13 de abril de 2013

Entregues aos bichos

Quando me mudei para a Bolívia, em 1999, comecei, naturalmente, a informar-me sobre a minha nova terra. Entre outras coisas, li alguns livros de História daquela parte do mundo. E fiquei com uma dúvida: Sendo os Andes secos, pouco férteis e frios, porque teriam as pessoas preferido instalar-se no planalto a instalar-se nas terras baixas? A questão do número de habitantes das Américas antes da chegada dos europeus não é nada pacífica, mas todos os livros que li me diziam que, no início do século XVI, havia quatro ou cinco vezes mais habitantes no altiplano que em todas as terras baixas da América do Sul. Porquê? Fiz a pergunta a vários bolivianos, mas ninguém me soube responder. Tive finalmente uma resposta satisfatória no Natal de de 2000; e tive-a de uma forma relativamente desagradável...
O escritório da Karen, a minha mulher, fechava durante as festas e resolvemos aproveitar para ir dar uma volta à Amazónia boliviana. Fomos para uma vilazinha chamada Rurrenabaque, a cerca de uma hora de avião de La Paz. A vila tem uma situação privilegiada, à beira de um dos maiores rios da região, o Beni, e ali mesmo onde acabam os Andes e começa a mata amazónica.
Como não podia deixar de ser, fomos fazer uma pequena excursão pela selva. É o chamado turismo de aventura: mochilas, catanas, latas de conserva e um guia, e seja o que Deus quiser. Uma lancha leva-nos até à entrada da selva, andamos por ali dois dias, depois fazemos uma jangada e descemos um rio mais dois dias, e, ao quinto dia, vem a lancha buscar-nos outra vez.
Passámos a noite de Natal no meio da selva. Árvores de Natal, ena!, eram às centenas, aos milhares, aos milhões, eu sei lá!... A ceia de Natal consistiu numa mistura de várias latas de conservas – uma mixórdia, mas ainda assim não no pior sentido do termo, valha-nos o menino Jesus! –, com arrozinho de tacho a acompanhar! Ah, mas tivemos direito a macedónia de fruta (de conserva...) para a sobremesa, por ser Natal! Foi pena que a consoada tivesse sido curta, mas o facto é que já não aguentávamos os insetos, que eram tantos como as árvore de Natal, e por essas oito e meia da noite já estávamos metidos debaixo dos mosquiteiros, a ver se conseguíamos dormir.
Escuso de vos dizer: cada Natal é um milagre, seja na selva ou no aconchego do lar, e este não foi exceção – os macacos uivadores entoavam a várias vozes o Green Christmas de King Brosby, se não com a mesma sensualidade, pelo menos com a mesma devoção; e, lá ao longe, jaguares, tapires e porcos do mato tinham-se juntado para, num concerto único, nos oferecerem a sua versão do célebre hino natalício Jungle Bells! E nem uma pinguinha de rum para beber...
Tive, nessa noite de Natal, uma revelação. Percebi finalmente porque havia, à chegada dos Europeus, muito mais gente nas terras altas do que nas zonas tropicais da América Latina: é por causa dos malvados dos bichos! Pensam que isso de chamar à selva “o inferno verde” é alguma imagem literária? Não é nada, é tão literal que faz confusão. Confusão, comichão, dores, tudo! São milhares de insetos em cima de uma pessoa de manhã à noite – moscas, mosquitos, moscardos, abelhas, vespas abelhudas, formiguinhas, formigas encarnadas, formigas gigantes, ai!!!
E o marigüí. O marigüí, pica aqui e pica ali, é uma espécie de Drácula em miniatura da família dos mosquitos. Quando o minúsculo facínora morde, não se sente nada. Só se vê um ponto de sangue, mas não se sente nada. Nem passadas umas horas, nem passado um dia. Ao segundo dia, começa a comichão. As picadas são tantas dezenas que o veneno é mais do que o corpo aguenta sem refilar: as mãos incham, as pernas incham, começam a aparecer manchas vermelhas aqui e ali. Por curiosidade, a Karen contou, ao sairmos da selva, as picaduras só da minha mão direita: 147!
As minhas pobres mãozinhs depois de 5 dias na mata....
A 25 de Abril hei-de sempre repetir: «Fascismo, nunca mais!»; e hei-de sempre repetir a 25 de Dezembro: «Selva? Vai tu, que ninguém te tratou mal!» Ou então sim, mas noutras condições, nesses lodges que há, em que se vê o mesmo, ou até mais e melhor, e se come e se dorme no conforto de bungalows. Acampar na mata amazónica, não obrigado, não se aconselha mesmo.
Trouxemos dois recuerdos da mata amazónica. Nem macacos, nem araras, nada disso: larvas de alguma borboleta ou de alguma mosca que se entretém a pôr ovos na malta. Dos ovos, é claro, saem párvulas lárvulas, a quem, de acordo com as kafkianas leis da metamorfose, não resta senão transformarem-se outra vez em mariposas. Depois de ver muitos vídeos sobre miíases e extrações de larvas, continuo sem saber que larva seria. Os colegas da Karen em Camargo chamavam-lhe puchichi, mas creio que puchichi é apenas uma palavra para qualquer furúculo, mesmo sem larva lá dentro. As nossas alarves larvas não chegaram à última fase, mas ainda nos moeram bastante o juízo durante dois mesitos. Eu tinha o meu bicho no dedo pequenino do pé direito, e a Karen o dela nas costas, do lado direito, à altura da omoplata. O meu saiu primeiro, a 11 de Fevereiro, morto e pequenino. Teria um centímetro, se tanto, e parecia um bicho da fruta. O da Karen foi mais difícil. Só saiu duas semanas mais tarde, moribundo da nicotina com que lhe tínhamos enchido a toca, a conselho de uma colega da Karen que tinha trabalhado nas zonas tropicais do país. Era grande e forte, o velhaco. Todas as noites, antes de nos deitarmos, eu via-o vir espreitar cá fora, mas nunca o consegui agarrar. Quando por fim saiu, tinha cerca de três centímetros de comprimento por meio centímetro de espessura – uma coisa realmente repulsiva!... O que é interessante é que as feridas fecham imediatamente depois de o bicho sair – no dia seguinte, já não está lá nada. A Karen sugeriu que o parasita talvez tenha algum tipo de desinfetante que vá limpando a carne onde está alojado, porque não deve querer viver no meio de uma infeção...



A larva acabadinha de sair das costas da hóspede

2 de abril de 2013

Os pensamentos são como as cerejas

Recordação de juventude: tinha um amigo que dizia que, se um marujo vive do mar, quem vive do ar é araújo. Conheço uma pessoa de apelido Araújo que deve estar agora na Bolívia de férias. Talvez em Sucre, que era um dos seus destinos. Em Sucre, veem-se penduradas dos fios telefónicos umas curiosas plantas de que quase se pode dizer que vivem do ar. Mas não é araújas que se chamam quando assim vivem: são aerófitas,que é uma forma específica de serem epífitas

Imagem de Wikimedia Commons: Tillandsias em fios telefónicos em Serrano, Bolívia


Relativismo, diz ele

Conheço um pessoa que, quando quer realçar que mora mesmo ao pé da praia, diz que tem a praia mais próxima a uns 300 metros de casa, se tanto; e que, quando fala do percurso diário de jogging, conta um quilómetro de casa à mesma praia. A praia em questão, tive já oportunidade de o constatar, nunca sai do mesmo lugar, independentemente do que essa pessoa diga da sua situação.

Que tudo é relativo? Que 600 metros de esforço são mais compridos que 600 metros de prazer? Ó filho, deixa-te disso!, como dizia a minha saudosa avó. A questão é antes saber quando é que à despreocupada falta de rigor ‒ ao sabor do sentimento ou da conveniência, é conforme ‒ se pode começar a chamar simplesmente mentira.

