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7 de novembro de 2011

Livros em segunda mão #1: Os dois lados de tudo

I – Comprei em Maputo, a um rapaz que estava a vender livros na rua, a obra Expansão da Língua Portuguesa no Oriente nos Séculos XVI, XVII e XVIII (Lisboa: Portucalense Editora, 1969 (1ª ed. 1935)), de David de Melo Lopes. É um livro com informação interessante sobre muitas palavras, de que talvez fale aqui noutra ocasião; e é também um livro que se inscreve no quadro ideológico do louvor da “expansão portuguesa”. O autor, aliás, deixa claro isso bem claro logo de início: 
Descoberto o caminho marítimo da Índia, abriu-se à expansão portuguesa um campo ilimitado de atividade em todo o Oriente: sem falar da costa oriental de África (…), desde os portos da Abissínia e da Arábia até os da China e do Japão (…), as caravelas e naus de Portugal, ou vitoriosas na guerra ou abarrotadas de especiarias, dominaram, certamente, os mares de todo o século XVI. Os escritores estrangeiros que trataram dessa história fazem justiça ao esforço maravilhoso dos Portugueses e não lhes regateiam a sua admiração. «A audácia impetuosa da heroica pequena nação, diz um grande escritor inglês nosso contemporâneo, é pura epopeia, comparado com o qual o nosso primeiro esforço na Índia é prosa chã [Hunter, A History of British India, 1, página 3]». «O Oriente, cheio de mistérios e de riquezas, o Oriente donde vinham as sedas, as pérolas, os perfumes, as especiarias, a Índia e a China, principalmente, exerceram sobre as imaginações vivas e curiosas dos nossos antepassados uma verdadeira fascinação. Encontrar um caminho mais curto ou mais seguro para chegar a essas regiões privilegiadas, fazer concorrência aos Venezianos… era então o alvo dum grande número de espíritos ousados e aventureiros. Daí as tentativas insistentes que os marinheiros portugueses prosseguiram durante quase um século, para eterna honra sua, com uma heroica perseverança. (…) Disse-se com verdade que nenhuma nação fez tão grandes coisas como Portugal, em comparação com a sua superfície e população [Leroy-Beaulieu, De la colonisation chez les peuples modernes, I, páginas 2 e 41]».
Não há nisto nada de muito original: há muito quem tenha tido este tipo de discurso e, por muito que tivéssemos, muitos de nós, chegado a acreditar que ele não sobreviveria a um regime que já passou, ou pelo menos a uma época de nacional-ensimesmamento que, em princípio, também já acabou, há também muito quem continue a tê-lo. Mas eis que, como para deixar claro que há outros mistérios tão misteriosos como os do Oriente, David Lopes continua assim:
Todavia, em França ainda há quem escreva a história assim: «Depois da tomada de Malaca pelo grande Albuquerque, os Portugueses… espalharam-se pelos países da Indochina. Não se pode dizer que os seus atores foram nobres, nem que a sua influência foi feliz: eles comportaram-se em quase toda a parte como verdadeiros piratas… [Lavisse e Rambaud, Histoire Générale, V, pág, 924]».
Porque será que David Lopes, a encerrar a secção dos elogios dos historiadores estrangeiros à épica coragem dos portugueses, referiu uma opinião tão contrária à sua, quando não tinha, aparentemente, nenhuma boa razão para o fazer? Nem sequer, pelos vistos, a ideia de a combater, pois que limita a sua crítica a Lavisse e Rambaud a uma vaga nota de rodapé: “O autor vê o argueiro luso e não vê o cavaleiro cristianíssimo”.
É claro, podia argumentar-se com a mesma ligeireza em sentido contrário: Todos os que insistem no louvor enviesado da épica expansão lusitana veem os detalhes que querem ver, mas não veem o óbvio quadro geral.

II – Como as coisas são: eu que, aspirante a místico, passei anos da minha vida a querer descobrir uma unidade essencial por baixo da corriqueira ilusão do dualismo, digo agora que, tirando as fitas de Möbius, as coisas do mundo têm sempre dois lados e que ilusão, ilusão a sério, é querer ver só um deles. Quando o imperador do Japão expulsou os portugueses em 1587, fê-lo por os considerar propagadores de uma imoralidade fundamental: na boca deles, Deus deixava de ser Tudo para passar a ser apenas o lado bom das coisas, Deus era reduzido a metade[1]. Pois, bem, do mesmo crime contra a sua nação-divindade se pode acusar quem, na tentativa de louvar a expansão lusa, vê só bem nos feitos dos portugueses, fechando os olhos ao mal. Não acho disparate ver-se na expansão portuguesa – ou noutra expansão qualquer – uma epopeia. O que acho disparatado é querer retirar-se a essa epopeia piratarias, crimes hediondos e, no geral, todos os atos menos louváveis. Então as epopeias não são – por natureza, diria eu – relatos de todo o rol de heroicas imoralidades? Não é isso mesmo a Odisseia e a Eneida, em que a valorização positiva dos heróis a priori é que define o valor das suas ações e não uma qualquer perspetiva moral? Quem quiser louvar a pura epopeia e a heroica perseverança dos navegadores portugueses não deite fora, por favor, bocados importantes desses feitos épicos só porque eles são moralmente criticáveis (às vezes até muito).

III – Um problema das identidades é serem alógicas e amorais, como tudo o que é apenas gosto, sentimento fundo. Para se ultrapassar isto, é preciso disciplina. Podemos habituar-nos a ver com olhos outros que não os nossos, um grande exercício de realismo; e podemos forçar-nos para ver daquilo que gostamos também os aspetos negativos. Insisto que as coisas do mundo têm sempre dois lados – e que não há bela sem senão, como se costuma dizer. Estou a falar não só de nacionalismos, regionalismos e bairrismos, mas também de todas as outras paixões, definam elas ou não uma identidade.
Encontrei há dias um blogue duplo[2] interessante: de um lado, as coisas bonitas do Porto; do outro, as feias. Agora, é por apresentar o lado feio do Porto que o seu autor é menos portista? Claro que não. Até, porque, se as coisas bonitas do Porto servem para justificar o amor (não para o causar, note-se, que ele é, em boa regra, anterior a elas e delas independente; apenas para o justificar), as coisas feias podem servir para dar a esse amor uma ética, um sentido de futuro: “Isto está mal, não é assim que o Porto deve ser”. E eu não consigo ver, nem nunca ninguém me apresentou, nenhuma razão para que o amor se limite à aceitação de que o que se ama é como é, como está agora na moda propor, sem passar pelo desejo de melhorar o que se reconhece como negativo naquilo que se ama.

Que já estou longe de onde comecei? De certa maneira, sim… Conversa de blogue é como cesta de cerejas…
Moral
Frederik van Valckenborch, Paisagem com naufrágio,1603, óleo sobre tela, 100 × 199,5 cm, Museu Boijmans Van Beuningen, Roterdão (Wikimedia Commons)
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 [1] Excerto de carta do imperador Toyotomi Hideyoshi ao vice‑rei português das Índias de 1591: «A nossa terra é a terra de Deus, e Deus é espírito. Tudo na natureza existe pelo espírito. Sem Deus, não há espiritualidade. Sem Deus, não há caminho. Deus reina em tempos de prosperidade como em tempos de declínio. Deus é positivo e negativo e incompreensível. Por isso, Deus é a origem de toda a existência.» Traduzi eu de Sources of Japanese Tradition, vol. I. New York: Columbia University Press, 1958. O texto inglês diz “Ours is the land of the Gods”, mas eu, como as frases seguintes do texto inglês têm God no singular, traduzo também no singular esta ocorrência da palavra no plural.
[2] Em inglês, surge-me logo a palavra doublog, mas em português é mais difícil – nem dublogue nem duplogue resultam bem…

8 de agosto de 2011

Crónicas de Svendborg #2: Strandby

A quem pense que o primeiro estabelecimento comercial de qualquer povoação é sempre uma taberna, apresento-lhe a vila de Strandby, no Norte da Jutlândia:
Strandby é um dos maiores portos de pesca da Dinamarca. No porto, perto da lota e dos vários armazéns de firmas de exportação de peixe, há um restaurante chamado A Estrela do Mar, onde nos sentamos a tomar uma bebida.
“Um café com toldos da Carlsberg em Strandby! Quem imaginaria uma coisa assim quando eu era rapaz novo?”, comenta o meu cunhado.
A família da minha mulher viveu – e uma parte dela ainda vive – ali na zona. Foi ali que a minha mulher cresceu.
Quando eles eram jovens, explicam a minha mulher e o irmão dela, era completamente impossível comprar um gota de álcool que fosse em Strandby e arredores. O sítio mais próximo onde se podia tomar uma cerveja ou uma aguardente era um quiosque em Bratten. Chamavam-lhe drukruten, a rota da bebedeira”. Em Strandby, não havia nem sequer uma pastelaria.
“Havia só a casa dos pescadores, onde se podia beber café. Álcool, em Strandby? ‘Tás maluco ou quê? Nem sonhar.”
Estou-vos a falar de há 30 anos, não de há 150, e Strandby não era nenhum lugarejo perdido. Já nessa altura havia a lota e as firmas de exportação de pescado, já a vila era um porto de pesca importante.
“Era a cultura da gente da pesca. Eram todos da Indre Mission, a Missão Interior”. Também não se podia cortar relva, nem fazer fosse lá o que fosse ao domingo; ninguém podia usar joias nem nenhum tipo de adornos; e os miúdos não podiam ir a festas de aniversário dos colegas, porque todas as festas eram proibidas…”
Strandby, portanto, no Norte da Dinamarca, nos anos 80 do século XX.

