estava a ser aperfeiçoado. Teimoso que era, McClintock, que tinha fugido para Mobile, no Alabama, construiu um segundo &lt;i&gt;Pioneer&lt;/i&gt;, mas este não resistiu, na sua primeira missão, à violência de uma tempestade que lhe abriu rachas nos costados e afundou-se. Felizmente, a tripulação conseguiu abandoná-lo a tempo.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Não foi ainda desta vez que McClintock se deu por vencido. Conseguiu mais financiamento para continuar o seu projecto e, com a ajuda do tenente William Alexander, que trabalhara já com ele no &lt;i&gt;Pioneer II&lt;/i&gt;, construiu o &lt;i&gt;Hunley&lt;/i&gt;, pensa-se que a partir de uma velha caldeira de locomotiva. Segundo Cussler, &lt;span style="color: #660000;"&gt;«a embarcação que se tornou famosa como &lt;/span&gt;&lt;i style="color: #660000;"&gt;torpedeiro Hunley&lt;/i&gt;&lt;span style="color: #660000;"&gt; era surpreendentemente avançada para o seu tempo. A configuração do casco era muito semelhante ao design que haveria de ter muito mais tarde o submarino nuclear &lt;/span&gt;&lt;i style="color: #660000;"&gt;Nautilus&lt;/i&gt;&lt;span style="color: #660000;"&gt; (…) Dois pequenos portalós superiores, com escotilhas, que serviam de torres de entrada e saída. A largura era à justa para por lá se esgueirar um homem, conquanto mantivesse os braços erguidos por cima da cabeça. Havia até um rudimentar sistema de periscópio, chamado uma caixa-de-ar, com tubos que se moviam verticalmente, com as pontas acima da superfície da água. (…) O único defeito do Hunley era o seu primitivo sistema de propulsão. Estava-se ainda muito longe da energia de baterias eléctricas ou de motores a gasóleo. O Hunley contava apenas com oito homens para rodar o eixo que fazia girar a hélice»&lt;/span&gt;. Um submarino movido à manivela, nem mais. E agora, imaginem as condições dentro do submarino, para os nove homens que o tripulavam: &lt;span style="color: #660000;"&gt;«O submarino tinha cerca de 10m de comprimento total e um casco de 1,5m de altura com uma largura máxima de 1,2m. O leme de direcção era comandado com uma roda e manobrado pelo capitão, que ia de pé e dirigia o submarino pelas escotilhas da torre da frente»&lt;/span&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;b&gt;&lt;a href="http://llindegaard.blogspot.com/2011/04/falar-bem.html"&gt;Como já aqui disse uma vez&lt;/a&gt;&lt;/b&gt;, as descrições, por exactas que sejam, não nos conseguem fazer perceber (visualizar, neste caso) o descrito. Bem mais eficazes do que palavras são as imagens abaixo que deixarão clara, penso eu, a angustiante falta de espaço do caixão itinerante, como lhe chamou a imprensa:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/-qzP-eHNDVXE/Tbq2Dur_CiI/AAAAAAAABY0/Gs8ADzoyxNQ/s1600/Horace+L.+Hunley+1.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="403" src="http://2.bp.blogspot.com/-qzP-eHNDVXE/Tbq2Dur_CiI/AAAAAAAABY0/Gs8ADzoyxNQ/s640/Horace+L.+Hunley+1.jpg" width="640" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/-mljjRd-hqdY/Tbq2Gy31mbI/AAAAAAAABY4/WRKjoPWv4Y8/s1600/Horace+L.+Hunley+2.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="294" src="http://2.bp.blogspot.com/-mljjRd-hqdY/Tbq2Gy31mbI/AAAAAAAABY4/WRKjoPWv4Y8/s640/Horace+L.+Hunley+2.jpg" width="640" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Se lhe chamaram caixão itinerante, tiveram os jornais justificação de sobra para a mórbida imagem: morreram no &lt;i&gt;Hunley&lt;/i&gt; 22 pessoas. O primeiro acidente foi causado pelo Tenente John Payne, o primeiro comandante do submarino depois de McClintock, que fez o submarino imergir com as escotilhas abertas, causando a morte de cinco tripulantes. O segundo acidente deu-se com Horace H. Hunley, o primeiro financiador e padrinho do submarino, dirigindo uma equipa de 7 homens, numa viagem de treino. Hunley exagerou o ângulo de mergulho do submarino, o tanque de lastro dianteiro encheu-se demasiado e não houve maneira de fazer emergir a embarcação. Nenhum dos oito homens que iam a bordo se salvou. O derradeiro e maior acidente do &lt;i&gt;Hunley&lt;/i&gt; coincidiu com o seu momento de glória e nele perderam a vida todos os seus nove tripulantes. Foi em Fevereiro de 1864 e comandava a nave o Tenente George Dixon, que, apoiara William Alexander na reconstrução do &lt;i&gt;Pioneer II&lt;/i&gt;. Após semanas de tentativas frustradas de ataques a barcos do Norte, o &lt;i&gt;Hunley&lt;/i&gt; conseguiu finalmente torpedear e afundar o &lt;i&gt;Housatonic&lt;/i&gt;, uma chalupa canhoneira nortista, perto de Charleston, na Carolina do Sul. A onda de choque da explosão do barco da União foi violentíssima, mas os tripulantes e o submarino conseguiram sobreviver-lhe. Já no caminho de regresso, porém, e quando todo o perigo parecia ter passado, o &lt;i&gt;Hunley&lt;/i&gt; foi abalroado pelo navio de guerra &lt;i&gt;Canandaigua&lt;/i&gt;, que ia em socorro dos sobreviventes do &lt;i&gt;Housatonic&lt;/i&gt;. O comandante do &lt;i&gt;Hunley&lt;/i&gt; viu tarde demais as luzes do barco inimigo. Ainda mergulhou, mas já não foi a tempo de evitar a colisão: a quilha do &lt;i&gt;Canandaigua&lt;/i&gt; rasgou literalmente o submarino, que se afundou imediatamente e deixou de ser caixão itinerante para passar ser o caixão fixo e permanente dos seus 9 tripulantes. A bordo do &lt;i&gt;Canandaigua&lt;/i&gt;, ninguém deu&lt;i&gt; &lt;/i&gt;sequer por ter afundado a arma secreta da marinha confederada...&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Não sou propriamente um aficionado de história militar, nem aficionado de coisas marítimas. Fascina-me o vocabulário de barcos e marinhagem, mas fica-se pelas palavras o meu fascínio pela navegação. O que eu sou é um bocado claustrofóbico e tenho um medo terrível do mar, isso sim. &lt;b&gt;&lt;a href="http://www.cite-sciences.fr/fr/cite-des-sciences/contenu/c/1248106392917/l-argonaute"&gt;Na Cité des Sciences de La Villette, estive uma vez dentro de um submarino&lt;/a&gt;&lt;/b&gt;, ainda assim bem maior do que o Hunley, e fiquei muito angustiado só de me imaginar fechado dentro de uma coisa daquelas no fundo do mar. Não consegui na altura – nem consigo ainda – pensar num submarino a não ser como… um caixão itinerante, precisamente!...&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="PT"&gt;[Para ficarem com uma ideia ainda mais clara de como era o interior do &lt;i&gt;Hunley&lt;/i&gt;, vejam &lt;b&gt;&lt;a href="http://www.aspaceapart.com/wp-content/uploads/2009/05/p69075-charleston-hl_hunley1.jpg"&gt;aqui&lt;/a&gt;&lt;/b&gt; ou &lt;b&gt;&lt;a href="http://www.ussmahan.org/Jim_in_Hunley.jpg"&gt;aqui&lt;/a&gt;&lt;/b&gt;.]&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2874386790023925718-3434878090123515843?l=llindegaard.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://llindegaard.blogspot.com/feeds/3434878090123515843/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2874386790023925718&amp;postID=3434878090123515843' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/3434878090123515843'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/3434878090123515843'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://llindegaard.blogspot.com/2011/04/o-caixao-itinerante.html' title='O caixão itinerante'/><author><name>V. M. Lucas Lindegaard</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06993438398319242184</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/__m_JLgYBQmc/SUEyD_uVH3I/AAAAAAAAAwY/luHWZ4Q7ilk/S220/V%C3%ADtor.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/-qzP-eHNDVXE/Tbq2Dur_CiI/AAAAAAAABY0/Gs8ADzoyxNQ/s72-c/Horace+L.+Hunley+1.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2874386790023925718.post-2235295479804747184</id><published>2011-04-26T01:12:00.001+02:00</published><updated>2011-04-26T01:25:07.509+02:00</updated><title type='text'>Um gominho ligeiro andava...</title><content type='html'>Os dinamarqueses, que não têm citrinos na sua terra, nunca inventaram palavra específica para dizer os gomos de uma laranja ou de uma tangerina. Quando precisaram de referir as partes em que está dividida a polpa desses frutos, chamaram-lhe &lt;b&gt;båd&lt;/b&gt;, “barco”, uma palavra que existe desde sempre, claro, num país onde nunca se pode estar a mais de meia centena de quilómetros do mar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-HE37N5ZQ3sE/TbYBaDt0uXI/AAAAAAAABYw/NyBICGJCR3U/s1600/Appelsin-b%25C3%25A5d.JPG" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://3.bp.blogspot.com/-HE37N5ZQ3sE/TbYBaDt0uXI/AAAAAAAABYw/NyBICGJCR3U/s1600/Appelsin-b%25C3%25A5d.JPG" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2874386790023925718-2235295479804747184?l=llindegaard.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://llindegaard.blogspot.com/feeds/2235295479804747184/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2874386790023925718&amp;postID=2235295479804747184' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/2235295479804747184'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/2235295479804747184'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://llindegaard.blogspot.com/2011/04/um-gominho-ligeiro-andava.html' title='Um gominho ligeiro andava...'/><author><name>V. M. Lucas Lindegaard</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06993438398319242184</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/__m_JLgYBQmc/SUEyD_uVH3I/AAAAAAAAAwY/luHWZ4Q7ilk/S220/V%C3%ADtor.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/-HE37N5ZQ3sE/TbYBaDt0uXI/AAAAAAAABYw/NyBICGJCR3U/s72-c/Appelsin-b%25C3%25A5d.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2874386790023925718.post-4783032712848910129</id><published>2011-04-26T00:49:00.002+02:00</published><updated>2011-04-26T00:51:45.673+02:00</updated><title type='text'>Mais uma canção sobre edifícios a arder</title><content type='html'>&lt;h1&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=2874386790023925718" name="_Toc291493797"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;/h1&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: left;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;[Texto originalmente publicado, numa versão ligeiramente diferente, no &lt;i&gt;&lt;b&gt;&lt;a href="http://www.101noites.com/index.php?page=shop.product_details&amp;amp;flypage=shop.flypage&amp;amp;product_id=17&amp;amp;category_id=5&amp;amp;manufacturer_id=1&amp;amp;option=com_virtuemart&amp;amp;Itemid=31&amp;amp;vmcchk=1&amp;amp;Itemid=31"&gt;Livro Pirata&lt;/a&gt;&lt;/b&gt;&lt;/i&gt; dos Rádio Macau]&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span lang="PT"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right" class="MsoNormal" style="text-align: right;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right" class="MsoNormal" style="color: #660000; text-align: right;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Houve aí um fogo enorme, que apagaram com sangue. Foi mesmo na minha rua, mesmo dentro do meu quarto. Eu vi-os todos chegarem e olharem para mim, como se eu fosse a culpada de alguma coisa terrível. As pessoas, cá em baixo, olhavam com indiferença, como quem ouve na rádio as notícias do meio-dia. Desci as escadas a arder, peguei fogo à cidade. Houve anjos que ainda tentaram levantar voo, em vão. &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Acordei eram umas 6 e meia da manhã. Liguei o computador e li num jornal &lt;i&gt;online&lt;/i&gt; que metade de Portugal estava a arder. Dei uma espreitadela no quarto dos miúdos: dormiam como anjos. O que é que eu ia fazer a uma hora daquelas? Decidi que era demasiado cedo para me levantar e fui meter-me outra vez na cama. