30 de agosto de 2020

Bodil [Crónicas de Svendborg #38]

Um dia, na costa sudoeste de Tåsinge, perto da ponte para a ilha de Siø, Karen encontrou uma chávena no mar. A chávena estava a poucos metros da praia, num sítio onde a água não tinha mais de meio metro, em cima de um monte de pedras.

Era uma bonita chávena, com uma gaivota e o nome Bodil pintados à mão. Bodil não é um nome incomum, mas também não é um nome muito normal: há presentemente 11.444 Bodils na Dinamarca; e, no ano passado, só cinco meninas foram batizadas com esse nome. Karen pôs-se a especular sobre a dona da chávena: o mais provável era ser uma mulher com mais de 50 anos e de classe média alta, pensava ela.

Tirou uma foto à chávena e pô-la no Facebook, com o seguinte texto:
Quem conhece a Bodil? Uma lindíssima chávena pintada à mão encontrada na água perto da ponte para Siø, do lado de Tåsinge. Conheces a Bodil? Creio que há de ficar contente se recuperar a sua chávena.
É inacreditável o que um post destes pode desencadear nas redes sociais. As pessoas bem podiam estar apenas caladas, quando não são os destinatários do post. Mas não. Fazem comentários e mais comentários, cada um menos a propósito que o outro. E o post foi muito partilhado.

Além dos muitos comentários, Karen recebeu três mensagens de Bodils que reclamavam a chávena. Quando insistiu, porém, que queria saber como a chávena tinha ido parar à praia onde a achou, todas elas acabaram por confessar que a chávena não era delas.

Karen descobriu, entretanto, quem tinha feito a chávena: uma ceramista chamada Ulla. Escreveu-lhe a perguntar se sabia a quem tinha vendido aquela chávena, mas Ulla nunca lhe respondeu.

Finalmente, ao fim de duas semanas, alguém escreveu a Karen, dizendo que se chamava Bodil e sabia quem tinha feito e vendido a chávena. Chamemos a esta pessoa Bodil A, para facilitar a narrativa e chamemos Bodil X à pessoa que Karen procura. Karen respondeu-lhe que também tinha descoberto Ulla e lhe tinha escrito, mas que ainda não recebera resposta. Bodil A respondeu-lhe então que a ceramista era sua amiga e ia falar com ela pessoalmente.

Dois dias depois, Bodil A escreveu de novo a Karen: tinha falado com Ulla, Ulla sabia muito bem a quem vendera a chávena e contactou Bodil X. E Bodil X disse-lhe que não queria reaver a chávena. A chávena, explicou ela, estava ligada a uma história que lhe tinha feito muito mal e que preferia esquecer. Não tinha sido ela a perder ou a deitar fora a chávena na praia. Mas ela sabia, claro, quem tinha sido. Não queria, enfim, ouvir mais falar da chávena.

Karen perguntou então a Bodil A se não queria ficar com a chávena. Bodil A disse-lhe que tinha inicialmente pensado nisso, mas que, depois de saber da história de Bodil X, e mesmo sem saber ao certo o que se tinha passado, não, não queria uma chávena assim.

No mesmo dia, Karen recebeu uma mensagem de outra Bodil: «Tinha uma chávena assim, quando trabalhava no dentista em Østergade. Deixei-a lá ficar quando me vim embora. Como é que pode ter ido parar a uma praia em Tåsinge?»

Karen não lhe escreveu mais e ela também nunca disse mais nada. Há quatro dentistas na Dinamarca com consultório numa rua chamada Østergade: em Aarhus, Assens, Hjørring e Silkeborg.

«Só depois de o meu post ter sido partilhado dezenas de vezes é que me dei conta de que era bem possível que a chávena não tivesse sido perdida na praia», diz-me Karen. «Pus-me a imaginar o que podia ter-se passado. Até pensei que a Bodil podia ter morrido e alguém que costumava tomar café com ela podia ter ali posto a chávena naquele montinho de pedras, assim como um memorial. Havia tantas razões possíveis para aquela estátua ali estar, mas eu, ao princípio, só pensei que uma Bodil a tinha perdido.»

