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28 de outubro de 2014

O mal maior

Não sei porque pensei nisto. Talvez por causa de uma série de fotos que vi algures de guardas de campos de concentração nazis, com legendas que diziam qualquer coisa como “estes monstros parecem, afinal, pessoas normais”. A maior parte das pessoas, pelo que tenho observado, estão sinceramente convencidas de que são pessoas boas e que as pessoas más são outro tipo de pessoa. E, se chegam a admitir, surpreendidas, a humanidade de criminosos e monstros de toda a classe, custa-lhes mais admitir uma outra proposição verdadeira: todos trazemos dentro de nós o mal todo de que os humanos são capazes. …Ou, pelo menos, a maior parte dele. E dedicamos uma parte importante do nosso tempo e da nossa energia a negar esse mal que temos cá dentro, a impedir que faça parte das nossas ações. É por isso que não é esse mal, por si, o maior problema – o maior problema é, claro está, não sermos capazes de negar o que não queremos ser; ou então, talvez pior ainda, não sei…, acreditarmos que, por estarem dentro de todos nós, esses horrores não podem, afinal, ser o mal que críamos serem e arranjarmos nomes bonitos com que os louvar…

*** 

Uma coisa diferente, a propósito da expressão negar-se e de conflitos entre a nossa moral e outras partes de nós: Dizia um amigo meu que é mais fácil a vida de um conservador que a de quem queira mudar a sociedade, porque não tem o conservador de negar-se tanto. Uma parte do que é fundo em nós é adquirida muito cedo – o meu amigo falava, por exemplo, de modelos de género e da conceção da autoridade e das hierarquias – e sermos como nos ensinaram a ser causa menos inquietação do que vigiarmo-nos constantemente para agir e pensar de acordo com o que achamos bem e não como fomos socialmente programados para agir e pensar. Parece-me que a facilidade com que negamos educação e cultura depende também, em grande medida, do que se passe em torno de nós, da aprovação que haja da mudança nos grupos de que fazemos parte e em toda a sociedade. Mas acho que, em parte, esse meu amigo tem razão.

28 de setembro de 2011

Bom e interessante

Karim, a personagem principal de The Buddha of Suburbia, de Hanif Kureishi, tem de escolher entre o pai e a mãe que se separam. E acaba por escolher o pai, porque o ambiente de atores, músicos, festas e sexo em que este vive com a sua namorada Eva é muito mais interessante do que o insípido universo doméstico da sua mãe. Traduzo eu:
Pensei na diferença entre as pessoas interessantes e as pessoas boas. E como não podem ser sempre as mesmas. As pessoas interessantes, queríamos estar com elas – tinham espíritos fora do vulgar; com elas, víamos coisas de uma forma nova e não era tudo morte e repetição. (…) E depois havia as pessoas boas, que eram desinteressantes e não queríamos saber o que elas pensavam, fosse lá do que fosse. Eram como a minha mãe, boas e simples, e mereciam mais amor. Mas eram as pessoas interessantes, como Eva com a sua personalidade bem definida, atraente, que acabavam por ficar com tudo (…).
Já antes, Karim, tinha confessado: “Comecei a considerar o charme, e não a cortesia nem a honestidade, e nem sequer a decência, o dom social de base. E até comecei a gostar de pessoas frias ou más, desde que fossem interessantes.”
Estas linhas ficaram-me sempre na cabeça; e surpreende-me, quando penso agora nisso, não me lembrar de outras reflexões sobre a questão, que é das mais fundamentais na vida de qualquer pessoa e sobre a qual, por isso mesmo, já todos refletimos muito, não é verdade?

Que, para seduzir os outros seres da espécie, exibamos sinais que nos saem caros, como diz Amotz Zahavi, isto é, que façamos coisas difíceis e por isso interessantes, eis a causa de muitas coisas bonitas – e de muitos problemas. Como seria tudo mais simples se a nossa estratégia primeira para seduzir os outros fosse sermos bons para eles… 
[Foto de Jebulon. Wikimedia Commons]