14/08/26

Canções sobre músicos #1: Bob Dylan

Para muitas e muitos artistas, é importante situar-se e situar a sua arte num movimento, numa tradição, numa linhagem, etc. Na canção, uma maneira interessante de deixar clara uma filiação estética é dedicar canções aos seus ídolos. E este é o primeiro de uma nova série de breves apontamentos sobre esse tema: canções sobre músicos.

Começo com Bob Dylan. Sendo Bob Dylan uma fonte tão grande de inspiração para tantos compositores de canções, sobretudo nos anos 60 e 70, é natural que haja, como de facto há, várias canções que lhe são dedicadas. Eis duas delas, por dois músicos importantes da música popular da segunda metade do séc. XX.

 ***

Em 1965, Syd Barrett escreveu «Bob Dylan Blues», que viria a gravar em 1970 e que só foi publicado em 2001. Segundo Robert Chapman na sua biografia de Syd Barrett (Syd Barrett: a very irregular head, London: Faber & Faber, 2010), este escreveu o seguinte numa carta à sua namorada (traduzo eu todas as citações): 

Escrevi uma canção sobre Bob Dylan. Pois, pois. Alma. Deus, etc. Começa assim: «Tenho a tristeza de Bob Dylan e os sapatos de Bob Dylan, e tenho o cabelo e a roupa num completo desalinho, mas estou-me bem nas tintas»: Na verdade, é um bocado satírico e humorístico.

E comenta Chapman: 

Para além da pura alegria infantil de fazer rimar «I'm a poet» com «don't you know it», «Bob Dylan Blues» é uma canção irónica e perspicaz, que brinca com o fenómeno Dylan e com a armadilha que a fama é.

A letra da canção faz alusão a várias canções de Dylan, a saber, «Blowin’ in the Wind», «Girl of the North Country», «Down the Highway», «Masters of War», «Bob Dylan’s Blues», «A Hard Rain’s Gonna Fall» e «Bob Dylan’s Dream», todos elas do álbum The Freewheelin’ Bob Dylan, lançado no Reino Unido na primavera de 1964.

Mais diretamente — mas Chapman parece não se dar conta disso — a canção faz referência a «I Shall Be Free No. 10», do mesmo álbum. Além da rima de poet com know it e blow it, Barrett recupera da canção de Dylan também o tom sarcástico. É um talking blues bastante surrealista, que tem passagens como: 

Bem, sou liberal, mas até certo ponto. Quero que toda a gente seja livre, mas se pensas que vou deixar o Barry Goldwater [o candidato presidencial republicano em 1964] mudar-se para a casa ao lado e casar com a minha filha, deves pensar que sou louco! Não deixava, nem que me oferecessem as quintas todas de Cuba. […]

Pediram-me para ler um poema numa associação de estudantes universitárias. Apanhei uma grande moca e fiquei com a cabeça a andar à roda. No fim, tive de levar com a diretora da associação. Iúpi! Sou poeta e sei que sou. Espero não estragar tudo. […]

E para quê ser sarcástico com Dylan, pode uma pessoa perguntar-se, quando Dylan era o primeiro a ser sarcástico consigo próprio?

    

Got the Bob Dylan blues
And the Bob Dylan shoes
And my clothes and my hair's in a mess
But you know I just couldn't care less
Goin' to write me a song
'Bout what's right and what's wrong
'Bout god and my girl and all that
Quiet while I make like a cat
Cause I'm a poet, don't ya know it
And the wind, you can blow it
Cause I'm Mr. Dylan, the king
And I'm free as a bird on the wing
Roam from town to town
Guess I get people down
But I don't care too much about that
Cause my gut and my wallet are fat
Make a whole lotta dough
But I deserve it though
I've got soul and a good heart of gold
So I'll sing about war in the cold
Cause I'm a poet, don't ya know it
And the wind, you can blow it
Cause I'm Mr. Dylan, the king
And I'm free as a bird on the wing
Well I sing about dreams
And I rhymes it with «seems»
Cause it seems that my dream always means
That I can prophesy all kinds of things
Well the guy that digs me
Should try hard to see
That he buys all my discs and a hat
And when I'm in town, go see that

***

Em 1971, David Bowie também escreveu uma “Song for Bob Dylan”, em que se dirige diretamente a Dylan tratando-o pelo seu nome de batismo, Robert Zimmerman, e deixando claro logo de início que a canção lhe é dedicada mas não é sobre ele, Zimmerman, mas sim «sobre um rapaz estranho chamado Dylan, com uma voz que era como areia e cola» e com palavras que «agarravam as pessoas à terra», que «convenceram alguns» e «assustaram muitos mais».  

David Bowie incita claramente Robert Zimmerman a reativar a sua personagem Bob Dylan, que estava meio adormecida naquela altura, para voltar a ser o líder incontestado da música moderna, como o fora na primeira parte da década anterior. Diz Bowie em 1976, numa entrevista ao Melody Maker, que, por muito que «Song For Bob Dylan», «não fosse uma das [canções] mais importantes do álbum, definia o que [ele] queria fazer no rock»: 

Foi nesse período que eu disse «OK, Dylan, se não queres fazer isso, faço eu». Vi essa falta de um líder. 

Estranhíssimas declarações, não acham?

Oh, hear this Robert Zimmerman
I wrote a song for you
About a strange young man called Dylan
With a voice like sand and glue
Some words had truthful vengeance
That could pin us to the floor
Brought a few more people on
And put the fear in a whole lot more
[Refrão]
Ah, here she comes
Here she comes, here she comes again
The same old painted lady
From the brow of the superbrain
She'll scratch this world to pieces
As she comes on like a friend
Couple of songs from your old scrapbook
Could send her home again
Gave your heart to every bedsit room,
At least a picture on my wall
And you sat behind a million pair of eyes
And told them how they saw
Then we lost your train of thought
Your paintings are all your own
While troubles are rising, we'd rather be scared
Together than alone
[Refrão]
Now hear this, Robert Zimmerman
Though I don't suppose we'll meet
Ask your good friend Dylan
If he'd gaze a while down the old street
Tell him we've lost his poems
So we're writing on the walls
Give us back our unity
Give us back our family
You're every nation's refugee
Don't leave us with their sanity
[Refrão]

Sem comentários: