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27/05/26

Uma piada algo pateta, descobertas forçosas e fatores hereditários da infertilidade


«É científico, Tintim! A infertilidade é hereditária.
Se os seus pais não tiverem tido filhos, 
você também não terá!»
Encontrei noutro dia numa página humorística no Facebook a piada aqui à direita (evidentemente, o texto não é de nenhum livro do Tintim, foi posto na imagem pelo autor da piada). 

Ora eu tinha feito a mesma piada numa rubrica humorística de um programa de rádio em que participei nos anos oitenta. Era uma «entrevista» com um «cientista» (eu), que afirmava ter finalmente descoberto a causa da infertilidade e que dizia o mesmo que se pode ler na imagem ao lado, acrescentando ainda qualquer coisa como «E, nos casos em que se revelou que, afinal, nem o pai nem a mãe eram estéreis, a mãe não tinha tido a filha ou o filho com o pai dessa filha ou desse filho, mas antes com outro homem que, esse sim, era estéril.» O que a gente se diverte na juventude… 

***

Uma das maneiras de se definir a especificidade da ciência relativamente a outras áreas de trabalho intelectual é o caráter forçoso das suas descobertas. Neil deGrasse Tyson, ao estabelecer uma comparação entre a criatividade em ciência e nas artes, diz que, nas artes, ninguém que tenha nascido antes ou que venha a nascer depois de um(a) determinada/o artista criou ou criará a mesma coisa que essa/e artista, ao passo que, em ciência,  «posso descobrir alguma coisa no universo, mas, se eu não descobrisse, alguém depois de mim descobriria exatamente a mesma coisa».  E isto porque, ao contrário da arte, que é «uma expressão única do indivíduo», «a ciência é a descoberta das condições naturais pré-existentes».

Parece-me que ele tem toda a razão e há, de facto, descobertas científicas múltiplas independentes. Num texto em que refletia sobre a questão, referi, como exemplos óbvios, as manchas solares e o oxigénio.  Agora, isto não é exclusivo das descobertas científicas. No mesmo texto, falava também exemplos de invenções múltiplas independentes, que, por não serem descobertas científicas, tinham tido formas muito diferentes das várias vezes que foram inventadas, como é o caso da a escrita. E referia também uma invenção minha, a expressão «do prado ao prato» para traduzir «from gate to plate», que, vim a saber pouco tempo depois de a criar, também já tinha sido inventada por outras pessoas. Noutro texto da Travessa (a propósito doutra brincadeira, a água liofilizada, que inventei para o programa de rádio atrás referido e que, mais uma vez, não fui o único a inventar...), discutia até a possibilidade de aferir o grau de criatividade de qualquer ideia a partir, precisamente, do número de ocorrências independentes: «Quanto menos vezes [uma ideia] tiver ocorrido autonomamente, mais genial ela é.» A minha tradução «do prado ao prato» não era, pelos vistos, nada genial, como também não era  muito genial — vejo agora, mas já calculava... — a minha piada da infertilidade herdada. 

Agora, o mais interessante disto tudo é que, apesar do pueril paradoxo que está na base desta piada, é mesmo verdade que algumas doenças ou alterações genéticas suscetíveis de causar infertilidade podem mesmo ser herdadas, da mesma forma que se herdam outras doenças de que os progenitores não sofrem; e até que problemas de baixa fertilidade nos homens podem ser diretamente herdados dos pais: filhos de homens que tenham tido necessidade de tratamentos de fertilidade para procriar têm mais possibilidades de ter de recorrer eles próprios a esses mesmos tratamentos para terem filhos. (Ver um resumo desta questão aqui, mas é fácil encontrar na Internet informação sobre o tema.)

(Quando eu era rapaz, também se dizia de uma rapariga de peito pequeno que «saía ao pai», mas sendo o tamanho do peito um traço poligénico, como a cor dos olhos, forma do corpo, cor do cabelo, etc., resulta provavelmente de uma combinação de genes de ambos os progenitores, de maneira que, em princípio, os genes do pai contribuem tanto para um peito pequeno como para um peito grande, não é verdade?)


03/09/24

A antiguidade não é posto nenhum

Ouvi algumas vezes defender doutrinas ou formas de conhecimento ou de medicina com base na sua antiguidade.  Dever-se-ia, segundo alguns, aceitar a validade de coisas como a «medicina» aiurvédica ou a acupunctura e outras formas de «medicina tradicional» por serem «conhecimentos já muito antigos». 

Agora digam-me: como pode avalizar essas práticas o facto de terem sido criadas numa altura em que se desconheciam os mais básicos fundamentos de química, em que ninguém fazia ideia nenhuma de como funcionava o corpo humano – nem a natureza em geral? 

É antes ao contrário, não é? De qualquer informação sobre doenças, tratamentos e efeitos de quaisquer substâncias ou práticas sobre o ser humano ou outros animais (mas também sobre a descrição da realidade em geral), o melhor é certificar-se sempre de que ela não está desatualizada. 

Imagem: Sushruta a atender doentes, autor anónimo sec. XVII. Wikimedia Commons, daqui.



19/01/21

A beleza e a verdade


Na sua página do Facebook, lembrava Frederico Lourenço em vésperas de Natal uma conversa entre Charles Ryder e Sebastian Flyte, duas personagens do romance Brideshead Revisited, de Evelyn Waugh (traduzo eu[1]):
[Charles:] “Mas, meu caro, Sebastian, não podes mesmo acreditar nisso tudo... O Natal, quero eu dizer, e a estrela e os três e o boi e o burro.
[Sebastian:] “Acredito nisso tudo, sim. É uma ideia adorável.”
[Charles:] “Mas não se pode acreditar em coisas só porque são uma ideia adorável.”
[Sebastian:] “Mas eu acredito. É assim que eu acredito.”
No texto de Waugh, a palavra é lovely. Eu traduzi lovely por adorável. É uma tradução aceitável, mas não é sem problemas. Lovely é uma palavra mais corrente que adorável é tem um sentido mais vasto — pode dizer-se, por exemplo, de comida e de outras coisas para as quais nunca se usa a palavra adorável em português. E depois, em inglês, lovely distingue-se de adorable, que, em muitos casos, parece também traduzir-se por adorável. Em última análise, porëm, todas estas palavras têm um sentido semelhante: dizem-se de uma coisa de que se gosta. Embora com matizes de sentido que, a um certo nível de análise, não são despiciendas, palavras como adorável, maravilhoso, encantador, etc., são termos de aprovação — como bom. No seu texto, Frederico Lourenço refere a loveliness de Sebastian como beleza e, de facto, acho que bela ou bonita funciona tão bem como adorável para traduzir lovely. Lovely usa-se também para apreciações puramente —ou sobretudo — estéticas. E belo é também um termo de aprovação, como bom, mas cobrem os dois termos áreas às vezes diferentes: com bom aprova-se a funcionalidade, a moral, o gosto ou o cheiro, entre muitas coisas, ao passo que belo é o que se vê ou ouve; mas um texto, um período de tempo ou um tecido — e milhentas outras coisas — tanto podem ser belos como bons, às vezes sem grande diferença de significado entre as duas adjetivações, outras vezes com diferenças claras.

As palavras são como as cerejas, sobretudo neste blogue, e escorrem conversas de outras conversas. Mas deixemos agora esta faz-de-conta-que semântica, não é esse o propósito do texto. Como também não é de modo algum intenção minha, note-se, criticar quem acredite no Natal (independentemente do que acreditar no Natal queira dizer para essa pessoa) por achar que o Natal é uma ideia adorável. E muito menos criticar a mensagem de Natal de Frederico Lourenço, que acho bonita e cuja leitura aconselho (se n'ao o fizeram ainda, sigam o link no inïcio deste texto, o post é público). Antes quero, a propósito desta passagem da novela de Evelyn Waugh, alinhar algumas breves considerações sobre a relação da verdade com categorias como beleza, harmonia e simplicidade.

Lembro-me de ler, quando era rapaz novo, o livro Descobertas na Terras dos Maias (aliás, já aqui referido na Travessa), em que Pierre Ivanoff apresenta uma hipótese surpreendente para explicar o colapso do período clássico maia: e se, baseando-se na estrutura cíclica do seu calendário, os sacerdotes maias tivessem anunciado o fim próximo da sua civilização e, por acreditarem nas suas predições e abandonarem as cidades, as populações tivessem confirmado a veracidade das profecias tornando-as realidade? É uma grande ideia, sem dúvida — se o Sebastian Flyte de Brideshead a achasse adorável ao ponto de acreditar nela, quem lhe poderia levar isso a mal? Para mentes mais escrutinadoras, porém, que possibilidades tem esta ideia de descrever o que realmente se passou (mesmo que a também apaixonante ideia de colapso repentino da civilização não fosse, como é, muitas vezes posta em causa)?

A beleza seduz, evidentemente[2]. Há muitas histórias de ideias assim, «bem achadas» mas sem grande — ou nenhuma — possibilidade de serem verdadeiras[3]. Se escolhi esta é porque é também uma história sobre wishful thinking na sua versão mais forte: desejar tanto uma coisa que se faz com que essa coisa aconteça — algo que é muito raro na vida… Mas acreditar numa asserção porque a achamos bonita pode considerar-se, afinal, uma forma de wishful thinking, acreditar na realidade de uma coisa porque a desejamos. É certo que desejar e achar bonito não são exatamente a mesma coisa, mas normalmente deseja-se o que se valoriza…

Enfim, eis que as palavras saem mais uma vez umas pegadas às outras, como as cerejas. Voltemos ao cerne da questão: que implicações pode ter a sedução da beleza de uma ideia nas asserções sobre a sua veracidade? Ou então, mudando ligeiramente de perspetiva, onde nos pode levar o fascínio da beleza quando é a verdade que queremos saber? Talvez dependa das áreas de pesquisa. Como realista que sou, costumo afirmar que não há nada de fundamentalmente diferente numa investigação judicial ou numa investigação científica: em ambos casos se procura demonstrar o que se acredita ser a verdade com recurso a observáveis, ou seja, coisas que todos podem ver, quando elas lhes são apresentadas. Muito provavelmente, porém, poucos defenderão a importância da beleza na investigação judiciária, ao passo que há muito quem defenda uma íntima correlação entre beleza e verdade no domínio científico[4].

