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18/06/18

Mais coisas sem importância nenhuma

Acontece-me às vezes desviar-me ligeiramente da ortografia oficial, em certos contextos, quando creio ter razões lógicas para o fazer e quando me sobra paciência para assumir o desvio. Mas é muito raro. Normalmente, limito-me a seguir as regras ortográficas, concorde ou não com elas, porque insistir na lógica a contracorrente dá demasiado trabalho.

Vejam a questão do agá inicial, por exemplo. Para mim, é óbvio que o agá é um resquício de uma lógica ortográfica anterior à perspetiva fonológica que foi introduzida pela reforma republicana de 1911. Eliminaram-se muitas letras sem outra função que não fosse dar conta da «etimologia», mas, por alguma razão, considerou-se mais importante conservar o agá que outras letras apenas etimológicas. A verdade, ao que vou constatando, é que toda a gente acha impensável escrever «oje às duas oras», mas ninguém se importa de escrever espanhol, erva, arpão e agora, que, para seguirem a mesma lógica etimológica também deviam ter agá. É assim a vida e para mim está muito bem, paciência, não chateio ninguém com o agá inicial…

Pois, escrevo mais uma vez sobre ortografia – maldita mania –, mas, vá lá, não quero falar de nenhuma dessas grandes questões ortográficas que empolgam os ânimos, como os agás iniciais. Hoje falo só de picuinhices, coisas sem importância absolutamente nenhuma…

1. Considerem, a seguinte série:
Para que fim contribui isso?
Para que contribui isso?
Com que ferramenta cortaste isso?
Com que cortaste isso?
De que material é isso feito?
De que é feito isso?
Por que razão chegaste atrasado.
Porque chegaste atrasado?
Porque, pronome interrogativo? Hmmm, não há *paraque, nem *deque, nem *conque… Devia ser por que, claro, como em castelhano ou na tradição brasileira. Pobre palavra pronome, que é quase como advérbio, pau para toda a colher…

2. Uma coisa simples era também distinguir o verdadeiro advérbio afinal (=finalmente) de um sintagma preposicional a final de (=no fim de). Afinal de contas não está bem, por muito que seja grafia consagrada: é finalmente de contas ou no fim de contas que se quer dizer?

3. Surgiu-me no outro dia um exemplo de uma ambiguidade possível em português, que, de tão rara, nunca encontrei nada do tipo. Consideram a frase:
A proposta foi ética e eficazmente elaborada.
Já não vou ao ponto de sugerir que se grafe mente separado, o que a etimologia e a sintaxe até podiam justificar (é como tirar os agás iniciais, não vale a pena pensar nisso), mas, se se considera o advérbio uma unidade, bem que podia marcar-se a falta do elemento -mente nos casos em que ele é obrigatoriamente omisso. Uma sugestão óbvia é o uso de um hífen:
A proposta foi ética- e eficazmente elaborada.
Ficamos assim a dizer o que queremos. Este uso não é nenhuma invenção minha, quando muito uma importação: na escrita do inglês, isto é standard em palavras compostas com hífen (self- and peer-evaluation, pre- and post-war, etc.) e debatido, mas muitas vezes usado, em compostas sem hífen com uma parte naturalmente omissa na oralidade (up- and downwards para up[wards] and downwards ou super- and paranormal para super[normal] e paranormal). Na escrita de outras línguas, como as línguas escandinavas e o alemão, pelo menos, o procedimento é standard para todas as palavras com elementos omissos na(s) primeira(s) palavras de uma enumeração de compostas com o mesmo segundo elemento: okse- og lammekød («carne de vaca e borrego», DK), laut- und spurlos («sem [deixar] som nem rasto», DE]. Pode até acontecer que se omita mais que um elemento comum no início e no fim das palavras como no alemão Sonnenauf- und -untergang, («nascer e pôr do sol»), em que, na primeira palavra, o hífen marca a omissão de Gang e, na segunda, de Sonnen.