31 de maio de 2011

Um bicho de muitas cabeças

Vi na semana passada Mother and Child, um filme do realizador colombiano Rodrigo García Barcha. É um filme sobre adopção (acho que se pode reduzir o tema do filme a uma única palavra) e levanta muitas questões interessantes, independentemente do que se achar dele como obra cinematográfica. Provavelmente, aliás, o facto de levantar demasiadas questões é um dos seus pontos menos positivos como obra cinematográfica, mas não me adianto mais na crítica, porque não é minha ideia discutir o filme. Apenas aconselhá-lo, como matéria de reflexão, e usar esta referência para introduzir algumas pequenas considerações sobre a questão da adopção.
Fundamentalmente, o que me parece interessante notar é que, ao filme Mother and Child, como a outras narrativas sobre adopção e à discussão geral sobre esta questão, subjaz uma ideia forte que, mesmo que não se recuse completamente, deve ser repensada e muito matizada: a ideia de que dar para adopção ou adoptar é naturalmente problemático e gerador de conflitos e tensões, porque não é o rumo natural das coisas.
Parece-me indiscutível que é a protecção da criança que deve constituir o cerne da legislação e é verdade que se pode constatar (segundo a informação que recebi durante o curso de adopção que fiz e que já tive oportunidade de ver algumas vezes confirmada depois disso) percentagens mais elevadas de crianças com problemas físicos ou psíquicos entre os adoptados do que entre não adoptados, bem como de crianças vítimas de maus-tratos. No caso dos problemas físicos e psíquicos que não sejam causados pelos pais adoptivos (e estes são muito, muito poucos), porém, é impossível, demonstrar que é a adopção que causa os problemas dos adoptados e nem sequer há melhores razões para valorizar essa hipótese relativamente a outra hipótese que faça derivar a maior percentagem de problemas dos adoptados de circunstâncias pré-adopção*.
Candidatámo-nos a adopção em 2001 e fizemos um curso de adopção em 2002. O curso é obrigatório na Dinamarca e o seu conteúdo parece dar-me razão quando afirmo que adoptar é uma forma tão natural como outra qualquer de ser mãe ou pai, porque se passou o curso todo a falar de questões gerais, que não dizem mais respeito a adoptantes que a pais biológicos. Quando, em Abril de 2003, nos propuseram duas crianças colombianas, tornou-se mais uma vez claro que um dos problemas maiores da adopção são as leis de adopção – ou a sua inexistência, em certos países... Na altura, foi-me difícil conseguir o documento que me era exigido, comprovando que tinha um emprego fixo, porque estava a trabalhar como tradutor e professor em regime de freelance. E até nem ganhava mal a vida. A minha mulher, sim, tinha um emprego fixo com um bom salário, mas, segundo a lei colombiana, o homem é o chefe de família e, por isso, o homem é que tem de ter emprego fixo para adoptar… Escrevi nessa altura um texto que, ligeiramente revisto, vos deixo a seguir:
Só partindo do princípio que adoptar não é uma forma natural de ter um filho se compreende que as leis de adopção, que deveriam apenas assegurar que sejam respeitados os direitos de todas as partes envolvidas no processo de adopção, antes de mais das crianças adoptadas, acabem por exigir dos pais adoptivos condições e acções que nunca são exigidas a quem faz um filho. Ora, na minha opinião, adoptar é uma maneira tão natural como a outra de ser mãe ou pai – ou, se preferirmos ver as coisas do ponto de vista dos filhos, ser adoptado é uma maneira tão natural como qualquer outra de ser filho.
É claro que reproduzir-se é responder a uma pulsão fundíssima, essencial para a preservação da espécie, mas isso não justifica, por si só, que a maternidade e a paternidade biológicas sejam mais naturais ou melhores que a maternidade e a paternidade por adopção. Porque, para a preservação da espécie, não é só necessário que os indivíduos se reproduzam, mas também que haja mecanismos de protecção para que eles se mantenham vivos. E os sentimentos que qualquer criança desprotegida causa num adulto são, precisamente, um desses mecanismos: se vemos que uma criança precisa de comida, abrigo, ou qualquer tipo de ajuda, há em nós uma tendência natural para tratarmos dela, por muito que não a conheçamos de lado nenhum. É verdade que o mesmo acontece relativamente a outros adultos em perigo ou em sofrimento – é a tão celebrada solidariedade da espécie. O apelo mudo à ajuda e à protecção de uma criança indefesa é apenas uma das muitas formas de simpatia para com os seres humanos. Quando se trata de uma criança, porém, parece haver uma diferença de grau – porque o sentimento de solidariedade que desperta num adulto é, em geral, mais intenso que aquele que despertaria um adulto em desgraça – e também uma diferença de tipo – porque uma criança desprotegida não apela apenas a que a socorramos agora, mas também, frequentemente (no caso de a sabermos sem outros adultos a quem pertença, evidentemente), a que tomemos conta dela indefinidamente. Dito de outra maneira, os adultos humanos são mães e pais potenciais de todas as crianças. O que faz todo o sentido, do ponto de vista da preservação da espécie: uma criança sozinha não sobrevive.
A concepção da maternidade e da paternidade que enforma as leis de adopção existentes é uma visão muito restrita destas condições, com base na ideologia da família nuclear moderna, de pais e filhos biológicos, e está longe de ser a concepção dominante em todos os lugares e tempos. Em muitas sociedades, uma criança, qualquer criança, não é criada mais com a mãe do que com outros adultos da família ou da comunidade**. Também o mesmo se passava na Europa até há pouco tempo, por muito que isso hoje nos surpreenda***: era normal que fossem outras pessoas que não os pais a tomar conta das crianças. As crianças das famílias com posses eram criadas com preceptores e amas, muitas vezes num espaço físico diferente daquele em que viviam os seus pais. As crianças das famílias pobres eram muitas vezes distribuídas por casas de parentes (ou mesmo de não-parentes) mais desafogados economicamente.
Mas não era pior assim? Não é melhor para a criança ter uma família como a conhecemos hoje? Não há provas nenhumas disso – os europeus modernos são mais felizes que as pessoas de outros tempos e de outros lugares? É bem possível que as crianças tenham nas sociedades modernas melhores condições para se desenvolverem, mas não se pode fazer derivar isso do facto de viverem num determinado tipo de família. O necessário, diz-nos o bom senso, é que a criança seja fisicamente cuidada e estimada e socializada e isso tem as mesmas possibilidades de acontecer em qualquer sistema familiar.
Mais: a adopção não só não é menos natural, como também só é invulgar se o quisermos, se fizermos com que assim seja. Numa sociedade como a moçambicana, por exemplo, em que adoptar e ser adoptado é perfeitamente normal sem se passar por processo burocrático algum, não só se resolvem assim uma série de problemas práticos (como é o caso da integração social dos milhares de órfãos que a guerra deixou, muitos deles crianças-soldados), como também se esvai completamente o conceito do adoptado como diferente. Adoptar e ser adoptado só é estranho se for uma condição tão rara que um adoptado se sinta um marciano ou se for cultivada essa estranheza, insistindo (como o fazem, implicitamente, os processos de adopção) na tal pretensa pouca naturalidade do adoptar crianças relativamente ao fazer crianças; ou considerando a priori que uma criança adoptada deve ser uma criança com problemas, como eu vi fazer aos meus filhos no jardim-de-infância em Copenhaga. É muito natural que, por ser considerada diferente e potencialmente problemática e tratada, por isso, com atenção especial, uma criança comece a sentir-se efectivamente diferente. E eis um início de um círculo vicioso que eu duvido que seja muito são.
Insisto, para concluir: As leis de adopção devem assentar na defesa dos interesses das partes mais frágeis no processo, as crianças. Uma parte importante dessa defesa é assegurar que sejam adoptadas por pessoas responsáveis, mas essa proposição contém outra proposição fundamental: Uma parte importante dessa defesa é assegurar que sejam adoptadas. Os problemas relacionados com a adopção vêm mais de certas leis de adopção e da maneira como fomos condicionados para encarar a adopção do que do simples e natural acto de adoptar. A discussão das diversas leis de adopção nos diversos países é demasiado complexa para um texto de blogue, mas há, na minha opinião, alguns princípios básicos em que todas deviam assentar: não se poder escolher os filhos adoptivos, não haver períodos à experiência, e reduzir-se a possibilidade de contacto com os pais biológicos (só por vontade expressa dos filhos, quando atingirem a maioridade). Devolver à adopção a sua naturalidade: dar uma família a crianças que a não têm.
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* E isto quer se pressuponha que eles derivam de traumas precoces, segundo as teorias da vinculação ou do apego, quer se defenda antes uma abordagem assente na genética, segundo a qual são os mesmos traços de carácter que levaram os pais às situações problemáticas resultantes no abandono ou negligência dos filhos que resultam nos problemas desses mesmo filhos. Seja qual for a posição relativamente à questão, uma destas duas ou outra qualquer, toda a gente concordará que a criança tem sempre a ganhar em ser adoptada e em ser adoptada o mais cedo possível.
** Quero referir aqui, a propósito, um dito que encontrei no blogue Beijo-de-mulata e que vi noutros lados referido como “provérbio africano”: «Para criar uma criança é preciso uma aldeia inteira.» Venha ela donde vier, a frase descreve uma realidade simples em muitos tempos e lugares.
*** Lembro-me, por exemplo, de como fiquei surpreendido com os dados apresentados em L’Amour en plus, de Elizabeth Badinter, quando o li há muitos anos: em 1780, de 21.000 nascidas em Paris, menos de 1.000 são amamentadas pela mãe e 1.000 são amamentadas por uma ama em casa dos pais. O tema do livro é o amor materno e não a família nuclear, mas tem muitos dados que mostram claramente que a família nuclear como nós a conhecemos é uma instituição recente.

29 de abril de 2011

O caixão itinerante

Nunca li, confesso, as aventuras de Dirk Pitt, que são o que deu fama e dinheiro a Clive Cussler; mas posso imaginar, pelo muito pouco que conheço do autor, a exibição de auto-regozijo que hão-de ser essas novelas – se o herói de Cussler for, como o imagino, um alter-ego do grande ego do seu criador. [Ia a dizer que acabo de inventar um novo tipo de crítica, que consiste em dizer mal de livros que não se leu, mas pensando melhor, é extremamente provável que tal crítica já exista, se não for mesmo bastante comum, sem que se o saiba… Agora, se me permito julgamentos tão perversos como infundados é porque, de tudo o que a vida me ensinou, só há uma coisa que tenho como certa: desses best-sellers que se vendem em aeroportos e supermercados, não há um de que se possa dizer benza-te deus. Agora chamem-me snob, a ver se eu me ralo…] Em The Sea Hunters, porém, Cussler escreveu várias histórias interessantes – permanentemente salpicadas da tal irrefreável vaidade, é certo, mas interessantes ainda assim. O livro conta as aventuras reais do autor e da sua Agência Marinha e Submarina Nacional, NUMA, à procura de navios enterrados no lodo dos rios ou nas areias do fundo dos mares; e Cussler inventa, antes de cada uma dessas narrativas, a descrição do naufrágio de cada embarcação. Além de histórias de barcos, conta-se também no livro a história de uma locomotiva e de 3 submarinos. Foram as histórias dos submarinos que mais me impressionaram.

Sabiam que passaram mais de 68 anos entre o primeiro e o segundo ataques bem sucedidos de um submarino a um navio de superfície? Pois é verdade: em Fevereiro de 1864, o submarino confederado Horace H. Henley afundou o Housatonic, um navio da União; e só em Setembro de 1914 é que o submarino alemão U-21 voltou a repetir a proeza, afundando o navio britânico Pathfinder. A partir daí, os submarinos alemães, sobretudo, não cessaram mais a sua acção destruidora, mas mais na primeira grande guerra do que na segunda (traduzo da obra de Cussler todas as passagens a castanho): «[Durante a Primeira Guerra Mundial,] os primeiros navios submarinos da Alemanha afundaram o impressionante número de 4838 navios (…), mais 2009 do que os seus descendentes na Segunda Guerra Mundial». Mas deixemos estas generalidades enciclopédicas e voltemos à primeira destas terríveis máquinas de guerra, o Horace H. Hunley, que é o protagonista deste texto:

O Hunley (tratemo-lo assim daqui para a frente, para poupar letras) era o terceiro submarino subsidiado pela dupla Horace L. Hunley e Baxter Watson e concebido por James McClintock. O irmão mais velho do Hunley, o Pioneer, é um nado-morto: depois de ter completado com êxito alguns ensaios mas antes de ter sido oficialmente dado por apto para o serviço militar a valer, o Pioneer foi destruído pelo seu próprio criador, para o impedir de cair nas mãos dos nortistas, quando estes conquistaram Nova Orleães, onde o submarino estava a ser aperfeiçoado. Teimoso que era, McClintock, que tinha fugido para Mobile, no Alabama, construiu um segundo Pioneer, mas este não resistiu, na sua primeira missão, à violência de uma tempestade que lhe abriu rachas nos costados e afundou-se. Felizmente, a tripulação conseguiu abandoná-lo a tempo.

