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18/05/15

Louvor do formato digital e a importância da facilidade

A primeira vez que fiz uma análise de um texto em formato digital foi em 1996. Muita gente trabalhava já com computadores há muito tempo, mas, para mim, era uma coisa completamente nova – e era mesmo a ferramenta que me fazia falta. Deu-me um jeitão o find e o find&replace para saltar de uma para outra ocorrência das palavras que me interessavam e para contar essas palavras. «Se eu tivesse tido esta ferramenta antes, de cada vez que fiz à mão levantamentos de ocorrências em textos longos!...», pensei eu.

Lembro-me de que a primeira obra de que fiz um levantamento de palavras foi Os Lusíadas. No meu primeiro ano na universidade, tive um cadeira cujo programa incluía a construção do nacionalismo na literatura portuguesa e, quando vi que Os Lusíadas faziam parte das obras a estudar, fiquei surpreendido («Nacionalismo? Como pode haver nacionalismo em Camões, no tempo de Camões?») e decidi ir ver o que dizia o texto. Demorou-me nessa altura muito tempo a fazer o que acabo agora de repetir em cerca de meia-hora (por ter sido tão à pressa, pode haver um ou outro erro de contagem, mas há de ser coisa pouca): Nação ocorre 7 vezes no singular, 5 das quais referindo Portugal. O nome pátria ocorre 33 vezes no singular. Tem, nalgumas dessas ocorrências, sentido genérico, mas, fora isso, nunca refere outra pátria que não seja Portugal. Reino ocorre no singular 86 vezes, referindo Portugal 40 vezes e referindo outros reinos em vários casos.

É claro, um levantamento deste tipo diz apenas que, como seria de esperar, não há quase nação na obra e que predominam as noções de pátria ou reino, mas não diz nada sobre elas. Isso seria outra conversa. Esta conversa é só sobre fazer levantamentos em textos, antigamente e agora, para dizer que agora se fazem incomparavelmente mais depressa. No outro dia, fiz, para um texto que aqui pus, um levantamento rápido de sossego, sossegado e formas do verbo sossegar na primeira edição dos Lusíadas. Faz-se em segundos, usando a versão em formato digital, mas, se não tivesse acesso a essa versão, é óbvio que nunca o teria feito.

Não sei se o material tem sempre razão, como costuma dizer-se, mas o suporte material da informação condiciona o que se pode pensar sobre essa informação. Analisar qualquer coisa é uma atividade como outra qualquer (como preparar terrenos para cultivo, por exemplo) e depende, em grande medida, não só da vontade e da possibilidade, incluindo conhecimentos, mas também da facilidade de acesso a dados e da facilidade de os manipular, não é verdade?, do esforço que para isso tenha de se fazer.

29/09/13

Os pepinos do pátio traseiro e outras experiências científicas

Têm tido alguma divulgação, e às vezes até fora das habituais páginas dedicadas a teorias da conspiração e palermisticismos new age, duas experiências realizadas por alunas do secundário, uma na Dinamarca e outra nos Estados Unidos da América, que revelariam os perigos das ondas de rádio de wifi e das micro-ondas, respetivamente. A verdade, porém, é que as duas experiências revelam, quando muito, o dinamismo das alunas que as realizaram e as suas convicções – e apenas isso.

Tem de se ir um bocadinho além do imediatismo das relações de causa e consequência que o senso comum estabelece para se ter uma proposta de verdade relativamente fiável. Para que duma experiência se obtenham conclusões suficientemente sólidas, há que fazer observações de controlo e o número de observações deve ser estatisticamente relevante, não é verdade? O plural de caso isolado não é dados, como costuma dizer-se. E é preciso ter um cuidado especial quando o investigador tem uma hipótese em que acredita à partida (o que parece ser o caso em ambas as experiências), porque isso pode levar a enviesamento inconsciente na observação. Uma boa maneira (a maneira normal, de facto) de lidar com esta possível parcialidade é o trabalho ser revisto por outras pessoas, especialistas na matéria, que não partilhem as convicções do autor do trabalho. Sem estarem satisfeitas todas estas condições de estabelecimento da probabilidade de uma relação causal, o bom senso manda que nos abstenhamos de concluir seja lá o que for.

Notem bem que não tenho a certeza de que o wifi seja perfeitamente inócuo para plantas e animais e que o micro-ondas não afete a água que ferve – nem isso, nem o contrário. Mas há bastantes estudos sobre ambos os assuntos e não é difícil, a quem queira mesmo explorar as questões, encontrar informação na Internet. No geral, os estudos realizados não encontraram perigos nem nas ondas de wifi nem efeitos negativos no aquecimento pro micro-ondas, mas há vozes discordantes. Acho bem que continue a fazer-se investigação sobre a questão. O que eu não acho bem é que se apresentem como conclusivas experiências que de modo algum o são.

Dois pepineiros que estão no pátio traseiro de minha casa. Desculpem lá o da direita estar coberto por um tomateiro, mas não quis tirar de lá o tomateiro só para fazer a fotografia. Mas vê-se bem que está ainda vivo e relativamente verde. O tomateiro está há pouco tempo ao lado do pepineiro e a diferença entre os pepineiros era já muito grande antes de ele para lá ir. Os dois pepineiros são do mesmo pacote de sementes e foram, claro, regados com a mesma água. Apanharam o mesmo sol. E isto prova o quê?

01/09/13

Autoestradas de informação?

Não é a estrada que modela o veículo que nela circula. Obviamente, as autoestradas de informação podem também ser as autoestradas de desinformação. Podem ser, não – são-no de facto, em muitos casos.