21 de março de 2013

Amordaçam-nos e atam-nos as mãos

Poul Henningsen (1894‑1967), mais conhecido por PH, era um homem de muitos talentos: foi crítico literário, jornalista, poeta, cineasta, letrista, designer e arquiteto. É, sem dúvida um dos nomes importantes da cultura dinamarquesa no século XX. As suas criações mais conhecidas são provavelmente os candeeiros, que começou a desenhar em 1925 e de que vos apresento aqui dois dos mais famosos, ambos de 1958. A Alcachofra é um candeeiro sofisticado, considerado por muitos uma obra-prima de design. Muito mais simples, o PH5 é, provavelmente, o mais popular candeeiro dinamarquês. Ainda hoje se comercializa e encontra-se em muitas casas (nós temos um).
A Alcachofra, à esquerda, e o PH5, dois famosos candeeiros de Poul Henningsen (imagens de Wikimedia Commons)
Posta esta luminosa introdução, passo agora a apresentar-vos o tema central deste texto: não é da vida e obra de PH em geral que quero falar-vos, nem dos seus candeeiros, mas sim de uma canção de que escreveu a letra e que se tornou um símbolo da contestação e resistência à ocupação da Dinamarca pelos nazis: “Man binder os på mund og hånd”. É não só uma canção histórica, como também uma obra-prima da canção dinamarquesa. E fascina-me que uma canção que, além de ser um ataque relativamente claro à ocupação alemã, critica directamente a própria censura, tenha conseguido contornar essa mesma censura. Talvez isso se deva a que a crítica aos compromissos amorosos, que é o seu tema imediato, fosse, no fundo, muito mais do que apenas um artifício retórico de PH. A canção também é mesmo, afinal, uma crítica sincera do amor como contrato ‒ e a censura não conseguiu deixar de a entender assim. Deixo PH contar-vos a história.
Logo após a ocupação, no verão de 1940, escrevi “Man binder os på mund og hånd” para a Liva Weel, na revista Dyveke, mas para a música de um tango de Kai Normann Andersen, e não se costuma usar tangos para canções patrióticas. As preocupações eram bastante grandes.
Foi também um bocado pérfido da minha parte. Só a última estrofe é que era a canção patriótica, ao passo que a primeira era sobre um amor altamente imoral e a do meio, que não está no disco, era um ataque violento ao sagrado matrimónio.
As pessoas de bem tinham também de ouvir essas coisas desagradáveis ​​para ouvir a estrofe patriótica, que Liva cantava emocionada perante um profundo silêncio do público. Mas foi, em parte, uma boa maneira de enganar os alemães, para eles não proibirem a música, e foi também, de minha parte, um pouco para provocar os burgueses. Não me apetecia dizer apenas o que as pessoas queriam ouvir.
Traduzo a seguir a canção. É uma tradução em prosa e feia, aviso, que vos permite ficar a saber o significado das frases (ou mais ou menos, porque às vezes sou obrigado a fugir à literalidade em demasia), mas não vos dá nenhuma ideia do seu conteúdo estético ‒ não sei traduzir isto como deve ser. Uma nota só sobre o título, que é também a frase que inicia o refrão: traduzo por “amordaçam-nos e atam-nos as mãos”, porque acho que em português não se pode atar a boca às pessoas, mas, literalmente, é isso que o texto diz: atam-nos ou amarram-nos pela boca e pela mão. É esta ambiguidade que funda o texto: atam-nos pela boca (o sim do casamento, as juras de amor) e pela mão (o anel, o gesto de juramento?) podem entender-se também como amordaçam-nos (a censura) e atam-nos as mãos (a prisão literal, a impossibilidade de agir?). 
I. As crianças, gananciosas, querem deitar a mão a tudo o que brilha. As pessoas maduras prendem as outras com um anel. Quantas vezes não parámos com alguém, em frente a uma montra, a dividir as coisas expostas. Eu fico com isto, eu fico com isto! E a vida também é assim.
Amordaçam-nos e atam-nos as mãos com as mil cadeias do hábito e é difícil libertar-se. Jogamos às escondidas com alguém que sabe proteger-nos da solidão. Com doces contratos, deixamo-nos levar. Se fosse proibido dizer “juro”, teríamos uma forma mais honesta de amar. As juras que fizemos, com palavras e gestos, só duram um breve momento, até a alegria desaparecer e tudo acabar.
II. Amor e casamento: que tem uma coisa a ver com a outra? O bocejo vazio do tédio, até a boca não abrir mais. O amor é flor selvagem, murcha às mãos do jardineiro. Protegê-lo faz-lhe mal, mas floresce, ardente, na tempestade e na neve.
Amordaçam-nos e atam-nos as mãos com as mil cadeias do hábito, mas ninguém pode ser dono de ninguém. Libertamo-nos. Em cada carícia há uma fuga, os sentidos ao rubro que fogem dos trilhos atarefados e batidos dos deveres. Eu não sou teu, tu não és minha. Os meus beijos não são sim nem não. As juras que fizemos, com palavras e gestos, só duram esse estonteado momento, que é precisamente o beijo que me dás tu de quem eu gosto. 
III. Ir ao encontro do que nos espera e ninguém sabe como as coisas correm; carregar o destino sem rejeição, venha o que vier; feliz com os gestos amigos, mas sem acreditar que são para continuar; procurar a paz, porque sabemos que não exigimos a paz.
Amordaçam-nos, atam-nos as mãos, mas não se pode atar o espírito, e ninguém é prisioneiro, quando o pensamento é livre. Temos uma fortaleza interior que se fortalece com o seu próprio valor, quando lutamos por aquilo de que gostamos. Quem mantém a alma aprumada nunca pode ser escravo. Ninguém pode mandar no que nós próprios decidirmos. Isso juramos nós, com palavras e gestos, na escuridão que precede o amanhecer, que o sonho da liberdade nunca acabará.
Depois de tão longa introdução, a canção propriamente dita, que começa ao fim do primeiro minuto, depois da explicação de PH transcrita acima. As partes cantadas são a só a 1ª e a 3ª do texto traduzido. Espero que gostem. Eu gosto muito. E embora até aqui tenha falado só da letra, não é só da letra que gosto: também acho bonita a melodia e acho que Liva Weel a canta muito bem.
No blogue Imagens com texto, J.J.Amarante tem uma série de posts sobre candeeiros dinamarqueses, incluindo os de PH.
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P.S.: O conteúdo político da canção é mais óbvio numa parte que aparece, em certas transcrições da canção, antes da que aqui apresento como terceira. Li algures que só foi descoberta recentemente. Acho curioso que essa parte não seja referida no discurso de PH que se ouve no vídeo e que traduzi acima. Será que é mesmo dele? Na página de blogue onde fui buscar as transcrições que aqui usei, sugere-se que talvez PH tenha feito essa terceira parte de propósito para ser censurada e desviar assim a atenção da censura das outras três partes. O texto do blogue é de 2011, mas tinha ouvido exatamente o mesmo, 10 anos antes, de uma das minhas professoras de dinamarquês. Aqui fica também a tradução da parte em questão:
Mesmo quando os navios se afundam, um após outro, e os países um após outro são arrasados, age-se com honestidade e cada qual reza ao seu deus. Tratados de paz e pactos de amizade são papéis que custam sangue. O fraco arma-se contra o forte, com a desesperada coragem que o medo lhe dá. Vale tanto para o amor como para a guerra: todas as juras são engano e ninguém pode confiar na palavra de ninguém.
O que ajudaram os apertos de mão que deram àquela que ali está junto da sepultura do marido? Uma pessoa não vale nada perante a terra sagrada.
Medo dos nossos inimigos? Sim, mas mais medo da grande potência que nos quer ajudar e nos chama amigos. É assim nas guerras de todos os tempos, as garantias são enganos apenas e ninguém pode confiar na palavra dos Estados.

