30 de agosto de 2019

Vírgulas, mais uma vez

Isto de vírgulas é complicado. Quero aqui falar de um erro comum e pouco notado, que, ao contrário de muitos erros frequentemente criticados, tem implicações importantes em termos de sentido: pôr entre vírgulas sintagmas ou orações restritivas. Está mal. Só os sintagmas apositivos é que se põem entre vírgulas. Ena, tantos palavrões técnicos. Importa-se de trocar isso por miúdos?*

Um modificador restritivo de um nome especifica a que(m) é que o nome se refere. Se eu tiver duas irmãs, a expressão nominal «a minha irmã» pode referir qualquer das duas. Mas se, das duas, há uma «que mora na Suíça» e outra «que mora em Portugal», estes sintagmas podem servir para especificar de qual das duas estou a falar: «A minha irmã que mora na Suíça faz anos amanhã.» São estes modificadores restritivos os que não se escrevem entre vírgulas.

Já um modificador apositivo diz alguma coisa extra daquilo que é referido pelo nome, sem por isso o definir por oposição a outras coisas ou seres designadas pelo mesmo nome. Se eu só tenho uma irmã e ela faz anos amanhã, direi «A minha irmã faz anos amanhã». E posso, claro está, acrescentar a esta afirmação alguma informação adicional sobre a minha irmã, por exemplo, que ela mora na Suíça: «A minha irmã, que mora na Suíça, faz anos amanhã.» Este tipo de frases é muito raro na comunicação oral, pelo que não há normalmente confusão entre os dois tipos de frase na oralidade (seria mais natural qualquer coisa como «A minha irmã faz anos amanhã. Mora na Suíça, essa minha irmã.»), mas ocorre na escrita, porque na escrita há tendência a condensar e concentrar a informação. E os apostos vêm sempre entre vírgulas, porque são sintagmas que se podem escusar ou mover para outro lugar.

Agora, nem todos os modificadores restritivos são orações relativas, como nos exemplos acima. Mas as regras de uso das vírgulas são as mesmas. Escrever, por exemplo, falando de Herman Melville que «Alguns veem no seu livro, The confidence man, uma sátira de Henry Ward Beecher» só faz sentido se Herman Melville não tivesse escrito mais nenhum livro, o que não é certo; e escrever que “O considerado entomologista de Harvard, E.O. Wilson, fez notar que, sem, insetos a vida desapareceria da terra», só estaria correto se o E.O. Wilson fosse o único etimologista considerado de Harvard, o que também não acontece.

Notem que nem sempre o problema deste erro é dar como único o que o não é. Pode também criar outro tipo de alterações do significado da frase onde ocorre. A frase «Alice é uma peça de teatro musicado sobre os conflitos internos do autor, Charles Dodgson, mais conhecido pelo seu pseudónimo literário, Lewis Carroll» dá Charles Dodgson como autor de uma peça de teatro cujos autores são de facto Kathleen Brennan e Tom Waits. O que queriam escrever era «Alice é uma peça de teatro musicado sobre os conflitos internos do autor Charles Dodgson, mais conhecido pelo seu pseudónimo literário, Lewis Carroll».

Lembro-me de que uma vez tive de pedir esclarecimentos à autora de um relatório que estava a traduzir e em que se afirmava que «os camponeses de Ribauè, que foram apoiados pelo projeto, aumentaram de facto a produção de milho». O projeto destinava-se de facto a apoiar todos os camponeses de Ribauè? Não, não, o projeto tinha como grupo-alvo um número restrito de camponeses do distrito – o que ela queria dizer era «os camponeses de Ribauè que foram apoiados pelo projeto aumentaram de facto a produção de milho», ou seja, restringir o número de camponeses que tinham aumentado a sua produção de milho aos que tinham sido apoiados pelo projeto.

Isto de vírgulas é um bocado complicado....


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* Podem ver, por exemplo –  e contrastar com a minha – a explicação que dá o Ciberdúvidas da diferença entre os dois tipos de modificadores. Mas encontram muitas outras na Internet.

28 de agosto de 2019

Notas avulsas sobre uma morte concreta e a morte em geral


Escrevi aqui uma vez, num dos meus textos preferidos desta Travessa, que «pesa mais o mau que o bom». Ou que pesa mais o negativo que o positivo, se preferirem, mais a dor que o prazer. De todos os males, o pior é a morte. Se calhar, os outros males, mesmo a dor, física ou psíquica, que nos pode levar a preferir a morte à sorte que temos, só existem como prenúncios da morte, como pedaços de morte espalhados pela vida.

*** 

É importante enterrar os seus mortos. Os mortos não enterrados custam mais a morrer em nós, se se pode dizer assim. Para o dizer de uma forma mais prosaica, custa-nos mais aceitar que não voltaremos a vê-los, a falar com eles, a saber da sua vida.

Há muitas maneiras de enterrar os seus mortos e são todas válidas. Vejo muita gente insurgir-se contra quem ostenta (é assim que o veem os que se insurgem) os seus mortos nas redes sociais. Não me meto nisso. Como vou eu dizer a alguém como trabalhar o que lhe vai dentro? Não o faço eu, que sou uma pessoa reservada na expressão da dor e excluo quase todo o privado das redes sociais, mas não vejo mal nenhum em que se faça. E, embora sem nomear diretamente os mortos, faço-o aqui na Travessa, que é também sítio público, sempre que consigo dar forma aceitável ao que penso e sinto.

E depois, enterrar os seus mortos é, sempre foi, uma tarefa parcialmente social. Como tudo o que é humano, inclusive os sentimentos. Que seja o jornal local ou o Facebook, o anúncio público da morte e da dor parece ser sempre uma parte do esconjuro da morte ou da sua aceitação…

 Agora, as maneiras que fomos inventando de enterrar os mortos são todas tão sofisticadas como imperfeitas: velórios e funerais, e todo o tipo de cerimónias funerárias, religiosas ou laicas; as várias formas de obituários, e todos os tipos de elogios fúnebres, no jornal, no café ou em casa de amigos; os memoriais, as homenagens e a celebração de aniversários—tudo isso vale, e muito. Mas é às vezes muito pouco. É o que se pode, enfim.

*** 

O que digo no último parágrafo foi o que me interrompeu, no funeral de K, o desfilar de recordações. Pensei no último jantar com K, dois meses antes, em que ele me lembrou uma compilação de canções que eu lhe oferecera há quase vinte anos.
 – Quando ouvi a primeira vez, não me disse nada aquela música. E depois fui ouvir outra vez o ano passado, por curiosidade, e gostei muito daquilo tudo. Tenho ouvido muitas vezes, desde então. Acho que precisava de amadurecer para apreciar aquilo.
Amadurecer… Mostrei-lhe um vídeo em que mestre Jacques Pépin explica como desossar uma galinha.
– Não é tão fácil como ele o faz parecer, mas também não é muito difícil.
– Muito fixe! – disse ele. – Hei de experimentar.
Não sei se chegou a experimentar. K era um excelente cozinheiro e adorava comer e beber bem, e comia e bebia talvez demais. «Que mais se leva desta vida?», não é a pergunta retórica que se costuma fazer? Eu costumo dizer que conta mais o que cá se deixa. K deixou feito muito bem.

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«E aquelles que por obras valerosas / Se vão da ley da Morte libertando»?

É justa a maiúscula na Morte, que merece a maior de todas as maiúsculas. Que persistimos na memória dos que cá ficam também é certo, mas não nos equivoquemos: quando desaparece a última pessoa que se lembra de nós, desaparecemos de vez da face da terra. Se nos definem como seres individuais a consciência e a memória que temos de nós — que mais temos que nos acompanhe toda a vida? —, admitamos que sobrevivemos na consciência e na memória de quem nos conheceu bem. Décadas no máximo. Mas mais que isso, nada. As obras que cá se deixam, valerosas ou não, não são os seus criadores. Os criadores de obras imortais, esses. morrem como toda a gente — ao fim de pouco tempo, ninguém se lembra de como falavam, riam, comiam ou se irritavam, já ninguém se lembra deles…





11 de abril de 2019

Sobre a idade de ouro da língua e um pouco mais

A minha amiga Catarina mostrou-me há pouco tempo um excerto de William Labov, um dos nomes maiores da sociolinguística (é uma passagem conhecida, que eu traduzo e cuja versão original pode encontrar-se, por exemplo, na Wikipédia):
Diferentes comunidades estigmatizam mais ou menos as novas formas da língua, mas nunca conheci ninguém que as recebesse com aplausos. Alguns cidadãos mais velhos recebem bem as novas músicas e danças, os novos dispositivos electrónicos e computadores. Mas se ouviu ninguém: «É maravilhoso como os jovens falam hoje em dia. É muito melhor que a maneira como falávamos quando eu era criança». (...) A crença mais geral e mais profundamente enraizada sobre a língua é o Princípio da Idade do Ouro: Houve um determinado momento do passado em que a língua estava num estado de perfeição. Parte-se do princípio que, nesse estado, todos os sons eram corretos e belos, e todas as palavras e expressões eram genuínas, precisas e apropriadas. Além disso, o declínio desse estado tem sido regular e persistente, de modo que cada mudança representa um afastamento da idade de ouro e nunca um retorno a ela. Todos os sons novos soarão feios e todas as novas expressões soarão impróprias, imprecisas e inapropriadas. Tendo em conta este princípio, é óbvio que a mudança linguística deve ser interpretada como inconformidade com as normas estabelecidas e que as pessoas rejeitarão mudanças na estrutura da língua quando delas se tornam conscientes. 
(in Principles of Linguistic Change, Vol. 2: Social Factors (2001), p. 51) 
Esta ideia da Idade de Ouro e da degenerescência forçosa das coisas humanas está longe de se aplicar apenas à língua—aplica-se a tudo o que é humano e foi já aqui referida no blogue algumas vezes a propósito de outras coisas (é até uma etiqueta do blogue). Muitos concordarão que Labov tem razão. E eu também, mas parece-me que há que dar conta de algumas exceções sistemáticas a esta regra geral.

