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30 de maio de 2018

De especialização e especialistas

Da especialização propriamente dita

«Sabe-se cada vez mais de cada vez menos», ouve-se e lê-se muitas vezes. E eu acho que, por sedutor que possa ser, este discurso não resiste bem a um bocadinho de reflexão.

O todo não é, como todo, apreensível nem analisável de forma organizada e racional – o todo é demasiado grande para os nossos sentidos e a nossa capacidade de abstração. Só faz sentido uma teoria geral fundamentada na totalidade possível do conhecimento específico. Neste sentido, a especialização não é um mal necessário, é um bem necessário, porque é de muitos conhecimentos especializados que é feito o conhecimento geral.

Quando se critica o demasiado enfoque na especialização e a proliferação de especialistas, porém, normalmente não se quer com isso dizer que há pouco quem tenha um conhecimento da Teoria Geral da Relatividade ou outra teoria bastante geral do universo, mas fala-se antes do declínio da erosão de um saber antigo – «enciclopédico», digamos – em que todas as áreas do saber se misturavam e se confundiam em relações estranhas, meio mágicas muitas delas. O problema é que só era possível saber bastante de tudo no tempo em que se sabia pouco de quase tudo. Hoje, não só há uma (incomparavelmente) maior acumulação de conhecimento em cada área, como há muito mais áreas de conhecimento, de maneira que um saber «generalista» correspondente é agora, pode dizer-se, não saber quase nada de quase tudo – o que não deve ser melhor que saber quase tudo de quase nada, pois não?

Uma parte da crítica à especialização é mais uma versão do catastrofismo milenarista que diz que o passado é que era bom e o presente é lugar de decadência. Neste caso, eram bons os intelectuais que cobriam todas as áreas de saber e a decadência é a especialização. Na realidade, mesmo aprofundando conhecimentos numa área específica, provavelmente nunca houve tanta gente a saber tanto de tanta coisa. Não parece ser a especialização a matar a cultura geral. (E provavelmente, quem sabe muito pouco de quase nada também sabe mais do que quem antigamente sabia muito pouco de quase nada…)

Por fim – e notem que é de uma impressão que aqui se trata, não é nada que eu consiga demonstrar –, causa mais danos a ânsia de «holismo» do que a resignação de se conformar com a especialização. É que o centrar-se com rigor em objetos específicos tem a vantagem de nos fazer perceber quais são os limites concretos da procura concreta de conhecimento e não incentiva, como o parece fazer alguma procura de «holismo», a tentar preencher com uma alegre e seguramente bem-intencionada falta de rigor, quando não puro delírio, os espaços de ignorância que, claro, não deixam nunca de existir. Que vos parece?

Sejamos claros, enfim: se é sem dúvida importante para a vida de cada um o conhecimento «generalista», «enciclopédico», «holístico», e simplesmente a cultura geral, enfim, os avanços técnicos devem-se diretamente à especialização. A longa história da redução do tempo de trabalho e aumento do tempo de lazer, do aumento da esperança e da qualidade de vida – o viver-se, enfim, mais tempo em melhores condições e com menos esforço – é em grande medida a história do aumento do conhecimento especializado.

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Da desvalorização dos especialistas, e mais duns que doutros

Uma coisa curiosa, a propósito de especialização: parece-me evidente que a especialização se aceita melhor em certas áreas que noutras – o que, para mim, não faz qualquer sentido. Para conceber ou construir um edifício ou uma ponte, ninguém hesita a recorrer a técnicos altamente especializados. Se se discute alguma questão de física ou de química, aceita-se sem problema como referência a opinião de especialistas das áreas em discussão. Sobre a biologia, há mais reservas, sobretudo quanto à sua vertente técnica, a medicina: se é verdade que a maior parte das pessoas vai ao médico quando está doente, infelizmente aceitam-se ainda muitas opiniões de leigos sobre como lidar com problemas físicos de toda a ordem. Já se se discute língua ou história, quase toda a gente se sente capaz de ter uma opinião sobre temas de que não sabe grande coisa. Há casos até em que a condição de especialista, se não é considerado um handicap na discussão, é, pelo menos, vista como indesejável: «Esta saloiice do especialista, sobretudo nas ciências humanas», escrevia alguém no outro dia, num comentário no Facebook, «é uma idiossincrasia de país atrasado». Lá está: «sobretudo nas ciências humanas».

Será porque as pessoas as considerarem áreas «não científicas» e não dão, por isso, o mesmo crédito aos especialistas dessas áreas? Não creio que seja essa a razão, mas se fosse, seria uma atitude pouco razoável e incoerente. Sejam quais forem as especificidades das ciências sociais e humanas relativamente às ciências naturais (o seu grau de «dureza» varia muito de umas para as outras e de uma para outra área dentro de cada uma delas) deveria ser óbvio que os especialistas de uma determinada área de estudos sabem incomparavelmente mais dela que as outras pessoas e parece, no mínimo, sensato ouvir com muita atenção o que têm a dizer sobre essa matéria.

O problema pode bem ser antes que certas áreas sejam sentidas por todas as pessoas como mais diretamente constitutivas da sua identidade, do lugar que a si próprias se atribuem no mundo e que, por isso, se sintam mais no direito de ter uma palavra a dizer, sobretudo quando há algo que vem mexer com partes muito fundas dos afetos. Não é fácil abdicar de crenças e automatismos solidamente enraizados para se abrir a dados factuais – a que falta muitas vezes, ainda por cima, o conforto da simplicidade a preto e branco dos preconceitos…

Enfim… O certo é que a postura, quando não a crença explícita, de muita gente é que – pelo menos nalgumas áreas – todas as opiniões valem o mesmo, nem que sejam sobre assuntos em que nunca se pensou antes de surgirem polémicas em que imediatamente se toma partido. Isto é, para mim, um bocado assustador, porque é dar cabo, de um golpe fácil, de toda a base do conhecimento humano e da sua possibilidade de continuar a evoluir.

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 Dois exemplos óbvios de polémicas em que muita gente pessoa crê ter opiniões tão válidas como as de quem sabe do tema em discussão são a da reforma ortográfica e a da designação do futuro museu de Lisboa que se pretende dedicar às viagens e à expansão territorial portuguesas.

Participei algumas vezes na discussão da reforma ortográfica. Defendi-a contra vários ataques sem pés nem cabeça. Há gente que não sabe ou não quer distinguir entre língua e grafia, que defende a influência da grafia na pronúncia (sem se quer se dar conta, sequer, de que o seu argumento implicaria que não existissem as tais «consoantes mudas» que acha que devem continuar a existir), gente que não compreende a diferença entre as várias lógicas que podem subjazer a uma grafia, gente que não sabe sequer o que está em discussão, gente que nunca pensou dois minutos sobre grafia antes de a reforma entrar em vigor, mas que expressa, ainda assim, de forma veemente, quando não virulenta, opiniões não fundamentadas. Como o assinalava um comentador anónimo numa discussão em linha, esse violento debitar de disparates teve como consequência afastar do debate público a maior parte das pessoas que sabem alguma coisa de língua, linguistas ou não, académicas ou não, defensoras ou não da reforma, porque a discussão era demasiado má, a todos os níveis – e ficou, com essa ausência, ainda pior… A verdade é que não havia muito a discutir, porque a esmagadora maioria dos detratores da reforma não estava e não está disposta a uma discussão racional. A única coisa que querem é continuar a escrever como aprenderam e alguns chegaram a justificar de formas abstrusas o seu conservadorismo. Cheguei a ver, por exemplo, quem afirmasse que o tempo que tinha passado a aprender a escrever como escrevia justificava bem nunca mudar de ortografia.

A defesa da designação «Museu das descobertas» e o ataque à carta de mais de uma centena de académicos que denuncia a carga ideológica dessa designação é também significativa. Di-lo bem o historiador Paulo Pinto, um dos signatários do documento (artigo aqui):
Há um indiscutível aroma lunático em tudo isto. Primeiro, porque é incompreensível a ligeireza e o desprezo que continuam a merecer historiadores e especialistas das Ciências Sociais e Humanas; depois, porque o que deveria ser um debate intelectual construtivo e sereno é reduzido, afinal, a um destilar de bílis e paixões; finalmente, porque o nosso ego nacional, aparentemente sólido e robusto, revela-se, uma vez mais, um véu frágil e inseguro. Não se encontra uma opinião fundamentada a contestar a carta, só achismos, mitos, calor e ignorância. 
Há também outro aspeto que ajuda, provavelmente, à postura antiespecialistas. O conhecimento sério, seja ele de história, língua ou seja lá do que for, não só é complexo como é chato para a maior parte das pessoas. O simplismo dos mitos é muito mais reconfortante – e mais mediático. Cabe aos especialistas, é certo, tentar tornar a complexidade das suas áreas acessível a toda a gente, mas e complexidade das questões não pode ser nunca razão para os deixar de lado no debate público – é antes razão para lhes dar mais visibilidade. Como diz a historiadora Ângela Xavier Barreto (artigo aqui),
[a] revisitação histórica e a recusa de visões simplistas e parcelares são exercícios fundamentais de e para uma cidadania consciente, informada, crítica — aquilo que tantas vezes se acusa de, na sociedade portuguesa, não existir. Entre os signatários [da carta aberta publicada no Expresso online de 12 de Abril] encontram-se, precisamente, muitas das pessoas que, nas últimas décadas, produziram conhecimento científico de referência sobre temáticas associadas à expansão dos portugueses. É verdade que a maior parte delas não escreve colunas nos jornais, nem aparece na televisão. É por isso que é tão importante que M[iguel] S[ousa] T[avares] se disponha a dialogar com elas e que os leitores possam partilhar a discussão sobre os problemas que existem com as palavras que reproduzem a imaginação histórica em que foram educados.*   
***
Mas então, quero eu dizer com isto que todas as discussões se devem reservar aos especialistas de cada área, que os não especialistas não têm direito a opinião? Não, não quero dizer absolutamente nada disso; apenas que, para ter uma opinião sólida, para participar numa discussão de maneira construtiva e rigorosa, uma pessoa deve informar-se… junto dos especialistas – que têm muitas vezes, aliás, posições diferentes uns dos outros. E que em situação nenhuma, mas nenhuma, a ignorância pode ser usada como argumento («eu não sei nada do assunto, por isso recuso-me a ter em conta o que se sabe desse assunto») e o conhecimento considerado um handicap na discussão. Só isto.