22 de agosto de 2020

Da etnicidade de corpos e almas


Há uma dezena de anos, fiz uma viagem de carro de Maputo a Joanesburgo, na companhia de um enfermeiro sul africano. Era um homem mais ou menos da minha idade, nascido e crescido, portanto, no regime de apartheid; e gostava de se queixar da desgraça a que o regime pós-94 tinha levado o país – sem se atrever, ainda assim, a louvar abertamente o regime anterior. E, se ele tinha a cautela de deixar subentendida a sua posição política, eu tinha também a cautela de não confrontar com demasiada veemência o que ele deixava subentendido, para não tornar insuportáveis as muitas horas de viagem que tínhamos de partilhar.
– Você não imagina o conservadorismo da África do Sul antigamente – disse o meu companheiro a certa altura. É a parte da conversa de que lembro melhor. – O corpo era tabu. Não passavam nos cinemas filmes com cenas de nudez e nem uma mulher de bikini se via em revistas e os jornais. Pornografia, então, era impossível de encontrar. Éramos uns frustrados. Os rapazes da minha geração nunca tinham visto um corpo de mulher nu antes de irem para a cama com uma mulher pela primeira vez – quase sempre na noite de núpcias, porque não havia sexo antes do casamento.
Eu, por acaso, nem precisava imaginar – tinha conhecido uma sociedade em muitos aspetos parecida, o Portugal onde eu tinha crescido. Também tinha certeza de que as coisas não tinham sido para todos os sul-africanos como ele agora as descrevia, mas não duvidava de tivessem sido assim na comunidade africânder onde ele tinha crescido.
– O que a gente não dava só para ver as mamas de uma mulher… Bom, tínhamos todos vistos muitas mamas étnicas na televisão e em revistas, mas isso para nós não contava, era outra coisa. E a gente não se excitava com as africanas. 
Há quem diga que, mais que lutar contra o racismo através de leis e práticas institucionais, importa – e custa – tirá-lo das mentes. E há quem diga que, como em todas as questões morais, não se pode exigir de ninguém que mude de sentimentos, conquanto que, sinta o que sentir, não aja de forma discriminatória. Não cabe neste texto a longa e complexa discussão das estratégias, prioridades e alvos preferenciais do trabalho antirracista. Onde esta história quer chegar é que não é só nas mentes que o preconceito se instala, mas no corpo também. Não é que toda a gente tenha de se sentir atraída por toda a gente. As pessoas podem, naturalmente, sentir-se mais ou menos atraídas por determinados tipos físicos. Mas o que está aqui em causa é outra coisa. Ouvi mais histórias como esta, de pessoas que têm entranhado na carne o desprezo do Outro. Alguns religiosos ou místicos dirão que a carne mata o espírito; e eu constato que o contrário também é verdadeiro.
Agora, é claro, se a completa ausência de desejo pelas pessoas de outros grupos étnicos ou de outros tipos físicos (cheguei a ouvir falar de «nojo» do corpo das pessoas racializadas) revela uma forma profunda de racismo, nunca o desejo – ou até a preferência – de um tipo físico diferente é, por si só, sinal de ausência de racismo. Pode discutir-se o que desumaniza mais o Outro: não servir nem para o sexo ou só servir para o sexo…
A recordação da conversa na viagem a Joanesburgo e a ideia deste texto surgiram deste quadro de 1800, que conheci há uns meses no Tout ceci est magnifique. O Retrato de uma negra, que no ano passado se passou a chamar Retrato de Madeleine, é uma obra pouco canónica de Marie-Guilhelmine Benoist, que tem merecido análises interessantes (ver aqui e aqui, por exemplo).

11 de agosto de 2020

[Sem título]


Um cemitério de Carcassonne, visto da Cité
Tinham-nos dito que havia um sítio muito bonito para tomar banho a cerca de um quilómetro do centro da aldeia, onde o rio tinha uma espécie de albufeira natural. «Passa-se o cemitério e vira-se à direita no segundo caminho de terra.»

Mas nós não sabíamos onde era o cemitério. Fui perguntar a um senhor de idade avançada, que estava sentado num banco de jardim, à sombra de um plátano.

– Não tem nada que enganar: vai sempre por este caminho e vai lá dar. São uns 300 ou 400 metros, uma coisa assim.

Agradeci-lhe.

– Eu também para lá vou, mas não é já – riu-se ele. – Quer dizer, espero eu...


A velhice, mais uma vez


Publiquei aqui na Travessa, há mais de dez anos, um poema meu em que ando às voltas de uma ideia que Jorge Luis Borges apresenta em forma lírica no início do seu maravilhoso “Elogio da la sombra” (traduzo eu):
A velhice (tal é o nome que os outros lhe dão)
pode ser o tempo da nossa ventura.
O animal morreu já ou morreu quase.
Restam o homem e a sua alma.
É capaz de ser sobretudo entusiasmo de literato essa ideia de que a velhice (seja qual for o nome que os outros lhe deem) é «o tempo da alma», PORQUE desapareceu já a parte mais animalesca, mais ssssibilante de nós — o anseio de sabores e sexos e toda a classe de satisfações... Não sei se tem muito a ver com a realidade de envelhecer para a maioria das pessoas. Há com certeza velhices assim, em sendo boa a saúde, e é possível que a de Borges tenha sido como a quis, homem e alma, esvaziada de animalidade.

A questão é também como se deve entender alma. Se se entender alma como espiritualidade, ou mesmo como mente, creio que a velhica é muitas vezes ao revés de como Borges a quer: vai-se esvaindo a espiritualidade, se alguma houve, como se esvai tudo o resto: as forças, enfim, a memória, a paciência, a concentração… 

É claro, velhices há muitas. Na velhice que tenho à minha volta, porém, vejo antes simplificarem-se a vida e os seus prazeres: comer, dormir, gozar a inatividade e o calor do sol, se dele se apanha um bocadinho  — o que, por muito que possa soar a demasiado animal, também está muito bem.

Esquerda: Autor desconhecido: Velha dormindo, sem data, gravura, cópia de Rembrandt. The Met, Nova Iorque, daqui
Direita: Rembrandt: Velho sentado numa poltrona, 1631, daqui.