Farol da Berlenga
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Berlenga Grande (Berlengas, Peniche), Agosto de 2019
Vista de Peniche, num dia claro, a Berlenga parece um bolo com uma vela
branca ao centro. Esse pino...
Há 4 horas
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| Pamela Joseph. Censored Nude Descending a Staircase, 2013. (do site da pintora) |
Wide enough to keep you looking
Open enough to keep you moving
Dry enough to keep you honest
Prickly enough to make you tough
Green enough to go on living
Old enough to give you dreams
Suficientemente grande para continuares à procuraO poema não tem nada de especial. Dos seis versos, aliás, há quatro que, sem serem feios, são semanticamente banais. Mas depois há um que é surpreendente, como devem ser os versos dos poemas: aquele que diz que a Terra é suficientemente seca para continuarmos a ser honestos. Como se deriva honestidade de secura? E há outro que diz muito bem uma verdade fundamental, pelo que também deve ser elogiado: a idade de coisas, seres e lugares, a constatação simples do tempo passado, é sempre causa de sonho, não é?
Suficientemente aberta para não parares
Suficientemente seca para continuares a ser honesto
Suficientemente espinhosa para te endurecer
Suficientemente verde para continuar a viver
Suficientemente velha para te fazer sonhar
Falei com a Karen da frase de Snyder, old enough to give you dreams, e deste entressonho em que se tenta escrutinar o passado. Quando cheguei a casa e decidi escrever um pequeno texto sobre isso, encontrei no computador uma nota de fevereiro de 2013, creio que uma ideia para um poema:
o passadoNão me lembro bem do que queria dizer com isto, mas parece tratar-se, pelo menos em parte, da mesma ideia.
é uma reserva de sonho
dormido ou desperto
Dried, shrimpFiz também uma nota mental: procurar Dōgen em Google e a auto-estrada 99 em Google maps.
smoked, salmon
«Algumas ideias populares são piores que erradas – têm uma ponta de verdade em questões de somenos importância, mas ajudam a criar incompreensões em questões muito importantes. (…) Apesar da sua superficial sofisticação, a hipótese [de que a língua modela o pensamento] oculta verdades profundas: que o pensamento é bem mais rico que a língua; que as línguas são mais o produto de uma caprichosa memética que reflexos de obsessões culturais; e que as semelhanças cognitivas entre as pessoas são mais fundas que as diferenças entre elas.»
Havemos de descobrir como fazer o pagamento antes de ele começar o trabalho.Sem mais informação, uma pessoa não sabe se a ideia é fazer o pagamento adiantado ou apenas descobrir antes do início de trabalho como será feito o pagamento (era este último significado que se queria dar à frase.)
As associações da região que integravam o projeto receberam formação sobre variedades híbridas.Com uso obrigatório de vírgulas a delimitar a relativa, ficamos sem saber se receberam formação apenas as associações que integravam o projeto e as outras não (frase acima), ou se todas as organizações da região integravam o projeto e receberam por isso formação, que é o que diz a frase com vírgulas em português:
As associações da região, que integravam o projeto, receberam formação sobre variedades híbridas.Esta história também tem uma moral: como na escrita se eliminam muitas redundâncias e se usam estruturas normalmente ausentes do discurso oral, podem criar-se na escrita ambiguidades que nunca surgem na oralidade.
