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18/12/25

O que rima é o que não está lá…

[Este texto é uma versão revista e corrigida de um texto que aqui publiquei a 25.11.2013]   

Um dos recursos utilizados por filólogos e linguistas para reconstruir pronúncias antigas é a análise de rimas estranhas, que não funcionam na pronúncia atual, mas que provavelmente já funcionaram. Se, por exemplo, na carta em verso de John Donne a Lady Carew, escrita por volta de 1612, are rima com singular e war; e fear com forbear e there; grown com complexion e none; e several com circumstantial e all, um historiador da língua tem nessas rimas material muito interessante para cruzar com outra informação que possua sobre a pronúncia da época de John Donne no lugar de onde ele é originário. É claro, é preciso saber se o poema se insere numa poética de rimas rigorosas ou se aceita rimas aproximadas ou até «rimas para o olho», em que «rimam» as letras e não os sons. Mas, quem estuda essas coisas tem naturalmente, todos esses cuidados.

É um tipo de trabalho de investigação que já não se fará em relação ao estado atual das línguas. A maior parte dos dialetos de quase todas as línguas faladas no século XX está tão pormenorizadamente descrita e documentada com gravações que os linguistas do futuro não precisarão de se dedicar a esse tipo de exercícios. 

E isto tudo como introdução a uma bagatela, uma pequena curiosidade. Não deixa de ser interessante verificar que a imposição da pronúncia padrão pode esconder, às vezes, rimas que se adivinham – mas não estão lá… Em “Petisca daqui petisca”, do Conjunto António Mafra, o cantor não ousa (ou alguém não achou conveniente…) cantar com a pronúncia regional a palavra comilão, desfazendo assim uma rima que se adivinha com facilidade:

Petisca daqui, petisca, / petisca daqui, que é bom
Quem oferece o que petisca / mostra não ser comilão

_______________

* É claro, há atualmente muito trabalho sobre a pronúncia do inglês desta época, a chamada Primeira Fase do Inglês Moderno, pelo que quem, queira saber sobre o assunto não tem de partir da análise de rimas. Eis aqui o texto de Donne acima referido lido com a pronúncia da época. Não há consenso absoluto sobre todos os pormenores do inglês da época, mas há, ainda assim, um amplo acordo entre especialistas e a pronúncia que se ouve no vídeo é muito fiável. 


11/09/21

«Os verbos foram mudados, / Não ficou um só de pé !»

Joaquim Pinto de Sousa Macário é escritor seguramente desconhecido da maior parte dos leitores deste blogue. Também eu o desconhecia, até topar um dia, já nem me lembro nem como nem porquê, com esta digitalização da sua obra Satyras e galhofas: livro de versos alegres, publicada em 1899 por uma editora de Lamego, a Minerva da Loja Vermelha. 

Como amante que sou das coisas da língua, da sua história e das suas histórias, chamou-me muito a atenção esta “Resposta a uma carta que Nicolau Tolentino dirigiu do outro mundo ao auctor deste livro”, que vos quero dar a conhecer. E deixo-a tal como vem no original, em parte por preguiça de lhe atualizar grafia e corrigir pontuação, e em parte porque acho que o documento da história das palavras que o texto é ganha com documentar também uma fase da história da sua escrita.

Notem agora que Nicolau Tolentino, a quem Joaquim Pinto de Sousa Macário dedica as Satyras e galhofas e que é o explícito destinatário da carta em verso de que aqui se trata, morreu em 1811. Macário lista, portanto, expressões que ele crê que Tolentino não conheceria, ou seja, surgidas ao longo do século XIX. Se tem razão ou se se engana a avaliar a idade dos termos que refere como novidade é discussão que aqui não vou ter agora, embora, nalguns casos, tenha quase a certeza de que se engana: pança, por exemplo, muito provavelmente existiu sempre, em português, como aliás nas outras línguas latinas. Mas vejam que a maior parte deles se mantém até hoje, uns ainda como gíria, outros já como termos standard. Também é difícil perceber, no texto de Macário, em que registos se usavam na altura os diferentes termos, mas parece provável que se incluam na lista desde modismos finos (como fauteuil), até termos do registo informal, como carraspana, ou mesmo calão, como guita. É também de notar que se mantiveram até hoje os termos importados do francês que eram na altura novidade*. Mas chega de comentários. Desfrutai, como costuma dizer-se.

