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9 de março de 2017

Do marxismo e outros -ismos

[Eis um texto que anda há anos à espera de forma definitiva. Esta é uma forma definitiva provisória, se é que tal coisa existe, porque ainda não fiz a investigação que gostava de ter feito sobre o assunto — uma forma publicável em blogue, digamos assim… Para iniciar uma discussão, serve; e, se não o publicar assim, se calhar nunca o venho a publicar.] 

Há quase 4 anos, escrevia Helder Guégués no seu Linguagista:
 O original, italiano, fala «dell’idea marxiana di società senza classi», e o tradutor deixou «marxiana», que nós não usamos, porque há-de ter consultado um dicionário, talvez o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que para «marxista» regista que é o «relativo ao marxismo». Ora, não é apenas isso, é o relativo a Karl Marx, à sua obra ou ao marxismo. Em italiano, há especialização de sentidos, pois «marxista» diz respeito apenas ao marxismo e às ideias de Karl Marx. 
Compreendo perfeitamente a ideia de Helder Guégués, até porque marxiano também me pareceu muito estranho da primeira vez que o vi, mas a questão é um pouco mais complexa. Não sei até que ponto a especialização de marxista e marxiano se deu naturalmente em italiano. Uma breve pesquisa na Internet mostra que é uma distinção estranha a muitos italianos, mas pode tratar-se, naturalmente, de casos de ignorância da terminologia académica. Por outro, a questão do uso de marxiano para o que diz respeito a Karl Marx não se põe só em português. Em várias páginas na Internet se encontra a discussão do uso do par correspondente, noutras línguas,  a marxiano e marxista.

É interessante constatar que, em inglês, a forma Marxian, embora minoritária relativamente a Marxist, está longe de ser apenas marginal: Marxian, um termo acolhido em vários dicionários de inglês, tem cerca de milhão e meio de ocorrências em Google, contra cerca de 13 milhões e meio de Marxist; e Marxian theory tem mais de 90.000 ocorrências, contra um pouco mais de 500.000 de Marxist theory. A desproporção é menor em Google Scholar, com 15.500 ocorrências de Marxian theory e apenas 5 vezes mais de Marxist theory (77.400 ocorrências). Também em francês se atesta marxien com alguma solidez: mais de 20.000 ocorrências de marxien e perto de 35.000 de marxienne, sem ir para os plurais. Marxiste é, claro está, impossível de contar, porque a busca gera resultados em diversas línguas. Théorie marxienne ocorre cerca de 11 vezes menos que théorie marxiste em Google (4330 vs 47300), mas apenas 8,8 vezes menos em Google Scholar (779 vs 6.850). Em português, também se atesta marxiano e não me parece que possa apenas ser resultado de inadvertência nem abuso esporádico: uma busca em Google Scholar dá 2400 de textos académicos em português com ocorrências do sintagma teoria marxiana.

Traduzi há dezena e meia de anos alguns textos de um especialista em Marx que defende a existência de dois termos distintos, o filósofo marxiano Lucien Sève. Para ele, o termo marxista[1] implica a redução do pensamento complexo de Marx a um «campo» ideológico-político. Dizia ele num debate em Lisboa em 2002:
De um adepto de Descartes diz-se que é cartesiano, um adepto de Kant é um kantiano, um adepto de Bergson é um bergsoniano, de Husserl um husserliano, de Nietzsche um nietzschiano, e de Marx… um marxista! O que é este -ista? Porquê marxista? Na minha opinião, esta terminação não revela apenas uma adesão a um pensamento, que é o que diz o adjetivo em iano (cartesiano, kantiano…), ela diz sim a inscrição num campo: se sou marxista, é porque adiro a um campo organizado, a uma estrutura política, a um movimento político. Parece-me que este -ista implica uma forma de adesão que vai muito para além do facto de se inspirar num pensamento, tentar com ele trabalhar o presente.
Embora compreendendo a tentação de se deixar levar por esse tipo de explicação, notei imediatamente que precisava, pelo menos, de ser revista e afinada. Por exemplo, Sève explicava mais adiante que o caso de marxista não é único, diz-se também espinozista de um seguidor de Espinoza. Ora a razão não podia ser a de identificar os seguidores do pensamento de Espinoza com «um campo organizado, [...] uma estrutura política, [...] um movimento político»… E Sève não estava a ter em conta todos os possíveis nomes e adjetivos em -ista: não há apenas marxista e espinozista; há também rousseauista, tomista, e darwinista, muitos mais.

