21 de fevereiro de 2020

Uma garrafa de whisky num bar em Camargo

As pessoas acreditam no que lhes dá jeito. E a crença de que há muito mais mulheres que homens no mundo dá jeito a muitos homens para justificar o direito que creem ter a mais que uma mulher. Quando se fala de poligamia, fala-se normalmente de poliginia (um homem com mais que uma esposa) e de sociedades ou grupos sociais em que esta tem força de lei, escrita ou consuetudinária; mas há muitas outras sociedades em que a poliginia, embora não reconhecida na lei, é aceite e faz efetivamente parte das instituições sociais. Em Portugal, por exemplo, era normal até há relativamente pouco tempo que homens «com posses» para isso tivessem, além da esposa oficial, uma mulher (ou mais…) «por conta», a quem «punham casa».

Na realidade, nascem no mundo mais homens que mulheres e, embora as mulheres vivam mais tempo que os homens, há mais homens que mulheres no mundo. (Para mais detalhes sobre a questão do rácio de género à nascença e as questões com ele relacionadas, veja-se, por exemplo, este artigo de Hannah Ritchie e Max Roser, no Our World in Data, da Universidade de Oxford). Mas a diferença é mínima: se dissermos que há, em quase todo o lado, praticamente o mesmo número de homens e mulheres, nunca andamos muito longe da verdade.

J. Waterloos: Homens a cantar (Zingende mannen), 1680–1684.
Rijksmuseum, Amesterdão (daqui)
E foi isso que eu disse uma vez, num bar, na vila de Camargo, na Bolívia, onde eu vivia na altura. Podia lá ser!, insurgiram-se os meus companheiros de chuflay*. Então se eles sempre tinham ouvido dizer que havia sete mulheres para cada homem. Imaginei como seria um sítio com sete mulheres para cada homem. Então, mas eles, olhando apenas à sua volta na rua, não viam que não era assim, que não podia ser assim? Mas as pessoas acreditam no que lhes dá jeito. A estranha crença justificava-lhes o direito à infidelidade conjugal – e a lógica do dever de fidelidade das suas mulheres, provavelmente…

Um dos meus companheiros, mais disposto a repensar mitos que os outros, aceitou que, de facto, isso de sete mulheres para cada homem não podia ser; mas que havia muito mais mulheres que homens, pelo menos o dobro, disso ele não tinha dúvida nenhuma. Já não me lembro de quem propôs a aposta, mas o facto é que apostámos uma garrafa de whisky.

A questão era como provar que tinha razão. Isto foi em 2000. O acesso à Internet era por modem e era limitada a informação disponível em linha. Tive muita sorte. Tinha acabado de sair um documento oficial boliviano (um livro grande, em bom papel e com boa qualidade gráfica, por tal sinal, cheio de ilustrações) com dados demográficos atualizados. Encontrei o livro no escritório do programa de desenvolvimento agrícola onde trabalhava a minha mulher e pedi-o emprestado um dia. Os meus conhecidos do bar não podiam refutar a fonte. Tiveram de reconhecer que na Bolívia há mais ou menos tantos homens como mulheres, só com uns quantos homens a mais, coisa muito pouca. Como no resto do mundo... E eu achei por bem dividir com eles a garrafa de uísque que acabava de ganhar, para os tentar consolar das mulheres que cada um acabava de perder.

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* Chuflay é uma bebida boliviana: gasosa com singani, aguardente de uva moscatel.

19 de fevereiro de 2020

Personalidade e circunstâncias

Tomamos às vezes conta de uma cadela de uma senhora nossa amiga, que às vezes toma conta da nossa cadela (a senhora, não a cadela, bem entendido). As duas cadelas são da mesma idade e conhecem-se desde pequenas. Acho que são aquilo a que as adolescentes chamam agora BFF, best friends forever.

Para facilitar a narrativa, chamemos à nossa cadela Sally e à sua amiga Nelly. A Sally tem, além desta grande amiga, mais duas grandes amigas de infância aqui na vizinhança, a que chamaremos, também para facilitar a narrativa, Molly e Lilly.