Sabine Hossenfelder é uma física teórica alemã e divulgadora científica. Tem um blogue e um canal de vídeo que acompanho e publicou em junho de 2018 um livro chamado Lost in Math: How Beauty Leads Physics Astray, em que defende que a sedução de beleza das grandes teoria está a travar o progresso da física teórica. Não li o livro, mas vi na Internet algumas palestras em que Hossenfelder resume as ideias que aí defende. Segundo ela, há no trabalho científico, e nomeadamente em Física teórica, uma tradição de valorizar a beleza, entendida como «simplicidade», «naturalidade» e «elegância»[5].

O matemático e físico Hermann Weyl afirmava ter sempre tentado juntar a verdade com a beleza, mas que, a ter de escolher só uma delas, escolheria a beleza[6]. O físico Paul Dirac postulava que, com a teoria da relatividade, o princípio da necessária simplicidade de todas as equações descrevendo a realidade fora substituída por outro princípio mais fundamental: a da sua necessária beleza matemática; e que, a escolher entre simplicidade e beleza, havia, pois, que escolher a última, como Einstein fizera[7]. O físico Anthony Zee, referindo também Eistein, torna explícita, de forma radical, a procura da beleza como programa científico, indo ao ponto de postular que a beleza é mais importante que a verdade[8]. Steven Weinberg, que ganhou um prémio Nobel da Física, defende também que a beleza serve como guia em ciência e justifica a afirmação dizendo que a história deu aos cientistas o sentido «estético» que lhes permite reconhecer, pela sua beleza, as boas teorias, como um criador de cavalos reconhece, pela beleza, a qualidade de um animal[9]. Murray Gell-Mann também pensa — com base na sua própria experiência, diz ele — que, perante uma teoria de uma grande beleza, um cientista pode até duvidar de experiências que a infirmem. E explica até de forma mais organizada como funciona esse sentido estético que permite reconhecer, pela sua beleza, uma teoria cientifica: a matemática usada em novas teorias é simples e bela, porque é muito semelhante à usadas nas descobertas que a precederam e motivaram, «porque já a sabemos escrever de modo conciso e sedutor»[10].

Diz Frederico Lourenço na referida mensagem de Natal que «A capacidade humana para ver e criar beleza é a grande redenção.» É sem dúvida uma capacidade humana fundamental e tempos de crise como a atual pandemia vêm com certeza recordar a importância dessa nossa capacidade a quem acaso a tivesse esquecido. Mas vêm também recordar-nos outra verdade fundamental a que muitos, infelizmente, continuam a não dar o devido valor: é que pelo menos tão importante como a capacidade humana de ver e criar beleza é a capacidade humana de ir além dos limites «naturais» dos seus sentidos e intuições e criar descrições adequadas («verdadeiras!») não só do nosso mundo como de todos os mundos. A ciência resulta dessa capacidade.

A objeção que nos surge imediatamente a esta ideia de Weinberg e Gell-Mann — uma objeção de que Hossenfelder também dá conta, aliás — é que fiar-se assim num sentido de beleza assente no reconhecimento das qualidades que funcionaram antes implica que as novas boas teorias não tenham de cortar com as anteriores. Não sei nada de Física e não posso avaliar se, como Hossenfelder defende, há de facto um desperdício de recursos em Física teórica porque se valoriza sedutoras teorias gerais, que não se têm conseguido demonstrar ou que são por natureza intestáveis (ela dá como exemplos a teoria das cordas e hipótese dos multiversos, respetivamente), em vez de se seguir a via mais prática de tentar resolver os problemas imediatos, as contradições dos modelos existentes, com hipóteses que, no presente, possamos testar. Mas a questão da beleza das teorias não se coloca exclusivamente na Física e não me parece que seja avisado, em nenhum empreendimento intelectual, partir do princípio de que o queremos descobrir se parece com o que já sabemos; nem vejo que boa razão pode haver, a não ser uma não assumida religiosidade, para pressupor que as leis da Natureza terão de ser atraentes, harmoniosas, simétricas, simples… — ou seja, à medida de conceitos de beleza que seguramente não se desenvolveram em nós para nos motivar na procura dessas leis e muito menos para as avaliar.

Como dizia Richard Feynman, a única coisa — a única! — que faz com uma teoria seja boa é estar de acordo com o observado. «Se a hipótese é muita bonita ou não, se se é muito esperto ou não, quem criou a hipótese e o nome que tem», nada disso conta[11].

Jimmy Harris: Locomotiva a vapor abandonada no cemitério de comboios de Uyuni, Bolívia (pormenor), 2009. Creative Commons, daqui


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Notas

[1] O original:
“But my dear Sebastian, you can’t seriously believe it all... I mean about Christmas and the star and the three kings and the ox and the ass.”
“Oh yes, I believe that. It’s a lovely idea.”
“But you can’t believe things because they’re a lovely idea.”
“But I do. That’s how I believe.”
É de notar que não é como «ideia adorável» que a maioria das pessoas religiosas acredita nos dogmas, nas personagens ou nas narrativas oficiais da sua religião, mas sim como factos verídicos, embora não observáveis por todos — só quem tem fé lhes reconhece a realidade.

[2] E não é só a beleza das ideias que nos leva a acreditar nelas: a psicologia experimental revela que «uma melhor aparência física contribui para que se acredite que uma pessoa é melhor, mais inteligente, mais bem-sucedida, mais importante e mais valiosa» — e que, convenhamos, é moralmente assustador. Esta definição é retirada da secção «Fenómeno do privilégio da beleza» do artigo da Wikipédia sobre o «Estereótipo da beleza física». Na secção referida, listam-se alguns dos vieses cognitivos causados pela beleza física, com links para muitos estudos e artigos sobre a questão.

[3] Brinco aqui com a célebre frase de Giordano Bruno em De gl’eroici furori: «Se não é verdade, é muito bem achado» («se non è vero, è molto ben trovato»).

[4] Saindo da questão da relação entre beleza e verdade, é interessante constatar que, no que diz respeito à pura aferição da veracidade uma asserção, as mesmas pessoas que aceitam a fé como única premissa necessária para justificar uma crença exigem, e ainda bem, que haja provas factuais (observáveis) para as decisões de um tribunal de lei. (Também as mesmas pessoas que duvidam da «objetividade» do mundo real têm o mesmo comportamento a atravessar a rua que qualquer realista que acredite que o mundo é mais que construção mental ou social… Mas isso é outra conversa. Ou talvez não…)

[5] Hossenfelder sobre esta sua definição de beleza (traduzo eu, daqui):
Com simplicidade (…) refiro-me à simplicidade absoluta: uma teoria deve ser simples, ponto final. Quando as teorias não são suficientemente simples para os gostos dos meus colegas, elaes tentam torná-las mais simples – unificando várias forças ou postulando novas simetrias que combinam partículas em conjuntos ordenados.
O segundo critério é a naturalidade. A naturalidade é uma tentativa de descartar o elemento humano, exigindo que uma teoria não utilize pressupostos que pareçam escolhidos a dedo. Este critério aplica-se o mais das vezes aos valores de constantes sem unidades, como sejam os rácios das massas de partículas elementares. A naturalidade exige que esses números sejam próximos da unidade ou, se assim não for, a teoria explica porque não.
Depois há a elegância, o terceiro e mais esquivo aspeto da beleza. É muitas vezes descrita como uma combinação de simplicidade e surpresa que, em conjunto, apontam para novas associações. Encontramos a elegância no «efeito ah ah», o momento de descoberta em que as coisas encaixam umas nas outras.
A lista de autores e respetivas ideias que apresento no parágrafo seguinte é tirada de uma palestra de Sabine Hossenfelder no Centre de Cultura Contemporània de Barcelona, em 2019, How Beauty Leads Physics Astray Quantum, disponível aqui.

Para ter ideia das críticas de Hossenfelder ao que ela considera a estagnação da Física teórica, ver, por exemplo, este texto do seu blogue: “The Present Phase of Stagnation in the Foundations of Physics Is Not Normal” ou o texto em The Week já referido no início desta nota.

[6]My work always tried to unite the truth with the beautiful, but when I had to choose one or the other, I usually chose the beautiful.” Citado por Freeman J. Dyson na revista Nature, de 10 de março de 1956.