Não vejo boa razão para pressupor que os adjetivos e nomes formados a partir dos nomes de filósofos e políticos não sigam as regras que modelam a formação de nomes e adjetivos a partir de nomes próprios em geral. Picassiano, em «a estética picassiana» deve, em princípio, obedecer à mesma lógica derivacional que husserliano em «a abordagem husserliana». Convêm saber, pensei eu então, se as palavras em questão foram criadas por sufixação diretamente a partir do nome próprio ou a partir de um outro nome, criado, por sua vez, a partir do nome próprio. Evidentemente, o caso de mediação mais comum, se não exclusivo, é o nome em -ismo definindo, em sentido lato, o programa consciente ou inconsciente (filosófico, político, estético, etc.) da pessoa em questão. Depois de muitas voltas à questão, proponho agora que os adjetivos e nomes em -ista não derivam diretamente do nome próprio, mas sim de um nome em -ismo, formado, esse, do nome próprio, ao passo que os nomes em -iano derivam diretamente do nome próprio[2].

Acho que o dicionário da Porto Editora e Sève têm quase razão: o adjetivo em -iano formado de um nome próprio diz apenas a relação com o portador do nome, ao passo que a terminação em -ista diz a adesão a um campo, mas um campo não tem de ser um campo político — pode ser uma corrente ou movimento estético, filosófico, religioso, etc. Dito de outra forma, X-ista diz respeito a X-ismo e não diretamente a X; um X-ista é um adepto do X-ismo e não diretamente de X. Tomista remete para o tomismo mais que para S. Tomás de Aquino, darwinista para o darwinismo e não diretamente para Darwin; e um marxista é um seguidor do marxismo e não de Marx. É por isso que, se eu quiser falar de algo estritamente pessoal de Marx ou Darwin, como o seu estilo, corro obviamente o risco de ser mal compreendido, se disser ou escrever «o estilo marxista» ou «o estilo darwinista», que se tenderá a interpretar como «o estilo dos marxistas» ou «o estilo dos darwinistas», isto é, como referindo algum pretenso traço comum ao estilo dos adeptos dessas ideologias. O que se diria normalmente nessa situação seria (se não se quiser usar marxiano...) «o estilo de Marx» ou «o estilo darwiniano/de Darwin»[3]. Compreendo, pois, que, se alguém quer referir-se ao pensamento de Karl Marx ou afirmar-se seu seguidor em vez de referir ou seguir a amálgama de pensadores e pensamentos que se afirmam derivar dele, deve seguir a proposta de Sève: não é marxista que deve dizer e sim marxiano[4]. É o que faz – um exemplo entre muitos possíveis – o economista David F. Ruccio, que fala de análise económica marxiana e não marxista. Mas é claro, há a tal questão fonética... Ainda continuo a sentir que marxiano é alguém do planeta Marx... Quando de facto alguém do planeta Marx é antes um marxista...
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Agora, será marxiano uma forma antiga ou recente? Marxiano e as formas correspondentes nas línguas mais próximas da nossa podem ter surgido espontaneamente, porque -iano é um sufixo relacional vulgar nestas línguas; ou pode antes ter surgido da tentativa de separar Marx e o seu pensamento da massa vaga das muitas e variadas correntes políticas e económicas que se dizem suas seguidoras. Faltam-me dados para optar por uma das duas hipóteses. Para o inglês, porém, tenho uma ferramenta, que, por inconclusiva que seja, me pode ajudar a ficar com uma ideia de como se distribui no tempo a ocorrência de marxian: o Ngram Viewer, que trabalha com um corpus bastante grande de livros em inglês. O problema é que, como o aponta o Etymology online (um site bastante fiável, baseado em várias obras de referência), «a forma adjetival Marxian é às vezes usada (por Groucho, entre outros) para distinguir a trupe de cómicos americanos [Irmãos Marx] do comunista alemão». Por muito que, como vimos, isto não seja inteiramente verdade e que que Marxian seja também usado com o significado de «relativo a Karl Marx», Marxian tem, em inglês, ou talvez sobretudo na tradição americana, um significado duplo que não me deixa fiar-me nos resultados do Ngram Viewer. A palavra Marxian tem claramente o auge da sua utilização nos anos 40/50 e isto pode, sem dúvida, dever-se aos irmãos Marx, mas mantém-se até ao século XXI; o uso de Marxist vai aumentando progressivamente até ao início da década de 80 e começa depois a diminuir. Com uma base de dados fiável, seria interessante ver até que ponto não foi a ampliação do uso de marciano e afins nas línguas mais próximas da nossa que veio bloquear um marxiano surgido naturalmente de Marx. Parecerá óbvio a muita gente que a razão pela qual marxiano nos soa mal é a proximidade fonética e gráfica com esta palavra tão comum, mas não sei desde quando se terá falado de marcianos com tanta frequência.

