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16 de abril de 2010

A espiritualidade, pois, poesia, elevação...

A espiritualidade, pois, poesia, elevação… Está muito bem. Mas compreender, por exemplo (por exemplo…), o que se passa de facto quando se tosse ou se espirra também me parece meritório… Os clássicos greco-latinos? Pode ser, se houver muito tempo e pouco que fazer. Mas antes, saber a diferença entre um vírus e uma bactéria e como funciona o sistema imunitário, sim?

24 de março de 2010

A arte e o resto

Na discussão de um post do blogue De Rerum Natura, afirma Desidério Murcho: «(…) Os escritores de historietas e poeminhas não contam como produção cultural sofisticada. Sei que isto é uma opinião polémica porque as pessoas tendem a pensar que romances e poesia constituem o zénite da sofisticação intelectual, mas não concordo com esta ideia. A literatura não tem, nem de perto nem de longe, a sofisticação cognitiva da física ou da filosofia ou da matemática.»

Não só estou de acordo com a afirmação de Desidério Murcho como acho que, sobretudo num país como Portugal, é necessário insistir nesta ideia. E a quem torcer o nariz às expressões “sofisticação intelectual” ou “sofisticação cognitiva”, proponho um outro olhar sobre a questão: comparadas com a produção científica, filosófica, matemática e afins, a literatura e as artes não têm importância nenhuma para a vida das pessoas (já aqui falei uma vez de uma parte desta questão).

Como o que vou dizer a seguir se baseia apenas numa impressão que não foi testada, espero, sinceramente, que apareça alguém a mostrar-me que se trata de uma impressão enganadora, mas, quando passeio ao acaso pela blogosfera made in Portugal, encontro centenas, milhares de páginas a falar de artes e literatura, mas muito poucas a falar de ciências, filosofia, matemática, história e economia... E eu, quando vejo tantas pessoas tão preocupadas com o analfabetismo literário dos portugueses sem se se preocuparem com o analfabetismo científico, tenho mesmo de pasmar. Em que é que contam mais para a vida das pessoas conhecimentos sobre epopeias, romances e poemas do que sobre lógica, estatística e biologia, por exemplo? É difícil compreender.

Não tenho nada contra novelas e poemas, notem. Até os escrevo. Mas, talvez por isso mesmo, tenho consciência de que (agora é que me vão cair todos em cima*) é muito mais fácil escrever e ler literatura do que escrever e ler ciência ou filosofia. Mais fácil e sem efeito na vida da gente.

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* Primeiro, tinha escrito “agora é que me vão cair tordos em cima”, que até era engraçado, mas decidi não deixar a gralha, perdão, o tordo. Conseguem identificar um tordo e uma gralha? Ah bom, também mal feito fora…

5 de março de 2010

Elogio da abertura de espírito... e da desconfiança!

Para que a ciência funcione (e para que funcione qualquer forma séria de procura da verdade, seja normalmente considerada ciência ou não), é obviamente necessário, entre outras coisas, que haja efectiva vontade de reconsiderar posições sempre que seja apresentada evidência, observável ou de qualquer outra forma demonstrável, que invalide uma determinada teoria (ela própria, em princípio, assente em observáveis ou outros demonstráveis). E é aqui, penso eu, que muita gente torce o nariz e duvida de que os cientistas sejam de facto tão racionais como defendem que se deve ser… Pensa muita gente: «Quando chega à altura de ter de mandar fora convicções, às vezes arquitectadas durante anos, para aceitar simplesmente que se estava errado, como é que os cientistas e os académicos em geral podem ser menos dogmáticos do que os outros todos? O que eles fazem é entrincheirar-se no interior da sua teoria e recusar, por incompleto, imperfeito, inconcludente e etc., o que vier pôr em causa as suas “religiosas” certezas.» Não é minha intenção entrar aqui numa discussão detalhada da questão, mas posso propor uma maneira bastante rápida de os cépticos perceberem que os cientistas mudam mesmo de opinião perante evidência nova, que é lerem as 165 respostas à pergunta anual do Reality Club de 2008, que era a seguinte: «Quando o pensamento nos faz mudar de opinião, é filosofia. Quando Deus nos faz mudar de opinião, é fé. Quando os factos nos fazem mudar de opinião, é ciência. Em que mudou de opinião e porquê?» Aconselha-se, como se aconselha, aliás, a grande maioria do que vem do EDGE.

Agora, que haja reacção, defesa daquilo em que se crê, não tem nada de mal. Se for feito sem dogmatismo, o fincar pá nas suas ideias é apenas saudável. Triste seria, e muito pouco conducente ao progresso do conhecimento, que não houvesse resistência às tentativas de provar falsa uma teoria. Costumo dizer que, para se ser um bom pensador, tem de se ter uma dose igual de teimosia e de capacidade de se pôr a si próprio em causa. Os renitentes deviam ser ainda mais, as batalhas mais acesas e o crivo de triagem das boas provas de malha mais fina. A haver algum défice na ciência (e na Academia em geral), digo eu, não é o de abertura de espírito, mas o de advogados do diabo.

Outra coisa que é normal é que haja, entre quem faz ciência, gente negligente, incompetente ou até suficientemente desonesta para sacrificar conscientemente ao seu proveito a verdade para que deveria contribuir. Isto é normal, digo eu, porque não se vê por que razão a pesquisa científica deveria ser diferente de outras actividades humanas – e há, infelizmente, em todas as profissões e áreas de actividades quem não faça como deve o seu trabalho. O que já me parece menos normal (de facto, parece-me até bastante anormal, dê-se que sentido se der à palavra anormal…) é que, de cada vez que se descobre que há a possibilidade, mesmo que não provada, de terem sido falseados os resultados de alguma pesquisa, haja sempre alguém a aproveitar esse facto para gritar ó da guarda: «Estão a ver como é a ciência, estão a ver?». É amalgamar tudo e é uma vergonha, sinceramente. É como, sei lá, dizer que, porque há quem tome doping, é sem valor a prática do desporto, uma coisa assim…

26 de janeiro de 2010

E o que é fascinante é isto...

Se seguirmos a nossa intuição, podemos facilmente acreditar que a água sai em curva de uma mangueira enrolada, que o Sol gira à volta da Terra e a Lua se faz e se desfaz, ou que todo o evento que presenciamos no mundo deve ser produzido por um agente dotado de vontade… Por que será que nos engana a nossa mente? Não é um perigo para nós termos uma mente que nos engana? Para que desenvolvemos uma mente assim?