É certo que só por causa das ambiguidades entre adjetivos e advérbios em -mente, de tão insólitas que são, não valeria muito a pena pensar nisto, mas a verdade é que a mesma questão se põe muitas vezes com outros compostos: às vezes, sem o hífen, não ficamos com ambiguidade, mas ficamos com uma palavra inexistente, porque é um elemento sem autonomia que ali surge. Era melhor escrever «macro- e microeconomia», por exemplo – porque não falamos de nada chamado *macro, mas sim de uma coisa chamada macroeconomia –, como era melhor escrever-se «separadores pré- e pós-processamento», em vez de «separadores pré e pós-processamento», como agora se escreve – pelo menos se não quisermos recorrer a «separadores pré-processamento e pós processamento», que até não me soa mal, mas me parece escusado…


07/07/15

Ambiguidade e ordem das palavras


[Homonímia e ambiguidade]
Dizia-me alguém, numa discussão sobre o acordo ortográfico, que a homonímia de ato (do verbo atar) e ato (ação) podia causar ambiguidade em certas frases. Se for verdade, é preciso dar muitas voltas à cabeça para encontrar um caso em que isso possa acontecer; e eu, que até tenho jeito (gaba-te, cesto…) para descobrir este tipo de curiosidades, não consigo inventar uma frase com uma ambiguidade que resulte de uma coisa dessas. Imaginem o que seria se se confundissem de alguma forma calo e calo, coma e coma, falo e falo, mato e mato, nada e nada, rio e rio, saia e saia… e os outros milhares de casos em que há uma forma verbal e um nome com a mesma forma fonética e gráfica (é um jogo engraçado, vejam lá quantas homónimas deste tipo conseguem encontrar).

Eu diria antes que, em princípio, nunca há ambiguidade entre homónimas de categorias morfológicas diferentes – que não podem, por isso, ocorrer no mesmo contexto. Mais provável seria a ambiguidade criada por homónimas da mesma categoria ou, como é mais comum, palavras que podem referir vários entes ou objetos, ou que podem deles predicar várias qualidades, estados, atividades, etc., como corrente, mangueira, número, esperar, comer, etc. Mesmo para estas palavras, porém, é preciso dar muitas voltas à cabeça e não vejo bem, por exemplo, em que situação alguém fique na dúvida, quando ouve falar de gatos, se se trata de felinos domésticos, de enganos nas contas, de grampos, ou de pieira…

Significa isto que não existem frases ambíguas? De modo algum. É claro que existem frases ambíguas!, mas são outras as causas da verdadeira ambiguidade – ou anfibologia, como só agora descobri que também se pode chamar. A ambiguidade mais comum, estou eu em crer, resulta da maneira como se ordenam na frase certos elementos – de não se poder decidir se uma expressão modifica, por exemplo, a frase toda ou um sintagma apenas. Dou-vos um exemplo tirado de um e-mail que recebi um dia destes:
Havemos de descobrir como fazer o pagamento antes de ele começar o trabalho.
Sem mais informação, uma pessoa não sabe se a ideia é fazer o pagamento adiantado ou apenas descobrir antes do início de trabalho como será feito o pagamento (era este último significado que se queria dar à frase.)

[Posição livre e posição fixa de advérbios nas frases]
Não vos vou maçar agora com uma lista de exemplos de ambiguidades, há dezenas de páginas na Internet sobre o assunto. Quero só referir uma coisa curiosa, a propósito da posição dos advérbios e locuções adverbiais nas frases: ouvi dizer várias vezes, algumas delas a mim próprio, que, nas línguas latinas, a posição dos advérbios é livre, ao contrário do que acontece em dinamarquês (e creio que várias outras línguas germânicas, mas só conheço bem o caso do dinamarquês). Mas isto nem sempre é verdade. E nem sempre é só para resolver ambiguidades que o advérbio tem de estar, em português, numa determinada posição. É certo que, como declaração simples, tanto faz dizer Amanhã vou a Copenhaga como Vou amanhã a Copenhaga como Vou a Copenhaga amanhã, mas Sempre vou a Copenhaga nas férias é diferente de Vou sempre a Copenhaga nas férias e tanto ?Vou a Copenhaga sempre nas férias como ??Vou a Copenhaga nas férias sempre são fases muito estranhas, se não claramente agramaticais.