Molly e Lilly são duas pazes de alma – nunca as ouvi a ladrar nem a bichos nem a humanos. A Sally e a Nally são menos pacatas: Sally zanga-se muitas vezes com outros cães e ladra muito a pessoas que passam ou que entram no quintal; Nelly não costuma ladrar a humanos, mas é muito agressiva com outros animais, incluindo os da sua espécie. Às vezes passa-se, como se costume dizer. É cadela de caça, enfim. Da última vez que tomámos conta dela, saltou para o quintal vizinho e matou uma galinha que lá andava a passear.

Podemos dizer que os cães têm personalidades diferentes, como as pessoas e outros bichos. Que resultam, claro, da sua natureza e da maneira como são educados. Mas vejam: quando está com a Nelly, a Sally mostra-se também agressiva com outros cães, mesmo com as suas melhores amigas, Molly e Lilly. Uma pessoa fica sem saber o que pensar… Ou antes, uma pessoa é obrigada a pensar que essa coisa de personalidade tem muito que se lhe diga… Bom, neste texto falo de personalidade em sentido lato, no sentido de «conjunto de ações espontâneas e reações de um indivíduo, incluindo gostos nas reações». Se não vos agradar este conceito alargado de personalidade, leiam, no que se segue, apenas «ações e reações» onde escrevo personalidade.

Este texto é uma continuação de uma conversa iniciada aqui em fins de agosto de 2013, com o texto «Impessoal e transmissível». «Impessoal e transmissível» é como eu qualificava a personalidade de cada um, que, ao contrário do que se costuma pensar, muda conforma as circunstâncias – e sobretudo segundo o contexto social em que nos encontremos. Dizia eu no meu texto de 2013 que, embora não me custe aceitar que traços de personalidade ou capacidades—como gentileza, agressividade, criatividade, inovação, etc.—possam, em absoluto, variar de pessoa para pessoa, «nem o riso nem a crueldade estão apenas dentro das pessoas». Estão também nas suas circunstâncias e no seu papel social.

Porque escrevi eu riso e crueldade? Bom, quando escrevi crueldade, estava provavelmente a pensar em experiências célebres, como a de Phillip Zimbardo, em que estudantes a quem foi dado o papel de guardas maltrataram estudantes a quem foi dado o papel de prisioneiros, a de Stanley Milgram, em que os participantes davam choques elétricos a outros participantes, para obedecer ordens de alguém a quem reconheciam algum tipo de autoridade e outras semelhantes. Não sabia na altura que os estudos de Zimbardo e Milgram sofrem de graves problemas metodológicos, se é que não se podem mesmo considerar fraudulentos (já para não falar dos seus aspetos éticos), mas não são precisos estes resultados espetaculares para se reconhecer que, em maior ou menor grau, a posição de uma pessoa na hierarquia das relações de poder, se não determina, influencia grandemente a maneira como trata os outros.

Quanto ao riso, não sei se já teria lido, na altura, um estudo de 2007, What’s So Funny About Not Having Money? The Effects of Power on Laughter, em que se testava «a hipótese de que ocupar uma posição de pouco poder aumenta a probabilidade de riso, presumivelmente como meio de ganhar amigos e adeptos». Pelo menos, as suas conclusões gerais não me eram estranhas. Mas acabo de o ler agora e é essa leitura (ou releitura, não sei) que, juntamente com a observação do comportamento da minha cadela, que motiva diretamente este texto.

Toda a gente sabe que a graça que se acha a uma anedota não depende só da própria anedota, mas também de quem a conta. Algumas pessoas, porém, poderão não ter consciência de que isso depende também das relações de poder entre quem conta e quem ouve a anedota.

Para o estudo em questão, Tyler Stillman, R. Baumeister e C. De Wall fizeram duas experiências, uma com 36 estudantes e outra com 96 estudantes (todas do sexo feminino, não sei porquê) e duas colaboradoras, uma que fazia de entrevistadora e outra que fazia de investigadora.

Na primeira experiência, as estudantes eram entrevistadas por uma investigadora que, no decurso das entrevistas, dizia quatro piadas sem graça nenhuma, sempre em tom monótono. Nalguns casos, era dito à entrevistada que ela poderia ser selecionada pela entrevistadora para um prémio em dinheiro, o que colocava a entrevistada numa situação de «dependência» da entrevistadora. Noutros casos, não havia prémio. O resultado é que as entrevistadas que acreditavam depender da apreciação da entrevistadora para receber o prémio (que eram, pois, assim colocadas numa posição inferior na escala de poder) riam mais das anedotas sem graça que as outras.