Bom, a evolução, por muito que, de certa forma, se possa compreender como um mecanismo de aperfeiçoamento, não garante, nem de longe, perfeição nenhuma. E também podemos pensar que as nossas intuições e a nossa percepção são, ainda assim, altamente adaptadas à vida que os hominídeos tinham quando a sua mente evoluiu e ao meio natural em que a viviam; que os enganos da nossa intuição e percepção (ou, pelo menos, alguns deles) nos foram muito úteis nessas condições de vida – e podem ser ainda, naturalmente, em condições ou situações do mesmo tipo. Mas é uma discussão comprida e complicada, e não a quero (nem sei!…) ter aqui.

O que é facto é que as nossas intuições e a nossa percepção são altamente enganadoras. As categorias e operações mentais com que nascemos e que nos permitem organizar o mundo levam-nos, pura e simplesmente, a concluir mentiras sobre esse mundo. E o que é fascinante é que o nosso cérebro tem, apesar disso, a capacidade de ir além das nossas intuições e da nossa percepção naturais e compreender a realidade de formas mais sofisticadas – e eficazes –, que são perfeitamente contra-intuitivas. E este mundo em que vivemos (instrumentos de alta precisão, transplantes, aviões e computadores, milhares, milhões, de importantíssimos etcéteras...) é, em grande parte, construído a partir, precisamente, dessa capacidade de conhecimento – ciência, como se lhe costuma chamar.

Sejamos agora claros: viver no mundo moderno sem utilizar a capacidade de conhecimento contra-intuitiva e mais rigorosa que fomos criando, limitarmo-nos, no mundo do século XXI, a continuar a pensar com as ferramentas mínimas desenvolvidas para sobrevivência na savana africana, é franca desadaptação, para não dizer acção suicidária. Limitar-se ao nosso “conhecimento” natural e às superstições que dele resultam pura e simplesmente não funciona. E nunca é demais insistir nisto, para fazer frente a alguns simplismos de grande fortuna com que somos amiúde bombardeados: ao contrário do que muitos pretendem, a religião e as “formas de conhecimento” intuitivo não são apenas “outra maneira de compreender o mundo”, mas antes uma maneira de não o compreender.

8 de maio de 2009

Miniposts de cocktail 2

Analfabetismo 1: É muito estranho...Ontem dei-me conta de que não consigo compreender bem o artigo “Teoria da relatividade” da Wikipédia. Tem coisas que compreendo, outras que mais ou menos, e outras aonde não chego. Pode ser falta de entendimento, no sentido mais normal da expressão, mas é natural que seja pura e simplesmente falta de conhecimento. E é muito estranho… Eu, que até fui educado para “cientista”, vejam lá vocês, sou praticamente analfabeto em áreas como matemática e ciências naturais. É muito estranho… Faço parte dessa muita gente que há – uma grande parte da população educada do mundo, estou eu convencido… – que até sabe alguma coisinha de várias coisas, mas pouco ou nada sabe das leis que governam o universo…

Agora, feliz ou infelizmente – risquem o que não vos interessar –, não faço parte do grupo de gente que se indigna (é muito estranho...) quando alguém com um bocadinho de bom senso chama a atenção para o óbvio: que mais importante do que estudar as grandes epopeias é, hoje em dia, adquirir noções sólidas de matemática, física, química ou biologia (Steven Pinker acrescentaria estatística e economia à lista das prioridades), … que permitam, por exemplo, compreender a entrada “Teoria da relatividade” da Wikipedia…

É grave, o analfabetismo científico? Não sei se grave é a palavra certa… É um bocado triste, isso sim. Para mim, é. E digamos que dificulta a vida. Cria algumas incompetências, alguns desperdícios, algumas frustrações. Para mim, o importante nem é tanto sabermos todos discutir se o Grande Colisionador de Hadrões pode realmente criar buracos negros que nos suguem a todos (se bem que haja muitas questões técnicas de que era útil que houvesse maior entendimento por mais gente, numa altura em que andam por aí tantos debates interessantes e importantes sobre ambiente e bioética, entre outros…); para mim, o importante é mais termos todos uma ideia razoável de quando e como utilizar os serviços médicos, por exemplo…

P.S. Aconselho a leitura dum texto em que, em 1991, John Brockman, o director do site Edge, fazia o ponto da situação da relação entre cientistas e restantes intelectuais, e entre ambos estes grupos e o grande público. O texto diz respeito à situação nos EUA, mas cada um pode partir dele para uma reflexão sobre a situação nos países que conhece. Uma pessoa deve também interrogar-se sobre a evolução da divulgação científica e das relações entre a comunidade científica e os outros literato de 1991 para cá, nos EUA e no seu país – a situação é ou continua a ser como Brockman a descreveu neste texto? Eu acho que sim e que a desesperada atitude de muitos literatos à antiga em relação ao cânone cultural é um bocado como a que têm alguns franceses em relação à sua língua, recusando-se simplesmente a aceitar que o francês já não é uma língua realmente importante ao nível internacional…

Analfabetismo 2: Grande alogossilábico que o gajo me saíu…
É triste não saber ler, dizia uma cantiga da Banda do Casaco, e é bem verdade. Na China, por muito que o último relatório desenvolvimento humano do PNUD diga que tem uma literacy rate de 90,9, em sentido estrito nunca se colocou o problema do analfabetismo, porque os chineses não escrevem com alfabeto. Há é 10% de alogossilábicos ou de assinógrafos, uma coisa assim…Gostaram? Fui eu que inventei.

Eu sei que não se brinca com coisas sérias, mas aonde eu quero chegar é que talvez não fosse má ideia inventar palavras mais gerais do que alfabetizar, alfabetização e analfabetismo, porque às vezes pode dar jeito…. Nem sei como é que não houve ainda alguém (se calhar, já houve...) a acusar de etnocêntrica a maneira que nós temos de designar o saber ler e escrever...

Quem meter mãos a essa tarefa aproveite, já agora, para tentar arranjar também uma boa maneira de referir, com uma palavra só, como o inglês numeracy, as competências aritméticas elementares. Os tradutores agradecem.