13 de março de 2013

A neve da Ütopya


Nos últimos meses, tenho visto em vários sítios a imagem acima. Curioso, fui pesquisar no Google images a sua origem. E descobri outras imagens do mesmo lugar. Uma delas tinha neve:
Surpreendeu-me a neve. Por um lado, tinha entretanto descoberto que o painel era da Universidade de Başkent em Ancara[1] e eu não sabia que nevava em Ancara. (Mas fui informar-me e agora já sei que sim, que neva.) Por outro lado, é simplesmente estranho para mim associar neve à Utopia. Preconceito apenas, falta de hábito de ver lado a lado as duas coisas. O painel diz claramente que a Utopia está a uma distância infinita e é claro que há sítios com neve a uma distância infinita de Utopia. A Utopia é que não tem neve, não são os sítios onde ela é indicada.
A Utopia não tem neve? A Utopia não tem neve porquê?, há de haver quem pergunte. Não é até comum elevar-se a ideal os países do Norte, com a sua riqueza e os seus índices de bem-estar e felicidade? Bom, se utopia for sinónimo de “ideal”, com certeza que há utopias com neve. E sem ela, e com todo o tipo de climas e gentes e culturas. Eu é que me acostumei a dar à palavra utopia um sentido mais restrito e é sempre esse sentido que me vem à mente quando a ouço:
Quando Thomas More publicou, em 1518, o seu livro A utopia ou tratado da melhor forma de governo, inaugurou um modelo, em parte narrativo mas sobretudo filosófico, político e moral, que teve, durante mais de dois séculos, uma fortuna imensa ‒ foram escritas dezenas de obras, em muitos aspetos parecidas entre elas e com a obra de More, que constituíram um dos polos das ideologias e dos imaginários europeus do período clássico. A história é praticamente sempre igual: um viajante europeu chega a uma ilha, fora dos espaços conhecidos na Europa, onde encontra uma sociedade “perfeita”. E apresenta depois essa sociedade perfeita aos seus conterrâneos, mostrando-lhes, com a perfeição dessa sociedade distante, as contradições e os defeitos da sua própria sociedade. É sempre neste modelo, com ideias e imagens bem definidas, que penso, quando penso em utopia, porque me dediquei, durante alguns anos, a estudá-lo. E é também por isso que a palavra não tem sempre, para mim, a conotação positiva que tem para a maior parte das pessoas: se há aspetos que me agradam nestas utopias, há também outros que me desagradam muito…
Mas de que ideal dão conta essas narrativas, afinal? O que têm em comum entre elas essas sociedades ideais que os viajantes europeus encontram ao cabo de longas viagens imaginárias? É obviamente impossível listar aqui todas as suas características, mas podem resumir-se algumas linhas de força do ideal utópico:
Antes de mais, a utopia é sempre uma ilha (se não literalmente, pelo menos simbolicamente), às vezes murada, sempre de difícil acesso. Obsessivamente geométrica, é sempre uma cidade ou um conjunto delas, construída em planícies artificiais depois de arrasadas as primitivas florestas. É neste cenário que seres uniformizados (ao ponto de usarem, de facto, uniformes) vivem vidas “perfeitas” porque aboliram de vez o mal supremo da irracionalidade e as suas vidas são reguladas até ao mínimo detalhe por leis “perfeitas” ‒ que muitas vezes lhes foram oferecidas por um sábio legislador e que eles aceitaram de bom grado, de tão justas que eram.
Tudo é lógico e prático, tudo está regulamentado racionalmente. Este é, talvez, o traço mais universal da Utopia. Até o amor e o sexo são regulados logicamente, sempre de acordo com os interesses da comunidade. A religião também é sempre inabalável de razão, tingida de cientismo e filosofia. E as línguas que se falam nas utopias são, também elas, além de perfeitas na sua capacidade de fazer coincidir a palavra com o que ela nomeia, de uma regularidade impressionante, matemática.
Outra ideia fundamental da utopia é a de educação. Os utopistas atribuem à Natureza tudo o que há de mau no mundo (os sentimentos, a mentira, a inveja, o gosto do excesso e do supérfluo, o cultivar da aparência, etc.) e é, pois, preciso educar para a cidadania. A educação utópica é um dos seus aspetos revolucionários: é muitas vezes universal e desde o início da infância, e é ao mesmo tempo cívica e profissional. Mas não é só para ensinar razão e cidadania que a educação serve ‒ serve também para ensinar a obedecer, a ser ajuizado e dócil e... bem condicionado.
Ideal igualitário ‒ embora as hierarquias existam sempre e sejam bem visíveis e bem respeitadas, por “necessidade” do sistema de governo ‒, a propriedade privada não existe na utopia, até porque não contam o privado nem o indivíduo, apenas a sociedade.
A felicidade próspera da utopia é reservada aos habitantes dessa ilha e os contactos com os povos vizinhos, ameaçadores, quando os há, limitam-se a relações comerciais e à guerra (a educação militar é, aliás, uma componente importante da educação cívica utópica). É uma ilha, não o esqueçamos. Algures na zona quente do globo.
Estão a ver onde é que eu queria chegar? A Utopia de Thomas More, a Nova Atlântida de Francis Bacon, a Terra Austral de Gabriel de Foigny e outras Terras Austrais, a maioria das utopias, enfim, não fica em zonas frias. Provavelmente, pode pensar-se, porque os climas quentes são o ideal de todos os humanos, animais tropicais que nós somos. É certo[2]. Mas é também porque as Utopias são, pelo menos em parte, o Novo Mundo, os novos mundos a colonizar. Há um pormenor que me parece fundamental no edifício utópico (ou, devo insistir, num número significativo de utopias, já que não é um traço constante) e que tem sido muitas vezes ignorado: é que as utopias foram erigidas a partir da dominação ou da destruição de um povo “selvagem” que habitava anteriormente as ilhas utópicas. Não é que a utopia apresente diretamente uma justificação, ou que faça diretamente a apologia, da dominação, do extermínio ou da civilização dos povos “selvagens”. Mas isso está inscrito na sua ideologia e no seu imaginário, segundo os quais o “natural” deve ser civilizado, racionalizado.
A utopia foi, como disse, um dos polos das ideologias e dos imaginários europeus do período clássico. Ora o polo oposto é, precisamente, a idealização das sociedades “selvagens”, que é a exata negação de tudo o que a utopia preconiza: o ideal primitivista funda-se no louvor da ausência[3] de leis, de educação, de necessidade de racionalização; no louvor, enfim, de uma “generosa ordem natural”. Há, porém, um ponto comum aos dois ideais, uma ideia fundamental da radicalidade igualitarista do período clássico ‒ a ausência de propriedade. Mais simpático aos olhos de muitos de nós que a estrutura rígida, tentacular e totalitária que a utopia em grande parte é, este ideal contrário, primitivista, é um produto, afinal, da incapacidade de compreender o Outro (nesta época, sobretudo o nativo americano).
A partir do momento em que a ideia de História vem ocupar o lugar central do pensamento europeu, a utopia vai, progressivamente, deixando de se situar numa ilha distante para se situar num futuro mais ou menos longínquo. O “selvagem”, cada vez menos louvado como ideal, é deslocado pelo pensamento europeu para o extremo oposto da História: tornado “primitivo”, passa a habitar um tempo “anterior” ao nosso e, por isso mesmo, “inferior”.
No século XX, alguns intelectuais europeus começam a desmontar estas ideias e a utopia revela então outra face: em textos como o famoso 1984 de Orwell, torna-se distopia. Mas, no fundo, a distopia não é muito diferente da utopia ‒ foi o olhar sobre a utopia que mudou...
[Toda a exposição atrás é demasiado breve e demasiado esquemática e faltam-lhe, por isso, muitas nuances interessantes. Paciência. Num texto de blogue, porém, não cabe muito mais, acho eu. Muita da informação que aqui apresento é em segunda mão, porque eu, embora tenha lido algumas utopias, não as li em número suficiente para tirar tão abrangentes conclusões. O modelo de oposição entre utopia e primitivismo vem de Christian Marouby (Utopie et primitivisme. Essai sur l’imaginaire anthropologique à l’âge classique, Paris: Seuil, 1990, uma obra que me influenciou muito e que recomendo vivamente). Na Travessa, há textos sobre as línguas das Utopias aqui e aqui, e estou a pensar fazer um texto mais desenvolvido sobre esse tema.]
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[1] Não tenho a certeza absoluta, mas tenho boas razões para acreditar que se trata de um trabalho de Furkan Şener que se encontra (ou encontrou) na Universidade de Başkent em Ancara (ver aqui ou aqui)
[2] Um utopista, Robert Burton, di-lo até muito diretamente no capítulo "An Utopia of Mine Owne" da sua Anatomia da Melancolia de 1621: Para ele, uma má situação geográfica era um dos fatores que causava a “melancolia” dos reinos que conhecia, pelo que a sua Utopia seria fundada num lugar remoto ‒ na Terra Australis Incognita, numa ilha do Pacífico Sul, no interior da América ou no Norte de África ‒  a cerca de 45 graus de latitude, para ter um clima temperado. 45 graus de latitude significa a utópica mesura: exatamente a meio caminho entre o polo e o equador! Não é dos paralelos 45 reais que se trata. Robert Burton talvez nem soubesse que regiões efetivamente atravessavam…
[3] É muito curioso verificar que este ideal primitivista é, ao contrário, da Utopia, construído negativamente: os povos naturais são bons porque não têm certas coisas (propriedade, hierarquias, leis, governo, roupas, pudor, etc.), que o primitivista identifica como culpadas do mal-estar europeu. A definição negativa do ideal não é nenhuma inovação da literatura primitivista, mas antes retomada do motivo clássico da Idade de Ouro, que também é sempre descrita negativamente.

10 de março de 2013

B4, B5 e por aí 4a

[Uma homenagem a Victor Borge, infelizmente ‒ peço desculpa ‒ só para quem fala inglês]

B-e-f-o-r-e, not b4: we speak English not bingo.
Encontrei isto no mural de uma amiga, no Facebook. 
“Parece mais batalha naval que bingo”, comentava ela com toda a razão. De facto, vê-se mal em que é que b4 é bingo. E mais: isto não tem nada a ver com a maneira como se fala ‒ before ou b4 “falam-se” exatamente da mesma maneira, são apenas duas opções de escrita de uma mesma palavra. A segunda é um rébus, código que consiste em “usar (…) pictogramas apenas pelo seu som, sem ter em conta o seu significado, para representar novas palavras”. Neste caso, b e 4 são logogramas, quer dizer, representam palavras (b e four) que podem corresponder, cada uma, a vários conceitos: a primeira, à letra bê, por exemplo, à nota si e outros; e, a segunda, ao número quatro e à quantidade quatro ‒ e mais…

Agora, a propósito de b4: 

O célebre comediante dinamarquês Victor Borge inventou um inglês inflacionário, de que não sei se já terão ouvido falar. Uma coisa útil, acho eu. Traduzo o que posso da primeira parte do sketch de Borge. A história que ele conta depois tenho de a deixar em inglês, que remédio*:
Há muitos anos, tivemos inflação na Dinamarca. Vocês sabem o que é. Quando há inflação, os números aumentam. Os preços aumentam. Tudo o que tem a ver com dinheiro aumenta… Mas a língua não. Agora vejam, temos números escondidos nas palavras, como wonderful [1-derful], before [be-4], create [cre-8], tenderly [10-derly]. Todos estes números podem ser inflacionados e acompanhar assim a economia, estão a ver, ficando assim... à altura das circunstâncias. Sugiro que acrescentemos uma unidade a cada um destes números, para ficarmos precavidos. Por exemplo, wonderful seria twoderful; before seria befive; create seria crenine; tenderly seria elevenderly; e lieutenant passaria a lieuelevenant. Uma frase como “I ate a tenderloin with my fork” seria “I nine an elevenderloin with my fivek”. And so on and so fifth. Tenho um livro que trouxe comigo, tenho uma história que vos quero ler, para ficarem com uma ideia da língua inflacionária, de como ela soa quando a usamos:
Twice upon a time, there lived in Sunny Califivenia a young man named Bob. He was a third lieuelevenant in the US Air Fiveces. Bob had been fond of Anna, his one-and-a-half sister, ever since she saw the light of day for the second time. And all three of them were proud of the fact that two of his fivefathers had been among the creniners of the US Constithreetion.
They were dining on the terrace. “Anna,” he said as he took a bite of a marinnined herring, “You look twoderful threenight. You never looked that lovely befive.” Anna looked twoderful, despite the illness from which she had not yet recupernined. “Yes,” repeated Bob, “You look twoderful threenight... But you have three of the saddest eyes I have ever seen.”
The table was tastefully decornined with Anna’s favorite flowers: Threelips. They were now talking about Anna's asiten husband, from whom she was separnined, while on the radio, an Irish elevenor sang “Tea for Three.” It was midnight. A clock in the distance struck thirteen. And suddenly, there in the moonlight stood her husband Don JTwo, obviously intoxicnined.
“Anna,” he said, “Fivegive me. I am only young twice and you are my two and only.”
Bob jumped to his feet.
“Get out of here, you three-faced triplecrosser!”
But Anna warned:
“Watch out, Bob. He is an officer.”
“Yes, he is two. But I am two three! Anytwo five elevennis?”
 “All right,” said Don Two as he wiped his fivehead. He then left and when he was one-and-a-halfway through the revolving door, he muttered:
“I'll go back to Elevennessee and be double again. Farewell, Anna. Three-de-loo, three-de-loo.”
E pronto, era isto.

