25 de novembro de 2012

Uma, duas, várias surpresas

Confesso: às vezes, escrevo para causar surpresa. Há, aliás, alguns textos neste blogue que têm sobretudo esse propósito. Não falo do estranhamento dos literatos, não é nada assim tão complicado – é só surpresa, no sentido mais normal da palavra:«Que esquisito!...»

Não faço nenhum culto da surpresa, notem. Não vejo o causar surpresa como função importante da escrita – embora ache que faz sempre bem ser surpreendido. Gosto apenas de tentar surpreender, sem mais. E gosto de ser surpreendido. Deixem-me apresentar-vos uma coisa que espero que vos surpreenda como me surpreendeu a mim:

Benjamin K. Tippett, do Departamento de Matemática e Estatística da Universidade do New Brunswick, publicou um trabalho de física chamado Possíveis Bolhas de Curvatura Espácio-Temporal no Pacífico Sul (Possible Bubbles of Spacetime Curvature in the South Pacific), em que defende, explica ele no resumo, que «todos os fenómenos credíveis que [Gustaf] Johansen descreveu podem ser explicados como sendo as consequências observáveis de uma bolha localizada de curvatura espácio-temporal». «Pode, pois, dizer-se», continua Tippett, «que muitas das suas mais incompreensíveis afirmações (relativas à geometria da arquitetura, e variabilidade do localização do horizonte) têm uma mesma causa subjacente. Propomos um exemplo simplificado dessa geometria e mostramos, usando cálculos numéricos, que as descrições de Johansen não eram, na maior parte, apenas delírio de um lunático. São antes as observações não técnicas de um homem inteligente que não sabia como havia de descrever o que via».
 
Gustaf Johansen? Mas quem é Gustaf Johansen? De que se está aqui a falar? Pois bem, a surpresa de que falo não é a possibilidade de haver bolhas de curvatura espácio-temporal no Pacífico Sul, seja lá o que for que isso quer dizer. A surpresa de que falo é, na realidade, uma surpresa feita de várias surpresas. A primeira é esta: Gustaf Johansen é uma personagem de um conto célebre de Howard Phillips Lovecraft, “The Call of Cthulhu”; mas Tippett não refere no estudo que é de personagens e acontecimentos ficcionais que se trata:
Em 1928, o falecido Francis Wayland Thurston publicou um manuscrito escandaloso que visa alertar o mundo para uma conspiração global de ocultistas. Entre os documentos que reuniu para apoiar a sua tese, encontrava-se o relato pessoal de um marinheiro de nome Gustaf Johansen, descrevendo a descoberta de uma ilha extraordinária. As descrições de Johansen das suas aventuras na ilha são fantásticas e são muitas vezes consideradas as mais enigmáticas (e, por isso mesmo, a parte mais interessante) da coleção de documentos de Thurston.
A referência bibliográfica de Tippett é à obra ficcional de Thurston (F.W. Thurston. The call of cthulhu. Wrd. Tls., Feb. 1928), não à de Lovecraft, embora seja efetivamente uma referência mista, pois Wrd Tls refere obviamente, a revista Weird Tales onde foi publicado o conto de Lovecraft em Fevereiro de 1928.
Deixem-me só esclarecer, antes de continuar, que eu de matemática e de física não percebo nada. Não sei julgar se o estudo de Tippett é trabalho sério ou puro delírio. Aliás, nem o li – não valia a pena, para quê? Mas, mesmo sem saber nada de matemática e de física, posso pensar o seguinte: Que importa quem é de facto o autor das descrições analisadas, se Lovecraft, se as suas personagens? O que conta é o texto, que é o objeto de estudo, independentemente de quem o tenha escrito. Até se escusava a referência a um autor, ficcional ou não. Posso pensar isso e nem me parece mal pensado. Mas há uma segunda surpresa no estudo de Tippett. Como agente de surpresa, pelo menos, não há dúvida de que é trabalho muito sério:    
Parece-nos improvável que Johansen tivesse feito por acaso uma descrição exata das consequência da curvatura do espaço-tempo, se os pormenores desta história não passassem de resquícios de um sonho febril meio recordado.
Estão a ver? Mas então, na vossa opinião, que probabilidade tem Lovecraft de ter escrito uma coisa assim com base apenas na sua fértil imaginação, hem? Mas então… Mas então ?!?!
Surpreende-vos, tudo isto? Espero que sim. E digam-me, se souberem, que eu não percebo nada disto: as curvaturas espácio-temporais têm alguma coisa a ver com o que se segue?


timeRemapExportHD from Adrien M / Claire B on Vimeo.

Calão, dinheiro e comida

O linguista francês Louis-Jean Calvet escreveu uma vez um artigo[1] em que explicava que muitas expressões para designar o dinheiro vêm do campo semântico da comida. Calvet regista sobretudo expressões da sua língua: artiche, uma abreviatura de artichaut, “alcachofra”; avoine, “aveia”; blé, “trigo”; braise, “brasa”; carme, um tipo de pão branco, termo de viria de carmelitas[2]fric, abreviatura de fricot ou fricassée, preparados culinários; gallette, “bolacha, bolo”; grisbi, tipo de pão escuro; oseille, “azeda”, planta comestível; pèse, de pèzète, palavra occitana para dizer “ervilha” (e não da moeda peso, como eu sempre pensei); e pognon, um biscoito da região de Lyon. E referia também grano e grana, em italiano, e dough, “massa” e bread, “pão” em inglês.
Nada disto parece muito extraordinário, se tivermos em conta que é sobretudo para comer que o dinheiro serve. Não só, é claro, e sobretudo nas sociedades de abundância, mas foi sobretudo para a bucha que ele sempre mais fez falta, e é assim que continua a ser na maior parte dos sítios do mundo. É certo que nem só de pão vivem mulheres e homens, mas primeiro a paparoca, ou não?
Ora, há uns meses, surgiu espontaneamente, no meu mural de Facebook, uma coleção de sinónimos de dinheiro. Reduzindo-a às expressões familiares (ou de gíria ou calão, enfim, as que não se usam normalmente em situações formais) e deixando de lado expressões que só se usam em construções específicas[3] ou em expressões fixas[4], fico com duas dúzias de expressões[5]: aquilo com que se compram os melões, arame, bago, bagaço, cacau, carcanhol/carcanhóis, caroço, chelpa, gimbo, graveto, guita, guito, maçaroca, massa, milho, narta, nota, papel, pasta, pastel, perné, pilim, pingo e taco. Destas 24, só 6 tem uma relação óbvia com comida. Talvez se possa ver também comida em bagaço e cacau – e, com boa vontade, em pingo…–, se incluirmos a bebida na comida, mas é duvidoso… (E também não faço ideia de onde venham gimbo e chelpa, quem sabe se não se comerão… )
Enfim, parece que a comida não é um campo tão produtivo para a criação de palavras para dizer dinheiro em português como é em francês. Calvet diz, no artigo citado, que “a língua tem as raízes na sociedade, fala-nos dela e testemunha a sua evolução”. Se calhar – pode talvez pensar-se, partindo dessa ideia – os portugueses têm menos palavras de comida para dizer dinheiro porque gastam menos dinheiro na alimentação que os franceses, por exemplo – quer dizer, porque o dinheiro é menos comida, para eles, e mais outras coisas não comestíveis… Bom, o que as estatísticas dizem é precisamente o contrário [6]. A razão há de ser outra… Ou então, bem pode ser que não haja nenhuma razão especial…
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[1] “T’as pas cent balles…”, in Le Français dans le monde, n°210, julho de 1987. Tenho o artigo em fotocópias desde essa altura e fui redescobri-lo há pouco tempo. Além de mostrar que a cópia ilegal (ai, ai, ai…) já é uma coisa muito antiga, isto mostra também que há fotocópias que resistem a 7 mudanças de casa – incluindo 5 mudanças de continente – e a um incêndio…
[2] Devo confessar que, por muito que me julgue bastante conhecedor de calão francês e dê até, nessa área, lições a muitos franceses, não conhecia carme, que deve ter desaparecido da língua corrente antes de eu ter começado a ter contacto com ela. Mas não há dúvida de que faz parte do calão clássico, como se pode constatar em Argoji, Dictionnaire d’Argot Classique, que compila vocabulário de 13 dicionários de calão de 1827 a 1907.
[3] Cheta é sinónimo de dinheiro, mas só em frases negativas e com uma elevada negatividade, se se pode dizer assim: “tenho cheta” ou “esse gajo está cheio de cheta” são frases impossíveis, e “não tenho cheta” não significa exatamente “não tenho dinheiro”, mas antes “não tenho dinheiro nenhum”. Casos curiosos são também o das palavras tostão, tusto e pataco. Usadas com um determinante indefinido, podem também significar “dinheiro” – no singular, são sempre usadas na negativa; no plural, na afirmativa: “Não tenho um tostão”/“Tenho uns tostões guardados”
[4] O termo patacas só significa “dinheiro” na expressão árvore das patacas, a metafórica árvore do dinheiro (por muito que não se possa dizer: “Mas tu pensas que as patacas crescem em árvores ou quê?”). Fora disso, pataca é o nome de várias moedas de vários sítios, mas não significa “dinheiro” como tal.
[5] Como não me sinto competente para mais, limito a lista ao português europeu. Excluo larjã, porque não é senão l’argent; móni/mâni, porque é apenas money, e grana, por ser calão próprio do português americano. Quer dizer, não excluo completamente, relego os termos, coitados!, para uma nota de rodapé… Também só aqui refiro o angolano cumbu e o moçambicano tacos no plural, embora estas palavras tenham tido, pelos menos em certa época e em certos círculos, alguma fortuna em Portugal. Cumbu está dicionarizado e o Porto Editora em linha diz que vem do quimbundo ukumbu, “vaidade”, «por relação efeito-causa». Talvez venha, talvez não, porque as etimologia da Porto Editora não são sempre de fiar… Excluí também da lista expressões que conheço e uso, como bagoré, ferro, música, roda e outras, porque não posso provar (a mim mesmo, antes de mais), que não são exclusivo de círculos muito restritos. Mas é bem possível que sejam mais que isso…  
Tirando isso, 24 expressões familiares para dizer dinheiro parecem muito, mas não são. Uma vez, para um programa de rádio que tive, incluindo regionalismos e com pesquisas em dicionários de calão, fiz uma recolha de cerca de 80 palavras para dizer dinheiro – das quais me lembro que conhecia umas 3 dezenas, se tanto (continuo com a sensação que me estou aqui a esquecer de palavras que conheço…). Que pena tenho de não ter guardado essa lista.
Nos poucos dicionários a que tenho acesso online, só não encontro duas destas 24 expressões: perné e narta. Perné, até percebo que não esteja dicionarizado, é calão cigano, que não se ouve com frequência. Agora, narta não vejo bem porque não há de estar em todos os dicionários, palavra comum que é.
O português partilha com o castelhano os termos guita e pasta.
[6] Ver, por exemplo, dados dos relatórios Consumers in Europe, do Eurostat, 2009, e ERS/USDA, EUROMONITOR, 2010 (dados de 2005 e 2009, respetivamente). Evidentemente, nada disto é para levar muito a sério – não faz muito sentido, para mim, postular este tipo de relações entre os factos da língua e os factos sociais, é mais porque me apetecer mostrar-vos estas estatísticas, que acho interessantes.