Não foi ainda desta vez que McClintock se deu por vencido. Conseguiu mais financiamento para continuar o seu projecto e, com a ajuda do tenente William Alexander, que trabalhara já com ele no Pioneer II, construiu o Hunley, pensa-se que a partir de uma velha caldeira de locomotiva. Segundo Cussler, «a embarcação que se tornou famosa como torpedeiro Hunley era surpreendentemente avançada para o seu tempo. A configuração do casco era muito semelhante ao design que haveria de ter muito mais tarde o submarino nuclear Nautilus (…) Dois pequenos portalós superiores, com escotilhas, que serviam de torres de entrada e saída. A largura era à justa para por lá se esgueirar um homem, conquanto mantivesse os braços erguidos por cima da cabeça. Havia até um rudimentar sistema de periscópio, chamado uma caixa-de-ar, com tubos que se moviam verticalmente, com as pontas acima da superfície da água. (…) O único defeito do Hunley era o seu primitivo sistema de propulsão. Estava-se ainda muito longe da energia de baterias eléctricas ou de motores a gasóleo. O Hunley contava apenas com oito homens para rodar o eixo que fazia girar a hélice». Um submarino movido à manivela, nem mais. E agora, imaginem as condições dentro do submarino, para os nove homens que o tripulavam: «O submarino tinha cerca de 10m de comprimento total e um casco de 1,5m de altura com uma largura máxima de 1,2m. O leme de direcção era comandado com uma roda e manobrado pelo capitão, que ia de pé e dirigia o submarino pelas escotilhas da torre da frente».
Como já aqui disse uma vez, as descrições, por exactas que sejam, não nos conseguem fazer perceber (visualizar, neste caso) o descrito. Bem mais eficazes do que palavras são as imagens abaixo que deixarão clara, penso eu, a angustiante falta de espaço do caixão itinerante, como lhe chamou a imprensa:

Se lhe chamaram caixão itinerante, tiveram os jornais justificação de sobra para a mórbida imagem: morreram no Hunley 22 pessoas. O primeiro acidente foi causado pelo Tenente John Payne, o primeiro comandante do submarino depois de McClintock, que fez o submarino imergir com as escotilhas abertas, causando a morte de cinco tripulantes. O segundo acidente deu-se com Horace H. Hunley, o primeiro financiador e padrinho do submarino, dirigindo uma equipa de 7 homens, numa viagem de treino. Hunley exagerou o ângulo de mergulho do submarino, o tanque de lastro dianteiro encheu-se demasiado e não houve maneira de fazer emergir a embarcação. Nenhum dos oito homens que iam a bordo se salvou. O derradeiro e maior acidente do Hunley coincidiu com o seu momento de glória e nele perderam a vida todos os seus nove tripulantes. Foi em Fevereiro de 1864 e comandava a nave o Tenente George Dixon, que, apoiara William Alexander na reconstrução do Pioneer II. Após semanas de tentativas frustradas de ataques a barcos do Norte, o Hunley conseguiu finalmente torpedear e afundar o Housatonic, uma chalupa canhoneira nortista, perto de Charleston, na Carolina do Sul. A onda de choque da explosão do barco da União foi violentíssima, mas os tripulantes e o submarino conseguiram sobreviver-lhe. Já no caminho de regresso, porém, e quando todo o perigo parecia ter passado, o Hunley foi abalroado pelo navio de guerra Canandaigua, que ia em socorro dos sobreviventes do Housatonic. O comandante do Hunley viu tarde demais as luzes do barco inimigo. Ainda mergulhou, mas já não foi a tempo de evitar a colisão: a quilha do Canandaigua rasgou literalmente o submarino, que se afundou imediatamente e deixou de ser caixão itinerante para passar ser o caixão fixo e permanente dos seus 9 tripulantes. A bordo do Canandaigua, ninguém deu sequer por ter afundado a arma secreta da marinha confederada... 

Não sou propriamente um aficionado de história militar, nem aficionado de coisas marítimas. Fascina-me o vocabulário de barcos e marinhagem, mas fica-se pelas palavras o meu fascínio pela navegação. O que eu sou é um bocado claustrofóbico e tenho um medo terrível do mar, isso sim. Na Cité des Sciences de La Villette, estive uma vez dentro de um submarino, ainda assim bem maior do que o Hunley, e fiquei muito angustiado só de me imaginar fechado dentro de uma coisa daquelas no fundo do mar. Não consegui na altura – nem consigo ainda – pensar num submarino a não ser como… um caixão itinerante, precisamente!...

[Para ficarem com uma ideia ainda mais clara de como era o interior do Hunley, vejam aqui uma reconstituição e aqui o verdadeiro submarino.] 

18 de outubro de 2010

O ataque à Mîrî: uma história de outro tempo, o tempo da História e os nacionalismos

Nas últimas férias, li um livro interessante: Corsário e Piratas Portugueses, Aventureiros nos Mares da Ásia, de Alexandra Pelúcia (Lisboa: A Esfera dos Livros, 2010). Transcrevo a seguir uma história que aí se conta entre as páginas 30 e 32*:
Foi no dia 29 de Setembro [de 1502] que as acções de patrulha marítima [dos portugueses no Norte da costa do Malabar] produziram resultados de monta ao detectar-se a circulação de uma importante e rica presa, a nau Mîrî. Nela se faziam transportar umas poucas centenas de muçulmanos, entre homens, mulheres e crianças, que vinham de cumprir […] o haji, ou seja, a peregrinação à cidade santa de Meca […]. Entre os passageiros da Mîrî achavam-se […] abastados membros da comunidade de mercadores islamitas de Calecut, incluindo um que ali serviria de feitor ao próprio sultão mameluco do Cairo. Houve, pois, interesses de monta a sopesarem na decisão de declarar a rendição logo que os canhões portugueses efectuaram alguns disparos, tanto mais perceptíveis quanto Tomé Lopes [testemunha ocular que registou por escrito o acontecimento] afiança que a vela tacada estava municiada com artilharia.

A esperança que animava os muçulmanos acossados era a abertura de um processo de diálogo. Se tudo corresse bem garantiriam a sua integridade física em troca do pagamento de um elevado resgate. A abertura verificada por parte do almirante [português] foi, no entanto, nula: declinou todas as ofertas e que lhe foram apresentadas e exigiu, sem quaisquer contemplações, a entrega dos valores transportados. Consumado o acto e porque do seu lado tinha tanto o argumento da superioridade da força como o móbil de ripostar à violência de que os compatriotas tinham sido alvo em Calecut, quase dois anos antes [ataque de 16 de Dezembro de 1500 em que morreu Pêro Vaz de Caminha, quando na região se encontrava a armada de Pedro Álvares Cabral], o capitão-mor determinou que algumas chalupas arrastassem a Mîrî para longe da esquadra portuguesa, retirassem as armas existentes a bordo e lhe deitassem fogo, sem permitir a retirada da esmagadora maioria das pessoas que lá estavam dentro.

Os acontecimentos subsequentes fugiram, em boa parte, ao controlo, e, inclusive, à compreensão dos portugueses envolvidos. Em desespero de causa, os muçulmanos esforçaram-se por apagar os focos de incêndio e investiram contra as chalupas com todas as armas de arremesso que encontraram à mão, obrigando-as mesmo a afastarem-se. A bordo, havia quem continuasse a tentar persuadir os cristãos a serem misericordiosos, sobretudo as mulheres, que gesticulavam fazendo oferta das suas jóias e carregando os filhos para que deles houvesse dó, mas também homens que insistiam nas propostas de resgate. [O comandante português] assistiu a tudo de semblantes imperturbável, ao contrário do que aconteceu a Tomé Lopes, a quem ocorreu a ideia que por aquele meio se poderia ter ganho o suficiente para “remir todos os cristãos que estavam prisioneiros no reino de Fez, e que depois ainda restariam grandes riquezas ao rei nosso senhor”.

Chegara-se, entretanto, ao dia 3 de Outubro, que o mencionado [Tomé Lopes] apontou como “uma data da qual me recordarei todos os dias da minha vida”. Tendo a nau em que ele se encontrava que partir em socorro das chalupas atacadas a partir da Mîrî, os muçulmanos redobraram o ímpeto ofensivo com o alento próprio de quem não tem nada a perder, excepção feita à honra. O objectivo que tinham em mente era conseguir a aproximação ao vaso luso, mais baixo, a fim de cometer uma abordagem, a qual acabou por ser concretizada.

O tinir das armas arrastou-se durante horas a fio, até ao cair da noite. Os adversário causaram fortíssima impressão pela tenacidade e pelo ardor que demonstraram na luta, ignorando até ao limiar do suportável as feridas que lhes iam enchendo os corpos ou indo de encontro à morte com absoluto desdém, único caso em que os gritos emudeciam nas respectivas gargantas. Em face de tamanha ferocidade, os cerca de quinze portugueses que defendiam o castelo da proa, na zona dianteira da nau, viram-se forçados a bater em retirada, todos eles feridos e derramando sangue. A situação estava longe de ser mais brilhante do lado oposto, no castelo de popa, onde havia homens a terem de se lançar à água e a serem recolhidos pelas chalupas, enquanto outros eram golpeados ou mesmo abatidos.

As coisas estavam neste estado periclitante quando interveio a nau Jóia, através de movimentações navais e de tiros de artilharia, que surtiram o efeito de obrigar os muçulmanos sobreviventes a retroceder para dentro da Mîrî. [O comandante português], cuja irritação devia estar ao rubro, resolveu então afectar cerca de um terço da armada à perseguição daquela nau. Ao fim de quatro dias inteiros consumou-se, finalmente, a respectiva destruição. Com bastante ironia à mistura, as labaredas que a devoraram foram ateadas por um desertor muçulmano, que antes nadara até à nau Leonarda de modo a chegar à fala e a acordo com [o capitão-mor da armada portuguesa], o que lhe permitiu salvar a vida. Deveras perturbado, Tomé Lopes registou: “e foi assim, após tantos combates, que com muita crueldade e sem nenhum piedade o Almirante fez queimar esta nau com toda a gente que aí se encontrava”.

Como a Mîrî não era um vaso de guerra e, de qualquer modo, não havia guerra declarada entre Portugal e a nação a que a Mîri pertencia, o ataque é um acto de pirataria e não de corso, por muito que tenha sido perpetrado por uma armada portuguesa e não por um capitão privado. O comandante da armada portuguesa, cujo nome fui omitindo até agora, num artifício retórico primitivo de criação de suspense, era Vasco da Gama, agora na sua segunda viagem à Índia na nova qualidade de Almirante e Dom, que recebera como recompensa da primeira e que viria a ser vice-rei do estado da índia em 1524. Um herói nacional, portanto, um pilar dos mitos nacionalistas portugueses. Mas duvido que haja muitos portugueses actuais, por mais nacionalistas que sejam, que não fiquem surpreendidos com a acção de Gama, e menos ainda que encontrem maneira de a aprovar.