Mas nem é preciso haver interação direta entre as pessoas com uma relação assimétrica de poder. Na segunda experiência, numa entrevista gravada num vídeo, uma mulher respondia a um questionário sobre informações e competências pessoais, que incluía, a certa altura, a pergunta «Qual é a sua anedota preferida?» E ela contava a famosa anedota do muffin (que era também, aliás, umas das piadas da entrevistadora na primeira experiência). Não sei se conhecem a anedota do muffin, mas é considerada—com ou sem razão, vocês decidirão —uma das anedotas mais parvas que dar se pode:
Estavam dois muffins num forno, quando um deles se vira para o outro e diz:
– Está aqui muito calor, não está?
O outro vira-se e grita assustado:
– Ai, o que é isto? Um muffin que fala!!!
Agora, à estudante que assistia a este vídeo, eram dadas diferentes informações sobre a mulher filmada—às vezes, dizia-se-lhe que, numa fase posterior do trabalho, a mulher filmada seria sua chefe e decidiria quanto ia receber pela participação no estudo; outras vezes, dizia-se-lhe que a mulher filmada seria sua colega ou uma sua subordinada. Nestas duas últimas situações, a estudante testada ria-se pouco ou nada da anedota contada pela mulher no vídeo; mas quando esta mulher era apresentada como sua futura superiora, ria-se muito mais. Ora, não havia aqui qualquer contacto presencial, pelo que não podia ser para impressionar favoravelmente a sua «futura chefe» que o fazia. 

Num artigo no New York Times, Tyler Stillman explica o fenómeno da seguinte forma (traduzo eu):
O riso parece ser uma reação automática à situação em que uma pessoa se encontra, e não uma estratégia consciente (…). Quando conto a anedota do muffin às minhas turmas na universidade, os alunos riem-se muito.» Mas o mesmo não se passou numa pequena conferência para outros investigadores nesta área. «Quando me ouviram, um simples estudante de mestrado, contar a anedota do muffin, fez-se um silêncio muito desconfortável. Até se ouviam as moscas.
«Nem era preciso fazer a experiência», pensarão vocês, «toda a gente sabe que é assim que as coisas se passam». É bem capaz, mas é preciso fazer as experiências e com metodologia e dados mais fiáveis que os de muitas experiências anteriores.

Agora, a questão que se coloca em relação à reação às anedotas é a mesma que se pode colocar a todas as outras manifestações de personalidade. Se considerarmos que há um núcleo essencial de personalidade que determina a reação a uma situação, como saber que núcleo é esse, quando, na prática, ele varia constantemente consoante a situação? Mais: que sentido faz postular a existência desse núcleo, se nenhuma observação no-lo revela? O mais provável é que, assustados pela ideia de sermos, em grande medida, um produto apenas das nossas circunstâncias, optemos por considerar a «base» da nossa personalidade a nossa maneira de sentir ou agir que resulta da situação em que «somos» mais de acordo com uma imagem ideal de nós mesmos.

***
No meu outro texto, terminava com um apêndice moral: independentemente de acreditarmos que a personalidade é ou não estável, ou mais ou menos estável, é de louvar a sua estabilidade? Quer dizer, é de louvar o tentar esforçar-se por manter os mesmo traços de caráter, gostos, etc., de uma situação para a outra e ao longo do tempo? A minha conclusão era—e mantém-se—que a estabilidade da personalidade não pode ser considerada por si só moralmente defensável, nem uma virtude, já que são as ações que contam e não o facto de se manterem inalteráveis em diferentes contextos; e que esta estabilidade pode significar teimosia ou resistência à mudança.