Lisboa, 1º–2º–89.

Nicolau:

Recebi a tua carta
E vejo o que me dizes do outro mundo,
Confessas que de ti se não aparta
O teu fado cruel, sempre iracundo.
Nunca a pança por cá tiveste farta.
Mas lá que o teu martyrio é mais profundo,
Lamento, meu amigo, que assim seja,
Mas, dos que estão por cá, não haja inveja.

Dizes que és lampianista logo á entrada
Do céo, e que S. Pedro é teu amigo;
Mas, que por teres cá lingua damnada,
Embirram lá no céu muito comtigo !
Dizes q’ereres voltar á Lísbia amada
P'ra viveres aqui junto co’migo.
Mal sabes tu, meu velho Tolentino,
Quanto fôra isso em ti um desatino !

Isto por cá, não é o que foi d'antes,
E hoje um purgatório ! uma inferneira !
A cidade já chega quasi a Abrantes !
E, por ter muita gente, ha já lazeira !
E abundam de tal forma os meliantes
Dos que sabem metter mãos na algibeira,
Que é preciso um policia, bem armado,
Pra cada cidadão andar guardado.

Isto está tudo torto ! Transformado !
Todos se tratam já por excellencia;
Com ares, cada qual, d'afidalgado,
Soffrem por este mal triste demencia!
Qualquer, p'ra ser ministro ou deputado,
Se julga com saber, e competência !
Todos, mettendo á Pátria gorda espiga,
Só tratam bem da bolsa e ... da barriga !

Pelas ruas, em carros estofados,
Sentados os lacaios, vão gozando I
Emquanto que, em cocheiros transformados,
Os fidalgos os carros vão guiando !
Ha homens já com homens namorados,
Tudo n'uma balburdia, e alto desmando !
Ha-de custar-te a crer! ha até senhoras
Mais homens que mulheres, e doutoras !

E todas, noite e dia, pelas ruas
Navegam, já sosinhas, á vontade,
E aos homens, graçolinhas lá das suas,
Apresentam com toda a liberdade !
E os donos de taes náus, de taes faluas,
Dos naufragios não temem a impiedade,
De forma que os naufrágios, meu amigo,
são tantos ! ! e óra adeus ! chamam-lhe um figo !

As egrejas já estão quasi desertas,
Só ás moscas entregues, e ás baratas,
E quando, aos domingos, são abertas,
Chamam ás que lá vão, tolas, beatas !
Ao passo que mui anchas, mui espertas,
Com mira no casório, as taes fragatas,
Aos cardumes passando alegre vida,
Innundam os theatros, e a Avenida. ( )

Qualquer fedelho, apenas de dez annos.
Já fuma, e joga as cartas e namora;
Se vão, por troça, ao templo taes insanos,
Precisa o enxota-cães pôl-os lá fora;
E assim vão caminhando nos enganos
Da podre educação que o céo deplora;
Depois, já pódes vêr, por taes assômos
Quem póde ser juiz com taes mordomos ! ?

Fazem-se hoje viagens em vapores
Que, voando pela terra e pelos mares,
Vão em sete minutos aos Açores
E em menos d'um minuto a Valladares.
A guerra! Santo Deus! ergue terrores.
Que fazem tiritar os militares!
É tanta, e de tal forma, a artilheria,
Que alcança já d'aqui á Alexandria !

Usa cada soldado uma espingarda
Que dá sete mil tiros por minuto !
E só deixam agora vestir farda
A quem fôr mais membrudo e féro bruto !
E cada general, gordo, bojarda,
No seu officio ou arte, é tão astuto
De forma que, se cá tivermos guerra,
Ninguém fica de pé ! Vae tudo a terra !