10 de novembro de 2012

Uma osteria romana



Carl Bloch, Fra et Romersk Osteria (“De uma Osteria Romana”), 1866. Óleo sobre tela, Museu Nacional de Arte da Dinamarca, Copenhaga
Já ouvi dizer ou já li alguma coisa sobre o erotismo do quadro, a sua riqueza de pormenores, a seu dramatismo, o seu caráter popular, o seu cunho misterioso, os estereótipos que encerra, e mais… Mas nunca li nem ouvi o que me veio à cabeça quando o conheci e apeteceu-me, por isso, escrever um textinho sobre ele para esta Travessa que nunca teve textos sobre pintura[1].
O que salta à vista são os olhares das figuras fixos no olhar do espetador. Bom, não é nada de novo, é uma caraterística de muitos retratos, e não só, e cria, muitas vezes, um efeito especial. E o especial aqui, creio eu, é que esse truque cria uma história, ou uma reserva de histórias, à disposição do espetador. A ideia que tenho é que, em vez de descritivo, como os quadros figurativos quase sempre são, este quadro é essencialmente narrativo. Há quadros que evocam uma história, mostrando um episódio dessa história, mas este não evoca nenhuma história conhecida – ele conta uma história que não existe em mais lado nenhum. Quem vê o quadro pode ser apenas espetador em segunda mão de algo vivido ou imaginado pelo autor do quadro. Nesse caso, é como ler um conto contado na primeira pessoa. Agora, quando se lê um conto contado na primeira pessoa, o leitor não pode usurpar o lugar do narrador, porque não sabe o que vem a seguir – precisa do narrador, sem ele não há história. Aqui, como é uma narrativa sem fio narrativo, digamos assim, uma narrativa que é toda contada como um instante apenas, o espetador pode decidir ser ele a personagem da história, pode deitar fora o narrador e ocupar o seu lugar. De qualquer forma, precisamente porque só lhe é dado um momento preciso dessa história, é o espetador que tem de a rematar, de construir os seus pormenores, e, para isso, tanto faz imaginá-los vividos ou inventados por Carl Bloch como imaginá-los vividos por ele próprio, espetador.
É preciso dizer que o truque não foi inventado por Carl Bloch. Bloch limitou-se a dar nova vida a uma ideia que o seu compatriota e professor Wilhelm Marstrand tinha tido 18 anos antes.
Wilhelm Marstrand, Pige, der byder den indtrædende velkommen (“Rapariga dando as boas vindas a uma pessoa que entra”), 1848. Óleo sobre tela, Nova Gliptoteca Carlsberg, Copenhaga
No site da Galeria Nacional da Dinamarca, diz-se que o quadro de Bloch é “uma versão intensificada” da pintura de Marstrand. É uma boa maneira de o dizer, acho eu. Também me parece que o quadro de Marstrand, bonito e interessante que é, não tem a mesma intensidade. Nem a mesma capacidade de produzir histórias. É certo que o facto de ter um título também não ajuda nada – é uma “rapariga dando as boas vindas a uma pessoa que entra”[2] e parece que não pode ser muito mais… Bloch introduz o elemento masculino e introduz, sobretudo, o que me parece o fundamental do quadro: a indefinição das expressões, incluindo a indefinição da gestualidade. Não que os rostos e as posturas não sejam bem expressivos, que o são, mas que expressões têm? São inúmeras as interpretações possíveis. Creio, aliás, que, quando se diz que o quadro é misterioso, é esse um dos principais elementos constituintes do seu mistério, talvez o principal. Surpresa, desafio, sensualidade, reconhecimento, sedução, temor, tudo é possível ali ver. Não importa a idade, o género, a origem ou o estado de espírito da pessoa que olha para o quadro; se decidir que é ela e não Bloch que entra na sala – ou seja, se decidir entrar no quadro, fazer parte dele –, a reação das três personagens faz sempre sentido. Há muitas histórias disponíveis, passa-se sempre ali qualquer coisa. 
Mas, claro, nada disto é para ser levado muito a sério, isto sou só eu a delirar: é o que me veio à cabeça quando conheci o quadro de Bloch.
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[2] De facto, o título é ambíguo, porque não se sabe se “a pessoa que entra” é uma pessoa concreta (ela deu as boas vindas a esta pessoa que entrou) ou virtual (ela dá sempre as boas-vindas a seja lá quem for que entre e esta é apenas uma das ocorrências dessa saudação), mas o que digo continua a fazer sentido mesmo com a segunda leitura.

29 de outubro de 2012

Música deste mundo e do outro



1. O que está ele a dizer?
 Provavelmente, acontece-vos o mesmo: quando apresento a alguém uma cantora ou um cantor que cante em dinamarquês ou sueco, por exemplo, fazem-me frequentemente um comentário do tipo: «É bonito, sim senhor, apesar de não perceber nada do que está a cantar…»
Acho isso muito curioso. As mesmas pessoas nunca fazem esse comentário, se a canção for em inglês, francês, italiano ou espanhol, por muito que (eu sei) na maior parte dos casos também não façam a menor ideia do que é cantado nessas línguas. Seria interessante estudar que estranha programação mental nos leva a organizar a alteridade de tal maneira que aceitamos não compreender as letras das canções nas línguas que ouvimos com mais frequência e estranhamos a incompreensão se as canções forem cantadas numa língua menos habitual – desde que não seja exótica, isto é, radicalmente outra. É que (provavelmente, acontece-vos o mesmo), se a canção for em chona, tagalo ou aimara, ninguém faz o mesmo comentário!

