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14/05/26

A língua dos outros

Ouvi no outro dia alguém dizer mais ou menos o seguinte: 

«Quando queremos comunicar com os animais, tentamos ensinar-lhes a nossa linguagem − sons ou gestos que eles têm de reconhecer. É estranho. Como somos mais inteligentes, seria mais lógico que fôssemos nós a aprender a linguagem deles…» 

Não sei se a nossa maior inteligência nos torna melhores em compreender linguagens de outras espécies do que elas a nossa. O que é certo é que temos poder sobre os animais a quem queremos ensinar a nossa linguagem, e é por isso que o fazemos, não por nenhuma consideração de ordem prática.

***

Uma situação muito diferente, mas em que também se põe a questão da assimetria de poder, é a da aprendizagem de línguas no contacto entre povos. Que tenha sido Sexta-Feira a aprender a língua de Robinson Crusoe, e não o contrário, é um a priori numa relação que, como tem muitas vezes sido referido, se inscreve no ideário e imaginário coloniais: não há, evidentemente, nenhuma reflexão sobre quem deveria aprender a língua do outro, nem considerações de ordem prática sobre se seria melhor Sexta-Feira aprender inglês ou Crusoe aprender a língua dele, que nem sequer é nomeada. (Nem sequer ficamos a saber qual era o verdadeiro nome de Sexta-Feira, antes de Crusoe o batizar com um dia da semana…) Cabia simplesmente a Sexta-Feira aprender a língua de Crusoe. Ah, e falá-la mal, pois claro — é também esse o fado de quem é obrigado a falar a língua que lhe é imposta. Como teria falado Crusoe a língua de Sexta-Feira?


(Imagem: Robinson Crusoe and his man Friday, litografia publicada por Currier & Ives, ca. 1874. 
Library of Congress Prints and Photographs Division Washington.)

14/05/15

A dimensão humana

Discute-se às vezes se a recusa de alguns sectores antirracistas de “descer” ao ponto de discutir em público com a extrema-direita racista contribui(u) para o crescimento dessa mesma extrema-direita, deixada assim livre para apresentar a sua versão dos “factos”, sem ninguém para lhe contrapor factos sem aspas. O mesmo se discute em relação a muito disparate de pseudociência, parapsicologia, medicinas ditas alternativas e toda a sorte de crenças bizarras que por aí pululam: uma pessoa deve rebaixar-se ao nível de discutir se as campanhas de vacinação da Organização Mundial de Saúde têm como finalidade a eliminação dos africanos, injetando-lhes venenos que os matam? E depois, aliás, como se discute um absurdo desses? E serve de alguma coisa tentar convencer quem acredita numa coisa assim?

Mais do que apenas uma questão estratégica para a ação antirracista ou para a divulgação da medicina científica[1], esta atitude de não querer “descer tão baixo” levanta também uma questão moral. E eu acho que, por muito que discorde radicalmente de uma pessoa, não posso deixar de considerar que ela tem exatamente a mesma capacidade moral que eu, pelo que é de uma grande arrogância (paternalismo é palavra que diz insuficientemente a imoralidade da atitude) recusar discutir, seja lá com quem for, ideias que têm em abstrato o mesmo valor que as minhas – até eu demonstrar, se o conseguir, que as minhas são melhores. É claro que uma recusa simples de discussão não pode ser moralmente equiparada à aniquilação física daqueles de quem discordo, mas é um mesmo princípio de dogmatismo fundamental que revela.

Por outro lado, eu sei que não é sempre arrogância, mas às vezes também cansaço, quando não desespero, que motiva a recusa de discussão. É até certo ponto compreensível que se desista de discutir com fanáticos, quer se trate de ideias sobre o conhecimento do mundo, incluindo religião, ciência, etc., quer se trate de questões morais, incluindo política. É que a discussão com quem se recusa liminarmente a ser convencido é muito mais cansativa que a discussão com quem tem apenas convicções fortes. E é, por norma, improdutiva. Por isso mesmo, admiro a paciência e louvo o trabalho de quem, por exemplo e para me centrar em áreas que acompanho, se dedica a discutir diariamente os fundamentos da religião e das religiões, e das ditas “medicinas” alternativas e de milhares de delirantes teorias de conspirações. Penso que não o faço eu próprio tanto como devia, mas hoje, para me redimir um bocadinho dessa falta, contribuo para a discussão da ideia da comunicação com Deus. O meu argumento é este: se existir a divindade suprema dos monoteísmos mais divulgados, os humanos não têm nenhuma possibilidade de a compreender, pelo que a própria crença e a própria prática dessas religiões negam os atributos que dizem que Deus tem.