Durante o julgamento, a defesa protestou contra o uso de algemas pelo traficante, alegando que ele feria decisão do Supremoe
Resgatada mulher sequestrada após passar 21 anos em uma covaTambém é certo que, sem mais contexto, cada uma delas tem duas leituras possíveis, mas uma das leituras é tão estranha que a recusamos imediatamente: o que seria um traficante ferir uma decisão do Supremos e isso ser motivo para recusar o uso de algemas? E não seria azar a mais ser sequestrado depois de passar 21 anos numa cova? Ambiguidade? Em última análise, sim, mas, na prática, é mais de deselegância, de falta de estilo, que se trata nestes três últimos casos, não vos parece?, que propriamente de ambiguidade…
Agora, também acontece a negação da beleza primitiva ou selvagem: a caracterização da negatividade do Outro pode incluir também os seus corpos, escuros, disformes, simiescos, doentes… Outras vezes, o discurso sobre o corpo do Outro é às vezes hesitante, contraditório. A mesma voz pode alternar entre exaltar a beleza do Outro e sublinhar a sua fealdade. E, às vezes, arranja-se maneira de anular o corpo do outro, embora mostrando-o. Encontrei num livro de 1905 sobre o Congo belga* esta curiosa fotografia. Segundo a legenda, estes corpos nus são apenas “exemplos de penteados”. “Amostras” talvez seja até um termo melhor, para indicar que é de mostrar que aqui se trata. A pergunta essa noite foi proposta por mim: Porque refreamos as nossas grandes paixões?Ao ler isto, lembrei-me de um amigo me falar, há muitos anos, de uma teoria segundo a qual a paixão amorosa teria tido origem na necessidade de exogamia, de “renovar o sangue”. Por mais voltas que dê a palavras-chave, não consigo descobrir na Internet que teoria era essa. Talvez esteja a lembrar-me mal. Mas não importa. O que me parece fazer sentido é que, independentemente de ter ou não surgido para arrancar as pessoas ao seu clã, a paixão amorosa acaba sempre por ter também essa função, quando as pessoas não conseguem controlar-se como o Lew Cooper da novela de Fuentes (e muita gente…) acha que se devem controlar. “Na perspetiva evolutiva, a dosagem de exogamia e endogamia foi sempre delicadamente equilibrada para garantir ao mesmo tempo coesão do grupo e diversidade genética.”*** Há casos, porém, em que não é equilíbrio nenhum, delicado ou não; em que se torna simplesmente um inferno a vida de quem se deixe deslumbrar por um corpo Outro, por uma alma Outra. Mas não há como o impedir: nem que só muito raramente, há de haver quem se deslumbre. Quem deixe o lar dos avós e se atire de cabeça para o abismo do desconhecido, quem saia para o mundo. Ámen.
– O que é que queres dizer? – perguntou o ator – Que se as refrearmos voltamos à lei selva? Isso já nós sabemos – disse ele, com um gesto acre do nariz e os lábios torcidos, muito característico dos seus papéis no cinema.
– Não – expliquei-me. – Peço-lhes que muito pessoalmente declarem por que razão, na maioria dos casos, quando surge a oportunidade de viver uma grande paixão pessoal a deixamos passar, fazemo-nos tontos, parecemos, às vezes, cegos, diante da melhor oportunidade de nos empenharmos numa coisa que nos dará una satisfação superior, uma...
– Ou uma profunda insatisfação – disse Diana.
– Também é verdade – disse eu. – Mas vamos por partes. Lew.
– Ok, não direi que toda a grande paixão nos devolve ao estado animal e dá cabo das leis da civilização. Mas está sempre a acontecer, desde o sexo com a nossa mulher até à política. Talvez o mais secreto temor seja que uma paixão cega, irrefletida, nos faça sair do grupo a que pertencemos, nos torne culpados de traição...
O velho falava de forma dorida. Interrompi-o, sem me dar conta de que estava a violar a minha própria premissa. Não o deixava entregar-se à sua paixão, porque senti que estava a personalizar, a pensar demasiado na sua própria experiência... Diana olhou para mim com curiosidade, sopesando a minha propensão às boas maneira, a evitar fricções...
– Dizes isso por causa do sexo, referes-te à paixão sexual?
Não, disse-me Cooper com o olhar. – Sim. É isso. A paixão arranca-nos ao grupo familiar. Pode violar a endogamia. Endogamia e exogamia. São essas as duas leis fundamentais da vida. O amor com o grupo ou fora dele. O sexo dentro ou fora. Decidir isso, saber se o sangue fica em casa ou se faz vagabundo, errante, é isso que nos impede de seguir a grande paixão. Ou nos atira de cabeça para o abismo do desconhecido. Necessitamos de regras. Não importa que sejam implícitas. Têm de ser seguras, claras para o nosso espírito. Casas-te dentro do clã. Ou casas-te fora dele. Os teus filhos serão da nossa família ou serão estranhos. Ficas aqui junto ao lar dos teus avós. Ou sais para o mundo.