Como se passam as coisas nas línguas em que há uma posição fixa dos adverbiais? Não pode isso também criar ambiguidades? Quando comecei a aprender dinamarquês, achava muito estranho, por exemplo, que se fizesse obrigatoriamente a negativa de verbos de opinião e afins e nunca das suas completivas. Não se pode, por exemplo, construir uma frase com a estrutura que corresponde diretamente a Acho que ele não tem razão, tem obrigatoriamente de usar-se a estrutura correspondente a Não acho que ele tenha razão. Pode pensar-se que a questão da negativa simples é outra história, mas, se substituirmos não por nunca ou sempre, a regra continua a aplicar-se. A verdade é que, por muito que a frase Acho que ele nunca tem razão não seja, stricto sensu, o mesmo que Nunca acho que ele tenha razão, não há, na prática, diferença nenhuma entre as duas frases e há que dar algumas voltas à cabeça para encontrar uma frase em que a negativa da principal produza um sentido diferente da negativa da completiva. E o mesmo se pode dizer em relação a um advérbio como sempre: Acho sempre que ele toca bem é, na prática, o mesmo que Acho que ele toca sempre bem.

Mas é sempre assim? Bom, a frase, Acho que ele não é muito inteligente, por exemplo, é já claramente diferente de Não acho que ele seja muito inteligente, se esta última frase se usar para negar a superior inteligência de alguém sem lhe negar inteligência – que é o que se faz com a primeira frase: nega-se-lhe a inteligência, precisamente. Mais complicadas também são frases como Penso às vezes que ele é uma pessoa atormentada e Penso que ele às vezes é uma pessoa atormentada, que são bem diferentes uma da outra, não é verdade? E então, como resolvem isto as línguas de posição fixa do advérbio? No primeiro caso, a ambiguidade desfaz-se normalmente com seleção de palavras diferentes: para negar a inteligência de alguém, dir-se-á o que, diretamente traduzido, corresponde a Acho que ele não é especialmente inteligente; e, para negar que alguém é tão inteligente como se afirma, usa-se a estrutura corresponde ao português Acho que ele não é [assim] tão inteligente; e em nenhum caso a frase com muito inteligente é bem aceite pelos falantes. No segundo caso, como se trata de desfazer realmente uma ambiguidade, aceita-se o que nos outros casos não se aceita, e pode passar-se a locução adverbial às vezes para a completiva. Como é mesmo necessário, pode dizer-se Penso que ele às vezes é uma pessoa atormentada, com a locução adverbial na subordinada.

Tudo isto para concluir que se deve ter confiança nas línguas, porque elas desenvolvem naturalmente maneiras de evitar as ambiguidades. As ambiguidades são raras e nunca resultam de defeitos do léxico ou da sintaxe, apenas de alguns usos abstrusos (a cacofonia é propositada) das possibilidades que as línguas nos dão.

[Uma digressão: modificadores apositivos e modificadores restritivos]
A propósito de ambiguidades e de línguas germânicas, uma pequena excursão. Saio do domínio da língua e passo para o da escrita. Problemático, por causar frequentes ambiguidades (aqui, podia ser também “por causar frequentemente ambiguidades”, com modificador do verbo, sem alteração do significado) é o uso da vírgula gramatical, à maneira alemã ou dinamarquesa, que obriga a delimitar todas as subordinadas e não distingue, por exemplo, relativas apositivas de relativas restritivas – isso cria ambiguidade:
As associações da região que integravam o projeto receberam formação sobre variedades híbridas.
Com uso obrigatório de vírgulas a delimitar a relativa, ficamos sem saber se receberam formação apenas as associações que integravam o projeto e as outras não (frase acima), ou se todas as organizações da região integravam o projeto e receberam por isso formação, que é o que diz a frase com vírgulas em português:
As associações da região, que integravam o projeto, receberam formação sobre variedades híbridas.
Esta história também tem uma moral: como na escrita se eliminam muitas redundâncias e se usam estruturas normalmente ausentes do discurso oral, podem criar-se na escrita ambiguidades que nunca surgem na oralidade. 

[Ambiguidade ou deselegância?] 
Mas voltemos às ambiguidades causadas pela má ordenação dos elementos da frase, para rematar. É de notar que muitos dos exemplos apresentados quando se fala de ambiguidade são um pouco exagerados. Quer dizer, são frases de facto textualmente ambíguas, mas o contexto ou o senso comum do interlocutor resolve a ambiguidade.