P.S.: E a pontuação fonética de Borge, já agora, conhecem? Outra coisa muito útil.


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* Uso a transcrição do sketch de Borge encontrada em http://www.whysanity.net/monos/victor_borge.html, com algumas pequenas correções.

9 de março de 2013

Famílias


[Este blogue tem estado muito parado, por várias razões. Uma delas é que os textos parece que andam enguiçados - não me sai o que quero, não gosto do que escrevo. E este é o mais enguiçado de todos. Há meses que muda de forma e nunca mais o acho apresentável. Mas enfim, vai como está, a ver se quebro o enguiço. Talvez vocês possam ajudar-me a melhorá-lo...]
Familles, je vous hais ! foyers clos ; portes refermées ; possessions jalouses du bonheur.
 André Gide, Les Nourritures Terrestres, 1897
 
Famílias, odeio-vos! Lares fechados; portas fechadas; possessões ciumentas da felicidade. A frase é famosa. Nunca li André Gide e não sei onde ele quer chegar com ela, mas já a vi dezenas de vezes na minha vida. E creio saber donde lhe vem a fortuna: é que toda a gente, mesmo quem mais preza e louva a família, não pode deixar por vezes de sentir isso mesmo, que detesta a família, as famílias todas. Que nos traga muitas coisas boas, a família, não tenho dúvidas de que traz; que é fonte de conflitos e mal-estares, também tenho a certeza absoluta. Mas não é sobre a família em geral que aqui vos falo, que nestes textos de blogue não acabem assuntos tão vastos.
  

Vou contar-vos uma história verdadeira:
C. trabalhava na empresa da família. Era um dos diretores, abaixo do pai, e o principal estratega da firma. De facto, era ele o motor da firma. Para além de C. e do seu pai, trabalhava também na firma o irmão de C. Não era exatamente, aos olhos de C., o trabalhador mais competente, mas C. nunca pôs em causa que houvesse lugar para ele na firma. Fora do trabalho, C. e o irmão davam-se bem e, com as respetivas famílias, passavam juntos muitos fins de semana.
O pai de C. tinha da firma uma conceção radicalmente familiar, se me faço entender: achava que o irmão de C. devia entrar para a direção, porque era na direção o lugar natural dos membros da família. C. opôs-se, que era um grande disparate, que um cargo daqueles não se podia dar assim a alguém só por ele ser da família, que o irmão estava longe de ter as competências necessárias e que pô-lo na direção era desgraçar a empresa. Perante uma tão grande falta de respeito pelos valores sagrados da família (a “ciosa possessão da felicidade”), o pai de C. despediu-o. Ao fim de 20 anos de dedicação à firma, C. vê-se de repente despedido pelo seu próprio pai da firma de que é sócio.

A família nuclear sempre foi, em parte, um espaço de transmissão de saberes e sempre foi um círculo tão natural de favorecimento que só fora dela os favorecimentos são ilícitos. Pode criticar-se compadrio e nepotismo e não deixa de ser interessante que as palavras nepotismo e compadrio, para designar o favorecimento especial de pessoas próximas, tenham origem em termos que não designam as relações familiares ditas nucleares[1]. Nunca se ouviu criticar filhismo, padrismo ou hermanismo ‒ parece que o favorecimento de pais, filhos e esposos é tão natural que não pode ser criticado. Mas o facto é que, se a família sempre foi funcionando, melhor ou pior, como unidade empresarial, é claro que, como a história do meu amigo o prova, ser mãe, pai, filha, filho, irmã ou irmão não é hoje currículo que satisfaça gestores de empresas. Nunca devia ter satisfeito, não é?, mas antigamente a gestão de empresas não era saber técnico, era condição herdada, traço familiar.

Agora, parece-me a mim que não é só como unidade empresarial que a família se mostra amiúde pouco adaptada à realidade de hoje – também como unidade de segurança social para apoio aos mais velhos.
Há muito quem veja com maus olhos que as formas de solidariedade direta, ou mesmo a “generosidade”, tenham sido superadas pela reivindicação dos direitos abstratos. Falta-me informação: não sei se as formas de solidariedade direta existem hoje menos do que existiam e, se for esse o caso, não sei se se pode atribuir essa diminuição à instituição da formas de solidariedade mais abstrata (chamemos-lhe ação social). A ideia que tenho, porém, é que, no que respeita ao apoio aos idosos, a família nuclear se presta hoje mal a esse papel ‒ e provavelmente sempre assim foi…Vejo amiúde infiltrar-se muito romantismo na discussão, mas o facto é que, ao contrário do que muitos afirmam, foi em sociedades em que a assistência aos idosos depende exclusivamente ou quase exclusivamente da família que ouvi as mais terríveis histórias de maus tratos aos velhos ‒ e de velhices difíceis e tristes, enfim[2]. A mim (que não sou muito de acreditar no que se diz, mas que, como disse, tampouco tenho, por outro lado, dados concretos em que me possa fiar…) não me surpreendem essas histórias ‒ perturbam-me, isso sim, e acho que não deve ser assim.
 A família é um espaço de muitos afetos e de avaliações muito subjetivas de direitos e deveres. O dever de apoiar os familiares idosos resulta, em muitos casos, em conflitos insolúveis e em permanente mal-estar – e na ausência de cuidados efetivos. Dito de outra maneira, o direito a assistência na terceira idade não deve depender de afetos nem ser, mesmo parcialmente, condicionado por eles. Um passo fundamental é, parece-me a mim, deixar de contar oficialmente a família como provedor de apoio aos mais velhos. Há alguns meses, contava-me uma amiga minha, que é assistente social em Portugal, as muitas situações dramáticas que causa não dar apoio social a certas pessoas, por se contar como rendimentos delas os rendimentos dos filhos. É claro. Agora, obviamente, a solução não é controlar os filhos e obrigá-los a darem apoio aos pais, se o não quiserem dar. A solução é que os deveres de apoio sejam transferidos na totalidade para uma instância neutra ‒ o Estado.
Já agora, quero recordar a quem se insurge contra eles por “artificiais” ou “pouco humanos” que os sistemas “abstratos” de ação social fazem parte de uma categorial moral naturalíssima de todas as sociedades humanas: a reciprocidade indireta. Em qualquer sociedade, o altruísmo não funciona só relativamente a pessoas específicas ou dentro de círculos específicos de que se espera retribuição, mas existe também para com as pessoas em geral, esperando que as pessoas em geral nos façam bem. Contribuímos para os nossos familiares, obviamente, ao contribuir para todos. Numa formulação célebre, se vamos ao enterro dos outros, haverá quem venha ao nosso, mas não forçosamente aquelas pessoas a cujo enterro nós fomos. (Mais aqui.)

Tirando isso, e já que perguntam, a minha família vai bem muito obrigado, damo-nos muito bem, como todas as famílias, não é verdade?, e os meus filhos, em chegando a crescidos, lá farão a vida deles sem receberem cargos na empresa paterna, para grande sorte deles, e acho que não contam com muitas outras ajudas da nossa parte, também para sorte deles. E eu, por mim, em chegando a velhote (já não falta muito…), não só não espero como não quero ajuda direta deles, e é também é muito melhor assim, para todos nós.
(Também não conto deixar-lhes nada, até porque sou contra heranças, mas isso das heranças fica para outro texto, que este já vai muito comprido…)
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[1] Tenho perfeita consciência de que nepotismo pode, etimologicamente, relacionar-se com a família nuclear, já que o nepos latino cobre várias relações familiares entre as quais a de neto, de que é étimo; e que a palavra pode ser usada no sentido de favorecimento de membros da família próxima. Mas continuo a achar significativo que seja a palavra para neto ou sobrinho a única que se pode usar para designar o favorecimento de pais, filhos e irmãos. (Como podem ver, a Wikipédia também tem boas páginas. Onde se arranjaria, noutra enciclopédia, uma página tão simples e completa como esta?)
[2] “Na tribo aché do Paraguai, as mulheres idosas escutavam aterrorizadas os passos dos jovens cuja tarefa era surpreendê-la e destroçar-lhes os miolos com um machado”, diz Judith Shulevitz no seu artigo “Why Do Grandmothers Exist?”, publicado no The New Republic, de 29 de Janeiro de 2013. Pierre Clastres explica que, quando eram muitos velhos e não podiam acompanhar o grupo, se procedia a um tipo de “eutanásia” aprovado pelo grupo. Curiosamente, só as mulheres idosas eram mortas diretamente “com uma machadada na cabeça quando não estavam a olhar” ‒ os homens eram apenas abandonados (Pierre Clastres citado por Kim Ronald Hill e Magdalena Hurtado em Aché Life History: The Ecology and Demography of a Foraging People, Transaction Publishers, 1996). É óbvio que os velhos foram frequentemente considerados um peso, sobretudo em sociedades nómadas e de menos abundância, mas o caso dos aché é excecional e certos estudiosos realçam que os idosos sempre tiveram um papel ativo importante. As idosas, sobretudo. Há quem afirme que, se quisermos ver as coisas numa perspetiva puramente evolutiva, é antes exatamente ao contrário que as devemos ver (e perdoem-me o eficaz e risonho abuso retórico que se segue): os mais velhos existem para ajudar as famílias, não para serem ajudados por elas. O artigo de Shulevitz que referi atrás é interessante, como interessantes devem ser os estudos que refere. A “hipótese da avó”, de Kirsten Hawkes “defende que as mulheres depois da idade reprodutiva ajudavam não só os filhos como também os filhos dos filhos [tomando conta deles] e prolongaram desta forma a duração da vida humana”. Se esta hipótese evolutiva é feminista, como Shulevitz afirma (porque vem reforçar o papel das mulheres na nossa história evolutiva, nomeadamente, porque “faz desaparecer do cenário o homem-o-caçador”, uma vez que deixam de ser as calorias “da carne trazida da caça” as principais responsáveis pelo desenvolvimento do nosso cérebro de grandes dimensões) ou se vem antes reforçar a ideia de que o papel da mulher é cuidar das crianças, eis algo que se pode discutir.