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* Ângela Xavier Barreto refere Miguel Sousa Tavares, porque responde ao seu ataque à carta aberta dos académicos, mas o que ela afirma diz, obviamente, respeito a todos os participantes em qualquer debate nestas condições. Sobre a questão do museu, é interessante também ver a opinião não só de historiadores, mas também de museologistas como Maria Isabel Roque (artigo aqui) e Maria Vlachou  (artigo aqui – no fim deste artigo, há uma lista de links para 20 artigos sobre este tema)

17 de janeiro de 2018

Cor de burro quando foge, vinho a martelo e… o pau da gávea das caravelas

Uma coisa que parece agora estar na moda é arranjar novas explicações, tão complicadas como falsas, quando não completamente disparatadas, para expressões cuja origem não é óbvia para a maior parte das pessoas.

Há, por exemplo, quem afirme que a expressão cor de burro quando foge tem origem em corro de burro quando foge (ver aqui um exemplo de um desses artigos que não diz nada que se aproveite).
Burro muda de cor quando foge??? Qual cor ele fica??? Porque ele muda de cor??? Eu queria porque queria ver um burro fugindo para ver a cor dele! Sério! O correto é: ‘Corro de burro quando foge!
Não faz grande sentido e, de facto, confunde mais do que explica seja lá o que for. Em que contexto pode «corro de burro quando foge» – frase estranhíssima, aliás – evoluir para passar a designar uma cor indefinida? Ora, francamente…

Uma hipótese menos disparatada é que, como burro pode ter designado uma cor apenas, antes de ter começado a designar o animal, a expressão derive de uma cor de burro antiga, a que se tenha acrescentado quando foge com intenções humorística, quando burro já não era senão o nome do bicho (vejam aqui). Mas é uma discussão muito especulativa, e, sobretudo, passa ao lado de um facto simples que não se pode ignorar em nenhuma proposta de explicação da expressão: tanto em castelhano como em italiano existe a expressão «cor de cão que foge», com o mesmo significado –respetivamente color perro que huye e colore del cano che fugge. Ora não me parece que perro ou cane alguma vez tenha sido, nestas línguas, nome de cor. A partir de que língua se difunde a expressão ou se vão as três buscá-la a outra língua, eis o que haveria que descobrir...

Interlúdio musical:

Outra explicação delirante do mesmo tipo é uma que há da expressão vinho a martelo, por exemplo aqui:
A expressão remonta ao século XX quando o Engenheiro Simão de Martel descreveu os dados estatísticos oficiais da produção de vinho como muito enganadores. 
Eu sei bem que estas explicações «etimológicas» são sedutoras e, como até podem parecer lógicas à primeira vista, é fácil aceitá-las. Mas eu sou um chato. Para já, quando leio «A expressão remonta ao século XX» fico logo com uma ideia clara do rigor do que segue. Num texto escrito em 2014, dizer que a expressão «remonta ao século XX» é um bocado disparate, para não dizer mais. Mas adiante…
A questão que me surge de imediato é que o facto de Simão de Martel ter criticado as estatísticas da produção de vinho (penso que isto se refere a um estudo dele de 1911 que é muito citado, mas não tenho a certeza) não explica em nada a expressão. Começa por ser «a Martel»? Com que lógica se usa aquela preposição? Mais uma vez, não faz grande sentido.

Ora, na realidade a expressão é anterior a Simão de Martel. Para dar um exemplo apenas, vejam aqui que, em 1885, tinha Simão de Martel 6 anos de idade, já se falava de vinho a martelo, não só em Portugal, mas também no Brasil:
Os vinhos continuam a dar que fallar de si. Uns querem que elle só seja extrahido das uvas. Outros, porém, contentam-se de que elle seja feito—a martello.  
A verdade é que não é preciso ir buscar explicações esotéricas. Infelizmente, não tenho à mão dicionários com datações de primeiras ocorrências, mas a expressão a martelo deve ser bem mais antiga. Parece-me claro que significa inicialmente «à força; à bruta» e o significado alarga-se facilmente para «mal feito, feito de qualquer maneira» e daí para «contrafeito». Como o explica, aliás, Gonçálvez Viana nas suas Apostilas aos Dicionários Portugueses, de 1906:
martelo, marteleiro
— «O paiz está cheio de mixórdias, abarrotado de vinho a martello... Sabem os poderes publicos, porque conhecem e convivem com os marteleiros» — O sentido de vinho a martelo é evidente; quere dizer «vinho aldrabado», e a locução a martelo pertencia à língua comum, querendo dizer «à fôrça», «sem dever ser».
Muita fortuna tem também tido uma explicação completamente disparatada da expressão mandar/ir para o caralho. Sobre essa, não preciso de escrever nada eu, basta-me citar a Wikipédia, que, numa nota de rodapé à discussão etimológica da palavra, a desmonta bem:
Às [as várias etimologias propostas] (…) acrescentou[-se] muito recentemente uma lenda urbana em circulação na Internet que, tanto em português como em castelhano, alega que caralho ou carajo era o nome dado ao pau maior da cesta ou gávea das antigas caravelas, e que seria essa a origem desta designação de caralho para o membro viril masculino. Tudo parece indicar que a lenda nasceu de uma tentativa de explicação para as frases "¡Vete al carajo!" ou "Vai para o caralho!", que supostamente se refiririam [sic] ao castigo que recebiam alguns marinheiros a quem se obrigava a subir à gávea, onde estavam os vigias, e aí permanecer algum tempo. O uso do termo caralho está documentado, no entanto, em épocas muito anteriores à das caravelas portuguesas ou castelhanas, pelo que se a gávea alguma vez teve esse nome era, como no caso do carall bernat catalão, por metáfora ou exagero de semelhança entre o caralho e o pau maior onde encaixava essa cesta, que seria a ponta do caralho.
É caso de dizer que apetece pôr de castigo na gávea quem, inventa e difunde estas – e muitas outras – patranhas…

15 de janeiro de 2018

Dançar, bolçar, axandrar

[Este texto é mesmo só para quem gosta de coisas de língua. Para a maior parte das pessoas, é provavelmente uma grande seca. Quem vos avisa, vosso amigo é.]

Diz Ana Luísa Alves no ESCS Magazine que «[u]ma das particularidades da poesia de Sophia [de Mello Breyner Andresen] é a maneira simples como esta escreve a palavra dança: dansa. Com “s” porque, nas suas palavras, “tem muito mais movimento que um ‘ç’”. (…)
Tudo me é uma dansa em que procuro
A posição ideal,
Seguindo o fio dum sonhar obscuro
Onde invento o real. (…)»
Consultando-se apenas um dicionário de português (o Porto Editora, por exemplo, aqui e aqui) pode pensar-se que Sophia de Mello Breyner Andresen tem razão em escrever assim. Desde que, em quase todas as variantes do português, deixámos de fazer a diferença entre os sons que correspondiam antigamente a s e a ç ou a x e a ch1, o que justifica uma ou outra grafia é apenas a etimologia. Então, se dança e dançar vêm do francês danse e danser, porque não escrever-se dansa e dansar? A questão é complicada. Não sei a data de importação da palavra e se foi importada diretamente ou por intermédio de outra língua; mas, antes de serem danse e danser, as palavras francesas foram dance e dancier (e também dancer e dauncer) e encontra-se o equivalente ao ç em muitas línguas, do inglês dance ao alemão tanzen e ao italiano danzare. Nas línguas ibéricas, que conservaram, algumas delas a distinção de pronúncia entre s e c/z, também não é s que se usa: é danciar em asturiano, danzar em galego e castelhano.  A grafia dançar em português é antiga e parece justificada, mesmo que o ç não lhe dê o movimento ondulatório que o s lhe dá…

Há casos em que isto não é tão claro. Quando se dicionariza uma palavra, nem sempre se tem uma hipótese sobre a sua origem, e a escolha de s ou ç, x ou ch pode ser perfeitamente fortuita. Eis dois casos que investiguei recentemente, a pedido de amigos.

Bolçar
Muita gente se surpreende com a grafia de bolçar2. Os dicionários seguem o mais famoso etimologista português, José Pedro Machado, justificando o ç com um étimo latino *vomitiare (este asterisco significa que a palavra se supõe ter existido, mas que nunca foi atestada). Mas as formas antigas registadas pelos filólogos têm todas s (bomssar, bonssar, boomsar, bõssar), numa altura em que precisamente s e ç correspondiam a dois sons distintos. E é de notar também que não tem sempre havido completo acordo dos dicionaristas relativamente à grafia e etimologia –  o dicionário Lello de 1931, por exemplo, regista bolsar e a etimologia proposta é o latim versare. Ora regista-se em castelhano uma forma antiga bosar, não *bozar (o z castelhano é o que corresponde ao ç português), que também pode querer dizer «vomitar» e para a qual o Dicionário da Real Academia propõe como étimo o latim vorsāre ou versāre, «mexer, revolver, dar volta, …»  A mais antiga atestação que encontrei da forma bolçar é de 1836 (data referida no Houaiss) e creio, pois, que há boas razões para considerar bolçar uma in(o)vação ortográfica oitocentista, que nem sequer decorre, provavelmente, de nenhuma proposta etimológica, já que a proposta da etimologia *vomitiare é posterior e parece ser antes uma maneira de justificar essa grafia.

Joan Coromines é da mesma opinião que eu relativamente ao ç. No seu Diccionario crítico etimológico castellano e hispánico, na discussão de rebosar, diz Coromines sobre outra pretensa origem de bolçar, *voltiare (que me parece, apesar de tudo, proposta mais lógica que *vomitiare):
«La grafía bolçar (…) carece totalmente de valor, por ser reciente y sólo portuguesa. La generalidad de la ss en cast. y port. antiguos obliga a desechar esta etimología sin vacilaciones.» Esta e *vomitiare, pelas mesmíssimas razões3.

Axandar
O Porto Editora regista a grafia axandrar para o verbo que classifica como transitivo e popular, e que define como «acalmar forçadamente». Muito provavelmente, quem dicionarizou o termo com aquela grafia não tem nenhuma proposta sobre a sua história que justifique o x; é, quase de certeza, uma grafia fortuita.  Mas haverá alguma boa razão para optar por x ou por ch? Talvez… Pelas razões que passo a explicar, penso que é achantrar que se devia escrever (e, por isso, escrevo com ch neste texto). Antes de explicar porquê, porém, quero referir de passagem duas questões que não se relacionam diretamente com a grafia do som [ʃ],

A primeira diz respeito à forma da palavra. A minha impressão é que achandrar-se é uma forma recente. A expressão que sempre ouvi desde miúdo foi achantrar-se, não achandrar-se. Uma discussão alargada no Facebook4 confirma esta impressão: as pessoas da minha geração ou mais velhas usam a forma com /t/5. Tratando-se de um termo de calão pouco dicionarizado (não o encontrei noutros dicionários), uma busca na Internet mostra que, como seria de esperar, que tanto a grafia como a forma da palavra são instáveis: alternam as formas com t (achantrar, axantrar) e com d (achandrar, axandrar). Em princípio, a postura conservadora que, na dicionarização,  preside normalmente à escolha de uma das formas em uso (neste caso, não se pode falar propriamente de norma culta) deveria levar, eem princípio, a preferir-se a forma com /t/.