[7] Paul Adrien Maurice Dirac, “The Relation between Mathematics and Physics, lecture delivered on presentation of the James Scott prize", 6 de fevereiro de 1939, in Proceedings of the Royal Society (Edinburgh) Vol. 59, 1938-39, Part II pp. 122-129 (disponível aqui):
The dominating idea in this application of mathematics to physics is that the equations representing the laws of motion should be of a simple form[, but t]he discovery of the theory of relativity made it necessary to modify the principle of simplicity. (…) What makes the theory of relativity so acceptable to physicists in spite of its going against the principle of simplicity is its great mathematical beauty. This is a quality which cannot be defined, any more than beauty in art can be defined, but which people who study mathematics usually have no difficulty in appreciating.
The research worker, in his efforts to express the fundamental laws of Nature in mathematical form, should strive mainly for mathematical beauty. He should still take simplicity into consideration in a subordinate way to beauty. (…) It often happens that the requirements of simplicity and of beauty are the same, but where they clash the latter must take precedence.
[8] Fearful Symmetry: The Search for Beauty in Modern PhysicsPrinceton University Press (1986), Cap. I, secção “Beauty before truth” (disponível aqui):
My colleagues and I in fundamental physics are the intellectual descendants of Albert Einstein; we like to think that we too search for beauty. Some physics equations are so ugly that we cannot bear to look at them, let alone write them down. Certainly, the Ultimate Designer would use only beautiful equations in designing the universe! we proclaim. When presented with two alternative equations purporting to describe Nature, we always choose the one that appeals to our aesthetic sense. "Let us worry about beauty first, and truth will take care of itself!" Such is the rallying cry of fundamental physicists.
[9] Entrevista à série televisiva de divulgação científica NOVA (data?; acessível aqui):
NOVA: What is beauty to a theoretical physicist?
Weinberg: It may seem wacky that a physicist looking at a theory says, "That's a beautiful theory," and therefore takes it seriously as a possible theory of nature. What does beauty have to do with it? I like to make an analogy with a horse breeder who looks at a horse and says, "That's a beautiful horse." While he or she may be expressing a purely aesthetic emotion, I think there's more to it than that. The horse breeder has seen lots of horses and from experience with horses knows that that's the kind of horse that wins races.
So it's an aesthetic sense that's been beaten into us by centuries of interaction with nature. We've learned that certain kinds of theories—the kind that win races—actually succeed in accounting for natural phenomena. The kind of beauty we look for is a kind of rigidity, a sense that the theory is the way it is because if you change anything in it, it would make no sense.
[10] Ver, por exemplo, este TED Talk (excerto da tradução portuguesa da palestra, disponível na mesma página):
O fundamental desta palestra é o seguinte: Temos uma experiência notável neste campo da física fundamental, ou seja, a beleza é um critério bem-sucedido para escolher a teoria certa. Porque é que será?
Vou dar-vos um exemplo da minha experiência. É realmente surpreendente que isto tenha acontecido. Em 1957, três ou quatro de nós, formulámos uma teoria parcial de uma destas forças, a força fraca. Estava em desacordo com sete — sete, contem-nas — sete experiências. As experiências estavam todas erradas.
Nós publicámos a teoria antes de o saber, porque achámos que era tão bela que tinha que estar correta! As experiências tinham que estar erradas, e estavam mesmo. (…) Porque é que este tipo de teorias funciona? A questão é esta. O que é queremos dizer quando falamos em beleza? Vou tentar esclarecer este ponto — esclarecê-lo em parte. Porque é que funciona? (…)
Diz-se, com frequência, que estamos cada vez mais perto das leis fundamentais ao examinarmos fenómenos a baixas energias e, de seguida, a energias mais altas, e ainda mais altas, ou distâncias mais curtas e, a seguir, ainda mais curtas e de novo distâncias ainda mais curtas, etc., É como descascar as camadas de uma cebola. (...)
Sucede que, (...) consoante vamos descascando as camadas da cebola e nos aproximamos cada vez mais da lei de base, verificamos que cada camada tem algo em comum com a anterior, e com a seguinte. Podemos escrevê-lo matematicamente, e verificamos que a matemática é muito semelhante. As diferentes camadas requerem uma matemática semelhante. (…)
O que sucede é que os novos fenómenos, as novas camadas, as camadas interiores das camadas ligeiramente menores da cebola que atingimos, parecem-se com as ligeiramente maiores. O tipo de matemática de que necessitámos para a camada anterior é quase o mesmo de que necessitamos para a camada seguinte. É por isso que as equações parecem tão simples. Porque usam a matemática que já temos. (…) Cada camada da cebola mostra uma semelhança com as camadas adjacentes. A matemática para as camadas adjacentes é muito semelhante à que necessitamos para a nova camada. Por isso é muito bela. Porque já a sabemos escrever de modo conciso e sedutor.
[11] Eis a transcrição de um excerto de uma conhecida aula de Feynman, que se pode ver, por exemplo, aqui (traduzi e sublinhei eu a parte em itálico):
Now I’m going to discuss how we would look for a new law. In general, we look for a new law by the following process. First, we guess it (audience laughter), no, don’t laugh, that’s the truth. Then we compute the consequences of the guess, to see what, if this is right, if this law we guess is right, to see what it would imply and then we compare the computation results to nature or we say compare to experiment or experience, compare it directly with observations to see if it works.
If it disagrees with experiment, it’s wrong. In that simple statement is the key to science. It doesn’t make any difference how beautiful your guess is, it doesn’t matter how smart you are who made the guess, or what his name is … If it disagrees with experiment, it’s wrong. That’s all there is to it.








30/05/18

De especialização e especialistas

Da especialização propriamente dita

«Sabe-se cada vez mais de cada vez menos», ouve-se e lê-se muitas vezes. E eu acho que, por sedutor que possa ser, este discurso não resiste bem a um bocadinho de reflexão.

O todo não é, como todo, apreensível nem analisável de forma organizada e racional – o todo é demasiado grande para os nossos sentidos e a nossa capacidade de abstração. Só faz sentido uma teoria geral fundamentada na totalidade possível do conhecimento específico. Neste sentido, a especialização não é um mal necessário, é um bem necessário, porque é de muitos conhecimentos especializados que é feito o conhecimento geral.

Quando se critica o demasiado enfoque na especialização e a proliferação de especialistas, porém, normalmente não se quer com isso dizer que há pouco quem tenha um conhecimento da Teoria Geral da Relatividade ou outra teoria bastante geral do universo, mas fala-se antes do declínio da erosão de um saber antigo – «enciclopédico», digamos – em que todas as áreas do saber se misturavam e se confundiam em relações estranhas, meio mágicas muitas delas. O problema é que só era possível saber bastante de tudo no tempo em que se sabia pouco de quase tudo. Hoje, não só há uma (incomparavelmente) maior acumulação de conhecimento em cada área, como há muito mais áreas de conhecimento, de maneira que um saber «generalista» correspondente é agora, pode dizer-se, não saber quase nada de quase tudo – o que não deve ser melhor que saber quase tudo de quase nada, pois não?

Uma parte da crítica à especialização é mais uma versão do catastrofismo milenarista que diz que o passado é que era bom e o presente é lugar de decadência. Neste caso, eram bons os intelectuais que cobriam todas as áreas de saber e a decadência é a especialização. Na realidade, mesmo aprofundando conhecimentos numa área específica, provavelmente nunca houve tanta gente a saber tanto de tanta coisa. Não parece ser a especialização a matar a cultura geral. (E provavelmente, quem sabe muito pouco de quase nada também sabe mais do que quem antigamente sabia muito pouco de quase nada…)

Por fim – e notem que é de uma impressão que aqui se trata, não é nada que eu consiga demonstrar –, causa mais danos a ânsia de «holismo» do que a resignação de se conformar com a especialização. É que o centrar-se com rigor em objetos específicos tem a vantagem de nos fazer perceber quais são os limites concretos da procura concreta de conhecimento e não incentiva, como o parece fazer alguma procura de «holismo», a tentar preencher com uma alegre e seguramente bem-intencionada falta de rigor, quando não puro delírio, os espaços de ignorância que, claro, não deixam nunca de existir. Que vos parece?

Sejamos claros, enfim: se é sem dúvida importante para a vida de cada um o conhecimento «generalista», «enciclopédico», «holístico», e simplesmente a cultura geral, enfim, os avanços técnicos devem-se diretamente à especialização. A longa história da redução do tempo de trabalho e aumento do tempo de lazer, do aumento da esperança e da qualidade de vida – o viver-se, enfim, mais tempo em melhores condições e com menos esforço – é em grande medida a história do aumento do conhecimento especializado.

***
Da desvalorização dos especialistas, e mais duns que doutros

Uma coisa curiosa, a propósito de especialização: parece-me evidente que a especialização se aceita melhor em certas áreas que noutras – o que, para mim, não faz qualquer sentido. Para conceber ou construir um edifício ou uma ponte, ninguém hesita a recorrer a técnicos altamente especializados. Se se discute alguma questão de física ou de química, aceita-se sem problema como referência a opinião de especialistas das áreas em discussão. Sobre a biologia, há mais reservas, sobretudo quanto à sua vertente técnica, a medicina: se é verdade que a maior parte das pessoas vai ao médico quando está doente, infelizmente aceitam-se ainda muitas opiniões de leigos sobre como lidar com problemas físicos de toda a ordem. Já se se discute língua ou história, quase toda a gente se sente capaz de ter uma opinião sobre temas de que não sabe grande coisa. Há casos até em que a condição de especialista, se não é considerado um handicap na discussão, é, pelo menos, vista como indesejável: «Esta saloiice do especialista, sobretudo nas ciências humanas», escrevia alguém no outro dia, num comentário no Facebook, «é uma idiossincrasia de país atrasado». Lá está: «sobretudo nas ciências humanas».

Será porque as pessoas as considerarem áreas «não científicas» e não dão, por isso, o mesmo crédito aos especialistas dessas áreas? Não creio que seja essa a razão, mas se fosse, seria uma atitude pouco razoável e incoerente. Sejam quais forem as especificidades das ciências sociais e humanas relativamente às ciências naturais (o seu grau de «dureza» varia muito de umas para as outras e de uma para outra área dentro de cada uma delas) deveria ser óbvio que os especialistas de uma determinada área de estudos sabem incomparavelmente mais dela que as outras pessoas e parece, no mínimo, sensato ouvir com muita atenção o que têm a dizer sobre essa matéria.

O problema pode bem ser antes que certas áreas sejam sentidas por todas as pessoas como mais diretamente constitutivas da sua identidade, do lugar que a si próprias se atribuem no mundo e que, por isso, se sintam mais no direito de ter uma palavra a dizer, sobretudo quando há algo que vem mexer com partes muito fundas dos afetos. Não é fácil abdicar de crenças e automatismos solidamente enraizados para se abrir a dados factuais – a que falta muitas vezes, ainda por cima, o conforto da simplicidade a preto e branco dos preconceitos…

Enfim… O certo é que a postura, quando não a crença explícita, de muita gente é que – pelo menos nalgumas áreas – todas as opiniões valem o mesmo, nem que sejam sobre assuntos em que nunca se pensou antes de surgirem polémicas em que imediatamente se toma partido. Isto é, para mim, um bocado assustador, porque é dar cabo, de um golpe fácil, de toda a base do conhecimento humano e da sua possibilidade de continuar a evoluir.

***
 Dois exemplos óbvios de polémicas em que muita gente pessoa crê ter opiniões tão válidas como as de quem sabe do tema em discussão são a da reforma ortográfica e a da designação do futuro museu de Lisboa que se pretende dedicar às viagens e à expansão territorial portuguesas.

Participei algumas vezes na discussão da reforma ortográfica. Defendi-a contra vários ataques sem pés nem cabeça. Há gente que não sabe ou não quer distinguir entre língua e grafia, que defende a influência da grafia na pronúncia (sem se quer se dar conta, sequer, de que o seu argumento implicaria que não existissem as tais «consoantes mudas» que acha que devem continuar a existir), gente que não compreende a diferença entre as várias lógicas que podem subjazer a uma grafia, gente que não sabe sequer o que está em discussão, gente que nunca pensou dois minutos sobre grafia antes de a reforma entrar em vigor, mas que expressa, ainda assim, de forma veemente, quando não virulenta, opiniões não fundamentadas. Como o assinalava um comentador anónimo numa discussão em linha, esse violento debitar de disparates teve como consequência afastar do debate público a maior parte das pessoas que sabem alguma coisa de língua, linguistas ou não, académicas ou não, defensoras ou não da reforma, porque a discussão era demasiado má, a todos os níveis – e ficou, com essa ausência, ainda pior… A verdade é que não havia muito a discutir, porque a esmagadora maioria dos detratores da reforma não estava e não está disposta a uma discussão racional. A única coisa que querem é continuar a escrever como aprenderam e alguns chegaram a justificar de formas abstrusas o seu conservadorismo. Cheguei a ver, por exemplo, quem afirmasse que o tempo que tinha passado a aprender a escrever como escrevia justificava bem nunca mudar de ortografia.