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Num conto de ficção científica de cordel que escrevi há alguns anos, a narradora e personagem principal, uma dinamarquesa chamada Rikke, recebe, no dia do seu 29º aniversário, em 1985, uma carta que o seu ex-namorado Ib, agora exilado no passado, lhe escreveu em 1806. O penúltimo parágrafo da carta diz o seguinte:
Finalmente, quero dizer-te que o tempo é uma dimensão tão duramente material como o espaço. Viver noutro tempo é como viver noutro lugar. Não há nada tão estúpido no nacionalismo como procurar no passado uma identidade, porque os nossos ancestrais eram tão diferentes de nós como as gentes de longe. Uma das coisas que me faz querer sair daqui e ir à aventura para as Américas é sentir-me tão pouco à vontade neste país. Nota que nem sequer é por causa das condições de vida concretas, que também são às vezes chocantes para um dinamarquês do futuro – doença, uma falta de higiene enorme, repressão, censura. Isso é o menos. É mesmo a maneira de ser da gente que é estranha. Pensam e agem de uma maneira que eu não compreendo, riem-se de coisas que não percebo – sem exagero absolutamente nenhum, não me sinto em nada mais próximo desta gente do que me sentia da gente local, quando vivi na Índia, ou dos peruanos ou bolivianos, quando andei a dar aquela grande volta pelos Andes.
É uma história de ficção científica de cordel, mas o que neste parágrafo se afirma não é ficção nenhuma. Ficção é o contrário, pretender-se que existe alguma coisa suficientemente estável através da história dos povos de um determinado lugar para justificar uma identidade. É essa a ficção básica em que assenta o mais das vezes o conceito de pátria, ou nação: a ideia de uma história que é nossa, como se a cultura portuguesa, por exemplo (seja lá o que for que isso queira dizer…) e os protagonistas dessa “nossa” História estivessem, afinal, fora da História, e um português do século XV fosse, com a sua cultura portuguesa do séc. XV, um ser mais próximo de um português do séc. XX, do que este é de um indiano ou de um canadiano actuais. Mesmo a língua, que serve muitas vezes de espinha dorsal a essa ficção, era tão diferente da que a agora se fala que muitos portugueses de hoje não a reconheceriam, se a ouvissem falada, como sendo português…

Pelo que observo à minha volta, custa muito à maior parte das pessoas aceitar o que eu acabo de dizer. Das mais variadíssimas formas, a questão da identidade histórica parece inquestionável. Às vezes com um sinal claramente positivo (o orgulho nacional dos “nossos” feitos grandiosos), às vezes com um sinal claramente negativo (o denunciar dos “nossos” crimes históricos), assume-se quase sempre, explícita ou implicitamente, a existência de um nós trans-histórico. Que insisto eu, é ficcional…

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Há outro conto meu que acaba assim:
Enquanto não vinha o autocarro, que só devia chegar lá para a meia noite, Niklas foi beber umas cervejas num bar que havia mesmo ao lado da paragem.
O bar estava quase vazio. Havia um tipo sentado ao balcão, que mirou Niklas de alto a baixo quando ele entrou, e um casal numa mesa ao fundo, a namorar. Niklas sentou se a uma mesa em frente ao balcão e pediu uma cerveja.
O homem que estava sentado ao balcão levantou-se e veio sentar-se à mesa dele.
“Posso?”, perguntou ele, já depois de se ter sentado.
“Esteja à sua vontade”, respondeu Niklas, um bocado contrariado, porque não estava com muita disposição para conversas.
“Você não é daqui, pois não?”
“Não, sou de muito longe. Estou aqui só de passagem. Aliás, estou só à espera do autocarro?”
“Donde é que você é?”
“Da Suécia. Sabe onde é que isso fica?”
“Na Europa. Você é europeu...”
“Exactamente....”
“E o que é que veio fazer aqui?”
“Ora, passear, dar uma volta...”
“Eu estive na Europa, sabe... Estive em Espanha e em França. Trataram-me como se eu fosse merda, só por eu ser assim como sou... Eu sou índio, não vê?”
“Há muita estupidez dessa na Europa. É triste.”
“É triste? Então você é europeu e está-me a dizer que é triste?”
Havia agora uma nítida agressividade na fala e na postura do homem, que se tinha chegado à frente, antebraços e peito apoiados na mesa.
“É o que eu acho...”, respondeu Niklas, que tentava acalmar-se.
“Os europeus vieram aqui e tiraram-nos tudo. Tudo! E agora dizem que querem ajudar-nos... Vêm com programas de auxílio, que vontade de rir...”
“Mas não foram os europeus todos que colonizaram a América...”, contestou Niklas, não sem algum orgulho nacionalista.
“Não foram todos? Foram todos, meu amigo, todos – espanhóis, portugueses, franceses, holandeses, alemães, diga lá quem é que não foi?”
“A Suécia nunca teve colónias na América.”
“Ora, vá contar isso a outro! Levaram-nos tudo e agora tratam-nos como merda nos países deles. Vocês, europeus, enquanto houver um índio vivo, não descansam enquanto não lhe tirarem tudo. Tudo!”
Niklas não se conteve mais. Chegou-se ele também à frente e começou a falar mais baixinho, mais pausadamente, num tom ameaçador.
“Oiça uma coisa, meu amigo. Eu estava aqui muito sossegadinho a beber a minha cerveja, não me meti consigo nem com ninguém. Eu não sou os europeus, ‘tá a ouvir? Eu sou uma pessoa que é diferente de todas as outras pessoas e eu, eu, nunca lhe fiz mal nenhum a si nem a ninguém nesta terra, e não lhe admito, ‘tá a perceber?, não lhe admito que me venha agora acusar do que fizeram outras pessoas que eu não conheço e não sei quem são! Por isso, conversa acabada! A mim, você só me pode acusar do que eu tiver feito, eu, mais nada!”
Parou um momento, e continuou, já mais calmo:
“Diga lá, se o seu avô tiver cometido algum crime, você acha que pode pagar por isso?”
O outro levantou-se.
“Pois está claro que posso! Porque é que não hei-de poder?”
“Ora, você está mas é com os copos, deixe-me lá sossegado! Além disso, se lhe interessa saber, também nenhum avô meu veio para a América do Sul...”
“Os europeus são todos ladrões...”, murmurou o outro enquanto se sentava outra vez ao balcão, ainda virado para o Niklas, “roubaram-nos o ouro, a prata, tudo...”
Niklas pagou e saiu. E teve de ficar muito tempo cá fora à espera: o autocarro, nessa noite, chegou atrasado quase duas horas.
A questão da responsabilidade histórica é complexa e não a vou discutir agora. Em princípio, porém, creio que cada um é culpado dos seus actos apenas, mesmo que admitamos que existem responsabilidades colectivas; porque essas responsabilidades colectivas, a existirem, só podem ser assumidas pelo colectivo, o que é muito diferente de uma assunção individual multiplicada pelos indivíduos que formam esse colectivo. A conversa do parágrafo anterior baseia-se em acontecimentos reais e, das várias vezes que fui acusado de “colonizador” nunca consegui descobrir em mim nem o mais pequeno sentimento de culpa – pela simples razão de que eu não tenho, de facto, culpa nenhuma de nenhuma colonização.

Além disso, se todas as colonizações que conheço são altamente condenáveis, é porque são sistemas ditatoriais e normalmente racistas de imposição do domínio de uma minoria. Toda a tentativa de fazer assentar a recusa do colonialismo e a defesa do direito à autodeterminação em conceitos de tipo nacionalista (a partir de critérios de identidade histórica, étnicos ou de anterioridade na ocupação de um território) em vez de a fazer depender de conceitos morais está, a meu ver, sujeito às contradições de todo o nacionalismo. Ora de facto, o direito à autodeterminação não precisa de nenhuma justificação daquele tipo – é apenas uma extensão natural do direito básico de cada pessoa a decidir sobre a sua vida, já que é apenas o direito de uma comunidade a decidir sobre a sua vida.

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Quanto mais penso no assunto, mais chego à conclusão de que a única solução para as contradições dos conceitos de identidade nacional, étnica e afins é uma versão radical (radical significa que vai à raiz da questão!) do conceito republicano de cidadania: o nós da cidadania é “as pessoas que vivem no mesmo espaço que eu”.

Pode haver, naturalmente, haver diferentes círculos de identidade, concêntricos ou não, e é claro, que pode haver outros tipos de identidade. As ideológicas, por exemplo: posso, a esse nível, identificar-me com todos os materialistas, cépticos e ateus em todos os períodos da História e todos os lugares da Terra. Mas dessa conversa não fazem parte essencial topónimos e gentílicos…

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* Sobre as fontes, diz a obra referida: «Os eventos […] foram registados a posteriori pela pena de cronistas de referência [V. Ásia, I, vi, 4; História, I, I, xlv, e Damião de Góis, Crónica d’El-Rei D. Manuel, vol. I, Coimbra, Universidade de Coimbra, 1949, I, lxviii], mas a narrativa que se destaca pelos pormenores discriminados e pela eloquência das palavras foi assinada por uma testemunha ocular, Tomé Lopes, escrivão da nau capitaneada pelo florentino Giovanni Buonagrazia [Perdeu-se o rasto ao texto original redigido em língua portuguesa. O conhecimento do respectivo teor ficou assegurado para a posterioridade através de uma tradução italiana, dada pela primeira vez à estampa, em Veneza, no ano de 1550, a qual integrava a famosa colectânea das Navigagazioni e Viaggi, organizada por Giambattista Ramusio. Reporto-me, todavia, à edição francesa contemporânea, subordinada ao título “Le récit de Tomé Lopes” e publicada no livro Voyages de Vasco da Gama: Relation des Expéditions de 1497-1499 et 1502-1503, eds. Paul Teyssier e Paul Valentin, com prefácios de Jean Aubin, Paris, Éditions Chandeigne, 1995, em particular aos capítulos vii a ix, pp. 222-231.].»

18 de novembro de 2009

Redacção encontrada no sótão: Os sapatos

[Houve uma altura em que me dediquei a escrever “redacções”, que era o nome que eu dava a textos em que ia anotando tudo o que me vinha à cabeça sobre um tema qualquer, como, por exemplo, “As árvores” ou “As canetas”. No outro dia, fui dar com essas redacções algures num sótão do meu computador, reli-as, achei que esta ficava bem aqui no blogue e colei-lhe só uns quantos links antes de a pespegar aqui. Como, quando escrevi o texto, não lhe fiz as devidas notas de rodapé (acho que por ser uma “redacção”...), não sei onde fui buscar alguma da informação que ele inclui e de que não posso agora, portanto, assegurar o rigor. Mas, se me conheço bem, devo ter verificado tudo na altura…]

Os sapatos

Os sapatos, como todos os objectos, têm histórias maravilhosas que me fazem sonhar. Mais do que apenas novelas, verdadeiros romances, recheados de complicados enredos secundários.

Tomemos quaisquer sapatos, por exemplo os que trago calçados. São sapatos estupidamente clássicos, desses que em Portugal são normalmente conhecidos por mocassin (pronunciado à francesa, mòcassã), por muito que o meu dicionário registe antes mocassim: “calçado de pele usado pelos índios da América do Norte, sem tacão e com a sola revirada dos lados e à frente, para melhor protecção do pé; qualquer sapato desportivo que se assemelhe a este calçado”.

(O filho de uma amiga minha, nascido e criado os primeiros anos da sua vida nos Países Baixos, chamava-lhes “sapatos à turco”. É que os neerlandeses, como os outros povos da Europa do Norte, usam sapatos de atacadores, e ele só conhecia dos turcos sapatos assim. Então, quando veio para Portugal, achou curioso ver o tio dele com sapatos daqueles: “Olha, o tio Zé tem sapatos à turco!” Mas era porque ele não conhecia ainda o gosto, pelo menos o mais conservador, dos países latinos da Europa e da América. Mas então, eu, que nunca me quis nem conservador nem latino, é isso que os meus sapatos mostram que sou? Pois seja!, aceito... Com algumas reticências, como mostram claramente os três pontinhos, mas que remédio tenho senão aceitar?)

Uma das histórias maravilhosas que entram na história de qualquer objecto é a da sua designação. Por que é que se chamam sapatos os sapatos, de onde lhes vem o nome? E os mocassins, onde foram buscar tão estranha designação? Bom, a etimologia de sapato, ao contrário da etimologia de mocassin, está longe de ser pacífica.

