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09/07/26

Orgulho

 

– E até uma vizinha me disse uma vez – dizia ela visivelmente emocionada, à beira das lágrimas – «que bem que a senhora estende a roupa, tão direitinha».

Na vida desgraçada que levara, em que tudo e toda a gente à sua volta lhe lembrava constantemente que ela não era nada, não valia nada, só em coisas assim conseguia encontrar motivo de orgulho.

E nós, ao ouvi-la, como não ficarmos também à beira das lágrimas?  

12/05/26

Vinte e cinco anos

 

Dizem que não devemos nunca voltar aonde fomos felizes. A Karen e eu não fomos especialmente felizes nos dois anos que passámos em Malacate, mas também não fomos especialmente infelizes. Foram sobretudo tempos intensos, disso não há dúvida. Voltámos a Malacate em 2026, para rever pessoas e sítios, para voltar a ver os desfiladeiros de rocha vermelha e as velhas casas de adobe à beira do rio. Queríamos saber o que tinha mudado. 

A rua principal continua aparentemente igual, com as mesmas lojas sem horário, barbearias, pequenas mercearias, vinho e aguardente, fotocópias e encadernações. Mas só aparentemente. Faltam as pessoas que já lá não estão.

Susana, a dona do mais famoso bar da vila — era uma das melhores cantoras da província, dizia-se sem exagero nenhum — morreu o ano passado. 

Fechou o café da D. Lucha, que servia os melhores lomitos da zona. Também morreu há uns anos, coitada, ainda relativamente jovem. 

Falta a velha camioneta Dodge de D. Edgar, chofer de mudanças e de tudo, e especialista em churrascadas. Também já não está entre nós.

A D. Abel, que tinha vindo da capital para trabalhar para Malacate num programa agrícola, decidiu por lá ficar, comprou terra e se lançou  em vários pequenos e bem-sucedidos negócios, levou-o o covid, dizem que por só ter procurado ajuda tarde demais. 

D. Clotilde, a mulher dele, morreu seis meses depois dele de uma morte estúpida: engoliu mal qualquer coisa que estava a comer e que se lhe entalou na garganta, asfixiando-a antes que ela tivesse tempo de pedir ajuda. 

D. Cristóbal tem agora 98 anos, que é uma idade a bem dizer impossível na região. Passa as tardes sentado no jardim à entrada de casa e saúda quem passa com um sorriso distante. Se alguém o cumprimenta e se apresenta explicando-lhe quem é, D. Cristóbal, se consegue localizar o interlocutor na sua memória, começa a chorar. De alegria. 

D. Rosa, a sua mulher, um pouco mais nova que ele e ainda de cabeça clara, diz que, depois da morte do filho, o ano passado, vive à espera da morte do marido, e depois da sua, porque é assim que as coisas são. 

D. Carlos, Carlitos para os amigos e para quem lhe conhece a fama de guitarreiro, está demasiado velho para os impecáveis ponteios em zambas, cuecas e tonadas. Está a morrer, dizem os seus antigos companheiros de descantes e guitarrear.

A estrada foi talvez o que mais mudou. Já não existe a velha estrada de terra batida, mortal em vários trechos, que ligava Muñecas a Belgrano. As velhas cruzes a assinalar acidentes mortais, normalmente despistes em ribanceiras de dezenas de metros, centenas às vezes, ainda lá estão à beira da estrada, mas a estrada é agora asfaltada e as seis horas que se levava até Muñecas ou Belgrano foram reduzidas a metade. 

A vila cresceu, como seria de esperar, e está mais bonita. Há várias pracetas novas, floridas e bem cuidadas, e foram arranjadas muitas das casas antigas que estavam à beira de ruir. O mercado também se alargou, no espaço e nos produtos disponíveis, e tem agora um edifício com comedores populares. E há dois terminais ferroviários, um para autocarros de longo curso e outro para os minibuses que saem a toda a hora para Muñecas e Belgrano. 

E houve também quem conseguisse melhorar a sua vida.

D. Isabel conseguiu transformar num bonito hotel a casa grande que tinha na vila. Fez as obras com o dinheiro que foi juntando a alugar quartos aos trabalhadores da estrada, aquando da sua construção há uns anos.

Félix foi a única pessoa que, nos dois anos que passámos em Malacate, nos convidou a almoçar em sua casa. E claro, convidou-nos outra vez durante a nossa visita. Rimo-nos e cantámos e recordámos episódios de há 25 anos. Está para abrir um restaurante. Diz que vai finalmente haver um sítio em Malacate onde se coma bem. 

D. Jaime e D. Luzmila continuam a dar aulas, apesar de terem já idade para a reforma. Quando conheci D. Luzmila, ainda não era professora, começou o magistério depois de ter a segunda filha há 26 anos. D. Jaime e D. Luzmila começaram também um negócio de doces e compotas, vai já para 20 anos, e passam todos os fins de semana nas cidades mais próximas, a vender os seus produtos. Dizem que foi o que os safou, porque só os salários não chegavam para muito e assim lá conseguiram aumentar a casinha e pagar a educação das filhas, que têm agora cursos superiores. Nunca ninguém da família de nenhum deles tinha tirado um curso superior. 

As pracetas da vila, tanto as novas como as que eu já conhecia, homenageiam aristocratas e militares do início do século XIX. Faltam monumentos aos atuais heróis da nação: gente como D. Jaime e D. Luzmila.

Há coisas em Malacate que parecem não querer mudar. E porque haviam de mudar em 25 anos, quando não mudaram em centenas deles? Continua a servir-se porco assado no forno ao fim de semana nalgumas fazendas centenárias à beira-rio. Os bêbedos continuam beber dias e noites sem parar e as velhas famílias de proprietários continuam a achar que el honor os impede de trabalhar e queixam-se de que os campos estão cada vez mais abandonados porque não há quem queira trabalhar pelo que eles lhes querem pagar; e trabalhar é o que mais faz quem não é, como eles, dono das melhores terras. 

Os imponentes desfiladeiros de rocha vermelha e o rio verde acastanhado continuam iguais, e as velhas mansões de adobe nos arredores da vila cada vez mais em ruínas.  

Não vale a pena procurarem no mapa a vila de Malacate. Ela existe, mas não é Malacate que se chama. A fotografia é de outro sítio.  Todos os nomes próprios do texto foram alterados e também algumas descrições das pessoas, para não se poderem reconhecer a vila e as pessoas reais de que falo. Quem me conhece saberá de que terra se trata e quem conhecer essa terra é bem capaz de descobrir a quem se referem estes nomes que aqui pus. 