A defesa da designação «Museu das descobertas» e o ataque à carta de mais de uma centena de académicos que denuncia a carga ideológica dessa designação é também significativa. Di-lo bem o historiador Paulo Pinto, um dos signatários do documento (artigo aqui):
Há um indiscutível aroma lunático em tudo isto. Primeiro, porque é incompreensível a ligeireza e o desprezo que continuam a merecer historiadores e especialistas das Ciências Sociais e Humanas; depois, porque o que deveria ser um debate intelectual construtivo e sereno é reduzido, afinal, a um destilar de bílis e paixões; finalmente, porque o nosso ego nacional, aparentemente sólido e robusto, revela-se, uma vez mais, um véu frágil e inseguro. Não se encontra uma opinião fundamentada a contestar a carta, só achismos, mitos, calor e ignorância. 
Há também outro aspeto que ajuda, provavelmente, à postura antiespecialistas. O conhecimento sério, seja ele de história, língua ou seja lá do que for, não só é complexo como é chato para a maior parte das pessoas. O simplismo dos mitos é muito mais reconfortante – e mais mediático. Cabe aos especialistas, é certo, tentar tornar a complexidade das suas áreas acessível a toda a gente, mas a complexidade das questões não pode ser nunca razão para os deixar de lado no debate público – é antes razão para lhes dar mais visibilidade. Como diz a historiadora Ângela Xavier Barreto (artigo aqui),
[a] revisitação histórica e a recusa de visões simplistas e parcelares são exercícios fundamentais de e para uma cidadania consciente, informada, crítica — aquilo que tantas vezes se acusa de, na sociedade portuguesa, não existir. Entre os signatários [da carta aberta publicada no Expresso online de 12 de Abril] encontram-se, precisamente, muitas das pessoas que, nas últimas décadas, produziram conhecimento científico de referência sobre temáticas associadas à expansão dos portugueses. É verdade que a maior parte delas não escreve colunas nos jornais, nem aparece na televisão. É por isso que é tão importante que M[iguel] S[ousa] T[avares] se disponha a dialogar com elas e que os leitores possam partilhar a discussão sobre os problemas que existem com as palavras que reproduzem a imaginação histórica em que foram educados.*   
***
Mas então, quero eu dizer com isto que todas as discussões se devem reservar aos especialistas de cada área, que os não especialistas não têm direito a opinião? Não, não quero dizer absolutamente nada disso; apenas que, para ter uma opinião sólida, para participar numa discussão de maneira construtiva e rigorosa, uma pessoa deve informar-se… junto dos especialistas – que têm muitas vezes, aliás, posições diferentes uns dos outros. E que em situação nenhuma, mas nenhuma, a ignorância pode ser usada como argumento («eu não sei nada do assunto, por isso recuso-me a ter em conta o que se sabe desse assunto») e o conhecimento considerado um handicap na discussão. Só isto.


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* Ângela Xavier Barreto refere Miguel Sousa Tavares, porque responde ao seu ataque à carta aberta dos académicos, mas o que ela afirma diz, obviamente, respeito a todos os participantes em qualquer debate nestas condições. Sobre a questão do museu, é interessante também ver a opinião não só de historiadores, mas também de museologistas como Maria Isabel Roque (artigo aqui) e Maria Vlachou  (artigo aqui – no fim deste artigo, há uma lista de links para 20 artigos sobre este tema)

04/02/17

O paradoxo do telemóvel

Peter Hadfield, também conhecido como potholer54, publicou recentemente um vídeo em que explica que, ao contrário do que pretendem vários artigos que circulam pela Internet, não há nenhum indício de que os telemóveis afetem o cérebro, o coração ou seja lá que parte for do corpo humano (ver aqui o vídeo “Do cell phones cook your brain?”).

Quando publiquei o vídeo no Facebook, um amigo meu comentou que, a julgar pela maneira como certas pessoas (não) pensam, talvez a teoria de os telemóveis afetarem o cérebro não fosse de desprezar. O comentário inspirou-me e criei um paradoxo (mais um…) que talvez venha a ser conhecido nos anais da filosofia como «o paradoxo do Vítor» ou «o paradoxo do telemóvel»:
Os telemóveis afetam o cérebro de certas pessoas, fazendo com que essas pessoas não consigam compreender que não há provas nem nenhuma outra razão para acreditar que os telemóveis possam afetar o cérebro ou outra parte do corpo. 
Que dizem do paradoxo os meus leitores que se interessem por lógica?

19/06/15

Ao correr do teclado, sobre investigadores e investigações

Tenho andado a re/ver no YouTube algumas aulas e conversas de Richard Feynman, que é alguém que vale sempre a pena ouvir: grande capacidade de comunicação, grande poder de síntese, exemplos sempre à mão e muitos conhecimentos e ideias interessantes. Um dos vídeos que primeiro me chamou a atenção é de uma aula na Universidade de Cornell em 1964. Feynman fez aí uma descrição do trabalho de procura de uma lei científica que ficou famosa, ao que percebo, e que foi depois publicada em livro:
Em geral, procura-se uma nova lei pelo seguinte processo: começamos com uma conjetura; depois, calculamos as consequências dessa conjetura para vermos as implicações da lei, se estivesse correta; depois ainda, comparamos o resultado do cálculo com a Natureza por meio da experiência ou da experimentação. A comparação é efetuada diretamente com as observações para vermos se a lei funciona. Se não concordar com a experiência, está errada. Nesta simples afirmação reside a chave da ciência. Não importa a beleza da nossa suposição. Não importa a nossa inteligência ou a reputação de quem fez a conjetura − se a lei não concordar com a experiência está errada. E é tudo[1].
Tomando a expressão lei científica em sentido lato, referindo-se, sei lá...,  tanto às leis da termodinâmica como à aquisição da pronúncia da língua materna, poderia dizer-se que, neste resumo, Feynman descreve de facto todo o processo científico; mas seria uma grande injustiça para todos os que, pacientemente, vão apenas recolhendo informação, sem por isso proporem quaisquer leis. É essencial em ciência o papel das bases de dados (não forçosamente no sentido informático da expressão, claro), ou seja, do conjunto de descrições da realidade que nos permitem, precisamente, aferir a validade de qualquer lei ou teoria.

Como interagem a formulação de hipóteses e os dados recolhidos é uma questão interessante. No outro dia, comprei em segunda mão uma edição ilustrada das quatro novelas de Sherlock Holmes. Nunca tinha lido nenhuma história de Sherlock Holmes, vejam lá. Tinha lido coisas de Conan Doyle e até já falei aqui dele, mas não eram aventuras de Sherlock Holmes. Na primeira novela, o célebre investigador adverte para o perigo de formular hipóteses antes de ter recolhido os dados. Diz ele (e traduzo eu):
É um erro enorme teorizar antes de ter os indícios todos. Faz-nos ser tendenciosos.[2]
Descobri depois, na Wikipédia, que Holmes repete a mesma ideia em As aventuras de Sherlock Holmes:
É um erro enorme teorizar antes de ter dados. Sem o sentir, uma pessoa começa a distorcer os factos para os fazer corresponder às teorias, em vez de fazer teorias que correspondam aos factos.[3]
Exame do crânio de Piltdown. John Cooke, 1915 (de Wikimedia Commons)
Na história verídica do Homem de Piltdown juntam-se a aventura de detetives e a investigação científica
(e talvez também Conan Doyle, mas isso é só uma conjetura… 
O trabalho do detetive é basicamente o mesmo que o do cientista e de quem quer que procure a verdade com base em observações que podem ser feitas por toda a gente. Pode pensar-se, talvez, que as conclusões da investigação criminal costumam ser mais definitivas (descobre-se o culpado, pronto) que as da Química, da Linguística ou da História, por exemplo, que são mais passíveis de posterior revisão, para serem aperfeiçoadas ou substituídas por novas conclusões. Mas, mesmo na investigação criminal, também não há verdades definitivas, como no-lo mostram os muitos casos em que se revela, às vezes muitos anos depois, que o condenado não era afinal culpado. Em qualquer tipo de investigação, é fundamental a honestidade do investigador, antes de mais consigo mesmo – tentar sempre pôr em causa os seus sentidos e toda a classe de sentimentos. Deve observar-se, digamos assim, uma rigorosa ética de renúncia ao eu, um pouco como a propõem alguns místicos de várias religiões.

Dito isto, e por fundamentados que sejam os receios de Sherlock Holmes relativamente à tendência de confirmar na observação aquilo em que se acredita à partida, é importante realçar que o controlo da validade das conclusões de uma investigação não é apenas pessoal, interior: vai haver (devia sempre haver…) outras pessoas a julgar as provas e as deduções do detetive e do historiador, e a refazer os cálculos e as experiências do cientista, e é assim que se certifica que os dados não foram escolhidos a dedo ou torturados até dizerem o que o investigador queria que eles dissessem.

Se continuarmos a seguir a aula de Feynman atrás referida, vemos que não é qualquer palpite que serve de ponto de partida ao trabalho científico, mas que deverá ser, é claro, uma conjetura abalizada[4]. Não basta “montar um grande computador com uma roda que faz uma sucessão de conjeturas” ao acaso e testá-las todas, quanto mais melhor. Quer dizer, se não forem possibilidades realmente intestáveis e que, por isso, não podem aspirar ao estatuto de observáveis, sobre, por exemplo, o que sentiram os americanos originais quando viram chegar os primeiros europeus, a reprodução das sereias ou a alma das nações, podem de facto verificar-se até hipóteses mesmo muito disparatadas, mas não há razão nenhuma para se gastar tempo e dinheiro para o boneco (a não ser em casos em que se pretende justamente desmantelar uma hipótese disparatada que alguém insista em considerar “um facto”, como certos postulados das pseudociências...).

Fazer uma boa conjetura é, pois, uma parte importante do trabalho. Tão importante que, se a hipótese for boa, recorda-nos Priyamvada Natarajan numa conversa recente no site Edge, ninguém passa a considerar menos o seu autor quando ela se revela falsa. A beleza da ciência, diz ela, é poder provar-se que uma pessoa tem ou não razão. Uma das belezas, sem dúvida. Outra é essa de ninguém perder valor por não ter razão, se tiver feito devidamente o seu trabalho. Notem que não é de modo nenhum de astrofísica que aqui se trata, até porque não é assunto sobre o qual me sinta com capacidade de escrever seja lá o que for, pelo que salto a explicação das teorias que ela descreve e que poderão conhecer, se for do vosso interesse, seguindo a link atrás. Notem também como este processo segue rigorosamente a descrição de Feynman: há um fenómeno que não se sabe explicar, pelo que é necessário uma lei nova; aventa-se uma proposta de explicação; calculam-se as consequências que essa lei teria, a ser verdadeira; e verifica-se se essas consequências se observam ou não na realidade. Traduzo eu:
Propusemos [a] ideia dos Buracos Negros de Colapso Direto que são muito maciços e se formam muito cedo no universo […]. Claro, há consequências da formação de buracos negros, ou de uma população deles, desta maneira, em vez de ser por meio de estrelas. A principal previsão deste cenário é que se devem ver quasares muito brilhantes muito mais cedo no universo […] É uma previsão que será testada pelo Telescópio Espacial James Webb, que esperamos que seja inaugurado em 2018.