Mocassin vem das línguas dos índios americanos, porque foram eles a apresentar aos europeus esse tipo de calçado. Há quem queira especificar que é de uma língua determinada (algonquino, por exemplo), mas é arriscado, porque parece que, entre mokasin e makisin, várias línguas tinham designações semelhantes.

Agora, sapato é mais complicado. Se se seguir a opinião da maioria, a palavra portuguesa sapato vem da espanhola zapato, introduzida por alturas do Renascimento, que por sua vez vem do turco (zabata ou chabata, conforme os dicionários), provavelmente através do árabe sabbat. Mas há quem diga que a palavra portuguesa vem directamente do árabe, e há quem defenda a origem eslava da palavra espanhola. Enfim, origem debatida, se não mesmo polémica.

A questão é que não é fácil saber o que é que vem de quê, quando há tantas palavras semelhantes (todas elas para designar tipos de calçado, embora nem sempre o mesmo) em idiomas tão distintos como o português, o occitano, o francês, o italiano, o basco, o árabe vulgar, várias línguas eslavas e inclusivamente o tártaro e o persa – a lista é do Coromines, que é uma das autoridades nestas matérias de etimologia. É isso mesmo: o nosso sapato pertence a uma grande família etimológica, com primos direitos uns a residir aqui perto, como o italiano ciabatta (“sapatilha”), o francês savate (“sapato velho”), e outros a residir bem longe, como o indonésio sepatu (“sapato”), que foi levado para aquelas paragens, juntamente com o objecto que designa, pelos portugueses ou pelos espanhóis; e talvez até mesmo primos afastados, como sabot (“soca”, originalmente em francês, mas naturalizado também inglês), pelo menos se for verdade a tese que diz que a palavra, surgida no século XV, vem de uma contracção de savate (que naquela altura era “sapato” só, sem aludir ao seu estado de deterioração) e bot (uma forma antiga de botte, “bota”). É claro, os mocassins pertencem também seguramente a uma família etimológica, mas essa nunca me foi apresentada.

Mocassin é um hipónimo de sapato, que é então, por sua vez, um hiperónimo de mocassin, e o que estes tão estranhos palavrões querem dizer é apenas que os mocassins são um dos muitos tipos de sapatos que há. Para os que acham graça a este tipo de coisas, adianto que o fazer-se parte de um grupo “natural”, como os mocassins fazem parte dos sapatos, tem algumas implicações óbvias, que toda a gente sabe mas que só os lógicos perderam tempo a analisar e a formalizar. Por exemplo: Todos os mocassins são sapatos, mas nem todos os sapatos são mocassins. Pronto. Por isso, posso dizer: “Estavam lá muitos sapatos, mas não vi lá nenhuns mocassins”, mas não posso dizer, obviamente, (quer dizer, posso, mas hão-de pensar que eu não bato bem…) “Estavam lá muitos mocassins, mas não vi lá nenhuns sapatos”. Mas é uma relação de hiperonímia estranha, esta que há entre sapatos e mocassins, muito diferente daquelas mais clássicas como a que existe entre animal e cão. Se eu disser ou escrever “o cão entrou na sala; o animal vinha esfomeado”, ninguém hesita em compreender que o animal é o cão. Já se eu disser ao contrário, é esquisito, não é?: “o animal entrou na sala; o cão vinha esfomeado.” Mas tratando-se de sapatos, é tudo mais estranho ainda. Se “deixou os sapatos debaixo da cama; os mocassins estavam enlameados” é, como se previa, uma frase esquisita, já “deixou os mocassins debaixo da cama; os sapatos estavam enlameados” não é menos esquisito, e isso é que é esquisito…

Desisto disto e resumo para avançar: Além de fazerem parte de famílias etimológicas, tanto mocassim como sapato fazem parte de outras famílias, das quais acabo de referir a do calçado, no caso dos sapatos, e a dos sapatos, no caso dos mocassins. E como os mocassins são um dos muitos tipos de sapatos que há, são forçosamente uma variedade de calçado. Até aqui, acho que o consenso ainda vai alargado, porque o que cabe no menos cabe no mais, como diz o dito. A partir daqui, as coisas complicam-se: os sapatos, mocassins incluídos, estão incluídos no vestuário? Pelo menos em português, as duas palavras, calçado e vestuário, “o que se veste” e “o que se calça”, parecem referir grupos de objectos completamente distintos. Conjuntos sem intersecção: há alguma coisa que se possa vestir e calçar ao mesmo tempo? Parece que não. Mas já o meu dicionário, como os dicionários costumam, discorda desse comum senso que é o dos falantes apenas nativos e inclui o calçado no vestuário e calçar no vestir: “calçado: peça de vestuário para cobrir exteriormente os pés”; “calçar: revestir pés, pernas ou mãos com o vestuário que lhes compete”. Aceita-se ou rejeita se? E aceitando ou rejeitando – dá igual… –, terá isto tudo alguma lógica?

Se pusermos temporariamente de lado a nossa lusa classificação, podemos constatar que, por exemplo, em espanhol (¡ponte los zapatos rojos y baila la jota!), em francês (mets tes chaussures rouges et danse la java !) ou em inglês (put on your red shoes and dance the blues!) os sapatos como a roupa se “põem”, que é uma coisa que em português só se faz aos chapéus… ou às perucas.

Além disso, em português, como em espanhol ou francês, calçam-se luvas. E será que isso faz delas calçado? Nada! Mas peças de vestuário, serão? Não nos soa. Pobres luvas, feitas assim órfãs por estas línguas ingratas. Ainda por cima, sem poderem sequer ser hiperónimos seja lá do que for, porque todos os tipos de luvas são sempre… luvas: luvas de pele, luvas de borracha, luvas de boxe, eu sei lá que mais… Já em francês, por exemplo, as luvas podem ser gants ou moufles ou mitaines, conforme tenham todos os dedos e os dedos inteiros, ou só o polegar separado e um saco para o resto da mão, ou os dedos cortados a meio (eu sei que há mitenes no dicionário português, mas deve ser palavra de um falar diferente do meu, porque nunca a ouvi…). Se perguntarmos aos franceses, porém, qual é o nome genérico dos objectos que calçamos nas mãos, eles dizem-nos que são gants, pelo que tanto gants como moufles como mitaines são tipos de gant. E é exactamente o mesmo em inglês com glove e mitten: parece que um dos termos é hipónimo de si próprio, pelo que é grande a confusão. E eu, que me tinha proposto falar de sapatos, acho que já estou a meter os pés pelas mãos…

Mas as línguas são assim, como se sabe: traiçoeiras. E se deitarmos fora as línguas todas e nos pusermos a pensar sem essas designações prontas-a-vestir que a língua traz, podemos ir até mais longe do que o meu dicionário e dizer que calçado e vestuário é tudo uma mesma coisa, o que nos serve para nos cobrirmos, ponto, embora o português seja tão insistente na distinção que nu é “o que não está vestido” e descalço “o que não está calçado”, ao passo que outras línguas referem os pés descobertos exactamente como os braços descobertos, por desnudo, nu, naked ou bare. E este bare do dinamarquês é ainda mais curioso, porque designa tudo o que não está coberto, excepto se for uma pessoa inteira, que, sem roupa, o que está é nøgen, e não bare. E a verdade, já agora, que às vezes é nua e crua? Posso propor uma verdade descalça e crua, ou não vos cheira?

Voltando aos sapatos, e por falar em cheiros, o meu dicionário diz que chulé é o “mau cheiro dos pés”, mas poderia, com a mesma propriedade, dizer que é o mau cheiro dos sapatos, porque, nisto de maus cheiros, é difícil saber onde é que acaba o pé e começa o sapato. Tive já sapatos que me faziam cheirar mal dos pés, e que cheiravam mal eles próprios, e outros que não. Mas vá lá uma pessoa saber se é o pé que conspurca o sapato ou o sapato que conspurca o pé. Nunca me lembro de ter cheirado mal dos pés andando descalço, de chinelas, ou de sandálias bem abertas. E abandono esta excursão, que começa já a tresandar, e passo atèquenfim à história destes sapatos que trago calçados, cuja marca aqui omito para não lhe fazer publicidade, mas de que posso esclarecer que são toscanos na origem.

O que estes sapatos já viajaram, Deus meu! Senão, vejam: Primeiro, viajaram couro e sola até à fábrica, vindos sabe-se lá de onde. Depois de umas quantas passeatas por máquinas e mãos de artesãos, viajaram os sapatos que agora já o eram até algum grande armazém onde ficaram a aguardar uma sorte que não sabiam imaginar, porque a perspectiva de um sapato, nesta situação, não vai nunca muito além da sua caixa de cartão. Mas, passadas semanas, ou talvez meses, quem sabe?, começou a sua aventura maior, comparável à de tantos humanos seus compatriotas que deixaram Itália para se fixar em qualquer outro lado do mundo. Foram provavelmente de camião até um porto ou um aeroporto, e depois de barco ou de avião até à Dinamarca, que era o destino que, sem eles sonharem, lhes estava há muito fixado. Ou então foi sempre por estrada que continuaram até lá, também pode ser. É provável que tenham passado mais algum tempo nalgum sombrio armazém, quem sabe se a tiritar de frio e desesperançados do seu futuro, até os levarem à loja onde seriam depois vendidos.

Deve ter sido uma loja em Frederiksberg ou na própria Copenhaga, onde os deve ter comprado um homem já não muito jovem e de gosto conservador como eu. Sabe-se lá agora o que os sapatos terão viajado nos pés desse senhor. Talvez até Espanha ou à Grécia de férias, se calhar até Paris ou Berlim. Se calhar, o dono levou-os até de volta à sua Itália natal, onde eles pisaram pela primeira vez o solo pátrio. Depois, o senhor deve ter-se fartado deles e deu-os à Cruz Vermelha dinamarquesa, que os pôs à venda na sua loja de roupa e calçado em segunda mão em Frederiksberg, onde eu os comprei por 100 coroas apenas, ainda em muito bom estado.