A idade, mais uma vez


Toda a gente sabe: quando se vai para a idade, como se costuma dizer, é muito importante manter o exercício, a atividade, a jovialidade e sobretudo a vida social. Mas também toda a gente sabe que é inevitável a perda de capacidades. É assim a vida. Uma pessoa pode continuar a pensar de forma bastante organizada, não ter falhas significativas de memória, fazer sem problema 20 km a pé, mas, sei lá, um dia vê-se aflita para montar um interruptor num candeeiro de mesinha de cabeceira, só porque os parafusos são pequenos e o espaço de manobra é pouco, nunca tal lhe tinha acontecido... A motricidade fina já não é o que era. E quem diz a motricidade fina diz a memória processual, e a força muscular e a vista e… seja lá o que for, varia um pouco de pessoa para pessoa. O que importa é que a pessoa o reconheça.  E que, se a perda de capacidades implicar algum perigo, se torne mais prudente. 

O meu trabalho em apoio domiciliário ensinou-me que uma grande parte dos acidentes domésticos graves de pessoas idosas resultam da teimosia de continuarem a executar as tarefas diárias como sempre fizeram — quer se trate de aparar sebes ou de sacudir os edredões… Há 15 anos que a minha mulher, de casa para o trabalho e do trabalho para casa, faz a autoestrada a 130 km/h. Decidiu agora que chegou a uma idade em que não deve ultrapassar os 110 km/h. Parece-me muito bem.


Imagem: Briton Riviere: O velho jardineiro («The old gardener»), 1863, pormenor. Wikimedia commons, daqui. 


18/04/26

As meias da Tove [Crónicas de Svendborg #55]

Tenho um amigo que usa sempre meias de lã, mesmo no verão, e até com sandálias. Hei de perguntar-lhe de onde lhe vem esse hábito. É capaz de o ter adquirido na África Austral, porque ele viveu no Zimbábuè, onde se vê às vezes gente de calções e botas — e meias grossas até ao joelho. Mas também é capaz de ser uma coisa dos dinamarqueses mais velhos: conheço um senhor que tem agora 100 anos e que me explicou que também usa sempre meias de lã todo o ano, todas feitas pela mulher dele. Eu também tenho vários pares de meias de lã feitas à mão e, embora só as costume usar quando está frio, sei que, de facto, não são mais quentes no verão que outras meias quaisquer. 

Há umas semanas, numa longa viagem de autocarro-cama, olhei para as meias de lã cinzentas que trazia calçadas e lembrei-me da Tove, que mas tinha oferecido. E escrevi uma nota no meu telefone, para escrever um texto — este — quando voltasse a casa e ao computador: «As meias da Tove». O que queria dizer «As meias que a Tove me deu.» Mas eu entendo-me.  

Agora, à laia de introdução, deixem-me contar-vos uma história de há uns anos, que não tem nada a ver com a Tove nem com meias de lã. Ao fim do meu primeiro estágio em apoio domiciliário, aprendi que nem tudo o que vem nos livros se deve sempre seguir muito à letra. Na escola, tinha aprendido que é expressamente proibido aos profissionais de saúde aceitarem individualmente presentes dos doentes. Podem fazer-se doações em dinheiro ou oferecer presentes em géneros a instituições (hospitais, secções de apoio domiciliário, lares, etc.), mas não a pessoas individuais. E quando uma doente minha quis oferecer-me uma garrafa de vinho pelo Natal, eu, inexperiente e fiel ao que me ensinavam na escola, recusei: que agradecia imenso, exatamente como se tivesse aceitado, que era de uma grande gentileza da parte dela e ficava muito sensibilizado, mas que, infelizmente, as regras eram regras e não podia aceitar. No dia seguinte, a minha supervisora de estágio chamou-me: 

− A Irene está inconsolável, pediu para falar comigo e tinha as lágrimas nos olhos: disse-me que tinha pedido à filha para lhe trazer de Copenhaga uma garrafa de vinho para ti e que tu não aceitaste o presente, porque era contra as normas. Enfim, é o teu primeiro estágio e eu percebo, mas agora vais aprender uma coisa que não vem nos teus manuais: o que é mesmo contra todas as normas da nossa profissão é deixar uma pessoa desolada recusando-lhe um presente que, para ela, é importante dar. De maneira que vais já a casa da I., aceitas a garrafa de vinho e pronto!

A partir daí, tive uma atitude menos rígida em relação aos presentes dos meus doentes. À Tove, não me passou sequer pela cabeça tentar recusar as meias, quando ela mas ofereceu. Fiquei muito contente e ela também e é assim que devem ser as ofertas.

A Tove tinha mais de noventa anos e vivia sozinha. Íamos lá a casa duas vezes por semana, para lhe esfregar as pernas com um creme, muito devagarinho, muito delicadamente, que as pernas, magríssimas e escamadas, doíam-lhe muito, muito!, e de quinze em quinze dias para lhe organizar os medicamentos em caixas diárias, manhã, almoço, jantar e noite. Estava sempre de boné de pala dentro de casa a fazer paciências de cartas na mesa da cozinha e tinha sempre as cortinas corridas. Contou-me que tinha nascido na Jutlândia e vindo aqui para a aldeia ainda rapariga, para trabalhar como criada de servir. E depois tinha conhecido um homem daqui e tinha-se casado e tinha passado a ser dona de casa — o que, se não lhe tinha alterado muito a vida diária, tinha aumentado muito o seu estatuto social. Quando o marido morreu, já há muitos anos, já os filhos eram adultos e se tinham mudado para Copenhaga, de maneira que ficou ali sozinha, naquela casa antiga de divisões pequenas, tetos baixos e telhado de colmo, e a vida dela era fazer paciências de cartas, comer alguma coisita de vez em quando e tricotar meias de lã, que vendia — e às vezes oferecia.

Vi-a pela última vez numa terça-feira de pesadelo. Tinha comigo uma colega nova, a quem estava a fazer uma introdução ao trabalho. Tinha, nessa manhã, uma visita extra à Tove. Uma colega minha tinha escrito, no dia anterior, que a Tove se tinha queixado de uma indisposição indefinida que depois lhe tinha passado e eu tinha de ir ver como ela estava. Num cruzamento perto da casa da Tove, vimos fumo a sair de uma casa. Era uma casa de um doente nosso e eu sabia que ele, paralisado, estava dentro de casa. Enquanto a minha colega ligava para os bombeiros, eu e mais uns vizinhos que tinham aparecido nessa altura corremos para socorrer o homem, mas era tarde demais: o interior da casa estava todo em chamas. Era impossível entrar e ele estava com toda a certeza já morto há algum tempo. Depois de um quarto de hora de horror, quando chegaram os bombeiros, seguimos então para casa da Tove. Podem imaginar o nosso estado de espírito.

Vamos encontrar a Tove no quarto, caída no chão, com um braço bastante esfacelado pela queda. Não responde quando a chamamos, mas reage ao contacto físico:

− Estou morta, não estou? Digam lá: morri, não morri?

Faço-lhe as perguntas habituais para avaliar a consciência. Sabe quem é, onde está, que dia é e sabe que que caiu. Também sabe quem eu sou. Só não sabe há quanto ali está caída no chão. Tentamos de várias maneiras levantá-la para a sentar, mas, de cada vez, começa a gritar muito. Queixa-se da coxa. Quando a apalpo, começa a gritar de novo. O que se faz numa situação destas é chamar o 112 e foi isso que eu fiz.