Vai ser muito emocionante provar-se se temos razão ou não. É essa a beleza da ciência. Uma pessoa poder sentar-se no seu escritoriozinho em New Haven e fazer um cálculo que uma comunidade leva suficientemente a sério para o testar, e é fantástico que o façam num prazo de dez, quinze anos […]. É claro, seria bom ter razão.

A questão de se provar várias vezes que uma pessoa está errada e essa pessoa ser, ainda assim, uma cientista respeitada é uma excelente questão. Tem havido muitos casos em que houve grandes espíritos que propuseram ideias fortes, muitas das quais se tem provado que estão erradas, e eles são considerados, ainda assim, os mais brilhantes astrofísicos.
Eu sei o que estão a pensar: que este tipo de reconhecimento não é de modo algum exclusivo da ciência, que há muito quem continue a ser admirado depois de se provar que não tinha razão – e não só por familiares e amigos. É certo. Quando, porém, se trata de formas de “conhecimento” não sujeitas à confrontação com a observação e ao escrutínio de outros especialistas, sejam elas religiosas, pseudofilosóficas ou pseudocientíficas, o mais normal é nunca se provar que alguém não tem razão, simplesmente porque não há nada a provar, é tudo só uma questão de crer[4]...
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[1] Richard Feynman, O que é uma Lei Física, Lisboa: Gradiva, 1989. Tradução de Carlos Fiolhais. No vídeo da aula de Feynman de que é tirado o texto,os alunos riem-se quando ele diz “First, you guess”, o que não aconteceria, penso eu, se alguém dissesse, em português, “começamos com uma conjetura”. Isto tem a ver com o leque mais amplo de significados da palavra guess, mas não me parece que a tradução seja incorreta, parece-me até muito acertada.
[2] “A Study in Scarlet” in Sherlock Holmes, The Complete Illustrated Novels, Londres: Bounty Books, 2005: “It is a capital mistake to theorize before you have all the evidence. It biases the judgment.”
[3] “A Scandal in Bohemia”, in The Adventures of Sherlock Holmes, Londres: George Newnes, 1892: “It is a capital mistake to theorize before one has data. Insensibly one begins to twist facts to suit theories, instead of theories to suit facts.” Uma coisa que me veio logo à cabeça, quando li estas sentenças de Sherlock Holmes (não me atrevo a sugerir que se deve ler nas afirmações do investigador a opinião do seu autor…), foi que, em abstrato, pode também pensar-se exatamente o contrário: que basear-se sempre em dados previamente recolhidos pode influenciar a formulação da hipótese, limitando-a. Por cercear a imaginação, digamos assim. É-me difícil, porém, pensar em exemplos concretos dessa possível limitação.
[4] E depois, mas isso é outra história, há os casos de vários guias espirituais de todo o tipo que, depois de serem desmascaradas as suas fraudes ou as enormes incoerências entre o que pregam e o que fazem, não perdem a legião de discípulos e admiradores – os discípulos não reconhecem que o seu mentor espiritual estava errado, nem sequer, muitas vezes, aceitam as críticas que lhe fazem, sobretudo porque, se o fizessem, teriam de aceitar o seu próprio equívoco… Como me sugeriu j.j.amarante, esta referência a guias espirituais deve também incluir políticos.

12/02/15

Não saber

Dizia alguém no outro dia (já não me lembro quem, peço desculpa) que é raro assumir-se a ignorância no espaço público, que ninguém quer dizer que não sabe, mesmo quando é óbvio que é esse o caso. Não sei se é bem assim. Também não faço ideia se a assunção da ignorância é mais rara no espaço público que em privado. É curioso: dou-me conta de que a frase “não sei se é bem assim” não é normalmente uma simples declaração de ignorância, que era o que eu aqui queria fazer, mas antes um desacordo cortês ou moderado, correspondendo a algo como “creio que não é bem assim”…

Sublinha-se muitas vezes, e com toda a justeza, que a assunção da ignorância, nem que só perante si próprio, é uma posição cognitivamente válida, e umas das mais válidas até, porque é o ponto de partida para o inquérito e, portanto, para a expansão do conhecimento: se não assumir que não sei, não vou estar disposto a aprender. Mas não só: a assunção da ignorância pode valorizar-se também como posição puramente negativa de racionalidade, arrumação da vida e modéstia, que não leva forçosamente à procura de conhecimento: “Isto não sei e não vou saber, porque não é o que mais me interessa e não tenho tempo para procurar saber tudo – deixo isto a quem saiba ou queira saber desta questão.”

Uma questão relacionada com esta é a dos resultados negativos, seja na investigação científica seja em qualquer outro tipo de pesquisa: “Pensei que podia ser isto, mas não é; depois, pensei que podia ser antes isto, mas também não é… Não sei o que poderá ser.” Muitas vezes, estes resultados não se aceitam, pura e simplesmente, e são outras vezes olhados de soslaio: “Então?” Mas eu acho que se devem aceitar os resultados nulos de qualquer investigação como tendo exatamente o mesmo valor de qualquer conclusão positiva, até porque os resultados nulos não são nulos em sentido estrito – saber que não é o que se pensou que pudesse ser já é saber muito. [Ah, apesar dos preconceitos contra os resultados negativos, existem algumas revistas especializadas na publicação de resultados negativos, como o Journal of Negative Results e outros.]

15/01/14

I’ve got a bike, you can ride it if you like

Há muito que se discute a eficácia ou a necessidade do uso obrigatório de capacete para os ciclistas e, pelo que tenho visto, continua a não haver consenso na matéria. Não há consenso, mas há um bom senso que me chamou a atenção e que quero elogiar: o de reconhecer dificuldades e falta ou impossibilidade de controlo nos estudos sobre o assunto. Estou a referir-me concretamente a um artigo de Ben Goldacre e David Spiegelhalter no BMJ*, que discute, em grande parte, um estudo sobre o efeito da legislação canadiana de uso obrigatório de capacete na admissão hospitalar de vítimas de acidentes de bicicleta com lesões na cabeça, concluindo (o estudo) que este efeito “parece ter sido mínimo”**.

O estudo em análise, que, segundo os autores do artigo, é superior a muito do que foi feito antes, parece, à primeira vista, ir contra as conclusões de outros estudos. Estes estudos têm, porém, alguns problemas metodológicos:

Por um lado, se o grupo de controlo são ciclistas admitidos com outras lesões resultantes de acidente, este grupo depende da ocorrência de acidentes, partindo-se, portanto, do pressuposto de que o uso de capacete não altera o risco geral de acidente – o que pode não ser certo.

Por outro lado, há variáveis não medidas e que talvez nem possam medir-se: as pessoas que usam capacete podem ser diferentes das que não usam – podem ser mais cuidadosas, por exemplo, e, por isso, menos suscetíveis de sofrer acidentes, com ou sem capacete; e as pessoas que usam capacete só porque são obrigadas pela legislação também podem ser diferentes – podem não o usar corretamente, porque apenas lhes interessa cumprir a lei e evitar uma multa; e podem alterar o comportamento ao usarem o capacete, através do fenómeno de “compensação de risco” (“uso capacete, posso ter menos cuidado”), que está bem documentado.

Além disso, pode ser que, como documentado num estudo, os automobilistas deem mais espaço a ciclistas sem capacete.

Mesmo que os capacetes tenham realmente influência na taxa de lesões na cabeça, porém, isso não implica necessariamente que a obrigatoriedade tenha efeitos positivos gerais como política de saúde pública, porque pode ter efeitos indiretos indesejáveis. Um estudo recente identifica dois grupos de ciclistas: um grupo rápido, com muito equipamento, incluindo capacetes; e um grupo mais lento, sem muito equipamento. Segundo este estudo, o uso obrigatório de capacetes pode fazer diminuir o segundo grupo. Ora sabe-se que os efeitos positivos de andar de bicicleta são maiores que os efeitos negativos, os acidentes. (Esta vantagem, porém, depende muito do risco absoluto de acidente: qualquer redução real do risco relativo de lesão na cabeça tem um grande impacto nos casos mais comuns de choque, os que se dão com crianças.)

Há efeitos indiretos ainda mais complexos, por exemplo, a chamada Lei de Smeed de “segurança no número”: quanto mais ciclistas há (maior densidade na estrada), mais seguro é andar de bicicleta.

Além de todas estas questões, há uma questão propriamente política: há quem considere que o uso obrigatório de capacete implica pôr a responsabilidade no indivíduo, quando podem ser tomadas outras medidas de caráter coletivo. Costuma dar-se o exemplo da Dinamarca e dos Países Baixos, com índices baixos de acidentes, apesar de a grande maioria dos muitos ciclistas que aí existem não usar capacete. A explicação parece estar nas infraestruturas, legislação rodoviária e cultura ciclista como meio de transporte normal (não desportivo, sem risco).

A conclusão do artigo é que é improvável que mais investigação venha clarificar inequivocamente as atuais incertezas e que há outros aspetos – culturais, psicológicos e políticos – do debate popular sobre a questão que serão sempre importantes.

É uma questão complexa e não sei se a soube expor. Não quero, sobretudo, que fiquem com a ideia de que o estudo analisado no artigo diz que tanto faz usar capacete como não o usar. Nada disso, o que “parece ter sido mínimo”, sublinho, são os efeitos da obrigatoriedade do uso de capacete, não os efeitos do capacete. Os autores do estudo analisado afirmam claramente: “… os capacetes reduzem o risco de lesões na cabeça e recomendamos o seu uso” e nunca o artigo põe isto em causa. Acho que não há dúvidas quanto às vantagens do uso voluntário do capacete.

Do artigo para a vida à minha volta. É certo que, para distâncias curtas, a bicicleta é um dos meios de transporte mais normais na Dinamarca, se não até o mais normal. A razão de queixa da Karen, a minha mulher, do emprego que tem é ter de ir de carro (35km). O que ela queria era poder ir de bicicleta para o trabalho, como faz a maior parte das pessoas. (Aqui a expressão i cykleafstand faz parte das que se usam para definir uma ocupação: “a uma distância que se pode fazer de bicicleta”.)