A minha experiência é que, quando, numa determinada região, as novas gerações—normalmente através da escolarização—se aproximam de uma variante de maior prestígio, as reações à mudança podem não ser exatamente como Labov as descreve no excerto acima. Ouvi muitas vezes a pessoas sem educação formal de zonas rurais que não sabem mesmo falar o correto, que só falam assim à maneira delas, que é uma maneira de falar bruta ou errada… E ouvi dessas pessoas coisas como «Ah, ele (por exemplo, um filho educado de alguém da aldeia) já não fala como à gente, que ele tem estudos e aprendeu mesmo o português correto.» Em variantes de pouco prestígio, a ideia do falar perfeito ancestral esbate-se muito ou assume outros contornos. As pessoas podem achar que é pena já ninguém falar a variante à maneira antiga, que era tão expressiva ou tão engraçada, mas não pensam nela como mais próxima da perfeição, simplesmente porque desvalorizam o seu próprio falar.

E é curioso que a palavra dialeto, que significa, em princípio, «variante de uma língua falada numa determinada região», sem qualquer julgamento de valor implícito («os dialetos setentrionais», «o dialeto de Lisboa/ da zona da Lousã», etc.), é usado muitas vezes, mesmo para referir a sua própria variante ou até a sua própria língua, com o significado de «falar imperfeito, incorreto, de menos valor que a variante de prestígio ou a língua oficial».


6 de abril de 2019

Conversa de mãe e filha sobre transportes


– Mas vê lá se arranjas quem te dê boleia da festa para casa. Ou para aqui perto, pronto... Pede aos pais dos teus amigos que tenham lugar no carro... É muito longe, e àquela hora...
– Mas eu custa-me tanto, tenho tanta vergonha...
– Ok, tens vergonha, mas são duas horas de viagem, ao fim de um dia em que eu já fiz quase 500 quilómetros a guiar...
– Mas tenho vergonha... Não há assim ninguém que eu conheça tão bem que me sinta à vontade para lhe pedir...
– Além disso, lembra-te do aspeto ambiental, duas horas de carro só com duas pessoas.
–  Ah, ok, então vou tentar arranjar boleia.



3 de abril de 2019

Lapin à la moutarde e outras histórias de coelhos

Parece que a grande contribuição da Ibéria para a alimentação humana é aquele coelho «normal» que todos conhecemos. Bom, alimentação e não só, porque o coelho não é só comida…

Foto: Patrick Gaudin (2011) daquiAttribution 2.0 Generic (CC BY 2.0) 
Mas apreciais coelho? Vou dar-vos uma receita. Bom, toda a gente sabe fazer um coelhinho à caçadora e cada um(a) de vocês melhor que cada um(a) dos/as outros/as, de maneira que não vale a pena falar disso aqui. Proponho-vos antes outro clássico, mas com menos fortuna em Portugal – o coelho com mostarda. Como sempre, há milhentas maneiras de o preparar, que têm todas em comum, além do bicho propriamente dito, cebolas ou chalotas, caldo de carne (vaca, vitela, galinha…), vinho branco e mostarda – e natas, quase sempre, mas já vi receitas sem natas. Esta é a minha versão da coisa. Como de costume, não dou medidas nem quantidades exatas de coisa nenhuma, nem vos falo de sal e pimenta. Vocês sabem cozinhar e sabem bem calcular quanto hão de pôr de cada ingrediente. Se não ficar perfeito à primeira, à segunda já farão os ajustes necessários.

Há quem diga que o coelho se corta sempre em oito partes. Eu digo que o cortem em quantas partes quiserem, mas cortem-no, que não dá jeito nenhum fazer esta receita com um coelho inteiro.

Depois, envolvam os bocados do coelho em muita mostarda. Tem de ser mostarda a sério, escusado será dizer (por exemplo, esta ou esta), e não tenham medo de pôr mesmo muita. Não há problema, o sabor forte da mostarda desaparece com a cozedura. Em seguida, dourem os bocados de coelho em azeite bem quente. Parece que isso de selar a carne é um mito, como os há muitos em culinária, mas também agora não interessa.

Tirem o coelho do tacho e, na gordura que ficou, refoguem cebola, alho francês e cenoura – tudo picado, naturalmente, mas não tem de ser muito fininho. Quando estiver tudo bem douradinho, ponham lá outra vez o coelho, e reguem com vinho branco. Em desaparecendo o cheiro a vinho, juntem-lhe o caldo de carne – só o suficiente para cobrir o coelho.

Há coelhos que cozem mais depressa que outros e há quem goste do coelho mais ou menos cozido. Mas enfim, quando o coelho estiver como vocês o querem, deitem-lhe um bocadinho de nata, para suavizar o molho. E pronto. Também não vale a pena dizer que, conforme o molho esteja mais ou menos espesso e vocês o queiram mais ou menos espesso, podem ter de o ligar no fim – ou não.

O acompanhamento é à vossa vontade. Qualquer coisa que não tenha um sabor muito marcado (tagliatelle ou fettuccine, batata cozida, arroz branco, uma coisa assim), para não se perder o sabor do molhinho. Bom proveito!


Bunny!, foto de antiuser (2009) daqui.
Attribution-NonCommercial-ShareAlike 2.0 Generic (CC BY-NC-SA 2.0)
Aparte 1: Uma das teorias sobre a origem da palavra Hispania é que viria do fenício i-shapan, que significa «ilha de damões». O damão é um mamífero que se encontra em toda a África e no Médio Oriente, e a ideia é que os fenícios teriam designado com o nome de uma espécie sua conhecida os coelhos que encontraram na Península Ibérica. Acontece com frequência: quando se chega a um local com espécies novas, vegetais ou animais, muitas vezes dá-se-lhes o nome de planta ou bicho semelhante que se conhece. Mas esta hipótese etimológica, já antiga, é apenas uma entre várias.

Agora, se a espécie coelho é originária da Ibéria, de parte de França e da parte ocidental do Norte de África, há várias raças desenvolvidas noutros lados. Por exemplo, na Bélgica foi criado um coelho gigante (há outros) chamado gigante-da-flandres, que pode ultrapassar os dez quilos de peso. Criado originalmente para carne e pele, como os coelhos de outras raças, este coelho é hoje sobretudo animal de estimação.







Pormenor de O Jardim das delícias (entre 1480 e 1505) de Hieronymus Bosch, 
Museu do Prado, Madrid, daqui
Aparte 2: Tirando isso, não deixa de ser curioso que, apesar de o coelho ser, em princípio, símbolo de fragilidade e pureza, se encontrem na iconografia medieval tantas imagens de coelhos malvados e assassinos. Se calhar, pode substituir-se o «apesar da» da fase anterior por um «por» causal: como propõe Jon Kaneko-James, essas imagens são provavelmente a expressão do «mundo ao contrário» e o género específico da «vingança do coelho» servia muitas vezes «para mostrar a cobardia ou estupidez» das suas vítimas.

Seja como for, uma imagem menos inocente do coelho parece ter sobrevivido a essas drolleries medievais – se não como ser diabólico, pelo menos como ser endiabrado. O Coelho Branco do País das Maravilhas e Bugs “Pernalonga” Bunny, entre outros, são disso exemplos óbvios.

Desenho de Tofu Verdedaqui.
Attribution-NonCommercial-ShareAlike 2.0 Generic (CC BY-NC-SA 2.0)






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30 de março de 2019

Expressão e comunicação

É uma discussão antiga: a linguagem serve mais fundamentalmente para exprimir ou para comunicar o que nos vai dentro?

É obviamente uma maneira muito simplificada de pôr a questão, mas não quero aprofundar o assunto neste texto. Chega-me agora constatar que, como todos sabemos, falamos às vezes sozinhos ou com os nossos animais de estimação e que dizemos coisas sem nos certificarmos de estarmos mesmo a ser compreendidos – nem nos importarmos muito com isso...; e que, mesmo quando temos muito cuidado para fazer chegar aos outros as nossas mensagens, nem sempre os outros compreendem essas mensagens como nós queremos que as compreendam. Parece fácil assentar em que há na linguagem uma tensão permanente entre expressão e comunicação.