16 de janeiro de 2013

...e, de resto, pode fazer-se o que se quiser.

Veio há pouco tempo parar-me às mãos um pequeno ensaio moral de Robert Louis Stevenson chamado A Christmas sermon (“Um sermão de Natal”), de 1888. O ensaio de Stevenson assenta numa ideia cristã de moral positiva:
Não somos condenados por fazer mal, mas sim por não fazer bem; Cristo recusava a moral negativa; deves foi sempre a sua palavra, que utilizou em vez de não deves. 
No âmbito de uma moral revelada, bastaria a sua origem divina para justificar a asserção de que é pela positiva que se devem definir as propostas morais – bastaria dizer que é assim, porque foi isso que Cristo disse. Mas Stevenson apresenta também para essa asserção uma justificação não propriamente moral, ao que consigo entender, mas antes de ordem psicológica:
Fazer a nossa ideia de moral centrar-se em atos proibidos é corromper a imaginação e introduzir no nosso julgamento do próximo um elemento secreto de prazer. Se uma coisa está para nós errada, não nos devemos demorar-nos na reflexão sobre ela, ou depressa acabaremos por refletir sobre ela com prazer invertido.
Deixem-me suspender um bocadinho o texto de Stevenson, para dar uma voltinha por questões que me levanta a moral positiva, em várias formulações. Uma das mais famosas é a formulação crística muitas vezes chamada a Regra de Ouro*:
Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós, porque esta é a lei e os profetas. (Mateus 7:12)
Assim como quereis que os homens vos façam, do mesmo modo lhes fazei vós também. (Lucas 6:31) 
Duma forma talvez abusiva, chamo-lhe às vezes a ideologia da missão: se X é para mim a verdade (ideal epistémico), o bem (ideal moral) e a felicidade (ideal psíquico), que mais posso desejar senão dar aos outros X, que é o que eu desejaria, sendo como sou, que me fizessem a mim, se não fosse como sou?
Há muito que me parece (e a muitas outras pessoas) que fazer aos outros o que quero que me façam a mim é fundamentalmente errado, porque não sei se os outros querem que eu lhes faça o que eu quero que me façam a mim. Pode argumentar-se, é claro, que o verdadeiro problema não é querer alargar a todos uma crença ou um comportamento, mas sim a maneira como se o faz; que, sem assimetrias de poder e sem se impor nada, não há mal em que se proponha apenas aos outros o que se acha verdadeiro, bom e são. É certo. Mas a regra da moral positiva, pelo menos na sua versão mais comum, não é “propõe aos outros o que queres que te proponham a ti”, mas sim “faz aos outros o que queres que te façam a ti” e é aí que começam as minhas dúvidas sobre ela…
Evidentemente, e como foi já também muitas postulado, vezes posso aceitar que deva fazer aos outros o que quero que me façam a mim, se tiver indicação clara de que é isso que os outros querem que eu lhes faça, mas, nesse caso, o princípio moral em questão passa a ser um caso particular de outro princípio muito diferente de moral positiva: faz aos outros o que eles querem que tu lhes faças.
É uma regra muito melhor, porque desloca o eixo moral do mesmo para o outro: já não posso fazer ao outro o que eu gostava que me fizessem a mim, mas que o outro não quer que eu lhe faça. Mas não faz desaparecer todos os problemas: uma moral cujo eixo é o querer, seja ele o meu (do agente) ou o do outro (do alvo da ação), continua a ser uma moral em que falta à ação uma causa válida (que alguém queira alguma coisa tem pouco valor ético) e que é, por definição, indiscutível, no sentido primeiro da palavra – porque… como se discute um querer? Uma proposta moral sólida deve assentar, na minha opinião, em algo mais fundamental e mais comunicável que o querer.
Mas voltemos a Stevenson. Uma ideia central no sermão é que devemos deixar-nos de moralismos, como ele diz; que não devemos fazer do mal que os outros fazem o centro das nossas preocupações:
Há uma ideia espalhada entre pessoas morais de que devem tornar os outros bons. Há uma pessoa que devo tornar boa: eu próprio. Mas o meu dever para com o meu próximo é expresso de forma mais adequada se disser que tenho de o tornar feliz – se conseguir.
Se a moral positiva de Stevenson fosse “fazer aos outros o que queremos que eles nos façam a nós”, ficaríamos a saber que ele não queria, obviamente, que fizessem dele um homem bom, mas antes que fizessem dele um homem feliz – pois que é isso que acha que se deve fazer aos outros. A moral de Stevenson, porém, não tem muito a ver com o princípio discutido acima – é uma moral positiva, porque não se centra na interdição e sim no dever de agir; mas não é relativa, porque este dever não depende da vontade de cada um, nem de nenhum outro critério relativo: é o dever absoluto de fazer os outros felizes. No fundo, creio entender, sob a forma nem sempre muito transparente do ensaio, que, embora não lhe chame assim e pareça até desvalorizar a ideia de virtude, é uma ética da virtude que Stevenson propõe, mas uma virtude não “moralista”, a virtude de uma alegre bonomia:
Gentileza e alegria vêm antes de qualquer moral; são os deveres perfeitos.
Não me parece que seja suficiente, como proposta moral, mas porque não?

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Outra lei moral de base que também me veio parar às mãos recentemente, e que considero mais correta, é a que é proposta na novela Gente e gatunos de Vila Cardamomo (Folk og røvere i Kardemommeby, 1955), um clássico infantil do norueguês Thorbjørn Egner. A única lei de Vila Cardamomo é a seguinte:
Não se deve incomodar os outros,
deve ser-se bom e amável
e, de resto, pode fazer-se o que se quiser.
A “lei de Cardamomo” é apresentada numa canção que vos deixo aqui, no norueguês original. Na minha opinião, ganharia bastante, do ponto de vista ético, com a supressão do segundo verso. Mas isso estragava a canção toda...


(Para uma formulação esteticamente interessante de um princípio geral e absoluto de moral negativa, ver uma das primeiras páginas desta Travessa.)
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* Uma formação curiosa é que se atribui ao químico e bioquímico Linus Carl Pauling (segundo a Wikipédia, numa palestra no Monterey Peninsula College, na Califórnia, por volta de 1961, mas não é citada fonte para essa informação…):
Tenho uma coisa a que chamo a minha Regra de Ouro. É mais ou menos assim: “Faz aos outro 25% melhor do que esperas que eles te façam”… Os 25% são para a margem de erro.
Por divertida que seja a formulação, se aceitarmos as críticas feitas a este princípio moral, ela só vem tornar a regra… 25% mais criticável!

12 de janeiro de 2013

Da escrita como menorização de si próprio

Numa entrevista dada em 1987 a Leopoldina Pallota della Torre, Marguerite Duras responde à jornalista de La Stampa de uma forma que me surpreendeu*:
[L. P. Torre:] Escrever para exorcizar fantasmas? Defende a dimensão terapêutica da escrita.
 [M. Duras:] Escrevo para me vulgarizar, para me massacrar, e depois para me tirar importância a mim mesma, para me aliviar: que tome o texto o meu lugar, de maneira que eu exista menos. Só consigo libertar-me de mim própria em dois casos: pela ideia do suicídio e pela ideia de escrever.
As palavras de Marguerite Duras fizeram-me lembrar outras de Alexandre O’Neill. O que O’Neill diz da forma como encara a escrita é completamente diferente, mas acho que compreenderão a relação que fiz: liga os dois textos a ideia da escrita como forma de se desimportantizar (o termo é o’neilliano):
Que quis eu da poesia? Que quis ela de mim? Não sei bem. Mas há uma palavra francesa com a qual posso perfeitamente exprimir o rompante mais presente em tudo o que escrevo: dégonfler. Em português, traduzi-la-ia por desimportantizar, ou em certos momentos, por aliviar – aliviar os outros, e a mim primeiro, da importância que julgamos ter. Só aliviados podemos tirar o ombro da ombreira e partir fraternalmente, ombro a ombro, para melhores dias, que o mesmo é dizer, para dias mais verdadeiros.**
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* "La confession secrète de Duras", Le Nouvel observateur online, 20-12-2012, traduzo eu do francês, algumas palavras sem muita convicção, de ambíguas que são... O texto francês é um excerto de Marguerite Duras, La Passion suspendue, entretiens avec Leopoldina Pallotta della Torre, Paris: Seuil, 2013.
** Tenho este texto, dito pelo autor, gravado numa cassete, imaginem vocês… Foi publicado num disco que acompanhava a primeira edição de Entre a Cortina e a Vidraça, em 1972.

11 de janeiro de 2013

Fazer um bom refrão tem muita arte [Adaptado de um blogue apagado #4]

Tem toda a razão o amigo Pedro Malaquias quando diz que “fazer um bom refrão tem muita arte”*:



É mesmo! Refrães** há muitos, mas de quantos é que se pode dizer “benza-te Deus”? Bom, não quero apresentar-vos aqui uma Teoria Geral do Refrão, nem uma História do Estribilho da Idade Média aos Nossos Dias, nem sequer propor-vos uma Arte e Preceito de Fazer Refrães com Jeito, mas vou falar de uns quantos refrães, sem mais.