Soube depois que, afinal, não tinha nada partido. Nunca cheguei a saber o que é ela tinha, mas soube que nunca voltou a casa: morreu no hospital. 

Sou um bocadinho animista, acho eu: no meio dos milhares de objetos desalmados que se acumulam — que vamos acumulando — à nossa volta, há uns quantos que têm alma. São aqueles de que podemos contar histórias. Como as meias da Tove. As meias que ela me ofereceu, quero eu dizer — mas vocês tinham entendido… 


[Os nomes são fictícios, claro, mas a história é verdadeira, como indica, aliás, uma das etiquetas abaixo. Ilustração: Knud Holger Olsen: Quintal em Troense, óleo sobre tela, 1922, Wikimedia Commons, daqui.]


10/12/25

Entre as memórias e o sonho: vozes

É capaz de ser da idade, não sei: nos momentos de calma que antecedem o sono ou o dormitar, mas também se ouço música ou se me imobilizo em contemplação de alguma coisa, parece que ouço vozes na minha cabeça. Quer dizer, talvez não seja esta a melhor maneira de o dizer. Não creio que se trate propriamente de alucinações auditivas; não são vozes claras, é tudo mais vago, como num sonho. Não sei ao certo como soam as alucinações auditivas às pessoas que delas sofrem — e que terrível sofrimento! —, mas já vi e ouvi descrições dessas alucinações e não me parece que seja o que me acontece. 
[Uma coisa curiosa é a associação que parece haver entre subvocalizações e alucinações auditivas: «pessoas com esquizofrenia que apresentam alucinações auditivas podem demonstrar o resultado de uma hiperativação dos músculos da laringe», ou, dito de outra maneira, «as alucinações auditivas podem ser projeções dos pensamentos verbais de pacientes esquizofrênicos, subvocalizadas devido a uma deficiente inibição do córtex». Subvocalizações, deixem-me explicar, são movimentos minúsculos, só detetáveis com máquinas, que o nosso aparelho fonador faz quando lemos; e, muito provavelmente, também quando pensamos em frases completas, se preparamos interiormente o que vamos dizer a alguém, ou revemos mentalmente uma conversa, ou corrigimos na mente o que deveríamos ter dito e não dissemos, coisas assim — quando temos, enfim, frases de uma língua na mente, porque, é de crer, a língua é intrinsecamente sonora, mesmo quando não chega a transformar-se realmente em som...]
Albert Maignan: As vozes do rebate, 1888. 
Amiens, Musée de Picardie, daqui.
As vozes que me surgem na mente não dizem nada concreto, e muito menos dizem mal de mim, como nas alucinações auditivas das psicoses. São vozes de pessoas que conheço bem, com expressões e entoações típicas dessas pessoas, mas dizem só coisas vagas, às vezes porque as conversas parecem ir já a meio («e eu cheguei lá, ‘tás a ver?, não encontrei mala nenhuma») ou por faltarem referências na conversa («às vezes, encontro-a, conversamos ali um bocadinho e pronto, não passa disso») Se se queixam, não sei de quem se queixam («bem, também te digo, pá, aquele tipo, quem não o conhecer que o compre…» ou «eh pá, mas então aquela gente não se enxerga?»). 
[Fazem-me lembrar as conversas que ouvia ao jantar quando trabalhei num lar para pessoas com demência. Conseguiam conversar animadamente sem ninguém saber de que estavam a falar: uma pessoa podia começar, por exemplo, com um «de maneira que é assim» a propósito não se sabia de quê, ao que outra pessoa lhe respondia, «ah, pois é, mas isso já se sabe», e uma terceira pessoa comentava «é que não tenha dúvidas, amiga», para depois uma quarta pessoa concordar também, com algum dos anteriores ou todos eles, «olhe, nisso, dou-lhe toda a razão» e assim sucessivamente, e era uma conversa educada e sem conflitos.]
As vozes das minhas fantasias fazem-me lembrar outra voz que me surgia em criança quando tinha febre, também meio sonhada como elas, meio espetral. Naquele doce intermúndio de febre infantil pairava sobre mim a voz da minha mãe. Não era a voz real da minha mãe filtrada pela febre, mas sim uma voz da minha mãe inventada por essa febre. Não me lembro do que essa voz sonhada me dizia, mas recordo bem o seu efeito calmante, como a voz do hipnotizador que se ouve ao longe quando nos deixamos levar pelo sono que ela nos pede (já tentei deixar-me hipnotizar e, cético que sou, que se esperava?, não me aconteceu nada que não fosse quase adormecer...).
É capaz de ser da idade, tudo isto: perder-me assim, às vezes, entre as memórias e o sonho, como numa cantiga que há, numa parte de mim que até há pouco desconhecia. Custa-me não saber dizer isto melhor. Dito assim, quem me ler é capaz de não se perceber muito bem do que falo.


 

12/07/25

Um livro sem autor à vista [Crónicas de Svendborg #52]

 

Todos os anos temos aqui na aldeia uma grande feira da ladra: a maior parte dos habitantes de Troense faz bancas à porta de casa ou no quintal e tenta desfazer-se, às vezes por preços simbólicos, dos demasiados haveres que tem. E conversamos com os vizinhos com que raramente ou nunca temos ocasião de conversar nos outros dias todos do ano, e acabamos por comprar mais alguma coisa que não nos serve para nada e que, quem sabe?, poremos à venda passados uns anos na feira da ladra anual…

Este ano, só comprei um livro, por uma coroa (uns 13 cêntimos de euro). Chama-se Christiansø 1953. E comprei-o porque lhe notei um pormenor curioso: não tem em lugar nenhum a indicação do autor. Ou antes sim, tem uma dedicatória numa das guardas e, pelo que explico adiante, é muitíssimo provável seja do próprio autor. E ficamos a saber que se chama Christian, que é quase o mesmo que não sabermos nada. Pensei que talvez a identidade do escritor se pudesse descobrir à leitura da obra. Mas não. Apesar de incluir dois textos autobiográficos, as muitas referências a pessoas e lugares não dão pistas suficientes para pesquisar — e muito menos para deduzir — quem o escreveu.

Numa pesquisa na Internet, encontrei um livro semelhante com o título Christiansø 1952, apresentado como «jornal privado». Isto confirma o que depreendera já à leitura do livro: alguém editou anualmente (durante quantos anos?) um pequeno livro de crónicas e memórias, presume-se que para oferecer a amigos e conhecidos. Está escrito com letra de máquina e uma análise dos caracteres mostra que é mesmo um texto escrito à máquina que foi fotografado e impresso. O papel é de boa qualidade, com uma capa de cartão. Quem escrevia como o autor escrevia e mandava imprimir um livrinho assim só para distribuir aos amigos fazia, com certeza, parte da elite cultural e económica da ilha, mas também isso não me ajuda a encontrar a sua identidade.