Agora, muita gente afirma que é através da arte que melhor se exprimem emoções, sentimentos, impressões, estados de espírito. A interpretação da arte é, porém, subjetiva. Quando se comparam as várias interpretações de uma pintura, de uma obra literária ou de uma peça musical, têm às vezes pouco em comum. E claro, quanto mais abstrata for a expressão, maior desacordo há sobre o que quer dizer, ou seja, sobre as interpretações comuns — menos comunicação. Mas isso não significa que o seu valor expressivo seja menor, claro está.

Surgiu-me uma ideia que não consegui ainda escrutinar devidamente e que talvez me possam ajudar a avaliar: será que quanto mais se puser a tónica na expressão, menor é a comunicação? (Evidentemente, já não estamos aqui exclusivamente no domínio da linguagem, mas a questão de comunicação versus expressão extravasa com certeza do que se diz ou escreve.)

Uma questão que se põe de imediato quando se começa a refletir sobre o assunto é como interferem simultaneamente na comunicação e na expressão os modelos artísticos, as formas fixas e as temáticas canónicas das diversas formas de arte. Surgidas provavelmente para facilitar memorização e reconhecimento, e efeito natural da “profissionalização” da expressão artística, as formas fixas, se servem bem para instituir uma arte também no sentido de ofício e para criar gostos e, por conseguinte, beleza (gosta-se, antes de mais, do que se re/conhece), limitam obviamente tanto a comunicação como a expressão de sentimentos, sensações, experiências, ideias, etc. Não é de surpreender que quem, na arte, valoriza a pureza da expressão se revolte contra as formas ou os conteúdos canónicos. Diz, por exemplo, Alexandre O’Neill em “Bom e expressivo (Poemas com endereço, 1962):

Acaba mal o teu verso,
mas fá-lo com um desígnio:
é um mal que não é mal,
é lutar contra o bonito.

Vai-me a essas rimas que
tão bem desfecham e que
são o pão de ló dos tolos
e torce-lhes o pescoço,

tal como o outro pedia
se fizesse à eloquência,
e se houver um vossa excelência
que grite: - Não é poesia!,

diz-lhe que não, que não é,
que é topada, lixa três,
serração, vidro moído,
papel que se rasga ou pe-

dra que rola na pedra . . .
Mas também da rima “em cheio”
poderás tirar partido,
que a regra é não haver regra,

a não ser a de cada um,
com sua rima, seu ritmo,
não fazer bom e bonito,
mas fazer bom e expressivo . . .




21 de fevereiro de 2019

Palavra puxa palavra: uma conversa numa rede social

Faz agora um ano, o meu amigo Stefaan Dondeyne e eu tivemos uma conversa curiosa no Facebook. Fui eu que comecei, com a seguinte publicação:
Em francês, distinguia-se – e há ainda com certeza quem distinga, apesar de a regra ter sido alterada em 1990 – entre cuissot, uma coxa de um animal de caça, e cuisseau, uma coxa de vitela, por muito que as duas palavras se pronunciem, claro, da mesma maneira e tenham, evidentemente, a mesma origem.
Agora, se isto vos aparece extravagante, vejam que o Porto Editora diz que uma escola islâmica se chama uma madraça, a não ser que seja na Guiné-Bissau ou em Moçambique, onde é uma madrassa
Era dar conta de uma curiosidade e não uma crítica. Provavelmente, até é certo que a grafia predominante na Guiné e em Moçambique é com ss e nas outras variantes com ç. (O que está com certeza mal é que a grafia moçambicana não tem origem no mandinga, mas isso é outra história…)
E respondeu-me Stefaan (traduzo eu de forma bastante livre, porque ele não me respondeu em português):
Em suaíli, darasa (no singular, madarasa no plural.) significa apenas aula ou sala de aulas. Ok, isto não está diretamente relacionado com a ideia central da tua publicação, mas fiquei a pensar em qual seria o significado de darasa em árabe. Parece-me provável que também signifique apenas «sala de aula».
Fui dar uma voltinha ao Google e respondi-lhe:
Stefaan, em árabe, a palavra tem o ma- no singular e no plural e significa apenas «escola», qualquer tipo de escola (مدرسة‎, madrasah, plural مدارس, madāris).
Na altura, pesquisei apenas madrasah em árabe, mas não pesquisei se darasa também significava alguma coisa nessa língua – que era a dúvida de Stefaan. E significa, de facto, pelo menos a fiarmo-nos no Wiktionary —não «sala de aula», como Stefaan previa, mas «aula», «lição» ou «estudo». Ou seja, tem afinal, um significado igual a um dos significados de darasa em suaíli. Além disso, como verbo, pode também significar «estudar» e «aprender». De facto, madrasah forma-se como nome de lugar do verbo: é um lugar de estudar ou de aprender. Mas isto só o soube ontem. Na altura, o que me veio à cabeça foi outra coisa diferente:
É de facto interessante, Stefaan, agora que penso nisso: como o ma- é marca de plural nas língua bantas, o suaíli cria uma forma de singular de uma palavra que não é originalmente plural, só porque começa com ma-. O mesmo acontece, por exemplo, em português quando algumas pessoas dizem «uma sande». Partem do princípio de que o s final de sandes é uma marca de plural e criam, por isso uma forma singular sem s [quando de facto o s final de sandes vem do ch final de sandwich, singular].
Muito provavelmente, e mesmo sem saber, na altura, da existência de darasa em árabe, tenho razão na minha análise da formação do singular darasa em suaíli, com o significado de «sala de aula» – mas talvez não, talvez esse significado tenha derivado diretamente do significado «aula»...

Stefaan, pegando na deixa da chamada etimologia popular (ou, mais concretamente, de ressegmentação, metanálise ou retroformação, não chego à conclusão de que termo é mais usado em português), tinha algo a acrescentar sobre este tema:
Vítor, não é regra geral, mas há com certeza outros exemplos. Um deles é kitabu, «livro», no singular, que dá vitabu, no plural. Kitabu vem do arábe kitab [ كِتَاب‎ — a primeira sílaba é pois interpretada com o prefixo suaíli ki- do singular de uma classe de nomes, pelo que passa a vitabu, que é o plural dessa classe]. Também na brincadeira (ou como calão), há quem faça o singular de video como kideo…. A classe ki-/vi- é uma classe de nomes para «coisas». [Ver aqui uma explicação do sistema das classes de nomes em suaíli.]
Já se sabe, as palavras são como as cerejas e, palavra puxa palavra, uma pessoa começa a falar de palavras com grafia dupla e, de repente, ena, onde a conversa já vai!

9 de fevereiro de 2019

Uma sopa improvisada

Dizia-me uma vez um amigo que, em culinária, o mais importante é a imaginação. Mas imaginação só não chega. É certo que é muito importante atrever-se a experimentar, mas há que ter também uma boa noção de como se equilibram sabores e consistências, para que os produtos da imaginação não sejam tão inovadores como intragáveis.

Faço muitos pratos de muitos sítios diferentes, mas nem sempre os faço da uma maneira canónica. Creio que sou nisso igual à maior parte das pessoas que gostam de cozinhar – acaba-se sempre por se dar um toque pessoal… Também faço, porém, muitos pratos que não são de lado nenhum, que são invenções minhas. Ou apenas variações sobre pratos existentes, em que, de tão afastadas, já ninguém reconhece o original. Dos pratos que invento, há muitos que, por razões várias, não volto a fazer, mas também há alguns que repito e alguns que passo até a fazer com regularidade. A invenção de que vos falo hoje já foi repetida e há de sê-lo mais vezes, estou em crer – ficou uma coisa mesmo ao gosto da malta cá de casa.

Antes de passar à receita da sopa, deixem-me só explicar que, cá em casa, raramente se fazem compras para fazer especificamente este ou aquele prato. Quando vamos ao supermercado, compramos o que houver de bom e barato e depois vai-se diariamente decidindo o que se faz com os produtos que há na despensa, no frigorífico ou no congelador.

No outro dia, dei com um frigorífico, um frigorífico relativamente vazio. Havia talos de aipo, uns pimentos vermelhos, um resto de abóbora (por acaso, daquela a que se chama hoikkado ) e um resto de couve coração-de-boi. Havia cebolas na despensa e tomate em pacote já passado e havia no congelador uma mistura de mariscos congelada, que costumo usar para fazer arroz de marisco. E pronto, é esta a lista dos ingredientes sólidos da sopa. É claro que a fica ainda melhor se se usar marisco fresco e tomate fresco, passado no robô ou com a varinha.

Piquei muito grosseiramente a cebola, o talo de aipo e os pimentos e pus a refogar tudo em azeite, em lume muito brando. Entretanto, ralei a abóbora no robô, com a lâmina de ralar mais grossa, e juntei ao refogado. Deixei estar aquilo muito tempo, a apurar, a apurar, até começarem a aparecer sucos castanhos – é mesmo antes de começar a queimar, sabem?

Queria então molhar com um copinho de vinho branco, mas, que chatice!, tinha-se acabado. Um bocadinho de conhaque ou afim havia de ficar bem, pensei eu, mas também não havia. Espera! E um bocadinho de vinho do Porto? Um bocadinho só, para não adoçar a sopa, mas o suficiente para cortar o ácido ao tomate que vinha a seguir e, claro, para dar à sopa um travo especial.