2. Música de que mundo?
Outra questão que merece escrutínio moral é a da chamada música do mundo – ou world music, se preferirem (estou convencido de que se usa mais, no discurso em português, a expressão original inglesa que a sua tradução em português, mas não tenho a certeza…).
Não tenho nada contra chamar-se música do mundo a projetos expressos de fusão de música de todos os lugares do mundo. É, muitas vezes, música que não me agrada por aí além, mas, enfim, não vejo que chamar-se assim tenha implicações morais. O que tem implicações morais e me desagrada profundamente é a instituição da categoria música do mundo para referir, pura e simplesmente, toda a música que não venha de países anglo-saxónicos ou não seja pop rock cantado em inglês. E é assim que se usa hoje a expressão: um grupo alemão que cante em inglês não é world music, como não é world music a música country americana – mas um cantautor alemão é quase sempre categorizado como world music e a pop andina de grande público também. Por um lado, a classificação estabelece um padrão discriminatório de “normalidade”, amalgamando tudo o que sai fora dessa “normalidade”, quase sempre sem nenhum critério que não seja a sua origem geográfica; por outro lado, para sofisticar a discriminação, reserva uma classificação rica, com uma quantidade enorme de subgéneros, para a música que não é world music: a soul music divide-se em Motown soul, Southern soul, Northern soul, Memphis soul, New Orleans soul, Chicago soul, Philadelphia soul, psychedelic soul, blue-eyed soul e nu soul (pelo menos), mas um an dro bretão ou uma polca da Carélia são ambos… world music.

[Evidentemente, há mais quem ache que a expressão world music é ofensiva.]

O pintor antimilitarista debaixo do lava-louças: a distância e o ódio

O pintor debaixo do lava-louças, de Afonso Cruz (Lisboa: ed. Caminho, 2011) é muitas coisas, como todos os livros são – pode ser, por exemplo, um livro contra as guerras, contra a guerra. Páginas 73/74:
Muitas vezes Sors via-se obrigado a disparar. Fazia-o para um espaço sem nome, perfeitamente incógnito, ligeiramente para cima, de modo a falhar todos os tiros. Não poderia jamais ter a certeza absoluta de não ter matado ninguém, mas acreditava nessa possibilidade. Nas execuções por fuzilamento, havia sempre um dos carrascos que tinha pólvora seca. Para que aqueles que disparavam contra um condenado pudessem acreditar na possibilidade da sua inocência. O nevoeiro e a distância, e o frio, e os gases, também serviam para isso. Eles, quando disparavam, não sabiam se acertavam, se as suas balas eram culpadas. Um soldado poderia sair, isso dizem-nos as probabilidades, de uma guerra sem matar ninguém e sem ter morrido. Isso significa, em termos científicos, que esse soldado é que ganhou a guerra. Não foram os austro-húngaros ou os russos ou os sérvios ou os otomanos ou os romenos ou os alemães ou os belgas ou os franceses ou os portugueses ou outros, mas aquele soldado.
– Para ganhar uma guerra – disse Sors –, há duas condições: não morrer e não matar. É só nesse caso que se pode sair vitorioso de uma guerra.
Ou páginas 141/142:
– É claro que essa é a maior razão para eu detestar aviões. A minha aversão ficou completa quando vi como é fácil matar quando se está no céu. As coisas cá em baixo são tão pequeninas. É difícil acreditar que essas coisas pequeninas sejam homens e mulheres e crianças, com vidas, que se amam e se odeiam. Visto de cima –, disse Sors pegando numa caneta e num papel –, um homem é assim:
Não se veem os olhos. Por isso é que é muito mais fácil matar assim, quando não se veem os olhos. Quando andamos pela terra, vemos as pessoas de frente. É difícil bombardear pessoas quando estão de frente, mas da vertical o que se vê são números, números a explodir. Por isso nunca gostei de aviões.
Já o ouvi muitas vezes e apresentado de várias formas: Se tivesse de se matar com as mãos pessoas que nos olham nos olhos, não seria tão fácil fazer guerra – havia de se sentir o verdadeiro horror que ela é, e haveria mais quem se recusasse a matar. É uma ideia antibelicista limitada, já que não ataca a guerra em si, mas apenas as formas mais “modernas”, mais “impessoais”, de guerra; e não é um argumento propriamente moral, porque não assenta em conceitos discutíveis de bem e mal, mas antes na justeza de sentimentos supostamente primordiais, uma solidariedade natural da espécie. Mas parece que esta simpatia essencial de todos os humanos por todos os outros humanos não subsiste se se “despersonaliza” a guerra, matando de longe, matando sem ver ou sem saber quem se mata. No fundo, é tudo uma questão de distância: longe da vista, longe do coração, como diz o provérbio – a distância física causa distância emocional, frieza, de longe não vejo que o meu inimigo é igual a mim. Não é um argumento moral propriamente dito, dizia eu, mas não deixa de ser uma ideia forte. E Afonso Cruz di-la bem.
Curiosamente, na página 64, uma outra personagem, Wilhelm Möller, prevendo talvez comentários como o que acabo de fazer ao que se diria mais adiante no livro, tinha já deixado claro que não é assim, que a culpada não é a distância que desumaniza, mas sim o ódio que trazemos dentro de nós.  
– As espingardas são uma maneira de matar com mais conforto, basta mexer um dedo. É muito surpreendente como o movimento de um dedo pode tirar a vida de uma pessoa e transformar outra numa coisa ignóbil. É só um dedo a dobrar-se. Uma espingarda é uma máquina de fazer monstros.
Wilhelm mostrou o indicador a Sors e disse:
– Se está esticado, é para acusar, se se dobra é para disparar. Eis o indicador. – E dobrava e esticava o seu dedo como se destruísse mundos: – Isto é o homem, não é o polegar oponível. De resto, Jozef, as espingardas não são armas, são canos. São os instrumentos que permitem aos nossos corações disparar (não é por acaso que as empunhamos bem junto ao coração, com o gatilho encostado ao peito). O que mata, as verdadeiras armas, estão dentro do tórax, a marcar o tempo, como um relógio cheio de ódio.
Nem que de longe, nem que os outros sejam só números ou pontinhos quase indiscerníveis na paisagem, não há desculpa, matar é matar. Wilhelm Möller diz isto e diz também: dentro das pessoas não há só a compaixão inata que faz que, para fazer mal aos outros, nos tenhamos de distanciar deles. Também somos capazes de matar sabendo que matamos e quem matamos; também somos capazes de matar com as mãos quem nos olha nos olhos.

Do que eu me fui agora lembrar...