Quando começou a trabalhar no Alto Molócuè (Alta Zambézia, Moçambique) em 1996, a minha mulher montou um circuito privado de informação: escrevia uma carta com as suas impressões e reflexões sobre a sua nova vida em África destinada a um grupo de amigos e familiares, enviava-a a uma amiga na Dinamarca (quando ia a Queliamane ou a Nampula, porque o Alto Molócuè não tinha serviço de correio) e esta amiga fotocopiava a carta e mandava-a a todas as pessoas de uma lista que a minha mulher tinha feito antes de partir. Quando eu fui ter com ela seis meses mais tarde, comecei a fazer o mesmo: ia escrevendo umas crónicas sobre a vida em Moçambique, intercaladas com algumas atualidades políticas e mais alguma coisa que ia aprendendo sobre a história e a cultura do país, mandava-as para Portugal, onde eram reenviadas por várias pessoas para várias outras pessoas. Chamavam-se as minhas cartas Crónicas do Alto Molócuè. Quando fomos viver para a Bolívia, passaram a Crónicas de Camargo, já por correio eletrónico, e transformaram-se depois em Crónicas de Chimoio quando voltámos a Moçambique em 2006. (As Crónicas de Svendborg nunca chegaram a ser nenhuma forma de carta coletiva, são só uma etiqueta deste blogue.) 

Estas circulares privadas, se se pode dizer assim, não eram invenção da minha mulher. Embora não conhecesse em Portugal ninguém que fizesse o mesmo, pelo menos entre dinamarqueses assessores de desenvolvimento em África, o sistema de cartas coletivas começava a ser comum. Talvez também noutros círculos, não sei. E depois, com o surgimento do e-mail, simplificou-se e alargou-se muito. Agora há já muitos anos que recebemos, sobretudo pelo fim do ano, muitos e-mails coletivos de muitas pessoas, a contar os acontecimentos mais importantes do ano que passou.

O livro que Christian X mandou fazer em Christiansø é uma versão precoce e mais sofisticada, por ter forma de livro, de tudo isto.  E isso é estranho.

Uma coisa muito curiosa: o livro inclui também uma diatribe contra o turismo (já em 1953!) e, no fim dessa diatribe, informa que inclui um recorte de um artigo de jornal mais ou menos sobre esse tema, escrito pelo médico da ilha, Tage Voss (ao que sei a única pessoa de Christiansø que se notabilizou como escritor e polemista). E tem mesmo: no livro que comprei há um recorte do jornal Politiken de 22.3.1953, com a crónica de Voss. Não uma reprodução, mas um recorte da página do jornal. Quer dizer: não faço ideia de qual a tiragem do «jornal privado», mas o autor teve de comprar muitos exemplares do jornal Politiken desse dia, para recortar e pôr dentro de cada livro que ofereceu.

Não tem interesse nenhum dar-vos mais pormenores. Os poucos que dei são, aliás, pormenores a mais — que vos pode interessar um livro que nunca lerão, ainda mais sem autor à vista? Enfim... 

Não sei se se passa o mesmo convosco, mas tudo o que é estranho, por desimportante que seja, faz-me sempre sonhar.

09/07/25

Villy Henningson [Crónicas de Svendborg #51]


Conheci Villy Henningson [nome fictício] quando estava a fazer estágio numa instituição para pessoas com demência. Quer dizer, já o conhecia de vista aqui da aldeia, mas foi aí que falei com ele pela primeira vez. Ele toca acordeão numa banda de música e foram lá fazer uma animação no centro de dia.

A partir desse dia, Villy, que encontro com frequência na rua, sempre me tratou pelo meu nome:

– Olá, Victor – diz-me sempre – como vai isso?

Não temos grandes conversas: o tempo, algum acontecimento na aldeia, nunca mais que isso. Mas sempre me surpreendeu ele saber o meu nome. Talvez me tivesse perguntado, quando nos conhecemos; ou talvez o tenha lido no meu cartão de identificação que trazia ao peito nessa altura, não sei. Seja como for, não se esqueceu. E sempre me irritou um bocadinho ter de conversar com ele sem nunca o poder tratar pelo nome a ele também: até há muito pouco tempo, não fazia ideia de como ele se chamava e, nem sei bem porquê, nunca lhe quis perguntar.

Um dia, vi num jornal local a fotografia dele, com duas senhoras também aqui da aldeia, num artigo sobre uma cooperativa de consumo, de que eram os três membros da direção. A legenda da foto referia-o como V. Henningson. Não me resolvia o meu problema, mas era uma boa dica para. Pesquisei em Google um Henningson aqui na zona (é um apelido estrangeiro, e, portanto, incomum) e fui dar ao site da tal cooperativa, onde fiquei a saber que ele se chamava Villy. Pronto, agora já o podia tratar pelo nome.

Encontrei-o no dia seguinte:

– Olá, Victor, tudo bem?

– Tudo bem, Villy, e tu?

Fiquei muito satisfeito. A Internet, pensei eu, ainda serve para alguma coisa… Mas não tinha sido necessária nenhuma pesquisa, afinal: nesse dia, Villy trazia vestido um polo às riscas que tinha escrito no bolso «Villy Henningson».

18/06/25

Andar

 

Antes de nos sedentarizarmos, passávamos a vida a andar. Os humanos, quero eu dizer. E andar faz bem. Não se preocupem, não vos vou tentar impingir, à maneira de quem propõe dietas paleolíticas e sacrifícios afins, que haja em nós algo essencial perdido com a vida moderna e que é necessário retornar a uma primitiva perfeição. Quando digo que andar faz bem, é só isso que quero dizer, sem mais. Pelo menos, mal não faz de certeza.

Sonny Terry  & Brownie MacGee: "Walk on", ao vivo em 1965

Well, when your mind gets worried, when your shoes get thin
You don't know where you goin', but you do know where you been
Walk on, walk on, walk on, I walk on
I'm gonna keep on walkin' 'til I find my way back home

 

Sempre gostei de andar. Em rapaz, muitas vezes fazia vários quilómetros a pé, em vez de apanhar transportes. Nos cerca de 11.000 km que fiz à boleia entre os 15 e os 22 anos*, quando não apanhava boleia ao fim de uma meia horita, punha-me muitas vezes a andar, em vez de ficar especado no mesmo sítio de polegar estendido. O que resultou em boas caminhadas, sozinho ou acompanhado. É claro, esqueci já muitas delas, mas há algumas que recordo ainda com prazer: de Leiria a Tomar, com pernoite num bosque a meio caminho, de Loulé a Barranco do Velho, com muito calor e a barriga vazia; de St. Jean-de-Luz a Bayonne, da primeira vez que fui a França; por exemplo... Lembro-me de que uma vez, algures no Maciço Central francês, fiz mais de quarenta quilómetros de seguida, a caminhar desde a tardinha ao amanhecer, até que, já dia, parou um médico do SAMU que ia com muita pressa. É bem capaz de ter sido, de uma vez só, a mais longa caminhada da minha vida.