Quando o cheiro a vinho deixou de sobressair, juntei o tomate. Continuou tudo a refogar muito devagarinho, até ficar o estufado a precisar de líquido. Juntei aí a couve cortada aos bocados e a mistura de mariscos, que sempre dão algum líquido, e continuou tudo a estufar mais um bocado.

Quando secou, deitei-lhe um bocado de água de cozer couve-flor e curgete do dia anterior. Eu guardo sempre os caldos de cozer coisas, porque me podem ser úteis em molhos ou sopas, como este foi neste caso. É claro, se tivesse sido água de cozer marisco, melhor seria…

Não deixei cozer muito mais, só uns dez minutos, uma coisa assim, porque não queria a couve a os mariscos muito cozidos. Uns minutos antes de apagar o lume, ajustei o sal e juntei à sopa meia grama de açafrão (açafrão mesmo, curcuma não!), para rematar o paladar e, de bónus, melhorar a cor.

Não foi preciso ligar a sopa com coisa nenhuma, porque a consistência estava como eu a queria. Ainda assim, como tinha no frigorífico um bocado de cevada cozidos (ou cevadinha francesa, como também se chama), deitei uns bagos no meu prato. Os outros comensais não quiseram, preferiram a sopa sem mais entulho.

Bom proveito!


15 de janeiro de 2019

Da trivialidade

Num romance ou num filme não se referem normalmente idas à casa de banho, as horas diárias de sono, compras e preparação de refeição, tudo aquilo que faz a maior parte da vida de toda a gente. Ou, se se referem, referem-se de passagem, talvez para ajudar a caracterizar uma personagem ou no meio de uma sequência de acontecimentos, mas nunca – nem de muito longe – se gasta com essas chatas banalidades espaço narrativo proporcional ao que ocupam na vida real. Isto é só uma introdução a outra coisa, que não é de narrativas que vos quero falar.


É comum afirmar-se que, ao aprender uma língua estrangeira, se ganha acesso à cultura das pessoas que a falam. Uma língua é, diz-se, uma porta aberta para as especificidades da cada cultura, para o que é único de um determinado grupo humano. E há muito de verdade nesta afirmação. A língua é, de facto, condição necessária para aceder à cultura – se bem que insuficiente. Para se conhecer a cultura do Idaho, do Yorkshire ou da Irlanda no Norte, por exemplo, não basta saber inglês, mas é de facto impossível conhecer devidamente (uma grande parte d)a cultura destes lugares sem falar inglês.

O que eu queria aqui sublinhar é, digamos assim, o outro lado da questão. Saber a língua de um grupo de pessoas serve também para perceber que elas são iguais a nós. E isto é tão importante como compreender as suas especificidades. Costumo dizer a brincar – mas ao mesmo tempo muito a sério – que os dinamarqueses eram mais interessantes antes de eu falar dinamarquês, porque, observando-os apenas sem compreender o que diziam, os imaginava a falarem entre eles das coisas de que falavam comigo em inglês. Nas conversas com estrangeiros, evita-se o trivial, como na literatura e no cinema. Quando alguém de fora me visita, falo-lhe, sei lá…, da história e da arquitetura da zona, de política, do que de mais interessante me ocupa o espírito. Não lhe falo das conversas da última reunião de pais, nem dos vulgares desentendimentos com colegas ou familiares, nem da diferença de produtos e preços das lojas locais, da vizinha que, coitada, tem andado adoentada, de utensílios de cozinha a precisar de substituição, ou os estofos de cadeira, nem da limpeza dos algerozes ou da revisão do carro… E, claro está, os dinamarqueses, os portugueses, os franceses, os moçambicanos, os bolivianos e os outros humanos todos passam uma grande parte da sua vida a falar de coisas corriqueiras. A sua quotidiana trivialidade é também uma parte essencial da sua cultura – que partilham com todas as outras pessoas.

12 de janeiro de 2019

«Este trabalho está pecável!» – uma pequena curiosidade linguística

Uma vez, no Facebook, alguém propôs um jogo, em inglês: arranjar palavras com um prefixo de negação a que não correspondesse um antónimo sem o prefixo. Por exemplo, há impeccable, mas ninguém ouviu falar de *peccable… Achei graça e propus aos meus amigos facebookianos de língua portuguesa o mesmo jogo na nossa língua. O resultado surpreendeu-me um pouco: há muito mais palavras desse tipo do que eu imaginava.

Antes de mais, conviria talvez explicar que os chamados prefixos de negação ou privação são, em português, os seguintes:
• a/an-, de origem grega, que se encontra em palavras como acrítico, agnóstico, amoral, assexuado, atípico, etc.;
• des-, de origen latina, que se encontra em palavras como desacerto, desonesto, desaconselhável, etc.; e
• in-, o prefixo de negação mais comum, que muda ligeiramente de forma (gráfica e/ou fonética) consoante o som que tem depois: inapto, inviável, insatisfeito; imbatível, impossível; ilógico, imoral; irreconhecível. (É preciso não confundir este prefixo com outro in-, que significa «movimento para dentro», às vezes transformado em em/en-, como em enterrar. Por exemplo, em impropério, que parece ser uma palavra com um im- que negaria algo próprio, no sentido de «apropriado», o im- não é, de facto, um prefixo de negação: vem do verbo latino impropero, que é «entrar de rompante», formado de propero, «apressar-se, acelerar», com a preposição in, «para dentro».)

É complicado se se deve considerar dis- um prefixo de negação/privação. Embora atualmente seja assim entendido, o sentido original grego é «mau»: dispneia, disenteria, dispepsia, disfasia, etc. E pode levantar-se a mesma dúvida relativamente ao dis- de origem latina, que é originalmente mais de separação que de negação e que se encontra, por exemplo, em discordar e discussão. Não considerarei aqui essas palavras.

Quanto às palavras com não, como em tratado de não agressão, o não não é propriamente um prefixo e, com a nova grafia, nem sequer se liga com hífen: não alinhado, não contradição, não intervenção. É interessante notar que há diferença entre prepor não a uma palavra ou usar outro prefixo negativo (pensem em não alinhado e desalinhado, por exemplo), mas, claro está, todas as palavras formadas com não têm uma correspondente sem não [sorriso], pelo que essas palavras também aqui não nos interessam.

Há ainda uma categoria de falsos negativos, em que o aparente prefixo negativo é de facto um elemento de reforço, como em desinfeliz, destrocar, desinquieto. Uma curiosidade, dentro deste tipo de palavras, é a palavra descascar. Na sua origem, creio que o des- de descascar é um prefixo de reforço, já que cascar significa o mesmo que descascar, «tirar a casca». Mas creio que descascar é atualmente sentido como tendo um verdadeiro prefixo de negação, como se cascar fosse pôr uma casca e descascar tirá-la. Não sei se contribuiu para essa perceção o facto de cascar, com o significado de «tirar a casca», ter caído em desuso ou se, pelo contrário, foi essa perceção que contribuiu para o desaparecimento do significado antigo de cascar.

***
Mas vamos então às palavras portuguesas com prefixo negativo de que não há antónimo positivo – normalmente porque só a forma com prefixo de negação evoluiu do latim ou porque só essa forma foi importada de alguma outra língua. Eis uma lista, forçosamente incompleta, de palavras desse tipo, com breves comentários a cada uma:

