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23/11/23

O mundo a acelerar


Em defesa dos conservadores, pode argumentar-se que, se acelerar sempre à velocidade proposta pelos inovadores, o mundo se torna um lugar pouco estável, onde tudo corra o risco de ser projetado para fora pela força da aceleração. Agora, não sei se é sempre a estabilidade do mundo que preocupa os conservadores ou se os preocupa antes a sua própria estabilidade, por acreditarem (com ou sem razão, vocês me dirão…) que são quem mais corre o risco de se ver projetado para fora do mundo quando acelera a mudança.


25/12/12

Socas, integração cultural e o ideal conservador [Crónicas de Svendborg #13]

Ao contrário do que muita gente pensa, a integração noutra cultura começa de cima para baixo, da cabeça para os pés: as primeiras coisas que se adotam são palavras, conceitos, ideias; e as últimas são os sapatos. Quantas vezes não vi (por exemplo!) gente do Sul da Europa que, nos países do Norte, ao fim de lá viver dezenas de anos, ainda continua a usar daqueles corriqueiros mocassins a que o filho de uma amiga minha, nado e criado em Roterdão, chamava “sapatos à turco”, quando vinha nas férias a Portugal. Não são mocassins desses que uso, não é isso, mas onde quero chegar é que agora que tenho, finalmente, as minhas socas, posso considerar-me integrado na cultura dinamarquesa.
 
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[Nota 1: É mentira I] Não é verdade, já tive outras socas antes destas. Mas era uma maneira de compor o texto, se é que me faço entender, apresentar as coisas destas maneira…
[Nota 2: É mentira II] As socas não são um tipo de calçado especialmente dinamarquês. Como os barretes, as gaitas de foles e os torresmos, as socas são comuns a toda a Europa – e talvez também a outras partes do mundo… Agora, dos países que conheço, a Dinamarca é aquele em que se usam mais no dia-a-dia. Ainda hoje, por exemplo, quando entrámos na taberna local, aí por esse meio-dia, dos 5 homens sentados ao balcão em frente à sua cerveja de Natal, 4 usavam socas.
[Nota 3: A utopia conservadora] Deixem-me contar-lhes, a propósito, que, quando íamos pagar, o dono do estabelecimento explicou que não tínhamos de pagar nada, que o café e a cerveja eram por conta da casa, porque hoje era dia de Natal. É simpático, não é verdade? É simpático como o cordial “Feliz Natal!” que toda a gente diz a toda a gente que cruza na rua, aqui na aldeia. É este tipo de gestos e práticas que o imaginário e a ideologia dos conservadores elevam a ideal – o encanto da vida comunitária “de outrora”, que consideram ameaçado ou destruído pelo progresso e que propõem que se conserve ou se refaça. Mas esquecem sistematicamente o lado disfórico da medalha, que é incomparavelmente maior e tem mais de sombrio que de radioso têm as tradições idealizáveis: o outrora era (o outrora ainda é, tantas vezes…) miséria, trabalho, trabalho, trabalho, ignorância e superstição, desconforto e doença, maus tratos, violência, violências, e infindáveis etecéteras…

09/08/11

Algumas notas sobre conservadorismo

George Orwell escreveu uma vez sobre Rudyard Kipling: «Embora não estivesse diretamente ligado a nenhum partido político, Kipling era um Conservador, uma coisa que não existe hoje em dia». O texto que cito é de fevereiro de 1942, e é isto que acho interessante: Segundo Orwell, já não havia conservadores naquela altura.