Agora, sempre fiz só distâncias relativamente curtas de cada vez. Nunca andei centenas de quilómetros, como conheço quem tenha feito ou esteja a fazer. Nunca fiz nenhum troço do caminho de Santiago de Compostela, por exemplo. Mas, por acaso, é coisa que ainda gostava de fazer. Não como peregrino, só como incréu caminhante. A ver se me meto ao caminho antes que me falte a força nas pernas.

A minha maior companheira de caminhadas é a minha mulher. Aliás, o primeiro fim de semana que ela e eu passámos juntos, quando nos conhecemos faz em breve 29 anos, passámo-lo a andar. Lembro-me bem da primeira caminhada grande que fizemos, do topo da Serra da Estrela até Manteigas. E andar continua a ser das coisas que mais fazemos juntos. Ter assim um interesse em comum com outra pessoa é bom cimento de uma relação. Tudo não será, mas é meio caminho andado.

Joan Manuel Serrat: "Cantares", 1969

Antonio Machado, "Proverbios y cantares (XXIX)", 1912

Caminante, son tus huellas
el camino y nada más;
Caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace el camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante no hay camino
sino estelas en la mar.

Ponho-me a passear pela memória das caminhadas que fiz e não sei escolher as mais bonitas. Nem as mais interessantes. Pergunto à minha mulher, a ver o que ele acha. Das caminhadas que fez sozinha, escolhe três semanas no Nepal, mais de vinte anos antes de me conhecer. Juntos, assentamos que talvez os três dias a caminhar na selva amazónica no natal de 2000, a que se aplicavam bem, literalizando-os, os versos famosos de Machado, «faz-se caminho ao andar»; ou os quatro dias de Mestia a Ushguli no Cáucaso georgiano; ou as caminhadas nos irreais bosques de fetos arbóreos da Reunião ou, também na Reunião, a deslumbrante subida ao Piton de la Fournaise. Mas é difícil dizer… Uma minúscula parte dos caminhos do mundo. Por mais que caminhemos, o que nos falta sempre andar!...

A ideia de publicar um pequeno texto sobre caminhadas surgiu de uma nota que tomei em março deste ano, a propósito de um passeio nas montanhas de Ella, no Seri Lanca. Nós lá íamos, a caminhar à beira da estrada, porque não havia outro caminho. (Tínhamos feito, no dia anterior, uma agradável caminhada pelas plantações de chá, fora das rotas turísticas, e eu tinha sido atacado por sanguessugas terrestres que, rai’s as partam!, injetam anticoagulante na vítima, para poderem chupar o sangue à vontade, de maneira que as feridas demoram umas duas horas a parar de sangrar.) Íamos em direção a um conhecido pagode budista, mas não era o pagode em si o nosso destino, íamos só a andar, sem mais, como é nosso costume. E estavam sempre a parar tuquetuques a oferecer os seus serviços para nos levarem ao templo. Que era muito longe para se ir a pé, diziam os tuquetuqueiros. E eu dizia que que não precisávamos, que íamos a passear. E não eram só os homens dos tuquetuques que achavam longa a distância, também os peregrinos. Os que não iam de autocarro de excursão, iam em táxis ou de tuquetuques que apanhavam na cidade.

«Será que esperam ganhar assim melhor carma?», diverti-me eu a pensar. «Nós, que não somos peregrinos, vamos a pé. Não é também a pé que deviam ir eles que o são?»

Félix Leclerc, "Moi mes souliers", 1951

Moi, mes souliers ont beaucoup voyagé
Ils m'ont porté de l'école à la guerre
J'ai traversé sur mes souliers ferrés
Le monde et sa misère […]

S'ils ont marché pour trouver le débouché
S'ils ont traîné de village en village
J'suis pas rendu plus loin qu'à mon lever
Mais devenu plus sage 
[…]

Au paradis, paraît-il, mes amis
C'est pas la place pour les souliers vernis
Dépêchez-vous de salir vos souliers
Si vous voulez être pardonnés

________________

* Dei-me ao trabalho de fazer contas, de uma vez que estava num estado de espírito retrospetivo. E contei só viagens grandes, não boleias curtas (de que, claro, não me conseguia lembrar).










02/05/25

Letra de médico

Dizia um artigo da Time de janeiro de 2007:

A descuidada letra dos médicos mata mais de 7000 pessoas anualmente. É uma estatística chocante e, segundo um relatório de julho de 2006 do Instituto de Medicina da Academia Nacional de Ciências, há também erros de medicação evitáveis que afetam mais de  milhão e meio de americanos anualmente, muitos dos quais resultam de abreviaturas e indicações de dosagem pouco claras e de letra ilegível em algumas das 3,2 mil milhões de receitas passadas nos Estados Unidos todos os anos.

Não faço ideia de qual seria a dimensão do problemas noutros países, mas, como todos sabemos, não é só nos Estados Unidos que a letra de médico tem uma longa e robusta tradição de ilegibilidade. E é incompreensível! Quero dizer, não só a letra de médico é incompreensível como é incompreensível que ela seja incompreensível. Porque será que os médicos escrevem assim? Enfim, ainda bem que agora as receitas já são eletrónicas em muitos sítios.

O rabisco abaixo é uma brincadeira que tem andado aí pela Internet e de que, infelizmente, não consigo descobrir o autor. Anónimo, passa ele então a chamar-se aqui. Sabem o que quer isto dizer (em letra de médico, claro)?

Paracetamol%20Blogue

É paracetamol, obviamente (!?).

E porque estou agora a escrever isto? Bom, recebi há bocadinho uma mensagem de uma amigo meu que é médico (ou era, seja, está reformado), em que ele me pedia a morada de um amigo comum.

«Tu já me deste a morada», escreve ele, «mas tomei nota num papel e agora não consigo ler a minha letra.»

 A sério. Para que vejam.





03/09/24

O inferno [Crónicas de Svendborg #49]


 Hoje vi uma casa arder com uma pessoa lá dentro.

E éramos várias pessoas cá fora, a não poder fazer nada — que podem uns baldes de água quando uma casa está toda em chamas? — e todos nós conhecíamos o homem que já estava morto lá dentro e todos tínhamos por ele simpatia, alguns até amizade.

Uma casa a arder com uma pessoa lá dentro. O inferno.  


10/12/23

O bom filho...

Mais uma história verdadeira, acabadinha de se passar:

A minha amiga S. andou dez anos à procura de um livro – uma biografia de Henning Mankell por Kirsten Jacobsen. Comprou o livro em 2011, gostou muito dele, fez publicidade da obra junto dos amigos e emprestou-a a um deles. Mas a quem? S. esqueceu-se, não sabia a quem tinha emprestado o livro. 

Durante dez anos, insistiu com os amigos todos: «Mas vê lá se não é tu que o lá tens... Alguém o há de ter...» Mas não, ninguém tinha o livro. A semana passada, S. desistiu da busca e comprou o livro na internet, em segunda mão.

Quando o recebeu e o abriu, viu numa das guardas o seu nome, escrito pela sua própria mão e a data «Out. 2011». Tinha comprado o seu próprio livro, desparecido dez anos antes.   