Tinha um amigo que não se cansava de repetir, nos tempos (como se diz em Moçambique), que “Loser”, de Beck [Hansen] era o melhor refrão que alguma fez tinha existido na música pop. Era um amigo que de música sabe muito mais do que eu e não tenho razão nenhuma para duvidar dele, mas não é bem do refrão do “Loser” que eu tinha pensado falar aqui, por muito que, de facto, seja um refrão engraçado. (E se não queria falar dele aqui, porque falei então? Hmmm…)

Eu acho que o sonho de qualquer letrista pop é fazer um refrão como o de uma cantiga que Stan Kesler e Bill Taylor fizeram para um colega deles da Sun Records. Eu pelo menos, era um refrão que gostava de ter feito (se bem que não seja exactamente um refrão, mas isso...):
Well, you're right
I'm left
She's gone
You're right
And I'm left
All alone…
Um outro grande refrão é o de “La non-demande en mariage” de Georges Brassens. Brassens fez uma avaria semelhante no refrão de “La mauvaise reputation” (“Non, les braves gens n’aiment pas que / l’on suive un autre chemin qu’eux”), mas em “La non-demande en mariage” vai ainda mais longe:
J'ai l'honneur de
Ne pas te de-
mander ta main
Ne gravons pas
Nos noms au bas
D'un parchemin
Mas, mais uma vez, o que eu gostava de ter escrito uma coisa assim!... Ou o refrão de “Nemesis”, dos Shriekback, por exemplo:
Priests and cannibals
Prehistoric animals
Everybody happy as the dead come home
Big black nemesis
Parthenogenesis
No one move a muscle as the dead come home
Usar palavras como nemesis e parthenogenesis num refrão é, acho eu, ainda mais difícil do que usar as palavras efetivamente, imponentes, equívocas e aparentemente, como fez Rui Reininho noutro refrão e também com bons resultados (lembram-se?).

Mas enfim, para terminar (em fim para terminar?), o melhor refrão que eu conheço é o de
“Saucisson de cheval n°1”, de Boby Lapointe. O refrão é
Huuuuuuuuu
com 9 uu! Aliás, para não restarem dúvidas de que é esse mesmo o refrão, ele explica:
Huuuuuuuuu... C'est le refrain (…) Le refain c'est toujours Huuuuuuuu... (…) Bééééééé... Non... Huuuuuuuu


Pronto.
______________________________

* Já sei que brincas bem com as palavras / Que até brincas com o fogo e não te queimas / Agora queria ver como ficavas / Agora queria ir ao tira-teimas / Já sei que sabes que eu nunca diria / Nada que magoasse ou te ofendesse / Agora queria ver como seria / Se um dia eu afinal sempre dissesse // Fazer um bom refrão tem muita arte / Pois tem toda a razão. Segunda parte: // Só queria um tostão mesmo furado / Por cada vez que eu preguei no deserto / Nunca vi público mais interessado / Verdade seja dita já que é certo / Talvez seja verdade o que se diz / Que a vida tem de si que se lhe diga / Pois eu cá contas dessas nunca fiz / Nem vou contá-lo aqui numa cantiga // Fazer um bom refrão tem muita arte / Pois tem toda a razão. Terceira parte: // E afinal no fundo e resumindo / De uma forma geral, se se quiser / Pouco mais há p'ra dizer e já vou indo / Que era só o que tinha p'ra dizer // Fazer um bom refrão é importante / Este aqui saiu-me num instante... (Daqui)

** Os dicionários que consultei dividem-se sobre a origem da palavra refrão: uns dizem que vem do provençal refranh; outros que vem do espanhol refrán. Seja como for, o plural que parece fazer mais sentido é refrães, que é o que eu uso, mas também se admite o plural refrãos, que acho que ninguém usa, mas não o plural refrões, que há muita – e boa! gente a usar. Os critérios dos gramáticos para sancionarem os plurais das palavras em -ão são, às vezes, incompreensíveis, como explica muito bem Alina Villalva, num artigo no Notícias da Amadora: “Considerando a etimologia das formas, *irmões é tão agramatical quanto anões ou verões”, diz ela, com toda a razão.

10 de janeiro de 2013

Louvor da novela de aventuras

[Texto encontrado numa caixa no sótão do meu computador. É assim, em momentos de preguiça ou falta de inspiração: vou buscar textos já velhos e zás, pespego aqui com eles. Este é um prefácio a uma novela que eu espero que nunca venha a ser publicada. Lembrei-me dele ao ler o artigo da Wikipédia sobre Robert Louis Stevenson. Dizia, a certo passo, que "[Robert Louis Stevenson] foi elogiado por Roger Lancelyn Green (...) como escritor que manteve sempre um nível elevado de "capacidade literária ou absoluto poder imaginativo" e co-fundador, com H. Rider Haggard, da Era dos Contadores de Histórias (Age of the Story Tellers)", mas a expressão Age of the Story Tellers tinha um link para uma página ainda por criar. "Incrível!", indignei-me eu.]
Na segunda metade do século dezanove, foi escrito e publicado um sem-número de aventuras maravilhosas passadas nas selvas obscuras da África, nos ofuscantes desertos das Arábias, nas intermináveis rotas da Ásia ou nos mares sem lei das sete partidas do mundo. Falo de histórias que nunca chegaram a passar de moda e que, por muito que se destinassem, muitas vezes, sobretudo aos jovens europeus do sexo masculino, têm servido para divertir (e educar, dirão alguns) gente dos dois sexos e de todas as idades, culturas e qualidades.
Evidentemente, a novela de aventuras não foi inventada nessa época, mas foi nessa época que ela atingiu a sua máxima perfeição e, sobretudo, a sua máxima capacidade de gerar mitos. São, ainda hoje, as românticas personagens desses livros que servem de modelo a uma parte grande do nosso imaginário e são ainda as suas aventuras que servem de base a muita da mitologia moderna. Para vos dar de exemplo os últimos trinta anos do século de mil e oitocentos, os mais dourados anos da história da aventura literária, posso recordar que (e que me perdoem todos os Fenimore Coopers, todas as Mary Shelleys, todos os Alexandre Dumas e todos os Herman Melvilles do planeta tê-los deixado para trás): em 1872 foi publicada pela primeira vez, no jornal Le Temps, a aventura que condensa todas as aventuras imagináveis naquele tempo do mundo, A volta ao mundo em oitenta dias, desse Jules Verne que tinha já, nos oito anos anteriores, inventado a moderna ficção científica com as suas viagens ao centro da Terra, à Lua, e às profundezas dos mares; que a matriz de todas as histórias de piratas e de todas as caças ao tesouro, A ilha do tesouro, essa obra-prima de Robert Louis Stevenson, foi publicada em 1883, três anos antes de Stevenson publicar O estranho caso de Dr. Jekyll e  Mr. Hyde, outro romance fundador que nunca mais parou de gerar variações suas; que, em 1985, Henry Rider Haggard publicou As minas do rei Salomão, o mais duradouro padrão da autêntica aventura, sem o qual não teria nunca vindo a existir nenhum Tintin nem nenhum Indiana Jones; que, em 1987, o génio de Bram Stoker deu a conhecer ao mundo, numa novela brilhante de terror, suspense e simbolismo profundo, o conde Drácula e a sua corte de vampiros, e inaugurou assim um dos mais profícuos mitos modernos; e que, em 1901, Rudyard Kipling, que 7 anos antes tinha apresentado ao público o primeiro Tarzan da história, a personagem Mowgli do seu Livro da selva, nos contou as maravilhosas aventuras do endiabrado órfão vagabundo Kim, deambulando pela mágica Índia na companhia de um monge tibetano.
E estavam assim inventadas todas as aventuras que conhecemos. A partir daí, pouco mais se fez, no domínio da aventura, do que variar um pouco à volta dos temas, das tramas e das personagens destes mestres, quando não se os plagiou descaradamente, sem nunca chegar, nem de longe, ao seu brilhantismo.

1 de janeiro de 2013

…por isso, não sei se esta página de blogue faz muito sentido… E bom ano novo! [Crónicas de Svendborg #14]

Há coisas que se comunicam facilmente e outras que são completamente incomunicáveis. No meio, há coisas que se comunicam umas melhor que outras… Queria falar-vos do prazer de um longo passeio de bicicleta nesta ilha de Tåsinge, num dia frio de Janeiro, o primeiro de 2013, mas é coisa que duvido que saiba comunicar. Nem que soubesse fazer descrições rigorosíssimas, nem que soubesse tirar fotografias… Por isso, não sei se esta página de blogue faz muito sentido. Bom, mas serve para desejar às leitoras e aos leitores desta Travessa... um bom ano de 2013. Para isso, sim.





25 de dezembro de 2012

Socas, integração cultural e o ideal conservador [Crónicas de Svendborg #13]

Ao contrário do que muita gente pensa, a integração noutra cultura começa de cima para baixo, da cabeça para os pés: as primeiras coisas que se adotam são palavras, conceitos, ideias; e as últimas são os sapatos. Quantas vezes não vi (por exemplo!) gente do Sul da Europa que, nos países do Norte, ao fim de lá viver dezenas de anos, ainda continua a usar daqueles corriqueiros mocassins a que o filho de uma amiga minha, nado e criado em Roterdão, chamava “sapatos à turco”, quando vinha nas férias a Portugal. Não são mocassins desses que uso, não é isso, mas onde quero chegar é que agora que tenho, finalmente, as minhas socas, posso considerar-me integrado na cultura dinamarquesa.
 