É bem possível que já não houvesse muitos, como hoje, muito provavelmente (isto são tudo impressões apenas, de Orwell e minhas…), também não há muitos. Pelo menos, nos programas políticos e no discurso político. Conservador é alguém que quer conservar as coisas como elas estão e, mesmo nos partidos que se dizem conservadores, estou convencido que não há muita gente assim. Encontro com muito mais frequência conservadorismo na conversa de autocarro ou de café do que no discurso político, que propõe quase sempre alterações – nem que seja, como diz o conhecido aforismo, para no fundo tudo continuar exatamente na mesma…
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Muitas vezes me lembro da frase célebre de Paul Valéry Le monde ne vaut que par les extrêmes et ne dure que par les moyens Il ne vaut que par les ultras et ne dure que par les modérés[1], “O mundo só vale pelos extremos e só dura pelos médios. Só vale pelos radicais e só dura pelos moderados”. E muitas vezes a reinterpreto substituindo moderados por conservadores, dando a estes últimos um papel afinal importante na História do mundo: ser um dos pólos da sua tensão, resistir às mudanças. Acho até que, de alguma forma, toda a gente acaba por ser conservadora nalguma coisa, de se acomodar no conforto do que já é, do que não precisa de ser inventado e construído. Mas, no geral, surpreende-me a posição conservadora: ser conservador só faz sentido num mundo que se considera suficientemente bom para não se o querer alterar – e não é nada assim que eu considero o mundo em que vivo.
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Se se associa normalmente conservadorismo à direita, a verdade é que o conservadorismo não tem de ser, nem é de facto, exclusivamente de direita. Não só há gente de esquerda conservadora, como há até módulos conservadores em certas ideias de esquerda, nomeadamente no que toca ao respeito de tradições e identidades, e também à preservação da natureza [2]. Pierre-André Taguieff, por exemplo, propõe um conservadorismo de esquerda: «Perante o imperativo único de “andar para a frente” (reforma perpétua e revolução interminável”, a resistência tem de apoiar‑se num projeto de conservação ou de preservação», diz ele em Résister au bougisme[3]. «Se o termo “conservadorismo” não se tivesse tornado difícil de usar devido à acumulação de maus usos que dele foram feitos (…), poderia desempenhar o papel de indicador, e até mesmo de bandeira, da nova postura “resistencial”. Porque, na conjuntura atual, é apenas com base em exigências conservadoras que pode redefinir‑se a resistência à desumanização técnico‑mercantil do mundo.» E cita, a propósito, o «filósofo e militante antinuclear» Günther Anders («Sou um “conservador” em questões de ontologia, porque o que me importa hoje, pela primeira vez, é conservar o mundo tal como ele é.»), o filósofo Jean-Claude Michéa (“um certo grau de conservadorismo crítico constitui agora um dos alicerces indispensáveis de toda a crítica radical da modernidade capitalista”. ) e o «liberal lúcido» Pascal Bruckner (“O conservadorismo inteligente deveria tornar‑se um valor de esquerda: a vontade de salvaguardar o mundo, de preservar para as gerações futuras as possibilidades de uma vida humana”).
Ora, se, por um lado, não considero o estado do mundo suficientemente perfeito para o querer conservar, tenho, por outro lado, uma visão da evolução do mundo muito mais otimista do que estes senhores e do que a maior parte dos conservadores; e, não receio, ao contrário de Camus, que “o mundo se desfaça[4]”. É certo que as mudanças não são desejáveis só por si e que nem todas as mudanças são positivas, mas acho que, no geral, tudo tem mudado mais para melhor do que para pior e o mundo é hoje, com as suas muitas injustiças, mais justo do que em qualquer outro período da História humana; e a vida das pessoas, com os muitos sofrimentos que persistem, alguns desnecessariamente, é mais longa, mais saudável e mais fácil do que alguma vez foi para a maioria dos seres humanos.
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Parece-me que uma das razões do sucesso da extrema-direita atual vem de ela ter incorporado a ideologia conservadora das conversas de autocarro e de café que o resto da direita já não ostenta no discurso político. De facto, os neofascismos de hoje assumem-se como conservadores, coisa que os fascismos originais, digamos assim, o nacional-socialismo e o fascismo italiano, em princípio não eram[5].
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[1] Tel quel I, 1941, p. 192.
[2] Relativamente a isto de conservar, podem dar-se casos curiosos, como aquele que foi motivação direta deste texto: O Partido Popular Dinamarquês, de extrema-direita, apoiou a resistência dos ecologistas à instalação de moinhos de vento em Østerild Klitplantage, em Thy. Mas, claro, pode discutir-se até que ponto é que o Partido Popular Dinamarquês, que é, em muitos aspetos, extremamente conservador, neste caso não o é apenas por estratégia política…
[3] Esta citação e as citações de Günther Anders, Jean-Claude Michéa e Pascal Bruckner por Taguieff, que aparecem a seguir, são de Resistir ao Para-a-frentismo, Lisboa: Campo da Comunicação, 2002, p. 132.
[5] Foram-no muito outros fascismos, é certo, como o fascismo espanhol e o fascismo português; mas talvez um pouco menos do que pode parecer à primeira vista, porque uma parte do que se propunham “conservar” tinha sido, afinal, inventado por eles… 

25/10/08

Seja bem-vindo o que vier por bem

Fala-se muitas vezes de “puristas da língua”, mas purista é um conceito que, aplicado às línguas, não faz grande sentido, simplesmente porque não há estados puros nem variantes puras de uma língua.