  • Analgésico é formado de analgesia, termo médico para «supressão da dor», negativo de algesia, «sensibilidade à dor», mas *algésico não existe.
  • Anemia, como o nome de muitas doenças, é de origem grega: haimas é sangue e anaimia é falta de sangue. O temo positivo, *(h)emia, não existe como vocábulo independente, mas -emia ocorre como elemento de formação de palavras como hipoglicemia ou leucemia, por exemplo.
  • Anónimo é «(feito por alguém) de que não se sabe o nome», mas não há *nómino para dizer o contrário. Uma palavra com a mesma raiz é denominar, mas denominado não é antónimo de anónimo.
  • Ateu e ateia são palavras curiosas. Se é claro que não há *teu e *teia para referir quem crê num deus, já ateísta e ateísmo, com a mesma raiz grega (theos, «deus»), têm um antónimo não prefixado, teísta e teísmo.
  • Diz-se descarado de alguém que não é envergonhado ou que não tem pejo em desrespeitar convenções sociais, mas *carado não existe. Os dicionários consagram um verbo descarar de onde teriam derivado o adjetivo, mas nunca o ouvi. É capaz de ter caído em desuso, não sei.
  • *Façatez não existe, só desfaçatez. Trata-se de uma palavra importada já com o prefixo, do castelhano desfachatez, que, por sua fez, a foi buscar ao italiano sfacciatezza. O s- inicial do italiano é um prefixo privativo correspondente aos nosso des/dis- que se junta à palavra faccia, «cara», pelo que a expressão é paralela ao nosso descaramento.
  • Desdenhar é o contrário de um *denhar que não existe, mas que, a ter existido, seria uma forma irmã de dignar. Originalmente, *denhar/dignar devia ser «tratar com dignidade», o que justifica o significado de desdenhar, mas dignar (que, em português moderno, só conheço como verbo reflexo) não é o contrário de desdenhar, é antes «condescender em», «fazer o favor de».
  • Desvirtuar, que tem origem em virtude, usa-se sobretudo no sentido de «trair ou deturpar o [bom] propósito ou sentido de alguma ação ou afirmação», mas *virtuar não existe.
  • Não consigo saber (acho que ninguém sabe) se o im- de imbecil é um prefixo de negação. Existe a teoria de que o latim imbecillus («fraco, débil»), que é o étimo da palavra, derivaria de um *imbacillus formado pelo prefixo privativo im- preposto a bacillus («pau», étimo de bacilo), e que significaria, por isso, «sem bengala», mas há quem considere esta hipótese fantasista.
  • Imberbe é quem não tem barba, mas quem tem não é *berbe. Esperava-se talvez algo como *imbarbe, da família de barba, mas não, aquele estranho -e- já existia em latim e nunca se «regularizou» nas línguas neolatinas.
  • Imune tem uma história curiosa. O latim immunis é «isento de impostos ou serviços públicos» e forma-se de munis, «sujeito a impostos ou serviços públicos», palavra de uma família que dá, entre outras, a palavra município em português. Só o imune sobreviveu e nunca houve *mune nas línguas latinas. Não sei se a palavra imune chegou alguma vez a ser usada em português no sentido de «isento», como foi usada em francês e inglês antigo. O sentido atual é provavelmente importado do francês no séc. XIX.
  • A palavra incólume vem do latim incolŭmis e creio que era uma palavra que só existia com o prefixo de negação. Segundo o que pude encontrar, *colŭmis poderia ser da família de calamitas, «calamidade».
  • Inédito é «não publicado» e não há o adjetivo *édito com o significado de «publicado», só o nome.
  • Inerte vem já prefixado do latim. Significava, ao que vejo, algo como «sem profissão/sem trabalho», porque o prefixo privativo se juntou originalmente a ars, artis, «arte, ofício» e depois o -a- passou a -e-.
  • Injúria também veio já do latim com o in- de negação. Forma-se de ius, que é «lei, direito, dever», da família de jus, justo, justiça...
  • Se não está partida ou dividida, uma coisa está intacta, mas não está *tacta se estiver partida. Na verdade, intacto é originalmente «não tocado», formado do particípio tactus do verbo tangere, «tocar». Da mesma raiz e com o mesmo significado original são as palavras íntegro e inteiro (duas formas divergentes do mesmo étimo latino) e integral, a que não correspondem nenhum *tegro, *teiro ou *tegral. Creio que um falante do português não tem consciência de que o in- inicial é, nestes casos, um prefixo de negação.
  • Comida sem sal é insossa, mas não é *sossa a comida com sal. Em latim, havia sulsus e insulsus, feitos do particípio de salire, «salgar», mas só a palavra com prefixo negativo chegou ao português. E com duas formas diferentes, curiosamente, já que os dicionários acolhem insulso (que eu não conhecia), com o mesmo significado de insosso – mas *sulso não há.
  • Quem sofre de insónia é ínsone. Não há *sónia nem *sone, mas pode discutir-se se sono se pode considerar o contrário de insónia...
  • Inupto é «solteiro, por casar», mas uma pessoa casada não é *nupta. A forma existia em latim, mas, mais uma vez, só a forma prefixada chegou ao português. Temos nubente, da mesma família.


  • ***
    É de notar que algumas palavras têm antónimos não prefixados registados nos dicionários, mas que devem ser palavras raríssimas, algumas talvez arcaísmos (?). Eu, pelo menos, nunca as vi nem ouvi. Sei, por exemplo, que estão dicionarizadas ou fazem partes de corpos lexicais as palavras batível, pávido, pecável, perdível, placável, cansável, cógnito, delével, trépido e usitado mas não me lembro de as ter ouvido. (Aplacável, conheço, claro, com o mesmo sentido de «que se pode acalmar, sossegar, mitigar, aliviar») Algumas delas, nem faço ideia de como se poderão usar (??? «Não viste O marciano? Deixa estar, também é um filme perdível…») Só conheço imbatível, impávido, impecável, imperdível, implacável, incansável, incógnito, indelével, intrépido e inusitado. Como me dizia Helena Galvão Soares, pode-se suspeitar que «há verbetes de dicionários que foram criados só para justificar a estrutura de outras palavras».

    Deste grupo de palavras, de formas não prefixadas que me são desconhecidas, há algumas que me causam mais estranheza do que outras. Negável, por exemplo, que não me lembro de alguma vez ter ouvido, mas parece-me uma palavra normal, digamos assim, daquelas que, quando se ouvem pela primeira vez, se sabe bem que existiam mesmo antes de nos depararmos com elas.

    Há também outros antónimos sem prefixo que, embora já os tenha visto e ouvido, são incomparavelmente mais raros que as formas com prefixo negativo: cauto e sólito são bons exemplos dessas palavras rebuscadíssimas, de ocorrência muito mais escassa que o incauto ou o insólito que dizem o contrário.

    ***
    Há também algumas palavras que, embora não tendo um antónimo positivo direto, têm antónimos formada da mesma raiz. Por exemplo:
    • Não há *alfabeto com o sentido de «que sabe ler e escrever», ou seja, como contrário de analfabeto, mas usa-se para esse conceito a palavra alfabetizado.
    • Se uma coisa não tem cor, é incolor; se a tem, não é *color, porque isso não existe, mas pode ser colorida.
    • Não existe *menso, só imenso, mas existem mensurável e imensurável, com a mesma raiz.
    • Um lugar pode ser inóspito, mas *hóspito não pode ser, só hospitaleiro.
    • Se um crime não fica impune, é punido – mas *pune não há.

    ***
    Agora, interessante também é o caso de palavras em que a forma sem o prefixo negativo não é antónima da forma prefixada:
    • Está afónico quem não consegue falar, mas não está fónico quem o consegue fazer — fónico significa antes «respeitante aos sons da língua».
    • Os termos imobilizar e mobilizar não são, muitas vezes, o contrário um do outro, porque o primeiro tem frequentemente um significado físico de «fazer cessar o movimento», ao passo que o segundo se emprega sobretudo para dizer «recrutar» ou «angariar».
    • Dizemos impassível de alguém que não demonstra emoções – e a palavra passível, que é da família de paixão, significa originalmente «emocionalmente envolvido ou afetado», mas nunca a vi usada com esse significado. Creio que atualmente só se se usa no sentido de «que pode ser objeto»: «O que ele fez é passível de castigo».
    • Nem sempre indiferente é o contrário de diferente. O contrário de diferente é igual e indiferente tem muitas vezes outro significado. Diferente e indiferente podem ser antónimos em frases do tipo «É diferente escrever com ss ou ç, são palavras diferentes» e «É indiferente escrever com acento circunflexo ou não, as duas grafias são aceites», mas diferente não funciona como antónimo do indiferente em, por exemplo, «Ele mostrou-se indiferente às suas lamentações.»
    • Também disposto não é o contrário de indisposto. Indisposto é sinónimo de maldisposto ou não muito bem-disposto. Não é fácil encontrar-lhe um antónimo que funcione sempre. Bem-disposto, por exemplo, só às vezes funciona.
    • O dicionário regista para tratável o significado de «afável; sociável», mas eu só conheço tratável no sentido de «que se pode tratar». Como eu a conheço, a palavra intratável não é antónima de tratável, mas o dicionário não concorda comigo…
    ***
    Finalmente, há algumas palavras que me merecem comentários especiais.

    O grupo desgraça, desgraçar e desgraçado é curioso. Podemos considerar que existe graça como antónimo de desgraça, quando as palavras se usam nas expressões cair em graça e cair em desgraça, por exemplo, mas graça não é o contrário de desgraça no sentido de «infelicidade» ou «catástrofe», etc., como desgraça não é o contrário de graça no sentido de «encanto» ou «piada». O contrário de engraçado, que pode ser quem é «bonito», «simpático» ou «divertido», pode ser desengraçado, embora não me pareça que esta palavra seja o contrário de todas as aceções de engraçado. Já engraçar me parece exatamente o contrário de desengraçar, mas posso não estar a ver todas as situações do seu uso…

    Infame é outra palavra curiosa. Não existe a palavra *fame e infame não é quem não tem fama, mas sim «quem tem má fama». Podia pensar-se que mal-afamado, com a mesma raiz, podia ser um quase-antónimo e originalmente infame devia significar precisamente isso. Mas perdeu-se a consciência da relação com fama, e infame tornou-se um termo de apreciação negativa, sobretudo relativamente ao caráter ou à moral de alguém.

    Em latim, nocere é «causar dano» (de qualquer tipo) e nocuu- ou nocente- o que causa dano. Encontro nocente registado nos dicionários e encontro quem defenda que a palavra nócuo existe em português, embora não a tenha encontrado em nenhum dicionário. Nunca vi nem ouvi nem uma nem outra palavra. Seja como for, inocente tem hoje em dia um significado diferente de inócuo, o que quer dizer que, aceitando que nocente existe, não é o contrário de inocente. Agora, tanto nocente como o pretenso nócuo têm um sinónimo com a mesma raiz, nocivo, pelo que se pode dizer que inócuo também faz parte das palavras com um antónimo com a mesma raiz. Mas inocente não.



