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13 de março de 2013

A neve da Ütopya


Nos últimos meses, tenho visto em vários sítios a imagem acima. Curioso, fui pesquisar no Google images a sua origem. E descobri outras imagens do mesmo lugar. Uma delas tinha neve:
Surpreendeu-me a neve. Por um lado, tinha entretanto descoberto que o painel era da Universidade de Başkent em Ancara[1] e eu não sabia que nevava em Ancara. (Mas fui informar-me e agora já sei que sim, que neva.) Por outro lado, é simplesmente estranho para mim associar neve à Utopia. Preconceito apenas, falta de hábito de ver lado a lado as duas coisas. O painel diz claramente que a Utopia está a uma distância infinita e é claro que há sítios com neve a uma distância infinita de Utopia. A Utopia é que não tem neve, não são os sítios onde ela é indicada.
A Utopia não tem neve? A Utopia não tem neve porquê?, há de haver quem pergunte. Não é até comum elevar-se a ideal os países do Norte, com a sua riqueza e os seus índices de bem-estar e felicidade? Bom, se utopia for sinónimo de “ideal”, com certeza que há utopias com neve. E sem ela, e com todo o tipo de climas e gentes e culturas. Eu é que me acostumei a dar à palavra utopia um sentido mais restrito e é sempre esse sentido que me vem à mente quando a ouço:
Quando Thomas More publicou, em 1518, o seu livro A utopia ou tratado da melhor forma de governo, inaugurou um modelo, em parte narrativo mas sobretudo filosófico, político e moral, que teve, durante mais de dois séculos, uma fortuna imensa ‒ foram escritas dezenas de obras, em muitos aspetos parecidas entre elas e com a obra de More, que constituíram um dos polos das ideologias e dos imaginários europeus do período clássico. A história é praticamente sempre igual: um viajante europeu chega a uma ilha, fora dos espaços conhecidos na Europa, onde encontra uma sociedade “perfeita”. E apresenta depois essa sociedade perfeita aos seus conterrâneos, mostrando-lhes, com a perfeição dessa sociedade distante, as contradições e os defeitos da sua própria sociedade. É sempre neste modelo, com ideias e imagens bem definidas, que penso, quando penso em utopia, porque me dediquei, durante alguns anos, a estudá-lo. E é também por isso que a palavra não tem sempre, para mim, a conotação positiva que tem para a maior parte das pessoas: se há aspetos que me agradam nestas utopias, há também outros que me desagradam muito…
Mas de que ideal dão conta essas narrativas, afinal? O que têm em comum entre elas essas sociedades ideais que os viajantes europeus encontram ao cabo de longas viagens imaginárias? É obviamente impossível listar aqui todas as suas características, mas podem resumir-se algumas linhas de força do ideal utópico:
Antes de mais, a utopia é sempre uma ilha (se não literalmente, pelo menos simbolicamente), às vezes murada, sempre de difícil acesso. Obsessivamente geométrica, é sempre uma cidade ou um conjunto delas, construída em planícies artificiais depois de arrasadas as primitivas florestas. É neste cenário que seres uniformizados (ao ponto de usarem, de facto, uniformes) vivem vidas “perfeitas” porque aboliram de vez o mal supremo da irracionalidade e as suas vidas são reguladas até ao mínimo detalhe por leis “perfeitas” ‒ que muitas vezes lhes foram oferecidas por um sábio legislador e que eles aceitaram de bom grado, de tão justas que eram.
Tudo é lógico e prático, tudo está regulamentado racionalmente. Este é, talvez, o traço mais universal da Utopia. Até o amor e o sexo são regulados logicamente, sempre de acordo com os interesses da comunidade. A religião também é sempre inabalável de razão, tingida de cientismo e filosofia. E as línguas que se falam nas utopias são, também elas, além de perfeitas na sua capacidade de fazer coincidir a palavra com o que ela nomeia, de uma regularidade impressionante, matemática.