A Siri, a minha filha mais nova, que costuma ir na carrinha da escola, quis hoje ir de bicicleta. Levantámo-nos às seis horas, meia hora mais cedo do que é costume, e lá fomos, às sete. Demorámos quase uma hora a fazer cerca de seis quilómetros, porque a noite estava escura como breu, com muito nevoeiro, ademais, e só há iluminação pública em cerca de um quinto do caminho. Bonito passeio. A Siri diz que quer ir outra vez de bicicleta depois de amanhã. (A ver se arranjo uns refletores para pôr na roupa ou uns coletes refletores. E a ver se reparo se é quem usa capacete que também usa refletores na roupa.)

É verdade que muitos dinamarqueses não usam capacete. (Ou estrangeiros residentes na Dinamarca, smile…) Ia hoje a pensar que o frio pode ser uma razão – no tempo frio... Quase não se encontram à venda capacetes preparados para o frio, quentes e que cubram as orelhas. As minhas filhas usam um gorro por baixo do capacete, o que é desconfortável. Mas muita gente usa apenas gorros compridos ou de orelhas ou mesmo apenas os capuzes dos casacos. Ia a pensar se não será mais um fator a ter conta nestes estudos: até que ponto, em zonas frias, o capacete é visto como desconforto; e qual a proteção que dão os gorros de inverno e os capuzes. Muitos deles (o meu, por exemplo, grosso, forrado a pele por dentro), alguma proteção há-de dar, embora, claro, muito menor que a de um capacete.

Agora, são adolescentes e adultos que não usam capacete. E cada vez menos, creio. Para as crianças, o uso de capacete é, por assim dizer, obrigatório. Os pais obrigam-nas a usar capacete, e não só para andar de bicicleta, também para andar de skate, de patins, até de trotineta, às vezes… As escolas também obrigam os alunos, crianças jovens ou adolescentes, a usar capacete, quando a turma vai toda de bicicleta a algum lado – uma coisa que, aqui em Tåsinge, acontece com alguma frequência.

Ia a pensar nisto tudo, enquanto pedalava, e ia a pensar que gostava também de saber quais são os acidentes mais comuns de bicicleta e se variam de país para país, em função de infra-estruturas, legislação e cultura ciclista. São mais choques ou quedas? E os choques, são mais entre ciclistas, ou de ciclistas com outros veículos ou peões? Podia ter investigado antes de publicar este texto, não era? em vez de deixar a pergunta em aberto... Mas prefiro publicar isto assim e voltar algum dia ao assunto, se for caso disso. É que, por um lado, o post já vai grande e, por outro, se perco, como se diz, a pedalada, acabo por nunca publicar isto. O título do post? Ah, é uma cantiga que há:


Bike, filme de Lisa Wu com música de Syd Barrett ("Bike", 1967)
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* Goldacre, Ben & Spiegelhalter, David, “Bicycle helmets and the law” (BMJ 2013;346:f3817), 12 de junho de 2013, disponível em linha.
** Dennis, J., Ramsay, T., Turgeon, A. & Zarychanski, R., “Helmet legislation and admissions to hospital for cycling related head injuries in Canadian provinces and territories: interrupted time series analysis (BMJ 2013;346:f2674), 14 de maio de 2013, disponível em linha.

08/10/13

Mas então… Se é assim nestes casos, como será nos outros?

Eis (a minha tradução de) um título de artigo do [Daily] Mail Online:
 “A “superlíngua” da idade do gelo que os Europeus falavam há 15.000 – e que ainda compreendemos hoje[1]
Não sei qual é a vossa reação, mas eu fico de pé atrás quando vejo títulos assim. E é isso que se deve fazer. Não vou agora fazer uma crítica do estudo que este artigo refere, até porque não é sobre uma área da minha especialidade, mas posso indicar-vos, se por acaso vos interessar esta área de estudos, algumas críticas que apontam para graves erros teóricos e metodológicos, aqui e aqui. Aquilo que quero tratar aqui é da maneira como os resultados de estudos académicos são divulgados nos jornais e revistas – e, sobretudo, em certos jornais e revistas. Neste caso, por exemplo, como diz Piotr Gąsiorowski no seu blogue Language Evolution, “parece ridículo e é ridículo”. Evidentemente, por muitas falhas que o estudo tenha, não poderia afirmar uma coisa destas[2]. “Mas pronto”, continua Gąsiorowski, “jornalistas são jornalistas. Em particular, os jornalistas de ciência atuais, com falta de educação e de sentido crítico, compreendem e relatam sempre mal pelo menos 60% do que encontram num jornal académico.” É muito pessimismo, não é? Afinal de contas, o Daily Mail é o Daily Mail, mas nem todos os jornais são o Daily Mail. Neste caso, podemos perguntar-nos se o jornalista (não identificado, o que também é revelador), leu o artigo…

Mas enfim, para que perco eu tempo com isto? A questão é que, no Daily Mail ou seja lá onde for, estas coisas passam. As pessoas leem e acreditam. E se isto é assim nos temas que domino, deve ser igual nos que não domino, não é? Uma pessoa com formação na área apercebe-se logo de que alguma coisa está mal em artigos deste tipo. Mas, se não tiver essa formação? Que capacidade crítica tenho eu relativamente a artigos de divulgação de estudos de física ou biologia? É claro, não levo muito a sério quando vejo que “o nosso ADN pode causar padrões perturbadores do vácuo, produzindo assim wormholes magnetizados”[3], mas, muitas vezes, não deteto quais podem ser as fraquezas – ou mesmo erros óbvios – de estudos descritos em artigos de jornal. Nem me compete, obviamente. Acho que é o jornalista que deve dar conta disso.

Deixem-me só dar mais um exemplo na área da língua: o artigo (traduzo eu) “Mais devagar! Porque é que algumas línguas soam tão rápidas[4], sobre um estudo que conclui que há línguas em que as palavras têm, em média, mais sílabas que noutras e que as línguas que têm mais informação semântica em cada sílaba são faladas mais devagar que as línguas em que cada sílaba tem menos informação, de modo que demora o mesmo tempo a dizer a mesma coisa em todas as línguas. É interessante, acho eu, mas tem muito que se lhe diga… E o artigo do Time não refere sequer as fraquezas reconhecidas pelos autores no próprio artigo (o estudo é feito com leituras em voz alta de textos, o que resulta normalmente num ritmo muito diferente da fala natural[5]), e menos ainda outras, graves todas elas, que vêm facilmente à cabeça de quem o lê: porquê eliminar pausas das gravações?; não há controlo de variação em diversas situações de uso da língua; não há controlo da variação dialetal e socioletal; o conjunto de línguas analisado é não só muito pequeno como pouco diversificado; é difícil – ou talvez impossível – definir densidade semântica média por sílaba, pelo que a classificação das línguas é, no mínimo, altamente discutível, etc.

É evidente para muita gente (mas há também muita para quem não o é...), que, por princípio, não se deve aceitar apresentação de resultados só, sem descrição dos estudos que os produzem, sobretudo quando tão-pouco há referência a estudos concretos (“cientistas afirmam que”). E creio que não é demais exigir dos artigos de divulgação científica, sejam lá em que área for, referência integral e correta do estudo ou estudos referidos, com link para eles, se possível[6]; e uma descrição rigorosa dos mesmos, forçosamente feita por alguém que os tenha lido e compreendido. Agora, creio que estes artigos devem também incluir uma listagem de eventuais problemas de metodologia e de críticas, de outras pessoas ou do próprio jornalista – para que os leitores não especialistas percebam que há sempre questões a levantar, e, dentro da medida do possível, vejam de que tipo podem ser e se habituem a levantar questões eles próprios. É pedir muito?

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[1] Autor desconhecido, “'Ershver tooni monhrr!' In other words, hey, can you give me a hand! The ice age 'superlanguage' Europeans spoke 15,000 years ago - and we can still understand today”, Mail Online, Science, 7 de Maio de 2013
[2] O principal autor do estudo parece, contudo, ter afirmado coisas muitos estranhas na entrevista que deu ao jornal: “Se estivéssemos sentados à volta de uma fogueira, podíamos ter uma conversa básica” – ??? Ou a entrevista também foi mal entendida e não foi isso que ele disse?
[3] Eh eh eh, tinha de arranjar maneira de pôr esta num texto de blogue. Divirtam-se aqui (muito!) com grandes woomeisters!
[4] Jeffrey Kluger, “Slow Down! Why Some Languages Sound So Fast”, Time em linha, 8 de Setembro de 2011
[5] Trata-se, na minha opinião, de uma enorme deficiência deste estudo, por muito que a metodologia se possa defender em nome das condições de reprodutibilidade da experiência e da igualdade de condições para todos os discursos analisados.
[6] Não sei se há quem pense que demasiado academicismo assusta os leitores ou os distrai, mas não creio, se for bem feito. É sabido que, para muitos deles, esta referência não tem interesse. Mas é prova de seriedade no trabalho e informação importante para a minoria que queira mesmo verificar os estudos.

29/09/13

Os pepinos do pátio traseiro e outras experiências científicas

Têm tido alguma divulgação, e às vezes até fora das habituais páginas dedicadas a teorias da conspiração e palermisticismos new age, duas experiências realizadas por alunas do secundário, uma na Dinamarca e outra nos Estados Unidos da América, que revelariam os perigos das ondas de rádio de wifi e das micro-ondas, respetivamente. A verdade, porém, é que as duas experiências revelam, quando muito, o dinamismo das alunas que as realizaram e as suas convicções – e apenas isso.

Tem de se ir um bocadinho além do imediatismo das relações de causa e consequência que o senso comum estabelece para se ter uma proposta de verdade relativamente fiável. Para que duma experiência se obtenham conclusões suficientemente sólidas, há que fazer observações de controlo e o número de observações deve ser estatisticamente relevante, não é verdade? O plural de caso isolado não é dados, como costuma dizer-se. E é preciso ter um cuidado especial quando o investigador tem uma hipótese em que acredita à partida (o que parece ser o caso em ambas as experiências), porque isso pode levar a enviesamento inconsciente na observação. Uma boa maneira (a maneira normal, de facto) de lidar com esta possível parcialidade é o trabalho ser revisto por outras pessoas, especialistas na matéria, que não partilhem as convicções do autor do trabalho. Sem estarem satisfeitas todas estas condições de estabelecimento da probabilidade de uma relação causal, o bom senso manda que nos abstenhamos de concluir seja lá o que for.