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Hora e meia mais tarde, veio a Clara acordar-me. Estava toda nua e a chorar. “O que é que foi, Clarinha, o que é que foi?” Demorei alguns segundos a tentar identificar os ruídos estranhos que enchiam a casa. Ouviam-se coisas a cair e o que parecia o crepitar de uma fogueira muito grande. Saltei da cama, peguei na menina ao colo e corri para a casa de jantar. O quarto dos miúdos já não era senão uma labareda única, enorme e medonha, e começava um fumo negro a encher a casa toda. Senti o calor queimar-me cabelo e pestanas, recuei alguns passos e pus a Clara no chão. Veio-me então a certeza de que o Daniel tinha morrido da mais terrível das mortes, queimado vivo ali dentro daquele inferno, e comecei, tresloucado, a gritar por ele. Não que me restasse alguma esperança de ele estar vivo, mas porque a dor toma muitas vezes a forma primitiva do nome gritado de quem perdemos. E ainda bem que gritei: o Daniel, que estava escondido atrás da escrivaninha da sala de estar, veio ter connosco a correr. Com a aflição, nem o cheguei a abraçar. Gritei‑lhe só que corresse lá para fora, vá, rápido!, peguei na Clara e corri atrás dele. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Moramos no rés-do-chão direito. Quando nos vi fora do apartamento, a minha preocupação foi avisar os vizinhos, mas não consegui, naquela altura, ter o discernimento suficiente para ir pôr os miúdos à rua antes de o fazer. Bati à porta do lado, nada, ninguém respondeu. Estavam, com certeza, ainda a dormir. Havia já muito fumo nas escadas. Corri para o primeiro andar, em pânico, a Clara ao colo, o Daniel a reboque. Os vizinhos de cima, do lado direito, também não responderam. Quando o Ole, o vizinho do 1º esquerdo, me abriu a porta, não consegui dizer-lhe nada. Não me saía da boca som nenhum. E não era por não saber dizer “há fogo” em dinamarquês...&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Foi o Ole que telefonou aos bombeiros. Enquanto ele telefonava, a mulher dele agarrou no Daniel pela mão e foi ver se se podia descer pelas escadas traseiras para o pátio interior do bloco de edifícios. “À vontade”, gritou-me ela da porta da cozinha, “o fumo ainda aqui não chegou.” Galgou as escadas com o miúdo e eu desci com a Clara logo atrás dela. E o Ole veio também logo a seguir. Ficámos ali, no meio do pátio, arrelampados, mais nus do que vestidos, a fixar em silêncio, como hipnotizados, aquela chama descomunal que saía pela janela do quarto dos miúdos, um maçarico gigantesco, que ia rapidamente enegrecendo a faixa de parede que lhe ficava&amp;nbsp; por cima e em frente, do lado de lá do ângulo interior do pátio, e rebentando, sem se lhes pegar, caixilhos e vidraças das janelas mais próximas. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Não se pode dizer que tenha havido vizinhos a olharem com indiferença, como na canção que aqui me traz. Como acontece bastante nesta parte da cidade, o pátio é de um quarteirão inteiro, que é um único edifício, e onde moram, no total, cerca de 450 pessoas. Mas havia muito poucas, umas 50, se tanto, a assistir ao incêndio – as outras, domingo de manhã que era, continuavam a dormir. Os vizinhos que foram aparecendo no pátio pareciam mais perturbados do que nós e ofereciam-se para nos ajudar no que pudessem. Eu pedi-lhes só alguma roupa emprestada e fraldas para a Clara. Passadas umas semanas, quando quis devolver a roupa que me emprestaram, tive de afixar um papel em cada uma das 15 entradas do edifício a perguntar a quem é que ela pertencia, porque não conseguia lembrar-me de quem ma tinha emprestado. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;De facto, não me lembro muito bem desse dez minutos intermináveis que se passaram entre saírmos de casa e chegarem os bombeiros. Em poucos minutos, extinguiram o fogo. Apagaram-no com espuma, para tentar minorar os estragos no apartamento. Os polícias chegaram mais ou menos ao mesmo tempo que os bombeiros. Tive de lhes explicar tudo o que sabia do que tinha acontecido, do que estava a acontecer, e fiquei impressionado com a qualidade do meu dinamarquês (se bem que duvide que os tenha conseguido impressionar a eles...). Quando acabei os meus atabalhoados depoimentos, meteram-nos, a mim, à Clara e ao Daniel, numa ambulância e levaram‑nos para o hospital. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;No hospital, estavam as vizinhas do quarto andar: a Kirsten e a filha dela, a Julie, do 4º direito; e a Henriette, uma senhora já octogenária que mora sozinha no 4º esquerdo. Foram elas que mais sofreram com o fumo. Quando acordou, com o alarme de incêndio, e se deu conta do que se estava a passar a Kirsten agarrou na filha e foi buscar a vizinha Henriette, pobre senhora. Tentaram descer pela escada de trás, mas já havia tanto fumo que era demasiado arriscado aventurar-se por ali. “Liguei aos bombeiros, a explicar-lhes a nossa situação. Eles disseram-me para não me preocupar, que já iam dois carros a caminho. Fixe, era reconfortante, mas o pior é que a casa, a pouco e pouco, ia-se enchendo de fumo. Devia ser fumo que entrava pelas frestas das portas e das janelas, eu sei lá... ou pela chaminé, se calhar... Bem, o certo é que, a certa altura, já não se aguentava. Tivemos de ir todas para a varanda e ficar ali quietinhas, cheiínhas de medo, sem ousar sequer olhar cá para baixo, até que finalmente os bombeiros lá nos vieram buscar de escada Magirus, tal e qual como nos filmes... Como as coisas são: mesmo a Julie, só com três anos, já sabe qual é a ordem normal do mundo, já sabe que os bombeiros salvam quem fica preso no quarto andar de um edifício a arder: mal o carro dos bombeiros parou lá em baixo na rua, houve logo uma mudança na expressão de todas nós, aliviou-se-nos coração e alma – estávamos salvas!”&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Feitas as análises que se deviam, verificou-se que, felizmente, não tínhamos monóxido de carbono nenhum no sangue. E deram-nos alta a todos. Saímos do hospital aí por essas onze horas. Telefonei primeiro à Rikke, a minha mulher, a contar-lhe tudo, e depois à minha chefe, a pedir, pelo menos, três dias de dispensa do serviço; e fomos até à maternidade onde a Rikke estava internada, por causa de umas complicações surgidas na sequência do parto da nossa terceira filha, a Felicia, nascida oito dias antes. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Estava lá o Aage, um amigo nosso, e estava visivelmente transtornado. Repetiu-me a história que já tinha contado à Rikke. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;“Sonhei com vocês e não sei ao certo o que se passava no sonho, mas era uma coisa qualquer má... Lembro-me que havia um matador de porcos, pois, vê lá tu, um matador de porcos, e depois havia uma explosão, uma explosão grande, não sei se era um atentado à bomba, se o que era, e vocês estavam lá, tu e a Rikke, só os dois, sem os miúdos, e depois eu, naquela confusão, procurava-vos por toda a parte, mas em vão, vocês tinham desaparecido...”&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Eis o que fazem as televisões e os jornais com o terrorismo deles, pensei eu, e perturbou-me sinceramente ver o Aage assim tão sinceramente perturbado.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;“Ouve, eu não ligo a sonhos, quer dizer, um bocadinho, às vezes”, continuou ele, “mas desta vez, não sei por quê, quando acordei fui logo telefonar-vos, mas ninguém atendeu e eu, então, agarrei na bicicleta e fui a vossa casa. E agora imaginem quando chego lá e vejo a porta de casa aberta e sinto aquele cheiro, e depois entro por ali dentro e vejo aquilo tudo preto, tudo queimado, o que é que eu havia de pensar?”&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;“Mãe, mãe, olha” interrompeu-o o Daniel, “é a nossa casa!”. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;A televisão estava ligada e estava a dar as notícias do meio-dia.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;“Olha, e aquele sou eu”, disse o Aage.&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;“Quer dizer que, quando tu chegaste, já lá estavam os gajos da televisão?” &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;“Pois estavam, já lá estavam... Aliás, só &lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;lá &lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;estavam eles, mais ninguém. E eu, completamente em pânico, só lhes perguntava o que é que tinha acontecido, o que é que tinha causado aquilo, e eles olhavam para mim como se eu estivesse maluquinho, como se fosse alguma pergunta descabida, e a única coisa que um deles se dignou responder-me foi: 'Ainda não sabemos, o nosso colega já há-de vir aí com mais informação'. Mas eu é que não estive para esperar pelo colega deles, vim logo para aqui a correr...”&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;“Eh, pá, porra”, enraiveci-me-me eu, “os gajos não têm o direito de entrar assim dentro de nossa casa e começar a filmar sem nossa autorização!” A minha vontade, nesse momento, era não deixar ficar assim as coisas e queixar-me do abuso a quem de direito. Mas decidi depressa que não era a altura mais apropriada da minha vida para meter em tribunal um canal de televisão. O Aage saíu logo a seguir, tão perturbado como tinha chegado, e ficámos ali os cinco, de novo em família. Acho que (tirando a Felicia, é claro, que dormia o sonho distante dos recém‑nascidos) estávamos todos um pouco tristes por nos ter ardido a casa, mas, por outro lado, muito, muito contentes de ainda nos termos todos uns aos outros.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Quando as pessoas, mais tarde nos diziam que devíamos, com certeza, ter sofrido um grande choque, nós explicávamos que qual o quê, tínhamos lá tido tempo para isso... Nem para isso nem para devaneios filosóficos sobre a instabilidade da nossa condição trémula de viventes, por mais que eles se justificassem... Tratava-se antes de fazer um voo bem mais raso de reconhecimento sobre a zona acidentada de nós, para poder passar de imediato à acção. Foi preciso arranjar casa, comprar roupa e todos os artigos de mais imediata necessidade, e isto numa altura em que, ainda por cima, a Rikke, depois de voltar a casa com a Felicia, continuava medicada e proibida de fazer quaisquer esforços e em que eu não podia, de forma alguma, meter uns dias no trabalho... Ora, com a vossa licença, salto uns meses de confusão, que não deixam nada a esta história, e continuo na altura de passarmos em revista, eu e a Rikke, os bens declarados irrecuperáveis e negociar com o homem da companhia de seguros a quantia que nos caberia receber por cada um. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Isto foi nos armazéns de uma companhia especializada neste tipo de acidentes, que tinha esvaziado a casa logo a seguir ao incêndio e recuperado depois o que podia ser recuperado. Além de dezenas de restos encardidos pelo fumo de móveis e electrodomésticos, havia oitenta caixas de cartão de um quarto de metro cúbico cada uma, com roupa, livros e objectos de toda a espécie, também eles enegrecidos e impregnados do cheiro indelével do incêndio.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;“Se houver coisas em que tenham muita estimação, podem levá-las&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;”&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;, disse-nos o homem dos seguros. &lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;“&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Eu pago-vo-las na mesma, não se preocupem. Mas aconselho-vos a levarem o menos possível . Quer dizer, pode haver uma ou outra coisa que seja recuperável, mas estes tipos aqui têm muita experiência disto e o que eles consideram irrecuperável, em princípio, é mesmo irrecuperável. Mesmo que não cheire muito mal agora, aqui no armazém, volta a ganhar o mesmo cheiro horrível depois de algum tempo no calor da casa.”&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Eu, na minha cabeça, já tinha dito adeus àquilo tudo. Muito budistamente, tinha-me repetido a mim próprio centenas de vezes que o desprendimento é um dos passos indispensáveis para se minorar o sofrimento que a vida é, e que, de qualquer maneira, devia encarar esta perda como uma lição apenas. Talvez não uma lição de vida, mas antes uma lição de morte: conservar os restos materiais da vida passada é só adiar desesperadamente a perda derradeira perante a qual deixa de fazer sentido ter-se guardado seja lá o que for; vale mais, então, aprender em plena vida a lidar com essa definitiva separação. Está bem, mas é que custa a uma criatura vulgar como eu, estupidamente presa à roda das coisas, burguês dos quatro costados e que apregoa, ademais, o valor de o ser, dizer adeus a tudo o que foi coleccionando pela vida fora! “Que livros levaria para uma ilha deserta? E que discos? E que outros objectos de estimação?” Não sei... Mas sei quais foram os que, seguindo a disposição daquele momento e avaliando, além do valor que tinham para mim, a dificuldade de os reaver e a possibilidade de os recuperar, trouxe do depósito da SGG: &lt;i&gt;Lua d’Alén-Mar&lt;/i&gt;, o livro de poemas que Ernesto Guerra da Cal viu, aos 47 anos, finalmente publicado; a banda sonora do filme &lt;i&gt;Lucky Man&lt;/i&gt;, de Alan Price, em vinil, que não sabia se estava em condições de tocar ou não, mas que, a estar utilizável, havia de pedir a um amigo para me digitalizar, porque não tinha sido reeditado em CD; e uma faca da Lapónia, com baínha de couro e cabo trabalhado de osso de rena, que recebi uma vez de prenda de Natal, no Norte muito norte da Suécia. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;“Um dia, quando o incêndio deixar de ser uma má recordação e for já só um episódio curioso de um passado demasiado distante para te pesar, ainda hás-de pensar assim: Que sorte tivemos em o miúdo ter pegado fogo à casa!” Ao fim de cinco meses, o apartamento estava completamente renovado e todo pintadinho de novo, e com instalação eléctrica nova, chão novo, cozinha nova, janelas novas! Convidámos os vizinhos todos do prédio para uma festa de “re-aquecimento” que tinha ficado prometida logo desde o dia do incêndio. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Como os meus CDs foram das poucas coisas que se salvaram do incêndio, e eu gosto muito de fazer compilações, fiz, com temas da minha discoteca, um CD temático para oferecer aos convidados. O CD incluía coisas como o “Fire” do Arthur Brown, o “Love goes to a building on fire” e “Burning down the house” dos Talking Heads, o “Baby’s on fire”, do Brian Eno, e muitas outras canções sobre fogo e fogos. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Foi quando fiz esse CD que me dei conta de um misteriosíssimo desaparecimento. Queria incluir na compilação a canção dos Rádio Macau que dá o título a este texto, mas ela tinha-se evaporado. Não me percebam mal: não é que tivesse desaparecido o disco com a canção, mas tinha sido antes a própria canção a desaparecer. Se estão lembrados, “Mais uma canção sobre edifícios a arder” era a sétima de nove canções do primeiro disco dos Rádio Macau. Só que o meu disco tinha agora apenas os outros oito títulos. Se fosse uma cópia, podia pensar que me tinha esquecido de copiar essa faixa. Mas não, era um CD original. Defeito de fabrico? Talvez... Mas eu tinha a certeza de ter ouvido já várias vezes a canção... “Não pode ser”, pensei eu, “as nossas certezas não são de fiar e canção nunca pode ter lá estado no CD...”. Que se lixasse! Tinha outra versão da cantiga, a nova versão do disco bónus do &lt;i&gt;best of&lt;/i&gt; &lt;i&gt;A vida num só dia&lt;/i&gt;, punha antes essa na compilação... Mas não, também essa tinha desaparecido: a “Entre a espada e a parede” seguia-se o &lt;i&gt;remix&lt;/i&gt; de “O anzol”. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Estranho, não vos parece? Bom, é claro que há muitas cantigas que desaparecem, e algumas também assim de repente, mas é porque se esgotam, sei lá, ou porque deixam de caber no gosto das novas épocas... É outro tipo de desaparecimento, e é um desaparecimento que, aliás, em muitos casos, nem o chega a ser: normalmente, essas cantigas desaparecidas ficam só esquecidas num limbo qualquer, espectrais, expectantes, se calhar (quem sabe o que vai na alma de uma cantiga?), até que um dia outra época as ressuscite, como obras-primas do passado, como exemplo risível do mau gosto que um dia houve, ou como documento apenas, ou curiosidade, de um estádio da história da canção. Passar-se-ia agora o mesmo? Retomaria algum dia a canção desaparecida o seu lugar no alinhamento original do disco? Custava-me a acreditar. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;O que é que se teria realmente passado? A única explicação que na altura consegui encontrar – e que mais tarde decidi abandonar, por pouco racional – é que haja cantigas que resistam pior que outras a temperaturas elevadas. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Agora:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;1. Dizem-me fontes parece que bem informadas que se podia ler, no original dactilografado da letra de “Mais uma canção sobre edifícios a arder”, uma referência a Brian Eno e aos Talking Heads. Posso, só meio a propósito, acrescentar que li algures uma entrevista com o David Byrne, em que ele explica que “Burning down the house” era o grito de guerra do público dos concertos dos Parliament/Funkadelic, de que Byrne e Cia. eram assíduos frequentadores.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;2. Fogo posto involuntariamente por uma criança é a segunda causa de incêndio em Copenhaga. Acontece muitas vezes que a criança que ateia o fogo, sentindo‑se culpada e com medo de vir a ser punida, se vai esconder e não sai do seu esconderijo, nem quando os pais ou os bombeiros a chamam, acabando por morrer queimada. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;3. Não sei se estarão recordados de que no segundo disco dos Rádio Macau há uma citação de um poema do tal livro de Ernesto Guerra da Cal que, mesmo todo chamuscado, eu não quis abandonar. Em epígrafe à letra de uma canção que não me lembro já qual é, pode ler-se: “Isto foi pola outa noite./ A lua xá se metera./ O xornal da manhán dixo/ que o meu coraçón morrera. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;4. Caso não tenham reparado, este texto é um exercício de re-escrita da canção com o mesmo título, a cujas 72 palavras acrescentei mais 2975. É isso que explica, pelo menos em parte, o carácter forçado de algumas passagens. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;5. Quem quiser e souber, pode substituir pelos nomes da minha mulher e dos meus filhos os nomes das personagens desta narrativa, para ter uma história mais verídica – e aproveite para mandar fora, se for mesmo a verdade dos factos que lhe interesse, a componente fantástica que eu não consigo deixar de incluir nos meus contos…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;/div&gt;RÁDIO MACAU, "MAIS UMA CANÇÃO SOBRE EDIFÍCIOS A ARDER", 1984&lt;br /&gt;&lt;iframe src="http://www.youtube.com/embed/qH5GO8njF58" frameborder="0" height="25" width="640"&gt;&lt;/iframe&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2874386790023925718-4783032712848910129?l=llindegaard.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://llindegaard.blogspot.com/feeds/4783032712848910129/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2874386790023925718&amp;postID=4783032712848910129' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/4783032712848910129'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/4783032712848910129'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://llindegaard.blogspot.com/2011/04/mais-uma-cancao-sobre-edificios-arder.html' title='Mais uma canção sobre edifícios a arder'/><author><name>V. M. Lucas Lindegaard</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06993438398319242184</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/__m_JLgYBQmc/SUEyD_uVH3I/AAAAAAAAAwY/luHWZ4Q7ilk/S220/V%C3%ADtor.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://img.youtube.com/vi/qH5GO8njF58/default.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2874386790023925718.post-5468324613391121861</id><published>2011-04-26T00:08:00.001+02:00</published><updated>2011-04-26T00:12:45.648+02:00</updated><title type='text'>Coitadinho do inglês, mais uma vez ou De como se enriquece uma língua depenicando aqui e ali</title><content type='html'>&lt;h1&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=2874386790023925718&amp;amp;postID=5468324613391121861" name="_Toc291493791"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;/h1&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Todas as línguas importam constantemente palavras, e algumas mais do que outras, conforme o contexto em que se encontram e as necessidades dos seus utentes. Uma língua falada por um povo que não use computadores, por exemplo, não necessita de importar palavras que actualizem constantemente a possibilidade de se referir às inovações tecnológicas que aparecem diariamente neste domínio. Da mesma forma, uma língua falada por um povo que produza mais tecnologia neste domínio também tem menos necessidade de importar palavras de informática, porque muitas delas terão já sido cunhadas na própria língua, segundo a sua lógica própria. Mas é sempre assim – importa-se o que nos faz falta para designar o novo: se em tagálogue, um dos idiomas oficiais das Filipinas, garfo se diz &lt;i&gt;&lt;b&gt;tenedor &lt;/b&gt;&lt;/i&gt;e colher se diz &lt;i&gt;&lt;b&gt;cuchara&lt;/b&gt;&lt;/i&gt;, ou se em suaíli mesa se diz &lt;i&gt;&lt;b&gt;mesa&lt;/b&gt;&lt;/i&gt;, é pela mesma razão que em português se usa uma palavra nauatle para designar o tomate, nem mais nem menos. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Por isso mesmo, e por ter sido a língua oficial de um império maior, o inglês é, das línguas próximas da nossa, a que mais palavras importou nos últimos tempos (já não vale a pena falar de importações mais antigas, senão metade do inglês é importado do francês...). E é esta uma das maneiras de criar uma língua rica em vocabulário: é quase impossível encontrar uma página de um dicionário de inglês sem encontrar uma destas palavras recentemente importadas, às vezes de línguas muito distantes.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Façam a experiência, como eu fiz. Abro uma página ao acaso. Aparece-me &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;b&gt;&lt;span lang="PT"&gt;bardy&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/i&gt;&lt;span lang="PT"&gt;, uma palavra aborígene australiana para designar um tipo de larva comestível. Como se diz isto em português? Não se diz: não temos cá, não importámos de fora, não temos... E nem nos faz falta. A seguir, na mesma página, aparece-me a palavra &lt;i&gt;&lt;b&gt;barilla&lt;/b&gt;&lt;/i&gt;, para designar uma planta de Espanha e da Sicília. Abro outra página. Aparece-me &lt;i&gt;&lt;b&gt;knesset&lt;/b&gt;&lt;/i&gt;, uma palavra hebraica que significa “reunião” e que designa o parlamento israelita. Admitimo-la em português? Depois aparece-me &lt;i&gt;&lt;b&gt;knopkierie&lt;/b&gt;&lt;/i&gt;, uma palavra africâner para designar um tipo de arma de algumas tribos da África Austral. Isto também pode ser que interesse, pelo menos ao português de Moçambique... Mas é melhor importar essa designação de uma língua moçambicana, não acham? Só mais uma página: agora, aparecem dois substantivos, &lt;i&gt;&lt;b&gt;peau-de-soie&lt;/b&gt;&lt;/i&gt;, francês, &lt;i&gt;&lt;b&gt;peccary&lt;/b&gt;&lt;/i&gt;, caribe (&lt;i&gt;&lt;b&gt;peccary&lt;/b&gt;&lt;/i&gt; é necessário importar também para português e eu já o fiz e escrevo pecári) – além de um &lt;i&gt;&lt;b&gt;peccavi&lt;/b&gt;&lt;/i&gt;, latim, também nome, que não conta para o que aqui me traz. E pode continuar-se.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Não deixa de ser curioso: por ser uma língua imperial, o inglês foi imposto a milhões de pessoas em todo o mundo. Um dos resultados dessa expansão foi a assimilação (a necessidade de assimilação, por um lado, e a predisposição a aceitá-la como natural, por outro) de um número muito grande de palavras das línguas com que estava em contacto em lugares muito diferentes do seu espaço natal. &lt;b&gt;&lt;a href="http://llindegaard.blogspot.com/2008/12/do-you-speak-english-ato-amanda-corda.html"&gt;Já aqui disse uma vez&lt;/a&gt;&lt;a href="http://llindegaard.blogspot.com/2008/12/do-you-speak-english-ato-amanda-corda.html"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/b&gt; que, pela sua internacionalização, o inglês é, naturalmente, a língua mais maltratada no mundo inteiro. Também os puristas do inglês, que os deve haver, seguramente prefeririam que, em vez de se ter tornado uma língua com um vocabulário tão vasto, o inglês se tivesse mantido uma língua que eles pudessem considerar menos espúria… Mas eu não consigo ter pena deles, que querem?, como não consigo ter pena de puristas nenhuns…&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2874386790023925718-5468324613391121861?l=llindegaard.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://llindegaard.blogspot.com/feeds/5468324613391121861/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2874386790023925718&amp;postID=5468324613391121861' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/5468324613391121861'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/5468324613391121861'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://llindegaard.blogspot.com/2011/04/coitadinho-do-ingles-mais-uma-vez-ou-de.html' title='Coitadinho do inglês, mais uma vez ou De como se enriquece uma língua depenicando aqui e ali'/><author><name>V. M. Lucas Lindegaard</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06993438398319242184</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/__m_JLgYBQmc/SUEyD_uVH3I/AAAAAAAAAwY/luHWZ4Q7ilk/S220/V%C3%ADtor.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2874386790023925718.post-8670831669734636025</id><published>2011-04-25T23:49:00.001+02:00</published><updated>2011-04-25T23:57:15.532+02:00</updated><title type='text'>Badoncali</title><content type='html'>&lt;span lang="PT"&gt;Haverá ainda quem fale &lt;b&gt;badoncali?&lt;/b&gt; Houve uma altura em que cheguei a falá-lo relativamente depressa. É um código que funciona assim: agarra-se numa palavra e tira-se-lhe um número qualquer de sons do início (no mínimo, uma consoante ou um grupo de consoantes), deixando uma vogal como som inicial. Depois, cola-se &lt;b&gt;bad-&lt;/b&gt; (&lt;b&gt;b-&lt;/b&gt; apenas, nalguns casos raros) no início do pedaço de palavra que ficou e acrescentam-se à nova sequência os sons que se roubaram no início, juntando-lhes um &lt;b&gt;-i&lt;/b&gt; para rematar.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;b&gt;Badoncali&lt;/b&gt; é &lt;b&gt;calão&lt;/b&gt; em &lt;b&gt;badoncali&lt;/b&gt;: &lt;b&gt;calão&lt;/b&gt; − &lt;b&gt;cal-&lt;/b&gt; = &lt;b&gt;ão&lt;/b&gt; + &lt;b&gt;bad-&lt;/b&gt; (antred) = &lt;b&gt;badão&lt;/b&gt; + &lt;b&gt;-cal-&lt;/b&gt; + &lt;b&gt;-i&lt;/b&gt; = &lt;b&gt;badãocali&lt;/b&gt;. Só que, por muito que seja concebido para não ser entendido por falantes do português, o &lt;b&gt;badoncali&lt;/b&gt; é português, porque é falado por pessoas que têm na cabeça a estrutura do português. E não há o ditongo [ão] no meio de uma palavra, a não ser antes de diminutivos e aumentativos [o que é, de facto, um argumento sólido para defender que os sufixos aumentativos e diminutivos não são vulgares sufixos, mas isso é outra história] e a sequência &lt;b&gt;‑cali&lt;/b&gt; não é diminutivo nem aumentativo. É então necessário transformar &lt;b&gt;badãocali&lt;/b&gt; em &lt;b&gt;badoncali&lt;/b&gt;, aplicando-lhe as regras fonéticas do português.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="PT"&gt; &lt;/span&gt;  &lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Já ouviram falar disto? E já ouviram falar isto? Se calhar já, sem saberem o que estavam a ouvir… &amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2874386790023925718-8670831669734636025?l=llindegaard.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://llindegaard.blogspot.com/feeds/8670831669734636025/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2874386790023925718&amp;postID=8670831669734636025' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/8670831669734636025'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/8670831669734636025'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://llindegaard.blogspot.com/2011/04/badoncali.html' title='Badoncali'/><author><name>V. M. Lucas Lindegaard</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06993438398319242184</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/__m_JLgYBQmc/SUEyD_uVH3I/AAAAAAAAAwY/luHWZ4Q7ilk/S220/V%C3%ADtor.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2874386790023925718.post-3303968613417483730</id><published>2011-04-11T11:40:00.010+02:00</published><updated>2011-04-12T14:44:16.501+02:00</updated><title type='text'>Angelus Silesius, a poesia e a essência desabitada e silenciosa de Deus</title><content type='html'>&lt;span lang="PT"&gt;Não é nada esotérico, até vem na wikipédia: Numa conferência que deu sobre poesia em 1977, Jorge Luís Borges afirmou que se podia resumir tudo o que acabava de dizer a uma frase de um relativamente obscuro autor seiscentista (traduzo eu, como traduzo, neste texto, tudo o que está em português a castanho):&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;span style="color: #660000;"&gt;Vou concluir com um alto verso do poeta que no século dezassete tomou o nome estranhamente poético, real, de&lt;/span&gt; &lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;b&gt;&lt;a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Angelus_Silesius"&gt;Angelus Silesius&lt;/a&gt;&lt;/b&gt;&lt;span style="color: #660000;"&gt;. Vem a ser o resumo de tudo quanto disse esta noite, com a diferença de que eu o disse por meio de raciocínios ou de simulados raciocínios: di-lo-ei primeiro em espanhol e depois em alemão, para que o oiçam: “&lt;i&gt;La rosa [es] sin porqué, florece porque florece.&lt;/i&gt; &lt;i&gt;/ Die Rose ist ohne warum; sie blühet weil sie blühet.&lt;/i&gt;”&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt; [Trata-se do dístico I. 289 da obra &lt;i&gt;O Peregrino Querubínico&lt;/i&gt; [1]: “&lt;span style="color: #660000;"&gt;A rosa é sem porquê, floresce porque floresce&lt;/span&gt;”]&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Quem era este poeta místico da &lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;b&gt;&lt;a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Silesia"&gt;Silésia&lt;/a&gt;&lt;/b&gt;? Chamava-se Johannes Scheffler de seu nome de baptismo, e nasceu em &lt;b&gt;&lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Wroc%C5%82aw"&gt;Breslávia (&lt;i&gt;Wrocław&lt;/i&gt;)&lt;/a&gt;&lt;/b&gt;, em 1624. Teve uma educação luterana, e foi cientista e médico, e homem de grande cultura. Convertido ao catolicismo em 1653, tornou-se dois anos mais tarde médico imperial-real da corte do Imperador &lt;b&gt;&lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Fernando_III,_Sacro_Imperador_Romano-Germ%C3%A2nico"&gt;Fernando III&lt;/a&gt;&lt;/b&gt;. Abraçou o sacerdócio em 1661, tendo-se tornado coadjutor do Príncipe-Bispo de Breslávia, e foi no mosteiro de S. Matias da sua cidade que veio a&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt; falecer em 1677. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Segundo Carlos García&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;b style="color: #cc0000;"&gt; [2]&lt;/b&gt;, Silesius foi um dos místicos alemães que fascinou Borges. E é fácil compreender este fascínio, porque, no poema referido como em muitos outros, parece um poeta à frente do seu tempo. &lt;i&gt;O Peregrino…&lt;/i&gt; foi publicado em 1657. Ainda vinha &lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;longe&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;…a rose is a rose is a rose, &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;que Gertrude Stein escreveu 256 anos mais tarde.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Agora: sabemos, por Carlos García, que a referência a Angelus Silesius que mencionei no início do texto está longe de ser a única na obra de Borges e que&lt;span style="color: #660000;"&gt; «o topos da “rosa sem porquê” é um dos «motivos vindos de Silesius (…) que são recorrentes em Borges»&lt;/span&gt;. A leitura que Borges faz deste dístico de Angelus Silesius, porém, vai variando ao longo do tempo (ou talvez antes consoante a estratégia favorecida para provocar estranhamento no leitor…). Se, na referida conferência de 1977, o apresenta como resumo do seu próprio pensamento sobre a poesia, em 1933 tinha-o apresentado como o exacto oposto da sua filosofia. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Die Ros ist ohn Warum&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span lang="PT"&gt;, a rosa é sem porquê, lemos no livro primeiro de &lt;i&gt;O peregrino…&lt;/i&gt; de Silesius. Eu afirmo o contrário, eu afirmo que é imprescindível uma tenaz conspiração de porquês para que a rosa seja rosa.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Num discurso de 1963, o verso de Angelus Silesius não aparece como reflexão sobre a poesia, mas como exemplo da metamorfose que o discurso analítico tem de sofrer para ser ele próprio poesia: &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Imaginemos, por exemplo, que um poeta dizia que a beleza é inexplicável. No teria dito nada. Mas se esse poeta, que seria o grande poeta alemão Angelus Silesius, disser “&lt;i&gt;Die Rose ist ohne warum&lt;/i&gt;”, (“A rosa é sem porquê”), já está criando poesia.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;No ano seguinte, o mesmo verso serve-lhe de máxima anti-analítica:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Die Rose ist ohne warum&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span lang="PT"&gt; (“a rosa é sem porquê”), é a famosa frase de Angelus Silesius no livro primeiro do seu &lt;i&gt;Peregrino…&lt;/i&gt;; a sentença do místico adverte-nos da possível profanação que encerra toda a análise do belo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Não sei, sinceramente, por que fui buscar Borges para introduzir Angelus Silesius. De facto, não me lembro de ter visto alguma vez nos textos de Borges referência ao místico polaco. O meu encontro com Angelus Silesius, que se deu nem há um mês, não tem nada a ver com Borges. Nem sei, aliás, como fui parar a um texto de Angelus Silesius, só sei que texto era: &lt;b&gt;&lt;a href="http://www.poetry-chaikhana.com/S/SilesiusAnge/Godisapureno.htm"&gt;uma tradução em inglês de Stephen Mitchell do dístico 25 do livro I de &lt;i&gt;O peregrino…&lt;/i&gt;&lt;/a&gt;&lt;/b&gt;, que diz assim&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000; margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;God is a pure no-thing, concealed in now and here: &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;the less you reach for him, the more he will appear.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Soa bem a tradução, como também soa muito bem esta outra de &lt;b&gt;&lt;a href="http://www.sacred-texts.com/chr/sil/alex/index.htm"&gt;Julia Bilger, que traduziu O peregrino… em 1944&lt;/a&gt;&lt;/b&gt; (atente-se na sequência &lt;b&gt;nothingness&lt;/b&gt;&amp;nbsp; – &lt;b&gt;knoweth&lt;/b&gt; – &lt;b&gt;now&lt;/b&gt; e na aliteração em gr- de &lt;b&gt;grope&lt;/b&gt; e &lt;b&gt;grow&lt;/b&gt;, além das assonâncias em [o] e [ow] que percorrem todo o dístico): &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000; margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;God is all Nothingness, knoweth not here nor now;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;The more we grope the more elusive will he grow.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;E esta outra de &lt;/span&gt;&lt;span lang="EN-GB"&gt;&lt;b&gt;&lt;a href="http://www.sacred-texts.com/chr/sil/scw/index.htm"&gt;J. E. Crawford Flitch, de 1932&lt;/a&gt;&lt;/b&gt;: &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000; margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;God is an utter Nothingness, / Beyond the touch of Time and Place: &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;The more thou graspest after Him, / The more he fleeth thy embrace.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;i&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Lauter Nichts&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span lang="PT"&gt;, eis como aparece no texto original o mais surpreendente sintagma do poema, este “puro Nada”. Aqui fica a minha pobre tradução (literal que não literária, peço desculpa…), para quem não compreenda o inglês:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Deus é puro Nada, para além do agora e do aqui. / Quando menos O procurares, mais Ele aparecerá.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Muitos poemas de Angelus Silesius soam assim, como se dissesse alguma verdade tão fundamental que só pode ser dita como o é. O que significa, para um cristão, que Deus é puro Nada que se revela quando O não buscamos? Ao ler um poema como&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;span style="color: #660000;"&gt;Sem que Deus nem uma hora sem mim pode viver. / Morra eu e o próprio Deus a sua preciosa vida há-de render.&lt;/span&gt; (I. 8:JB&lt;b style="color: #cc0000;"&gt;[3]&lt;/b&gt;)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;parece que estamos diante de uma asserção ateísta, em que se apresenta Deus como uma entidade unicamente existente na mente do crente. Mas tal interpretação só pode resultar de uma incompreensão do misticismo de Angelus Silesius, que pressupõe uma identificação essencial de Deus e do crente.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;span style="color: #660000;"&gt;Nenhum caminho leva à Luz em que Deus vive; / Terá de se tornar essa Luz quem não quiser que dele Deus se esconda.&lt;/span&gt; (I.072:JB&amp;amp;CF)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;span style="color: #660000;"&gt;Nada pode nunca em Deus ser conhecido: um e um apenas, / eis o que Ele é. Para O conhecer, o Conhecedor e o Conhecido têm também de ser um.&lt;/span&gt; (I.285:CF)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/goog_673544393"&gt;A Enciclopédia Católica insiste que, embora “&lt;span style="color: #660000;"&gt;um pequeno número destas estrofes pareçam ter um travo de quietismo ou de panteísmo&lt;/span&gt;”, “&lt;span style="color: #660000;"&gt;devem ser interpretados num sentido ortodoxo, pois Angelus Silesius não era um panteísta&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;a href="http://www.newadvent.org/cathen/01488a.htm"&gt;&lt;span style="color: #660000;"&gt;. Os seus escritos em prosa são ortodoxos; “O Peregrino Querubínico” foi publicado com o Imprimatur eclesiástico, e, no seu prefácio, o próprio autor explica os seus “paradoxos” num sentido ortodoxo e repudia qualquer interpretação panteísta que dela venha a ser feita.&lt;/span&gt;”&lt;/a&gt; É bem possível, como é bem possível que o prefácio com a interpretação ortodoxa do autor tenha sido condição para o Imprimatur… Seja como for, panteísmo nem sequer foi o conceito que me veio à mente quando li &lt;i&gt;O peregrino…&lt;/i&gt; É certo que, por vezes, os dísticos de Angelus Silesius dão conta uma reflexão mística que, embora sofisticada, não se afasta sobremaneira da linha de pensamento de outros filósofos cristãos: uma platónica visão de Deus como a eterna matriz de Tudo&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;span style="color: #660000;"&gt;A rosa que hoje contemplas com o teu olhar exterior / Floresce e floresce em Deus durante toda a eternidade &lt;/span&gt;(I.108:JB&amp;amp;CF).&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;ou uma visão da eternidade não como um eterno prolongamento do tempo, mas antes como algo que é essencialmente diferente dele&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;span style="color: #660000;"&gt;Lá na Eternidade, tudo acontece ao mesmo tempo. / Não há antes nem depois, como aqui no reino do Tempo&lt;/span&gt; (V.148:CF)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;ou quando propõe, como outros místicos cristãos, que o caminho mais curto para Deus é o amor, não a razão:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;span style="color: #660000;"&gt;O Amor, sem ser anunciado, mais depressa será recebido por Deus. / A Inteligência e o Engenho muito tempo na corte terão de esperar. &lt;/span&gt;(5.307:JB)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Outras vezes, trata-se de um misticismo que, &lt;i&gt;sui generis&lt;/i&gt; que possa ser,&amp;nbsp; não parece incompatível com a busca (também cristã, entre outras…) de estados de comunhão com uma divindade transcendente:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;span style="color: #660000;"&gt;Difícil tarefa, a de viver o amor; não devemos / amar apenas, mas sim tornarmo-nos amor, como Deus é. &lt;/span&gt;(I.071:JB)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;span style="color: #660000;"&gt;Deus não está aqui nem está ali. Ao procurá-Lo /, que tenhas presas as mãos e os pés, presa a alma e preso o corpo.&lt;/span&gt; (I.171:JB &amp;amp;CF)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;span style="color: #660000;"&gt;Vai onde não podes ir, vê onde nada se pode ver, / Ouve onde não há som que se oiça: estarás onde Deus fala.&lt;/span&gt; (I.199:JB&amp;amp;CF)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;span style="color: #660000;"&gt;Deus é, mas só como Ele é. Não ama nem vive / como tu ou como eu ou como do mundo os outros seres. &lt;/span&gt;(II.055:JB&amp;amp;CF)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;span style="color: #660000;"&gt;Sai tu — e entrará Deus; morre para ti próprio – começaste assim / A viver para Deus; Não sejas – Ele é; Não faças nada – e estará assim feito o que ele manda.&lt;/span&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;(II.136:CF)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;span style="color: #660000;"&gt;Deus não prevê nada – é o teu senso frouxo e atarantado / Que o veste com o atributo da Providência.&lt;/span&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;(V.92:CF)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;span style="color: #660000;"&gt;Deus não pensa. Pensasse Ele / e poderia hesitar, o que é, para Ele, impensável. &lt;/span&gt;(V.173:JB&amp;amp;CF)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;span style="color: #660000;"&gt;Deus – uma força eterna que alcança tudo o que quer, / Nunca deixando de ser como é: sem forma, sem propósito, sem vontade.&lt;/span&gt; (5.358:JB&amp;amp;CF)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Outras vezes, porém, Angelus Silesius surpreende por o seu misticismo (ou deve antes dizer-se a sua poesia?) parecer tão pouco ocidental e tão próximo do pensamento oriental. Esta generalização abusiva &lt;b&gt;pensamento oriental&lt;/b&gt;, que noutras circunstâncias evitaria, não me parece, no presente contexto, despropositada para referir algumas constantes de vários pensamentos asiáticos: refiro-me, concretamente, a um ideal de suprema objectividade – conhecer, aceitar o mundo &lt;b&gt;como ele é &lt;/b&gt;– alcançável pela obliteração de si, pela interrupção ou aniquilação da mente. Não é o único caso de aproximação de um místico cristão da mística asiática, é certo, e vieram-me à mente, quando li Silesius, alguns versos do &lt;/span&gt;&lt;span lang="ES-TRAD"&gt;“Monte de Perfección”&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt; de San Juan de La Cruz (um poeta de que gosto muito) que aqui vos deixo no castelhano original:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000; margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;1&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000; margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Para venir a gustarlo todo&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000; margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;no quieras tener gusto en nada.