Há uns meses, vi de repente invadir o meu newsfeed do Facebook a notícia de que tinham sido proibidos e queimados, na Hungria, os cereais geneticamente modificados. Muita gente se deve ter interrogado e especulado sobre a questão: por que teria sido a Hungria – ou, mais concretamente, o seu atual governo de extrema-direita – a ter uma reação tão violenta contra os OGM? Curioso que sou, e espicaçado, ademais, pelo facto de os links que se iam espalhando pelo newsfeed levarem sempre a páginas de que nunca tinha ouvido falar, fiz o que faço sempre nestas situações: selecionei o título de uma dessas notícias, cliquei do lado direito do rato, escolhi Search Google for... e a pesquisa deu-me centenas de versões da notícia, que podia começar a analisar. Não demorei muito tempo a concluir duas coisas: que a notícia tinha pelo menos dois anos[1] e que não se encontrava em nenhum jornal de referência, ou, pelo menos, num jornal que eu pudesse classificar como “em princípio credível”.

Tenho a certeza de que nenhum dos meus amigos que partilharam a notícia teve o cuidado de fazer o que eu fiz. Porquê? Uns, porque confiaram nas pessoas de quem receberam a notícia; outros, porque se dispõem a aceitar acriticamente como, pelo menos, interessante e merecedor de divulgação todas as ações anti-OGM; e, a grande maioria, porque isso não faz parte das suas rotinas e dos seus hábitos – da sua cultura em sentido lato. Agora, pode considerar-se ligaçoes para este tipo de artigos de jornal – se é que de artigos e de jornal se pode falar – informação?

A histórias dos cereais húngaros é um exemplo apenas, de um sem-número que podia ter escolhido.  “Antigamente”, diz um desses irritantes aforismos apócrifos que correm o Facebook à força de cliques fáceis, “para um boato se espalhar, tínhamos de dar tempo aos barbeiros e aos motoristas de táxi de fazer o seu trabalho; hoje, é muito mais rápido – click & share, temos o Facebook.” Muito pós-modernos na (quase) autorreferência, este aforismo tem, ao contrário da maior parte dos que por aí circulam, realmente visos de verdade…

Agora, no meu newsfeed do Facebook não passa só este tipo de des-informação. Também tenho amigos com uma cultura de rigor informativo, que não publicam ligações para textos sem verificar a sua credibilidade, que não publicam textos apócrifos nem imagens sem referir a autoria, etc. Foi também no newsfeed do Facebook que me apareceu uma ligação para os comentários que Shi Zhou, investigador em Informática, faz a um estudo sobre a evolução do boato nas redes sociais de que é coautor[2].
Uma observação interessante desta pesquisa é que a desigualdade não é reduzida, mas sim intensificada, em redes sociais modernas. A nossa pesquisa sugere que as redes sociais modernas têm de facto aumentado a disparidade entre a qualidade da informação a que os diversos grupos sociais têm acesso. Sabe-se que as pessoas muitas vezes alteram uma mensagem, acidental ou deliberadamente, antes de a transmitir a outros. (…) Nós mostramos que, embora só uma pequena parte da população tenha o hábito de alterar a informação, a maioria da sociedade apenas recebe mensagens repetidamente modificadas. Nem toda a gente, porém, é afetada da mesma maneira. As pessoas com muitas ligações normalmente recebem mensagens mais autênticas que as pessoas com menos ligações. O que é surpreendente é que essa desigualdade não é mitigada, mas antes agravada, em redes sociais, onde as tecnologias modernas permitem a um pequeno número de pessoas adquirir um número de ligações desproporcionalmente grande. Neste caso, os super-relacionados são mais favorecidos, recebendo informação quase genuína muito próxima de sua forma original, ao passo que os solitários, que têm um pequeno grupo de relações nas margens da sociedade, estão irremediavelmente prejudicados por lhes serem sempre transmitidos boatos fortemente distorcidos.
É uma estudozinho e vale o que vale. Não quero, sobretudo que entendam esta citação de Shi Zhou como inserindo-se no espírito, que está longe de ser o meu, de criticar os efeitos do progresso e das tecnologias: “Estão a ver, afinal com a Internet e as redes sociais ainda estamos piores que antes!...” Não é nada disso, mas também é importante, para não cair numa idealização fácil das redes sociais, nunca perder de vista um facto simples para que nos chama a atenção o Daniel Innerarity:
Há muito quem creia que uma nova tecnologia surge no vazio, fora de um contexto social ou económico, mas não é assim. E é por isso que a mesma (nova) tecnologia tem efeitos diferentes em sítios diferentes, ou traz mudanças ”imprevistas” ou ”indesejadas”, em vez das mudanças com que sonháramos[3].
Podemos querer que a Internet e as redes sociais alterem as relações de poder, e podemos fazer algo por isso. Mas não esqueçamos que, à partida, as tecnologias reproduzem sempre as relações de poder existentes. Ou podem até, se a tese de Shi Zhou estiver certa, reforçá-las...
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[1] Não é invulgar começarem a ser difundidas no Facebook notícias antigas, sem que ninguém se dê conta da sua desatualização – e às vezes têm bem mais que dois anos…
[2] Yichao Zhang, Shi Zhou et al. Rumor evolution in social networks. 26 de Abril 2013 University College London (UCL). Podem ler o trabalho aqui, mas algumas partes são muito técnicas.
[3] Daniel Innerarity é professor de filosofia da Universidade de Saragoça e investigador, e as suas ideias são-nos apresentadas por Ismael Peña-López em http://ictlogy.net/20120125-daniel-innerarity-politics-in-the-era-of-networks/, a partir das notas que tirou na conferência Politics in the era of Networks, realizada em Barcelona em Janeiro de 2012.