03/12/23

Mais uma estranha história de Natal [Crónicas de Svendborg #48]


Uma vez contei aqui uma maravilhosa história de Natal que se passou connosco em Moçambique e que vos aconselho, se a não leram ainda. E como estamos agora a entrar nessa quadra, conto-vos outra. Não é tão bonita como a primeira, mas é como ela bastante surpreendente.

No princípio de 2023, se não me falha a memória (ou teria sido logo a seguir ao Natal?, a memória falha‑me muito…), recebemos uma estranha carta: vinha da Suécia e estava endereçada a Karen e Jan Lindegaard, no nº 3 da Slotsalléen. Nós moramos no nº 30. Era estranho recebermos uma carta para outro casal Lindegaard que nós nem sonhávamos que existisse aqui na aldeia; e mais ainda termos recebido uma carta para o nº 3. Estes serviços de correio! A explicação era, com certeza, o facto de morar aqui uma Karen Lindegaard — devia ter sido isso a causar a confusão.

Mas, afinal, não tinham sido os serviços de correio a entregar aqui a carta. Fomos logo ao nº 3, claro está, entregar o postal na morada certa, e ficámos a saber que não moravam lá nenhuns Lindegaard, e nem nenhuma Karen nem nenhum Jan. Tinham sido os moradores do nº 3 que, depois de uma breve pesquisa, tinham descoberto que havia uma Karen Lindegaard no nº 30 e nos tinham vindo pôr a carta na caixa do correio. 

Lindegaard não é um apelido comum, mas é originário daqui da Fiónia, ao que parece, e há aqui na região mais Lindegaards que no resto do país. Mas, por mais que procurássemos, não conseguimos descobrir mais nenhuns Lindegaards aqui em Troense e arredores. 

Decidimos abrir o envelope. Tinha lá dentro um postal feito à mão. Uma colagem com duas crianças ao fundo e o que parece ser um cão em primeiro plano, e votos de bom Natal, em sueco, de uma família Nordström. Nós não conhecemos nenhuma família Nordström. E porque havíamos de conhecer? O postal não era para nós. Ou era? Alguém que pensava que a Karen estava casada com um Jan? No nº 3 da nossa rua? 

Nada disto faz muito sentido. O postal, bom, há quem encontre algo sinistro na simpática foto familiar, mas isso também é ir longe demais, não vos parece? Há 20 anos, tudo isto me teria servido de inspiração para um conto do género fantástico. (E escrevo «um conto do género fantástico», porque, se escrever só «um conto fantástico», sou capaz de ser treslido como pretensioso…). Agora, serve só para um post de blogue…

Notem que os retângulos negros a cobrir os olhos dos miúdos não existem no postal original, também não exageremos na estranheza da missiva. Fui eu que os lá pus, para publicar a foto, porque não quero publicar fotos reconhecíveis de pessoas que não me deram autorização para as publicar.


24/11/23

Nome próprio


Toda a minha vida fui Vítor. Quer dizer, sempre foi assim que escrevi o meu nome. O meu primeiro bilhete de identidade tinha Vítor e todos os outros bilhetes de identidade que se seguiram tinham Vítor também. A confusão começou de uma vez que me roubaram o passaporte em Moçambique e tive de mandar vir de Portugal um assento de nascimento. Foi nessa altura que descobri que era Victor que constava desse documento inaugural. De maneira que fiquei Victor nesse passaporte — mas voltei a ser Vítor no passaporte seguinte… Mas depois, quando fui tirar o meu primeiro cartão de cidadão, recusaram-me o Vítor. 

Até aqui, já tinha contado a história toda aqui na Travessa. Agora, em junho passado, quando fui renovar o passaporte no consulado em Copenhaga, voltaram a recusar-me a grafia que sempre usei. Durante alguns meses, fui Vítor nos documentos dinamarqueses e nalguns documentos portugueses que não uso há anos e que não sei se alguma vez voltarei a usar, e Victor nos dois documentos portugueses mais recentes, o cartão de cidadão e o passaporte. Mas achei que isso ainda havia de me arranjar problemas e resolvi uniformizar tudo: agora sou Victor também nos documentos dinamarqueses. 

Ser Victor é, ainda, uma coisa estranha para mim e para quem sempre me conheceu como Vítor. Mesmo os meus colegas dinamarqueses me dizem que não se habituam a que eu agora seja Victor.

– Não têm de mudar a maneira de dizer, aquele C não se pronuncia em português –, explico-lhes eu, mas, para eles, Victor é outro nome, o nome dinamarquês que também se pode escrever Viktor. 

Valha-nos isso, o meu nome internacionalizou-se, porque Victor há em todo o lado. Em inglês, até como nome comum. É claro, o que se ganha em internacionalismo é o que se perde em exotismo, mas sempre fui mais apologista do primeiro que do segundo.

Já pensei em mudar também o nome do blogue — ou, pelo menos, a fotografia do cabeçalho. 


15/11/23

A história de Charles e de outros poliglotas

Conheço um senhor chamado Charles que nasceu na Occitânia, já não me lembro onde, por alturas do início da Segunda Guerra Mundial. Os pais dele eram judeus polacos da Galícia (que faz hoje parte da Ucrânia) e tinham fugido para França das perseguições aos judeus na sua terra. Não me lembro já porquê (talvez o pai e a mãe tivessem línguas maternas diferentes), Charles aprendeu em casa o iídiche e o polaco. Na rua, aprendeu occitano. E só quando entrou para a escola começou a aprender francês, que é hoje a língua que melhor domina. Mais tarde, porque o trabalho o levou para outros países, aprendeu também inglês e alemão (que foi fácil para ele, por já saber iídiche), mas isso é outra história. 

Esta história de plurilinguismo, que parecerá estranha a quem cresceu e viveu sempre numa língua só, como é o caso da grande maioria dos portugueses, não é tão extraordinária como isso. Um dos melhores amigos do meu filho na Escola Internacional de Chimoio, em Moçambique, o Wilhelm, era alemão e, quando viemos para a Dinamarca, a família do Wilhelm mudou-se também para a Alemanha. Quando o fomos um dia visitar perto de Niböl, não muito longe da fronteira dano-alemã, ficámos a saber que coexistiam ali pessoas de quatro línguas maternas.  O amigo do meu filho falava português, inglês e alemão (alemão standard, alto-alemão) e andava agora numa escola dinamarquesa, onde aprendia dinamarquês e alemão. Os pais tinham escolhido a escola dinamarquesa porque achavam que era a melhor da zona, e há ali uma escola dinamarquesa porque vivem ali muitas famílias (alemãs) de língua dinamarquesa, até porque a região fez, durante muito tempo, parte da Dinamarca. Mas também há, na zona, quem tenha o baixo-alemão como língua materna e o frísio. No sul da Dinamarca, também há ainda famílias que têm o alemão como língua materna. Não sei se alguma vez houve quem tivesse o baixo-alemão como língua materna na Dinamarca, nunca ouvi nem li nada sobre isso, mas sei que já houve falantes de frísio, que agora já não existem. O frísio é ainda uma das línguas oficiais dos Países Baixos, e, entre este país e a Alemanha, tem agora cerca de 480.000 falantes nativos. 