    ____________________________________________________________________________

    Alguma da informação veio inicialmente desta página (que a foi buscar a uma fonte que deixou de estar acessível), mas foi depois verificada, dentro do limite dos meios à minha disposição. Uma grande parte da informação etimológica vem do Online Etymology Dictionary, que usa fontes fiáveis. É um dicionário etimológico do inglês, mas, claro, pode também usar-se para a etimologia dos cognatos portugueses de palavras inglesas.
    Os cartazes dos filmes são todos Wikimedia Commons menos um (Les Implacables), mas a sua utilização com baixa resolução para identificação do filme (nesta caso para ilustrar uma palavra) não deve ser problemática. 

3 de janeiro de 2019

Quebrado da friúra

Diz George Orwell em “New words”, um texto em que defende a criação de palavras novas como forma de maior rigor na expressão:
Encontra-se um exemplo de invenção eficaz de palavras, embora rudimentar e em pequena escala, entre os membros de famílias numerosas. Todas as famílias grandes têm duas ou três palavras que lhes são peculiares – palavras que inventaram e que transmitem significados refinados que não se encontram nos dicionários.
É bem capaz de ser verdade, e até em famílias mais pequenas, mas nem sempre é fácil saber que palavras, das que só ouvimos em casa, foram inventadas na família. Pode haver algumas que nunca tenhamos ouvido fora de casa, porque fora de casa não contactamos com pessoas de gerações mais velhas em determinadas situações do quotidiano.

Foto de Artur Franco (pormenor) 
Isto vem a propósito de me ter vindo à memória uma expressão que só me lembro de ter ouvido à minha avó — talvez também à minha mãe, não sei… — e que facilmente podia considerar uma expressão lá de casa: «quebrado da friúra». Acho que se percebe: «quebrado da friúra» é menos que tépido; é, por exemplo, água da torneira a que, no inverno, para a higiene diária ou para lavar roupa, se juntou um pouco de água aquecida ao lume, para não ficar tão desagradável de gelada, mas que não chega a estar morna. Uma expressão, enfim, de antes dos esquentadores… Mas não, não é expressão pessoal da minha avó, diz-me Google. E encontro até quem, como eu, a recorde com nostalgia.

De maneira que é assim, como diz o outro, aquele que diz muitas coisas… Os dicionários registam palavras e expressões caídas em desuso, como, sei lá, «demandar» ou «quebrar lanças por alguém», mas um dicionário não regista a expressão «quebrar da friúra», porque o seu significado é apenas a soma do significado de cada uma das partes, digamos assim. É capaz de não ficar dela grande rasto e é pena, porque é uma expressão bonita.


21 de dezembro de 2018

Boas Festas!


Que o Natal é uma quadra
parece-me a mim bem dito,
que sextilha do Natal
soa mal, fica esquisito.

(Talvez cestinha, isso sim,
ou talvez antes cabaz,
como aqueles que havia
nos meus tempos de rapaz...) 

É então essa a razão,
percebem vossemecês?,
de irem os versos aos quatro
e não aos cinco ou aos três... 

Mas já chega de conversa,
vamos ao essencial:
um Natal muito feliz
nesta quadra do Natal!



15 de dezembro de 2018

Salada de couve

Há quarenta anos (xiii!, já?) escrevi uma letra chamada «Iss’é qu’é p’ciso blues», que um amigo meu depois musicou, mas que nunca ninguém chegou a gravar. Era uma lengalenga muito comprida, em versos também muito compridos (redondilha dupla, quem já viu uma coisa assim?), que descrevia um dia da minha vida de jovem frique suburbano. Dizia assim uma das estrofes da coisa:
‘Tava com fome, fui comer, fiz ‘ma salada de couve,
a minha avó chamou-m’maluco, qu’eu ‘tava sempre a indear.
Eu chamei-lhe ignorante. «’Tá bem», disse ela, «mas ouve,
Vai mas é fazer a cama, qu’a tua mãe ‘tá a chegar.»
Indear era palavra da minha avó. Acho que era uma amálgama de idear com índio: «inventar coisas exóticas, disparatadas…» A salada de couve era uma das inovações que tinha trazido das minhas viagens. Ao contrário de outras extravagâncias minhas, a minha avó nunca a adotou. E eu também a fui esquecendo.

Lembro-me muito bem de um agradável reencontro com a salada de couve num bar americano, algures nas Caraíbas, onde comi uma das melhores sandes da minha vida: coleslaw, a tal salada de couve, com corned beef, muita e cortada em fatias muito fininhas, com mostarda e molho de rábano, num excelente pão de centeio torrado (uma variação da sandes Reuben). Mas foi em Moçambique que a salada de couve se tornou um elemento constante da nossa alimentação. Importada dos países vizinhos em tempos de escassez de alimentos, a salada de couve passou a fazer da dieta de muitos moçambicanos – e da nossa.

Que mais? O que de mais importante há para dizer sobre a salada de couve, di-lo Louis Jordan na canção que vos deixo aqui mais abaixo: «Coleslaw … is just cabbage raw». É isso mesmo: seja no Arkansas ou lá onde for, é só couve crua. Mas pode desenvolver-se um pouco o assunto:

Use-se repolho ou couve coração-de-boi. De preferência, esta última, para o meu gosto. Não é que não se possa usar outra couve, mas não é a mesma coisa. Corte-se a couve em tiras muito fininhas, quanto mais fininhas, melhor. Aconselho tirar as partes grossas do centro da couve. É claro, tem de se usar uma faca de cozinha grande (normal, enfim, mas sei que há quem tenha a mania de facas pequenas…) ou então uma faca de pão, também, funciona bem.


A coleslaw propriamente dita costuma ser uma mistura de couve e cenoura ralada com maionese, mas cá em casa é raro comer-se dessa salada de couve. Normalmente, temperamos a couve cortada com azeite, vinagre balsâmico e sal, e fica assim a cozer um bocadinho no tempero. Cuidado com o sal, que a couve encolhe muito e, se uma pessoa não conta com isso, pode a salada ficar salgada. Depois, antes de servir, junta-se o que se quiser. Muitas vezes, usamos nozes, cortadas grosseiramente, e passas de arandos. Também é bom polpa de toranja aos bocados, depois de muito bem limpinha daquelas peles grossas que a envolvem. Mas, como se costuma dizer, a imaginação é o único limite.

Agora, a rainha das saladas de couve é, para mim, a salada de couve com manga e caju. Não é uma salada barata, pelo menos aqui na Dinamarca, mas vale a pena. Usem manga verde. Quer dizer, verde-verde não, mas meio verde — ainda firme e sem sumo, pronto. Podem cortá-la às tirinhas fininhas ou em lâminas também muito fininhas (feitas, por exemplo, com o descascador de batatas). O caju, escusam de o cortar.

Se a couve trabalha muito no estômago? Há quem diga que sim, um bocadinho. Paciência.

Louis Jordan, “Coles Slaw”, 1949


22 de novembro de 2018

Outono [Crónicas de Svendborg #30]

Aqui na Dinamarca – e seguramente noutros países – o conceito de estação do ano é um pouco diferente daquele que temos em Portugal – e também noutros países, claro está. Em Portugal, temos uma maneira científica, astronómica, de definir as estações: começam num equinócio e duram até ao solstício seguinte ou começam num solstício e duram até ao equinócio seguinte.

Aqui, não é assim: costuma dizer-se que, em princípio, a primavera começa no início de março, o verão no início de junho e assim sucessivamente. Há também marcas naturais, porém, que assinalam as estações. Diz-se que o aparecimento de Erantis e Galanthus anuncia a primavera, mas há quem diga que são os amentilhos das aveleiras que marcam de facto a sua chegada. O aparecimento das últimas folhas (em carvalhos, olmeiros e tílias) marca o começo do verão. E a queda das últimas folhas marca o início do inverno.

De Santos a Natal, é inverno natural, diz um provérbio português. Também na Dinamarca, acho eu. A foliação das árvores dá-se sempre mais ou menos na mesma altura do ano, porque, além da temperatura, depende em grande parte da quantidade de luz solar, que é sempre a mesma de ano para ano. A queda das folhas também se dá sempre mais ou menos na mesma altura, mas depende também do vento, que pode ou não haver. Este ano, o frio e o vento chegaram tarde e tivemos um outono longo, quase que a respeitar a calendarização tradicional: setembro-outubro-novembro. Vi gente cortar relva em meados de novembro, o que nunca tinha visto nos meus sete anos de Tåsinge. E as árvores tinham ainda, até essa altura, muitas folhas outonais. Só esta semana chegou o vento e a paisagem se invernizou.

Muita gente concorda: se o outono aqui é sempre muito bonito, este ano foi ainda mais bonito do que costuma ser. As fotografias são aqui da nossa aldeia, Troense.