29 de março de 2009

O que é e o que deve ser

Não são só as palavras que são como as cerejas. Os pensamentos também vêm todos agarrados uns aos outros, mesmo que não venham em forma de palavras. Quando, no outro dia, comecei um texto sobre os altos e baixos da vida com uma metáfora de atletismo, lembrei-me de que há quem ache mais do que apenas metafórica a relação entre as leis que regem o mundo físico e as leis que regem indivíduos e sociedades. Veio-me à cabeça um texto sobre dialéctica e transformações sociais – mais concretamente, sobre a necessidade de revoluções versus possibilidade de mudanças evolutivas – que traduzi há uns anos e em que se chamavam à conversa argumentos como a evaporação da água e os estados paradoxais dos fluidos supercríticos...

Não é minha intenção discutir aqui a utopia da universalidade das leis científicas e do querer aplicar-se à evolução das sociedades regras da física ou da química – ou, pelo menos, de se juntarem numa só discussão as duas coisas. A cereja que vinha agarrada a esse pensamento – e que é, essa sim, tema deste texto –, é que, para mim, o que importa discutir não é qual é a forma das mudanças sociais, se elas podem ou não ser assim ou assado. Não é sem interesse tentar saber se, ao longo da História, as revoluções têm trazido mudanças mais estáveis do que as transformações sociais menos bruscas, como não é sem interesse tentar saber, por exemplo, se temos ou não mecanismos inatos de reconhecimento de afinidade genética. Mas a moral (e a política, pelo menos para quem a encara, como eu, como uma parte da moral) não tem de se pronunciar sobre como o mundo é, mas sim como ele deve ser.

Pessoalmente, não tenho boas razões para acreditar que as transformações revolucionárias da sociedade trazem maiores e melhores mudanças do que as transformações menos bruscas. Pelo contrário, o que tenho visto do mundo leva-me a crer que as mudanças sociais mais sólidas foram sempre as que resultaram de evoluções mais graduais. Também não tenho razão nenhuma para crer que os mecanismos de reconhecimento de proximidade de parentesco e tipo físico, que é provável que existam, tenham uma força maior do que outros mecanismos igualmente naturais de criação de laços entre as pessoas. Mas, mesmo que uma pessoa, através de análises das mudanças de fase de uma substância ou de análises da História diferentes da minha, considere que tem boas razões para acreditar que as verdadeiras mudanças sociais acontecem sempre (leia-se, aconteceram sempre…) de forma brusca, ou mesmo que haja investigações que a convençam de que a discriminação dos que não são parecidos connosco é natural nos humanos, não decorre daí nenhuma necessidade de aprovar, por inelutáveis, as revoluções ou a discriminação racial. Essa pessoa pode sempre propor – e não seria a primeira a fazê-lo… – que se vá contra o que ela acredite ser a natureza das coisas; pode propor transformar a “natureza” das sociedades ou das pessoas, se achar que essa “natureza” não é como devia ser.

“Em vão”, dirão muitos, “porque, como explica a velha fábula, não se pode fazer com que um escorpião deixe de morder… O interesse de saber como é a estrutura da História, ou como é a natureza humana é que se escusa assim de propor o irrealizável…” Ao que eu respondo, antes de mais, que a estrutura da História está dentro da cabeça das pessoas, pelo que não há leis sociais exteriores aos seres humanos; e que a vantagem da natureza humana, seja lá ela qual for, em relação à natureza do escorpião é que ela é muitíssimo mais flexível. Se calhar, é mesmo por isso que nós temos moral e os escorpiões não, e é certamente por isso que não há nada “inevitável”, quando se fala do comportamento dos homens, e podemos sempre discutir o que devemos evitar – e também o que devemos cultivar.

Evidentemente, quando mais fundo for em nós o hábito ou a disposição inata que queremos alterar, mais difícil é essa mudança e mais há que ponderar a estratégia para lá chegar. Mas há quem recuse o sexo por decisão própria e quem aprenda a suicidar-se deixando de respirar – pelos vistos, o que é definitivamente natural no ser humano é não haver nele nada de tão definitivamente natural que não possa ser alterado. A famosa frase de Maio de 68 “Sejamos realistas, exijamos o impossível” não é tão desprovida de lógica como à partida parece, porque, como tem sido insistentemente defendido por aqueles que acham que o mundo pode ser melhorado, o que nos parece hoje impossível talvez não o pareça mesmo nada aos nossos netos. Quantas pessoas, mesmo as mais progressistas, não achariam há 100 anos que as relações entre os sexos ou as raças como elas existem hoje em certos grupos humanos seriam sempre impossíveis por violarem fundamentalmente a “natureza humana”?

É esta a beleza da política e do resto da moral: Podemos sempre propor, sem medo de estarmos a cair nalgum excesso de idealismo, aquilo que corresponde, nos comportamentos humanos, à ebulição da água a 50 ou a 150 graus. As mudanças sociais podem ser bruscas ou não, as relações entre raças, sexos e nações podem ser de todos os tipos, e as leis que regem o comércio também. Podem ser conforme nós as quisermos. Discutamos então não como são, mas sim como devem ser.

5 de março de 2009

Ciência e bom senso: la vie en prose (2)

Num interessante comentário que fez a um post meu, Igor Lobão afirmava o seguinte:

A ciência é, igualmente, uma estrutura simbólica que confere uma leitura sobre o real e uma leitura que é revisível. Aliás, é nesse sentido que Popper propôs a falsificabilidade. Direi mais. A ciência em si mesma é uma ficção, parte de construções (teóricas) que podem ou não funcionar. Podemos explicitar o carácter de ficção através dos números negativos ou dos números imaginários. Eles não existem no real, mas são necessários para tentar-se produzir uma interpretação ou uma intervenção no real. O pressuposto de Galileu, de que o real pode ser transcrito em linguagem matemática, ou de Max Plank, de que real é o que se pode medir, são apenas pressupostos de ordem metafísica e que por sinal radicam numa estrutura simbólica.

Como esta discussão saía um bocadinho fora da discussão sobre religião que tinha originado o referido post e a polémica que ele gerou e como esta é uma discussão em que me tenho empenhado muitas vezes, prometi dar continuação ao textozinho singelo que aqui comecei no outro dia sobre ciência e bom senso. Quero também deixar claro que não tenho, de modo algum, intenções de perpetuar a polémica com Igor Lobão em particular e que, se cito aqui o seu texto, é só porque ele é um de muitos exemplos de uma maneira relativamente divulgada de entender a ciência com que eu não concordo.