A escolarização é em parte responsável pelo desaparecimento de muitas línguas que os governos das várias nações não quiseram durante muito tempo considerar oficiais e que não foram, por isso, línguas de ensino e administração. Além disso, os estados-nação modernos tiveram, muitas vezes, políticas de repressão brutal das línguas que não eram consideradas oficiais. 

França é um bom exemplo dessa erradicação das línguas nacionais — violenta e bastante bem-sucedida —, mas não é o único. Fiz as minhas primeiras viagens em França em 1976 e ainda cheguei a encontrar franceses, falantes de catalão ou de poitevino-saintongês, que falavam pouco francês (e cheguei até a conhecer dois deles, um casal, quando vivi num lugarejo perto de Niort), mas os jovens franceses de hoje já não têm como língua materna o provençal, o occitano, o bretão, o catalão, o picardo, o normando e por aí fora. Com sorte, e sobretudo se não forem de uma cidade grande, ainda compreendem um bocadinho dessas línguas, porque as ouviram ou ouvem falar aos mais velhos. E o mesmo em Itália e em muito outros países. 

Conheci há pouco tempo o Luigi, um genovês de trinta e cinco anos, que dizia saber mesmo muito pouco genovês (ou lígure, se preferirem).  Dizia que, às pessoas citadinas da idade dele ou mais jovens, não lhes servia de nada o genovês. Se vivesse no campo, era capaz de ter aprendido. Mas chateava-o, na sua qualidade fã de Fabrizio de André, só compreender as letras em italiano oficial (toscano) e não perceber as outras que o grande cantautor fez na língua da sua cidade natal. Na Ligúria, menos de 10% das pessoas falam lígure. Nem sempre a situação das outras línguas italianas (veneto, friulano, piemontês, lombardo, siciliano, tantas que há…) é tão grave como a do genovês, mas estão todas ou definitivamente ameaçadas ou gravemente ameaçadas, para usar a terminologia do UNESCO. Curiosamente, as línguas que, nas regiões onde são faladas, têm maior percentagem de falantes nativos relativamente ao italiano não são línguas latinas, mas sim línguas germânicas — falares tiroleses e alemânicos.

Passando agora da Europa para África, também conheci em Moçambique muitos poliglotas. Moçambique tem muitas línguas (contam-se entre oito e 41, mas é sempre difícil contar línguas) e as pessoas com formação profissional começaram a ter muita mobilidade. Funcionários do Estado a maior parte deles, iam sendo colocados em vários lugares, onde ficavam quatro ou cinco anos. Dou-vos um exemplo de um senhor que conheci chamado Monteiro. O Monteiro era do Alto Molócuè e de língua materna lómuè, mas tinha estudado em Quelimane, onde tinha adquirido um nível razoável de chuabo e depois trabalhado muito tempo em Maputo, onde aprendeu bastante ronga e changana, e depois de uns anos na sua terra natal, mudou-se para Chimoio, onde aprendeu chona. Além disso, também falava muito bem português, como seria de esperar de uma pessoa com o seu nível de educação, toda ela em português. Em Moçambique, é o português que cresce a olhos vistos (língua materna de cerca de 5% da população em meados dos anos 90, é agora a língua materna de cerca de 17% dos moçambicanos), mas não há, por enquanto, perigo de abafar completamente as línguas com que convive. Por enquanto.     

E isto tudo a propósito de quê? De nada de especial, é mais um texto ao correr do teclado, a propósito de línguas e pessoas que conheço e recordações de viagens. Falo aqui de duas coisas diferentes: de sítios onde se falam várias línguas e de pessoas que falam várias línguas. São coisas diferentes. Há pessoas que falam só uma língua, embora sejam de sítios onde se falam várias; e há pessoas que falam várias línguas e são de sítios onde se fala só uma. Agora, feliz ou infelizmente — vocês julgarão, com a cabeça e com o coração — cada vez se fala mais a língua oficial de cada país e as outras vão desaparecendo…

Como se ilustra um texto assim? Que tal uma versão frísia de uma bonita canção originalmente escrita em sueco por um cantautor de língua materna neerlandesa?

14/11/23

M. e Deus [Crónicas de Svenddborg #47]


M. tem agora 99 anos. Há já muito tempo que anda zangada: com a família, com o pessoal do apoio domiciliário, com o centro de dia… E com Deus:

«Quando era jovem, gritei para quem me queria ouvir que Deus era uma porcaria. Bom, na altura não acreditava nele, por isso achava que podia dizer o que quisesse sobre ele, sem que isso tivesse consequência nenhuma. Na realidade, não pensava muito nisso. Mas agora é diferente, agora estou sempre a pensar nisso. Agora acredito que Deus existe e que há um Céu e um Inverno para onde nós vamos quando morrermos. E por isso sei que que vou para o Inferno. Agora, não pense que a minha opinião sobre Deus mudou desde que acredito que ele existe. Sou contra Deus e as suas leis e os seus crimes. Não acredito que os deuses tenham direito a mandar na gente. Era o que faltava! E o mal todo que ele faz? Devia haver um tribunal para julgar Deus!»

Ficamos alguns segundos em silêncio (não sei o que hei de dizer…) e M. continua:

«E agora, diga lá, o que acha que devo fazer: continuo a pensar na morte ou vou até à taberna?» 


26/10/23

Alguém a quem falar [Crónicas de Svenddborg #46]

 

B. partiu a tíbia e foi operada. Voltou a casa logo após a operação e tem de começar de imediato a mexer-se, se quer que a perna alguma vez volte a funcionar mais ou menos. O pessoal do apoio domiciliário sabe muito bem o que deve fazer para a mobilizar o mais possível. E é isso que faz. 

B. protesta às vezes, se tem dores. O pessoal do apoio domiciliário é paciente e cuidadoso, e vai fazendo com que ela se mexa o mais que pode. Enquanto duram as visitas, B. não para de falar. Fala de tudo e mais alguma coisa, fala, fala, fala. As pessoas do apoio domiciliário mantêm-se o mais das vezes caladas, tirando explicar a B. o que vão fazer a seguir e porquê, e insistir na necessidade de ela se mexer o mais possível, porque senão, com aquela, idade, já não volta a andar sozinha.  

B. não para de falar e é difícil para o pessoal do apoio domiciliário terminar a visita de uma forma que não seja muito abrupta, que ela talvez sinta como um pouco rude, até, ou como abandono, desinteresse. É claro que há ali um desentendimento: eles vão lá a casa para a ajudarem a fazer o exercício necessário para poder voltar a andar; mas voltar a andar não é o maior desejo dela — ela quer é alguém que a ouça, alguém a quem falar.  