Em segundo lugar, há a questão da classificação do verbo como intransitivo e o seu significado. Nunca na minha vida ouvi o verbo usado nem transitiva nem intransitivamente. Para mim, achantrar-se é um verbo exclusivamente reflexivo. Além disso, parece-me que o significado registado no Porto Editora é distorcido (porquê «forçadamente»?) e bastante incompleto. O achantrar-se que eu conheço tem dois significados básicos distintos: 1) acalmar-se, baixar a bola; e 2) orientar-se, fazer pela vida, decorrendo também deste último achantrar-se a qualquer coisa = fazer-se a qualquer coisa ou apoderar-se de qualquer coisa. Constatei que outras pessoas têm exatamente o mesmo entendimento da palavra.

Mas passemos à questão da etimologia e grafia. A minha primeira reação, quando me consultaram sobre o tema, foi fazer uma pesquisa em castelhano6. Não encontrei a palavra, mas encontrei uma palavra muito semelhante, achantar, que significa o mesmo. Não pode ser coincidência. Ainda por cima, vi na citada discussão do Facebook, que uma pessoa «comentou a conversa q provocou este post com uma colega q tem 61 anos e ela disse-lhe que (…) “antigamente” se dizia achantar». A etimologia de achantar é clara7: do latim plantare, com uma evolução standard em galego e português. Mas como se chega de achantar a achantrar? Pois, não tenho uma resposta clara... A aceção 2 de achantrar relaciona-se facilmente com chantra, um termo depreciativo exclusivamente para as mulheres, que, se não quer dizer mesmo prostituta, quer dizer uma mulher que seduz para obter proveitos materiais. É possível que este seja o achantrar original e achantar tenha sido contaminado por ele8. Numa situação como «pronto, o gajo já se achantrou», podem confundir-se o ter-se orientado com o ter-se acalmado… Mas isto é tudo pura especulação.


P. S.:  Não tem nada a ver com ss e xx, mas só mais uma coisa – não faria mais sentido escrever culher que colher? É que culher mata dois coelhos de uma só cajadada: fica mais próximo do étimo imediato, cuillère9, e inscreve-se naturalmente num miniparadigma de palavras terminadas em /ér/ com u na sílaba anterior: mulher, puser e puder – que se opõe a outro de palavras terminadas em /êr/ com o na sílaba anterior (são muitas…). Puder opõe-se a poder como colh[é]r se opõe a colh[ê]r.


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1 Explico estas diferenças noutro texto deste blogue.
2 Uma discussão completa da questão seria demasiado maçuda para a quase totalidade dos leitores do blogue, pelo que resolvi não a incluir aqui. Não que esta versão reduzida não seja também chata para muita gente, mas enfim…. Agora, o que falta fazer é ver como pronunciam a palavra as pessoas que ainda distinguem ç de s. Estou um bocadinho longe de Trás-os-Montes e Beira Alta, mas talvez algum dos meus leitores se queira dar a esse trabalho….
3 Agradeço a Luís Pinto a informação sobre o dicionário Lello e o artigo de Coromines e a Helena Bastos a informação sobre a entrada do Hoauiss. Corominas não tem certezas definitivas quanto à origem de rebosar, mas parece-lhe que o mais lógico é que de versare se tenha feito reversare, que deu rebo(r)sar, donde se formou depois bo(l)sar. Parece-me uma proposta mais sensata que a de José Pedro Machado, mas não explica nem a nasalação do o (bomssar, bonssar, bõssar) nem o hiato dos oo (boomsar), nas formas medievais atestadas.
4 A discussão, que prolongava uma conversa noutro lugar, foi lançada por Shyznogoud no Facebook. Evidentemente, uma conversa destas, por muito participada que seja, tem o valor que tem… Mas serve para dar alguns indícios sobre (a variação n)o uso da palavra.
5 Pode haver, é claro, variação dialetal e socioletal. No entanto, constatei que uma pessoa da zona do Porto e sensivelmente da minha idade diz como eu e reconhece à palavra exatamente os mesmos significados que eu, criado no calão lisboeta. O calão é menos regional do que muitas vezes se pensa e este termo parece ser usado em todo o país. Aliás, o facto de muitas palavras de calão português existirem também em castelhano, ou em variantes do castelhano, indica precisamente esse caráter não dialetal do calão.
6 O calão português partilha com o calão espanhol vários termos, nomeadamente os oriundos do caló  (que dá a palavra calão, aliás) e tem também vários termos em comum com o lunfardo rioplatense. Procurei, no dicionário da Real Academia e em vários dicionários de lunfardo em linha, todas as variantes plausíveis em castelhano,com ch (*achantrar, *achentrar, *achandrar, ªachandrar) e com j (*ajandrar, *ajendrar, *ajantrar, *ajentrar), que corresponderiam ao x, se este se justificasse etimologicamente. (Quero acrescentar, a propósito da forma com -en-, que se regista também achentrar-se em Portugal, embora provavelmente seja uma forma bastante marginal.) Finalmente, por descargo de consciência, procurei também em dicionários de calão francês, mas em vão.
7 Agradeço a Rui Tavares este link. Rui Tavares notou também que a palavra tem, pois, a mesma origem que o termo meridional português prantar, com o qual se pode ver também uma relação semântica.
8 A questão é, agora, a origem de chantra. Também é possível que se o possa relacionar com o calão castelhano. Um termo da gíria do Cone Sul é chanta, comum de dois, que significa «intruja; vigarista; alguém que vende gato por lebre» e que, portanto, se relaciona facilmente com chantra em português. Uma etimologia proposta é o italiano ciancia, «burla; mentira», mas também é possível relacionar a palavra com chantagem e chantagear, do francês chantage, de faire chanter, «chantagear» (literalmente «fazer cantar»). Não deixa de ser curioso que haja quem veja na origem do termo chanta o já referido (a)chantar: «La palabra chantar se utilizaba en sus inicios para reemplazar la frase "dejar plantado a alguien"». Ou seja, é possível que os dois significados do nosso achantrar atual estejam ligados entre si e a este chanta, o que nos deixa com uma questão de ovo e galinha. Quero notar que, a haver relação com as formas castelhanas, não faço ideia de como se pode explicar a epêntese do r das formas portuguesas…
9 Muito provavelmente, a palavra escrevia-se já com u – que refletia e reflete a pronúncia – quando foi importada, embora se tivesse efetivamente escrito (e pronunciado) com o. A ideia da grafia com o é, muito provavelmente, dar conta da etimologia última da palavra francesa importada, o latim cochlear(e)-.



30 de novembro de 2017

Triscaidecaquê?


As sextas-feiras 13 não são dias raros. Houve 172 nos últimos cem anos e este ano já houve duas, em janeiro e outubro. Há anos em que ocorre três vezes, como aconteceu o ano passado, em fevereiro março e novembro. Curiosamente, aliás, o dia 13 do mês calha com mais frequência a uma sexta-feira que a qualquer outro dia da semana.

Isto dos dias de azar é uma coisa muito antiga e parece que a sexta-feira é um dia aziago em várias tradições. Também é muito antigo acreditar que o número 13 dá azar. Sobre quando e por que razão se deu a fusão das duas superstições, há várias ideias. É capaz de ser também uma coisa relativamente antiga. Aliás, não surpreende que se tenham inventado estas coisas em épocas em que se sabia pouco do funcionamento do universo, só surpreende é que não tenham ainda desaparecido… Bom, eu não conheço ninguém que leve a sério a história da sexta-feira 13, mas parece que há mesmo quem acredite nisso.

Enfim, não é bem de superstição que vos queria falar, mas sim de palavras. Há estranhas palavras para designar os medos que as superstições geram – como há estranhas palavras para designar os medos todos: chama-se triscaidecafobia o medo do número 13 e o meda da sexta-feira 13 chama-se parascevedecatriafobia. É claro, podemos sempre agarrar em parasceve, sexta-feira em grego, e fazer *parascevefobia para o medo da sexta-feira, mas não encontrei a palavra  em lado nenhum. Já a versão inglesa paraskaviphobia, sim, aparece numa busca em Google. E isto leva-me a duas propostas de reflexão.

Podemos ponderar se são necessários palavrões destes e palavrões técnicos em geral; se não vale mais reservar os nomes greco-latinos para as conversas entre especialistas e preferir, foras delas,  «medo das alturas» a acrofobia, «médico de ouvidos, nariz e garganta» a otorrinolaringologista e assim sucessivamente...

E podemos também refletir sobre o que significa uma palavra fazer parte de uma língua. Parascevefobia é português ou não? Podemos considerar que há vários tipos de palavras que fazem parte de uma língua: as que, mesmo sem existirem ainda, estão na sala de espera dessa língua, preparadas para serem inventadas de acordo com as regras que os falantes têm na mente; as que estão na mesma sala de espera para serem inventadas segundo regras de «boa formação» relacionadas com a tradição etimológica e não com a capacidade de os falantes as compreenderam (é deste grupo, obviamente, que faz parte a parascevefobia); as que, embora façam parte dos dicionários, só foram usadas uma vez ou duas, por algum poeta, filósofo ou cientista; e também as que, embora usadas todos os dias pelos falantes da língua, nunca ganharam direitos de cidadania, e que «os lexicógrafos remetem, se lhes [vêm] ao gadanho, para o cemitério da língua, por espúrias e indecentes», para usar uma descrição de Aquilino Ribeiro. E as outras…

Para terminar, voltemos ao número 13, que não à sexta-feira. A tal triscaidecafobia dá azo a práticas esquisitas: há hotéis e hospitais sem quartos 13; teatros sem camarotes 13; gente que vai a correr convidar alguém para a sua mesa, se o número de convivas chega a 13. Agora, nunca vi nenhum livro que salte da página 12 para a página 14, mas, quem sabe?, é capaz de ter havido já algum autor mais supersticioso que o tenha exigido ao editor….