1 de novembro de 2018

Rua da Rosa

Na Rinchoa, onde cresci, as ruas têm nomes de plantas – árvores e flores: Avenida dos Choupos, Avenida das Acácias, Rua dos Cravos, Rua das Violetas...

A última rua onde morei em Lisboa foi a Rua da Rosa. Aqui onde moro agora, mesmo aqui ao lado, também há uma rua chamada Rosenvej, que, com boa vontade, se pode traduzir por Rua da Rosa. As Ruas da Rosa são como os chapéus dos palermas: há muitas.

Inspirei-me na Teresa O do blogue Diário de Bordo, que lá faz várias coleções, e resolvi fazer uma coleção de Ruas da Rosa. Já vários amigos contribuíram para a minha coleção e toda a gente pode contribuir, se conhecer ou encontrar uma Rua da Rosa e tiver à mão algo com que fotografar.

(Continua – espero eu...)




Lugares e autores, de cima para baixo e da esquerda para a direita: Rosenvej, Troense, Dinamarca, foto minha; Carrer de la Rosa, Barcelona, Espanha, foto minha; Rua da Rosa, Macau, daqui (obrigado, Joana Sant'Ana); Calle de la Rosa, Madrid, foto: Sofia MarSim; Rua da Rosa, Angra do Heroísmo, foto: Guiomar Belo Marques; Rua da Rosa, Caldas da Rainha, foto: José Silva; Rosensgade, Aarhus, Dinamarca, foto: B. Jorge Leitão; Rozengracht, Amesterdão, daqui (obrigado, Wieke Huizing Edinger)

A Sofia MarSim mandou-me outra foto de uma placa mais recente da Calle de la Rosa em Madrid, com um link para uma página que explica o nome: «La calle del Amparo, la travesía de la Comadre y la calle de la Rosa son 3 populares calles del barrio de Lavapiés en el centro de Madrid. Y las 3 le deben su nombre a una partera, comadrona o comadre: Amparo de Granada. // A principios del siglo XVII, en tiempos de Felipe IV, existía en Lavapiés una buena mujer que se ganaba la vida ayudando a otras a traer a sus hijos al mundo. Se trataba de una partera, comadrona o comadre, pues los 3 nombres reciben las mujeres de este oficio tan necesario y socorrido. Y más en aquellas épocas en que la medicina estaba a oscuras y se daba a luz en las casas.» (Ler mais aqui)

30 de outubro de 2018

De diminutivos e doninhas

...
António Nobre, embora seja muito em inho,
é o grande Só que somos nós,
por isso gosto dele (ai de mim, coitadinho!)
...
Alexandre O’Neill, em «Autocrítica», in Feira Cabisbaixa, 1965

«Sós: assim somos todos nós». Soa bem, podia ser o título ou a primeira linha de um ensaio ou de um poema. Já «Sozinhos: assim somos todos nós» parece que não soa tão bem. Pode ser apenas uma questão de rima e ritmo, mas creio que é também – e sobretudo – uma questão de significado. e sozinho não são bem a mesma coisa, pois não? E é curioso, ninguém pensa em sozinho como sendo o diminutivo de , mas é isso que é – ou, pelo menos, que começou por ser.

Falemos um pouco de inhos. -Inho é o mais comum dos vários sufixos ditos diminutivos que há em português. A designação diminutivo, como muitas expressões antigas de gramática, é um bocadinho enganadora. É certo que o -inho pode significar «pequeno», isto é, ser qualificativo e efetivamente diminutivo: «só um golinho para provar», «uma cadeirinha de brinquedo», «uma coisinha de nada», etc. Mas é capaz de não ser o uso mais comum. Muitas vezes, tem um uso – que não sei se se pode chamar modal, mas é um tipo de modal… – que marca uma apreciação: quase sempre, uma apreciação positiva («na caminha é que se está bem», «um vinhinho de primeira»), mas, às vezes, também pode assinalar depreciação («Eh pá, a carinha que ele tem!...» (os dicionários dão conta desse valor depreciativo, por exemplo, em mulherzinha, que constitui entrada própria).

Este uso afetivo do -inho português pode, nalgumas línguas, construir-se com um adjetivo. Em dinamarquês, por exemplo, «mit lille hus», literalmente «a minha pequena casa», pode corresponder exatamente a «a minha casinha» em frases em que não se descreve o seu tamanho, mas se dá antes conta de uma valoração afetiva da casa. Note-se, a propósito, que, ao contrário do que às vezes oiço dizer, a existência e o uso de diminutivos em português não tem nada de especial: os afixos «diminutivos» existem em muitas línguas (em todas as que conheço…), embora possa variar o que a tradição gramatical de cada língua considera «diminutivo». [Eis uma lista de afixos diminutivos em muitas línguas.]

 E depois, há os diminutivos que mais parecem aumentativos. De facto, não são aumentativos no sentido em que casarão ou canzarrão o são, mas marcam antes uma quantificação que, basicamente, significa «completamente»: «não fiz nadinha», «cheguei a casa encharcadinho», «é uma bestinha», «o depósito estava cheiínho», etc.

Às vezes, este uso parece instável sem uma ajudinha. «Está maluquinho» é possível, mas é mais natural «está mesmo maluquinho» ou «está maluquinho de todo», uma coisa assim. É com adjetivos e advérbios que isto se verifica e verifica-se na maior parte dos casos. Às vezes, a entoação e o contexto podem, com alguns destes adjetivinhos ou adverbiozinhos, determinar qual é a tal apreciação modal tão comum nos nomezinhos, se mais ou menos positiva. Por exemplo, «É mesmo parvinho» pode, com contextos e entoações distintas, variar entre o claro despeito («é um perfeita idiota») e uma valorização afetiva de uma tirada jocosa ou humorística.

Agora, é capaz de ser possível fazer uma descrição geral da forma, suficientemente abstrata para explicar os vários usos, mas, se há, não a conheço. E é com certeza muito, muito difícil. A questão é sempre a mesma: um falante nativo do português sabe quando e como usar um -inho, sem nenhuma consciência do que faz, também em frases que nunca ouviu e em situações novas. Para isso, usa, com certeza, ou uma única regra que tem na mente sem sonhar que a tem e que gera todos os usos. Ou então usa, com a mesma inconsciência, uma série de regras para os diferentes usos para as quais a forma está disponível. Agora, saber quais… Estão a ver que a Linguística é, afinal, uma coisa complicada?

***

Uma curiosidade:

Não é só em sozinho que o diminutivo se lexicaliza, isto é, que passa a constituir outra forma que os falantes não reconhecem como simples diminutivo. Sombrinha é outro exemplo. E carrinha, e doninha… Também doninha não é palavra que um falante do português reconheça como diminutivo, mas é de facto essa a sua origem. Em La creación metafórica en el lenguaje (Montevideu: Universidad de la República, 1956), Eugenio Coseriu, explica a história da palavra e dos termos para designar a Mustela nivalis noutras línguas próximas da nossa (traduzo eu):
[Uma] razão que determina substituições de signos e, por conseguinte, facilita a difusão (aceitação) das criações, metafóricas ou não, é o chamado «tabu linguístico», quer dizer, o fenómeno pelo qual se evitam certas palavras relacionadas com superstições e crenças, palavras essas que se substituem por empréstimos, eufemismos, circunlóquios, metáforas, antífrases, etc. (...)
Charles Le Brun: Fisionomias inspiradas pela doninha, cerca de 1670, pena.
Museu do Louvre, Paris (daqui
Um exemplo (…) famoso [de é o da doninha: o termo próprio latino que a designava, mustela (francês antigo mousteile, catalão mustela, provençal mustelo) desapareceu da maioria dos dialetos romances ou só se encontra esporadicamente em zonas muito limitadas (leonês mostolilla, biscainho mustela e musterle, galego mustela), tendo sido substituído por uma série de nomes metafóricos, diminutivos e carinhoso, que revelam o desejo dos falantes de granjear a simpatia do animalejo. A mustela é hoje, conforme os dialetos, a «bela» ou «bonita» (francês belette, piemontês lombardo bellola e benula, veneziano belita, corso bellula, siciliano beḍḍula e espanhol dialetal bilidilla, bonuca, monuca, bunietsa e munietsa) ou uma «senhora», «menina» ou «esposinha» (italiano donnola, português doninha, romeno nevǎstuicǎ, galego donociña donicela, asturiano donecilla); é uma «bela dama» (pirenaico danabere), ou «comadre» (castelhano comadreja, tolosano kumairelo, campidanês abruzo cummatrella e cummarella, romeno cumetrita), ou «nora» (português dialetal norinha); é «dama ou senhora das paredes» (galego dona das paredes, sardo dona de muru) ou «[a que tem cor de] pão e queijo» (aragonês navarro paniquesa, com variantes ou diminutivos noutras zonas de Espanha; anconitano panakašu e panaccacia). E, mais uma vez, o fenómeno é interidiomático, já que também se encontra noutras línguas europeias não românicas: também para os alemães a doninha é uma «jovem senhora» (Jüngferchen) ou um «formoso bichinho» (Schöntierlein), para os ingleses é uma fada (fairy); para os húngaros é uma «pequena dama» ou «esposinha» (menyét), e para os bascos «pão e queijo» (oguigaztai).