Veja-se, por exemplo, a frase O José falou com o Rui deitado no chão. Vi uma frase semelhante referida como exemplo de anfibologia e é, de facto, uma frase ambígua, mas só se não houver mesmo contexto nenhum, e uma frase assim costuma fazer parte de uma narrativa. Vi algures outro exemplo do tipo O homem disparou sobre o assaltante de pijama. Bom, neste caso, mesmo que não haja contexto nenhum, é difícil imaginar um ladrão de pijama, não vos parece?

O mesmo em relação a estas duas frases curiosas:
Durante o julgamento, a defesa protestou contra o uso de algemas pelo traficante, alegando que ele feria decisão do Supremo 
e
Resgatada mulher sequestrada após passar 21 anos em uma cova
Também é certo que, sem mais contexto, cada uma delas tem duas leituras possíveis, mas uma das leituras é tão estranha que a recusamos imediatamente: o que seria um traficante ferir uma decisão do Supremos e isso ser motivo para recusar o uso de algemas? E não seria azar a mais ser sequestrado depois de passar 21 anos numa cova? Ambiguidade? Em última análise, sim, mas, na prática, é mais de deselegância, de falta de estilo, que se trata nestes três últimos casos, não vos parece?, que propriamente de ambiguidade…

23/02/10

Uma conversa sobre advérbios (2)

Num post anterior, defendia eu que algumas “palavras” normalmente consideradas advérbios talvez não o fossem de facto – mas sem com isso pretender recusar a existência da categoria no seu todo.

Continuo agora essa conversa, sugerindo que talvez seja mais sensato falar em verdadeiros e falsos advérbios. A questão é que, tanto considerando o advérbio uma “classe de palavras” como considerando-o uma categoria apenas sintáctico-semântica, não deixam de se levantar dúvidas (pelo menos) quanto à validade da inclusão de muitas palavras consideradas advérbios numa categoria definida como de “modificadores”, mesmo que alarguemos o sentido de “modificar” de modo a incluir a quantificação, a duração, etc.

É que há advérbios de todos os tipos: há os que não “modificam” nenhuma parte da frase, como JÁ; há os que podem ter no seu escopo qualquer elemento da frase, embora a palavra “modificar” se lhes aplique mal, como TAMBÉM e os advérbios ditos de dúvida; há os que “modificam” apenas o predicado, como muitos advérbios ditos de modo; há os que remetem forçosamente para enunciados anteriores, como DEPOIS.

A primeira coisa que podemos fazer é eliminar à partida, por demasiado espúrios, os que não modificam coisa nenhuma, como o propunha a saudosa Professora Henriqueta Costa Campos*:
(...) Fará muito sentido falar de advérbio, por exemplo, a propósito de já na frase Ele já se levantou, em que já não modifica de forma alguma a frase, marcando antes a construção de uma localização no plano enunciativo? (...) E a definição de advérbio é, sem dúvida, demasiado insuficiente para ser atribuída a mesmo na frase Não, aqui assim na vila, a maioria, mesmo casadas, trabalham, uma vez que, ainda que a palavra mesmo determine a maioria e não casadas, esta determinação é inseparável de um pré construído enunciativo que diz respeito ao estatuto social das mulheres casadas – em princípio, mulheres casadas não trabalham”.
Henriqueta Costa Campos mostra também, no resto do artigo, que TAMBÉM e ATÉ (no seu uso dito adverbial) não podem, com propriedade, ser considerados advérbios.

Veja-se também o caso de EMBORA, entre outros passíveis de discussão. Provavelmente, não há acordo sobre como classificar EMBORA em frases como “Vou-me embora às cinco” ou “Cheguei lá, vim-me logo embora”, mas é, o mais das vezes, considerado um advérbio (à semelhança, por exemplo, do AWAY inglês em “He went away”, ao passo que o EN francês de “Il s’en alla” é considerado normalmente um “pronome adverbial”, para complicar mais as coisas…). Repare-se que, também neste caso, nem sequer de uma função adverbial se pode falar, uma vez que EMBORA não modifica nada, apenas vem preencher o lugar deixado vazio pela omissão de um locativo (donde que se pudesse considerá-lo, como o EN francês, um “pronome adverbial”, se alguém se tivesse lembrado disso…; mas talvez seja melhor nunca ninguém se ter lembrado de tal coisa…). De facto, IR e VIR podem ocorrer não-reflexivamente com um locativo, respectivamente de destino ou de origem, ou (quase sempre) reflexivamente com EMBORA e sem esse locativo: diz-se “Bem, eu vou para casa” ou “Bem, eu vou-me embora”, mas, pelo menos em português europeu moderno, ninguém diz só “Eu vou-me” e muitos menos “Eu vou”.