Posso imaginar muita gente já a bocejar e a pensar que não fez mal nenhum à divindade da sua eleição para estar a levar com mais um episódio desta infindável discussão. Eu compreendo quem assim reaja e prometo que hei-de voltar com posts mais interessantes sobre receitas de peixe cru ou falares regionais. Para já, no entanto, até porque o prometido é devido, quero defender mais uma vez a minha muito chã (talvez demasiado chã...) opinião sobre a questão:

Qualquer teoria, científica ou não, pode ter diversos graus de eficácia, mas não compreendo por que é que o facto de uma teoria científica poder não funcionar faz da ciência uma ficção. A ciência não é nenhuma ficção nem o contrário disso. A ciência é a designação comum de várias áreas de reflexão e actividade humana em que se procura descobrir qualquer coisa sobre o mundo. Não se distingue, provavelmente, em nenhum aspecto essencial, de qualquer investigação sobre o mundo, seja ela normalmente considerado “científica” ou não. Por exemplo, se eu perguntar como sai de uma mangueira enrolada um jacto de água (em curva ou a direito?), é uma pergunta de carácter científico que estou a fazer? O facto é que a resposta é só uma, e quem quer que alguma vez tenha regado um relvado com uma mangueira sabe bem qual é. Evidentemente, as leis que regem o fenómeno são passíveis de descrições científicas detalhadas, como tudo o que se passa no mundo, desde que haja conhecimentos para tal… Ficção? Estrutura simbólica? Talvez…

O que eu acho é que todo este discurso da ciência como quadro conceptual, como edifício simbólico, como uma “linguagem” criadora de uma realidade sua, este tipo de coisas, pura e simplesmente não se aplica ao trabalho que fazem os cientistas no seu dia-a-dia. É por isso que as pessoas que propõem estas elegantes definições do trabalho científico raramente – ou nunca… – fazem elas próprias trabalho científico e, para os cientistas, estas questões de facto não se põem.

“Meu amigo”, dirá a minha cara leitora, se for suficientemente paciente comigo para não me tratar de uma forma menos simpática, “mas isso já você disse aqui da outra vez, por favor não se repita…”

Repito, sim senhora, repito e repiso. E desenvolvo. O melhor que há neste caso são os exemplos. No post Ciência e bom-senso (1) dava meia dúzia de exemplos completamente ao acaso de questões passíveis de merecerem algum inquérito: Quais os efeitos do aumento ou da redução dos níveis de actividade dos receptores D2 de dopamina? Os dinossauros foram aniquilados por uma parte do asteróide Baptistina? Houve tribos célticas no Norte da Península Ibérica? As formas irregulares dos verbos são geradas através de regras computacionais? O Pedro entregou à Luísa o livro que ela diz que ele não lhe entregou? Existem fadas? Para puxar um bocado a brasa à minha sardinha (têm de compreender que não me sinto muito à vontade com receptores D2 de dopamina, dinossauros e asteróides, migrações da antiguidades e seres de fantasia…) desenvolvo aqui o inquérito à produção das formas irregulares dos verbos, sim?

Esclareço, antes de mais, que o que eu quero dizer com isto de produção das formas irregulares dos verbos – e se são ou não geradas por regras computacionais – é o seguinte: “O que é que se passa no meu cérebro quando digo fiz em vez de fazi?” Quero também esclarecer que, muito provavelmente, não há nenhuma boa razão para distinguir a maneira como são tratadas pelo nosso cérebro as formas irregulares dos verbos da maneira como são tratadas pelo cérebro outras formas irregulares (plurais irregulares, por exemplo), mas como eu formulei dessa maneira a questão na primeira parte desta conversa, por puro acaso e sem pensar na altura que havia de aqui voltar a pegar nela, é assim que fica a questão…

Então? Podemos começar por deixar de lado o que não faz grande sentido, aquilo que não há nenhuma razão para supor que possa ser verdade. Assim, não consideramos que é o nosso anjo-da-guarda ou a nossa fada-madrinha que nos segreda ao ouvido as formas irregulares. Também podemos assumir, com relativo à-vontade, que se deve passar o mesmo na cabeça de toda a gente, ou seja, que não é provável que o cérebro de uns funcione de maneira diferente, no que respeita à forma irregular dos verbos, do cérebro de outros…

Em seguida, vamos ver que possibilidades há. Em princípio, podemos ver o que foi pensado sobre o assunto. Tanto quanto eu sei, há três hipóteses de base: há quem diga que todas as formas, tanto regulares como irregulares, estão armazenadas na memória e nós vamos lá buscá-las quando as queremos utilizar; há quem diga que todas são geradas a partir de regras interiorizadas e que há “regras menores” interiorizadas para as formas irregulares; e há quem diga que as formas regulares são geradas por uma regra de acrescentar um elemento (um sufixo, nas línguas como o português ou o inglês), quando não há uma forma irregular armazenada na memória – e que estão, precisamente, armazenadas na memória de cada pessoa, as formas verbais irregulares que ela conhece.

Agora, ou aceitamos estas três possibilidades, ou propomos outra. Depende um bocado da nossa criatividade que, por sua vez, depende muito, em princípio, da quantidade de conhecimentos sobre o assunto e dos hábitos de reflexão sobre esta área… [Mas, quem sabe, talvez um olhar ingénuo sobre a questão possa gerar uma ideia genial… Às vezes, acontece.]

A partir daqui é necessário começar a investigar para ver qual das hipóteses (as três existentes ou a(s) que tivermos proposto) tem mais cabimento – ou se são todas de desprezar. [Em princípio, um resultado negativo, uma pura refutação da(s) hipótese(s) é um resultado tão válido como qualquer outro, por muito que nem todas as tradições académicas aceitem conclusões desse tipo nos trabalhos que exigem ou patrocinam…] Pode ir buscar-se evidência à maneira como estas formas são aprendidas pelas crianças, por exemplo, ao facto de que formas irregulares antes bem utilizadas (a criança dizia “eu fiz”) começam, a determinada altura, a ser substituídas por formas regulares erradas (a criança começa a dizer “eu fazi”), para depois voltarem a ser corrigidas (a criança volta a dizer “eu fiz” e vai dizer “eu fiz” o resto da vida); pode ir buscar-se evidência à comparação da história de duas línguas e à regularização dos neologismos, ou seja, ao facto de os verbos importados serem sempre regularizados; pode tentar-se observar directamente o cérebro e ver se há partes diferentes que “acendem” quando se usa uma forma regular e uma irregular; et cetera. De facto – eu não me quero agora alargar – pode ir buscar-se evidência a qualquer domínio, a qualquer lado e a qualquer tempo, desde que seja verdadeira evidência, isto é, que se possa discutir.