Comigo, fizeram, além de viagens pequenas casa-trabalho-e-volta que eu nunca percebi se lhes agradavam ou não, uma viagem grande de Copenhaga a Maputo, que devem ter achado demasiado cansativa para a idade que tinham: no segundo dia em Maputo abriram-se e ficaram a descansar no quarto de hotel, acho eu que sem saberem o que perdiam, porque eu passeei muito por Maputo e Maputo é daquelas cidades onde dá gosto passear. Foram em seguida de Maputo a Nampula dentro da minha mala, porque eu não me quis desfazer deles, talvez os conseguisse ainda arranjar. E então, quando cheguei a Nampula, pu-los a consertar num oficina de sapateiro de uma associação de deficientes que por lá encontrei e eles vieram do conserto muito deficientemente arranjados, porque sola não havia em Nampula, ou pelo menos aqueles sapateiros diziam que não, e substituíram-lhes a sola por borracha de má qualidade, mas enfim, tão mal também não estava que não se pudessem usar, e então, como já disse, são esses sapatos que trago neste momento calçados…

Pois é, eu cá… os meus sapatos…andaram p’los prados, pisaram a lua, dormiram em casa das fadas e fizeram dançar umas quantas, como cantava Félix Leclerc. Além de tudo o mais para que possam servir – matar baratas ou dar pontapés numa bola, por exemplo –, uma função importante dos sapatos é aquilo a que poderíamos chamar a sua função musical: dançar… e serem cantados! Já introduzi lá atrás, muito ao de leve (com sapatos vermelhos, lembram-se?), o tema dos sapatos como motivo de canção. Ou o calçado em geral, seja. É, curiosamente, um motivo muito mais frequente do que se possa pensar, e há muitos clássicos da canção que falam de calçado, quando nos pomos a pensar um bocado. Além desta canção “Moi, mes souliers” de Félix Leclerc, há “High heeled sneakers” de Jerry Lee Lewis, “Blue suede shoes” e “Pointed Toe Shoes”, de Carl Perkins, “These boots are made for walking”, de Lee Hazelwood, “Boots of Spanish leather” de Bob Dylan, “Les sabots d’Héléne” de Georges Brassens… e dezenas de etecéteras. Os Flaming Groovies têm um E.P. de culto chamado Sneakers e os Henry Cow têm um álbum legendário chamado Leg End, só que, a julgar pela capa, o que, nesse caso, está na ponta da perna não é um sapato, e nem sequer um pé, é uma meia de lã, e então, pai natal falhado que sou, parece que já estou a querer enfiar nos sapatos cantigas que lá não cabem, que não entram nesta história nem com calçadeira…

O que entra nesta história sem precisar de calçadeira outra que não seja a própria palavra história é, isso sim, a História dos sapatos. Uma história que nem sequer tem muito que eu lhe diga, e ainda bem, pelo que aqui fica, com o agá grande mais pequeno que eu consigo arranjar:

Ao princípio, as pessoas andavam descalças e só depois é que começaram a calçar-se. E, por muito que se tivessem tornado, nalgumas partes do mundo, parte inalienável do corpo – como a roupa, aliás, que nós somos animais de pele insuficiente –, os sapatos nunca se tornaram (infelizmente?) património genético, de maneira que continuamos a nascer descalços e a calçar-nos só mais tarde... Durante muitos milhares de anos, as pessoas de todo o mundo calçavam-se com coisas simples, e em todos os tempos e lugares o luxo no calçar sempre foi o primeiro e mais óbvio sinal exterior de riqueza.

Há relativamente pouco tempo deu às pessoas sobretudo da Europa para disparatar também no calçado. Foram três os disparates maiores de que as pessoas revestiram, e revestem, as extremidades dos membros inferiores: O primeiro grande disparate foram as poulaines que apareceram na Europa no século XII, cujas pontas reviradas chegavam a ter 60 cm e até a serem atadas aos joelhos! Outro disparate grande, o segundo, foram os sapatos de biqueira alargada do séc. XVI: nalguns sítios e nalgumas classes, as biqueiras alargaram tanto que a sua largura chegou a ser delimitada por lei! O terceiro e último disparate, quiçá o maior de todos, foram os tacões altos, às vezes até muito altos, inventados no fim do séc. XVI e divulgados sobretudo por Louis XIV e pela sua corte, que, desde então, nunca passaram de moda. Fazem mal, são desconfortáveis, mas enfim, dão altura e fazem sobressair a barriga da perna, o que é que querem que vos diga?

Que de excursões, como diria o outro, com os sapatos a pretexto! É como eu dizia: os sapatos têm histórias como as cerejas, que se enredam umas nas outras e, a propósito de coisa quase nenhuma, podem trazer atrás tudo o que diga respeito seja lá ao que for… Até já me doem os pés de tanto delirar sobre sapatos. Vou descalçar-me e dá-los por terminados.


Foto: Sapatos alemães da segunda metade do séc. XV e primeira metade do séc. XVI, Museu Nacional da Baviera, Munique

28 de outubro de 2009

A história de Aleixo Garcia e um conto que eu desisti de escrever

Em 1923, foi publicado em Portugal um livro de Mário Monteiro chamado Aleixo Garcia, descobridor português do Paraguay e da Bolivia, em 1524-1525: glória ignorada em Portugal; em 1998, foi publicado no Brasil A Saga de Aleixo Garcia: o Descobridor do Império Inca, de Rosana Bond, livro este que é apresentado como relatando “os feitos do desconhecido catarinense que, no século XVI, atravessou toda a América do Sul, alcançou a grande civilização peruana antes dos espanhóis, e virou um mito latino-americano”.

Que Aleixo Garcia era português, não haja dúvida de que era, mesmo que se o considere catarinense; também parece certo que tenha sido um dos primeiros europeus a chegar ao que é hoje o Paraguai e a Bolívia (não nos esqueçamos que iam outros europeus com ele na mesma expedição); que é ignorado, também é verdade, e não só em Portugal (mas na Bolívia e no Paraguai é referido nos compêndios de História e até há ruas com o seu nome...); e que seja uma glória, bom, isso já é mais discutível, como é sempre discutível que alguém seja uma glória… Não é certamente ser uma glória portuguesa, porém, o que nele me interessa, que eu não sou muito dado a nacionalismos, mas sim a sua vida invulgar, onde se cruzam maneiras várias de viver, e a grande aventura de que foi protagonista, que E. Salgari, H. R. Haggard ou E. R. Burroughs gostariam certamente de ter tido como material narrativo.

Como eu a vejo, a história de Aleixo Garcia não é epopeia, mas sim tragédia. Não é a aventura de um herói nacional, fundador de nação e linhagem ou conquistador ao seu serviço, é antes o drama do homem que, cortado do seu mundo, tem de criar para si próprio um lugar numa sociedade diferente, e que, seduzido pela visão da riqueza, se lança num empreendimento tão arrojado que dele só pode resultar desgraça – para ele e para todos os outros.

Deixem-me, já agora, explicar que, se esta história aqui aparece agora, é só porque não consegui fazer dela um conto. Tomei conhecimento da existência de Aleixo Garcia, há uns 10 anos, numa História da Bolívia. Descobri depois que tinha saído há pouco tempo um livro sobre ele, no Brasil, e, durante muito tempo, tentei obter esse livro, mas nunca consegui. Fui tomando notas de tudo o que apanhava sobre o assunto, com o propósito firme de um dia escrever um conto ou uma pequena novela em que romanceasse a aventura de Garcia, mas foi projecto que acabou por ficar em águas de bacalhau. Para fazer um conto, precisava de saber palavras e nomes de pessoas guaranis, e precisava de saber como era a vida dessa gente nessa altura, e falta-me, para essa pesquisa, o dinheiro que o tempo é. Decidi então contar a história de Aleixo Garcia em versão apenas enciclopédica, ou quase, só para a apresentar a quem a não conheça:

Na sua segunda viagem à procura da passagem de Ocidente que o levasse às Índias, João Dias de Solis partiu, de perto de Cádiz, a 8 de Outubro de 1515. Essa viagem terminou para ele a 20 de Janeiro do ano seguinte. No sítio que é hoje Ponta Gorda, no Uruguai, Solis foi a terra com um grupo de homens. Os barcos ficaram ancorados perto da costa, de maneira que os homens de Solis o viram ser atacado por índios locais e assistiram à sua morte à mão dos nativos. Os barcos da frota de Solis, comandados pelo seu cunhado Francisco de Torres, regressaram a terras de Espanha a 4 de Setembro do 1516. Ou antes, só regressaram duas das três naves. A galé em que viajava Aleixo Garcia naufragou não longe do que hoje se chama Florianápolis, a ilha de Meiembipe. Salvaram-se, consoante as fontes, entre 11 e 18 marinheiros europeus. Aleixo Garcia era um deles.

[Dizia eu lá atrás que a aventura é mais trágica que épica, mas não deixa, ainda assim, de ter fortes traços de epopeia. Não sei se vos acontece o mesmo, mas, a mim, qualquer náufrago que se salve a nado traz-me logo à mente a imagem mítica de Camões, a nadar só com um braço e com o outro a tentar livrar da salmoura um esboço dos Lusíadas. É que a lenda, mesmo que só lenda, tem pujança, isso não se o pode negar... E claro, fico logo cheio de vontade de aqui fazer aparecer deuses a vociferar em decassílabo heróico e de pôr Vénus a proteger Aleixo Garcia, por ele ser da estirpe do Gama. O enredo podia ser, por exemplo, que, da mesma forma que protegem os audazes, os deuses castigam os cobardes, e que o naufrágio teria sido o castigo de Neptuno para os que decidiram abandonar a empresa gloriosa em que os tinham enviado Fernando e Isabel e fogem a correr para casa, só por terem visto João de Solis ser comido pelos originaios uruguários. Mas, qual o quê, sou um escritor raso e ignorante da beleza clássica, e seria aventura vã meter-me por tão complexos floreios da narrativa…. Fico-me por uma história mais chã.]

Aleixo e os seus companheiros foram recebidos pelos guaranis carijós. Aleixo Garcia ambientou-se, aprendeu a língua, casou-se e teve um filho, tornou-se ele próprio um chefe local. Quando ouviu as histórias que os carijós contavam das riquezas imensas dos reinos das terras altas, entre as quais uma montanha toda de prata, Aleixo Garcia pensou em reunir um exército para ir à conquistas desses tesouros. E foi o que fez. Não se sabe ao certo quando partiu. Algumas fontes dizem 1522, outras 1524. Também não se sabe quanto tempo levou a chegar ao império dos incas. Também nisso não concordam os documentos que consultei. Mas todos os textos que encontrei sobre a expedição de Aleixo Garcia estão de acordo numa coisa: o grupo que reuniu era de cerca de 2000 pessoas. E não apenas um exército como o concebemos normalmente, porque havia também na expedição mulheres e crianças.

A expedição de Aleixo Garcia subiu o chamado caminho do Peabiru, uma rota que era já utilizada há muitas centenas de anos. Não foi, claro está, a primeira vez que entraram em contacto os povos das terras baixas e os habitantes do planalto. Sabe-se que os incas desceram até às terras baixas e até é possível que tenham sido os povos do altiplano andino a abrir a rota do Peabiru. [Vem-me à memória uma descrição que li uma vez, que não me lembro de quem era e que não faço ideia que rigor terá, de um exército de soberbos guerreiros incas, invencíveis nas guerras abertas no planalto, a serem aniquilados um por um por zarabatanas de guerrilheiros invisíveis, quando tentaram em vão alargar o império às matas tropicais. Mas enfim, isso foi com certeza noutros lugares mais a Norte… O que é provável, porém, é que, como acontece muitas vezes quando se trata de contactos entre povos, os comerciantes tenham precedido os soldados e se fizesse há muito tempo comércio nesse rota que ficaria depois célebre como trajecto de expedições guerreiras.] Passando, provavelmente, perto do que hoje é Asunción, no Paraguai, e Porto Suárez, na Bolívia, os guaranis de Garcia chegaram às fronteiras do império do Inca Huayna Capac e travaram batalhas com os incas, entre as actuais localidades de Mizque e Tomina, nos departamentos de Cochabamba e de Chuquisaca, respectivamente.

Os guaranis sofreram pesadas baixas, mas parece que conseguiram apoderar-se de algum ouro e prata, antes de serem obrigados a retirar. Para além do exército incaico, os guaranis da costa tinham tido também de enfrentar um clima e uma paisagem desconhecidos, fome e doença. Não devia reinar grande optimismo entre eles quando empreenderam o caminho de regresso. García mandou à frente um pequeno grupo de homens, para irem pedir reforços e deixar a salvo o tesouro conquistado aos incas. O resto da expedição, que tinha tomado no regresso um caminho diferente, fez uma paragem à beira do rio Paraguai e foi aí que Aleixo Garcia morreu. As minhas fontes dividem-se sobre as causas da morte de Garcia: uma versão da história é que o exército de Garcia foi atacado pelos temíveis paiaguás e que Garcia foi uma das muitas vítimas mortais desse ataque. Segundo outra versão (muito mais trágica e que seria, portanto, a que eu adoptaria se tivesse escrito o conto…), Aleixo Garcia teria sido assassinado por um dos seus companheiros europeus.