Na palestra Cosmic Quandaries (Palladium, St. Petersburg, Flórida, 26-03-2009), Neil DeGrasse Tyson diz que não vê como seja possível comunicar com extraterrestres (tradução minha):
Se virmos o parente geneticamente mais próximo dos seres humanos, os chimpanzés – temos mais de 98% de ADN idêntico –, somos mais inteligentes que um chimpanzé. Vamos lá inventar uma medida de inteligência que faça dos humanos seres únicos. Digamos que a inteligência é a capacidade de compor poesia, sinfonias, fazer arte, matemática e ciências, digamos assim. Usemos por agora esta definição arbitrária de inteligência. Os chimpanzés não sabem fazer nada dessas coisas. E, no entanto, temos 98/99% de ADN idêntico. O chimpanzé mais inteligente de sempre talvez saiba comunicar com gestos. Bem, as crianças sabem fazer isso (...).
Tudo o que somos, que nos distingue dos chimpanzés, vem dessa diferença de 1% no ADN. Tem de ser, porque essa é a diferença. O telescópio Hubble [está] nesse 1% (...).
Imaginem outra forma de vida que seja 1% diferente de nós, no sentido em que somos diferentes do chimpanzé. Pensem nisso. Temos 1% de diferença e construímos o telescópio Hubble. Avance-se mais 1%. O que somos nós para eles? Seríamos patetinhas na presença deles (...). Pensem na inteligência que haviam de ter. A mecânica quântica seria intuitiva para os bebés deles. Os miúdos haviam de compor sinfonias inteiras. E, como eu disse, só para pôr na porta do frigorífico – assim como expomos na porta do frigorífico as colagens que os nossos miúdos fazem.
Portanto, a noção de que vamos encontrar seres inteligentes e conversar com eles... Quando é que foi a última vez que pararam para conversar com uma minhoca? Ou com um pássaro? Quer dizer, podem ter conversado som eles, mas acho que não estavam à esperava de uma resposta, ou estavam?
No sítio onde fui buscar a transcrição da palestra, porque não me apetecia nada estar eu próprio a transcrevê-la, tinha alguém comentado (traduzo com ortografia corrigida):
Sigo o raciocínio do Dr. Neil: se houver seres extraterrestres que tenham 1% de diferença do nosso ADN, também podem ser considerados deuses, porque a sua inteligência nos faz parecer parvos.
Bom, deixando de lado a discussão da abstrusa tese de que os deuses são astronautas, pode considerar-se que este comentário aponta precisamente para o que motivou este texto: a possibilidade de comunicação entre o humano e o divino. É certo que divindades há muitas, mas centremo-nos na que mais diametralmente se opõe aos humano por tudo poder, tudo saber e tudo ser, enfim. É claro, entre o Deus das religiões monoteístas e os seres humanos não há propriamente diferença genética, mas não é por isso que deixa de haver diferença entre a capacidade de entendimento do dito criador e das suas ditas criaturas. E convenhamos que seria seguramente considerado blasfemo, por quem acredita nesse deus, afirmar que não é infinitamente maior a diferença entre a inteligência de Deus e a inteligência de uma pessoa do que a diferença entre a inteligência de uma pessoa e a inteligência de, ponhamos, uma minhoca.

Outra maneira de ver a questão é que, sendo absoluto e perfeito o entendimento divino, há, para todos os efeitos práticos, a mesma diferença (uma diferença infinita) entre essa inteligência infinita e a inteligência de qualquer ser com inteligência finita, pelo que, na relação com um deus perfeito, um ser humano não está num plano superior a uma minhoca. E, se podemos aceitar que Deus nos possa compreender, porque ele, por definição, pode tudo, não faz sentido nenhum pensar que uma pessoa alguma vez possa entender o que quer, pensa ou planeia um entendimento infinitamente superior ao seu como é o do deus das religiões monoteístas. Seria infinitamente mais difícil que uma minhoca entender isto que estou aqui a escrever. E estamos de acordo que uma minhoca não entende isto, não estamos[2]?

Já se argumentou muitas vezes que é blasfemo agir em nome de um Deus que tudo pode; mas é pelo menos tão blasfemo acreditar que se pode compreender o que pensa esse Deus – e, por conseguinte, o que deseja de nós. De maneira que a única atitude religiosa que me parece coerente quando se tem uma conceção tão elevada do divino é a dos místicos que propõem, como única forma possível de comunicação com o divino, o esvaziar-se de todo o seu entendimento. No nada, cabe tudo; na nossa compreensão, não.
___________________

[1] Peço perdão pela redundância, mas sou obrigado a usá-la, numa época em que prolifera o uso de expressões como “medicina tradicional”, “medicina natural”, “medicina alternativa”, medicina isto-e-mais-aquilo… Alguém me contava uma vez, mas esqueci nomes e pormenores, infelizmente, de um fundador de um departamento de Psicologia Experimental numa universidade que se queixava de ser necessário chamar-lhe assim, como se toda a Psicologia não tivesse de ser de alguma forma experimental…
[2] «Não!», ouvi uma voz gritar perto de mim. Assustei-me. Não estava ninguém em casa. Ou, pelo menos, não devia estar, àquela hora. A voz parecia ter vindo chão. Olhei e era uma minhoca. Tinha sido ela a gritar, claro. Pronto, estava esclarecido o mistério do grito. Mas faltava esclarecer outro mistério: como teria uma minhoca ido parar ao meu escritório?