[Pequena contribuição para a História das Forças Armadas em Portugal]
Devo estar a ficar velho, porque me vêm muitas vezes à memória episódios da minha juventude... Sou do segundo turno de setenta e nove. Tinha asma, nessa altura, e esperava ficar livre da tropa, mas tinha sido dado como apto na inspeção e tinham-me posto em infantaria mecanizada em Santa Margarida. A asma, tinha-me explicado o médico na inspeção, só se pode detetar durante um ataque (uma crise, disse ele, porque é assim que costumavam dizer os médicos), de maneira que, para ficar livre, tinha de arranjar maneira de algum médico militar me constatar a doença no período de serviço.
E eu não queria mesmo fazer a tropa. Só de pensar em mim soldado ficava transtornado, nervoso, muito infeliz… Tinha mesmo de arranjar uma maneira de me safar àquilo. A objeção de consciência, porém, parecia-me fora de questão. Era uma possibilidade tão nova que não se devia esperar muito dela – se chegasse a ser levada a sério. Além disso, eu não podia, sem mentir, invocar as razões comummente invocadas para recusar a instituição militar. Agora sou pacifista, mas nessa altura não professava nenhuma filosofia nem religião que me proibisse o uso da violência, mesmo fora de situações de autodefesa. De maneira que apareci em Santa Margarida na data marcada, com a esperança de vir a ter, mais cedo ou mais tarde, um ataque grande asma que me valesse ficar livre daquele pesadelo.
Ao fim de um dia apenas, perguntaram aos recrutas quem queria ir ao médico, que fazia serviço na unidade de xis em xis dias, e eu quis. Queixei-me de asma, mas o médico não me encontrou asma nenhuma. O que ele me encontrou e que achou que merecia ser analisado foi um coração a bater quase ao dobro do andamento normal: em vez do adagio que é costume, o meu coração adiantava-se, em repouso, para um allegro vivace.
Guia de marcha na mão, saí de Santa Margarida nessa mesma tarde, rumo ao Hospital de Estrela, mais dois colegas recrutas transmontanos, que não me lembro de que padeciam. Chegámos a Lisboa à noite e, para não passarmos a noite em claro numa estação de comboios ou às voltas pela cidade, convidei os meus colegas a virem dormir a minha casa à Rinchoa. A minha avó (só ela me viu nessa noite, o resto da família não deu pela minha chegada) ficou muito surpreendida de me ver aparecer à meia-noite acompanhado de dois desconhecidos, que ficaram a dormir no chão, porque não havia camas para eles.
No dia seguinte, lá estávamos nós na Estrela, ao abrir das consultas externas. Com os vinte anos que tinha, sabia já muitas coisas, entre as quais que i) não tinha nada no coração a não ser a ânsia que me causava a tropa e que ii) era em infetocontagiosas, na Boa Hora, e não ali em cardiologia, que eu tinha possibilidades de ser declarado inapto. De maneira que (até aqui era introdução, a história que queria contar começa agora), quando apresentei a minha credencial ao enfermeiro de serviço, lhe disse que, pelos vistos, tinha havido engano:
«Pois, isto é engano. Não sei como aconteceu, mas é engano. Eu era para ir para infetocontagiosas, porque o que eu tenho é asma.»
E se eu fosse de generalizações, que não sou, dizia-vos que era assim, caríssimas leitoras e caríssimos leitores, que funcionavam os serviços médicos das Forças Armadas em 1979… Mas enfim, que é uma história engraçada, é: o enfermeiro não teve dúvidas em confiar mais em mim que na credencial assinada pelo médico de Santa Margarida e passou-me nova credencial para a Boa Hora. Fui lá internado daí a umas horas e, ao cabo de dois meses e meio que passei a fumar e a jogar à lerpa, concluíram que eu era efetivamente asmático. E foi assim que a tropa se livrou de mim.

26 de outubro de 2012

Das fontes inesgotáveis de carne ou Les grands esprits se rencontrent

Traduzo um texto do grande Alphonse Allais [1]:
Quando ouvi a história, veio-me aos lábios um sorriso incrédulo e vieram-me avivar o olhar pequenos lampejos de troça. Cap, o meu interlocutor, não reagiu. Limitou-se a chamar o empregado do bar e a pedir “Two more” que é a maneira americana de dizer: “Pode servir-nos outra vez a mesma coisa” ou, de forma mais clara, “Outra rodada”. O empregado serviu-nos mais dois mint-julep.
Conheço o capitão Cap há já bastante tempo. Aconteceu-me muitas vezes encontrá-lo num desses numerosos american bars que há nas imediações da nossa Opéra nacional e da Igreja da Madaleine. Estou acostumado às suas hipérboles e às suas lérias, mas esta história, sinceramente, ultrapassava os limites do gracejar canadiano. (Os canadianos, encantadoras crianças, aliás, são, por assim dizer, os gascões transatlânticos e Cap tem muito do caráter canadiano.) Contava-me Cap, com toda a serenidade, que tinham acabado de descobrir, a seis milhas de Arthurville (na província do Quebeque) uma mina de carne assada a céu aberto! Eu tinha ouvido bem e é isso mesmo que o leitor acaba de ler: uma mina de carne assada a céu aberto! Uma mina de meat-land (terra de carne), como eles dizem por lá.
Resolvi tirar a coisa a limpo e, na manhã seguinte, dirigi-me ao Consulado Geral do Canadá, no Nº 10 da Rue de Rome. Na ausência do Sr. Fabre, o amável cônsul, fui recebido – com toda a gentileza, há que o dizer – pelo seu filho Paul e pelo ilustre Maurice X ..., um jovem diplomata de grande futuro.
– A meat-land! – exclamaram os dois cavalheiros. – Mas não há nada mais verdadeiro! Como? Não acredita na meat-land?
Tive de confessar o meu ceticismo. Os dois senhores tiveram a amabilidade de me informar sobre o assunto e fiquei a saber que o capitão Cap não tinha de modo algum exagerado.
Nas proximidades de Arthurville, existia, em plena floresta virgem (era virgem nessa altura), uma enorme ravina em forma de arena, formada por rochas íngremes e atapetada (como os nossos Alpes) de milhares de espécies de ervas aromáticas, tomilho, alfazema, louro, etc. Esta floresta era habitada por veados, antílopes, corços, coelhos, lebres, etc. Ora, num dia muito quente e extremamente seco, começaram a arder essas grandes matas e o fogo rapidamente alastrou por toda a região. Assustados, os pobres animais fugiram, procurando abrigo contra a catástrofe. E ali estava o barranco, com suas rochas escarpadas, mas incombustíveis. Os animais acreditaram ter encontrado a salvação! Não tinham contado com a enorme temperatura gerada pelo monumental incêndio. Veados, antílopes, corços, coelhos, lebres, etc., saltaram aos milhares para o que acreditavam ser a salvação e o que encontraram foi a morte por asfixia.
Os animais não só morreram, como também assaram. Enquanto a temperatura não voltou ao normal, toda esta carne ficou a cozer no seu próprio molho (como se faz no processo de cozedura a que se chama estufado). As matérias pesadas – ossos, chifres, pele – foram-se depositando devagar no fundo deste tacho gigante. A gordura, mais leve, veio ao de cima, e solidificou à superfície, formando, assim, uma camada protetora. As ervas aromáticas, por outro lado (como as dos nosso Alpes), temperaram este pâté e fizeram dele um delicioso petisco.
Há que acrescentar que será instalado em breve em Paris, no vasto edifício na esquina da Rue des Martyrs com o Boulevard Saint-Michel, um entreposto de comercialização de meat-land. Está a ser criada uma empresa para exploração desta substância única. Voltaremos a este assunto, uma questão de primeiríssima ordem, para a qual chamamos desde já a atenção das pessoas de economia mais modesta.
Agora, mais carne que uma mina de carne tem um planeta de carne. É muito possível que Carl Sagan nunca tenha lido Allais. Muitas vezes, como diz o provérbio francês, os grandes espíritos encontram-se [2].


Ah, a (des)propósito: como talvez saibam, foi recentemente descoberto um planeta "de diamante". Os trocadilhos sobre como essa descoberta nos veio enriquecer são inevitáveis, mas a verdade é que, como há sempre alguém a recordar-nos, os diamantes não se comem...
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[1]  Alphonse Allais, Le Captain Cap, 1902. Trata-se do Capítulo III. – Em que se descobre a existência de Meat-land: por outras palavras, terra de carne, rica mina de carne assada a céu aberto, localizada perto de Arthurville (província do Quebeque). O original francês está disponível na Wikisource. Podem ler uma biografia de Alphonse Allais na Wikipédia e, se souberem francês, proponho-vos duas páginas com textos do grande humorista, uma com alguns dos seus achados "líricos" e outra com vários contos.
[2] Peço desculpa a quem não saiba inglês, mas não traduzo o vídeo; senão, nunca mais publico este post... Além do filme, existe um site sobre o Planeta de Carne, com toda a sua história.

26 de setembro de 2012

Filosofia de algibeira #3

Moral vem do latim moralis, relativo a mores; e alguns dicionários dizem que mores significa “costumes”, outros que significa “maneiras, comportamentos”. Seja lá como for, e por muito que influam sempre nos comportamentos, os costumes são maus argumentos morais, isto é, são maus argumentos quando se discute um código de comportamentos, o que é bem ou mal, o que se pode ou não fazer. Nem sequer é argumento, aliás, defender que algo se possa fazer ou se deva proibir porque é ou não é tradição fazê-lo – é antes uma falta de argumento, precisamente, uma injustificação.

Se estão certos os dicionários que dizem que a moral começou por ser relativa aos costumes, para ela deixar de ser algo indiscutível e podermos todos ter algo a dizer sobre as regras a que devemos obedecer (para que haja, em suma, uma moral democrática), podíamos então dizer que há que desetimologizar a moral: podemos achar que uma tradição é boa ou má, mas não a invoquemos como justificação do valor de uma proposta moral, sim?

Lugares demasiados comuns #2

E oiço amiúde: “O importante é estarmos em paz connosco próprios” – ou qualquer frase semelhante.



Por muito que dê voltas à frase, não consigo encontrar-lhe outro sentido que não seja uma proposta, que não me agrada nada, de não julgarmos as nossas próprias ações, crenças e ideias. Então não é em guerra connosco que devemos estar sempre?

Filosofia de algibeira #2

Acho que quem cultiva o espírito competitivo o deveria levar às últimas consequências e devia querer ganhar em tudo: ser o mais rápido, mas também o mais lento; o mais rico, mas também o mais pobre; ter as notas mais altas; mas também as mais baixas; ser o mais sabedor, mas também o mais ignorante; e assim sucessivamente.

*

[Não é nenhum texto zen, é só uma brincadeira, pouco mais que um disparate. O facto é que ignorar é igual a não saber, não esquecer a lembrar, jejuar a não comer; mas não é por a mesma coisa se poder dizer tanto de uma forma afirmativa como negativa que positivo e negativo passam a ser só uma questão de como as coisas se dizem. Existem mesmo fora das palavras. Ah, e não se consegue fazer uma competição para ver quem chega em último, mas isso talvez seja outra conversa. Os livros de recordes, porém, e várias enciclopédias estão cheios de “o mais pequeno”...]

Lugares demasiado comuns #1

E oiço amiúde: “O importante é tu seres tu próprio” – ou qualquer frase semelhante.



Bom, x é sempre igual a x e não pode ser diferente de x. A proposta não faz sentido: uma pessoa é sempre ela própria; e, mesmo quando não acredita que o é, é ela própria que o não acredita, obviamente.

*

[A palavra próprio parece dispensável, pelo menos neste tipo de frases. Porque se usará? E donde virá a ideia de que uma pessoa pode não ser ela própria? A explicação pode ser que, como há quem proponha, a consciência de si deriva da consciência dos outros.]

24 de setembro de 2012

Filosofia de algibeira #1



“Carpe diem! Carpe diem!”, ouço propor, e penso assim:
“Mas não seria a vida um lugar melhor se, em vez de nos preocuparmos com o que dela levamos, nos preocupássemos antes com o que nela deixamos?”

Palavras, pensamento e perceção, mais uma vez (2) [e um estudo fantástico]

Falava eu no texto anterior do ressurgimento da ideia de que a língua condiciona a nossa perceção do mundo e de como estava disposto a rever a minha posição relativamente a essa ideia: se até há pouco a recusava liminarmente, algum trabalho feito ultimamente leva-me a aceitar, em determinadas casos, essa possibilidade[1].
O que quero agora acrescentar é que, se alguns trabalhos destes novos relativistas linguísticos[2] me impressionam pelo seu rigor, fico também por vezes com a sensação de que nem sempre repensam suficientemente os conceitos linguísticos com que trabalham. No tratamento do tempo linguístico, encontram-se muitas vezes exemplos desta ligeireza teórica, como eu digo[3]. Eis um deles: no artigo “Does Your Language Shape How You Think?”, publicado no New York Times de 29 de agosto de 2010, diz-nos o linguista Guy Deutscher (traduzo eu):
Se quiser contar em inglês um jantar com o meu vizinho ou com a minha vizinha (…), tenho de dizer alguma coisa sobre a localização temporal do evento: tenho de decidir se jantámos, se estivemos a jantar, se estamos a jantar, se havemos de jantar, etc. O chinês, em contrapartida, não obriga a especificar o tempo exato da ação desta maneira, porque se pode usar a mesma forma verbal para ações passadas, presentes ou futuras.
A maneira como Deutscher apresenta a questão, por muito que seja seguramente convincente para a maior parte dos leitores do artigo, é demasiado simplificada, ao ponto de ser incorreta. Em primeiro lugar, mistura – ou confunde – tempo com outras categorias: a diferença entre have eaten e have been eating (que só em contextos específicos, note-se, correspondem às formas portuguesas que usei para as traduzir) não é de caráter temporal, mas aspetual, ou seja, não tem a ver com tempo, mas como a ação nos é apresentada, como vista do exterior ou do interior, como terminada ou em curso, etc. Esta falta de rigor, porém, pode desculpar-se-lhe, admitindo que não queira complicar as coisas para o leitor do New York Times. Já mais grave me parece que chame a exprimir tempo linguístico “especificar o tempo exato da ação”. O tempo linguístico tem muito pouco a ver com o “tempo exato” e o tempo exato exprime-se com recurso a horas, dias e meses, não a formas verbais. Mas, em última análise, também isto se lhe pode desculpar, aceito-o perfeitamente. O que vem a seguir, já não.
O tempo linguístico (ou a combinação de tempo e outras categorias, para ser mais rigoroso) não se exprime só através da forma verbal, longe disso, e eu já vi trabalhos sobre marcações de tempo e aspeto em chinês. Deutscher não refere (porquê?) as teorias linguísticas que consideram, e demonstram com bastante subtileza, que o tempo é uma categoria universal, presente em todas as frases de todas as línguas, independentemente de ser ou não marcado nas formas verbais. Não me quero alongar nesta questão nem entrar em pormenores muito técnicos, mas, quando se fala de tempo, há que ter conta não só o verbo e a sua flexão, mas também as propriedades dos seus sujeitos e complementos, os adverbiais, as relações lógicas entre a frase e as frases anteriores do discurso, etc.
O que é estranho no ressurgir das teses de condicionamento do pensamento e da perceção pela língua é que se parece repetir um erro simples do primeiro whorfianismo, que é identificar categorias linguística e formas da língua: Whorf argumentava que em hopi (a língua ameríndia que descreveu) não havia “tempo” como em inglês, mas antes uma diferença entre “manifestado” e “não manifestado”, mas essa afirmação resulta obviamente de uma incompreensão das categorias tempo e modo. Para dar um exemplo óbvio (que não corresponde de maneira alguma ao das categorias verbais do hopi, quero deixar claro), um dos eixos de organização do sistema verbal nas línguas latinas é a oposição entre indicativo e conjuntivo que, embora suficientemente misteriosa para não haver nenhum tipo de consenso entre estudiosos quanto ao seu significado, não é seguramente do tipo temporal e poderia até definir-se (com alguma boa vontade, eu sei…) como um tipo de oposição entre manifestado e não manifestado, pelo menos se se assumir que manifestado pode significar “assumido como factual pelo locutor”… O facto é que, deixando de lado o poder de sugestão que traz agarrada a ela a referência à língua de um povo distante, com uma mundivisão seguramente muito diferente, não parece haver grande diferença na conceção do tempo, e do mundo em geral, entre uma francófona de alguma povoação do cantão suíço do Valais e uma falante do alemânico de uma povoação próxima no cantão de Berna, que tem um sistema verbal muito “temporal” e que não faz diferença nenhuma entre “ando à procura de um restaurante onde fazem bom rösti” e “ando à procura de um restaurante onde façam bom rösti”. De facto, que as formas verbais reflitam direta e essencialmente o tempo é uma característica das línguas germânicas que não se encontra nas línguas latinas, por exemplo, em que o sistema verbal, embora contenha marcas de tempo, é organizado em torno de noções de aspeto (fez vs fazia, etc.).