Outra ideia fundamental da utopia é a de educação. Os utopistas atribuem à Natureza tudo o que há de mau no mundo (os sentimentos, a mentira, a inveja, o gosto do excesso e do supérfluo, o cultivar da aparência, etc.) e é, pois, preciso educar para a cidadania. A educação utópica é um dos seus aspetos revolucionários: é muitas vezes universal e desde o início da infância, e é ao mesmo tempo cívica e profissional. Mas não é só para ensinar razão e cidadania que a educação serve ‒ serve também para ensinar a obedecer, a ser ajuizado e dócil e... bem condicionado.
Ideal igualitário ‒ embora as hierarquias existam sempre e sejam bem visíveis e bem respeitadas, por “necessidade” do sistema de governo ‒, a propriedade privada não existe na utopia, até porque não contam o privado nem o indivíduo, apenas a sociedade.
A felicidade próspera da utopia é reservada aos habitantes dessa ilha e os contactos com os povos vizinhos, ameaçadores, quando os há, limitam-se a relações comerciais e à guerra (a educação militar é, aliás, uma componente importante da educação cívica utópica). É uma ilha, não o esqueçamos. Algures na zona quente do globo.
Estão a ver onde é que eu queria chegar? A Utopia de Thomas More, a Nova Atlântida de Francis Bacon, a Terra Austral de Gabriel de Foigny e outras Terras Austrais, a maioria das utopias, enfim, não fica em zonas frias. Provavelmente, pode pensar-se, porque os climas quentes são o ideal de todos os humanos, animais tropicais que nós somos. É certo[2]. Mas é também porque as Utopias são, pelo menos em parte, o Novo Mundo, os novos mundos a colonizar. Há um pormenor que me parece fundamental no edifício utópico (ou, devo insistir, num número significativo de utopias, já que não é um traço constante) e que tem sido muitas vezes ignorado: é que as utopias foram erigidas a partir da dominação ou da destruição de um povo “selvagem” que habitava anteriormente as ilhas utópicas. Não é que a utopia apresente diretamente uma justificação, ou que faça diretamente a apologia, da dominação, do extermínio ou da civilização dos povos “selvagens”. Mas isso está inscrito na sua ideologia e no seu imaginário, segundo os quais o “natural” deve ser civilizado, racionalizado.
A utopia foi, como disse, um dos polos das ideologias e dos imaginários europeus do período clássico. Ora o polo oposto é, precisamente, a idealização das sociedades “selvagens”, que é a exata negação de tudo o que a utopia preconiza: o ideal primitivista funda-se no louvor da ausência[3] de leis, de educação, de necessidade de racionalização; no louvor, enfim, de uma “generosa ordem natural”. Há, porém, um ponto comum aos dois ideais, uma ideia fundamental da radicalidade igualitarista do período clássico ‒ a ausência de propriedade. Mais simpático aos olhos de muitos de nós que a estrutura rígida, tentacular e totalitária que a utopia em grande parte é, este ideal contrário, primitivista, é um produto, afinal, da incapacidade de compreender o Outro (nesta época, sobretudo o nativo americano).
A partir do momento em que a ideia de História vem ocupar o lugar central do pensamento europeu, a utopia vai, progressivamente, deixando de se situar numa ilha distante para se situar num futuro mais ou menos longínquo. O “selvagem”, cada vez menos louvado como ideal, é deslocado pelo pensamento europeu para o extremo oposto da História: tornado “primitivo”, passa a habitar um tempo “anterior” ao nosso e, por isso mesmo, “inferior”.
No século XX, alguns intelectuais europeus começam a desmontar estas ideias e a utopia revela então outra face: em textos como o famoso 1984 de Orwell, torna-se distopia. Mas, no fundo, a distopia não é muito diferente da utopia ‒ foi o olhar sobre a utopia que mudou...
[Toda a exposição atrás é demasiado breve e demasiado esquemática e faltam-lhe, por isso, muitas nuances interessantes. Paciência. Num texto de blogue, porém, não cabe muito mais, acho eu. Muita da informação que aqui apresento é em segunda mão, porque eu, embora tenha lido algumas utopias, não as li em número suficiente para tirar tão abrangentes conclusões. O modelo de oposição entre utopia e primitivismo vem de Christian Marouby (Utopie et primitivisme. Essai sur l’imaginaire anthropologique à l’âge classique, Paris: Seuil, 1990, uma obra que me influenciou muito e que recomendo vivamente). Na Travessa, há textos sobre as línguas das Utopias aqui e aqui, e estou a pensar fazer um texto mais desenvolvido sobre esse tema.]