25 de novembro de 2017

Design, restauração e geração espontânea: o esperanto e outras línguas… naturais

Em dinamarquês, quando alguém diz alguma coisa que que não se percebe, diz-se que é volapyk. Mas volapyk devia ser, precisamente, o contrário disso. O volapuque («língua mundial», em volapuque) devia ser, como o nome indica, uma língua para todos se perceberem, para acabar com a incomunicação que resulta da babélica multiplicação das línguas humanas.

Há muitas línguas auxiliares construídas, como o volapuque, e o esperanto é a mais famosa de todas elas. Foi criado por L. L. Zamenhof no final do século XIX, com o propósito explícito de «ser diretamente um meio de comunicação internacional». A sua estrutura racional, com poucas regras e sem exceções, deveria «tornar o estudo da língua tão simples que a sua aquisição seja uma mera brincadeira para o estudante».

O pai de um amigo meu dizia que o esperanto, como todas as línguas construídas, nunca poderia vingar, porque não se consegue insultar um chofer de táxi em esperanto. Para quê inventar-se uma língua, que, por ser inventada, tinha de ser de alguma forma defetiva, em vez de promover uma língua natural a língua de comunicação mundial? A verdade é que o esperanto foi sempre, neste aspeto, uma língua diferente de outras línguas artificiais. Desde o início, a ideia era «aprender e usar [o esperanto] como [língua] viva, e não apenas como último recurso».

Lembro-me de ficar muito surpreendido quando me veio parar às mãos uma obra do japonês Masao Miyamoto, que Manuel de Seabra traduzira para português (Da arte e da morte, Lisboa: Futura, 1973). Conhecia as traduções de Manuel de Seabra de poesia em inglês e catalão e pensei: «O quê, Manuel de Seabra também traduz do japonês?» Mas, no prefácio, Manuel de Seabra respondia precisamente à minha interrogação, que ele previa em muito leitores: que não, que japonês não sabia, mas aquela obra não tinha sido escrita em japonês, mas sim numa língua que ele dominava bem, o esperanto. E isto causou-me nova surpresa: mas havia então quem escrevesse literatura em esperanto? Obviamente, o esperanto tinha uma dimensão – ou dimensões – que eu desconhecia…

Uns anos mais tarde, conheci em Paris duas pessoas que falavam esperanto entre elas. X., parisiense, e B., madrilena, tinham-se conhecido através de uma revista de esperantistas e corresponderam-se em esperanto algum tempo antes de finalmente se conhecerem pessoalmente. Quando se conheceram, por muito que cada um deles falasse relativamente bem a língua materna do outro, continuaram, naturalmente, a falar esperanto. Perdi o contacto com eles e não sei se tiveram filhos ou não, mas, se os tiveram, os filhos deles são hoje falantes nativos de esperanto. Não seriam os únicos. Soube há pouco tempo que se calcula entre mil e dois mil o número de falantes nativos de esperanto e não é apenas um fenómeno recente. Até se chegou já, pelo menos num caso, à terceira geração de falantes nativos. O esperanto é já, então, além de língua construída, também uma língua natural.

Quando soube da existência de esperanto materno, procurei trabalhos que descrevessem o que acontece ao esperanto ao passar de língua artificial a natural, isto é, ao tornar-se língua materna de alguém, um processo designado como nativização. Basicamente, a minha pergunta era: o que muda quando o input artificial dos pais é filtrado – ou talvez ajustado, não sei qual é a palavra correta – pelos mecanismos naturais de aquisição e processamento da língua? Pensei, por exemplo, que, sendo uma língua sem formas irregulares, talvez começassem a surgir as irregularidades comuns a todas as línguas naturais; ou que surgissem regras novas, de tempo ou aspeto verbal, ou de marcação de caso, ou de qualquer outro tipo, não presentes no esperanto não materno.

Esta passagem de língua artificial a língua natural é, em princípio, a mesma que acontece quando uma língua de comunicação, um pidgin, se torna língua materna de alguém e nasce assim, numa geração, uma nova língua natural, um crioulo. Mas, como assinala Benjamin K. Bergen[a], há diferenças significativas nas condições de nativização (todas as traduções do artigo são minhas, desenvolvendo siglas para facilitar a leitura):
[Versteegh] sugere[b] que, em determinadas situações, a aquisição do esperanto como segunda língua é homóloga à pidginização, na medida em que é usado um código comunicativo sem total regularidade, e esse código torna-se o idioma nativo da próxima geração. Por exemplo, se duas pessoas cuja única língua em comum é o esperanto têm uma filha antes de serem totalmente fluentes no idioma, esta filha funcionaria como uma crioulizadora, e pode prever-se o surgimento de regularidade no idioma da criança, onde a regularidade é limitada no contributo dos pais. Versteegh defende, porém, que não é provável que o esperanto seja objeto de mudanças estruturais fundamentais, porque, na realidade, os pais dos falantes de Esperanto Nativo geralmente aprendem o idioma fazendo cursos e usando gramáticas, dicionários e outros instrumentos de aprendizagem de línguas que não estão presentes em situações de pidginização. Isto, pensa ele, confere-lhes um grau de experiência linguística a que os falantes de pidgins não têm acesso.
Pode acrescentar-se que, quando surgem os crioulos, os primeiros falantes não vivem em comunidades de uma determinada língua e as línguas maternas dos seus pais eram muitas vezes muito diferentes, pelo que, além do pidgin, o único input linguístico regular a que esses primeiros falantes nativos tinham acesso era a língua da sua mãe, se se mantinham junto dela. Ora, como diz Bergen, «a maior parte dos falantes nativos de esperanto têm pais com a mesma língua, o que faz, portanto, com que o esperanto não seja usado como código de emergência» e «embora existam muitas organizações de famílias que falam esperanto, a grande maioria dos falantes nativos do esperanto não participa nesses grupos, e mesmo que o façam, geralmente não passam mais de uma semana por ano com esperantófonos fora da família.»

Mas, nota Jouko Lindstedt[c], «a crioulização não é o único paralelo para a nativização do esperanto. Como o assinala Versteegh, esta nativização pode ser comparável com a revitalização do hebraico quase na mesma altura em que surgiu o esperanto». E explica:
Ambos os casos têm a ver com uma decisão educativa tomada por pais com uma consciência linguística extremamente elevada. Quando o primeiro falante nativo do hebraico moderno nasceu em 1882, a sua situação não era de modo nenhum diferente da situação das crianças que adquirem o esperanto, de que os pais não são falantes nativos: o pequeno Ben-Zion Ben Yehuda não podia aproveitar o facto de o hebraico ter tido falantes nativos um milénio e meio antes. A descrição de Fellman[d] da primeira família de língua hebraica da era moderna mostra que os pais estavam em considerável desvantagem relativamente aos modernos pais falantes de esperanto, no que diz respeito à existência de nomes para objetos quotidianos ou à possibilidade de adquirir livros infantis.
No artigo de Bergen já citado, apontam-se ainda mais duas diferenças importantes nos dois processos:
(1) O input linguístico para os estudantes de hebraico como língua segunda [dos pais dos primeiros falantes nativos] era variado e idiossincrático em comparação com os de esperanto como língua segunda: e (2) o hebraico como língua segunda começou como um sistema fonológico e morfologicamente complexo e opaco, enquanto o esperanto como língua segunda é extremamente regular e transparente.
Apesar disso, notaram-se muito poucas alterações no hebraico nativizado relativamente ao hebraico língua segunda que lhe tinha servido de input; e, no trabalho feito até agora, exatamente o mesmo se pode afirmar da nativização do esperanto: as transformações que se observam no esperanto nativo relativamente ao esperanto como segunda língua – a existirem* – são mínimas e como é previsível, parecem depender, se não totalmente, pelo menos em grande medida, da influência da outra língua materna, que é também a língua da comunidade dos falantes nativos de esperanto (o adstrato, como se chama). Os possíveis filhos de X. e B., de que falava atrás, se criados em França com pai francês e mãe espanhola, fixariam, provavelmente, a ordem da língua em sujeito-verbo-objeto, o que tornaria redundante a marca de acusativo nos nomes. Pelo menos, isto foi efetivamente observado por Bergen* em falantes nativos de esperanto de língua materna também francesa. Mas os falantes bilingues de esperanto e eslovaco, por exemplo, mantiveram sempre a marcação do acusativo.

O que se conclui de tudo isto? Não muito, provavelmente. Quando comecei a escrever o que viria a dar este texto, há mais de um ano, interrogava-me sobre o seguinte: «Até que ponto é plástica a nossa capacidade da linguagem? A língua humana pode ter todas as características que a nossa mente consiga imaginar – e pode, assim, tornar-se língua materna de alguém uma língua com propriedades inventadas que nunca existiram em nenhuma língua natural? Ou devemos antes pensar que só as propriedades constatáveis nas línguas naturais, atualmente existentes ou já extintas, se podem fixar num cérebro humano? Dito de outra maneira, conseguimos imaginar línguas que não podem ser adquiridas por humanos, conseguimos descrever em pormenor uma língua inventada que, por mais que se tente, não possa tornar-se língua materna de ninguém?»

Estou convencido de que a experiência se pode fazer, embora não tenha a certeza de que valha a pena – e coitada da criança que tivesse de tentar adquirir uma língua inadquirível, se fosse esse o caso. Agora, com a pesquisa que fiz para este texto, aprendi não só que a nativização do esperanto está feita há muito, mas também que essa nativização não serve para responder à minha pergunta, porque o esperanto, mesmo antes de ser língua materna de alguém, já era de facto uma língua natural. Dou de novo a palavra a Jouko Lindstedt (ele próprio falante de esperanto como língua segunda e pai de falantes nativos), que o explica muito bem:
A gramática do esperanto nunca foi completamente descrita e codificada, nem mesmo quando Zamenhof era ainda a única pessoa a escrever na língua. Para dar um exemplo óbvio: as dezasseis regras da gramática do esperanto apresentadas pela primeira vez por Zamenhof em 1887 e por ele declaradas inalteráveis no trabalho normativo básico da língua, em 1905, não dizem nada sobre a ordem das palavras em frases simples ou complexas. No entanto, sempre ficou claro que o esperanto é uma língua Sujeito-Verbo-Objeto, com uma ordem relativa livre dos principais constituintes; que tem sintagmas nominais, sintagmas verbais e sintagmas preposicionais; que a maioria dos especificadores fica à esquerda dos seus núcleos e a maioria dos complementos à direita; e assim por diante. Isto é assim porque, desde o início, o uso do esperanto foi aprendido através da leitura de textos reais e audição de enunciados reais, primeiro os de Zamenhof, mas logo depois por outros escritores e palestrantes. Assim, é pelo uso real que o Esperanto foi ajustado à gramática universal: mesmo que os falantes do idioma tenham sido na sua maioria não-nativos, não introduziram nele nada que um idioma natural não pudesse incluir.