Um estudo fantástico
Um exemplo extremo, mas muito curioso, da falta de rigor no tratamento do tempo linguístico num trabalho whorfiano é o do estudo de M. Keith Chen “O efeito da língua no comportamento económico[4]”. Assim resume Chen o seu trabalho (traduzo eu):
Testo a hipótese de que as línguas que não distinguem gramaticalmente entre eventos presentes e futuros (o que os linguistas chamam línguas de futuro fraco) levam os seus falantes a realizarem ações mais orientadas para o futuro. Primeiro, mostro como esta previsão decorre naturalmente quando a efeitos bem documentados da língua na cognição se juntam modelos de tomada de decisão ao longo do tempo. Em seguida, mostro que, corroborando esta hipótese, falantes de línguas de futuro fraco poupam mais, guardam mais para a reforma, fumam menos e têm menos probabilidades de ser obesos, e gozam de melhor saúde a longo prazo. 
Nem mais: o estudo “demonstra” que há uma influência tão grande das formas linguística de futuro na maneira como as pessoas concebem e sentem o porvir que quem fale uma língua com formas específicas para o futuro não poupa e complacentemente se lança em comportamentos suicidas. Evidentemente, a primeira coisa que nos vem à cabeça é que há que substituir urgentemente a segurança social por uma reforma linguística que proíba o uso dessas formas verbais altamente nocivas para a sociedade. A tese é suficientemente disparatada para merecer ser ignorada com um sorriso apenas ou uma grande gargalhada, consoante o estado de espírito da altura, mas não é assim que um linguista procede. Como diz Julie Sedivy[5],
[a proposta de Chen] é demasiado intrigante para se resistir a falar nela. Na realidade, lembra-me as palavras de um proeminente linguista que uma vez afirmou durante uma palestra: “A explicação em questão é quase de certeza falsa. Se fosse verdadeira, porém, seria incrivelmente interessante, de maneira que não temos outra escolha que não seja explorá-la.”
E depois não é só isso: pode aproveitar-se para mostrar a fragilidade da classificação de Östen Dahl aqui usada por Chen – mas que pode também ser usada em quaisquer outros estudos menos fantásticos que este…
Há muitas críticas que se podem fazer – e foram feitas – ao trabalho de Chen. Críticas sobre a metodologia do trabalho, sobre inferências forçadas, sobre efeitos estatísticos incontrolados, etc. Todas elas são válidas e podem facilmente encontrá-las online com uma pesquisa simples. Muitas delas, aliás, encontram-se nos textos do Language Log para que vos remeto aqui. Mas, como no-lo recorda Geoffrey K. Pullum[6], todas essas críticas são desnecessárias, se pensarmos que a hipótese inicial de Chen dificilmente se tem de pé [tradução minha]:
Chen usa dados descritivos das línguas que vêm do projeto EUROTYP de Östen Dahl, e adota uma classificação do inglês como tendo futuro forte. Mas o inglês usa constantemente, e de forma notória, o presente para referir o tempo futuro:
Meg's mother arrives tomorrow. [“A mãe da Meg chega amanhã”. Negritos meus.]
If the phone rings, don't answer it. [“Se o telefone tocar, não atendas.”]
My flight takes off at 8:30. [“O meu voo parte às 8:30.”]
IBM is declaring its fourth-quarter profits tomorrow. [“A IBM apresenta amanhã os lucros do último trimestre do ano.”]
No próprio exemplo que Berreby dá, usa-se o inglês I am going to + verbo, alegadamente ilustrando uma marcação gramatical do futuro; mas, claro, am é o presente do verbo, por isso teria de defender-se que o uso do verbo de movimento go no seu sentido idiomático de futuro próximo conta como marcador gramatical de tempo verbal, o que levanta questões sobre se o mesmo se deve dizer de am about to e de am on the point of e por aí fora. Se o inglês tem marcadores do futuro verbal, tem pelo menos uma dúzia; mas o uso simples do presente dos verbos é uma maneira muito comum de referir o tempo futuro, e o que havemos de pensar disso? Pela minha parte, desconfio muito que se possa descrever com rigor o inglês como uma língua de “futuro forte”. Quase todos os gramáticos tradicionais descrevem o inglês como tendo um sistema de tempos verbais que inclui uma forma verbal de futuro, mas isso não é bem verdade; will é um auxiliar modal que também tem diversos outros usos. Se a apresentação dos factos é pouco sólida relativamente ao inglês, que probabilidade tem de ser rigorosa em línguas que não foram estudadas de forma tão intensiva?
Podemos ver o caso do português. Mas, primeiro, há que detalhar mais a perspetiva de Chen. Na sua demasiado ligeira introdução à questão da problemática do futuro, diz-nos ele no estudo referido (traduzo eu):
As línguas diferem no facto de exigirem ou não que os seus falantes marquem eventos futuros. Por exemplo, um falante do alemão que preveja chuva pode, de forma natural, fazê-lo no presente, dizendo: Morgen regnet es o que se traduz por “Chove amanhã”. Em contrapartida, o inglês exigiria a utilização de um marcador do futuro como “will” ou “is going to”, como em “It will rain tomorrow”.(…) Desta forma, o inglês obriga os seus falantes a codificar a distinção entre eventos presentes e futuros, ao passo que o alemão não o faz.
E acrescenta, em nota de rodapé:
É possível em inglês a referência ao futuro sem marcadores de futuro em certos contextos: especificamente com acontecimentos programados ou acontecimentos que resultem de propriedades do mundo que sejam como leis (…). Na minha análise, deixo de lado estes casos, porque, como [Dahl] mostra, “em muitas, se não todas, as línguas, este tipo de frase é tratada de uma forma que não a marca gramaticalmente como tendo referência temporal não presente (...), mesmo em línguas em que a referência ao futuro é, noutras situações, altamente gramaticalizada.” Por outras palavras, a forma como os acontecimentos programados são tratados não reflete o tratamento geral da referência ao futuro numa dada língua.
Ora bem, na classificação de Dahl, o português europeu é classificado como língua de futuro forte e o português do Brasil como língua de futuro fraco. Em português, no registo oral quotidiano, cada vez mais a forma verbal do futuro tem um uso a que chamarei exclusivamente modal para simplificar («Onde andará agora a Rita?») e só é usado temporalmente num registo mais cuidado (situações formais, língua escrita)[7].
Como podem facilmente constatar prestando atenção ao que se diz ao vosso redor, usam-se, para indicar o tempo futuro, além das formas chamadas perifrásticas ir+infinitivo e haver de+infinitivo, o presente do indicativo. Mesmo que consideremos as perifrásticas “marcas gramaticais de futuro”, elas não são sempre obrigatórias, longe disso, e o presente parece até ser a forma mais utilizada em frases em que há uma referência temporal explícita no futuro:
«O que é que fazes hoje à tarde/no Natal?»
«Não faço nada de especial, porquê?»
Não é perfeitamente natural em português, digam-me lá, eu perguntar a uma pessoa «Então, amanhã chove ou não?» e essa pessoa responder-me «Chove, pois, de certeza absoluta»?
Então, aceitando as restrições de Chen de não contar subordinadas (porquê?) nem eventos programados, continua a ser muito duvidoso que o português europeu seja classificado como língua de futuro forte, não é verdade? Mesmo sem analisar como se chegou a esta conclusão, posso constatar, pelo que explico atrás, que é fácil considerá-la de rigor extremamente duvidoso. Como é, aliás, extremamente duvidoso que haja na marcação verbal do futuro diferenças tão grandes entre o português dos dois lados do oceano que o português americano seja, ao contrário do português europeu, uma língua de futuro fraco[8].
Podíamos continuar a analisar a expressão do futuro em muitas línguas, em todas até, muito provavelmente para chegarmos sempre a mais dúvida do que aprovação relativamente aos axiomas de que Chen parte. Tenho uma atitude muito mais radical que Pullum ou menos diplomática, se preferirem: a divisão entre línguas de futuro fraco e de futuro forte é impossível de provar. “Os linguistas” não chamam futuro fraco a nada. Há linguistas que usam esse conceito, mas são, obviamente, uma minoria e o conceito é de produtividade duvidosa. O trabalho que Chen se propõe fazer não pode ser feito. E Chen devia referir muitos outros linguistas além de Östen Dahl, para ficarmos então a saber o que dizem “os linguistas” sobre o futuro linguístico e os seus marcadores.
Quero com isto tudo chegar a uma conclusão simples: quem queira estudar uma relação entre um fenómeno linguístico e um fenómeno percetivo ou social deve ter sempre também o cuidado de pensar e repensar muito bem os aspetos linguísticos da questão a estudar – sobretudo os pressupostos linguísticos em que a hipótese assenta… Que o que acabo de escrever é disparatado, por demasiado óbvio? É certo. Mas a verdade é que nem sempre assim se faz…
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[1] Ver também, sobre o tema, este meu texto,  e este e este, todos aqui na Travessa do Fala-Só.
[2] Ou neowhorfianos, como lhes chamo – de Benjamin Lee Whorf, conhecido por propor esta tese, nos anos 30, juntamente com Edward Sapir. Links para 4 resumos da hipótese de Sapir-Whorf: Wikipédia em português (muito pobre), Wikipedia em castelhano, Wikipedia em inglês e Stanford Encyclopedia of Philosophy (em inglês).
[3] O tempo é uma área por que tenho especial interesse e, por isso, reparo mais nas incorreções nessa área e analiso-as com mais facilidade. Já aqui tinha referido a falta de rigor de Lera Boroditsky no tratamento do tempo linguístico: ver a segunda parte deste texto, que começa com “O trabalho de Boroditsky é, repito, um trabalho científico cuidado…”.
[4] Chen, M. Keith. The Effect of Language on Economic Behavior: Evidence from Savings Rates, Health Behaviors, and Retirement Assets, Yale University, School of Management and Cowles Foundation, agosto de 2012. Aqui.  
[5] Em “Thought experiments on language and thought” de no site Language Log. Quem queira aprofundar a discussão do trabalho de Chen pode perfeitamente partir daqui, porque ele foi muito discutido no Language Log.
[6] No seu artigo “Keith Chen, Whorfian economist”, também no Language Log.
[7] Muita gente argumentará que raramente ou nunca se pode isolar o valor “exclusivamente temporal”, mas não quero lançar-me agora nessa discussão.
[8] Pode ser que os brasileiros poupem mais que os portugueses, não sei, mas isso é – pelo menos, para mim – uma questão muito diferente (smile).