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[Nota 1: É mentira I] Não é verdade, já tive outras socas antes destas. Mas era uma maneira de compor o texto, se é que me faço entender, apresentar as coisas destas maneira…
[Nota 2: É mentira II] As socas não são um tipo de calçado especialmente dinamarquês. Como os barretes, as gaitas de foles e os torresmos, as socas são comuns a toda a Europa – e talvez também a outras partes do mundo… Agora, dos países que conheço, a Dinamarca é aquele em que se usam mais no dia-a-dia. Ainda hoje, por exemplo, quando entrámos na taberna local, aí por esse meio-dia, dos 5 homens sentados ao balcão em frente à sua cerveja de Natal, 4 usavam socas.
[Nota 3: A utopia conservadora] Deixem-me contar-lhes, a propósito, que, quando íamos pagar, o dono do estabelecimento explicou que não tínhamos de pagar nada, que o café e a cerveja eram por conta da casa, porque hoje era dia de Natal. É simpático, não é verdade? É simpático como o cordial “Feliz Natal!” que toda a gente diz a toda a gente que cruza na rua, aqui na aldeia. É este tipo de gestos e práticas que o imaginário e a ideologia dos conservadores elevam a ideal – o encanto da vida comunitária “de outrora”, que consideram ameaçado ou destruído pelo progresso e que propõem que se conserve ou se refaça. Mas esquecem sistematicamente o lado disfórico da medalha, que é incomparavelmente maior e tem mais de sombrio que de radioso têm as tradições idealizáveis: o outrora era (o outrora ainda é, tantas vezes…) miséria, trabalho, trabalho, trabalho, ignorância e superstição, desconforto e doença, maus tratos, violência, violências, e infindáveis etecéteras…

22 de dezembro de 2012

Raízes, de J. L. Corelli, traduzido por V. S. Lindegaard

[Uma história em poucas palavras ou ... Eu tenho para aqui estes textos e não sei o que hei de fazer deles]

 Já não me lembro do que estava a dizer. Sei que pigarreei no meio de uma frase e lhe pedi desculpa:
“Mas que coisa!, deve ser da chuva que apanhámos ontem e anteontem... Tenho uma rã na garganta...”
“Tem o quê?”, perguntou ela, os olhos negros muito abertos, “Uma rã?”
Rimo‑nos muito os dois.
“É uma expressão inglesa, não conhecia?”
“É provável que tenha ouvido, mas não me lembrava... É uma expressão um bocado nojenta, tem de concordar...”
Isto foi quando eu tomei pela primeira vez chá com Maria Lowell, em casa dela. A retórica não é nenhum adorno dispensável, é uma constante do falar de todos nós em todas as situações, por muito que não nos demos conta disso. E, entre formas de cortesia, frases feitas e várias figuras de estilo, há um sem número de palavras, expressões e frases que não devem, em princípio, ser literalmente entendidas, sob pena de daí resultarem situações caricatas como esta. O que também é muito engraçado é quando é ao contrário: quando deveriam ser compreendidas no seu sentido literal e, por falta de hábito, não o são.

***
Cheguei a Miri, na costa oeste, já muito perto do Brunei, em dezembro de 1941, exatamente no dia a seguir ao ataque japonês a Pearl Harbour.  Tinha vindo da Cidade de Sarawak, e feito um desvio grande pelo monte Mulu, para visitar o que dizem ser a maior câmara natural do mundo, a câmara de Sarawak, e a passagem da Gruta de Clearwater, que tem de comprimento nada menos de 51 km. Entre o Monte Mulu e Miri, tínhamos apanhado chuva forte, o que não era para admirar naquela época do ano, mas que nunca deixa de ser desagradável.
À noite, em casa do meu amigo Charles – que não via há muito tempo e que era a razão de ter vindo a Miri em vez de ter seguido diretamente do Monte Mulu para Bandar Seri Begawan –, os temas de conversa foram, como não podiam deixar de ser, a minha decisão de voltar à Austrália, o fim anunciado da dinastia de rajás brancos de Sarawak e a ameaça japonesa.
“Estou farto, Charles”, expliquei‑lhe eu, “farto de Sarawak, da Cidade de Sarawak, farto da companhia e farto do trabalho, farto de não ser capaz de me sentir em casa, compreendes? Sabes há quantos anos é que ando nesta vida assim, de um lado para o outro, sem ter aquele conforto... Que talvez seja mesquinho, pronto!, talvez seja ridículo, não sei, mas é uma coisa que nos faz falta, ou não?... Aquele  conforto de ter, eu sei lá... Um grupo de amigos, por exemplo... Um grupo de amigos já é importante, ou não?... E poder pensar assim: bom, esta é a minha casa, é aqui que vou passar o resto dos meus dias...”
“Uma mulher...”
“Porque não?”
“Não me digas que é preciso ir para a Austrália para arranjar uma mulher...”
“Talvez não. Também depende… Se o que tu queres é arranjar mulheres ou arranjar uma mulher... Não sei, nunca houve nenhuma que me interessasse, nem em Bombaim, quando lá estava, nem agora aqui em Sarawak... Por falar em mulheres, hoje fui dar uma volta até ao mercado enquanto estava à tua espera e conheci uma mulher extraordinária. Uma mulher da nossa idade, penso eu, um bocado mais nova, de pele escura mas vestida à europeia, muito bonita.”
“Maria Lowell? Meus Deus, não há dúvida, bonita mulher, para quem, como eu – e pelos vistos tu – saiba apreciar a beleza nativa. Uma beleza única, pode mesmo dizer‑se. E uma mulher interessante, também, não é? Misteriosa, fascinante… O que é mais impressionante é a educação dela, que muitas ladies invejariam… Não sei, deve ter lido muito, deve ter estudado muito, deve ter‑se empenhado muito em deixar de ser uma nativa e passar a ser uma verdadeira senhora europeia. Mas, mesmo assim, se tu soubesses tudo o que dizem dela...”
“O que é que dizem dela?”
“Coisas que não fazem muito sentido, pelo menos para mim. E com certeza que para ti também não...”
“Está bem, eu não insisto. Mas o que é que sabes mais dela?”
“Não sei muito. Sei que já vive aqui há bastante tempo, há mais de 15 anos, creio. Já cá vivia antes de eu me instalar aqui. Era casada com um comerciante inglês que morreu, um tipo chamado Peter Lowell, que eu ainda cheguei a conhecer. Ele era muito mais velho que ela. Morreu há uns cinco anos. Espera aí... Isso, coisa de cinco anos. Era bom homem, o Peter, muita gente aqui gostava dele …”
“Quer dizer, o que sabes dela é tudo sobre o marido, então?”, insisti eu.
“Mas não sei muito, o que é que queres que te diga? Acho que ela é de uma tribo Dayak do interior, Kenyah, se não estou em erro. Sei que ela e o Peter se conheceram aqui e casaram aqui, depois viveram algum tempo em Inglaterra, uns cinco anos, e depois voltaram para aqui…”
“Maria convidou‑me a tomar chá amanhã, em casa dela.”
“Morro de inveja. Caraças, porque é que nunca me convidou a mim?... Sabes, James, eu no teu lugar não perdia um convite desses.”
“Eu também não tenho intenções nenhumas de o perder, se te interessa saber... Mas deixemos isso agora, onde é que nós estávamos?”
“Dizias tu que te sentes sem raízes...”
“Bom, eu acho que não usei essa palavra, mas é, de facto, a palavra correta: raízes. No fundo, o que eu preciso, Charles, é de criar raízes!…”, concordei eu, e fiquei um bocado em silêncio, a meditar no peso daquela palavra. “Mas enfim..., mudemos mas é de assunto, até porque há assuntos bem mais interessantes que a minha pessoa: o que é que me dizes, por exemplo, ao facto de o nosso Charles Vyner Brooke ter abdicado dos seus poderes absolutos de rajá? Diz ele que quer que isso seja o primeiro passo para o estabelecimento de uma democracia em Sarawak…”
“É natural, depois do que aconteceu e está a acontecer na Índia e em todo o império.  O que eu não sei é se é apenas por isso,  ou se Charles Vyner Brooke se deu finalmente conta que isto de rajás brancos é uma coisa absurda, quase contra natura!...”
“Bom, Charles, tens de admitir que, se haver rajás brancos é contra natura, então todo o poder colonial também é contra natura…”
“Talvez, mas o poder colonial nunca quis ser poder tradicional, e é isso que é mais aberrante nesta história de Sarawak. Por outro lado, não sei até que ponto é que a democracia pode funcionar numa terra como esta… Resta esperar e ver como vão evoluir as coisas. Se os japoneses deixarem que alguma coisa evolua, naturalmente…”
O ataque a Pearl Harbour tinha, naturalmente, criado uma situação de enorme apreensão, quando não de pânico, em toda a região. Além disso, não tinha sido só Pearl Harbour que tinha sido bombardeado – os japoneses tinham também feito raids sobre Hong Kong, a Malásia,  as Filipinas, e as ilhas americanas de Guam, Wake e Midway. Para muita gente, era óbvio que Bornéu, sobretudo Victoria, estava na lista dos japoneses e havia muito quem esperasse uma invasão a qualquer momento.
“É o mais provável”, comentou Charles. “Se eles começaram o que começaram, é porque têm intenções de continuar, isso é certo…”
“E tu o que é que pensas fazer?”
“Vou esperar mais uns dias, de ouvido colado à BBC…”
“Pois, eu acho que vou fazer o mesmo. E acho que vou ter de abandonar o meu plano de continuar o meu passeio até ao Brunei e depois até Labuan antes de voltar para casa…”