Isto por cá, mudou completamente !
Nem tu nada já d'isto conhecias;
As mulheres nem teem cara de gente,
São figuras de gesso ! e muito esguias !
Até mesmo o idioma está diff’rente
De forma que já nada percebias !
E se julgas que minto no que digo,
Eu passo a bem provar-t'o, meu amigo :

Os verbos foram mudados,
Não ficou um só de pé !
São hoje assim consid'rados:
Gritar, é fazer banzé !
Chama-se ao fugir raspar,
Liscar, safar e pisgar,
’Té mesmo passar o pé.

O morrer é arrefecer
É o calar, engulir.
Namorar, é padecer,
Chama-se ao comer murquir !
Espreitar, diz-se cocar,
Bater, zurzir e zupar,
Olhar p’ra dentro, é dormir !

Chama-sa ao roubar, arranjo !
Ou inglezar e chiprar !
Não sei porque desarranjo
É fazer o passeiar;
O ignorante, é ser cego !
Empenhar, é pôr no prego !
O tremer, é tiritar.

Ninguém falla como d'antes;
Tudo assim, tudo mudou !
'Té mesmo a palha d' Abrantes
De letria o nome achou !
Nem mesmo julgam ser erro
A um cão chamarem-lhe pêrro,
E os calotes serem cães,
E o caloteiro, cãoseiro,
E chelpa qualquer dinheiro,
E cheta os próprios vintens.

Amantes, são padecentes !
A officina, atelier !
Mestres d'escolas, são lentes !
É a carruagem, coupé !
Pernas magras, são varetas !
Botas tortas, são palhetas !
São os narizes, fungões !
A desordem, zaragata!
E cara, figura ou lata !
E as mentiras, são palões !

Chama-se á cabeça, pinha !
Chama-se ao janota, pão !
Ter azar, é ter gallinha !
Mentir, é ser intrujão !
O ser máu, é ser má rolha !
Não ter juizo, é ter bolha !
Chamam ao vinho briól !
E toucado á bebedeira,
Carraspana, e capoteira,
E á barriga, pança e fól !

Sâo as creadas, sopeiras !
Ser gentil, é ser liró !
Aos olhos, chamam setteiras !
Ser limpo, é quite de pó !
N'um jardim um charco é lago !
Dinheiro em geral, é bago!
Um puding, é um poré !
Mulher esguia é fanéca!
Cavallo magro, é pilléca !
Chama-se ao suor chulé !

Jogar, é fazer batota !
É café o botequim !
Perder, é levar derrota !
É um barulho, chinfrim !
O sobscripto, enveloppe!
Chamam-se as valsas galope !
A um ramalhete, bouquet !
E hoteis ás hospedarias !
As medianeiras sâo tias !
O ter gosto, é ter filé !

A vara d'outr’ora, é metro!
Decilitro o quarteirão !
Trocou-se em bandurra o plectro,
Bom cavalleiro, é calção !
Chama-se ás libras piratas !
Pômo de terra ás batatas !
Ao valentão Fcrra-Braz!
Ao municipal, um guita !
A mulher alta, guarita!
Ao homem alto, lambaz !

É fauteuil, uma cadeira!
É sofá, um canapé !
É pandega, a brincadeira !
Ao povo chamam-lhe Zé !
Chama-se instituto, a escola !
Banza e bandurra, a viola!
As gazetas, são jornaes !
Ser peralta, é ser penetra !
Edecetra, e édecetra,
E assim muitas coisas mais.

Já vês d'esta maneira, meu amigo,
Que vinhas tu fazer cá por Lisboa?!
Teus versos não valiam hoje um figo,
Nem rimas encontravas p'ra uma lôa;
Sem saberes fallar, feito um mendigo,
Sem te intender sequer, uma pessoa,
Ai ! amigo, não venhas, tem juizo,
Não troques pelo inferno o teu p'raizo.



