5 de outubro de 2007

Mozart e Schoenberg, regatos e trovões

Num texto publicado no New York Times já há muito tempo (bem vêem, isto não é um blogue de actualidades…), T. I. Ponick afirma que (traduzo e sublinho eu) “até certo ponto, o repertório clássico há quase um século que não é significativamente renovado. Está bem, há obras de autores do séc. XX, incluindo Stravinsky, Bartok, Prokofiev, Ives e Messiaen que estão cada vez mais presentes nas salas de concertos e no número cada vez menor de novos CDs de música clássica. E aos compositores modernos são constantemente encomendadas coisas novas. Ainda assim, o programa de concertos normal hoje em dia continua a tratar a diversidade musical como uma escolha entre Bach, Beethoven ou Brahms. / Pior ainda, quando é introduzida música nova, o público de concertos é desmotivado pela cacofonia de rosnidos que é herança da Segunda Escola de Viena. Estas ideologias musicais valorizavam as novas obras na directa proporção do sofrimento que infligiam ao público.” Noutro texto, Ponick afirma que “alguns dos problemas com a aceitação da produção deste século são comuns à opera e à música sinfónica. A intrusão do atonalismo académico e os seu som agreste, rangente, afugentaram o público acostumado a ter prazer nos espectáculos, não a ter de os suportar.”

É natural que ele tenha razão. É natural que a maior parte das pessoas que vão aos concertos se sinta violentada por muita música moderna. Bom, eles batem palmas no fim das obras, mas é verdade que Bach, Beethoven ou Brahms recebem sempre mais palmas do que qualquer obra moderna. A questão é: porquê? O que T. I. Ponick parece defender nos seus artigos é i) que existe uma beleza “natural” que alguns não respeitam; ii) que não há praticamente nas salas de concertos quem goste de música moderna; e iii) que os compositores modernos se empenham em ser chocantes, ou mesmo feios, como ele diz, pelo prazer de o ser. E aqui é que é necessário fazer uma chamada de atenção. Por um lado, se a música moderna – ou melhor, se alguma música moderna – é como é, complexa e estranha para o comum das pessoas, isso é antes de mais o produto de uma evolução natural da música ocidental. Os compositores gostam do que fazem e não o fazem para desagradar (evidentemente, seria agora necessário discutir a questão do prazer estético, mas fica para outra ocasião, sim?). Lembro-me de ler, num programa de concertos, por tal sinal, a explicação de um compositor finlandês moderno, Magnus Lindberg, acerca da pouca acessibilidade da sua música, explicação essa que me pareceu excelente, também pela sua simplicidade. Dizia ele que “é filho do seu tempo e, por isso, gosta, naturalmente, de coisas complicadas”. E não são só os compositores que são filhos do seu tempo: também no público há quem goste de coisas complicadas. Não será a maioria, nisso dou razão a T. I. Ponick, mas há ainda assim muita gente que vai a concertos principalmente para ouvir as peças modernas e as aprecia.

O que me interessa aqui, porém, não é tanto o conservadorismo musical de muita gente, mas mais a questão do “naturalmente bonito” e do “naturalmente feio”. Parece-me provável que haja, no Homo sapiens como noutros animais, uma repulsa natural, inata, por certos sons e uma atracção também congénita por outros. É natural que, por muito que tenha sido mais ou menos exposto a trovoadas ou a nascentes de água, qualquer ser humano, de qualquer cultura e qualquer idade, sinta apreensão quando ouve um trovão e prazer quando ouve água a correr. Até aqui muito bem. Mas isto não tem nada a ver com música – ou tão pouco que é irrelevante nesta discussão. Dodecafonismo, atonalismo ou serialismo não são pecados contra a natureza, são criações humanas exactamente como os esquemas clássicos de composição. Assim sendo, parece haver bons indícios de que o que faz com que eles nos sejam mais ou menos agradáveis é a nossa maior ou menor exposição a eles. E, nisso, o gosto em matéria de música não é diferente de todos os outros gostos, quer se trate de comida, soalhos de casa ou seres humanos do sexo que nos atrai. Para puxar à minha sardinha a brasa da autoridade, cito, por exemplo, Richard Nisbett (traduzo eu):
Nos anos oitenta 1980s, os psicólogos sociais começaram a mostrar às pessoas estímulos como palavras turcas e ideogramas chineses e a perguntar-lhes se gostavam muito ou pouco deles. Mostravam um determinado estímulo entre uma e vinte e cinco vezes. Quanto mais os sujeitos viam o estímulo, mais gostavam dele. É escusado dizer que os sujeitos destas experiências não acharam plausível que o mero número de vezes que tinham visto um estímulo pudesse ter afectado o seu gosto. (Estão provavelmente a perguntar a vocês próprios se ratos brancos são sensíveis ao mero efeito da familiaridade. O estudo foi feito. Ratos que cresceram a ouvir música de Mozart preferem ir para o lado da jaula que acciona um mecanismo que lhes permite ouvir Mozart em vez de Schoenberg. Ratos que cresceram com Schoenberg preferem estar do lado onde se ouve Schoenberg […].*)
A conclusão é que, como há mais exposição a Mozart e Beethoven do que a Schoenberg e Berio, a maior parte das pessoas prefere Mozart e Beethoven a Schoenberg e Berio. Se fosse ao contrário, seria provavelmente… ao contrário.
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* Nisbett refere-se aqui, vim eu a descobrir, a Robert Zajonc (1980). “Feeling and thinking: preferences need no inferences.” In American Psychologist. Vol. 35: p. 151-175, que nunca li.

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