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[1] Não tenho a certeza absoluta, mas tenho boas razões para acreditar que se trata de um trabalho de Furkan Şener que se encontra (ou encontrou) na Universidade de Başkent em Ancara (ver aqui ou aqui)
[2] Um utopista, Robert Burton, di-lo até muito diretamente no capítulo "An Utopia of Mine Owne" da sua Anatomia da Melancolia de 1621: Para ele, uma má situação geográfica era um dos fatores que causava a “melancolia” dos reinos que conhecia, pelo que a sua Utopia seria fundada num lugar remoto ‒ na Terra Australis Incognita, numa ilha do Pacífico Sul, no interior da América ou no Norte de África ‒  a cerca de 45 graus de latitude, para ter um clima temperado. 45 graus de latitude significa a utópica mesura: exatamente a meio caminho entre o polo e o equador! Não é dos paralelos 45 reais que se trata. Robert Burton talvez nem soubesse que regiões efetivamente atravessavam…
[3] É muito curioso verificar que este ideal primitivista é, ao contrário, da Utopia, construído negativamente: os povos naturais são bons porque não têm certas coisas (propriedade, hierarquias, leis, governo, roupas, pudor, etc.), que o primitivista identifica como culpadas do mal-estar europeu. A definição negativa do ideal não é nenhuma inovação da literatura primitivista, mas antes retomada do motivo clássico da Idade de Ouro, que também é sempre descrita negativamente.

12 de setembro de 2008

O diário marciano (mais um texto demasiado comprido)

Um ideal muito antigo é o da língua que diga melhor o mundo e a alma do que as línguas que de facto existem. A ideia é utópica no sentido primeiro da palavra, uma vez que está de facto presente em várias utopias, a começar, aliás, pela de Thomas More, que inaugura o género. Nos relatos de viagens imaginários em que um viajante europeu encontra uma sociedade ideal, essa sociedade tem muitas vezes, além de uma organização social melhor do que a dos países conhecidos, também uma língua mais perfeita do que as línguas conhecidas.

Se o texto de Thomas More apenas nos diz da língua da ilha de Utopia que é uma “língua rica, harmoniosa, que é fiel intérprete do pensamento”, já Gabriel de Foigny, outro utopista, faz uma descrição bem mais detalhada, em La Terre australe connue, da língua falada pelos povos Hermafroditas que habitam essa Terra Austral. É uma língua que tem, entre outras, a particularidade interessantíssima de fazer corresponder a cada unidade fonológica uma unidade semântica. Assim, as vogais referem as coisas que não têm nenhum composição” (“o primeiro e o mais nobre [elemento] é o fogo que eles exprimem por a; o seguinte é o ar significado por e; o terceiro, o sal, explicado por o; o quarto, a água, a que chamam i; o quinto, a terra, que designam u”) e, das 36 consoantes, 18 ou 19 das quais não podem ser explicadas pelas consoantes europeias, cada uma significa “uma qualidade que convém às coisas significadas pelas vogais. Assim, b indica claro; ç, quente; d, desagradável; f, seco, etc.” Desta maneira, “eles formam tão perfeitamente os seus nomes que, ao ouvi-los, se concebe imediatamente a explicação e a definição do que estes designam. (...) Chamam às estrelas “aeb”, palavra que explica a sua composição de fogo e água e claridade; chamam ao sol “aab”; às aves, “oef”, marca da sua solidez e da sua matéria aérea e seca. Ao homem, chamam “uel”, que significa a sua substância em parte aérea e em parte terrestre, acompanhada de humidade. (...) A vantagem desta maneira de falar é que uma pessoa se torna filósofa ao aprender as primeiras palavras que pronuncia e que não se pode nomear coisa nenhuma neste país sem explicar ao mesmo tempo a sua natureza; o que parecerá milagroso a quem não conheça o segredo do seu alfabeto e da composição das suas palavras. (...) Quando se ensina uma criança, explica-se-lhe o significado de todos os elementos e, quando ela os junta, aprende ao mesmo tempo a essência e a natureza de todas as coisas que diz”.