___________________

Atelierbouquetcanapécoupéenveloppefauteuil; e jornal e  pomo de terra, já na altura com formas aportuguesadas. Só pomo de terra desapareceu completamente e provavelmente fauteuil, que os dicionários de português ainda registam como galicismo para «poltrona», mas que nunca me lembro de ter ouvido. Filé é provavelmente também um empréstimo ao francês, mas não consigo atestar nesta língua o significado que Macário aqui descreve, nem o de «empenho», que registam os dicionários. 

01/09/19

Do tamanho das mãos e doutras partes do corpo



Em castelhano europeu, cojonudo é um termo de apreciação positivo: «baril!». Já em castelhano do Cone Sul, boludo, huevón e pelotudo, que em princípio significam exatamente o mesmo (com uns testículos muito grandes, pois então…), querem dizer «parvo, estúpido, idiota». Não deixa de ser curioso que o tamanho das gónadas masculinas tenha interpretações tão diferentes dos dois lados do Atlântico. Enfim… 

Agora, também se pode dizer depreciativamente de uma mulher que é una boluda, una huevona ou uma pelotuda — o que não deve espantar por aí além os falantes de português, já que nós também falamos de mulheres de tomates (claro, com um significado muito diferente dos termos castelhanos atrás referidos). 

Uma resposta comum a quem acusar um argentino de ser boludo, huevón ou pelotudo é algo como «¿Cómo que boludo? ¡Sós vos que tenés las manos chicas!». Uma defesa um bocado ordinária, não é verdade? Eu tinha uma amiga argentina que virava, porém, a coisa ao contrário (provavelmente, há muito quem o faça, mas só o ouvi a ela): para chamar estúpido a um tipo qualquer, dizia apenas: «No que yo tenga las manos chicas…» 





Ilustração: “Anatomia de uma hérnia inguinal do lado esquerdo”, autor não referido, in Marcy, Henry O., The anatomy and surgical treatment of hernia, New York: D. Appleton & Co., 1892

23/01/14

Fáçamos então um supônhamos

Não é muito normal uma forma flexionada de um verbo transformar-se em nome.

Conheço duas palavras latinas que se espalharam por muitas línguas, placebo (1ª pessoa do futuro de placere, “agradarei”) e credo (1ª pessoa do presente de credere, “creio”).

Conheço também je-m'en-foutisme e je-m'en-foutiste, em francês, e ignoramus em inglês, mas não são bem palavras diretamente derivadas da forma verbal flexionada – je-m'en-foutisme e je-m'en-foutiste correspondem ao que seria em português estoumenastintismo e estoumenastintista, se alguém se tivesse lembrado de inventar essas expressões, ou seja, são construídas com um sufixo nominal que se acrescenta a uma frase inteira; e ignoramus, “ignorante”, vem do nome de uma personagem de uma peça de teatro de Georges Ruggle (que foi, esse sim, construído a partir da forma verbal latina ignoramus, “ignoramos”).

E conheço, em português, uma estrutura que, em registos menos canónicos, se usa para construir negativa ou recusa: uma estranhíssima nominalização da segunda pessoa de vários tempos verbais:
Tu disseste que lá ias, mas é o foste[1]!
Ele fala muito, mas eu queria era vê-lo a fazer aquilo. Está bem, está; era o fazias!
E mais palavras, assim de repente, não me vêm à ideia.. Fico à espera das vossas contribuições.

***
O que fica para trás é apenas uma introdução ao tema principal do texto, que é supônhamos, nome masculino. Alguém me perguntou, no outro dia, se eu tinha algum texto no blogue sobre esta estranha palavra. Respondi que ainda não, e comecei a escrever este texto. Supônhamos é um caso interessante, acho eu, porque é mais que uma nominalização de uma forma verbal flexionada, o que já é anormal: é uma (anormal) nominalização de uma forma verbal anormal. E tem, como todas as palavras, uma história – que, como a de muitas outras palavras, provavelmente ninguém sabe qual é…