O estado presente de uma língua nunca é senão uma ponte entre o que ela era e o que ela há-de ser. Pode até acontecer que uma língua se afaste do que era o suficiente para começar a ser considerada, a determinada altura, uma outra língua; mas não se pode, excepto no caso das línguas inventadas, datar o nascimento de uma língua. Em última análise, se existem línguas neolatinas, por exemplo, é apenas porque o latim se foi transformando de maneiras diversas em diversas zonas, à margem da norma latina, naturalmente. O que significa apenas que, se toda a gente tivesse apenas continuado a falar “bem” latim... não havia português.

Não sei se importa aos puristas que as palavras puras das línguas neolatinas venham muitas vezes de palavras latinas que os puristas do latim da época não teriam dúvidas em considerar espúrias. E o mesmo a gramática. O que deve ter chocado os puristas do latim terem-se perdido as marcas de caso dos nomes, terem entrado os auxiliares nas formas verbais, tudo isso... «Estão a dar cabo da nossa língua!», devem eles ter gritado (exactamente como o fazem agora os puristas, de cada vez que se espalha no idioma uma palavra inglesa ou que se começa a generalizar uma estrutura que eles considerem errada…)! Mas enganaram‑se. O latim estava apenas a transformar-se e a transformar‑se em novos idiomas que são, apesar de tudo, suficientemente puros para que haja puristas a defendê‑los!...

É tudo uma questão de memória. Hoje, ninguém ou praticamente ninguém se revolta contra o uso, em português, de palavras como constatar, que foi já criticado por detestável galicismo. Ou como, sei lá, lanche, por exemplo, que encontramos nas obras de Eça de Queirós ainda escrito lunch, como aliás lunchar (aliás, pelo número de palavras estrangeiras que usa, ficamos a saber que Eça de Queirós não era nenhum purista)… E centenas de outras palavras e estruturas. Vejam o caso do infinitivo pessoal. É verdade que a discussão sobre a origem do infinitivo flexionado está longe de ter terminado, mas, venha ele de onde vier, é sempre um qualquer tipo de inconcebível “abastardamento” que está na origem daquilo que muita gente não hesita em considerar uma das maiores originalidades da língua portuguesa…

As pessoas também se hão‑de esquecer de que foram um dia estrangeirismos os estrangeirismos que hoje alguns criticam, que foram já consideradas construções erradas as construções “erradas” que vingarem… E os puristas dessa época defenderão uma língua “pura” diferente da que defendem os puristas de hoje, que é também diferente da língua “pura” que defendiam os puristas de antigamente…

Por que não chamar antes pelo seu verdadeiro nome, e um nome com mais sentido, a atitude de quem não gosta que a língua mude? Em política, chama-se conservador a alguém que quer conservar o estado de coisas actual. O melhor é, simplesmente, deitar fora a ideia de purismo e aplicar também à língua o conceito de conservadorismo: em vez de purista da língua digamos linguisticamente conservador.

Eu cá, que não o sou (com a idade, até conversador já deixei de ser…), estou aberto a inovações. Não só às inevitáveis (porque a língua tem uma vida própria que não conseguimos regular, por mais que tentemos), mas também a todas as voluntariamente introduzidas – que seja muito bem-vindo o que vier por bem! Usem a palavra inglesa input, aportuguesem-no ou não em inpute, ou usem antes o neologismo insumo, que mesmo os puristas, perdão, os conservadores hão-de considerar bem formado*, o facto é que alguma dessas palavras começa a fazer muita falta em português, em certos contextos. O mesmo com a estrutura germânica em que se junta a preposição ao verbo em vez de se a juntar ao sintagma que ela introduz, que dá, de vez em quando, um jeitão, quando é de encurtar, e aumentar a legibilidade de, certas frases que se trata (Brincalhão!). Por exemplo…

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* Estou em crer que o neologismo insumo foi criado em castelhano e só posteriormente importado para o português, primeiro no Brasil, mas não tenho a certeza…