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[a] Bergen, Benjamin K., «Nativization processes in L1 Esperanto», in J. Child Lang. 28 (2001), pp. 575–595. Cambridge University Press, 2001
[b] Versteegh, Kees, «Esperanto as a first language: language acquisition with a restricted input». Linguistics 31, 1993, pp. 539–55.
[c]Lindstedt, Jouko, «Native Esperanto as a Test Case for Natural Language», in A Man of Measure Festschrift in Honour of Fred Karlsson, a special supplement to SKY Journal of Linguistics, vol. 19, 2006 (pp. 47–55)
[d]Fellman, Jack, The Revival of a Classical Tongue: Eliezer Ben Yehuda and the Modern Hebrew Language. Haia & Paris: Mouton, 1973

* Por enquanto, o número de observação e de falantes observados em cada uma delas é demasiado pequeno para se chegar a conclusões muito definitivas.

13 de agosto de 2017

Jejum e Genebra – um texto um bocadinho nerd

[Isto dos blogues generalistas é um bocado complicado e já pensei em dividir este blogue em dois ou três. Muitas vezes, autocensuro-me temas, principalmente relacionados com língua, porque os acho demasiado especializados e desconfio dos meus dotes de vulgarizador... Mas nem sempre sou coerente nessa autocensura e às vezes publico coisas que acho que não interessam a ninguém — ou interessam só a muito, muito pouca gente. Este texto, por exemplo, que decidi publicar só porque lhe acho graça, fala de coisas tão nerd que espero mesmo que interessem só a meia dúzia de pessoas – senão, é sinal de que o mundo está perdido, valha-nos Santa Edwiges da Silésia!…]

Em francês standard, as palavras  jeune, «jovem», e jeûne, «jejum», têm pronúncias diferentes*. Quando vivi em Genebra, porém, dei-me conta de que, no sotaque local, as duas palavras se pronunciam da mesma maneira. É uma pronúncia, explicaram-me, típica da Suíça e do Leste da França; mas parece que há outros francófonos que anulam a distinção nestas duas palavras.

Uma pequena curiosidade, que descobri agora: Victor Hugo ou também falava assim (mas não creio que isso se explique por ele ser de Besançon, porque não viveu lá muito tempo) ou considerava que jeune e jeûne eram rimas visuais:
Hélas ! l'ombre d'Allah n'a pas rompu le jeûne ;
La sultane est gardée, et son fils est trop jeune ;
« La douleur du pacha », in Les Orientales, 1829

Aos meus leitores que não estejam familiarizados com esta diferença entre jeune e jeûne, dou de TPC repetir em frente ao espelho
« Jamais je ne vois les jeunes genevois pratiquer le jeûne genevois »
até a coisa fluir com naturalidade.

Deixem-me explicar, já agora, que a frase é mais do que um trava-línguas forçado, já que existe mesmo o feriado do Jejum Genebrino, que a Wikipédia em português explica da seguinte maneira:
O Jeûne Genevois, que se poderá traduzir literalmente por «Jejum Genebrino», é um dia feriado no cantão de Genebra, Suíça, na quinta-feira seguinte ao primeiro domingo de Setembro (dia 7, este ano). Os outros cantões suíços festejam o Jeûne Fédéral no terceiro domingo desse mês.
 A página em francês tem mais informação sobre o assunto. A tradição é antiga, mas, depois de várias peripécias de institucionalização e supressão, o dia é agora feriado desde 1966.

Não deixa de ser divertido que a assembleia de representantes dos diversos cantões que instituiu o feriado do Jejum Federal se chamasse… a Dieta Federal.

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* Vão ao Larousse ouvir a diferença, se a não conhecem, ou ao Forvo: o -eu- de jeune pronuncia-se como em peur [œ] e o -eû- de jeûne como em peu [ø].

11 de julho de 2017

Sobre a negativa da injunção em língua de cão, ão-ão

Lembro-me de ter aprendido há muito tempo que há línguas em que se podem usar formas diferentes do imperativo do mesmo verbo, conforme se queira, por exemplo, dizer a alguém que está a comer uma coisa para parar de a comer ou dizer a uma pessoa que não deve comer uma coisa que ainda não começou a comer.

Em português, se é certo que «não comas isso» pode cobrir ambos os casos, também há maneiras de distinguir entre a injunção para parar de comer e a injunção para não começar a comer. A entoação é uma delas: o «não comas isso» desgostado de quem diz a outra pessoa para parar de comer uma coisa que descobriu estar bem fora de prazo, por exemplo, é muito diferente do «não comas isso» de alarme de quem pensa que a outra pessoa vai provar um fruto venenoso. Além disso, o imperativo da perífrase estar a comer ou estar comendo só se pode usar para mandar parar de comer – não se pode dizer «não estejas a comer isso» a quem ainda não meteu nada à boca.

*** 
Mosaico romano, séc. II, Museu Arqueológico de Sousse, Túnisia. 
Wikimedia Commons, daqui.
Cada vez tenho mais a convicção de que a ideia da linguagem como capacidade exclusivamente humana não faz grande sentido. De que a linguagem humana é mais complexa que a linguagem de um cão, não tenho dúvidas, mas é apenas isso que ela é, mais complexa. Um cão, como muitos outros animais, tem também a capacidade de estabelecer relações de certos sinais com o mundo físico e os estados mentais dos seres vivos que o habitam – pelo menos...

Além disso, tenho também a certeza de que, ao contrário do que ouvi muitas vezes afirmar, os animais têm um sentido do porvir.
Uma amiga minha dizia-me há pouco tempo, depois de ter passado um bocado a fazer truques simples de prestidigitação à minha cadela, que era óbvio que os cães têm expetativas sobre o que se vai passar, donde decorre forçosamente um sentido de futuro, mesmo que, mais uma vez, provavelmente menos complexo que o nosso. É claro que tinha toda a razão.

*** 
Agora, voltando aos imperativos negativos, tenho a ideia de que a minha cadela percebe facilmente a ordem para deixar de fazer alguma coisa („Nej!”), mas que não percebe a ordem para não iniciar o que não quero que ela inicie… A não ser, talvez, naquele momento em que já decidiu o que vai fazer, mas não teve ainda tempo de iniciar a ação...


9 de março de 2017

Do marxismo e outros -ismos

[Eis um texto que anda há anos à espera de forma definitiva. Esta é uma forma definitiva provisória, se é que tal coisa existe, porque ainda não fiz a investigação que gostava de ter feito sobre o assunto — uma forma publicável em blogue, digamos assim… Para iniciar uma discussão, serve; e, se não o publicar assim, se calhar nunca o venho a publicar.] 

Há quase 4 anos, escrevia Helder Guégués no seu Linguagista:
 O original, italiano, fala «dell’idea marxiana di società senza classi», e o tradutor deixou «marxiana», que nós não usamos, porque há-de ter consultado um dicionário, talvez o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que para «marxista» regista que é o «relativo ao marxismo». Ora, não é apenas isso, é o relativo a Karl Marx, à sua obra ou ao marxismo. Em italiano, há especialização de sentidos, pois «marxista» diz respeito apenas ao marxismo e às ideias de Karl Marx. 
Compreendo perfeitamente a ideia de Helder Guégués, até porque marxiano também me pareceu muito estranho da primeira vez que o vi, mas a questão é um pouco mais complexa. Não sei até que ponto a especialização de marxista e marxiano se deu naturalmente em italiano. Uma breve pesquisa na Internet mostra que é uma distinção estranha a muitos italianos, mas pode tratar-se, naturalmente, de casos de ignorância da terminologia académica. Por outro, a questão do uso de marxiano para o que diz respeito a Karl Marx não se põe só em português. Em várias páginas na Internet se encontra a discussão do uso do par correspondente, noutras línguas,  a marxiano e marxista.

É interessante constatar que, em inglês, a forma Marxian, embora minoritária relativamente a Marxist, está longe de ser apenas marginal: Marxian, um termo acolhido em vários dicionários de inglês, tem cerca de milhão e meio de ocorrências em Google, contra cerca de 13 milhões e meio de Marxist; e Marxian theory tem mais de 90.000 ocorrências, contra um pouco mais de 500.000 de Marxist theory. A desproporção é menor em Google Scholar, com 15.500 ocorrências de Marxian theory e apenas 5 vezes mais de Marxist theory (77.400 ocorrências). Também em francês se atesta marxien com alguma solidez: mais de 20.000 ocorrências de marxien e perto de 35.000 de marxienne, sem ir para os plurais. Marxiste é, claro está, impossível de contar, porque a busca gera resultados em diversas línguas. Théorie marxienne ocorre cerca de 11 vezes menos que théorie marxiste em Google (4330 vs 47300), mas apenas 8,8 vezes menos em Google Scholar (779 vs 6.850). Em português, também se atesta marxiano e não me parece que possa apenas ser resultado de inadvertência nem abuso esporádico: uma busca em Google Scholar dá 2400 de textos académicos em português com ocorrências do sintagma teoria marxiana.

Traduzi há dezena e meia de anos alguns textos de um especialista em Marx que defende a existência de dois termos distintos, o filósofo marxiano Lucien Sève. Para ele, o termo marxista[1] implica a redução do pensamento complexo de Marx a um «campo» ideológico-político. Dizia ele num debate em Lisboa em 2002:
De um adepto de Descartes diz-se que é cartesiano, um adepto de Kant é um kantiano, um adepto de Bergson é um bergsoniano, de Husserl um husserliano, de Nietzsche um nietzschiano, e de Marx… um marxista! O que é este -ista? Porquê marxista? Na minha opinião, esta terminação não revela apenas uma adesão a um pensamento, que é o que diz o adjetivo em iano (cartesiano, kantiano…), ela diz sim a inscrição num campo: se sou marxista, é porque adiro a um campo organizado, a uma estrutura política, a um movimento político. Parece-me que este -ista implica uma forma de adesão que vai muito para além do facto de se inspirar num pensamento, tentar com ele trabalhar o presente.
Embora compreendendo a tentação de se deixar levar por esse tipo de explicação, notei imediatamente que precisava, pelo menos, de ser revista e afinada. Por exemplo, Sève explicava mais adiante que o caso de marxista não é único, diz-se também espinozista de um seguidor de Espinoza. Ora a razão não podia ser a de identificar os seguidores do pensamento de Espinoza com «um campo organizado, [...] uma estrutura política, [...] um movimento político»… E Sève não estava a ter em conta todos os possíveis nomes e adjetivos em -ista: não há apenas marxista e espinozista; há também rousseauista, tomista, e darwinista, muitos mais.