E é esta a história da história que não escrevi. Nas notas que tinha para o conto, gosto das palavras que queria pôr na boca de um guerreiro carijó que, após uma terrível derrota frente a um exército incaico, quer convencer um Aleixo Garcia obcecado pelo ouro e pela prata a abandonar a empresa e a voltar para casa:

“Os campos celestes onde repousam os guerreiros existem só nos olhares que os homens e as mulheres e as crianças levantam ao céu quando os tentam imaginar algures lá em cima. A glória eterna existe só no coração de quem no-la atribui e na memória de nós. Se morrermos todos, se não ficar ninguém para contar a nossa coragem nem ninguém para a recordar, é sem valor essa coragem e é vã a morte do maior guerreiro.”
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Fontes: Li todos os textos que encontrei online com referências a Aleixo Garcia e ao caminho do Peabiru, mas, para simplificar as coisas e evitar redundâncias, digamos que este pequeno delírio foi montado a partir das entradas Aleixo Garcia e Juan Díaz de Solís da Wikipédia, de três artigos de jornal sobre a obra de Rosana Bond quando ela saiu (um artigo de Etoile Shaw, “Jornalista refaz caminho do descobridor dos incas”, no Estado de 13 de Agosto de 1998, que já não se encontra online; um artigo de Maurício Oliveira, “O verdadeiro descobridor dos incas” em A Notícia, de 28 de Julho de 1998, que também já não se encontra online no sítio original, mas que se pode ler num blogue de Ozias Alves Jr.) e a Historia de Bolivia de José de Mesa, Teresa Gisbert e Carlos Mesa Gisbert (La Paz: Ed. Gisbert, 1999). Também consultei o blogue Peabiru Calunga, que tem mapas do caminho do Peabiru.
Aqui ficam, também, para quem queira aprofundar o assunto, as referências bibliográficas dos dois livros que menciono logo no início e que não tive, infelizmente, possibilidade de ler:
MONTEIRO, Mário. Aleixo Garcia descobridor português do Paraguay e da Bolivia, em 1524-1525: glória ignorada em Portugal. Lisboa: Livraria Central de H. E. G. de Carvalho, 1923, 69 págs.
BOND, Rosana. A Saga de Aleixo Garcia: o Descobridor do Império Inca. Florianápolis: Editora Insular, Fundação Franklin Cascaes, 1998, 86 págs.
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Notas um bocado patetas:

Tentações a que, infelizmente, não soube resistir:
os originaios uruguários: Não é gralha, não senhora, é mesmo assim… E esteve quase para ser “os originaios canibários uruguais”…
um conto ou uma pequena novela em que romanceasse a aventura de Garcia: eu bem sei que é uma contradição romancear seja lá o que for num conto ou numa novela, mas é de propósito, acreditem em mim… E também, o que é que eu aqui podia pôr? Contar aqui não me serve e novelar não existe, pois não?

Tentações a que, felizmente, soube resistir:

Na versão anterior à minha auto-censura, onde se lê
João Dias de Solis partiu, de perto de Cádiz, a 8 de Outubro de 1515 lia-se
João Dias de Solis partiu, não do porto de Cádiz mas sim de perto de Cádiz, a 8 de Outubro de 1515
e onde se lê
seria aventura vã meter-me por tão complexos floreios da narrativa lia-se
seria aventura vã (uma avãtura, seria…) meter-me por tão complexos floreios da narrativa – e não porque tenha complexos relativamente a tais floreios…

Para que vocês vejam…

18 de outubro de 2009

Recuperado de um blogue apagado 4: Retalhos da vida de 3 compositores

Último bocado de roupa velha com os restos da Rádio Sim Carolina. Tomem lá três histórias de música que, acho eu, podem interessar também a quem não se interessa por música. O que vem a itálico nos textos que se seguem foi traduzido, às vezes em terceira mão, do livro Music in the Western World, A History in Documents (Weiss, Piero e Richard Taruskin, selecção e anotação. Nova Iorque: Schirmer Books, Macmillan, 1983). O resto vem dos sítios para onde vos mandem os links...

Salomé e a vivenda de Garmisch 
A ópera Salomé de Richard Strauss (1986-1947), com libreto de Hedwig Lachmann baseado na peça homónima de Oscar Wilde, foi estreada em Dresden em 1905. Num texto educativo da English National Opera, entretanto desaparecido da Internet*, Sarah Lenton dizia-nos sobre essa estreia que, “durante 90 minutos, o público observou traumatizado a história bíblica da morte de S. João Baptista transformada agora num relato de corrupção e depravação. A música era pertinazmente moderna, os cantores cantavam com o máximo das suas forças e tudo aquilo era indescritivelmente macabro. No fim do espectáculo, Strauss virou-se para o público e disse: «Bem, eu gostei bastante – e vocês?»”

Uma conhecida enciclopédia explica também que “a combinação do tema bíblico, do erótico e do homicídio, que tanto atraíam Wilde na história, chocaram o público de ópera desde a primeira apresentação da obra” e que a ópera foi proibida em Londres pelo gabinete de Lord Chamberlain até 1907 e Gustav Mahler não conseguiu obter do censor de Viena consentimento para que ela fosse levada à cena”. Um pequeno escândalo, como se vê.

Interessante também é o que nos conta o próprio compositor sobre a estreia de Salomé e a sua recepção em geral:
O espectáculo teve o sucesso que têm todas as estreias em Dresden, mas os agoireiros todos, a abanarem a cabeça depois, no Bellevue Hotel, eram unânimes na opinião de que, embora a obra pudesse ser produzida num ou noutros teatro de muito grandes dimensões, em breve desapareceria. No espaço de três semanas foi aceite por, creio eu, dez teatros e fez sensação em Breslau com uma orquestra de apenas 70 instrumentos. Depois, começaram os disparates na imprensa, a oposição do clero (…) e dos puritanos de Nova Iorque (…). O imperador alemão consentiu que a obra fosse levada à cena só depois de Sua Excelência [o Administrador Geral] Hülsen se ter lembrado de fazer aparecer no fim a estrela de Belém, como sinal da chegada dos reis magos! Uma ocasião, Guilherme II disse ao seu Administrador Geral: «Tenho pena que Strauss tenha composto esta Salomé. Eu até gosto bastante dele, mas vai desgraçar-se com isto!». Graças a esta desgraça, consegui comprar a minha vivenda de Garmisch!
Quando eu morrer, pensem de mim o que quiserem
A Sinfonia nº 3 de Camille Saint-Saëns, a sinfonia com órgão, de 1886 é uma das sua obras mais conhecidas e é normalmente considerada um clássico do reportório sinfónico. Esta sinfonia, que lança mão de uma orquestra grande reforçada com piano (às vezes a quatro mãos) e órgão, é muito provavelmente, como dizem as liner notes de uma edição que tenho dela, a obra pela qual Saint-Saëns gostaria de ser conhecido. “Dei aqui tudo o que conseguia dar”, disse Saint-Saëns da obra, “o que fiz nessa altura não o voltarei a fazer”.

Mas não é. Ou seja, é uma das obras pelas quais é conhecido, mas a obra pela qual é mais conhecido é O carnaval dos animais, que ele nunca considerou senão uma brincadeira, uma peça menor, sem interesse, e que, por isso mesmo, proibiu de ser tocada em público enquanto fosse vivo. A decisão de Saint-Saëns provoca-me uma estranheza que a proibição simples de execução pública de uma obra não me causa: ele proibiu a execução d’O carnaval dos animais enquanto fosse vivo, mas autorizou expressamente a sua execução após a sua morte. O que, bem vistas as coisas, é o mesmo que dizer assim: “O meu nome, a minha reputação, a maneira como quero que os outros me vejam, tudo isso acaba quando eu acabar… A partir daí, vejam-me lá como quiserem, que eu já cá não estou para ver como me vêem…”. O que é, no mínimo, uma atitude fora do vulgar…

Pode alguém ser quem não é?
Eu sei que, dos músicos, o que conta é a música, mas também sei que quem se interessa por música não consegue nunca deixar de espiolhar um bocadinho a vida de quem a faz. Ora a vida de Prokofiev tem mistérios que cheguem para inspirar muitas novelas; e mistérios que não o são só para amadores como eu ­– mesmo os grandes estudiosos de Prokofiev confessam-se incapazes de afirmar com o mínimo de certeza que as coisas se passaram assim ou assado, e por esta ou por aquela razão. Por que voltou Prokofiev à Rússia, se não tinha disso nenhuma necessidade, bem pelo contrário? Ninguém compreende. E por que aceitou com aparente docilidade as imposições do Partido? Que sinceridade havia, se havia alguma, na retractação pública em que se humilha a si próprio em 1948? É quase standard, nas biografias de Prokofiev, descrevê-lo na sua juventude como um enfant terrible. Prokofiev não era propriamente uma pessoa submissa, mas, quando lemos a carta que escreve em 1948 à Assembleia-geral dos Compositores Soviéticos, a que a doença o impede de assistir, ficamos sem saber o que pensar. Eis um excerto:
No que me diz respeito, a minha obra caracterizou-se por elementos de formalismo até há 15 ou 20 anos. Pelos vistos, apanhei a infecção através do contacto com algumas ideias ocidentais. Quando foram denunciados no Pravda erros formalistas na ópera Lady Macbeth do Distrito de Mtsensk, de Shostakovitch, pensei muito nos mecanismos criativos da minha própria música e cheguei à conclusão de que tal método de composição estava errado.
Por conseguinte, comecei a procurar uma linguagem mais clara e com mais significado. Em várias das minhas obras posteriores (Alexander Nevsky, Um brinde a Estaline, Romeu e Julieta, Quinta Sinfonia) esforcei-me por me libertar de elementos de formalismo e parece-me que, em certa medida, o consegui. A existência de formalismo nalgumas das minhas obras explica-se, provavelmente, por uma certa complacência e por não me ter dado suficientemente conta de que ele é completamente rejeitado pelo nosso povo.
O facto é que, nas obras que Prokofiev refere, escritas depois de ele “renunciar” ao “formalismo pequeno-burguês”, por muito que mais “melódicas” ou menos “modernas”, se continua a sentir o fogo de artifício prokofieviano, que é único. Mais “russa” ou menos “russa”, mais “popular” ou mais “burguesa”, a música de Prokofiev continua a ser genial. Mas o mais interessante é que a História de um Homem a Sério, a ópera em que ele estava a trabalhar na altura, foi recusada e proibida pelo Sindicato dos Compositores, por muito que, na referida carta à Assembleia-geral dos Compositores Soviéticos, Prokofiev desse conta da intenção de “introduzir trios e duetos, coros desenvolvidos em contraponto, para os quais [usaria] algumas melodias folclóricas interessantes do Norte da Rússia”, acrescentando que os elementos que pretendia usar nessa ópera eram “uma melodia lúcida e, tanto quanto possível, uma linguagem harmónica simples”. O que prova que, quando se é Prokofiev, não vale a pena tentar ser outro compositor que não se é…
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* O texto  de Sarah Lenton encontrava-se em http://www.eno.org/src/Salome.pdf, visto a 18 de Outubro de 2009

17 de novembro de 2008

Lendas portuguesas: rosas húngaras e amendoeiras andaluzas

A lenda das rosas

Havia em Paris (talvez ainda haja...) um bar chamado Lèche-Vin, que era todo decorado com imagens de santinhos e santinhas, excepto a casa de banho, cujas paredes eram forradas a fotografias pornográficas. Uma noite, enquanto saboreava uma bière de garde, chamou‑me a atenção uma das santinhas na parede mesmo ao meu lado. Ou melhor, o que me chamou a atenção não foi tanto a santa mas o texto que tinha por baixo: “Há muito tempo, transformaram-se bocados de pão em rosas nas pregas do vestido de Santa Roseline, padroeira dos Cartuxos”.