Do ponto de vista puramente linguístico, creio que a forma verbal supônhamos (criticada, claro, ou simplesmente errada, se assim o preferirem) se pode explicar pela tendência para a regularização, já que, das formas comummente usadas do presente do conjuntivo(a 2ª do plural, vós, está em vias de extinção...), só na forma da 1ª pessoa a sílaba -po- não é acentuada. Como todos sabem, é comum a produção de formas esdrúxulas da primeira pessoa do plural: fáçamos, dígamos e por aí fora[2]. Comum, malvisto e ridicularizado. Apesar disso, o nome supônhamos vingou: uma busca em Google mostra claramente que a palavra existe. Por espúria, desnecessária e irritante que possa ser, existe[3]. Aliás, provavelmente não é apesar de ser malvista e ridicularizada que existe, é por isso mesmo – é bem possível que se trate uma criação satírica que pegou, especulo eu.

Não digo que seja impossível que alguém alguma vez tenha usado a forma verbal como nome sem ser por sátira. Acho apenas improvável. Parece-me mais provável que tenha sido criada numa tentativa de pôr a ridículo alguma maneira de falar. É que, nesses arremedos satíricos do linguajar popular, costuma exagerar-se (o exagero é o próprio da caricatura, não é verdade?) e pôr na boca do povo, seja lá o que for que isso quer dizer, coisas que o povo nunca disse. Sei que as recordações claras são tão pouco fiáveis como as outras, mas recordo-me claramente de que ouvi a expressão pela primeira vez numa anedota (que também me recordo qual é!), há coisa de 35 anos, mais ano menos ano.

Agora, já se sabe: quando se repete muito uma palavra, mesmo que seja por troça, ela fixa-se. E o que surgiu por brincadeira pode até perder esse caráter. Lembro-me de que uma das coisas que, no meu grupo de amigos, solidificou o calão angolano que surgiu em Lisboa em 1975 foi usarmo-lo no gozo. No gozo, no gozo e, às tantas, já usávamos sem querer madiê, quicoto, malaico, pancar, baicar, etc., etc., etc., tudo aquilo de que nós, muito bairristamente, tanto tínhamos troçado.

–––––––––––––––
[1] Ou …É o fostes!, já que esta forma criticada da segunda pessoa do singular se adapta bem a este registo.

[2] Como não quero entrar, no texto, em pormenores técnicos, digamos assim, passo-os para esta nota de rodapé, que é uma maneira de fingir que os faço desaparecer. Uso * para indicar que a forma não é produzida ou que não está atestada, e + para indicar que é considerada errada:

Neste caso, tendência para a regularização é, claramente, uma expressão simplista, se não abusiva. No paradigma do presente do indicativo, há duas possíveis “regularizações”: a “regularização” do acento na penúltima sílaba, que produz a forma correta (suponha, suponhamos) ou a “regularização” da acentuação na sílaba -po-, independentemente da sua posição no palavra, que produz a forma criticada (suponha, *sunhamos). Pode pensar-se que esta “regularização” é, ela própria, irregular, porque apenas se verifica no presente do conjuntivo e não se verifica nos verbos regulares com infinitivo em -ar, que são a maioria dos verbos portugueses. Parecem-me perfeitamente impossíveis, por exemplo, seja em que dialeto ou socioleto for, formas esdrúxulas como *fálamos, *cómemos ou *pártimos no presente do indicativo e formas como *fálemos, *espéremos ou *acredítemos no presente do conjuntivo. Seria interessante ver se as formas esdrúxulas da 1ª pessoa são mais comuns em verbos irregulares no presente (+dígamos, +quêiramos, +sáibamos, +fáçamos, etc.) que em verbos regulares (+cômamos, +ábramos, etc.).

E porque se “regularizaria” a acentuação de uma determinada sílaba? Podia pensar-se que acentuação da sílaba tónica mais frequente nas várias pessoas nos vários tempos seria sentida como “natural” e que daí resultaria a “regularização” incorreta do acento. Mas não é assim. Num verbo regular, a parte do radical que dá a última sílaba do infinitivo (a sílaba que começa por m em comer, por exemplo) é tónica num maior número de formas. A falar-se de “regularização”, ela tem como modelo apenas as restantes formas do presente do conjuntivo. Evidentemente, não é preciso falar de “regularização”. Pode simplesmente postular-se que é esta a regra interiorizada em certas variantes regionais ou sociais.