Não vejo boa razão para pressupor que os adjetivos e nomes formados a partir dos nomes de filósofos e políticos não sigam as regras que modelam a formação de nomes e adjetivos a partir de nomes próprios em geral. Picassiano, em «a estética picassiana» deve, em princípio, obedecer à mesma lógica derivacional que husserliano em «a abordagem husserliana». Convêm saber, pensei eu então, se as palavras em questão foram criadas por sufixação diretamente a partir do nome próprio ou a partir de um outro nome, criado, por sua vez, a partir do nome próprio. Evidentemente, o caso de mediação mais comum, se não exclusivo, é o nome em -ismo definindo, em sentido lato, o programa consciente ou inconsciente (filosófico, político, estético, etc.) da pessoa em questão. Depois de muitas voltas à questão, proponho agora que os adjetivos e nomes em -ista não derivam diretamente do nome próprio, mas sim de um nome em -ismo, formado, esse, do nome próprio, ao passo que os nomes em -iano derivam diretamente do nome próprio[2].

Acho que o dicionário da Porto Editora e Sève têm quase razão: o adjetivo em -iano formado de um nome próprio diz apenas a relação com o portador do nome, ao passo que a terminação em -ista diz a adesão a um campo, mas um campo não tem de ser um campo político — pode ser uma corrente ou movimento estético, filosófico, religioso, etc. Dito de outra forma, X-ista diz respeito a X-ismo e não diretamente a X; um X-ista é um adepto do X-ismo e não diretamente de X. Tomista remete para o tomismo mais que para S. Tomás de Aquino, darwinista para o darwinismo e não diretamente para Darwin; e um marxista é um seguidor do marxismo e não de Marx. É por isso que, se eu quiser falar de algo estritamente pessoal de Marx ou Darwin, como o seu estilo, corro obviamente o risco de ser mal compreendido, se disser ou escrever «o estilo marxista» ou «o estilo darwinista», que se tenderá a interpretar como «o estilo dos marxistas» ou «o estilo dos darwinistas», isto é, como referindo algum pretenso traço comum ao estilo dos adeptos dessas ideologias. O que se diria normalmente nessa situação seria (se não se quiser usar marxiano...) «o estilo de Marx» ou «o estilo darwiniano/de Darwin»[3]. Compreendo, pois, que, se alguém quer referir-se ao pensamento de Karl Marx ou afirmar-se seu seguidor em vez de referir ou seguir a amálgama de pensadores e pensamentos que se afirmam derivar dele, deve seguir a proposta de Sève: não é marxista que deve dizer e sim marxiano[4]. É o que faz – um exemplo entre muitos possíveis – o economista David F. Ruccio, que fala de análise económica marxiana e não marxista. Mas é claro, há a tal questão fonética... Ainda continuo a sentir que marxiano é alguém do planeta Marx... Quando de facto alguém do planeta Marx é antes um marxista...
*** 
Agora, será marxiano uma forma antiga ou recente? Marxiano e as formas correspondentes nas línguas mais próximas da nossa podem ter surgido espontaneamente, porque -iano é um sufixo relacional vulgar nestas línguas; ou pode antes ter surgido da tentativa de separar Marx e o seu pensamento da massa vaga das muitas e variadas correntes políticas e económicas que se dizem suas seguidoras. Faltam-me dados para optar por uma das duas hipóteses. Para o inglês, porém, tenho uma ferramenta, que, por inconclusiva que seja, me pode ajudar a ficar com uma ideia de como se distribui no tempo a ocorrência de marxian: o Ngram Viewer, que trabalha com um corpus bastante grande de livros em inglês. O problema é que, como o aponta o Etymology online (um site bastante fiável, baseado em várias obras de referência), «a forma adjetival Marxian é às vezes usada (por Groucho, entre outros) para distinguir a trupe de cómicos americanos [Irmãos Marx] do comunista alemão». Por muito que, como vimos, isto não seja inteiramente verdade e que que Marxian seja também usado com o significado de «relativo a Karl Marx», Marxian tem, em inglês, ou talvez sobretudo na tradição americana, um significado duplo que não me deixa fiar-me nos resultados do Ngram Viewer. A palavra Marxian tem claramente o auge da sua utilização nos anos 40/50 e isto pode, sem dúvida, dever-se aos irmãos Marx, mas mantém-se até ao século XXI; o uso de Marxist vai aumentando progressivamente até ao início da década de 80 e começa depois a diminuir. Com uma base de dados fiável, seria interessante ver até que ponto não foi a ampliação do uso de marciano e afins nas línguas mais próximas da nossa que veio bloquear um marxiano surgido naturalmente de Marx. Parecerá óbvio a muita gente que a razão pela qual marxiano nos soa mal é a proximidade fonética e gráfica com esta palavra tão comum, mas não sei desde quando se terá falado de marcianos com tanta frequência.

***
E então, pode-se ou não se pode, e deve-se ou não, usar marxiano e as suas correspondentes diretas nas línguas mais próximas da nossa: marxiano (es, it), marxien (fr), Marxian (en), etc.? Pessoalmente, não vejo razão para não usar. É vantajoso distinguir o que diz respeito a Marx do que diz respeito ao marxismo em sentido lato e as duas possíveis desvantagens do termo nem sequer o chegam a ser. Por um lado, o contexto nunca deixa que haja ambiguidade na referência a Karl Marx ou aos irmãos Marx (questão que, de qualquer forma, que não parece pôr-se fora dos EUA). Aliás, também nunca ninguém deixou de usar gregoriano por poder remeter tanto para Gregório I (o canto) como para Gregório XIII (o calendário). E quanto à questão, a que sou sensível, de «soar mal», por evocar imediatamente homens verdes com antenas de caracol, a verdade é que a evidente cacofonia não impede a utilização de termos como hobbesiano, humiano, kantiano ou smithiano[5]...
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[1] Ou marxiste, em francês, claro, mas vai dar ao mesmo. Para simplificar o discurso, uso sempre as palavras portuguesas em -ista, -ismo e -(i)ano, mas refiro-me a todas as do mesmo tipo nas línguas mais próximas, como as francesas em -iste, -isme e -(i)en e as inglesas em -ist, -ism e -(i)an, respetivamente.

[2] Como sempre, a questão é mais complicada do que parece: diz-se maometano, luterano e cristão (para o que aqui nos interessa, cristão é uma forma do tipo -iano, apenas posteriormente transformada) e, mas budista e calvinista. E porque se diz platónico, maquiavélico, pitagórico ou socrático, que não são -ista nem -(i)ano? Porque é que o adjetivo mais usado derivado de Estaline é estalinista – ou o seu equivalente – em português, espanhol, italiano e inglês, mas stalinien em francês? Porque é que os adjetivos mais usados derivados de Maquiavel e Aristóteles são maquiavélico e aristotélico – ou os seus correspondentes – em português, espanhol, italiano e francês, mas Machiavellian e Aristotelian em inglês? Os quatro possíveis nomes/adjetivos em -ico dizem respeito a filósofos antigos e há também o adjetivo crístico, relativo a Cristo, também uma personagem antiga. Note-se que crístico se entende apenas como relativo a Cristo, ao passo que cristão tende a não poder interpretar-se desta maneira, mas apenas como respeitante ao cristianismo. Evidentemente, era preciso saber em que línguas foram cunhados os nomes e adjetivos que referem os discípulos dos vários filósofos, porque o sistema fonético-morfológico da língua em que a palavra foi cunhada pode impedir ou favorecer um determinado tipo de sufixação. E quem diz a língua diz o período em que a palavra foi cunhada, porque as regras morfológicas de uma mesma língua podem ir variando ao longo dos tempos.

[3] É de notar que de Darwin derivam, em todas as línguas, duas palavras comuns, uma em -ista e outra em -(i)ano. O que pode significar, precisamente, que é standard em relação a Darwin e ao darwinismo o que ainda não é — ou talvez nunca a venha a ser — em relação a Marx e ao marxismo.

[4] Engels diz em duas cartas que Marx afirmara não ser marxista (traduzo eu):
«Agora, o que se conhece em França como “marxismo” é, na realidade, um produto bem peculiar — de tal maneira que Marx uma vez disse a Lafargue: “O que é certo é que eu não sou marxista.”» Carta a Bernstein, 1882 
«A conceção materialista da história tem muitos [amigos perigosos] hoje em dia, a quem serve como desculpa para não estudarem história. Como Marx dizia, num comentário aos “Marxistas” franceses do fim da década de [18]70: “O que eu sei é que não sou marxista.”» Carta a Schmidt, 1890
[5] É certo que as formas em -ista não soariam muito menos cacofónicas nestes casos… Mas é preciso ver que, na maior parte dos casos, a cacofonia é um fenómeno percetivo resultante do hábito e não tem origem em nenhuma incompatibilidade intrínseca do sistema fonético ou morfológico.

24 de fevereiro de 2017

Anglicismos gregos e latinos, e outros estrangeirismos

Num comentário do meu último artigo, referia que quem se preocupa com as marcas de abertura das vogais na escrita pode começar por propor algum tipo de diacrítico nas palavras com o elemento tele-, que têm uma pronúncia altamente irregular, como se pode constatar comparando telefone, telefonia, telegrafia, telepatia, telescópio e televisão com telemóvel, teledifusão, telejornal, telenovela, telescola e televendas[1].