Vim a saber mais tarde, à leitura de um romance de Somerset Maugham sobre uma parte da vida de Maquiavel (Then and now) que (traduzo eu) “[Isabel da Hungria,] proibida pelo seu cruel marido de acudir aos necessitados, encontrou-o na rua um dia em que levava com ela pão para os pobres. Suspeitando que ela estava a desobedecer às suas ordens, ele perguntou‑lhe o que levava no cesto e ela, assustada, disse-lhe que eram rosas. Ele arrancou-lhe o cesto da mão e quando o abriu constatou que ela tinha dito a verdade. Os pães tinham-se milagrosamente transformado em rosas de cheiro doce.” Não sei se isto se terá passado com o marido, como conta a lenda, ou antes com o cunhado, porque foi o cunhado que, depois da morte do marido, a acusou publicamente de andar a gastar o dinheiro das propriedade da família deles, na Turíngia.

Seja como for, acho que perceberam onde é que eu quero chegar: estas histórias são iguais entre si e iguais à lenda que todos conhecem e que se conta de Isabel, esposa do nosso rei Dinis. Seguindo um critério cronológico, a milagreira original deve ser Isabel da Hungria e não a de Portugal, já que a santa húngara, tia-avó da portuguesa, viveu umas quantas décadas antes dela. E mesmo Santa Rosaline de Villeneuve (1263-1329), a outra candidata ao milagre das rosas, é ligeiramente mais velha do que Isabel de Aragão (1271-1336); e, sobretudo tendo em conta que o milagre das rosas que se lhe atribui se deu na sua juventude, também o pão se lhe transformou em rosas no regaço antes de o mesmo extraordinário acontecimento se ter dado com a Isabel de D. Dinis...

Mas enfim, o que mais me interessa nesta história é analisar com que tipos de atitudes compactua Deus, se assumimos que o milagre é produto da intervenção divina: O marido (ou o pai, no caso de Roseline de Villeneuve) não quer que a santa pratique a caridade; e quando o homem aparece, a santa, em vez de assumir o bem que faz, tenta disfarçá-lo, submissa ao poder masculino. O milagre devia ser, acho que estamos nisso todos de acordo, cair do céu um martelo em cima da cabeça do homem, e que lhe abrisse um fenda no crânio por onde o Espírito Santo pudesse entrar, começando então o ex‑sovina a contribuir voluntariamente do seu bolso com qualquer coisinha para os mais desfavorecidos – e já não digo instituir um sistema social justo nos seus domínios, que, mesmo para milagre, é pedir demais a Deus… Mas, não! O que Deus faz, milagre dos milagres, é ajudá‑la a mentir para se safar de um raspanete do pouco caridoso marido (ou pai).

A lenda das amendoeiras

Dispenso‑me de comentar a moralidade deste nosso criador e passo antes a traduzir do inglês um texto que encontrei num “livro de factos” das Selecções do Reader’s Digest (AAVV, Reader’s Digest Book of Facts. Cape Town: Reader’s Digest Association of South Africa – Printbak Books, 1989, p.63.)
Um rei árabe mandou uma vez plantar com amendoeiras toda a encosta de uma colina – para agradar à sua esposa favorita. Este rei, Almotamid, que reinou na região à volta de Sevilha em meados do século XI, quando Espanha era, em grande parte, uma colónia moura, mandou fazer esta plantação perto de Córdoba, porque a sua mulher – uma escrava cristã chamada Itimad – nunca tinha visto neve. Na Primavera, as pétalas caídas das flores das amendoeiras cobriam de branco as encostas, o mais parecido como neve que se conseguia no clima temperado do Sul de Espanha.
Esta versão da história diverge, pois, da que nós que conhecemos como “portuguesa” e como “A lenda das amendoeiras” por não se passar no Algarve (embora, de facto, o reino de Al-Mutamid abrangesse também o Algarve) e no pormenor importante de que Al-Mutamid quer mostrar a I’timad que aspecto tem a neve, ao passo que na versão portuguesa (pelo menos, como eu a conheço) o rei mouro não identificado quer, com a “neve” artificial, matar as saudades que a sua nórdica esposa sente das paisagens de Inverno da sua terra natal. Na minha opinião, esta versão da história é muito mais bonita. Agora, a história é provavelmente tirada do Libro de los ejemplos del conde Lucanor y de Patronio, de Don Juan Manuel. Se assim for, a versão original, que vem em pouco mais de um parágrafo do “Exemplo XXX” desta obra, não é bem nem como a do livro das selecções do Reader’s Digest nem como a que eu aprendi na escola (traduzo eu), mas mais próxima desta do que daquela:
(…) um dia, estando em Córdova no mês de Fevereiro, caiu uma neve; e quando Ramaiquía a viu, começou a chorar. E perguntou-lhe o rei por que chorava. E ela disse-lhe que porque nunca a deixava estar em terra onde visse neve. E o rei, para lhe agradar, mandou pôr amendoais por toda a serra de Córdoba; para que, como Córdoba é terra quente e não neva aí todos os anos, em Fevereiro aparecessem floridos os amendoais, que parecem neve, para lhe fazer perder os desejos da neve.
Agora, pergunto eu, por que é que Al-Mutamid não levou I’timad à Sierra Nevada, que fica ali perto? Apaixonado, talvez, mas de paixão preguiçosa.

Para terminar, como as palavras são como as ginjinhas, e a propósito de origens desconhecidas de histórias conhecidas, uma curiosidade: Sabiam que foi ao Libro de los ejemplos del conde Lucanor y de Patronio, de que eu falava aí atrás, que H. C. Andersen foi buscar a história, que toda a gente pensa que foi ele que inventou, de um rei que andava nu convencido de que andava bem vestido?

6 de novembro de 2008

Histórias de arenques e bacalhaus

Quando se faz história de temas em vez de se fazer história de nações e dos seus líderes, os objectos de estudo que eu vejo são sempre abstractos. Há história do medo, da democracia, da família, da vida privada, das doenças, da contracepção, do diabo, etc., etc., etc., mas nenhum desses temas de mentalidades e instituições tem cheiro que não seja metafórico e vago. Nada que se possa comparar com o apetitoso cheiro – nauseabundo, dirão alguns, eu sei… – do arenque e do bacalhau, de que li há pouco tempo duas histórias (uma de cada um, claro está…): Cod: A Biography of the Fish That Changed the World, de Mark Kurlansky* (London: Penguin, 1998) e Herring - A History Of The Silver Darlings, de Mike Smylie (London: The History Press LTD, 2004). São dois livros, perdão..., dois peixes fundamentais para a história da Europa e de mais alguns lugares do mundo.

[Esclareço também que, ao contrário do que eu dizia noutro texto desta Travessa (e espero que isso não tenha sido claro para ninguém, porque a minha intenção, nesse texto, era precisamente que não se distinguisse o que era irónico do que não o era…), acho mesmo que toda a gente devia comer peixe e sopa, e tudo com azeite cru, em vez de porcarias que só fazem é mal!]

As duas histórias de peixes de que aqui falo agora têm várias coisas em comum: são ambas de escrita escorreita e leitura fácil; são as duas pouco académicas e, a espaços, de rigor duvidoso (mais a primeira do que a segunda), mas têm ambas também muita informação interessante e suficientemente documentada; têm as duas muitas receitas, de gastronomias várias e algumas delas muito antigas; e são ambas ilustradas com muitas e bonitas fotografias, desenhos e gravuras (mais a segunda do que a primeira). Eis uma selecção um bocado ao calhas de coisas que se podem aprender nestes livros: aprende-se, por exemplo, que, ao contrário do que possam imaginar alguns ecologistas ingénuos, há muito tempo que se come comida transportada de bem longe; aprende-se que muitas receitas de cozinha que muita gente considera exclusivas do seu país (pastéis de bacalhau, por exemplo…) não são de uma exclusividade assim tão exclusiva como isso tudo…; aprende-se como James I de Inglaterra teve a ideia de delimitar águas territoriais e como a ideia se foi desenvolvendo; que o arenque constituía uma parte importante da alimentação dos soldados do império britânico; que era, em muitos sítios, em arenques que se pagavam tributos feudais e dízimas; que o arenque é um dos produtos cujo comércio está na origem da criação da Liga Hanseática; aprende-se que as cabeças do bacalhau eram, antigamente, a parte mais valorizada desse peixe (fresco, entenda-se); aprende-se como os pescadores foram tranquila e obstinadamente esvaziando os mares de peixe (mas isso já toda a gente sabe, não é?); e como os gostos foram mudando à medida que a Europa se ia desenvolvendo, até o peixe deixar de fazer parte da dieta quotidiana da esmagadora maioria dos seus habitantes (Portugal e Espanha ainda são, ao que parece, uma ainda-bem-que-excepção). E aprende-se também que – ao contrário do que pensam muitos portugueses e embora se tivessem fartado de o pescar, ninguém lhes tira isso – não foram os portugueses os mais importantes pescadores de bacalhau** (e, claro, de arenque também não o podiam ser, que não é peixe das nossas águas nem das nossas tradições), mas tiveram, em certas épocas um papel muito importante na conservação de ambos os peixes, que foi o de fornecerem sal – e o sal favorito dos produtores: no início do século XIV, o sal de Aveiro era o sal preferido para salgar bacalhau de boa qualidade; na mesma altura, era proibido aos neerlandeses usar o chamado “sal de Lisboa” (que era de facto de Setúbal) para a salmoura do arenque de barrica, mas, nos séculos seguintes, era esse mesmo sal considerado o melhor para esse fim.

Agora, certo já de sermos o sol, o sul e muito o sal, o que tenho de fazer a seguir é arranjar um livro sobre a “rechinante sardinha” (deve haver…), que é, aliás, também da família dos arenques. De facto, os dois peixes são tão parecidos no sabor e na textura que eu não percebo por que é que não se comem arenques assados na brasa nos países do Norte e por que é que não se faz conserva de sardinha em molhos à base de vinagre, sal e açúcar nos países do Sul. Tenho de ser eu, está visto, a acabar com esses prconceitos. E depois digo-vos o resultado, sim?
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* Está traduzido em português americano e em português europeu. A edição portuguesa é O Bacalhau: biografia do peixe que mudou o mundo. Lisboa: Terramar, 2000.

** De facto, os portugueses praticamente não pescaram bacalhau entre o século XVI e o século XIX, e, mesmo no período áureo da pesca do bacalhau, dos anos 40 aos anos 70 do século XX, quando Portugal conseguiu chegar a ser o primeiro produtor mundial de bacalhau seco e salgado, não deixou nunca de importar bacalhau. Para um resumo da história da pesca do bacalhau, ver, por exemplo, o documentário da RTP Faina maior, a pesca do bacalhau, do historiador Fernando Rosas, com a participação do historiador Álvaro Garrido, especialista do tema.