Notem bem que não tenho a certeza de que o wifi seja perfeitamente inócuo para plantas e animais e que o micro-ondas não afete a água que ferve – nem isso, nem o contrário. Mas há bastantes estudos sobre ambos os assuntos e não é difícil, a quem queira mesmo explorar as questões, encontrar informação na Internet. No geral, os estudos realizados não encontraram perigos nem nas ondas de wifi nem efeitos negativos no aquecimento pro micro-ondas, mas há vozes discordantes. Acho bem que continue a fazer-se investigação sobre a questão. O que eu não acho bem é que se apresentem como conclusivas experiências que de modo algum o são.

Dois pepineiros que estão no pátio traseiro de minha casa. Desculpem lá o da direita estar coberto por um tomateiro, mas não quis tirar de lá o tomateiro só para fazer a fotografia. Mas vê-se bem que está ainda vivo e relativamente verde. O tomateiro está há pouco tempo ao lado do pepineiro e a diferença entre os pepineiros era já muito grande antes de ele para lá ir. Os dois pepineiros são do mesmo pacote de sementes e foram, claro, regados com a mesma água. Apanharam o mesmo sol. E isto prova o quê?

10/09/13

Falso se for mentira, falso se for verdade

Conversa entre amigos meus:
– A verdade é que não há factos, há apenas interpretação dos factos.
– Ou seja, é essa a interpretação que tu fazes dos factos.

[Que banalidade, não é? Que o relativismo se contradiz a si próprio, sabe-se a bem dizer desde sempre – e também que nos impossibilita, em última análise, de reconhecer os nossos erros… Mas é preciso insistir nisto, há muita gente ainda convencida de que qualquer afirmação tem o mesmo valor que todas as outras... Continuemos então.]

Bom, se tivermos uma atitude solipsista radical, de que é impossível provar qualquer existência fora do nosso pensamento, nem se pode provar, sequer, que haja várias interpretações dos factos, porque os outros podem também ser apenas um objeto mental meu. Nem vale a pena pensar mais em discussão nenhuma, quando alguém tem uma atitude desse tipo. Fora disso, sim:

Antes de mais, convém explicar que, a asserção “não há factos, só interpretações” não faz muito sentido: O que se interpreta então, se os factos não existem? Forçosamente coisa nenhuma. Mas como pode coisa nenhuma ser interpretada? A prova última de que os factos existem independentemente das interpretações que deles se façam é, precisamente, que podem ser interpretados.

Provavelmente, o que minha amiga queria dizer era apenas que não temos acesso aos factos propriamente ditos, só conhecemos interpretações. A proposição menos radical – e mais comum – é que não se consegue fazer uma leitura neutra da realidade, mas apenas observações forçosamente distorcidas. Mas também este ideia pode ser logicamente desmontada  e gostei da formulação de Jarrett Leplin, que acabo de descobrir*:
É postulado com confiança por muitos historiadores e sociólogos do conhecimento que toda a pesquisa é tendenciosa. Pergunto-me a mim mesmo como terá sido descoberto tal facto. Não é tautológico nem de outra forma evidente. É óbvio que foi necessária investigação – ou seja, pesquisa – para o descobrir. Mas, na medida em que é tendenciosa, as conclusões a que a pesquisa leva não são fiáveis. Portanto, esta conclusão, a de que toda a pesquisa é tendenciosa, se estiver correta, não deve ser fiável. Mas, claro que, se estiver incorreta, então também não é fiável. Logo, não é fiável. Poderia ser verdade, mas não podemos ter boas razões para pensar que o seja.
E as minhas desculpas, sim? Apeteceu-me, pronto. Volto em breve, prometo, com algo menos aborrecido... 
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* A novel defense of scientific realism, Oxford University Press, 1997, traduzo eu.

03/09/13

A influência da lua na carne assada e outras questões

 A lua...
Deixai-me pasar a mao
                  polos cabelos da lúa!

Hoxe quero embebedar-me
                  co’a sua beleza núa.

Camaradas,
dai-me escadas
para ir beber na sua
boca
mortes aluadas!
Ernesto Guerra da Cal, “Bebedeira lunática”, in Lua de Alén-Mar, 1959

Lembram-se da superlua, que, afinal, não o foi? É natural, a superlua nunca é super por aí além. [Shari Balouchi explica aqui a superlua depressa e  bem, como dizem não há quem.] Nunca ouviram dizer que a lua cheia é causa de agitação, tanto entre os lunáticos (lunáticos!...) como entre as pessoas… hmm… normais? Bom, ao contrário do que se diz, não se registam mais casos de violência, crimes em geral, suicídio, nascimentos ou acidentes, nem se verifica aumento de ansiedade ou depressão, durante a lua cheia. [Eric H. Chudler reúne estudos e mais estudos numa página do seu site, para concluir que, afinal, a lua cheia não parece ter influência nenhuma nas pessoas.]

Mas, e sobre o crescimento das plantas? A lua tem ou não influência no crescimento das plantas? Tive há algum tempo uma conversa sobre isso com uma amiga minha e ela achava que sim. Já Linda Chalker-Scott, que é entendida nestas coisas (mais que a minha amiga, mas digo-vos isto baixinho e entre parêntesis, para a minha amiga não ficar aborrecida…) diz que não há nenhuma boa razão para acreditar nisso e desmonta, a título de exemplo, um artigo que pretende provar essa influência. Chalker-Scott  diz desse artigo que (traduzo eu), “se [as] [legítimas] referências a ritmos circadianos e diurnos tivessem sido deixadas de lado, as referências bibliográficas seriam muito escassas”. E diz mais:
Muitas das referências usadas [no artigo] como prova de efeitos lunares nas plantas são de qualidade duvidosa, já que não foram revistos pela comunidade científica; são os livros e as palestras em edição de autor. Além disso, para cada artigo que afirma haver um efeito lunar, encontro outro que nega completamente esse efeito. Dito isto, há alguns estudos legítimos que relacionam indiretamente ciclos lunares com a bioquímica das plantas. Por coincidência, a principal autora de um deles é uma amiga íntima e colega minha, cujas credenciais de pesquisa são impecáveis ​​(pode ver-se o artigo aqui).

É aqui que a fascinante e complexa natureza das interações entre espécies ajuda a explicar os dados discordantes. Os ciclos lunares afetam realmente determinadas espécies, incluindo alguns insetos herbívoros que estão dependentes do luar para comerem. Durante a lua cheia, esses insetos comem mais e as populações de plantas afetadas reagem alterando a digestibilidade dos seus tecidos. É provável que estas alterações bioquímicas tenham sido erroneamente atribuídas à influência direta da lua e não à defesa contra os herbívoros.
Linda Chalker-Scott não afirma perentoriamente, porém, que não há influência da lua nas plantas: diz antes que, para se confirmar ou infirmar a influência da lua nas plantas, haveria que realizar experiências de controlo que nunca foram feitas. Se fosse uma questão de linguística, era capaz de ter uma opinião sobre ela. De plantas e lua não percebo o suficiente para ter a minha própria opinião sobre o assunto. Mas não é só o valor de verdade da ideia de que o ciclo lunar afeta as plantas que me interessa aqui. Esta conversa sobre a conversa com a minha amiga é pretexto para outras conversas.

... e o resto
Quero propor à consideração favorável do leitor uma doutrina que receio que possa parecer extremamente paradoxal e subversiva. A doutrina em questão é a seguinte: que é indesejável acreditar numa proposição quando não há qualquer razão para supor que seja verdade. 
Bertrand Russell, Introdução a Sceptical Essays, 1928, traduzo eu
Neste caso, se todas as tentativas de provar a influência lunar falham e não há trabalho feito que respeite as condições necessárias para se poder chegar a alguma conclusão razoável, que boa razão há para acreditar na influência da lua? Mas o facto é que quem planta pela lua, que é uma prática muito antiga, obtém bons resultados, dizia a minha amiga. Claro. Mas quem não planta pela lua também, não é verdade? Plantar pela lua não faz, provavelmente, mal nenhum – sobretudo se a lua não tiver, precisamente, influência sobre as plantas.

Sei de uma história que se aplica bem aqui. Um homem dizia que achava estranho que a mulher cortasse as pontas às peças de carne quando as assava no forno. A mulher insistia que tinha de se fazer assim, senão a carne não ficava como devia ser. Tinha aprendido com a mãe, que sempre tinha feito assim. Um dia, o homem, que já tinha barafustado muito com a mulher, porque achava completamente disparatado o procedimento, perguntou à sogra de onde lhe vinha aquele conhecimento e que explicação tinha para o facto de cortar as pontas a um pedaço de carne o tornar mais tenro (ou mais saboroso, ou mais rápido a assar, já não me lembro). A sogra respondeu-lhe que isso não podia ser, que cortar a carne não alterava nada no assado – ela tinha-o feito muitas vezes no passado quando o pedaço de carne não cabia na travessa de ir ao forno que ela tinha, que era pequenina, e guardava as pontas para fritar*...

É esta a história de muitas tradições em cuja eficácia não há nenhuma boa razão para acreditar, mas que funcionam – como funciona fazer outra coisa qualquer. A carne assada fica boa, se lhe cortarmos as pontas.Também acho muito bem que se tome chá de limão com mel quando se está constipado; mas, muito provavelmente (depende do estado de espírito na altura), farei um reparo a quem me disser que o chá de limão com mel faz bem à constipação… 
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* Nota acrescentada a 19 de junho de 2014: Não me lembro de onde ouvi esta história, mas descobri hoje que, segundo a jornalista Cathy Young no The Atlantic (13-06-2014), é uma história de Karen DeCrow.

08/05/12

If I don’t do it, somebody else will

Tive de traduzir uma vez a expressão inglesa from gate to plate, que significa “desde a produção na quinta até à venda ao consumidor” e, depois de refletir um bocado sobre como manter ao mesmo tempo o significado e o jogo de sonoridades, inventei do prado ao prato. Não era uma tradução muito boa do significado, embora tivesse sobre a expressão traduzida a vantagem de não ter elementos omitidos*; mas era uma boa tradução do jogo fonético, melhor até do que o original, porque entre os dois termos do trocadilho se altera apenas um som e não dois como na expressão inglesa. O meu cliente gostou muito, achou que tinha sido uma boa invenção.