Quando comparei os dois grupos de palavras começadas pelo elemento tele-, à procura de alguma explicação dos dois paradigmas de pronúncia, a primeira hipótese que me surgiu foi que este elemento se pronuncia de facto [tèlè] em português e que, por isso, quando se forma alguma palavra com esse elemento e uma palavra portuguesa, tem-se a pronúncia «aberta». As palavras que se pronunciam com ee «fechados», pensei eu — ou seja, as que seguem a regra geral de pronúncia dos ee átonos — são as que foram cunhadas noutras línguas e são importadas já feitas. A palavra telefone, cunhada em francês no início do séc. XIX (segundo alguns, para designar um estranho sistema de comunicação ), foi adotada por Bell em 1876 e foi do inglês que a importámos. É muito provável que telefonia, no sentido de rádio (que é, ao que sei, exclusivo do português), derive do sentido geral inicial de telefonia, comunicação à distância. Telégrafo e telegrafia são também palavras cunhadas em francês mesmo no fim do séc. XVIII e depois adoptadas para o sistema de comunicação desenvolvido nos EUA. Telepatia foi cunhada em inglês em 1882, por Frederic Myers. Telescópio parece ter sido cunhado em italiano, na primeira metade do séc. XVII. Televisão, que não se sabe ao certo se é termo cunhado em francês ou inglês, surgiu já no séc. XX, pouco antes de surgir o aparelho a que hoje damos esse nome. As palavras com ee «abertos» seriam, pois, mais «portuguesas», se é que se pode dizer assim, por muito que possam, nalguns casos, ter sido criadas com base em modelos importados.

Infelizmente, a minha teoria não funciona tão bem como me parecia à primeira: por um lado, parece não se poder postular uma regra geral segundo a qual se abrem as vogais do primeiro elemento quando o segundo se reconhece como elemento autónomo. Visão existe em português — tal como grafia e fone, aliás, embora estes dois últimos termos sejam termos técnicos sem relação direta com telegrafia e telefone. Por outro lado, há exceções a esta regra: telemetria ou telecinesia, por exemplo, com ee «abertos» mas formadas seguramente noutra línguas, com um segundo elemento sem autonomia em português. É claro que, como solução de facilidade, se pode, apesar disso, admitir a regra... com as suas exceções...

Isto era uma espécie de introdução. Este texto é sobre estrangeirismos, palavras importadas. Tenho a impressão (mas é mesmo só isso, notem, uma impressão) que muitas pessoas não têm uma ideia clara da enorme quantidade de palavras importadas que há em qualquer língua; porque palavras importadas não são só as que se veem que são estrangeiras, são também as que já ninguém reconhece como tal. Era aí que queria chegar com os parágrafos anteriores. É uma das maneiras normais de qualquer língua se desenvolver e manter viva: importar constantemente termos de fora.

É claro, podíamos cultivar o hábito de cunhar neologismos nossos e diferentes dos que vão aparecendo noutras línguas para designar coisas novas e atividades novas, como fazem muitas vezes os islandeses, por exemplo, que não têm televisão, nem helicóptero, nem computador, só þyrla, algo como rotor; sjónvarp, projecção da visão, ou algo assim, e tölva, uma amálgama da palavra que significa «número» com a palavra que significa «profetisa», imaginem… Ou então simplesmente decalcar o termo estrangeiro, mas com elementos nossos. Em alemão e em dinamarquês (para falar de línguas de que sei um poucochinho), às vezes faz-se isso: por exemplo, Fernsehen ou fjernsyn são como televisão, mas com elemento germânicos em vez de greco-latinos; ou Unabhängigkeit ou uafhængighed que são exatamente in-de-pend-ência. Mas nós não precisamos, porque temos uma grande tradição de termos greco-latinos, de maneira que se consideram bem formados os neologismos greco-latinos do inglês ou do francês e os importamos diretamente e sem mais, só ajustando um bocadinho pronúncia e grafia. O dicionário Porto Editora diz que computador vem do latim computatore, mas é óbvio que não vem, é uma adaptação de computer. A palavra computer, é curioso, referia uma pessoa que ganhava a vida a fazer contas, numa altura em que não havia Excel nem máquinas de calcular, depois qualquer máquina de calcular e depois é que se tornou o que é hoje. Não é só o futebol, o andebol e o basquetebol, os penáltis e os golos, o lanche e o bife (que é uma palavra inglesa importada do francês, como muitas palavras inglesas…) — do inglês vêm-nos também coisas tão pouco germânicas como, por exemplo, placebo, interferência[2] e empatia, esta última palavra cunhada em 1909 por um psicólogo britânico para traduzir um conceito de um filósofo alemão

A tendência de importar palavras — «bem formadas» ou completamente estranhas — não é de modo nenhum recente. Fernando Venâncio mostra que Camões, por exemplo, vai buscar ao castelhano uma grande quantidades de latinismos criados naquele idioma. Aéreo, aquoso, árido, áureo, canino, canoro, ciente, diáfano, dissonante, espumante, estupendo, famélico, fétido, fraudulento, fugaz, fulgente, fulminante, furibundo, hispano, impudico, inerte, inúmero, inusitado, lácteo, malévolo, náutico, plácido e vasto são alguns dos adjetivos castelhanos que Camões importou, para ficarem de vez em português, e que, ao contrário de, sei lá, airoso, hediondo ou sangrento, são tão portugueses que ninguém pensa neles como antigos estrangeirismos. Mas não foi só Camões que importou castelhanismos, longe disso. Foi prática bastante corrente durante vários séculos. Como foi prática corrente importar palavras francesas e italianas… e outras. Nisso, não há nada de novo.

Também não deve ser nova a indignação contra essas importações. Justificada, concedo, de vez em quando: para quê palavras estrangeiras para dizer coisas que não custa nada dizer em português? Também reajo mal a estarem sempre a arranjar-se maneiras novas de dizer coisas que não precisam nada de ser ditas com outras palavras, sejam elas importadas ou não. Mas nem sempre é fácil saber quando há que importar ou cunhar palavras novas e há muitas reações exageradas a certos estrangeirismos ou neologismos. Já aqui falei algumas vezes disso, hoje tenho mais um exemplo muito concreto de uma reação provavelmente exagerada — com a melhor das intenções: irritava-se um amigo meu com o que ele considerava uma perfeita estupidez, usar inicializar em vez de iniciar um programa de computador. É certo que inicializar é um neologismo que é uma tradução do inglês com um cognato, o que muitas vezes dá disparate. Mas é preciso ver que initialise não é initiate. Initiate, sim, significa «iniciar». Mais ou menos, vá. Initiate ou start são «iniciar». Mas initialise é pôr nos valores de base, no estado inicial. E pode, por isso, considerar-se um neologismo bem formado, porque o sufixo -izar é precisamente muito produtivo para formar verbos a partir de adjetivos, tendo sempre o valor de «tornar x»: humanizar é tornar humano, realizar é tornal real, concretizar é tornar concreto e assim sucessivamente[2]. A malta da informática não é toda pedante, nem há mais pedantes entre os informáticos que noutro grupo profissional qualquer. Mas, como os mecânicos ou as costureiras, têm de arranjar palavras que lhes deem jeito para trabalhar. É certo que podiam dizer «pôr os valores a zero» ou «voltar ao estado inicial», mas é pouco prático, sobretudo quando depois tem de se arranjar nomes correspondentes aos verbos. E, se inicializar é um neologismo bem formado e que diz bem o que deve dizer, porque não usá-lo?

Dos estrangeirismos que se usam em determinada altura, uns ficam e outros não. O vocabulário do futebol, para dar um exemplo simples, era todo ele inglês quando a modalidade surgiu, mas nem todos os termos ficaram: já ninguém fiz match, nem forwards nem half-backs, nem outras palavras futebolísticas que se diziam há uma centena de anos, como já ninguém diz shake-hands, uma expressão que me lembro de ver em textos de Eça de Queiroz. Não sei se alguém ainda chamará poche a uma bolsa de guardar agulhas e carros de linhas, ou se alguém ainda vai à cabeleireira fazer uma mise en pli, mas, nalguns dicionários, relais já só aparece com a grafia portuguesa relé (e acho muito bem). É assim a vida. Os estrangeirismos que ficam, naturalizam-se e deixam de ser estrangeirismos: botas ou constatar, duas palavras importadas do francês, são agora palavras tão genuinamente portuguesas como o hão de ser em breve, sei lá, alocação ou dauneloude, perdão, download[4]...

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[1] Estas palavras deviam também contribuir para tranquilizar aquelas pessoas que têm medo que a escrita influencie a pronúncia da língua. Não se preocupem: se não acontece com aquecer, esquecer, padaria e telemóvel — e muitos outros exemplos — , também não acontece com conceção, sim?

[2] Não é fácil chegar a uma conclusão sobre a origem de interferência, mas parece certo que a palavra entra em português em meados do século XIX. A. Geraldo da Cunha diz que vem do francês e data de 1844 a primeira ocorrência em português, mas J. Pedro Machado e Joan Coromines concordam com o CNRTL e outros dicionários quanto à origem inglesa do termo (atestado em inglês em 1783) e à sua composição com o sufixo em -ence a partir de uma falsa etimologia: seguiu o modelo de difference, que vem de differre, mas interfere, atestado já no século XV, não viria do latim interferre, como alguns dicionários postulam, mas do francês antigo entreférir, derivado de férir, «ferir». Coromines não gosta de interferência: «…el verbo interferir, “inmiscuirse, perturbar”, como el sustantivo en el sentido correspondiente, son anglicismos tan superfluos como feos».

[3] Já customizar, por exemplo, que se vê às vezes, é realmente uma palavra mal formada.

[4] Ambos os termos estão já dicionarizados, mas são ainda, claro, sentidos como estrangeiros.

9 de fevereiro de 2017

O que se escreve e o que se diz

Um blogue pode servir para muitas coisas e uma das funções da Travessa… é ser um depósito sempre acessível das minhas opiniões, apresentadas de forma minimamente organizada e documentada, para que posso remeter as pessoas com quem discuto certas questões, em vez de repetir de cada vez as referências e o argumentário. Mas, se é essa umas das funções dos textos da Travessa… nunca tinha sido essa a sua motivação imediata — até a: este texto foi escrito para ser usado como texto de referência nas muitas discussões que tenho sobre a questão da influência da escrita na pronúncia. Não é a primeira vez que aqui escrevo sobre o assunto e dediquei até ao tema uma parte de um texto que escrevi há três anos sobre o famigerado Acordo Ortográfico de 1990; mas quero agora desenvolver  um pouco a questão.