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000; margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Para venir a saberlo todo&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000; margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;no quieras saber algo en nada.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000; margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Para venir a poseerlo todo&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000; margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;no quieras poseer algo en nada.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000; margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Para venir a serlo todo&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000; margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;no quieras ser algo en nada.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000; margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;2&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000; margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Para venir a lo que gustas&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000; margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;has de ir por donde no gustas.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000; margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Para venir a lo que no sabes&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000; margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;has de ir por donde no sabes.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000; margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Para venir a poseer lo que no posees&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000; margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;has de ir por donde no posees.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000; margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Para venir a lo que no eres&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000; margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;has de ir por donde no eres.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000; margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;3&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000; margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Cuando reparas en algo&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000; margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;dejas de arrojarte al todo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000; margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Para venir del todo al todo&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000; margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;has de dejarte del todo en todo,&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000; margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;y cuando lo vengas del todo a tener&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000; margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;has de tenerlo sin nada querer. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;[…]&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Mas são, convenhamos, casos raríssimos, muito excepcionais. Além do texto através do qual conheci Angelus Sibelius e que já referi atrás, eis outros fascinantes dísticos aparentemente muito pouco católicos deste budista de Breslávia:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;span style="color: #660000;"&gt;Se algo és para ti próprio, se algo amas e queres, / Se algo sabes e tens, continuas a transportar a tua carga. &lt;/span&gt;(I.024:CF).&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;span style="color: #660000;"&gt;Sem nada querer nem nada buscar, Deus é paz eterna: / se como ele não desejares nada, será igual à dele a tua paz.&lt;/span&gt; (I.076:CF)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;span style="color: #660000;"&gt;Quem se tornar deus deve ser diferente de tudo o resto. / Deve livrar-se se si próprio, libertar-se de toda a queixa.&lt;/span&gt; (I.084:JB). &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;span style="color: #660000;"&gt;Quem for como se não fosse, nem tivesse chegado a ser, / tornou-se — ó Felicidade!—pura divindade. &lt;/span&gt;(I.092:CF).&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;span style="color: #660000;"&gt;Quanto mais de ti de ti próprio conseguires verter e deitar fora / tanto mais, cada vez mais, Deus fluirá em ti com a sua mente divina.&lt;/span&gt; (I.138:CF).&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;span style="color: #660000;"&gt;Pudesse o Diabo abandonar o seu ser-ele, e logo / o Diabo verias sentado no trono de Deus.&lt;/span&gt; (I.143:CF).&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;span style="color: #660000;"&gt;Oramos: seja feita a Tua vontade. / Mas vede: Deus não tem vontade, ele é apenas imutável quietude. &lt;/span&gt;(I.294:JB &amp;amp; CF).&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;span style="color: #660000;"&gt;Liberta-te de ti próprio, liberta-te de toda a criação. / Deus enxerterá então em ti a sua natureza divina. &lt;/span&gt;(II.057:CF). &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;span style="color: #660000;"&gt;O nada leva-te além de ti próprio / tão seguramente como a anulação de ti: / Quanto mais te conseguires anular / mais há em ti de divindade.&lt;/span&gt; (II.140:CF).&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;span style="color: #660000;"&gt;Deus, cujo maior prazer é viver contigo, prefere vir / a tua casa quando tu lá não estás. &lt;/span&gt;(V.033:CF).&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;span style="color: #660000;"&gt;Se Deus procuras, Homem, deves / perder primeiro a identidade de ti próprio, / e nem nunca voltar a encontrar de novo o rasto do teu Eu em toda a eternidade.&lt;/span&gt; (V.220:CF).&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;E, finalmente, tirado da ordem do livro para lhe dar o lugar de destaque que acho que merece e a que se costuma chamar chave de ouro:&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;span style="color: #660000;"&gt;O abandono leva a Deus: / Mas o supremo abandono, / que poucos há que compreendam, / é abandoná-lo a Ele também.&lt;/span&gt; (II.092: CF) &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Esta é a mais radical e mais surpreendente de todas as sentenças: dá um sentido novo a todas as outras, ao precisar um fim último da busca mística que implica passar para além de qualquer ideal de perfeição anulando-se assim a própria busca. Zen?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Não sei se arriscaria afirmar que é esta a lição de toda a poesia, pois que poesia há de muitas categorias e de variados intentos; mas é, desculpem repeti-lo, esta a grande lição da poesia de Angelus Silesius: se diz assim o que diz, se não pode fugir ao estranhamento e à (pelo menos aparente) contradição, é porque o que diz não tem outra forma de ser dito. Silesius vai até onde as palavras o deixam, digamos assim. Depois disso, &lt;/span&gt;&lt;span lang="EN-GB"&gt;o que há a (não) dizer é só silêncio, já não palavras.&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt; Podermos considerar que diz isto mesmo várias vezes ao longo da obra, e de várias maneiras, mas di-lo mais explicitamente, de &lt;/span&gt;&lt;span lang="EN-GB"&gt;uma forma mais conclusiva, mais brutal, no último dístico do texto: A conclusão que tanto fascinou Borges e que tanto fascina, sem dúvida, todos os que se aventurarem na sua invulgar visão mística, só pode ser a que apresenta no último dístico de &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span lang="PT"&gt;O Peregrino&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span lang="PT"&gt; (&lt;/span&gt;&lt;span lang="EN-GB"&gt;VI.263)&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;, é a seguinte, no alemão original:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000; margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span lang="DE"&gt;Freund, es ist auch genug. Im Fall du mehr willst lesen, &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="DE"&gt;So geh und werde selbst die Schrift und selbst das Wesen.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;JB dá-nos do dístico a tradução&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000; margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span lang="EN-GB"&gt;Friend, I have said enough. If thou wouldst read still more,&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="EN-GB"&gt;&lt;span style="color: #660000;"&gt;Then go thou and thyself become the script and lore.&lt;/span&gt;,&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;e CF uma tradução ligeiramente diferente,&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000; margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span lang="EN-GB"&gt;Friend, it is now enough. Wouldst thou read more, go hence,&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="EN-GB"&gt;Become thyself the Writing and thyself the Sense.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Borges também traduziu o dístico. Em 1960 (e desta vez não é certo que tenha sido ele, pode ter sido Bioy Casares, o co-autor do &lt;i&gt;Livro do Céus e do Inferno&lt;/i&gt;, onde a tradução aparece, ou podem ter sido os dois em conjunto), traduziu-o da seguinte forma (destaque meu):&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="ES"&gt;Ya basta amigo. Si quieres seguir leyendo, transfórmate tú mismo en el libro y en la &lt;b&gt;doctrina&lt;/b&gt;. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Em 78, porém (agora sem dúvida Borges. Só ele), já propõe outra tradução (de novo o meu destaque):&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="ES"&gt;Amigo, ya basta. En caso de que quieras seguir leyendo, sé tú mismo el libro y tú mismo la &lt;b&gt;esencia&lt;/b&gt;. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;É melhor, &lt;/span&gt;&lt;b&gt;&lt;i&gt;&lt;span lang="ES"&gt;esencia&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;&lt;span lang="PT"&gt; traduz mais directamente que &lt;/span&gt;&lt;b&gt;&lt;i&gt;&lt;span lang="ES"&gt;doctrina&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;&lt;span lang="PT"&gt; o &lt;/span&gt;&lt;b&gt;&lt;i&gt;&lt;span lang="DE"&gt;Wesen&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;&lt;span lang="PT"&gt; original. E, se tenho razão na minha proposta de que se trata aqui de versos que muitas vezes nos soam estranhos – paradoxais, ou até incómodos – porque são a única maneira de dizer certas coisas, só uma tradução literal faz sentido. Carlos García, que nos conta a história, propõe ele a sua própria tradução ainda «mais literal» (destaque meu), que é a que prefiro e que escuso de traduzir, por óbvia para qualquer falante do português:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="color: #660000;"&gt;&lt;span lang="ES"&gt;Amigo, ya es bastante. Si quieres más leer / Ve y transfórmate en el libro y en el &lt;b&gt;ser&lt;/b&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;_______________&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;b style="color: #cc0000;"&gt;[1]&lt;/b&gt; A obra publicada pela primeira vez em 1657, chamava-se originalmente &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span lang="DE"&gt;Geistreiche Sinn- und Schluss-Reime&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span lang="PT"&gt;, que não me atrevo a traduzir. Em 1674, foi publicada uma segunda edição com o título &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span lang="DE"&gt;Cherubinischer Wandersmann&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span lang="PT"&gt;, "&lt;i&gt;O Peregrino Querubínico&lt;/i&gt;". Neste texto, para simplificar a referência, o livro será sempre referido como &lt;i&gt;O Peregrino…&lt;/i&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="color: #cc0000;"&gt;[2]&lt;/span&gt; &lt;/b&gt;Ver &lt;b&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/goog_673544409"&gt;o ensaio de Carlos García &lt;/a&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;a href="http://letras-uruguay.espaciolatino.com/aaa/garcia_carlos/borges_y_el_misticismo.htm"&gt;&lt;b&gt;&lt;i&gt;&lt;span lang="ES"&gt;Borges y el misticismo alemán&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;&lt;span lang="ES"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span lang="PT"&gt;, de onde foi retirada muita da informação necessária para escrever este texto. Na minha opinião, trata-se de um ensaio de leitura obrigatória para todos os amantes de Borges. Todas as referências de Borges a Angelus Silesius são retiradas do texto de García.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;b style="color: #cc0000;"&gt;[3] &lt;/b&gt;A indicação entre parênteses no fim das minhas traduções dos dísticos de Angelus Silesius indicam: em númeração romana, o livro – a obra divide-se em 6 livros; em algarismos árabes, o número do dístico no livro; as iniciais JB ou CF indicam de que traduções inglesas traduzi para português, se fdas de Julia Bilger ou das de &lt;/span&gt;&lt;span lang="EN-GB"&gt;J. E. Crawford Flitch (&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;em &lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;a href="http://www.sacred-texts.com/chr/sil/alex/index.htm"&gt;http: //www.sacred-texts.com/chr/sil/alex/index.htm&lt;/a&gt; e&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt; &lt;a href="http://www.sacred-texts.com/chr/sil/scw/index.htm"&gt;http: //www.sacred-texts.com/chr/sil/scw/index.htm&lt;/a&gt;, respectivamente) – ou se usei traduções de ambos, quando assinalo JB&amp;amp;CF.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2874386790023925718-3303968613417483730?l=llindegaard.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://llindegaard.blogspot.com/feeds/3303968613417483730/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2874386790023925718&amp;postID=3303968613417483730' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/3303968613417483730'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/3303968613417483730'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://llindegaard.blogspot.com/2011/04/angelus-silesius-poesia-e-essencia.html' title='Angelus Silesius, a poesia e a essência desabitada e silenciosa de Deus'/><author><name>V. M. Lucas Lindegaard</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06993438398319242184</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/__m_JLgYBQmc/SUEyD_uVH3I/AAAAAAAAAwY/luHWZ4Q7ilk/S220/V%C3%ADtor.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2874386790023925718.post-2145971944068381211</id><published>2011-04-11T09:51:00.011+02:00</published><updated>2011-04-12T14:47:54.947+02:00</updated><title type='text'>Taxman</title><content type='html'>Quando Ray Davie dos Kinks canta “The tax man's taken all my dough, / And left me in this stately home, / Lazing on a sunny afternoon. / And I can't sail my yacht, / He's taken everything I got, / All I've got's this sunny afternoon” podemos e devemos entender a canção como sendo irónica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RAY DAVIES, "SUNNY AFTERNOON"&lt;br /&gt;&lt;iframe frameborder="0" height="25" src="http://www.youtube.com/embed/1h1oRP7FfBw" width="640"&gt;&lt;/iframe&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já a canção “Taxman” de George Harrison não se pode entender da mesma maneira:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;GEORGE HARRISON, "TAXMAN"&lt;br /&gt;&lt;iframe frameborder="0" height="25" src="http://www.youtube.com/embed/Maz9ddxEQnM" width="640"&gt;&lt;/iframe&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Let me tell you how it will be; / There's one for you, nineteen for me. / 'Cause I’m the taxman, / Yeah, I’m the taxman. / Should five per cent appear too small, / Be thankful I don't take it all. / 'Cause I’m the taxman, / Yeah, I’m the taxman. / (If you drive a car, car;) - I’ll tax the street; / (if you try to sit, sit;) - I’ll tax your seat; / (if you get too cold, cold;) - I’ll tax the heat; / (if you take a walk, walk;) - I'll tax your feet. / 'Cause I’m the taxman, / Don't ask me what I want it for, (ah-ah, mister Wilson) / If you don't want to pay some more. (Ah-ah, mister&lt;/span&gt;&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt;  &lt;w:WordDocument&gt;   &lt;w:View&gt;Normal&lt;/w:View&gt;   &lt;w:Zoom&gt;0&lt;/w:Zoom&gt;   &lt;w:HyphenationZone&gt;21&lt;/w:HyphenationZone&gt;   &lt;w:PunctuationKerning/&gt;   &lt;w:ValidateAgainstSchemas/&gt;   &lt;w:SaveIfXMLInvalid&gt;false&lt;/w:SaveIfXMLInvalid&gt;   &lt;w:IgnoreMixedContent&gt;false&lt;/w:IgnoreMixedContent&gt;   &lt;w:AlwaysShowPlaceholderText&gt;false&lt;/w:AlwaysShowPlaceholderText&gt;   &lt;w:Compatibility&gt;    &lt;w:BreakWrappedTables/&gt;    &lt;w:SnapToGridInCell/&gt;    &lt;w:WrapTextWithPunct/&gt;    &lt;w:UseAsianBreakRules/&gt;    &lt;w:DontGrowAutofit/&gt;   &lt;/w:Compatibility&gt;   &lt;w:BrowserLevel&gt;MicrosoftInternetExplorer4&lt;/w:BrowserLevel&gt;  &lt;/w:WordDocument&gt; &lt;/xml&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt;  &lt;w:LatentStyles DefLockedState="false" LatentStyleCount="156"&gt;  &lt;/w:LatentStyles&gt; &lt;/xml&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;!--[if gte mso 10]&gt; &lt;style&gt; /* Style Definitions */ table.MsoNormalTable {mso-style-name:"Tabel - Normal"; mso-tstyle-rowband-size:0; mso-tstyle-colband-size:0; mso-style-noshow:yes; mso-style-parent:""; mso-padding-alt:0cm 5.4pt 0cm 5.4pt; mso-para-margin:0cm; mso-para-margin-bottom:.0001pt; mso-pagination:widow-orphan; font-size:10.0pt; font-family:"Times New Roman"; mso-ansi-language:#0400; mso-fareast-language:#0400; mso-bidi-language:#0400;}&lt;/style&gt; &lt;![endif]--&gt;&lt;span lang="PT"&gt; Heath) &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;As referências&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt; e a mensagem são claras: somos todos muito contestatários, mas quando é o nosso dinheirinho que está em causa, alinhamo-nos à direita – o governo trabalhista de Harold Wilson tinha introduzido impostos progressivos e os Beatles ganhavam tanto dinheiro que ficaram na categoria mais alta dos impostos…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Muitos anos mais tarde, o malogrado músico de reggae sul-africano Lucky Dube dizia no seu “Taxman” que sabia para que pagava ao jardineiro, ao médico, ao advogado e ao guarda-costas, mas não sabia para que pagava o homem dos impostos.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LUCKY DUBE, "TAXMAN"&lt;br /&gt;&lt;iframe frameborder="0" height="25" src="http://www.youtube.com/embed/klcoDwaL7t8" width="640"&gt;&lt;/iframe&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="PT"&gt;A canção, se chega a ser ambígua no início, é desambiguada pelas frases faladas no meio (“Todos os anos, desaparecem duzentos biliões de dólares dos contribuintes de que ninguém dá contas”): O que Lucky Dube critica é que alguém meta ao bolso o dinheiro que ele pagou ao Estado.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Desde o tempo do Robin Hood que nos atormenta a imagem sempre actualizada, na indumentária que não no sorriso perverso, do cobrador dos impostos. Agora, aquilo de que as pessoas recusam de facto nem sempre é a carga fiscal propriamente dita. Isso só é realmente problema para pessoas como George Harrison, que acham que os muito ricos não devem contribuir com muito dinheiro para a sociedade em que vivem. Numa grande parte dos casos, porém, as pessoas não querem que lhes venha bater à porta este espectral Xerife de &lt;/span&gt;&lt;span lang="EN-US"&gt;Nottingham&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt; por uma de duas razões: ou sabem que o dinheiro que pagam e que devia ser usado ao serviço de todos vai ser usado apenas ao serviço de alguns; ou não compreendem para que serve o dinheiro que pagam (mesmo que ele seja utilizado ao serviços de todos). E nem num nem no outro caso o problema são os impostos – no primeiro caso, o problema é um mau governo, um problema que só se pode resolver mudando de governo; no segundo caso, o problema é ignorância dos cidadãos do funcionamento do aparelho de Estado, das suas instituições e dos seus órgãos, e do seu orçamento, e resolve-se com educação para a cidadania. Também se podia fazer uma canção a dizer isto…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2874386790023925718-2145971944068381211?l=llindegaard.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://llindegaard.blogspot.com/feeds/2145971944068381211/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2874386790023925718&amp;postID=2145971944068381211' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/2145971944068381211'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/2145971944068381211'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://llindegaard.blogspot.com/2011/04/taxman.html' title='Taxman'/><author><name>V. M. Lucas Lindegaard</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06993438398319242184</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/__m_JLgYBQmc/SUEyD_uVH3I/AAAAAAAAAwY/luHWZ4Q7ilk/S220/V%C3%ADtor.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://img.youtube.com/vi/1h1oRP7FfBw/default.