Passado pouco tempo, e por mero acaso, encontrei a expressão na Internet. Verifiquei, pela data de publicação do documento onde ela aparecia, que era anterior à minha tradução. Googlei “do prado ao prato” e descobri que aparecia milhares de vezes online. Não me lembro exatamente de quantas, mas eram muitas (isto foi há cerca de dois anos; hoje, essa pesquisa dá-me cerca de 30.000 ocorrências). Afinal, alguém tinha inventado a expressão antes de mim. Era até possível que tivesse havido várias pessoas a inventarem a expressão antes de mim. Bom, nem por isso eu deixava de a ter inventado também, não é verdade?, mas já não era a mesma coisa…

A expressão do prado ao prato não tem importância nenhuma, mas isto de ser inventado por várias pessoas já se deu com coisas efetivamente importantes. A escrita, por exemplo. Não se sabe se, quando começaram a usar os seus hieróglifos há cerca de 5200 anos, os egípcios os tinham criado a partir da escrita suméria, surgida pouco antes. A escrita chinesa, porém, que apareceu cerca de 2000 anos depois, tem, muito provavelmente, uma origem completamente autónoma. E independente é também, com toda a certeza, a invenção da escrita na região que hoje é o México, há cerca de 2500 anos. Outros exemplos conhecidos de invenções e descobertas independentes de uma mesma coisa são o cálculo diferencial e integral, desenvolvido separadamente por Newton e por Leibniz; e a descoberta do oxigénio, também feita por três pessoas que desconheciam o trabalho umas das outras, Joseph Priestley, Carl Wilhelm Scheele e Lavoisier**.  
Mas há muitas mais.

E então, onde quero eu chegar com isto tudo? Bom, não é que eu queira tirar o mérito a quem inventa ou descobre uma coisa qualquer, nada disso, porque para criar tem de haver alguma inspiração e algum trabalho individuais. Mas parece, sobretudo quando constatamos que as datas das invenções e descobertas paralelas são, muitas vezes, bastante próximas umas das outras***, que inventamos o que o nosso tempo, as nossas circunstâncias, enfim, nos põem à frente para inventarmos… Tenho muitas vezes a sensação de que somos sobretudo lugares onde acontecem coisas. Podemos ser um lugar onde acontece uma invenção ou uma descoberta, por exemplo – que, se não acontecer em nós, acontece noutra pessoa qualquer.




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* Falta farm na expressão original, que se deve entender como from [farm] gate to plate, já que farm gate é a expressão normal para dizer “à saída do local de produção”. Price at farm gate, por exemplo, é o “preço no produtor”
** “Eh, pá, até parece que descobriste a pólvora!”, eis o que eu sempre ouvi dizer quando alguém se mostra muito excitado ao descobrir o que todos os outros estão fartos de saber. Mas é uma expressão pouco correta, se não lhe quisermos chamar disparatada: a pólvora não foi descoberta, porque não há pólvora no estado natural... E, se não distinguirmos entre inventar e descobrir, acabamos como o protagonista de uma anedota que há, que, ao ler que o oxigénio foi descoberto em 1774, se interroga sobre como respirariam as pessoas antes disso.
*** Um caso óbvio é o das manchas solares, descobertas independentemente por Thomas Harriot, em 1610; por Johannes e David Fabricius, em 1611; por Galileu, em 1612; e por Christoph Scheiner, também em 1612.

09/05/11

Teoria e prática, ciência e técnica, reflexão e acção

Veio-me à memória, no outro dia, uma conversa com um cooperante dinamarquês meu conhecido, em Tete, há muitos anos[1]. Queixava-se ele de que, no trabalho de desenvolvimento, havia que deixar-se de discussões e passar antes à acção. Acho que quando uma pessoa diz uma frase assim, conta, à partida, com todo o apoio do interlocutor. É como quando alguém diz que os políticos só querem é encher-se ou que as pessoas são cada vez mais individualistas ou coisas assim desse género – espera-se, como resposta standard, um enfático assentimento, “não tenha dúvidas, meu amigo, não tenha dúvidas…”, e fica-se normalmente surpreendido, às vezes quase chocado, quando a resposta é, como a minha foi, a expressão de um completo desacordo[2]:

«Penso exactamente o contrário», expliquei eu ao meu conhecido. «O mal do trabalho de desenvolvimento é fazer-se muita coisa sem se pensar muito bem sobre o que se está a fazer ou sobre o que se vai fazer».

Em parte, foi por provocação que lhe respondi assim: não há, de modo algum, excesso de reflexão no trabalho de desenvolvimento, mas há efectivamente um excesso de reformas metodológicas, de elaboração de princípios e políticas, de avaliações e monitorias que nunca vêm a ter nenhuma utilidade… Mas isso é uma conversa muito comprida, que merece um texto específico. Aqui trata-se de várias formas da dicotomia reflexão versus acção e a minha provocação tinha uma base ideológica: é que discordo da tão costumeira desvalorização daquela relativamente a esta.
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A ideia de que a acção vale mais do que a reflexão é uma ideia bastante difundida. E uma variante também muito divulgada dessa ideia é a que valoriza a reflexão para a acção em relação à reflexão para a interpretação apenas. Nas Teses sobre Feuerbach (1845), Marx tem uma frase famosa (tese 11), Die Philosophen haben die Welt nur verschieden interpretiert; es kommt aber darauf an, sie zu verändern, que tem sido interpretada de diversas maneiras e, se calhar, nalguns casos muito transformada (aqui têm um exemplo de coincidência de interpretação e transformação, smile, smile…), mas que se pode traduzir – e se traduz – desta maneira: Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de diversas maneiras; mas o que importa [ou a questão ou o que conta…] é transformá-lo.
Deixo para os estudiosos de Marx a discussão de significado e sentido exactos da 11ª tese sobre Feuerbach. O que eu quero aqui dizer é que, independentemente de qual seja o real sentido da frase de Marx, não me parece correcto afirmar, como se afirma muitas vezes, que o que importa é transformar o mundo. O que importa é compreender o mundo (sempre) e transformar o mundo quando não concordarmos com o seu estado actual. E o filósofo pode, se quiser, ser um homem de acção; pode, mesmo sem ser um homem de acção, contribuir pela sua reflexão para a transformação do mundo; mas o papel do filósofo não é, enquanto filósofo, transformar o mundo, mas sim tentar contribuir para chegar à verdade sobre o mundo – e o que lhe fica ao redor (depende muito, claro está, do que se considere o mundo…).
Nesse aspecto, o filósofo não é, aliás, fundamentalmente diferente do cientista: Para o dizer com a elegância de Tchekhov – ou melhor, de uma sua personagem –­, “cada ciência no mundo deve ter sempre um único passaporte, que é sempre o mesmo e sem o qual ela não faz sentido – deve aspirar à verdade[3]”. Como não é ao filósofo que cabe agir sobre o mundo, também não é ao biólogo nem ao químico nem ao linguista que cabe agir sobre ele. Não cabe ao cientista transformar o mundo e é erradamente que se imputa muitas vezes à ciência acções negativas sobre a realidade. A ciência apenas explica o mundo; dos males que advenham da utilização do conhecimento para intervir no mundo acusem a técnica, não a ciência; mas, quando a utilização do conhecimento teve bons resultados, dêem à técnica apenas uma parte dos louvores, reservando o resto dos elogios para a ciência que produziu esse conhecimento.
Parece-vos que temos aqui parcialidade, não é? Então, quando a técnica faz mal com o conhecimento que a ciência produziu, culpamo-la só a ela; e quando a técnica faz bem com o conhecimento que a ciência produziu, louvamo-la a ela e à ciência que produziu o conhecimento por ela utilizado? Mas não, não há aqui nada de errado, se pressupusermos, como eu pressuponho, que a produção de conhecimento é sempre e só positiva e que o que pode ser positivo ou negativo é a aplicação desse conhecimento[4].
Quanto a transformar o mundo, é dever de todos os que acharem que ele deve ser transformado (todos os não conservadores, portanto) e, por conseguinte, também de quem se especializou em filosofia, biologia, química, serralharia, contabilidade ou gastronomia, não na sua qualidade de filósofo, biólogo, químico, serralheiro, contabilista ou cozinheiro, mas enquanto membro de uma comunidade, cidadão, ser político – e isso somos todos nós, sem necessidade de nenhuma especialização em nenhuma área do saber ou da técnica.
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Maldita tendência para a excursão. Voltemos à conversa com o meu conhecido em Tete. Não é só o trabalho de desenvolvimento a enfermar de ânsia de fazer desprezando a vontade de reflectir – estou convencido de que o mundo em geral sofre mais de excesso de acção pouco reflectida que de excesso de discussão teórica relativamente à prática. E mesmo a vida emotiva de cada um. No outro dia, encontrei no Facebook a sedutora frase (traduzo eu da frase original em inglês) “Podes passar minutos, horas, dias, semanas ou até meses a sobreanalisar uma situação, tentando juntar as peças, justificando o que podia ter acontecido, o que teria acontecido – ou podes deixar apenas as peças no chão e ala!, seguir em frente”. Não sei o que significa ao certo sobreanalisar e a ideia com que fico é que o prefixo sobre- foi colado ao verbo apenas para conotar negativamente a tentativa de análise. Tirando isso, é claro que se pode, pode sempre seguir-se em frente desistindo de perceber o que se passou ou o que se está a passar. Mas é aconselhável?
Encontrei várias vezes na internet, em várias línguas e com pequenas variações de forma, a frase “um grama de acção vale mais do que uma tonelada de teoria”[5]. Para mim, é quase ao contrário. Não é bem ao contrário, porque não vejo grande sentido em afirmar que um grama de teoria vale mais do que uma tonelada de acção. Mas uma tonelada de acção, se tiver para a sustentar apenas um grama de reflexão, tem quase cem por cento de probabilidades de vir a dar buraco…
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[1] Para ele ser cooperante em vez de assessor, bem podem ver há quanto tempo não foi…
[2] E também o teria sido se ele me tivesse dito que os políticos só se querem é encher ou que as pessoas são cada vez mais individualistas…
[3] No conto “On the way”, Selected Stories. Ware: Wordsworth, 1996. Traduzo eu.  
[4] Do que se pode concluir – com alguma boa vontade, talvez… – que a teoria vale, em abstracto, mais que a prática. Mas eu já nem quero ir por aí…
[5] A frase é, o mais das vezes, atribuída a Friedrich Engels, mas é duvidoso que seja de facto uma frase de Engels. Eu, pelo menos, não o consegui confirmar. Também é às vezes atribuída a Ralph Waldo Emerson ou a Lenine, ou é ainda apresentada com um provérbio. Há uma página de Snopes.com em que se discute, precisamente, a autoria da frase. Mas a autoria da frase é completamente irrelevante para a sua discussão, pelo menos no presente contexto.