Não aprendemos as palavras da nossa língua por escrito. Mesmo que aconteça o caso raro (mas não impossível) de vermos uma palavra escrita antes de a ouvirmos, e a pronunciarmos de forma pouco canónica porque seguimos as regras normais de leitura, basta ouvi-la uma ou duas vezes para começarmos a pronunciá-la corretamente. Imaginemos que alguém nunca ouviu a palavra colação e que, quando a vê escrita, pronuncia [colâção] com o primeiro a fechado[1]. Mesmo que ninguém o corrija, ao ouvir a pronúncia normal [colàção], a pessoa corrige-se[2]. A exceção ao estado de coisas que acabo de descrever seriam, naturalmente, as palavras que só lemos sem nunca as ouvirmos. Que palavras são essas? Alguns palavrões técnicos, mas não deve haver muitos. Deve haver mesmo muito poucos…

Não se passa o mesmo com palavras estrangeiras: não temos interiorizado o sistema fonético da língua e não ouvimos essas palavras o número de vezes suficiente para corrigir uma pronúncia errada em que a escrita nos induza, sobretudo (isto é muito importante) quando essa pronúncia é apoiada pela pronúncia de cognatos na nossa língua materna. Por exemplo, não se pode saber se os portugueses que dizem os ss da palavra inglesa dissolve como [s] e não como [z] — que é como se pronunciam de facto  — o fazem por causa da grafia ou por interferência do som da língua materna. Da mesma forma, se durante muito tempo pronunciei [siúksi siuks] o nome da cantora inglesa Siouxie Sioux, em vez de [súzi su], como devia, não posso saber se foi por influência da grafia apenas ou por influência da pronúncia da palavra sioux que eu tinha interiorizada desde a infância[3]. O que me diz a minha experiência de quase 30 anos de ensino de português como língua estrangeira a adultos é que é tão impensável livrar-se da influência da escrita como ensinar a língua a adultos sem a escrever. Mas, lá está, se um inglês ou um dinamarquês pronunciam o c que havia em projecto nas grafias anteriores ao AO90, não se sabe se é por verem esse c ou se é porque há esse som nos cognatos de projeto nas suas línguas, project e projekt respetivamente.

A questão é de facto complexa e é difícil fazer grandes afirmações sobre ela sem ter, como eu não tenho, conhecimento de estudos exaustivos e sérios. Por exemplo, não sei se se pode falar de influência da escrita na pronúncia quando se nota a pronúncia fechada de certos ee abertos pretónicos em falantes de português como língua segunda (é um fenómeno que conheço de Moçambique), que pronunciam esquecer ou aquecer «como se escrevem» [aquəcer, esquəcer]. Muito provavelmente, o problema põe-se antes exclusivamente ao nível do sistema fonológico: o muito contacto com a língua fez com que essas pessoas interiorizassem a regra de que o fonema /E/ se pronuncia fechado quando é átono, mas esse mesmo contacto com a língua não foi suficiente para interiorizar as exceções, como o fazem os falantes maternos[4].

A escrita não tem, não pode ter, influência na pronúncia de uma língua. Conheço trabalhos em que se defende que, com a aprendizagem da escrita, a imagem mental de um som fica indelevelmente ligada à sua representação gráfica — o que explicaria, digo eu, a grande resistência que sempre há a qualquer reforma ortográfica e o alto grau de emotividade dessa resistência —, mas não conheço, nem nunca vi referido, nenhum trabalho sobre a influência da grafia na pronúncia de uma língua[5]. Voltemos à asserção simples de Richard Feynman que já aqui pus uma vez: para vermos se temos uma boa lei científica — ou, diria eu, uma verdade geral, porque não há nada que distinga uma lei científica de outra verdade geral — calculamos as suas consequências e comparamos o resultado do cálculo com a realidade. Se as implicações da teoria não se verificarem na realidade, a teoria está errada. Parece que é isto que não faz quem propõe que a escrita influencia a pronúncia: computar que implicações essa presumida influência teria, se fosse verdadeira. Ora a primeira implicação deste postulado, e obviamente completamente desfasada da realidade é que, em sociedades altamente escolarizadas, a pronúncia deixaria de evoluir, porque a escrita funcionaria como travão a essa mudança. Mais, nessas mesmas sociedades, se houvesse de facto influência da escrita na pronúncia, voltar-se-ia, nalguns casos a pronúncias mais antigas, que se tinham afastado da forma escrita antes de se generalizar a alfabetização. Nada disto faz grande sentido. Vejam qualquer filme dinamarquês dos anos 30 e comparem com a pronúncia atual… E já nem quero dar-vos exemplos das implicações que isto teria em línguas com escritas muito pouco fonéticas, como o francês ou o inglês, para não pensarem que estou a disparatar. Mas a hipótese que leva a esses disparates não é minha, pelo contrário, é aquela que estou aqui a refutar… Tentem imaginar que implicações tem a teoria quando a aplicamos ao caso da mudança de alfabeto na Turquia em 1929, quando passou do alfabeto árabe ao alfabeto latino. Mas não há relatos de que a pronúncia do turco tenha sofrido alguma alteração nessa altura, ou há?

Deixem-me só listar mais alguns fenómenos que decorrem do cômputo das implicações da hipótese. Já os referi antes, mas tenho de os repetir agora neste texto que é especificamente sobre esta questão: se a influência da escrita sobre a pronúncia fosse de tal modo que, como pretendem alguns, levasse ao fechamento das vogais átonas de que não há marca de abertura, porque nunca se fecharam as dezenas e dezenas de vogais nessa situação antes do acordo? Quer dizer, com séculos de redução vocálica, nunca se fecharam as vogais de padaria, aquecer ou corar, mas, de repente, iam começar-se a fechar as vogais de receção ou adotar… Nunca se fechou o e aberto de pregar e pregador (que concorre de facto com o e fechado de pregar e pregador), mas havia de fechar-se o e aberto de espetador (que concorre com uma palavra só virtualmente existente, espetador, aquele que espeta)? Ou a lei de que a escrita influencia a pronúncia só começou a ser uma lei linguística depois da entrada em vigor do AO90? Sejamos sérios. Aliás, como já o disse aqui uma vez, do postulado que a escrita influencia a pronúncia tem de se inferir forçosamente que a escrita faria com que se pronunciassem, mais que as vogais abertas… as consoantes mudas!

Contava-me alguém que tinha vista uma pessoa que, ao ler conceção, hesitara e acabara por pronunciar como concessão, com e fechado antes de se autocorrigir, porque se dera conta de que concessão não fazia sentido no contexto. É outra coisa. Se uma pessoa não está habituada a ver conceção, pode não perceber logo de que se trata. O mesmo pode acontecer a quem vê escrito, sei lá, colã, se sempre viu escrito collant. Mesmo que não leia em voz alta, pode não perceber logo de que palavra se trata. É claro que uma mudança de grafia tem implicações deste tipo. Mas isto não tem nada a ver com a grafia influenciar a escrita. A pessoa que hesitou na leitura de conceção e pronunciou como se fosse concessão continuará a pronunciar conceção como sempre pronunciou. E, a quem tenha aprendido a escrever conceção sem p, o problema nunca se porá — exatamente como não se põe a quem lê vadio com a aberto ou república com e aberto, sem marca nenhuma dessa abertura na escrita. E pronunciará conceção da mesma maneira que quem aprendeu a escrever com p. Claro.

É de notar, já agora, que, com o desaparecimento dos pp e cc não pronunciados se mantêm, em muitas palavras em que se quer ver confusão — ou com que quer fazer confusão —, dois paradigmas perfeitos, um de ç e outro de ss, em que ao de ç corresponde a pronúncia aberta do e pretónico e ao de ss a pronúncia fechada do e na mesma posição: conceção, preleção, coleção, seleção, correção, direção, etc., vs agressão, concessão, impressão, pressão, recessão, sucessão, etc. Para quem esteja muito preocupado sobre como distinguir ee pretónicos abertos de fechados, neste caso a regra é esta: antes de -ção são abertos, antes de -ssão são fechados. Fácil, não é verdade? E, afinal, sempre há aqui uma marca gráfica da abertura do e: o ç.

Uma última palavrinha sobre as implicações da nova ortografia no ensino do português europeu como língua estrangeira. Não vão ser muitas, claro, porque as alterações são muito poucas, mas algumas poderá ter. Uma é que pode criar uma maior divergência em relação às línguas que os alunos falam, fazendo com que se tornem mais difíceis de reconhecer imediatamente num texto escrito palavras como cato, inseto ou ótimo. Isto já acontecia em vários casos no ensino do português do Brasil e, também nalguns casos, no português de Portugal (estrito, contrato, etc.). Mas, note-se, não acontece com todas as palavras: uma palavra como arquitetura é tão facilmente identificada na escrita como arquitectura. Por outro lado, o que cria maior dificuldade no reconhecimento da palavra escrita é uma ajuda na pronúncia: ao ler em voz alta catoinseto ou ótimo o aluno não pronunciará [cakto], nem [insekto] nem [óptimo], como fazia antes. Mas continuará provavelmente a fazê-lo, por causa da influência da língua materna, mal deixe de ter à frente ou na memória recente a grafia da palavra. Porque, como se sabe, para os falantes estrangeiros, a grafia não é a única fonte de pronúncias erradas…
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[1] Uso neste texto, como noutros sobre pronúncia, os termos fechado e fechamento, e aberto e abertura, quando falo do timbre das vogais, para simplificar a leitura de quem não saiba de fonética, mas, na realidade, não é fechamento que há nas vogais átonas do português europeu, mas antes elevação e recuo. Também uso transcrições fonéticas simplificadas, para quem não esteja familiarizado com o alfabeto fonético internacional.

[2] Já se aprender a dizer [colèção], como muita gente diz em vez de [colàção] («isto à vinha à coleção do que a gente ’távamos agora a falar…»), fará provavelmente parte de um grupo de pessoas sobre as quais não terão grande efeito nem a palavra escrita nem a pressão dos pares para falar corretamente — e continuará a pronunciar assim o resto da vida…

[3] O pseudónimo de Susan Janet Ballion é uma grafia alternativa de Suzy Sue, baseada no facto de Sue e Sioux se pronunciarem da mesma maneira em inglês. A pronúncia de sioux que aprendi em miúdo — com os meus pares, seguramente — é [siuks], que é, segundo o que vejo no Priberam, uma pronúncia errada: devia pronunciar-se à francesa, [siu], já que é uma palavra que, diz o mesmo Priberam, nos chega pelo francês.

[4] Além de que, em princípio, não têm interiorizado nenhum sistema estável que não seja o da sua própria língua, não é verdade? A questão dos mecanismos de processamento e interiorização de formas irregulares é muito complicada e não faço ideia como são interiorizadas as vogais abertas em posição átona do português europeu e se esse tipo de «exceções» é processado da mesma forma na língua materna e em línguas segundas ou estrangeiras.

[5] O que não quer dizer que não haja, claro está. Até há trabalhos sobre a influência da língua sobre poupanças, valham-nos os santos todos que velam sobre o bom senso e o rigor…