E podem entrar paixões, pode entrar a nossa ânsia de provar que queremos ter razão? Bom, se tivermos consciência delas e não fizermos os possíveis para sermos honestos na investigação, há aí uma imoralidade – uma imoralidade do mesmo tipo de conscientemente mentirmos em tribunal. Mas, se não tivermos consciência de que estamos a ser parciais? Não se pode fazer nada. Ou antes sim. Porque, como sempre em ciência ou em qualquer outra investigação séria e sensata, vale tudo desde que seja lógico e baseado em observáveis, para poder ser discutido. Se houver parcialidades e batotas, elas hão-de notar-se, a não ser que toda a gente que discuta connosco os nossos resultados sofra da mesma parcialidade que nós, o que é altamente improvável.

Poder-se-ia ir mais longe e em vez de afirmar «desde que seja verdadeira evidência, isto é, que se possa discutir», afirmar-se antes «desde que seja verdadeira evidência, isto é, que seja passível de ser refutada.» É a famosa teoria popperiana a que Igor Lobão faz referência, no excerto que dele citei, como “falsificabilidade”. Não gosto muito de falsificabilidade como tradução do conceito de Popper, porque leva facilmente os falantes do português que não conheçam a teoria de Popper, a pensar que, para ele, é científico o que se pode falsificar, quando de facto é de refutabilidade que se trata: segundo Popper, é científico o que há maneira de mostrar que é falso. O problema é que falsificar em português (tanto no uso que eu lhe conheço, como na definição que encontro no meu dicionário) não significa “mostrar que é falso”, ao contrário do falsify inglês, de que costuma ser uma (má) tradução. Neste sentido, e voltando à citação de Igor Lobão, o que é revisível não é exactamente a “leitura” que a “estrutura simbólica” faz do real (embora não me choque que se diga a coisa desta maneira), mas antes o valor de verdade de uma proposição. O que se passa mais concretamente é que se descobre que o que se pensava ser uma verdade antes, afinal não o é, porque se descobriu algo mais* sobre o assunto. A ciência, como toda a procura séria da verdade, está sempre disposta a reconhecer que errou…

Mas enfim, perdoem-me a excursão. Poder-se-ia ir mais longe, dizia eu, e afirmar que o critério de refutabilidade seria essencial. Pode, de facto, usar-se um truque assim, no geral, para avaliar da dose de bom senso de uma hipótese ou de uma proposta explicativa**. Mas não sei se vale a pena. Mesmo no uso desta regra geral é saudável ser comedido. Há tantas afirmações plausíveis e interessantes para a investigação do mundo que não são refutáveis em sentido estrito; e há tantas que, sendo refutáveis, nem vale a pena considerar, porque não há nenhuma razão para as crer interessantes…

Agora, digam-me: O procedimento descrito atrás para tentar saber alguma coisa de como são produzidas na cabeça da gente as formas irregulares dos verbos assenta numa estrutura simbólica específica? Como é que se podia pensar no assunto de outra maneira? Qual seria outra estrutura simbólica possível, “não-cientifica”? É claro que podia não se pensar no assunto – essa é sempre a alternativa à procura de conhecimento… E tirando isso?

Não me compreendam mal: a maior parte das questões que se discutem naquilo que se designa normalmente como trabalho científico são altamente especializadas e algumas são de uma grande complexidade. [Mesmo a que acabo de referir é suficientemente complexa para não haver acordo nenhum sobre a resposta a dar-lhe…]. Há, muitas vezes, questões metodológicas essenciais que podem influenciar resultados e que variam muito de área do saber para área do saber. Há muitas questões da prática de investigação que são levantadas por investigadores e que merecem discussão atenta e aprofundada. Ainda assim, as críticas à possibilidade de “objectividade” da ciência que a apresentam como “mais um quadro mental” que “produz as suas realidades”, tiveram uma enorme fortuna entre não cientistas, mas não vieram afectar, ao que eu sei, a maneira de fazer ciência. E é extremamente improvável que isso se deva a outra coisa que não seja às suas próprias características, isto é, ao facto de que as questões que levantam serem irrelevantes para o trabalho que os cientistas na realidade fazem. Dito de outra maneira, «“método científico” é uma expressão que nunca passa pelos lábios de um verdadeiro cientista»***. Porque quando são levantadas questões metodológicas directamente decorrentes do trabalho científico e com implicações sobre ele, há sempre quem as leve a sério e tenha em conta, no seu trabalho, essas mesmas implicações. Por exemplo, a questão da relação emotiva do cientista com a sua hipótese, de que eu falava atrás, é um problema real e constatado há muito tempo, para o qual também há já muito tempo que foram propostas soluções, como sejam a formulação à partida de várias hipóteses, se possível de maneira a que cada uma infirme as outras, e a análise das conclusões por um painel qualificado de advogados do diabo que não perfilhem a hipótese assumida pelo investigador. Mas não estamos aqui perante nada que seja verdade em ciência e não seja verdade fora dela. Os mesmos cuidados têm de se ter em qualquer inquérito para apurar a verdade, seja ele do domínio normalmente considerado científico ou não – embora, naturalmente, a própria natureza do que é investigado apele a problemas diferentes.