Mudemos de assunto e entremos então na última parte desta conversa: outra coisa que é interessante constatar é a instabilidade na distribuição de adjectivos e advérbios. O julgamento da gramaticalidade de uma frase como “Ele fez aquilo muito rápido” varia, entre falantes do português europeu. No entanto, esta frase é normalmente considerada bem formada por falantes de outras variantes do português, e a sua correspondente directa é também considerada bem formada por um grande número de falantes de uma língua muito próxima, o castelhano. Tenho um dicionário Oxford bilingue espanhol-inglês (Superlex para Windows, 1996, talvez o dicionários bilingue mais bem concebido que já vi, para o utilizador comum) que considera, aliás, RÁPIDO também um advérbio, de uma forma talvez pouco ortodoxa, mas que, de acordo com a intenção expressa no editorial, dá efectivamente conta do “espanhol (...) falado e escrito nos anos 90 do séc. XX de ambos os lados do Atlântico”. Eis a entrada do dicionário (omito o que não tem correspondência directa em português):
rápido –da adv ‹ hablar/trabajar › quickly, fast; ‹ conducir › fast; ¡vamos, rápido, que es tarde! quick o hurry, we’re late!; tráeme un trapo ¡rápido! bring me a cloth, quick!; ¿puedes ir un poco más rápido? can you go a bit faster?; vámonos rápido de aquí let’s get out of here quickly o (colloq) quick.
É claro, não posso deixar de estranhar a possibilidade de flexão de um advérbio (ou mesmo, se se preferir, a possibilidade de flexão do uso adverbial de um adjectivo)... Não vejo como se possa usar alguma vez em contextos do mesmo tipo do dos exemplos dados a palavra RÁPIDA. Trata-se de um erro. Mas basta tirar o feminino e a proposta está correctíssima! Não considerariam gramaticais as frases directamente correspondentes em português? A mim, nenhuma delas me choca.

Mas enfim, como eu dizia, os juízos de gramaticalidade dividem-se muito nestas situações… Não deixa de ser curioso, porém, que haja absoluta coincidência de todas as opiniões quanto à gramaticalidade do uso adverbial de certos adjectivos, como em “Ele está a cantar muito alto”. Repare se ainda que o uso da forma adverbial correspondente no mesmo contexto sintáctico é reconhecida como agramatical, ou, em certos dialectos, como significando uma coisa diferente: um sinónimo de “muito bem”: ninguém diz “*Ele está a cantar muito altamente” como o sentido de “Ele está a cantar muito alto”, se bem que se possa ouvir “Ele está a cantar altamente” com o sentido de “Ele agora está a cantar muito bem”, em certas variantes do português.

No Brasil, há um célebre anúncio de cerveja, que diz: “X, a cerveja que desce redondo”. É uma frase que choca algumas pessoas, sobretudo se forem falantes do português de Portugal. Mas é muito difícil responder à pergunta: “Então, se não está bem, como é que devia ser?”. “A cerveja que desce redonda”? Parece que não soa tão bem, não é? Além de que continua a ser um adjectivo a ter a função adverbial (“Como é que a cerveja desce?” “Redonda.”)... “A cerveja que desce redondamente”? Nem pensar, quem aceitasse uma frase assim estaria redondamente enganado relativamente à sua gramaticalidade! Então? “A cerveja que desce de uma forma redonda”? “A cerveja que desce de um modo redondo”? “A cerveja que desce de uma maneira redonda”? Continua a ser muito discutível que tenhamos assim uma frase mais aceitável para quem não gostava do uso adverbial de redondo. O que é indiscutível é que perdemos uma frase publicitária...

P.S.: Quando andava a tentar descobrir se a frase da cerveja que desce... como desce... ainda era usada, porque as notas a partir das quais fiz este texto eram já antigas, descobri, no site Sua Língua, um excelente exemplo de como se tratam questões de língua de uma maneira ao mesmo tempo acessível e rigorosa.
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* “Pour une définition de quelques faux adverbes à partir de la description d’opérations énonciatives sous jacentes”, in Actes du XVIIIe Congrès Internationale de Linguistique et de Philologie Romanes, Université de Trèves (Trier), 1986, Tome II, Tübingen: Max Niemmeyer, 1991, traduzo eu.