10/04/11

Falar bem


“Quando aqui chove, chove a sério. Quando morávamos no Alto Molócuè, só com a água que caía do telhado, chegámos a encher em vinte minutos um tanque de três mil litros que nós tínhamos. Só de uma das águas do telhado: a água escorria para umas calhas por baixo dos beirais e depois por um algeroz para o tanque. A casa tinha uns cento e tal metros quadrados, de maneira que está a ver.”
O amigo a quem quero explicar a violência das chuvadas em Moçambique diz que sim, que está a ver; mas, na realidade, não tem nenhuma possibilidade de me compreender, vejo eu agora. E não é por nunca ter visto chuvas como as do Alto Molócuè, que já umas quantas vezes as apanhou em Portugal da mesma intensidade. Com os números todos que dou, até parece que estou a fazer uma descrição rigorosa, mas é completamente impossível, a partir do que eu digo, fazer uma ideia clara da quantidade de chuva que eu quero referir.
Um princípio ético comum a várias religiões e filosofias é que se deve pensar bem, falar bem e agir bem. É um princípio tão sedutor como vago, se é que não é mesmo por ser vago que é sedutor. Se os princípios de falar bem e agir bem são independentes um do outro e cada um deles de falar bem, já falar bem não se consegue separar dos outros dois princípios – porque para falar bem é preciso pensar bem e porque falar bem é uma boa acção… A sério. E foi o que eu não fiz quando tentei explicar ao meu amigo a violência das chuvas no Alto Molócuè. Nem uma coisa nem outra… nem outra.

10/05/10

A falar é que a gente se entende, etc.

Costuma-se dizer que a falar é que a gente se entende, mas não é bem assim. Não que eu ache que a afirmação seja essencialmente falsa, mas julgo que precisa de alguma afinação para se tornar mais verdadeira. Parece-me muito mais justo que se afirme: em geral, é só a falar que temos possibilidades de nos entender, mas nem sempre conseguimos entender-nos falando.

Admito que, em certas ocasiões, possamos receber informações precisas do que nos quer dizer outra pessoa sem passar pela língua ou por formas de a transcrever. Sinais de bandeiras para navios ou sinais de trânsito não contam aqui, porque continuam a ser uma maneira de “escrever” frases da língua («É proibido transitar a menos de 60 metros do veículo precedente»), mas já um mapa talvez não seja apenas uma transcrição gráfica de uma descrição linguística de um lugar (?). E há gestos, expressões do rosto e atitudes corporais, e sons não linguísticos, como o choro, que podem, às vezes, transmitir mensagens – mensagens sempre muito simples, mas às vezes bastante claras.

Agora, também se exagera muito o potencial comunicativo da gestualidade e do olhar e de outras formas não linguísticas de expressão. A música, por exemplo… Como para aí se exagera – e com que frequência – a capacidade de comunicar da música… Ora, mesmo que admitamos que uma música pode comunicar “estados de alma”, só o pode fazer a um nível muito primário. Decerto que não se pode saber, ouvindo uma música “triste”, porque é que ela é triste – se fala de uma pena de amor, de um grande acidente de autocarro com muitos mortos, de solidão ou de frustração no emprego. Muito menos podemos saber se fala de algo que se passou anteontem ou no séc. XII.

Como eu costumo dizer para acabar com o delírio metafísico sobre a comunicação não linguística, não se pode pedir um cigarro a ninguém tocando guitarra, nem encomendar, com um solo de violino, “uma bilha de gás para o bairro Tambara 2, virando à esquerda mesmo quando acaba o alcatrão e depois na casa de muro cor de tijolo logo na primeira esquina, e com urgência, por favor, porque não tenho gás, nenhum, nenhum, nenhum”, nem fazer ao piano um pequeno resumo do que se fez no último fim de semana – tudo tarefas bastante fáceis com palavras. Tarefas bastante fáceis, mas, ainda assim, sujeitas a ruído, à possibilidade de alguma incompreensão. E claro, quanto mais abstracto ou complexo for o que se comunica, maior é a possibilidade de surgirem buracos de incomunicação no meio do que é comunicado.