De uma forma talvez exageradamente poética, não sei, poder-se-ia até dizer que o facto de os problemas que se colocam ao investigador poderem variar em função do objecto de investigação é a prova mais concludente da dureza do real. Sim, porque o real é duro, para os cientistas e para as outras pessoas todas. Por isso é que não são só os cientistas a ter o cuidado de não ultrapassar em locais sem visibilidade…

Post Scriptum:
O real pode, em parte, ser transcrito em linguagem lógico-matemática. Mas é relativamente limitado o que se pode transcrever nessa linguagem – pelo menos enquanto não melhorarmos o método de transcrição… Também se calhar não vale a pena. A linguagem comum tem até agora chegado à investigação do mundo, se a acrescentarmos aqui e ali de termos novos, quando é necessário – como se faz, aliás, em todas as áreas de actividade humana – gastronomia, costura, serralharia…

O real também pode, em parte, ser medido. Mas há coisas do real que nós não sabemos medir e que não sabemos, por isso, se alguma vez haveremos de saber medir… Mas mesmo de medir coisas aparentemente tão imensuráveis como o sofrimento… já estivemos mais longe.

Não são só os números negativos e imaginários que não existem no real. Os números, como qualquer palavra (os números são palavras!), servem para dizer o real. Ou seja, na realidade o que há são seres contáveis e eu posso contá-los, positiva ou negativamente, da mesma forma que posso escolher uma lexicalização negativa ou positiva de uma proposição qualquer que descreva a realidade. Posso dizer “Não é verdade” ou “É falso”. Se tinha três maçãs e comi uma, posso transcrever “3-(+1)”, ou “3+(-1))”, quer dizer 3 menos uma maçã (que houve) ou 3 mais o desaparecimento de uma maçã… Evidentemente, pode ir-se muito longe na argumentação da exclusiva positividade do real. Nesse caso, não são só os números negativos que não existem, são todas as categorias negativas e afirmar que “ainda não comi” é uma descrição “desadequada” do real, porque não há ocorrências de “não-ingestão” de alimentos, apenas de ingestão de alimentos. Este facto simples tem às vezes implicações em discussões concretas (por exemplo, a impossibilidade de provar a não-existência de seres sobrenaturais) ou às vezes implicações metodológicas (por exemplo, na metodologia de identificação e resolução de problemas chamada Logical Framework Approach, exige-se a formulação positiva dos problemas, para não coincidir com a procura de soluções). Mas, na maior parte dos casos, este facto é sem interesse e determinado apenas pela escolha das palavras para dizer um estado de coisas – não há grande diferença entre dizer “o azul e o verde são cores diferentes” ou dizer “o azul e o verde não são a mesma cor”.

Dito isto, concordo que há uma grande ingenuidade nas definições de real de Galileu e Max Planck referidas. Mas é de perdoar-lhes essa ingenuidades. Afinal, Galileu e Max Planck, mesmo com as suas ingenuidades na definição do real, contribuíram muito mais, na minha modesta opinião, para o avanço do conhecimento humano do que muita gente com concepções talvez mais sofisticadas da realidade…
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* É difícil também aceitar a acusação que se faz à ciência de ser não-cumulativa – é óbvio que é cumulativa, porque quando as constatações anteriores relevantes para uma determinada investigação são suficientemente estáveis não se tenta verificá-las de novo, mas parte-se antes delas como pressupostos. Mais uma vez, a ciência não se distingue, nisto, de todo o conhecimento humano.

** Sim, porque é para avaliar o bom senso mais do que a cientificidade que serve a regra de Popper. Imaginem que, em vez da produção das formas irregulares dos verbos, o tema de investigação fosse outro: Foi a Siri que comeu o caju que estava em cima da casa de jantar? A minha “teoria”, por ter constatado que a Siri tinha sido a única pessoa a ir à sala depois de eu lá ter posto o caju e saber de antemão que a Siri é maluquinha por caju, era que sim. É refutável?? Claro que sim. Isso faz da minha teoria uma teoria científica? Talvez…

*** A frase é de Steven Pinker, na sua recensão do livro de divulgação científica The Canon, A Whirligig Tour of the Beautiful Basics of Science, de Natalie Angier (NYTimes, 27 de Maio de 2007). A frase completa de Pinker é: «Thankfully, [Natalie Angier] does not try to render something called “the scientific method” (a phrase that never passes the lips of a real scientist) but conveys the idea that science is just the attempt to understand the world with a special effort to ensuring that the things you say about it are true». [«Ainda bem que [Natalie Angier] não tenta expor uma coisa chamada “o método científico” (uma expressão que nunca passa pelos lábios de um verdadeiro cientista), mas transmite antes a ideia de que ciência é apenas a tentativa de compreender o mundo com um esforço especial para se certificar de que o que se diz sobre ele é verdade]. Ora aí está uma definição razoável do que fazem os cientistas.

25 de fevereiro de 2009

Ciência e bom senso: la vie en prose (1)

Está bastante difundida a concepção de ciência como forma de conhecimento “à parte”. É, em certa medida, compreensível essa ideia, porque muito do trabalho científico exige um grau de especialização que o torna inacessível à maior parte das pessoas fora da área técnica a que ele diz respeito (inclusive, naturalmente, a cientistas de outras áreas); mas essa distância é característica da especialização, não da ciência como tal: para mim, é incompreensível o trabalho de um compositor, por exemplo...

Na realidade, estou eu em crer, não há nada de específico na maneira de pensar ou de agir de um cientista nem no objecto do seu trabalho que distingam a ciência de outras áreas da actividade humana. Coloca-se um problema e tenta-se encontrar uma resposta, é só isso. E, sobretudo, não há nenhuma maneira especial de confirmar ou infirmar as proposições a que o trabalho científico vai chegando. Quer se trate dos efeitos do aumento ou da redução dos níveis de receptores D2 de dopamina, da aniquilação dos dinossauros por uma parte do asteróide Baptistina, da presença de tribos célticas no Norte da Península Ibérica, da geração das formas irregulares dos verbos através de regras computacionais da nossa mente, de o Pedro ter devolvido à Luísa o livro que ela diz que ele não lhe devolveu, ou da existência de fadas (deixo-vos decidir o que, desta lista, é ou não passível de ser estudado “cientificamente”…), as afirmações que se fazem são baseadas em observáveis e outras evidências ou não, lógicas ou não, e, em última análise, verdadeiras ou falsas [Em última análise, digo bem, o que não significa que seja óbvio saber o que é verdade e o que não é. A plausibilidade do valor de verdade e, sobretudo, a possibilidade do valor de verdade, no entanto, são normalmente mais óbvias do que muitos pretendem!].