05/07/22

Funeral em vida

Uma amiga contou-me que o seu pai e os amigos dele organizaram funerais em vida. É uma grande ideia. Por muito que o funeral seja um dos dias mais importantes da vida de uma pessoa, é celebração a que essa pessoa não assiste — não tem possibilidade de se comover com os elogios fúnebres que os amigos lhe fazem, nem de se rir com as muitas histórias engraçadas que dela recordam nessa ocasião. 

Estou a pensar em organizar o meu funeral em vida um dia destes. Depois, se alguns dos meus convidados acharem por bem dar continuidade à minha iniciativa organizando os seus próprios funerais em vida, teremos finalmente possibilidade de retribuir uns aos outros a presença no nosso funeral — uma coisa que, sem estes funerais em vida, é muito difícil de fazer...

04/04/22

Cristal Limiñana (uma história com um bocadinho de publicidade)

A 28 de fevereiro, cheguei a Marselha com duas colegas minhas para lá fazer um estágio de um mês. A organização que organizava o nosso estágio tinha-nos também arranjado alojamento: um apartamento no Boulevard Jeanne d’Arc. Quando chegámos, surpreendeu-me uma loja mesmo ao lado do nosso prédio, de uma fábrica de runs e anisetes chamada Cristal Limiñanas. É que, mais versado que sou em música que em bebidas marselhesas, Limiñanas era para mim apenas um nome de um duo de rock. Les Limiñanas são um casal de Perpignan, Lionel e Maria Limiñana e o segundo dos seus nove álbuns chama-se Crystal Anis. Uma estranha coincidência! Ou então não… 

  
Descobri que a fábrica Cristal Limiñanas é conhecida sobretudo pelo pastis Un Marseillais, que eu não conhecia. Como já disse aqui uma vez, sempre bebi a mesma marca de pastis (até começar a fazê-lo eu próprio), sem nunca me ter dado para explorar a grande variedade que há. Ora isto não podia continuar, evidentemente. O Un Marseillais, pelo menos, tinha de experimentar. 
De maneira que, na véspera de me vir embora, fui à loja comprar uma garrafa de Un Marseillais e talvez mais alguma que na loja me pudesse interessar. Quando contei à senhora que me atendeu que tinha achado curioso aquela marca de anisete ter o mesmo nome que uma banda de rock que eu conhecia e que, curiosamente, tinha um álbum chamado Crystal Anis, ela disse-me: «Ah, claro, os nossos primos! Veja aqui!» e apontou, na parede, um cartaz da tournée do álbum. «Bem vê, somos a única família com este nome em França. É um nome que vem de uma pequena aldeia espanhola, ali da zona de Alicante.» 

P.S.: A senhora era Maristella Vasserot, a dona da fábrica. A história da empresa, podem ouvi-la aqui, por exemplo, ou lê-la aqui. É um bocadinho de publicidade, eu sei, mas já a história acima também é um bocado publicitária, de maneira que…




19/03/22

História de M.

M. trabalha num lar de idosos em Marselha e trabalha demais. Raramente recusa os turnos extra que lhe propõem quando falta pessoal. Também o trabalho é ali mesmo, mesmo ao lado de casa. Fora do trabalho, M. ajuda outras pessoas. «As pessoas não fazem ideia de como a vida é difícil noutros lugares», repete ela muitas vezes. «Ou aqui, para quem não tem nada. As pessoas têm tantas coisas e nem sonham o que é viver sem ter as coisas que elas têm. Dizem mal dos outros, mas não os percebem. Não fazem ideia do que é a vida deles. As pessoas que vêm ali vender coisas a Noailles, por exemplo. Alguns andam a apanhar tudo o que presta nos caixotes do lixo. Outros dão-lhes coisas. Se calhar, outros roubam também, mas quem é que os pode criticar? Muitos nem podem trabalhar, não lhes dão papéis. Vivem daquilo que vendem. Se não vendem, não comem. É fácil criticar, que não pagam impostos, isto e aquilo, que são marginais. Eu também já os cheguei a criticar. Mas agora sei o que é a vida deles e não os critico. Antes os ajudo no que posso. Neste momento, dou abrigo a um homem do Kosovo. Ligou-me há bocadinho. A polícia fez uma rusga em Noailles. A malta que lá estava a vender e que não tem papéis teve de fugir a correr. Muitos deles deixaram as coisas no chão. É sempre a mesma coisa. Depois vem um camião do lixo e leva aquilo tudo. Era daquilo que aquelas pessoas iam viver um dia ou dois ou mais, mas a polícia deita tudo fora. Aquelas pessoas vivem de quê? A maior parte das pessoas nem sonha o que é a vida daquela gente, o que é a vida de tanta gente... O homem que eu ajudo não pode voltar ao Kosovo. Não lhe dão licença de residência aqui, mas ele também não pode voltar a casa. Se voltar ao Kosovo, matam-no.  Colaborou com os sérvios durante a guerra. Ele era um rapaz novo e não percebia bem as coisas. Mas ninguém se esquece e ninguém lhe perdoa. E eu ajudo-o no que posso, dou-lhe alojamento, mais não posso fazer. As minhas filhas não sabem. Elas ficam zangadas quando sabem que eu ajudo alguém, com dinheiro ou seja lá com o que for. Se quero ajudar alguém, dizem elas, que participe numa organização, numa coisa organizada, que assim com caridade não resolvo nada e um dia ainda me arrependo. Mas elas não percebem bem o que é a vida destas pessoas.»





11/02/22

Duas histórias de carne

 

Uma vez, um amigo meu perguntou-me, enquanto devorava uma perna de frango assado: 
 – Mas tu sabes porque é que toda a gente gosta de frango em qualquer lado do mundo? 
 – Não, porquê? 
– Porque é mesmo bom, pá! 
[Segundo o site statista, a produção mundial de carne de Gallus gallus domesticus em 2021 foi de cerca de 100 mil milhões de quilos, o que dá uma média de cerca de um quilo de carne por mês por ser humano. Uma média assim quer dizer que, por muito que toda a gente goste de frango em qualquer lado do mundo, como diz o meu amigo, há muito quem só muito raramente o coma.]


***
Tinha a certa altura, em Genebra, um grupo de amigos muito interessados na grande cozinha. Passavam muitas vezes fins de semana gastronómicos na Saboia e encontravam-se regularmente em casa uns dos outros. para comezainas requintadas. E a boa comida era, claro está, um dos seus temas de conversa favoritos. Numa das várias discussões a que assisti sobre o tema, em que se fazia uma apetitosa enumeração de pratos sofisticados, diz um dos gourmets
– Para mim, entrecôte com batatas fritas. Poucos pratos atingem tão grande sofisticação. 
[Entrecôte é um bife da vazia (ou do acém, como aqui se discute). O gosto do meu amigo suíço coincide com o de uma grande maioria dos franceses: há muitas sondagens sobre os pratos favoritos dos franceses e com resultados variados, mas o bife com batatas fritas, seja ele entrecôte ou não, vem sempre entre os dez primeiros.]