Uma descrição mais exaustiva ainda é a que faz Denis Vairasse d’Allais, na sua Histoire des Sévarambes, da língua desse povo imaginado. Trata-se de um idioma de que se destaca a adequação fonética “à natureza das coisas que querem exprimir”. De facto, os Sevarambos têm dez vogais e trinta consoantes distintas (...) e cada um [desses sons sons] tem o seu carácter particular. Uns têm um tom de gravidade; outros são suaves e graciosos. Alguns servem para exprimir as coisas baixas e desprezíveis, e outros, as grandes e distintas (...). [Os Sevarambos] estudaram muito a natureza das coisas que tentam exprimir através de sons conformes, nunca se servindo de sílabas longas e duras para exprimir coisas doces e miúdas, nem de sílabas pequenas e delicadas para representar coisas grandes, fortes ou rudes, como faz a maior parte das outras nações. Outro pormenor interessante da língua dos Sevarambos é o facto de ter uma grande quantidade de advérbios de tempo, de lugar, de modo e várias preposições (mais de cem, “que contêm mais sentido numa palavra do que nós conseguimos exprimir numa linha inteira”) que, juntando-se aos nomes e aos verbos, exprimem maravilhosamente bem as suas diferenças e propriedades”.

Uma forma lógica de construir as palavras a partir de partículas básicas com significados essenciais e uma adequação perfeita do som da palavra ao que designa. Eis duas vertentes fundamentais das línguas perfeitas, na utopia ou fora dela. Dou agora a palavra a um viajante de outras expedições imaginárias em geografias ainda mais fantásticas do que mares distantes. O texto que se segue é de Cyrano de Bergerac e é extraído de Les Etats et Empires du Soleil. O homem de que ele fala é um habitante de um satélite que o narrador encontra na sua viagem para o Sol:
Encontrei um homenzinho todo nu a descansar [que] discursou durante três boas horas numa língua que estou certo de nunca ter ouvido antes, e que não tem nenhuma relação com nenhuma língua deste mundo, a qual todavia compreendi mais depressa e mais inteligivelmente que aquela que falava a minha ama. O homem explicou-me, quando o inquiri sobre algo tão maravilhoso, que nas ciências havia uma verdade, fora da qual estamos sempre longe da facilidade; que quanto mais um idioma se afasta dessa verdade, mais ele lhe descobria além da concepção e de menos fácil inteligência.
“Da mesma forma”, continuou ele, “na música não se encontra essa verdade sem que a alma imediatamente empolgada não se dirija cegamente para ela. Não vemos essa verdade, mas sentimos que a natureza a vê; e sem conseguir compreender de que maneira somos por ela absorvidos, ela não deixa de nos encantar, e se nos cruzássemos com ela, não notaríamos que ali estava. Também com as línguas se passa o mesmo. Quem encontra essa verdade de letras, de palavras, e de sequência, não pode, ao exprimir-se, ficar aquém do que concebe: fala sempre conforme o seu pensamento; e é por não ter o conhecimento desse idioma perfeito que não chegais aonde quereis, por não conhecer nem a ordem nem as palavras que consigam explicar o que imaginais”. Disse-lhe que o primeiro homem do nosso mundo se tinha indubitavelmente servido dessa língua matriz, porque cada nome que ele tinha dado a cada coisa exprimia a sua essência. Ele interrompeu-me e continuou: “Ela não é apenas necessária para exprimir tudo o que o espírito concebe, mas sem ela não se pode ser entendido por todos. Como este idioma é o instinto ou a voz da natureza, deve ser inteligível a tudo o que vive sob a domínio da natureza (...)”.
O texto resume de uma forma admirável o mito da língua matriz, para usar a expressão de Cyrano de Bergerac, que me parece extremamente feliz e cheia de significado. A língua matriz é aquela que, decorrendo directamente da verdade, e, por isso, com carácter universal, diz fielmente, por um lado, o pensamento, por outro lado, o mundo. O mundo e a língua coincidem porque as coisas foram nomeadas de acordo com a sua essência.