12 de setembro de 2012

Palavras, pensamento e perceção, mais uma vez (1)


A  adoção de uma atitude racionalista implica predispor-se a mudar de crenças a qualquer momento e passar às vezes a defender o que antes se atacou, em função, claro está, da força dos argumentos e provas que vão sendo apresentados numa discussão. Se há pessoas a quem causa grande desconforto aceitar a volubilidade das suas convicções e que preferem, para o evitar, perfilhar certezas perenes, para outras ‒ para mim ‒, essa instabilidade é a vantagem não só epistémica como moral do racionalismo.
Para banalidade, não está mal. Mas é uma introdução apenas, espero que o que se segue seja menos corriqueiro. Já mudei de campo duas vezes na discussão da influência da língua sobre o pensamento. Quando comecei a interessar-me pela questão e a refletir sobre ela, tomei, de uma maneira algo ingénua, o partido dos chamados whorfianos, o relativismo linguístico: as categorias linguísticas, pensava eu, como muitos pensam, introduzem cortes no continuum da realidade e a maneira como percebemos e concebemos o mundo é, por isso, determinada pela língua que falamos. O bilinguismo, dizia eu ‒ e sentia-o ‒, resulta numa cisão da personalidade: é-se de uma maneira numa língua e de outra maneira noutra.   
Quando comecei a estudar linguística, comecei a compreender melhor o que, sob a superfície da diferença, há de invariável nas línguas todas. Comecei também a compreender a ingenuidade da abordagem de Whorf e a dar-me conta da enorme falta de observáveis que a sustentassem. A pouco e pouco, de whorfiano ingénuo, fui-me tornando um antiwhorfiano com cada vez mais (boas) razões para o ser. Isto resultou em centenas de discussões acaloradas, em conversas de café, jantares de amigos e situações afins: O discurso whorfiano é extremamente sedutor e, o whorfianismo, embora tivesse praticamente desaparecido das teorias e dos trabalhos de linguística, tinha-se, pelos vistos, tornando senso comum entre um vasto grupo de gente educada.
urgiu depois, porém, uma vaga de neowhorfianos, que, ao contrário de Whorf e de muitos whorfianistas clássicos, começou a fazer trabalho experimental sério e a defender uma versão fraca da teoria, muito mais razoável que as suas primeiras formulações. Estes neowhorfianos têm vindo a trazer à discussão argumentos mais sólidos que os que até aí tinham sido apresentados  a favor da hipótese de influência da língua na cognição e eu predispus-me a aceitar que o léxico possa, de facto, determinar certas capacidades ou hábitos cognitivos. Mas claro, não o aceito sem certas reservas: creio, por um lado, que, em muitos casos, está ainda por demonstrar essa influência; e não sei até que ponto é que é a influência do léxico se pode sempre considerar uma influência propriamente linguística.
Já o disse aqui uma vez, a propósito da constatação de uma relação entre língua materna e discriminação de cores ao nível percetivo[1]:
[O léxico] é a parte menos linguística da língua. O léxico, comparado com as estruturas sintático-semânticas e sobretudo as estruturas fonéticas, é facilmente alterável, e em qualquer língua se podem introduzir, com grande rapidez e sempre que seja necessário, novas palavras para dizer novas coisas (também cores…). Além disso, o rigor na classificação das cores (...) pode variar muito de indivíduo para indivíduo entre os falantes de uma mesma língua – pode haver quem saiba o que é azul ultramarino e quem não o saiba e seria interessante comparar como afeta a cognição das cores a maior ou menor educação cromática, digamos assim…
Ao contrário das estruturas morfossintática e fonético-fonológica, o léxico muda com facilidade, tanto na sua disponibilidade na língua como na utilização que cada um dele faz, e é ao nível do léxico que as línguas mais interagem umas com as outras, e com mais facilidade, importando e exportando palavras. Por ser a menos linguística parte da língua, ou a mais superficial, se preferirem, o léxico é o que de menos próprio tem cada língua. Não considero, por exemplo, que seja fator definidor do português ter as palavras unto ou malandrice, mas é com certeza definidor do português ter a possibilidade de flexionar em pessoa o infinitivo, ter uma estrutura silábica independente da estrutura morfológica, ter redução de determinadas vogais átonas, etc[2]. Bem vistas as coisas, a tese neowhorfiana não parece ser que a língua influencia a conceptualização e a perceção, mas antes que o hábito de usar determinadas palavras o faz. Ora isto é, com rigor, independente da língua em sentido estrito. Imaginemos uma criança de língua inglesa que cresça numa casa onde os pais, ambos ilustradores, a habituam a usar uma descrição mais rica das cores do que aquela que aprenderam os seus colegas e vizinhos. É possível que isso afine e condicione a maneira como a sua mente analisa e conceptualiza as cores sem que a criança deixe, por isso, de ser uma falante normal de língua inglesa.
Agora, para verem que sou, como afirmava no início, um racionalista efetivamente aberto a ser convencido do contrário do que penso, vou dar aos neowhorfianos argumentos (que, curiosamente, nunca vi por eles referidos – o que não quer dizer que o não tenham feito, claro está) para defender impactos prováveis na perceção de fatores profundamente linguísticos e que apenas se podem adquirir relativamente cedo, como sejam a estrutura fonológica da(s) língua(s):
No seu livro Musicophilia (London: Picador, 2008) Oliver Sacks refere (p. 136) um estudo de Diana Deutsch et al.[3], sobre a incidência de ouvido absoluto[4] em duas populações de estudantes de música:
“Entre estudantes que tinham começado a receber educação musical entre os 4 e os 5 anos, (…) cerca de 60% dos estudantes chineses [do Conservatório Central de Música de Beijing] obedeciam ao critério de ouvido absoluto, ao passo que só 14% dos estudantes dos Estados Unidos, falantes de línguas não tonais, obedeciam aos critérios.” Entre os que tinham começado a receber educação musical entre os 6 e os 7 anos, os números dos dois grupos eram proporcionalmente mais baixos, cerca de 55% e 6%. E entre estudantes que tinham começado a receber educação musical ainda mais tarde, com 8 ou 9 anos, “cerca de 42% dos chineses obedecia aos critérios, ao passo que nenhum dos estudantes falantes de línguas não tonais dos Estados Unidos o fazia”. Não havia diferenças de género em nenhum dos grupos. Esta patente discrepância levou Deutsch et al. a conjeturar que, “se lhes for dada essa oportunidade, as crianças jovens podem adquirir ouvido absoluto como característica do discurso, transportando-o depois para a música.”
O fator que aqui está em causa é a tonalidade do chinês, isto é, o facto de uma mesma sílaba dita com diferentes “melodias” (ascendentes, descendentes…) ter diferentes significados. Se se puder confirmar que a competência tonal na língua pode influenciar a capacidade de reconhecer altura absoluta de um som musical, aí sim, temos verdadeira influência da língua nas capacidades cognitivas de uma pessoa. Now, you’re talking, como diz o outro.
_______________
[1] Ver, por exemplo, o estudo de Jonathan Winawer et al. cujo resumo está disponível aqui; e também os outros estudos que o referem e para os quais há links disponíveis ao fim da mesma página.
[2] Embora nenhuma destas caraterísticas seja exclusiva do português, note-se. Não considero aqui definidores os traços exclusivos, até porque não sei se tal coisa existirá, mas sim a maneira única como se agrupam traços que existem também noutras línguas.
[3] “Absolute pitch among American and Chinese conservatory students: prevalence differences, and evidence for a speech-related critical period” in Journal of the acoustical society of America 119(2) (2006), pp. 719-722
[4] Ouvido absoluto é a capacidade de reconhecer a altura absoluta de um som e, por conseguinte, de o situar imediatamente na escala standard: “o meu pai assoa-se em lá”.