20/02/10

Uma conversa sobre advérbios (1)

Tinha prometido num post anterior que havia de aqui falar de advérbios. E fiz mesmo dois pequenos textos sobre o assunto, este e outro que há-de aparecer aqui muito em breve.

O advérbio é definido de um modo geral como sendo uma palavra invariável que modifica um adjectivo, um verbo ou outro advérbio, e que expressa relações de lugar, tempo, modo, causa, grau, etc. Admite-se nalgumas definições considerar o advérbio não uma palavra mas antes um sintagma e que possa também ser um modificador de frase. Uma das perguntas que podemos fazer-nos sobre a categoria advérbio é se é uma categoria morfológica, sintáctica ou semântica. Normalmente, o advérbio é considerado uma “parte do discurso”, ou uma “classe de palavras”, ao mesmo nível que artigo, nome, adjectivo, verbo, preposição, conjunção, pronome, numeral e interjeição.

Esta tipologia clássica tem sido muito discutida, nomeadamente quanto à pertinência de categorias como pronome, advérbio e interjeição e um das afinações mais comuns que lhe é proposta consiste em juntar numa categoria única (determinante) os artigos, os numerais, uma parte do que são tradicionalmente considerados, às vezes, pronomes e, outras vezes, adjectivos, e ainda uma parte dos advérbios clássicos (quantificadores). A hipótese de que não haja, de facto, advérbios, enquanto categoria morfológica, e de que a categoria advérbio seja apenas sintáctico-semântica, por muito que possa chocar algumas pessoas e seja, claro está, muito polémica, não se pode considerar desarrazoada, tendo em conta não só propostas menos tradicionais de tipologia morfológica, mas também outras evidências triviais, como o facto de haver línguas em que a distinção entre advérbio e adjectivo não é marcada morfologicamente (não é preciso ir muito longe, o neerlandês é uma delas), ou o facto de serem muitas vezes usados sintagmas preposicionais e até mesmo adjectivos com uma função tipicamente adverbial.

Não é essa hipótese, porém, que quero discutir neste pequeno texto. Não pretendo, de modo algum, recusar a existência do advérbio enquanto classe de palavras, mas discutir a pertinência de classificar como advérbios determinadas expressões. Parece-me que estamos, muitas vezes, perante locuções prepositivas (com funções adverbiais, seja, mas locuções prepositivas) que só a tradição ortográfica, ao unificá-las como “palavras”, nos leva a encarar como unidades morfológicas.

Há casos óbvios e casos menos óbvios. Entre os casos óbvios, temos o caso de DEMAIS, que não é de facto senão DE MAIS. Por vezes, diz-se que DEMAIS “advérbio” se escreve junto por oposição a DE + MAIS + nome, sintagma preposicional, e dá-se como truque prático para reconhecer facilmente a diferença entre os dois casos a possibilidade de opor DE MAIS a DE MENOS no mesmo contexto (“Eu gosto de mais sal na comida”, “Eu gosto de menos sal na comida”). Ora, não só o truque prático funciona mal para o caso de DE + MAIS + nome, por exemplo quando MAIS signfica “outros” (“Eu sei de mais sítios onde há este tipo de planta”, *Eu sei de menos sítios onde há este tipo de planta.”), como a oposição a DE MENOS constitui, precisamente, um argumento forte a favor da não existência de nenhum DEMAIS que seja uma unidade morfológica indivisível: é que DEMAIS pode sempre opor-se a DE MENOS, que nunca ninguém achou que se devesse escrever *demenos…: “Ele come demais e é por isso que é tão gordo”, “Ele come de menos e é por isso que é tão magro”.

Evidentemente, é possível argumentar que não há possibilidade de inserir entre o DE e o MAIS de DEMAIS nenhum outro elemento: Diz-se “Eu gosto de muito mais sal na comida” e “Eu sei de muitos mais sítios onde há este tipo de planta”, mas não se pode dizer “*Ele come de muito mais e é por isso que é tão gordo”. Mas é de notar que se passa o mesmo com DE MENOS nas mesmas circunstâncias: “Eu gosto de muito menos sal na comida” funciona, mas “*Ele come de muito menos e é por isso que é tão magro” já não.