Três séculos mais tarde, George Orwell, que a maior parte de nós considera um materialista duro, acredita ainda nesse ingénuo cratilismo, se bem que com um carácter menos universal. Segundo ele, a literatura só é necessária porque as palavras das línguas existentes se afastaram das suas formas “naturais”:
Parece-me provável que uma palavra, mesmo uma palavra que ainda não exista, tenha, digamos assim, uma forma natural – ou antes, várias formas naturais em várias línguas. Se as línguas fossem verdadeiramente expressivas, não haveria necessidade de jogar com os sons de palavras como fazemos, mas suponho que deve haver sempre alguma correlação entre o som de uma palavra e o seu significado.
George Orwell acredita também que, com rigor e racionalidade, é possível construir palavras novas que digam melhor as coisas:
A solução que sugiro é inventar novas palavras tão deliberadamente como se inventássemos novas peças para um motor de automóvel. Suponham que existia um vocabulário que pudesse exprimir com rigor a vida mental, ou uma grande parte dela. Suponham que não tinha de haver nenhum paralisante sentimento de que a vida é inexprimível, nem artimanhas com truques artísticos; e que exprimir o que se quer dizer era simplesmente uma questão de seleccionar as palavras adequadas e pô-las nos seu lugar – como resolver uma equação em álgebra. Creio que as vantagens seriam óbvias. (…)
Agora, os meios. Observa-se um exemplo da invenção bem sucedida de palavras, por muito que crua e em pequena escala, entre os membros de famílias extensas. Todas as famílias grandes têm duas ou três palavras que lhes são próprias – palavras que eles inventaram e que transmitem significados tornados mais subtis e que não se encontram nos dicionários. Dizem “O Sr. Ferreira é um homem muito —”, usando alguma palavra de fabrico caseiro, e os outros compreendem perfeitamente. Aqui, portanto, no seio da família, existe um adjectivo que preenche uma das muitas lacunas que o dicionário não preenche. O que permite à família inventar estas palavras é a base da sua experiência partilhada. Sem experiência comum, é claro que nenhuma palavra pode significar seja o que for. Se me perguntarem “A que cheira a bergamota?”, eu digo “Tem um cheiro parecido com o da verbena”. E quem conheça o cheiro da verbena está em condições de me compreender aproximadamente. O método de inventar palavras, portanto, é o método da analogia baseada num conhecimento comum inequívoco; uma pessoa tem de ter padrões a que se possa referir sem possibilidade de ser mal entendido, da mesma maneira que se pode referir a algo físico como o cheiro da verbena. Com efeito, este método deve reduzir-se a dar às palavras uma existência física (provavelmente visível). Falar meramente de definições é fútil; isso pode observar-se sempre que se tenta definir uma das palavras usadas pelos críticos literários (por exemplo, sentimental, ordinário, mórbido, etc.). Todas palavras sem significado – ou antes, com um significado diferente para cada pessoa que as usa. O que é necessário é mostrar o significado de alguma forma inequívoca, e depois, quando várias pessoas o tiverem identificado na sua própria mente e reconhecido como digno de ser nomeado, dar-lhe um nome. A questão é simplesmente arranjar uma maneira de dar ao pensamento uma existência objectiva.