Os caminhos da vida, como se costuma dizer


Mais uma metáfora vazia, ou seja, que não o é de nada em especial, mas que provavelmente se pode aplicar a vários acontecimentos ou a vários aspetos da vida ‒ ou à vida em geral, se é que tal coisa existe…:
Pode escolher-se encher mais ou menos os pneus de uma bicicleta. Se se os encher mais, a fricção no solo é menor e a bicicleta torna-se mais leve, mas sente-se mais qualquer irregularidade do pavimento; se se os deixar mais vazios, sente-se menos ao passar por pedrinhas, lombas ou buracos, mas tem de se fazer mais força ao pedalar.
Já uma vez, há muitos anos, tinha escrito em Moçambique uma coisa semelhante, também sobre pneus (mas pneus de carro) e as estradas da Alta Zambézia:
A vida é assim: se andamos na lama, temos de ter pneus fininhos, porque não há maneira de ficar à superfície e então o melhor é ir ao fundo o mais depressa possível, para agarrar solo firme; se andamos na areia, o melhor é ter pneus tão largos quanto possível, para não irmos tanto ao fundo, porque não há solo firme lá em baixo e, se nos enterrarmos mesmo, já não saímos. E vão sempre alternando, pela estrada fora, lama e areia, mas não se pode andar a mudar de pneus de cinco em cinco minutos...

1 de setembro de 2012

E quem é que fala connosco?

Há uns meses, a minha mulher explicou à mãe dela o que faz no emprego que agora tem:
«Em 2020, haverá, na Dinamarca, mais 200.000 idosos que agora e menos 200.000 trabalhadores a prestar assistência direta a idosos e portadores de deficiência. Temos de começar a fazer alguma coisa. E então, nós promovemos o que se chama “tecnologia do bem-estar”, que é tudo, desde máquinas a sistemas de comunicação, o que contribua para que as pessoas idosas, sobretudo, possam ter uma vida melhor e mais independente em casa, sem terem tantas pessoas a ajudá-las. Pode ser desde sistemas que detetem automaticamente quedas ou outras situações de emergência até robôs que as ajudem a tomar duche ou lhes aspirem a casa. Os robôs-aspiradores são, precisamente, um bom exemplo de um melhoramento com redução de pessoal, porque fazem o trabalho que é agora feito por um trabalhador da assistência social, mas, enquanto esse trabalho só é feito atualmente de duas em duas ou três em três semanas, depois poderá passar a ser feito quando a pessoa quiser... »
«Mas então», interrompeu a minha sogra, que recebe, precisamente, assistência domiciliária, «e quem é que fala connosco?»


31 de agosto de 2012

Gamelãs do Ocidente

Segundo a Wikipédia, Louis-Albert Bourgault-Ducoudray foi um revolucionário. Teria afirmado, na Exposição Universal de Paris, em 1878:
Nenhum elemento de expressão que exista seja em que melodia for, por mais antiga ou remota que seja a sua origem, deve ser banido da nossa linguagem musical. Todos os modos, velhos e novos, europeus ou exóticos, desde que sirvam um propósito de expressão, devem ser admitidos por nós e usados por compositores.
Mas era, enfim, mais revolucionário nas palavras que nos atos. Escreveu a primeira composição europeia "com instrumentos genuínos de gamelã e temas musicais cambojanos", a Rapsódia Cambojana de 1882, mas o resultado não tem mesmo nada de surpreendente:



Depois de Bourgault-Ducoudray, muitos outros compositores ocidentais utilizaram gamelã e se inspiraram na música de gamelã. Dois dos que mais e mais diretamente se serviram de gamelãs – ou os serviram – foram  Lou Harrison e Colin McPhee. Ouçam então, proponho eu, uma composição gamelânica (credo!) de cada um deles:

Lou Harrison. Three Pieces for Gamelan With Soloists (1978/1979). I - Main Bersama-Sama; II - Threnody for Carlos Chavez; III -

Colin McPhee. Tabuh-Tabuhan (1936) 1. Ostinatos; 2. Nocturne 3. Finale / Eastman-Rochester Orchestra; Howard Hanson
Tabuh-Tabuhan. Parte 1. Tabuh-Tabuhan. Partes 2 e 3.

Um nome entre o silêncio e o ruído

Comprei por cinco coroas apenas, numa loja de segunda-mão, um livrinho de poemas de Mowlana Jallaledin Mohamad Rumi. O livro chama-se Whispers of the beloved (Londres: Thorsons, 1999) e é uma seleção de quadras do mestre sufi. Há algumas que me fazem lembrar João da Cruz ou Angelus Silesius, de quem já aqui falei uma vezPergunto a mim mesmo se a poesia destes místicos nos surpreende menos hoje do que surpreendia os seus contemporâneos. Rumi diz que a voz de Deus se ouve no silêncio, e que é silêncio que envolve o segredo do mundo, porque Deus é o mestre do silêncio (traduzo eu das traduções inglesas):  
Ensurdecido pela voz do desejo/ não te apercebes de que o Amado / vive no centro do teu coração. / Pára o ruído / e ouvirás a Sua voz / no silêncio (Quadra 181)
A noite passada, pedi ao Sábio que me dissesse / o segredo do mundo. / Suavemente, murmurou: / “Não digas nada; / o segredo não pode ser dito, / está envolto em silêncio”. (Quadra 1022)
Deus conhece-te sob qualquer disfarce, / ouve as palavras que não disseste. / Toda a gente se deixa tentar / pela eloquência da fala, / mas eu sou escravo / do mestre do silêncio (Quadra 742)
Que longe estamos do barulho que costuma fazer o nome das divindades – ou do barulho que com ele se costuma fazer…

30 de agosto de 2012

O antónimo de estar vivo

Descobri no outro dia este aforismo de Chris Marker:  “Mourir est tout au plus l'antonyme de naître. L'antonyme de vivre reste à trouver.”  “Morrer é, quando muito, o antónimo de nascer. O antónimo de viver ainda está por descobrir.
São duas proposições provavelmente sedutoras, mas muito discutíveis. Ontem ao jantar, sem problematizar a primeira afirmação, pus aos meus filhos a questão do antónimo de viver:
Morrer é o contrário de nascer”, disse-lhes eu em português*. “E qual é o contrário de viver?”
Respondeu-me a minha filha mais nova, de oito anos (em dinamarquês*):
Det modsatte af at leve er at være død” (“O contrário de viver é estar morto”).
A verdade é que o verbo dinamarquês at leve não corresponde sempre a viver em português e que nenhum deles corresponde exatamente ao francês vivre da frase original. É  “estar vivo” que vivre quer dizer no aforismo de Chris Marker? E vivre pode querer dizer “estar vivo”? Acho que pode, em contextos específicos, como em “Hésiode vient de mourir, Homère, s'il vit encore, a cent ans” (“Hesíodo acaba de morrer, Homero, se ainda estiver vivo, tem cem anos”). E o português viver também pode querer dizer isso, em certos contextos. Vejam, por exemplo, “Depois da operação, viveu apenas três meses”.
Esta questão dos antónimos de naître, mourir vivre (ou de nascer, morrer e viver) não é tão fácil como parece. Por um lado, fora de contexto, ocorrendo apenas em abstrato, vivre, viver ou at leve significam muito pouco… Por outro lado, antónimo é um conceito complicado, que, como acontece muitas vezes com conceitos linguísticos, varia de autor para autor e de escola para escola. Muita gente considerará que (estar) vivo e (estar) morto, esses sim, são obviamente antónimos, exatamente como os pares canónicos quente/frio ou curto/comprido. Também há, porém, quem não lhes chame antónimos e os considere antes opostos complementares, reservando a designaçao de antónimos para os opostos graduáveis: o chá pode estar mais quente ou mais frio, e não tem  forçosamente de estar ou quente ou frio; agora, com rigor, ou se está vivo ou se está morto, sem graduação possível entre os dois estados. É curioso, aliás: mesmo quando estamos a morrer ou quando estamos mais mortos que vivo, é perfeitamente vivos que estamos, não é verdade?
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* Pois, na maioria das vezes, é assim que comunicamos cá em casa: eu falo português e os meus filhos respondem-me em dinamarquês. Este tipo de comunicação é muito normal em famílias multinacionais, acho eu. (Famílias multinacionais? Credo!...)