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2874386790023925718.post-3103677636444033605</id><published>2011-04-11T09:38:00.001+02:00</published><updated>2011-04-11T09:39:19.987+02:00</updated><title type='text'>Palavras que parecem cerejas: de William Labov aos números 3 e 13</title><content type='html'>&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Embora a sociolinguística não seja uma área de estudos a que me tenha dedicado muito, um dos linguistas que mais me marcou foi &lt;b&gt;&lt;a href="http://www.ling.upenn.edu/%7Ewlabov/"&gt;William Labov&lt;/a&gt;&lt;/b&gt;. Ou talvez deva antes dizer que o livro &lt;i&gt;Sociolinguistic Patterns&lt;/i&gt; (&lt;i&gt;Sociolinguistic Patterns&lt;/i&gt;. Philadelphia: U. of Pennsylvania Press, 1972), uma compilação de estudos de Labov, foi uma das obras de linguística que mais me impressionou. E impressionou-me sobretudo pelo rigor do trabalho. Trabalhar a partir de enunciados perfeitamente anónimos gravados com microfones escondidos em centros comerciais, por exemplo, e analisar em espectrogramas as sequências sonoras assim obtidas é uma maneira de deitar completamente por terra a tão badalada ideia de que, em áreas como a sociolinguística, o observador interfere forçosamente no que observa. É certo que muitos o fazem muitas vezes, mas é apenas porque recolhem os seus dados através de entrevistas ou através de informantes; é apenas, como Labov demonstra, porque não são suficientemente hábeis – ou diligentes… – para inventarem metodologias que anulem a sua interferência no objecto investigado. Mas adiante, que não é de metodologia da investigação em sociologia ou linguística (a sociolinguística não pertence mais a um campo do que ao outro) que aqui se trata…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;William Labov foi também dos primeiros linguistas a desmontar preconceitos em relação a variantes menos prestigiadas da língua (ele trabalhou com aquilo a que chamou &lt;i&gt;African American Vernacular English, AAVE&lt;/i&gt;, Inglês Vernáculo Afro-Americano). Para muitas pessoas, as variantes “populares” da língua, sejam elas os falares rurais ou os falares urbanos mais pobres, são formas empobrecidas. A verdade é que esta acusação é feita sem o mínimo de evidência empírica e, quando se começa a analisar os factos mais de perto, não se encontra, nem ao nível do léxico nem ao nível das estruturas fonética, morfológica e sintáctico-semântica, nenhuma óbvia simplificação relativamente às variantes cultas ou padrão das línguas. O que há é, isso sim, um conjunto de regras que diferem da variante de prestígio, se bem que a maior parte seja coincidente em todas as variantes. Não é impossível, claro, que haja simplificação nalguns aspectos, mas pode haver noutros maior complexidade nesses falares &lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;“&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;mal falados&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;”&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt; do que na língua dos &lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;“&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;mestres&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;”&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt; da língua, como Labov demonstrou para o caso da dupla negativa no AAVE.&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Acho sempre mais interessante tentar compreender do que legislar ou fiscalizar. Não que não haja lugar para legislação e fiscalização, mas não me seduz: a mim, o que me seduz é a tentativa de explicar. E notem que digo tentativa de explicar, porque discordo profundamente de que possa haver uma linguística apenas descritiva. Não há área de conhecimento que se satisfaça com ser descritiva. Se em linguística, como em qualquer área de estudos, são precisas quantidades grandes de descrições a partir das quais se possa fazer investigação, o fim último do trabalho científico é sempre compreender, não descrever.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="color: #660000; text-align: center;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-size: large;"&gt;***&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Estava noutro dia a pensar na tão criticada pronúncia [trewz] da palavra treze. O mais fácil é dizer que está mal, porque não há, na forma gráfica convencionada, nenhum &lt;b&gt;u&lt;/b&gt; depois do primeiro &lt;b&gt;e&lt;/b&gt;. Mas é desinteressante. Quase tão fácil como isso (procurar explicações nem sempre é difícil, por muito que pareça assustar muita gente) é compreender porque surge ali aquela semivogal entre o [e] e o [z]. E é mais interessante: &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Houve uma altura em que se pronunciavam [é] ou [ê] &lt;b style="color: #cc0000;"&gt;[1]&lt;/b&gt; todos os &lt;b&gt;ee&lt;/b&gt; da escrita &lt;b style="color: #cc0000;"&gt;[2]&lt;/b&gt;. Depois, os &lt;b&gt;ee&lt;/b&gt; que estavam depois da sílaba tónica passaram a pronunciar-se [i]: é uma tendência geral da chamada pronúncia relaxada do português que a língua se eleve e recue quando pronuncia uma vogal átona. Isto deu uma pronúncia dos &lt;b&gt;ee&lt;/b&gt; como a do português do Brasil e foi por estas alturas que as duas pronúncias se separaram. No continente europeu, os &lt;b&gt;ee&lt;/b&gt; átonos continuaram a evoluir: os &lt;b&gt;ee&lt;/b&gt; átonos antes da sílaba tónica também passaram a [i] e, depois, acabaram todos por passar a [ə], um som muito fechado, ou até que, na maior parte dos casos, acabaram por deixar de se pronunciar, pura e simplemente. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Assim, se nos ativermos agora à evolução da palavra &lt;b&gt;treze&lt;/b&gt;, ela passou de [&lt;u&gt;trê&lt;/u&gt;zê] a [&lt;u&gt;trê&lt;/u&gt;zi] a [&lt;u&gt;trê&lt;/u&gt;zə] ou [&lt;u&gt;trê&lt;/u&gt;z-]. A palavra &lt;b&gt;três&lt;/b&gt;, essa, pronunciou-se sempre mais ou menos da mesma forma, pelo menos no que respeita ao som do &lt;b&gt;e&lt;/b&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Agora, todas as minhas leitoras e todos os meus leitores sabem que existe em português europeu um fenómeno que faz que o &lt;b&gt;s&lt;/b&gt; final de uma palavra se pronuncie [ch] se vem antes uma consoante surda (em que não há vibração das cordas vocais); se pronuncie [j] se vem antes de uma consoante sonora (em que há vibração das cordas vocais) e [z] se vem antes de uma vogal. Um exemplo canónico é o de &lt;b&gt;casaS castanhas&lt;/b&gt;, &lt;b&gt;casaS brancas&lt;/b&gt; e &lt;b&gt;casaS azuis&lt;/b&gt; em que o &lt;b&gt;s&lt;/b&gt; final de &lt;b&gt;casas&lt;/b&gt; se pronuncia [ch] no primeiro caso, [j] no segundo e [z] no terceiro. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Muitas das minhas leitoras e dos meus leitores sabem também que, no português padronizado que se ensinava a locutores de rádio e a actores de teatro, um &lt;b&gt;e&lt;/b&gt; átono antes de uma vogal se pronunciava [i] em vez de [ə] (o que, de qualquer forma, era impossível, pelo hiato que criava, estranho à lógica da fonética portuguesa) ou em vez de não se pronunciar: “onde é que ele está?” deveria&amp;nbsp; dizer-se [ondiéquiêl(i)chtá]. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Em muitas variantes do português, porém, esta regra combinatória nunca se impôs e o normal era e é não pronunciar o &lt;b&gt;e&lt;/b&gt; átono: [ondéquêl(ch)tá]. E nestas variantes surgiu então, naturalmente, uma ambiguidade que não podia continuar, porque tinha não só uma taxa de ocorrência alta como ocorria em contextos onde era inaceitável: todos os contextos {&lt;b&gt;três&lt;/b&gt; seguido de &lt;b&gt;vogal&lt;/b&gt;} e {&lt;b&gt;treze &lt;/b&gt;seguido de &lt;b&gt;vogal&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;}&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;: [trezòmens] eram 3 homens ou 13 homens? Mas mais (ou até principalmente!...): mesmo em contextos sem uma vogal depois do numeral, a semelhança fonética dos dois números é tão grande que algum ruído (em sentido lato) na comunicação pode facilmente criar desentendimentos… significativos. Algumas variantes da língua resolveram o problema diferenciando os dois numerais de uma forma mais eficaz: passando &lt;b&gt;treze&lt;/b&gt; a [treuze], estava o problema resolvido!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Lembro-me de que o meu pai (que, no escritório onde trabalhava, lidava com facturas e recibos e passava a vida a falar ao telefone com outros empregados de escritório de outras firmas, que também lidavam com facturas e recibos) usava, como penso que era procedimento padrão na época, o truque de pronunciar [trrês], com &lt;b&gt;r&lt;/b&gt; múltiplo, o número &lt;b&gt;três&lt;/b&gt;, para evitar as confusões. Era outra estratégia possível para dissociar os dois vocábulos, mas era uma estratégia criada por convenção e que, como tal, tinha poucas possibilidades de vingar – ao contrário do [treuze], que foi criado pela própria língua, essa criatura viva com um invejável sentido de adaptação a novas condições. Há muito que não ouço ninguém dizer [trrês], acho que saiu completamente de moda, mas o [treuze] continua de boa saúde. Podem criticá-lo, se quiserem, não vou barafustar; mas para quê aborrecer uma solução necessária, natural e eficaz?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;_________________&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;b style="color: #cc0000;"&gt;[1]&lt;/b&gt; Evito, sempre que possível, o alfabeto fonético na transcrião dos sons. Nem sempre é possível, porém, e tenho de recorrer ao símbolo [ə] para representar o “e mudo” de com&lt;b&gt;e&lt;/b&gt;, por exemplo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;b style="color: #cc0000;"&gt;[2]&lt;/b&gt;&lt;span style="color: #cc0000;"&gt; &lt;/span&gt;Digo assim para simplificar, perdoem-me a falta de rigor, já que é por uma boa causa que a abandono: tentar fazer-me entender por mais gente.&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2874386790023925718-3103677636444033605?l=llindegaard.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://llindegaard.blogspot.com/feeds/3103677636444033605/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2874386790023925718&amp;postID=3103677636444033605' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/3103677636444033605'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2874386790023925718/posts/default/3103677636444033605'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://llindegaard.blogspot.com/2011/04/palavras-que-parecem-cerejas-de-william.html' title='Palavras que parecem cerejas: de William Labov aos números 3 e 13'/><author><name>V. M. Lucas Lindegaard</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06993438398319242184</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/__m_JLgYBQmc/SUEyD_uVH3I/AAAAAAAAAwY/luHWZ4Q7ilk/S220/V%C3%ADtor.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2874386790023925718.post-2236711712881414817</id><published>2011-04-11T09:19:00.003+02:00</published><updated>2011-04-12T14:49:09.469+02:00</updated><title type='text'>Importa-se de explicar?</title><content type='html'>&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Uma ideia que, apesar de muito difundida, não faz grande sentido para mim é a ideia de que precisamos de gostar de nós mesmos para gostar dos outros. Estou convencido, aliás, de que é por ela não fazer grande sentido que é repetida sem nenhuma explicação (e muito menos provas, claro está…): é sempre possível arranjar explicações engenhosas seja lá para que postulado for, por pouco lógico ou verificável que seja, mas mais engenhoso do que qualquer engenhosa explicação é o artifício retórico de apresentar esse postulado como sendo tão óbvio que não precisa de ser explicado... &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2874386790023925718-2236711712881414817?l=llindegaard.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://llindegaard