De facto, o “advérbio” DEMAIS e a “locução” DE MENOS devem ser encarados como fazendo parte de um paradigma de sintagmas preposicionais de que também fazem parte (pelo menos) A MAIS e A MENOS, que não aceitam quantificadores entre a preposição e o “advérbio”, mas que podem, nalguns casos raros, aceitar certos tipo de qualificação/quantificação exteriores ao sintagma. Diz-se “Isto está aqui a mais”, mas nunca “*Isto está aqui a muito mais.” Aceita-se, porém “Isto está aqui claramente a mais, acredita, é um exagero!” e muitas pessoas aceitarão também “Isto está aqui bem a mais, acredita, é um exagero!”

Evidentemente, resultaria daqui propor que DEMAIS se escreva sempre DE MAIS, para criar coerência com DE MENOS, A MAIS e A MENOS...

Não é muito diferente a questão relativamente a alguns outros “advérbios”. Vejamos mais um exemplo, o caso de DEPRESSA e DEVAGAR. Também aqui me parece que só a convenção ortográfica junta numa única “unidade lexical” uma preposição e um nome. É verdade que, mais uma vez, o teste de quantificação do advérbio nos mostra, no entanto, que a preposição não se pode separar do nome, mas isso é o mesmo que se passa com À PRESSA: Diz-se “Ele fez o trabalho depressa”, mas não se pode dizer “*Ele fez o trabalho de muita/grande pressa”. E diz-se também “Ele fez o trabalho à pressa”, mas também não se pode dizer “*Ele fez o trabalho a muita/grande pressa”. Já com outros sintagmas do mesmo paradigma (COM PRESSA, SEM PRESSA, COM VAGAR, SEM VAGAR) as coisas se passam doutra forma: tanto se diz “Ele fez o trabalho sem pressa” como “Ele fez o trabalho sem muita/grande pressa”.

Nas minha opinião, a indivisibilidade dos sintagmas DEPRESSA e DEVAGAR pode e deve ser explicada a partir das suas características semânticas, sem postular, de uma forma que me parece simplista, que DEPRESSA e DEVAGAR constituem uma unidade lexical – isso não explica, por exemplo, a indivisibilidade de À PRESSA. Ou então, se acharmos que é esse, precisamente, o critério para a classificação do sintagma como um advérbio, devia escrever-se também APRESSA… Digamos que cada uma das locuções tem características sintáctico-semânticas diferentes. Note-se, por exemplo, que SEM admite facilmente a pluralização de PRESSA, ao passo que o seu aparente oposto directo, COM, não a admite: “Ele fez o trabalho sem pressas, no seu ripanço...” está bem, mas “*Ele fez o trabalho com pressas, queria era despachar-se...” não está…

Vejamos agora a questão de uma grande parte dos advérbios, os que têm o traço morfológico comum da terminação em -mente. O que eu proponho aqui é que os advérbios em -mente também não constituem unidades morfológicas de base, mas que se trata antes de sintagmas preposicionais “[semi]cristalizados”: RAPIDAMENTE = (DE) RAPIDA MENTE.

Se digo “semicristalizado” é porque há o desaparecimento da preposição DE (que, numa fase anterior da língua, justificava a forma do sintagma), mas não a fusão do adjectivo e do nome, ao contrário do que pretende a morfologia tradicional. Encontro evidência trivial para justificar este postulado no facto de o pretenso “sufixo” se separar do adjectivo, o que não poderia acontecer se fosse um verdadeiro sufixo, isto é, um morfema preso: do ponto de vista morfológico, PURA E SIMPLESMENTE porta-se como PURA E SIMPLES VERDADE, e não como PURISTA E SIMPLISTA. Além disso, é dificilmente explicável, a partir da proposta clássica o facto de o pretenso sufixo se juntar à forma feminina do adjectivo, o que não acontece com nenhum outro sufixo. A explicação segundo a qual a fusão dos morfemas se deu numa fase anterior da língua parece não ser muito válida, porque continua a haver a possibilidade de criar novos “advérbios de modo em -mente”, mesmo com adjectivos surgidos na língua depois dessa pretensa fusão. Note-se que a classificação proposta (sintagma preposicional cristalizado) pode aplicar-se a outras expressões, como EMBORA.

E por hoje, é esta conversa sobre advérbios. Mas continua em breve.