23 de outubro de 2018

«E tu, tu que pensavas?»

Se não escrevo aqui sobre a atualidade política, não é de modo nenhum por desinteresse, mas sobretudo porque, não tendo um conhecimento aprofundado da maior parte das questões que me importam, não creio, sinceramente, ter nada interessante a acrescentar a muito do que leio nos meios de comunicação e nas redes sociais. Abro hoje uma exceção. Preocupa-me muito a evolução política dos últimos anos, com o surgimento, o avanço ou a consolidação de neofascismos em vários países – a perspetiva da eleição de Bolsonaro é aterradora para qualquer pessoa de bom senso – e quero insistir em algumas ideias que, por banais que possam ser, quero repetir, mesmo sem acreditar que tenham qualquer efeito...

Uma é que é preciso lembrarmo-nos constantemente de que a democracia é uma instituição naturalmente frágil. Por muito que tenhamos agora a ilusão de que a democracia é «o normal» – o que não seja democracia até nos parece aberrante, contra natura –, a democracia é, de facto, uma ideia de organização social materializada apenas em muitos poucos tempos e lugares, e está constantemente em perigo. Tem de se fazer alguma coisa para ela ser preservada. Quem vive numa democracia estável, e, nalguns casos, até já muito longa tende muitas vezes a pensar que nunca o seu país aceitará, ou voltará a aceitar, um fascismo.... Mas é pecar por excesso de otimismo. Em muitos países com tradições democráticas surgiram ditaduras em certos períodos históricos. Porque não voltariam a surgir outra vez? As ditaduras não foram banidas de vez, nem nunca serão.
E tu, tu que pensavas?
Que eram tudo águas passadas?
Que esta trágica e mísera história
não se repetiria mais?


Brunori Sas, "L'uomo nero", 2017, ao vivo em 2018

Outra é que às vezes é importante pensar democracia definindo-a pela negativa – uma ausência de ditadura. Se pensarmos na democracia como possibilidade de igual participação de todos na definição de regras e políticas que governam uma sociedade, o que mais importa assegurar constantemente não é que todos participem dessa maneira, mas que ninguém seja excluído dessa participação e que ninguém se dê a si próprio ou a um grupo de pessoas mais prerrogativas que a outros – ou seja, que a possibilidade de participar nunca seja retirada, seja ela usada ou não. É de sublinhar que, dando prioridade à recusa da ditadura, podemos e devemos conservar, como bússola, moral, a ideia do tipo de democracia, de governo, de Estado, que queremos (como muito bem no-lo lembra Eliana Brum
Como resistir em tempos brutos. Um manual para enfrentar as próximas três semanas e transformar luto em verbo», El País, 9.10.2018):
Em momentos de tanta gravidade, como já viveram outros países ao longo da história, tudo o que se pode fazer é ser contra. Contra o autoritarismo. Contra a opressão. Contra a ameaça da ditadura. Contra o extermínio das minorias. Contra o sequestro da liberdade. Mas, mesmo fazendo campanha e votando contra, é preciso jamais perder de vista do que somos a favor.
«Insegurança» e «imigração» são palavras-chave da ascensão dos fascismos. Creio que nisso podemos assentar, como também podemos assentar em que as dimensões reais destes fenómenos variam muito de país para país e em muitos lugares não são problemas reais, mas apenas fantasmas de que a propaganda neofascista se serve – e há sempre muita gente, de várias classes sociais e tradições políticas, a responder bem à retórica do «perigo» que correm o «povo» e a «nação». Ora, os culpados de um problema, real ou inexistente, são sempre os outros. Se o estrangeiro não for suficientemente visível, acusam-se os opositores de estarem ao serviço de potências, de ideologias e de maneiras de viver «estrangeiras», de serem traidores dos «valores essenciais» da pátria – cola-se a etiqueta de uma alteridade criminosa a todos os opositores. Que acabam às vezes por a assumir para se demarcar da conceção de nação e nacionalismo que lhes querem impor. O sufoco que se sente na garganta quando se lê uma frase como a que escreveu uma amiga minha húngara quando se soube o resultado das últimas eleições legislativas no seu país!...
A Hungria é húngara, diz Orbán. Mas minha já não é.
Não se pode abdicar da discussão. Sei bem que é difícil, senão impossível, tentar argumentar com quem não está disposto a aceitar nem argumentos nem factos. Uma pessoa desiste, muitas vezes, antes de começar, só de imaginar a dimensão e a inutilidade da discussão. Por mim falo – ou contra mim, se preferirem. Mas história recente dos avanços de todo o tipo de populismo, sobretudo dos nacionalismos xenófobos, mostra que eles se dão muito bem com a ausência de confronto direto. Não debater com os seus defensores, «para não lhes dar mais visibilidade mediática» ou «para não descer ao seu nível» acaba por resultar em que a mentira e a irracionalidade raivosa se espalhem sem que ninguém as contrarie. Agora, mais difícil que dar permanentemente resposta à desinformação e à incoerência populistas e xenófobas é fazê-lo num tom sereno e o mais cordato possível (como ter uma atitude calma perante a fúria de todas as intolerâncias?), mas é essa a única maneira de se poder ganhar alguma coisa com a discussão. Responder a insulto contra insulto pode ser inevitável em certas ocasiões, mas tem normalmente o efeito perverso de tornar mais empedernido na sua raiva quem acha que o mal do mundo são estrangeiros, homossexuais, feministas, intelectuais e, em geral, quem defenda uma sociedade aberta e tolerante – democrática.

E também não se pode abdicar do direito a criticar governos ou candidatos fascistas ou fascizantes, ou qualquer tipo de totalitarismo, para, como alguns querem, não interferir nas questões internas de um determinado país. A ideia de que cada país tem o governo que quer, ou porque o elegeu ou porque não o depõe, coisa que poderia sempre fazer, é de um simplismo irrazoável que todos os ditadores agradecem – e deixa fundamentalmente de lado, no caso dos ditadores eleitos, o facto de que, ao contrário do que acontece quando não há ditadura, os eleitores não poderem mudar de opinião nas eleições seguintes ou castigarem os eleitos, se estes se desviarem do que defenderam nas suas campanhas. Mas a moral – e, dentro dela, a política – não tem fronteiras territoriais.

19 de outubro de 2018

Sobre a ilha de Langeland [Crónicas de Svendborg #29), comprimentos, larguras e alturas


Esta imagem e a última:  Wikimedia Commons
Ninguém pergunta a ninguém por que razão a ilha de Langeland se chama assim, porque a resposta parece demasiado óbvia: det lange land significa «a terra comprida» e Langeland chama-se assim porque é comprida.

É certo, mas este «comprida» tem mais que se lhe diga. Langeland tem 52 km de comprimento e 11 km de largura na parte menos estreita. Se tivesse o mesmo comprimento, mas 36 km de largura, muito provavelmente não se chamava Langeland. Langeland significa então «com um comprimento muito maior que a largura». Até se podia chamar Smalleland, «terra estreita».

É sempre assim? Por definição, é assim com o comprimento e a largura, mas a altura tem um valor absoluto, para que não há que ter em conta as outras dimensões. Uma pessoa é alta quando tem dois metros, independentemente de ser gordo ou magro, como é alta uma montanha de 4000 metros, tenha que forma tiver. Curiosamente, a palavra comprido conserva as mesmas propriedades quando se usa para significar «alto» (o que não é muito frequente, mas pode acontecer). O Manel Comprido, um rapaz com quem eu jogava à bola em miúdo, provavelmente não se chamaria assim, se fosse gordo. Era mais provável que lhe chamassem antes Manel Grandalhão ou Manel Gigante, ou qualquer coisa desse tipo.

A razão para isto é, creio eu, que a altura está associada à verticalidade, que é uma categoria não relativa, ao passo que comprimento e largura são categorias puramente relacionais: o comprimento só é comprimento, porque é a dimensão maior de uma superfície, faça ela ou não parte de um objeto.

Em português europeu, pode acontecer usar-se a relação entre a altura e a largura para fazer distinções que não se fazem noutra variantes da língua, ou noutras línguas — estou a pensar em tacho e panela, e maçã e pero, os primeiros mais largos que altos e os segundos mais altos que largos.

Tirando isso, Langeland é uma ilha bem bonita. A zona de Bagenkop, no sul da ilha, é boa para observar pássaros – e cavalos bravos. Se se interessarem mais por física que por animais, podem visitar Rudkøbing, a capital da ilha, que é a cidade natal de Hans Christian Ørsted, e podem ver onde é que ele nasceu e meditar sobre a importância das suas descobertas, enquanto contemplam a sua estátua lá muito perto. Mas, independentemente do interesse que se tenha em Ørsted, Rudkøbing é uma cidade muito bonita, que vale mesmo a pena visitar. Outra localidade muito, muito bonita, a cerca de 12 quilómetros de Rudkøbing, é Tranekær.

Deem-me uma apitadela quando cá vierem, boa viagem e boas férias.