[Ligeiramente modificado a 17 de julho de 2023]

21/10/08

Coisas da minha avó

A minha saudosa avó materna tinha umas quantas expressões curiosas.

Pial de pote, por exemplo. A expressão “correcta” para designar o lugar onde, nas casas antigas, se colocava a bilha da água fresca é poial de pote (poial é da família de pódio e significa “lugar onde se põe algo” ou “banco de pedra”), mas a minha avó chamava-lhe pial de pote. Chamem-lhe erro, se quiserem, mas não é um “erro” disparatado, porque pode facilmente imaginar-se que pial se relacione com (seria peal, nesse caso, e outra maneira, enfim, de dizer pedestal); ou então que derive de pia – a final de contas, é de um suporte de um recipiente de água que se trata…

Além de usar a expressão para referir o pequeno suporte de cimento e mármore que tínhamos na cozinha, a minha avó usava também pial de pote na fase Está aqui debaixo do pial de pote a enfeitar a cantareira!, que respondia a perguntas sobre o paradeiro de algum objecto e que significava, no falar lisboeta dela, “Eu sei lá onde é que essa porcaria está!”. A frase também tem duas coisas que se lhe digam: A primeira é que ou é uma redundância (se o pote da água e o cântaro forem uma e a mesma coisa, e, por conseguinte, o poial de pote e a cantareira apenas dois nomes de um mesmo espaço), ou então havia, nas casas mais antigas do que aquelas que eu conheci, por baixo do poial de pote, uma cantareira. A outra é que, tendo em conta sobretudo o tom com que ela o dizia, a frase tem com certeza conotações malandrecas, que deixo as minhas leitoras e os meus leitores adivinharem quais são. [Isto confirma que, como dizia não me lembro quem, não há menos figuras de retórica na linguagem das vendedeiras do mercado do Forno do Tijolo (a minha avó era de Sapadores) que na de qualquer obra muito literária... Mas isso é outra conversa…]

Outra expressão da minha avó de que eu gosto muito é Não penhas dúvidas! Mas isso existe, perguntarão vocês. Se existe? Pois se vos digo que é uma expressão que a minha avó usava! Não é uma frase muito canónica, é verdade, mas é muito mais expressiva e mais rica do que as duas frases com que concorre mais directamente, porque as funde numa só: não ter dúvidas e não pôr dúvidas são coisas diferentes e pode pedir-se a alguém que nos acredite sem duvidar ou que cale as dúvidas que possa ter. Mas é mais eficaz juntar-se Não tenhas dúvidas! e Não ponhas dúvidas! numa frase só: “Aconselho-te a não duvidares, mas, se o fizeres, guarda isso lá para ti, sim?”

Outra coisa que a minha avó fazia era tentar dar sentido ao que para ela não fizesse sentido, de maneira que as palavras estrangeiras eram sistematicamente aportuguesadas, da forma mais lógica possível. Quando apareceu o Seven up, por exemplo, ela começou logo a tratar por Sabe a nada o novo tipo de pirolito. Então mas se aquilo de facto não tinha grande sabor…

Finalmente, gosto muito da expressão Ó filho, tu ainda és de bom tempo! Ao contrário das anteriores, esta expressão não a ouvi só à minha avó, e conheço-lhe até uma variante mais divulgada, ainda és do bom tempo. É, claramente, uma referência a uma mítica Idade de Ouro em que não havia maldade nas pessoas, em que os seres humanos eram ingénuos e puros como os anjos, os meninos, os patos, os ursos ou os camelos, que são alguma das metáforas mais comuns hoje em dia para quem se deixe endrominar com facilidade…

Mas que sou de bom tempo, sou, não penham dúvidas! Ainda sou do tempo dos piais de pote e das cantareiras, muito antes de aparecer o sabe a nada…