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1 de julho de 2016

Cantar a amizade, a primavera e o inverno

Há temas de canção que são recorrentes na tradição de um determinado país e que não se encontram ou são raros na tradição de outro país. O louvor da amizade, por exemplo, é um tema recorrente na canção francesa, mas não me parece que seja muito importante na canção portuguesa. É claro, não me citem nisto, porque se trata aqui de uma impressão apenas e não do resultado de uma pesquisa séria, mas não consigo lembrar-me de nenhuma canção portuguesa sobre amizade e lembro-me logo, sem ter de puxar muito pela cabeça, de muitas canções francesas com esse tema. Aliás, são sobre amizade algumas das minhas canções francesas preferidas.

 Georges Brassens, “Les copains d’abord” ("Primeiro os amigos"), 1964

 

Estou convencido de que, depois do amor (que é sempre o tema mais recorrente nas canções de todas épocas e todos os lugares) a primavera e o verão, a chegada do bom tempo e o bom tempo, enfim, são os temas mais recorrentes na canção dinamarquesa. OK, talvez esteja a exagerar. Tenho de reconhecer mais uma vez que não é coisa que tenha verificado com rigor. Mas que é dos temas mais importantes da canção dinamarquesa, disso não tenho dúvida nenhuma.

 Benny Andersen & Povl Dissing, “Hilsen til forårssolen” ("Saudação ao sol da primavera"), 1981
 (a canção começa ao segundo 47)

 

É natural num país frio, dir-me-ão. No Canadá, porém, que é um país realmente frio, com um inverno incomparavelmente mais difícil do que o inverno dinamarquês (se bem que menos escuro, é verdade), é o próprio inverno que se canta, não a primavera nem o verão. E deixem-me agora corrigir o que acabo de escrever, sim? Não sei é assim em todo o Canadá, porque não conheço a canção canadiana de língua inglesa, mas, na canção quebequense que conheço, o inverno é um tema fundamental. Não é que não se cante também a primavera (estou a pensar, por exemplo, em “Hymne au Printemps”, de Félix Leclerc), mas creio que o inverno é tema mais recorrente. A beleza do Inverno, a sua força. E isso não cantam os dinamarqueses. Nem os portugueses nem os franceses. Mas é capaz de haver mais quem cante…

 Gilles Vigneault, “Mon Pays” ("O meu país"), 1965 

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6 de junho de 2014

Dia D

Não tenho tido grande tempo para escrever textos para este blogue, mas o blogue continua vivo. E à laia de sinal de vida, precisamente, uma história da minha adolescência vagabunda.

Deve ter sido em 1977 e já não me lembro de onde para onde íamos, talvez de Fontenay-le-Comte para Paris. O que sei foi que apanhámos boleia, a Dani e eu, de um camionista normando. Quando a Dani começou a falar, ele ficou uns segundos a tentar perceber de onde ela era.
“Ah, tu és canadiana.” Que sim, disse ela, da cidade de Québec, mais precisamente.
“Esse sotaquezinho lá do lugarejo onde o diabo perdeu os calções…”
O que ele disse mesmo foi fond de terroir, accent de fond de terroir.
“Ao princípio, não se percebe bem de onde é. Das Vosges, podia ser. De repente, até parece de alguns sítios isolados lá na Normandia. Lembro-me de 44, era eu miúdo. Os primeiros soldados que nos apareceram eram quebequenses e as pessoas ficaram muitos surpreendidas quando eles se lhes dirigiram naquele francês mesmo de camponês, que só os velhos das aldeias é que falavam.”


A foto é do site World War II European Theater of Operations 1944 (http://www.stolly.org.uk/ETO/). Não tem indicação do autor nem do lugar onde foi tirada. A legenda diz apenas (traduzo eu): “Soldado canadiano do regimento da Chaudière pergunta o caminho a uma civil francesa”.
 (Ou eram do Régiment de la Chaudière, os soldados de que o camionista se lembrava, ou do Régiment de Maisonneuve; ou então eram os fuzileiros de Mont-Royal.)