Ser cuidadoso e sistemático, usar instâncias de controlo e duvidar de generalizações fáceis são características de todo o raciocínio rigoroso, mas não delineiam bem a fronteira (que eu digo que, no fundo, não há) entre ciência e não-ciência. Até porque muitas teorias que, numa determinada altura, são exclusivamente aceites pela comunidade científica – ou pela comunidade académica em geral –, passam, mais tarde a fazer parte do chamado senso comum.

23 de fevereiro de 2008

Dos malefícios da televisão e da monarquia

A Karen, a minha mulher, está com paludismo – ou malária, como é aqui mais conhecida a doença. Já é a segunda vez, aliás, que ela apanha essa porcaria. E há aqui um mistério…

Bom, que ela apanhe a doença não tem nada de misterioso. A malária é endémica na região, toda a gente apanha malária… ou quase. Os miúdos e eu, por exemplo, felizmente ainda não apanhámos. Em parte, por sorte, provavelmente; em parte porque eu tenho muito cuidado em não deixar entrar mosquitos aqui em casa; e em parte porque vivemos num ambiente relativamente protegido. Os mosquitos que transportam o parasita da malária não voam muito alto e esta espécie de fortaleza onde nós vivemos está separada por muros altos do resto do bairro, que é donde eles têm mais possibilidades de nos trazer as detestáveis bichezas. O mistério é, então: por que é que a Karen apanha malária e nós não?

O plasmódio que causa a malária tem um período de incubação de cerca de duas semanas e, quando fazemos as contas, de ambas as vezes é quase certo que ela a apanhou aqui. E é isso que é estranho. Por alguma razão que eu não sei explicar, os mosquitos preferem sempre, sempre preferiram, o meu sangue ao dela. Onde há mosquitos, sou sempre muito mais picado do que ela. Se houvesse mosquitos a esconderem-se no quarto à espera de a gente estar a dormir para nos ferrarem, haviam de me picar mais a mim do que a ela, com toda a certeza. Além disso, já desde Outubro, que é quando começa aqui o calor, que dormimos sempre com o ar condicionado ligado, e os mosquitos não costumam gostar de ar condicionado... O facto é que ela foi picada. Porque sentiu as picadas, mas, sobretudo, porque está com malária, e a malária não se apanha a comer carne de porco mal lavada, como dizia um empregado que nós tivemos na Alta Zambézia…

A partir das 7:30 ou 8:00 da noite, que é quando os miúdos vão para a cama, fechamos sempre a porta que divide a parte da casa onde estão os quartos e o meu escritório da cozinha e da sala de estar, precisamente para não se perder o fresquinho do ar condicionado nos quartos. Muitas noites, enquanto eu fico aqui a escrever, a Karen vai para a sala ver televisão. A televisão é uma coisa nova cá em casa, e é coisa nova na nossa família – tanto para os miúdos como para mim e para a Karen. Nunca nenhum de nós teve televisão em solteiro, e, depois de casados, também nos recusámos sempre a ter televisão. Há uns três ou quatro anos, em Copenhaga, os tipos da televisão não nos acreditaram quando, ao exigirem-nos uma pipa de massa em taxas de televisão atrasadas, nós lhes respondemos que não víamos razão para pagar taxa por uma coisa que não tínhamos. “Não têm televisão?!”, disse o homem das taxas à Karen, ao telefone. “Não pode ser, não há ninguém que não tenha televisão…” E tinha razão. É só uma questão de esperar o suficiente. Agora, sim, já temos televisão, como toda a gente… E o resultado é este:

O mais provável é que seja lá em baixo que os mosquitos lhe injectem a doença, enquanto ela está a ver televisão. E eu, na minha escrita, aqui em cima no escritório, estou protegido. O que prova que a escrita, afinal, não é uma actividade tão malsã como se julga; e que a televisão, como se sabe há muito tempo, só faz mal às pessoas. Pode até ser responsável da transmissão de malária!

É claro, agora que descobri como a televisão contribui para a propagação do paludismo, a principal causa de morte do planeta, tenho de revelar ao mundo a minha fantástica descoberta. O melhor é mandar um artigo para o Lancet. Os gajos eram capazes de aceitar. Lembro-me de que há uns anos um amigo me mandou um artigo de um tal Kesteloot, publicado nessa revista, em que este investigador, para explicar o mistério da elevada taxa de mortalidade das mulheres dinamarquesas, de que o vício do tabaco não deve ser a menor das causas, dizia que a altíssima percentagem de fumadoras na Dinamarca se devia à (má) influência da rainha “como modelo de comportamento”. Hão-de concordar que a minha tese sobre a influência da televisão na propagação da malária não tem de modo nenhum menos cientificidade do que a teoria de Kesteloot – e tem seguramente mais interesse para o futuro da humanidade.

Agora um aparte, baixinho: Eu fiquei todo contente quando li o tal artigo no Lancet. A sério. Republicano empedernido que sou, a única ocasião em que não exijo rigor a um artigo científico é quando é para dizer mal de um(a) monarca…

9 de fevereiro de 2008

A morte de deus e outras questões morais

Dizia-me noutro dia um amigo que quando escrevo sobre religião sou panfletário. Suspeito, pelo tom em que ele o dizia, que ser panfletário não é nada que ele louve… Mas eu sim. Quando escrevo sobre religião, o que eu quero mesmo é ser panfletário. Mais um piqu’nino (sic) texto panfletário sobre religião:

Não tenho nada contra as pessoas quererem convencer-me da verdade da sua religião, desde que não me obriguem a aceitá-la. Vejam bem, eu até acho muito esquisito – e moralmente inaceitável – que se critiquem os monoteísmos oriundos do Médio Oriente por incluírem uma ideia de missão e se louve a ausência dessa ideia noutras religiões*. De facto, o que é que há de louvável em acreditar que se possui a verdade (todas as pessoas religiosas acreditam nisso, é uma condição da religião) e guardá-la apenas para os seus? “Desde que eu vá para o Céu (ou “desde que eu reencarne como monge”, para o caso tanto faz), os outros podem ir para o Inferno”. É como inventar a cura de uma doença e partilhá-la apenas entre os amigos… O que é inadmissível é a imposição de ideias, não o tentar convencer-se os outros da sua fé – a tentativa de convencer o outro do que achamos que é bom, essa, é a única atitude altruísta responsável, a base da democracia e a única maneira de o mundo ir melhorando alguma coisinha…

Mas o problema é que agora, pelo menos na Europa, é a soberba que impera. A maior parte dos cristãos, por exemplo, deixou de argumentar pela verdade da sua fé. Agora, já não se tenta provar a existência de deus. Agora, diz-se apenas: “Bom, tu dizes o que quiseres, mas isso não me interessa para nada, porque eu creio!” A atitude é de um paternalismo confrangedor. Há, neste sentido, algum retrocesso em relação à tradição de discussão racional da coisa divina. E eu tenho, ainda assim, mais respeito por Tomás de Aquino ou Santo Agostinho do que tenho pelos defensores do “cada um acredita no que quer e isso não se discute”. Uma ideia que nos vem logo à cabeça é a de que a culpa é de Lutero e da sua ideia estranha de que “só a fé salva”… Mas a verdadeira razão é outra: é que às pessoas religiosas já não resta senão fugir à discussão...