Em geral, procura-se uma nova lei pelo seguinte processo: começamos com uma conjetura; depois, calculamos as consequências dessa conjetura para vermos as implicações da lei, se estivesse correta; depois ainda, comparamos o resultado do cálculo com a Natureza por meio da experiência ou da experimentação. A comparação é efetuada diretamente com as observações para vermos se a lei funciona. Se não concordar com a experiência, está errada. Nesta simples afirmação reside a chave da ciência. Não importa a beleza da nossa suposição. Não importa a nossa inteligência ou a reputação de quem fez a conjetura − se a lei não concordar com a experiência está errada. E é tudo[1].Tomando a expressão lei científica em sentido lato, referindo-se, sei lá..., tanto às leis da termodinâmica como à aquisição da pronúncia da língua materna, poderia dizer-se que, neste resumo, Feynman descreve de facto todo o processo científico; mas seria uma grande injustiça para todos os que, pacientemente, vão apenas recolhendo informação, sem por isso proporem quaisquer leis. É essencial em ciência o papel das bases de dados (não forçosamente no sentido informático da expressão, claro), ou seja, do conjunto de descrições da realidade que nos permitem, precisamente, aferir a validade de qualquer lei ou teoria.
É um erro enorme teorizar antes de ter os indícios todos. Faz-nos ser tendenciosos.[2]Descobri depois, na Wikipédia, que Holmes repete a mesma ideia em As aventuras de Sherlock Holmes:
É um erro enorme teorizar antes de ter dados. Sem o sentir, uma pessoa começa a distorcer os factos para os fazer corresponder às teorias, em vez de fazer teorias que correspondam aos factos.[3]
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| Exame do crânio de Piltdown. John Cooke, 1915 (de Wikimedia Commons) Na história verídica do Homem de Piltdown juntam-se a aventura de detetives e a investigação científica (e talvez também Conan Doyle, mas isso é só uma conjetura… |
Propusemos [a] ideia dos Buracos Negros de Colapso Direto que são muito maciços e se formam muito cedo no universo […]. Claro, há consequências da formação de buracos negros, ou de uma população deles, desta maneira, em vez de ser por meio de estrelas. A principal previsão deste cenário é que se devem ver quasares muito brilhantes muito mais cedo no universo […] É uma previsão que será testada pelo Telescópio Espacial James Webb, que esperamos que seja inaugurado em 2018.Eu sei o que estão a pensar: que este tipo de reconhecimento não é de modo algum exclusivo da ciência, que há muito quem continue a ser admirado depois de se provar que não tinha razão – e não só por familiares e amigos. É certo. Quando, porém, se trata de formas de “conhecimento” não sujeitas à confrontação com a observação e ao escrutínio de outros especialistas, sejam elas religiosas, pseudofilosóficas ou pseudocientíficas, o mais normal é nunca se provar que alguém não tem razão, simplesmente porque não há nada a provar, é tudo só uma questão de crer[4]...
Vai ser muito emocionante provar-se se temos razão ou não. É essa a beleza da ciência. Uma pessoa poder sentar-se no seu escritoriozinho em New Haven e fazer um cálculo que uma comunidade leva suficientemente a sério para o testar, e é fantástico que o façam num prazo de dez, quinze anos […]. É claro, seria bom ter razão.
A questão de se provar várias vezes que uma pessoa está errada e essa pessoa ser, ainda assim, uma cientista respeitada é uma excelente questão. Tem havido muitos casos em que houve grandes espíritos que propuseram ideias fortes, muitas das quais se tem provado que estão erradas, e eles são considerados, ainda assim, os mais brilhantes astrofísicos.