***
Maria falava um inglês perfeito, com um ligeiro sotaque apenas – charmoso, por tal sinal –, mas não como os locais, que trocam sempre os “ff” por “pp” e os “vv” por “bb”.
“Como é que veio aqui parar?”, perguntei‑lhe.
“Como é que sabe que não sou daqui?”
“Bom, já me informei – sei tudo a seu respeito”, ri‑me eu.
Ela riu‑se também:
“Então já sabe que sou bruxa.”
“Não, isso ainda não sabia”, disse eu. E continuei, depois de uma pequena pausa: “Mas, agora que sei, não me desagrada nada… Nada mesmo, de facto…”
“Foi assim que vim aqui parar: tive de fugir da minha terra, porque as pessoas começaram a acusar‑me de tudo o que lá acontecia de mau – diziam que era eu que provocava doenças das pessoas e do gado, tempestades, males dos cultivos. Tinha só 18 anos e tive de abandonar tudo, família, amigos, porque senão matavam‑me.”
“E era verdade?”, brinquei eu com ela. “Quero dizer, isso de ser bruxa, de ser culpada das desgraças daquela gente?”
“Meu caro James, o que importa nestas coisas de bruxaria é se se acredita nelas ou não – neste caso, havia muita gente que acreditava que era verdade, e é isso que importa. Que importou, quero eu dizer…”
Curiosamente, não havia no rosto dela nada daquela expressão triste e meio distante que costuma acompanhar a recordação de acontecimentos dolorosos.
“Tirando isso”, continuou, “deve ser falsa a acusação que me faziam, se quer saber, porque não consigo fazer mal a muita gente ao mesmo tempo – só a uma pessoa de cada vez…”, e riu‑se outra vez. Era um riso sem o peso da ironia nem a futilidade do charme deliberado, apenas mais genuinamente alegre do que a maior parte dos risos, e era, por isso mesmo, terrivelmente sedutor.
“Ah, eu conheço uma lenda kenyah, sobre plantas mágicas”, disse‑lhe eu. Era uma história que me tinha contado uma vez um empregado da companhia na Cidade de Sarawak, já não me lembro a que propósito. “É verdade que existe uma planta que pode fazer que uma pessoa se apaixone por nós?”
“Foi só assim que lhe explicaram a lenda?”
“Foi. A pessoa que me contou isso disse que é uma planta que se dá na comida ou em infusão à pessoa que queremos que se apaixone por nós e que essa pessoa nunca mais nos abandona na nossa vida, nunca mais…”
“É uma versão muito simplificada da lenda, que é mais do que apenas uma história banal de poção de amor. Primeiro, é preciso que a pessoa que quer fazer o feitiço ingira a planta, se nunca a ingeriu. Quando se ingere a planta, ela começa a crescer no corpo, dentro do nosso corpo, e fica lá para sempre. Depois, é preciso tirar um bocado dessa planta do nosso próprio corpo e dá‑lo à pessoa que queremos que não nos abandone nunca mais. É assim.”
“É, de facto, uma versão sofisticada de um filtro de amor”, disse‑lhe eu. 
“Não creio que seja um filtro de amor. O que a lenda diz é que a pessoa nunca mais nos abandona, não que se apaixona por nós. Quer dizer, fica connosco, independentemente dos sentimentos que tem por nós. Pode mandar‑se na vida de uma pessoa, como você sabe, mas nos sentimentos ninguém manda, nem a magia…”
O sentido da lenda era, para mim, evidente. Aliás, a magia funciona quase sempre assim, por um esquema de relações evidentes. Um vegetal é símbolo de imobilidade. Vida, mas vida imóvel. Compartilhar com outra pessoa uma parte da vida que ela tem dentro de si significa, obviamente, uma espécie de simbiose com ela, uma espécie quase de fusão, uma comunhão dramática, como a de irmãos siameses.
“Mas então é uma poção ainda mais imoral que os filtros de amor vulgares”, propus eu. “Quero dizer, a supor que tais filtros existissem de facto, usá‑los seria sempre imoral: é agir sobre a vontade de uma pessoa, impor‑lhe uma escravidão; mas podemos pensar que, por outro lado, estamos a oferecer‑lhe aquilo que parece ser ambicionado por toda a gente em todo o lado, um amor eterno e indestrutível, e isso pode ser visto como uma compensação para o mal que estamos a fazer. Agora, sem que a pessoa sinta por nós amor eterno, Deus meu, é ainda mais cruel obrigá‑la a ficar connosco.”
“Para isso ser verdade, é preciso aceitar que seja bom esse sentimento que você diz que toda a gente quer sentir, essa paixão única e vitalícia… Para se contrapor ao mal que há em forçar alguém, em reduzi‑lo a uma eterna servidão. Eu não tenho essa certeza, que o amor assim seja uma coisa boa. Aliás, também não tenho a certeza que seja uma coisa a que todos aspirem. Nem toda a gente lê romances e poesia, James, nem toda a gente vive no mundo em que você e eu – eu, pelo menos até um certo ponto... – vivemos. Além disso, o que sei da paixão diz‑me que quando uma pessoa está apaixonada, a moral interessa‑lhe pouco. Não vale a pena discutir qual a maneira eticamente correta de agir quando se está apaixonado. É como quando se está a morrer de fome ou de sede, a mesma coisa. Desculpe‑me a banalidade da comparação, mas não conheço nenhuma mais eficaz.”
“Muito bem, então pergunto‑lhe assim: se você estivesse terrivelmente apaixonada e desejasse ardentemente ter a seu lado, para toda a vida, o objeto da sua paixão, diga‑me lá, sinceramente…”
Ela aproveitou a pequena pausa que fiz para completar a minha frase:
“Se era capaz de usar a magia keniah? É claro que era, James. Eu sou uma bruxa, não se esqueça.”
A conversa derivou para outros temas mais corriqueiros. Tinha a sensação, aliás, que, como acontece muitas vezes em situações deste tipo, a conversa não era senão um pretexto para estarmos ali os dois juntos e que a verdadeira comunicação entre nós era a um nível outro que não o das palavras. Começou a chover torrencialmente e tivemos de sair do terraço e correr para dentro de casa. Maria pôs música e dançámos. Uma canção francesa. Era inacreditável, tudo aquilo: eu a dançar ao som de uma canção francesa com uma dama de Bornéu…

***
Combinámos ver‑nos no dia seguinte, e no dia seguinte combinámos para o dia seguinte, e assim sucessivamente. Não havia notícias de nenhuma invasão japonesa em lado nenhum, mas a situação estava de dia para dia mais tensa. Charles decidiu que era altura de sair dali, pelo menos por uns tempos.
“Vou ficar mais uns dias, antes de voltar para a Austrália”, disse-lhe eu quando nos despedimos.
“Bom, enquanto quiseres ficar, ficas com a minha casa e com o meu pessoal à tua disposição, mas vê lá se não ficas muito tempo – não é o melhor momento para criar raízes, acho eu...”
Comecei a minha relação, digamos, mais íntima, com Maria na noite desse dia em que o Charles se foi embora. Jantámos em casa dela e, depois de jantar, dançámos uma canção apaixonada e lenta, como nos dias anteriores.
“Já chega, James”, disse ela, “não te escondo mais ­– se é que chego a esconder – a maneira como gosto de ti!”
Disse isto e beijou-me. A música continuava, mas nós tínhamos parado de dançar e beijávamo‑nos só, sôfrega e repetidamente. Quando o disco chegou ao fim, estávamos ainda ali no meio da sala, unidos ainda em beijos ansiosos, quase doridos de tanto desejo.
“Anda, disse ela, anda comigo!” Pegou na minha mão e levou‑me para o quarto.
“Vou dar‑te o meu corpo, que já é teu. Quero que o vejas e o toques e o sintas tremer, e o faças tremer ainda mais”, disse ela, com uma voz nervosa, de costas para mim, enquanto começava a despir‑se. Tinha um corpo mais bonito do que eu tinha conseguido imaginar nas dezenas de vezes em que tinha vivido mentalmente esta cena finalmente real. O que me surpreendeu mais foi a minha ausência de surpresa, como se o tivesse sempre sabido. Vi a mancha esverdeada que se estendia por parte do ombro e do antebraço e que um penso cobria parcialmente. Beijei‑lhe o pescoço e perguntei‑lhe calmamente:
“O teu corpo que já é meu, não é?”
“O meu corpo que já é teu.”
Não demorei muito a criar raízes em Miri. 
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Notas do tradutor:
To have a frog in one’s throat é, como muitos saberão, uma expressão inglesa que significa “estar com catarro”. Compreenderão que tive de a traduzir literalmente, uma vez que é num jogo sobre a sua compreensão literal que se baseiam os sete primeiros parágrafos do conto, que constituem como que uma introdução.
Traduzo Sarawak City por “Cidade de Sarawak”, sobretudo para evitar a confusão entre a cidade e a região de que é capital, que é hoje uma província da Malásia e que era, na época a que se refere o conto, um território independente. O nome atual da cidade de Sarawak é Kuching. Sarauaque seria, creio eu, uma grafia mais adequada, mas não me atrevi, como não me atrevo, muitas vezes, às grafias mais adequadas…
Alguns leitores terão notado que, na última parte do texto, o tratamento entre os dois protagonistas passa de “você” a “tu”, o que não pode ser justificado pelo original inglês, já que em inglês you cobre as duas palavras portuguesas. Decerto concordarão, porém, que tal mudança nesta parte do texto corresponde ao que aconteceria naturalmente se a língua de comunicação entre James e Maria fosse uma língua como o português, com duas formas de tratamento da segunda pessoa do singular que marcam, entre outras coisas, a maior ou menor proximidade da relação entre os interlocutores.

Camargo, 10 de setembro de 2000