Uma das ideias recentes de Noam Chomsky relativamente a língua é, precisamente, que, se é um mecanismo que funciona bem para pensar, funciona mal para comunicar – que não é para isso que ela evoluiu*. Não quero entrar agora nesta discussão, que é já muito velha (qual a função essencial da linguagem, para que finalidade a desenvolvemos?), mas apenas usar este trampolim retórico para dar um salto na conversa e constatar que poucas são as pessoas capazes de valorizar, na linguagem, a comunicação acima de tudo o resto… A prova disso é que passamos a vida a apontar como erros (se verdadeiros erros ou não pouco interessa para esta conversa, o que interessa é que os apontemos como tal) maneiras de dizer as coisas que não são obstáculo nenhum ao entendimento do que foi dito. Passamos a vida a valorizar o como se diz relativamente àquilo que se diz – se bem que não passe pela cabeça de ninguém afirmar que a função essencial da linguagem seja dizer as coisas de acordo como uma regra...

“Às vezes, nem se percebe bem onde queres chegar”, dirão alguns, “com essa tua conversa. Não é o mesmo com todas as actividades humanas? Não tem de se demonstrar em todas elas uma socialização que passa pelo respeito de regras irrelevantes do ponto de vista prático? Que interesse tem para a nutrição humana não pôr os cotovelos na mesa enquanto se come?” Claro, e eu peço desculpa por tão longo desvario. Quando comecei este texto, era outra ideia que eu tinha em mente: a ideia de que, do ponto de vista da comunicação, a correcção nem sempre é o mais eficaz.

Um colega meu, professor de português no Barreiro, já há uns bons 22 anos, dizia-me uma vez que a correcção é relativa e que, quando se é adepto do União de Tomar e se é provocado, no Estádio do Fontelo, em Viseu, pelos adeptos do Académico de Viseu, com quem o clube de Tomar acaba de perder, o que é correcto é gritar «Vocês ós despois hádem lá ir a Tomar e a gente logo conversamos!». Evidentemente, o meu amigo não tinha razão, pelo menos se tomarmos a palavra correcto no seu significado mais comum, que de relativo tem muito pouco; mas que a frase por ele proposta é, no contexto, mais eficaz para se comunicar o que se pretende a quem se pretende comunicá-lo do que a frase directamente correspondente em português televisivo, isso estou disposto a aceitar – numa frase assim, o significado é simples e é o mesmo na versão mais standard e na versão mais popular que referi, mas a indicação adicional que quem a profere dá sobre a sua pessoa é que é diferente, e é por isso que a frase menos standard é melhor, não vão os chavais de Viseu pensar que os gajos de Tomar são alguns pipis…

Se estou a brincar? É claro que estou, mas estou a brincar a sério. Este texto surgiu-me de uma conversa comigo mesmo (e para quê, se já sei tudo o que me digo?…), no outro dia, aqui em frente ao computador e a uma tradução: “Mas para que passas tu tanto tempo, diz-me lá, à procura da forma correcta de dizer em português o que aqui está em inglês, se as pessoas a quem isto se destina, falando português entre elas, vão usar as palavras em inglês que tu traduziste para português e vão estar-se nas tintas para as palavras portuguesas que te deram tanto trabalho a encontrar?” A questão é que essas pessoas não são tradutores, são técnicos, e aquilo que elas querem é, precisamente, comunicar… A sério. Preparem para uma reunião técnica de economistas, publicitários ou técnicos de informática, por exemplo (por exemplo...), uma intervenção em que usem apenas vocabulário que foram penosamente seleccionando como sendo, nesta maravilhosa língua de Filinto Elísio, o mais adequado para substituir as detestáveis palavras estrangeiras que costumam conspurcar o discurso nestas áreas técnicas. Pois bem, correm o risco de ninguém vos entender…

Mais longe não vou, mas todos podem complementar este texto com exemplos próprios: vejam lá se não encontram, no vosso dia a dia, exemplos de conversas ou textos em que a correcção se revela, em maior ou menor grau, menos eficaz para a comunicação do que a maneira… hmmm… normal de dizer as coisas.

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* Numa conferência na Johannes-Gutenberg University, a 24 de Maio de2010, Chomsky disse, por exemplo, que “language is very well designed for thought and very badly designed for communication.”. A ideia não é nova em Chomsky (foi desenvolvida, por exemplo, num artigo na revista Science, em 2002, a a que, infelizmente, não se pode aceder gratuitamente…) e, claro, está longe de ter sido conseguido consenso na comunidade de linguistas... (Quem se interesse por estas coisas pode ver, por exemplo, a discussão por Steven Pinker e Ray Jackendoff da teoria de Chomsky (de que também não encontro, infelizmente, versão em acesso gratuito.)