18/04/26

As meias da Tove [Crónicas de Svendborg #55]

Tenho um amigo que usa sempre meias de lã, mesmo no verão, e até com sandálias. Hei de perguntar-lhe de onde lhe vem esse hábito. É capaz de o ter adquirido na África Austral, porque ele viveu no Zimbábuè, onde se vê às vezes gente de calções e botas — e meias grossas até ao joelho. Mas também é capaz de ser uma coisa dos dinamarqueses mais velhos: conheço um senhor que tem agora 100 anos e que me explicou que também usa sempre meias de lã todo o ano, todas feitas pela mulher dele. Eu também tenho vários pares de meias de lã feitas à mão e, embora só as costume usar quando está frio, sei que, de facto, não são mais quentes no verão que outras meias quaisquer. 

Há umas semanas, numa longa viagem de autocarro-cama, olhei para as meias de lã cinzentas que trazia calçadas e lembrei-me da Tove, que mas tinha oferecido. E escrevi uma nota no meu telefone, para escrever um texto — este — quando voltasse a casa e ao computador: «As meias da Tove». O que queria dizer «As meias que a Tove me deu.» Mas eu entendo-me.  

Agora, à laia de introdução, deixem-me contar-vos uma história de há uns anos, que não tem nada a ver com a Tove nem com meias de lã. Ao fim do meu primeiro estágio em apoio domiciliário, aprendi que nem tudo o que vem nos livros se deve sempre seguir muito à letra. Na escola, tinha aprendido que é expressamente proibido aos profissionais de saúde aceitarem individualmente presentes dos doentes. Podem fazer-se doações em dinheiro ou oferecer presentes em géneros a instituições (hospitais, secções de apoio domiciliário, lares, etc.), mas não a pessoas individuais. E quando uma doente minha quis oferecer-me uma garrafa de vinho pelo Natal, eu, inexperiente e fiel ao que me ensinavam na escola, recusei: que agradecia imenso, exatamente como se tivesse aceitado, que era de uma grande gentileza da parte dela e ficava muito sensibilizado, mas que, infelizmente, as regras eram regras e não podia aceitar. No dia seguinte, a minha supervisora de estágio chamou-me: 

− A Irene está inconsolável, pediu para falar comigo e tinha as lágrimas nos olhos: disse-me que tinha pedido à filha para lhe trazer de Copenhaga uma garrafa de vinho para ti e que tu não aceitaste o presente, porque era contra as normas. Enfim, é o teu primeiro estágio e eu percebo, mas agora vais aprender uma coisa que não vem nos teus manuais: o que é mesmo contra todas as normas da nossa profissão é deixar uma pessoa desolada recusando-lhe um presente que, para ela, é importante dar. De maneira que vais já a casa da I., aceitas a garrafa de vinho e pronto!

A partir daí, tive uma atitude menos rígida em relação aos presentes dos meus doentes. À Tove, não me passou sequer pela cabeça tentar recusar as meias, quando ela mas ofereceu. Fiquei muito contente e ela também e é assim que devem ser as ofertas.

A Tove tinha mais de noventa anos e vivia sozinha. Íamos lá a casa duas vezes por semana, para lhe esfregar as pernas com um creme, muito devagarinho, muito delicadamente, que as pernas, magríssimas e escamadas, doíam-lhe muito, muito!, e de quinze em quinze dias para lhe organizar os medicamentos em caixas diárias, manhã, almoço, jantar e noite. Estava sempre de boné de pala dentro de casa a fazer paciências de cartas na mesa da cozinha e tinha sempre as cortinas corridas. Contou-me que tinha nascido na Jutlândia e vindo aqui para a aldeia ainda rapariga, para trabalhar como criada de servir. E depois tinha conhecido um homem daqui e tinha-se casado e tinha passado a ser dona de casa — o que, se não lhe tinha alterado muito a vida diária, tinha aumentado muito o seu estatuto social. Quando o marido morreu, já há muitos anos, já os filhos eram adultos e se tinham mudado para Copenhaga, de maneira que ficou ali sozinha, naquela casa antiga de divisões pequenas, tetos baixos e telhado de colmo, e a vida dela era fazer paciências de cartas, comer alguma coisita de vez em quando e tricotar meias de lã, que vendia — e às vezes oferecia.

Vi-a pela última vez numa terça-feira de pesadelo. Tinha comigo uma colega nova, a quem estava a fazer uma introdução ao trabalho. Tinha, nessa manhã, uma visita extra à Tove. Uma colega minha tinha escrito, no dia anterior, que a Tove se tinha queixado de uma indisposição indefinida que depois lhe tinha passado e eu tinha de ir ver como ela estava. Num cruzamento perto da casa da Tove, vimos fumo a sair de uma casa. Era uma casa de um doente nosso e eu sabia que ele, paralisado, estava dentro de casa. Enquanto a minha colega ligava para os bombeiros, eu e mais uns vizinhos que tinham aparecido nessa altura corremos para socorrer o homem, mas era tarde demais: o interior da casa estava todo em chamas. Era impossível entrar e ele estava com toda a certeza já morto há algum tempo. Depois de um quarto de hora de horror, quando chegaram os bombeiros, seguimos então para casa da Tove. Podem imaginar o nosso estado de espírito.

Vamos encontrar a Tove no quarto, caída no chão, com um braço bastante esfacelado pela queda. Não responde quando a chamamos, mas reage ao contacto físico:

− Estou morta, não estou? Digam lá: morri, não morri?

Faço-lhe as perguntas habituais para avaliar a consciência. Sabe quem é, onde está, que dia é e sabe que que caiu. Também sabe quem eu sou. Só não sabe há quanto ali está caída no chão. Tentamos de várias maneiras levantá-la para a sentar, mas, de cada vez, começa a gritar muito. Queixa-se da coxa. Quando a apalpo, começa a gritar de novo. O que se faz numa situação destas é chamar o 112 e foi isso que eu fiz.

Soube depois que, afinal, não tinha nada partido. Nunca cheguei a saber o que é ela tinha, mas soube que nunca voltou a casa: morreu no hospital. 

Sou um bocadinho animista, acho eu: no meio dos milhares de objetos desalmados que se acumulam — que vamos acumulando — à nossa volta, há uns quantos que têm alma. São aqueles de que podemos contar histórias. Como as meias da Tove. As meias que ela me ofereceu, quero eu dizer — mas vocês tinham entendido… 


[Os nomes são fictícios, claro, mas a história é verdadeira, como indica, aliás, uma das etiquetas abaixo. Ilustração: Knud Holger Olsen: Quintal em Troense, óleo sobre tela, 1922, Wikimedia Commons, daqui.]


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