Em estados anteriores do conhecimento humano, a ideia de deus era uma boa hipótese de explicação do universo. Não era a única, mas não era pior do que as outras. Se recuarmos muito no tempo, até era possivelmente a melhor. O que se passou nos últimos séculos é que a religião perdeu claramente a sua batalha de ideias com a ciência. Por exemplo: não há ninguém que tenha conhecimentos científicos minimamente sólidos e possa acreditar no criacionismo. A não ser por cegueira, por uma cegueira instalada na sua mente antes de aprender ciência. É que, como tem sido argumentado muitas vezes, para quem tenha consciência das questões que se colocam quando se pretende explicar a origem do universo, torna-se óbvio que a hipótese de deus complica muitíssimo mais do que explica. A célebre frase de Nietzsche “Deus morreu” aplica-se, mais do que a qualquer outra coisa, à longa discussão racional entre crentes e não crentes que percorreu a história da Europa: a ciência matou deus.

No fundo, a atitude do “deixem-me em paz com as minhas crenças, não quero discutir” tem um paralelo na atitude daqueles racistas que, quando perderam a batalha científica, passaram a ser “racialistas”: “Está bem, não se pode provar a superioridade da nossa raça, mas podemos querer que, por muito que sejam todas iguais, as raças vivam separadas!”

Que respeito se há-de ter, digam-me lá, pela falta de respeito?
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* Até que ponto é que se trata de etno-romantismo e até que ponto é que há mesmo religiões sem a ideia de missão, eis uma discussão que não cabe agora aqui. Seria interessante averiguar se a ausência de missão não está sempre associada à ideia racista de que uma determinada religião é só para um povo ou à falta de poder (económico, militar) para divulgar ou impor essa religião…

8 de fevereiro de 2008

Evolução e revolução, fama e anonimato: facas de desossar e facas de fazer filetes

O mundo parece que avança sempre aos sacões. Ou quase sempre. Os cabelos brancos não vão aparecendo um a um. De repente, aparece uma mão-cheia deles e depois podem passar-se semanas em que não se nota mais alteração nenhuma. As crianças também é aos pulos que crescem. Há períodos em que crescem de repente e depois são capazes de não crescer nada durante algum tempo, até outro período de crescimento. Quer dizer, as coisas não são bem assim… Na realidade, o que há são períodos de crescimento mais rápido e períodos de crescimento mais lento. Mas é assim que um observador desprevenido vê a coisa – solavancos, rupturas… E, como o cabelo e os miúdos, as sociedades. A economia, os sistemas sociais, tudo está em permanente mudança, mas há períodos em que a mudança é óbvia, em que se vê um salto. Evolução, revolução, é já velha a discussão…

O mesmo se passa, claro está, com o saber e com a aplicação prática desse saber. De vez em quando, há uma revolução, um avanço repentino. E alguém que é responsável da descoberta ou da invenção. Se for modesto, o que esse inovador dirá é que o avanço só é possível por ele se apoiar “nos ombros dos gigantes” que trabalharam no mesmo assunto antes dele e graças ao trabalho de muita gente anónima que faz a parte chata do trabalho de acumulação do conhecimento: alimentar e preservar as imensas bases de dados que permitem as grandes conclusões revolucionárias. É como os detectives e os seus ajudantes, a mesma coisa – tem de haver quem verifique impressões digitais e registos de matrículas de automóveis para depois os cherlocolmes poderem fazer as suas brilhantes deduções e descobrir que o assassino, afinal, não era o mordomo, mas sim o namorado da amante.

Quando se trata de conhecimentos, técnicas ou criações estéticas que se foram desenvolvendo em cada sociedade ao longo de muito tempo, temos a sensação de que essa “cultura de um povo” não é produto do trabalho de ninguém em especial. A música tradicional é um exemplo óbvio. Temos a impressão de que uma canção tradicional não foi escrita por ninguém, que foi “o povo” que fez a música e a letra, grande compositor e grande poeta que ele é. Mas é uma ilusão. Foi uma pessoa concreta que criou uma melodia e uma pessoa concreta que fez uma letra, e foram outras pessoas concretas que introduziram alterações concretas nessa letra e nessa música. O mesmo com o mobiliário tradicional, os bolos tradicionais e a maneira tradicional de matar um porco. Tradicional quer dizer “de autor desconhecido”. Sabemos quem inventou as amêijoas à Bulhão Pato, mas, se o Bulhão Pato não fosse quem era, as amêijoas seriam hoje, provavelmente, amêijoas à lisboeta ou uma coisa assim.

Pois é... Uma pessoa maravilha-se com o génio dos Newtons, dos Darwins, dos Edisons ou dos Franklins, mas esquece-se sempre de se maravilhar com o génio dos génios desconhecidos. Os vários tipos de facas, por exemplo, quem os terá inventado? Alguém foi, ou meia dúzia de pessoas, no máximo, porque não é nada provável que a catana, por hipótese (ponhamos que é essa a forma primitiva do objecto faca, que não é de certeza…), tenha “evoluído”, à razão de milímetro por geração, até se diferenciar em cutelo, faca de desossar, faca de serrilha para pão e faca de filetes. Mas quem? O facto é que uma faca de desossar é uma obra de se lhe tirar o chapéu, uma maravilha técnica. Ou uma faca de fazer filetes. Experimentem fazer filetes com uma faca rígida de carne ou de legumes ou desossar um peru assado com uma faca de fruta ou de pão e verão se eu não tenho razão…