Desta vez, quero propor, para terminar e afastando-me também um pouco do rumo inicial do texto, uma reflexão. Por mais que se reúna evidência sobre a inexistência de um núcleo estável de personalidade (ou, pelo menos, sobre a extrema dificuldade ou impossibilidade de o determinar), a maior parte das pessoas parece não aceitar esta ideia com facilidade. Trata-se, creio, do mesmo mecanismo mental que faz com que recusamos aceitar que somos o nosso corpo, cérebro incluído, e postulamos instintivamente um estranho eu exterior a esse corpo: «tem um controlo perfeito do seu corpo», «o nosso cérebro muitas vezes engana-nos», etc. Há, pelos vistos, qualquer coisa de muito fundo em nós, qualquer coisa de muito primordial, que nos faz acreditar numa instância pura de nós próprios, independente de mecanismos físicos e sociais. Afinal de contas, nem só as pessoas religiosas acreditam numa alma, chamem-lhes lá o que lhe chamarem—uma coisa em que, quando se escrutina a ideia com rigor, não faz nenhum sentido acreditar... Porque será?
***
Ainda mais afastada do tema geral do texto, uma nota lateral que é também outra proposta de reflexão:
Bill Stevenson: Prison guards gather inmates into a corner
at Kingston Penitentiary after a two-hour riot
on Aug
. 16, 1954 (Creative Commons, daqui)
Uma das várias coisas que se criticam no estudo de Zimbardo é os investigadores terem condicionado os «guardas», de forma mais ou menos expressa ou mais ou menos subentendida,  para uma determinada atitude relativamente aos «prisioneiros».

Mas não existirá o mesmo tipo de condicionamento nos verdadeiros guardas prisionais que guardam prisioneiros verdadeiros?, pergunta Maria Konnikova num interessante artigo do New Yorker:
[A] experiência na prisão de Stanford sugere que instituições extremas provocam um comportamento extremo. As prisões não são folhas de papel em branco. Os guardas escolhem de facto o seu emprego, tal como os alunos de Zimbardo escolheram participar num estudo da vida na prisão. Como os homens de Zimbardo, os guardas são bombardeados com expectativas desde o início e moldados por normas e padrões de comportamento preexistentes. A lição de Stanford não é que qualquer ser humano pode cair no sadismo e na tirania. É que certas instituições e ambientes exigem esses comportamentos—e talvez os possam alterar.»



17 de fevereiro de 2020

Nomes velhos para coisas novas: milho e feijão

Já aqui falei uma vez de coelhos e do nome Hispania. Uma das propostas etimológicas para Hispania é que os fenícios, ao encontrarem aí um bicho novo, os coelhos, lhe deram o nome do bicho mais parecido que conheciam, os damões, e chamaram então à Ibéria i-shapan, «ilha de damões». Ora, independentemente de ser ou não esta a verdadeira origem de Hispania, o processo que ela implica é comum e compreensível: inventar um nome novo para um animal ou uma planta que se descobre é mais trabalhoso que reciclar um nome já existente.
Por exemplo: o milho (Zea mays), que é um cereal americano, recebeu em português o nome de um outro tipo de cereais da família Poaceae, hoje conhecidos como milho miúdo ou painço, originários de várias partes do mundo e que os portugueses conheciam há muito. Em francês, mantém-se no Canadá a designação de blé d’Inde, «trigo da Índia» (entendendo-se aqui Índia como Américas, «as Índias Ocidentais»).

Também é curioso pensar que o facto de se usar um nome de um animal ou planta que se conhece para outro animal ou planta «semelhante» que se descobre pode afetar a designação original, se o novo animal ou planta se tornar mais popular que o original. O milho antigo passou a designar-se como miúdo ou painço, quando se divulgou o novo milho, que lhe usurpou o nome[1]. O mesmo se passou com o peru, animal também americano, a que os espanhóis deram o nome do pavão, pavo, por com este se parecer, e que passou a ser ele o pavo propriamente dito, tendo-se acrescentado ao desgraçado do pavo original o termo real para o distinguir do usurpador onomástico americano.


Outro bom exemplo deste fenómeno é o feijão. O chamado feijão comum, esse com que se fazem feijoadas, dobradas e sopas de feijão, é o Phaseolus vulgaris, uma espécie de um género que inclui também a feijoca, Phaseolus lunatus. Todos os tipos de feijão – branco, encarnado, catarino, preto, manteiga, etc. – são variedades diferentes da mesma espécie e os diversos tipos de feijão verde são também o mesmo legume: as suas vagens antes de se desenvolverem as sementes[2]. O feijão comum é originário da América Central e do Sul, pelo que só começou a ser consumido na Europa no séc. XVI. Já aqui vos falei de feijão e disse que alguns dos nomes que se lhe dão hoje se usavam antes de os europeus o conhecerem, mas para designar outras leguminosas. De facto, ao passar em revista os nomes do feijão na nossa língua e nalgumas línguas mais próximas da nossa, chegamos à conclusão que, dos muitos nomes que o feijão tem, apenas poucos são importados das línguas dos povos que originalmente o cultivavam. Senão vejamos:

