Não sei porque pensei nisto. Talvez por causa de uma série de fotos que vi algures de guardas de campos de concentração nazis, com legendas que diziam qualquer coisa como “estes monstros parecem, afinal, pessoas normais”. A maior parte das pessoas, pelo que tenho observado, estão sinceramente convencidas de que são pessoas boas e que as pessoas más são outro tipo de pessoa. E, se chegam a admitir, surpreendidas, a humanidade de criminosos e monstros de toda a classe, custa-lhes mais admitir uma outra proposição verdadeira: todos trazemos dentro de nós o mal todo de que os humanos são capazes. …Ou, pelo menos, a maior parte dele. E dedicamos uma parte importante do nosso tempo e da nossa energia a
negar esse mal que temos cá dentro, a impedir que faça parte das nossas ações. É por isso que não é esse mal, por si, o maior problema – o maior problema é, claro está, não sermos capazes de negar o que não queremos ser; ou então, talvez pior ainda, não sei…, acreditarmos que, por estarem dentro de todos nós, esses horrores não podem, afinal, ser o mal que críamos serem e arranjarmos nomes bonitos com que os louvar…
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Uma coisa diferente, a propósito da expressão
negar-se e de conflitos entre a nossa moral e outras partes de nós: Dizia um amigo meu que é mais fácil a vida de um conservador que a de quem queira mudar a sociedade, porque não tem o conservador de negar-se tanto. Uma parte do que é fundo em nós é adquirida muito cedo – o meu amigo falava, por exemplo, de modelos de género e da conceção da autoridade e das hierarquias – e sermos como nos ensinaram a ser causa menos inquietação do que vigiarmo-nos constantemente para agir e pensar de acordo com o que achamos bem e não como fomos socialmente programados para agir e pensar. Parece-me que a facilidade com que negamos educação e cultura depende também, em grande medida, do que se passe em torno de nós, da aprovação que haja da mudança nos grupos de que fazemos parte e em toda a sociedade. Mas acho que, em parte, esse meu amigo tem razão.