Adianto, para quem tenha lido ou venha a ler na íntegra o texto de Orwell, que, à proposta de formar um clube para inventar melhores palavras, coloco versões um pouco modificadas das objecções que ele prevê que lhe coloquem – e outras! O próprio Orwell reconhece, aliás, no fim do texto, que “há pontos fracos no [seu] argumento” e que “muito [do que escreveu] é lugar comum”. Além de que, por falta de exemplos concretos ou de uma descrição mais detalhada do processo proposto, se fica (eu fico, pelo menos…) sem saber aonde é que, ao certo, ao certo, ele queria chegar…

Não tenho nada, porém, contra irem-se inventando propositadamente palavras, seja para dizer melhor as coisas, seja apenas para as dizer, enfim, de outra maneira, ou seja até para as dizer, ao contrário do que Orwell deseja, de uma forma menos rigorosa, mais difusa, mais esbatida… Até porque isso acontece de facto todos os dias... Mas mais comentários não quero fazer agora nem à proposta de Orwell nem às outras utopias linguísticas referidas. A intenção deste texto é, digamos assim, mais delirante: imagino antes as notas sobre as línguas humanas de um marciano que nos tivesse andado a estudar:
Os humanos usam para comunicar entre eles, para elaborar certos raciocínios ou certas partes de raciocínios, para exprimir estados fisiológicos, para seduzir os parceiros sexuais e para mais uns quantos fins uma linguagem que, se bem que rudimentar, é algo mais complexa do que a dos outros animais. Tal como a nossa linguagem, a linguagem dos humanos é sobretudo utilizada oralmente, embora hoje a sua expressão através de sinais visuais comece a competir seriamente com a sua expressão através de sinais sonoros. (…)
Também como a nossa linguagem, a dos humanos é constituída por um léxico armazenado na memória e que é tratado por mecanismos computacionais em parte inatos (e utilizados também para várias finalidades que não processar unidades linguísticas) e em parte aprendidos, sobretudo antes da idade adulta. O que é surpreendente é a pobreza do léxico humano. Não consegui apurar as razões exactas dessa pobreza. Talvez o cérebro humano não consiga processar quantidades de informação linguística muito maiores do que aquelas que de facto processa. Ou talvez a escassez de léxico seja antes derivada de limitações ao nível sensório-cognitivo e não directamente da incapacidade de armazenar e processar o léxico. O certo é que faltam aos humanos conceitos tão simples como o de veof, de zvenl ou de cvirc. Mais estranho ainda: por muito que tenham uma palavra para o conceito de desidratado e possam exprimir com poucas unidades lexicais a ideia de “de tipo nórdico” e “funcionário/a dos correios”, não têm a palavra qliht…”
Imagino também as notas do tradutor do diário para português (por exemplo, uma rapariga da Foz do Arelho que tivesse vivido e estudado 10 anos em Marte…):
É completamente impossível traduzir para português – ou para qualquer outra língua terrestre – uma grande parte das palavras marcianas, em que se aglomeram sentidos que nós nunca juntamos num vocábulo só. O conceito de veof pode explicar-se como “alguém que se esquece sempre de lavar os dentes de manhã ao fim de semana e que, também durante o fim-de-semana, nunca anda de bicicleta nem come alimentos enlatados. [Você é veof, caro(a) leitor/a?] Zvenl usa-se normalmente para qualificar uma planta e significa qualquer coisa como “que é rara ou a única da sua espécie na região onde se encontra e sobre cujo nome muitas pessoas que olham para ela, notando que ela não lhes é familiar, se interrogam, sem no entanto se darem ao trabalho de o irem realmente pesquisar. [Tem alguma planta zvenl perto da sua casa?] A palavra cvirc define um estado de espírito de animais que se pode explicar como“zangado/a por ser recusado/a ou ignorado/a pelo ser do sexo oposto que tenta seduzir, mas nem por isso suficientemente despeitado/a para abandonar a tentativa de sedução, continuando, portanto, a tentar a sua sorte”. [Não sabem exactamente de que se está aqui a falar?] Quanto à palavra qliht, ela significa exactamente, como devem ter adivinhado,“funcionário/a dos correios, de pele, olhos e cabelos claros, obviamente desidratado/a”.
Isto a propósito de palavras de significado mais rigoroso do que as nossas. Não sei se vale a pena inventar uma palavra que corresponda ao marciano qliht, que eu duvido que se venha a usar muito, mas é capaz de parecer, assim à primeira vista, que convém inventar pelo menos uma nova palavra para designar a bergamota, porque bergamota designa duas plantas muito diferentes, um citrino e uma erva, e é uma confusão: qual delas é que cheira a verbena? Só que, de facto, o nome científico de ambas já está há muito tempo inventado… Afinal de contas, isto de não ser rigoroso a nomear as coisas não é bem uma questão de falta de palavras – em vez de dizer que “o céu estava muito azul”, que é muito vago, quem quiser ser rigoroso pode dizer, por exemplo, que “o céu estava 0, 230, 255 RGB”, não é?, e assim já não há dúvidas sobre a cor exacta do céu. Só que Orwell, estou eu em crer, nunca aprovaria esse tipo de rigor.