Feijão, em português (e feijoca, claro), fagiolo, em italiano, flageolet e fayot, em francês, e frijol, fríjol, frejol e fréjol[3], em castelhano, vêm todos do latim faseŏlus ou phaseŏlus, que dá o nome botânico ao género, como já referido, e que vem, por sua vez, do grego φάσηλος (phásēlos), que designa o feijão-frade (Vigna ungiculata, um legume sem relação com o Phaseolus). Também o termo alubia, outro nome do feijão em Espanha, vem de uma palavra persa, لوبیا‎ (lubeyā)[4], que designa o feijão-frade.

Faba, termo galego e asturiano, vem obviamente do termo latino faba, que designa a fava[5] (Vicia faba, outro legume sem relação com o Phaseolus). Habichuela[6] é, claro, um diminutivo de fava, tenha ele sido formado já da haba castelhana, ou venha de formas anteriores, como uma hipotética fabichuela moçárabe ou uma fabicella latina.

O inglês bean e os seus parentes germânicos, como o neerlandês boon, alemão Bohne e o dinamarquês bønne, estão também etimologicamente relacionados com o latim faba, «fava», o grego phakos, «lentilha», e o albanês bathë, «fava», e vários outros termos indo-europeus que designam leguminosas euroasiáticas.

Quanto ao termo judía, que se usa em Espanha, vem provavelmente do etnónimo judío, mas como e porquê não se sabe… Também ninguém parece saber a origem de caraota, o nome venezuelano do feijão, nem ter a certeza sobre a origem do francês haricot. Quer dizer, conhece-se a história de haricot no sentido de «guisado»[7], e pensa-se que se deu o nome da preparação culinária ao feijão, por este ser assim preparado, mas há outras propostas[8].

De maneira que são uma minoria os nomes do feijão nas línguas europeias que foram importados das línguas faladas pelos povos que o domesticaram e cultivavam: poroto (Argentina, Bolívia, Chile, Equador, Paraguai Perú, Uruguai), que vem do quéchua purutu; ejote, que se usa para o feijão verde (América Central e México) e que vem do nauatle exōtl, «feijoca»; e chaucha (Argentina, Paraguai, Uruguai), que parece vir de um termo quéchua que significa «verde, por amadurecer»[9]. Pois, porque, como eu dizia, é mais fácil dar-se a uma coisa nova um nome de uma coisa que já se conhece…




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Notas

[1] Evidentemente, isto não se passa de repente, longe disso. Durante muito, usaram-se expressões várias para distinguir o novo milho do milho antigo, até que o milho americano passou a ser simplesmente milho, sem mais. Lê-se na entrada Milhom (p. 134) do Elucidario das palavras, termos, e frases, que em Portugal antiguamente se usárão, e que hoje regularmente se ignorão: obra indispensavel para entender sem erro os documentos mais raros, e preciosos, que entre nós se conservão, de Frei Joaquim de Santa Rosa de Viterbo (Lisboa: Officina de Simão Thaddeo Ferreira, 1798)
Em hum Testam. De S. Simão da Junqueira de 1289 se diz: It : a Stevão Joannes de Pera fita, ou a seos heréés, hum quarteiro de milhom. Daqui se poderia inferir, que já então havia em Portugal milho Maíz, ou grosso, a que hoje chamão naquella terra Milhão. Mas a verdade he, que os Antigos punhão muitas vezes m sobre o o ultimo de algumas palavras sem necessidade alguma : v. g. juriom por jurio, &c. E da mesma sorte se disse ali Milhom por Milho, pelo qual se entendeo sempre o milho branco, ou miudo , até que no Sec. XVII. hum certo Paulo de Braga o trouxe á sua terra, vindo da India. Ao principio, dizem, se prohibio o semeallo, e só alguns cultivárão poucos pés nas suas hortas, e jardins. Hoje hé o mais frequente pão naquella Provincia, e lhe chamão Milho Zaburro, Milho grande, Milho graúdo, Milho Maíz, Milhão, ou Milho grosso, e Milho de Maçaroca.
Na entrada Maçaroca (p. 47 do Suplemento ao Eluciário), lê-se o seguinte:
Milho de maçaroca, milho grósso. V. Milhom. No tempo d'El Rei D. João II., e no descubrimento de Guiné, dizem alguns descubrírão os Portuguezes o Milho grosso de maçaroca, donde o trouxerão a Portugal; e que se principiou a cultivar nos campos de Coimbra.
Joaquim de Viterbo não sabia, pois, da origem americana do milho.

[2] Apesar de ser a mesma planta, o feijão verde tem, por vezes, designações diferentes do feijão maduro. Às vezes, acrescenta-se apenas verde ao nome do feijão, como se faz em feijão verde, haricots verts, judías verdes ou porotos verdes; às vezes, designam-se como o que de facto são, vagens (norte de Portugal), vainitas (Peru); mas às vezes têm a sua palavra própria, como ejote, habichuela ou chaucha.

[3] Frijol e as suas variantes usam-se principalmente no México, na América Central e no Peru. A estranha forma com -r- e terminada em -ol resultaria da contaminação do termo diretamente derivado do faseolus latino pelo moçárabe brísol ou gríjol, «ervilha». O termo francês flageolet tem origem na palavra italiana e fayot chega ao francês pelo provençal faiol ou fayol.

[4] A palavra chega ao castelhano pelo árabe andaluz اللُوبِيَا‎ (allúbya), variação do árabe لُوبِيَاء ‎ (lūbiyā).

[5] A palavra latina vem do proto-itálico *fafā, do protoindo-europeu *bʰabʰ-, que, além da palavra latina, dá muitas palavras germânicas e eslavas.

No francês canadiano ainda se usa, como em francês antigo, a palavra fève para designar o feijão comum – palavra que, nas outras variantes do francês moderno, designa apenas a fava.

[6] O termo é usado em Castilla La Mancha, Múrcia, República Dominicana e Porto Rico para designar o feijão comum maduro e na Andaluzia, Canárias, Cuba, Colômbia, Panamá e Venezuela para designar o feijão verde.

[7] O nome haricot é formado a partir de um verbo antigo, harigoter, «desfazer, partir ou cortar aos bocados», que viria do frâncico *hariōn e está relacionado com vários termos germânicos com a ideia de «desfazer, destruir, dar cabo de».

[8] Segundo o dicionário do Centre Nationale de Ressources Textuelles et Lexicales (um excelente dicionário para quem trabalhe com francês) o mais provável é o nome do legume vir do termo que significa guisado. Considera-se improvável a hipótese da etimologia mexicana (ayacotli) e recusa-se outra proposta, a de ter origem no topónimo Calicut.

[9] Sobre a etimologia de Chaucha, diz Valentín Anders no seu site algo que parece razoável (e bastante curioso), para explicar os diversos significados da palavra na América latina (traduzo eu):
É provável que o sentido de chaucha na América do Sul se tenha indo alterando semanticamente à medida que se deslocava para norte, mais ou menos da seguinte forma:
No DRAE, diz-se que vem de um termo quéchua que significa «verde, não amadurecido» e daí que, na Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia, signifique «feijão verde» (por amadurecer) e no Chile, «batatas pequenas que não valem a pena comer e são deixadas para semente» (também por amadurecer). Daí, passa ser «algo de pouco valor» no Chile e no Uruguai, «pouco dinheiro» no Chile e, na Argentina, «moedas pequenas, trocos». Mais um passo e já temos o significado do Equador, «um trabalho de pouca importância, um biscate», para completar o salário. E daí que, nas Antilhas, se tenha tornado sinónimo de sustento diário, a comida de cada dia (…).
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Ilustrações: em cima, uma maçaroca de milho. Bernardino de Sahagun, 1577 (Wikimedia Commons, daqui); em baixo: Phaseolus vulgaris no Libri picturati de Carolus Clusius et al., ca. 1600 (Wikimedia Commons, daqui)

1 de fevereiro de 2020

Não sei se vos acontece o mesmo


Não sei se vos acontece o mesmo. A mim, acontece-me todos os dias. Todos os dias penso: «Hoje vou ser uma boa pessoa.» No sentido, estão a ver?, de não fazer nada que ache mal, nada que me possa, muito ou pouco, pesar na consciência. E depois nunca sou essa boa pessoa que decidi ser.