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E então, pode-se ou não se pode, e deve-se ou não, usar marxiano e as suas correspondentes diretas nas línguas mais próximas da nossa: marxiano (es, it), marxien (fr), Marxian (en), etc.? Pessoalmente, não vejo razão para não usar. É vantajoso distinguir o que diz respeito a Marx do que diz respeito ao marxismo em sentido lato e as duas possíveis desvantagens do termo nem sequer o chegam a ser. Por um lado, o contexto nunca deixa que haja ambiguidade na referência a Karl Marx ou aos irmãos Marx (questão que, de qualquer forma, que não parece pôr-se fora dos EUA). Aliás, também nunca ninguém deixou de usar gregoriano por poder remeter tanto para Gregório I (o canto) como para Gregório XIII (o calendário). E quanto à questão, a que sou sensível, de «soar mal», por evocar imediatamente homens verdes com antenas de caracol, a verdade é que a evidente cacofonia não impede a utilização de termos como hobbesiano, humiano, kantiano ou smithiano[5]...
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[1] Ou marxiste, em francês, claro, mas vai dar ao mesmo. Para simplificar o discurso, uso sempre as palavras portuguesas em -ista, -ismo e -(i)ano, mas refiro-me a todas as do mesmo tipo nas línguas mais próximas, como as francesas em -iste, -isme e -(i)en e as inglesas em -ist, -ism e -(i)an, respetivamente.

[2] Como sempre, a questão é mais complicada do que parece: diz-se maometano, luterano e cristão (para o que aqui nos interessa, cristão é uma forma do tipo -iano, apenas posteriormente transformada) e, mas budista e calvinista. E porque se diz platónico, maquiavélico, pitagórico ou socrático, que não são -ista nem -(i)ano? Porque é que o adjetivo mais usado derivado de Estaline é estalinista – ou o seu equivalente – em português, espanhol, italiano e inglês, mas stalinien em francês? Porque é que os adjetivos mais usados derivados de Maquiavel e Aristóteles são maquiavélico e aristotélico – ou os seus correspondentes – em português, espanhol, italiano e francês, mas Machiavellian e Aristotelian em inglês? Os quatro possíveis nomes/adjetivos em -ico dizem respeito a filósofos antigos e há também o adjetivo crístico, relativo a Cristo, também uma personagem antiga. Note-se que crístico se entende apenas como relativo a Cristo, ao passo que cristão tende a não poder interpretar-se desta maneira, mas apenas como respeitante ao cristianismo. Evidentemente, era preciso saber em que línguas foram cunhados os nomes e adjetivos que referem os discípulos dos vários filósofos, porque o sistema fonético-morfológico da língua em que a palavra foi cunhada pode impedir ou favorecer um determinado tipo de sufixação. E quem diz a língua diz o período em que a palavra foi cunhada, porque as regras morfológicas de uma mesma língua podem ir variando ao longo dos tempos.

[3] É de notar que de Darwin derivam, em todas as línguas, duas palavras comuns, uma em -ista e outra em -(i)ano. O que pode significar, precisamente, que é standard em relação a Darwin e ao darwinismo o que ainda não é — ou talvez nunca a venha a ser — em relação a Marx e ao marxismo.

[4] Engels diz em duas cartas que Marx afirmara não ser marxista (traduzo eu):
«Agora, o que se conhece em França como “marxismo” é, na realidade, um produto bem peculiar — de tal maneira que Marx uma vez disse a Lafargue: “O que é certo é que eu não sou marxista.”» Carta a Bernstein, 1882 
«A conceção materialista da história tem muitos [amigos perigosos] hoje em dia, a quem serve como desculpa para não estudarem história. Como Marx dizia, num comentário aos “Marxistas” franceses do fim da década de [18]70: “O que eu sei é que não sou marxista.”» Carta a Schmidt, 1890
[5] É certo que as formas em -ista não soariam muito menos cacofónicas nestes casos… Mas é preciso ver que, na maior parte dos casos, a cacofonia é um fenómeno percetivo resultante do hábito e não tem origem em nenhuma incompatibilidade intrínseca do sistema fonético ou morfológico.

9 de maio de 2011

Teoria e prática, ciência e técnica, reflexão e acção

Veio-me à memória, no outro dia, uma conversa com um cooperante dinamarquês meu conhecido, em Tete, há muitos anos[1]. Queixava-se ele de que, no trabalho de desenvolvimento, havia que deixar-se de discussões e passar antes à acção. Acho que quando uma pessoa diz uma frase assim, conta, à partida, com todo o apoio do interlocutor. É como quando alguém diz que os políticos só querem é encher-se ou que as pessoas são cada vez mais individualistas ou coisas assim desse género – espera-se, como resposta standard, um enfático assentimento, “não tenha dúvidas, meu amigo, não tenha dúvidas…”, e fica-se normalmente surpreendido, às vezes quase chocado, quando a resposta é, como a minha foi, a expressão de um completo desacordo[2]:

«Penso exactamente o contrário», expliquei eu ao meu conhecido. «O mal do trabalho de desenvolvimento é fazer-se muita coisa sem se pensar muito bem sobre o que se está a fazer ou sobre o que se vai fazer».

Em parte, foi por provocação que lhe respondi assim: não há, de modo algum, excesso de reflexão no trabalho de desenvolvimento, mas há efectivamente um excesso de reformas metodológicas, de elaboração de princípios e políticas, de avaliações e monitorias que nunca vêm a ter nenhuma utilidade… Mas isso é uma conversa muito comprida, que merece um texto específico. Aqui trata-se de várias formas da dicotomia reflexão versus acção e a minha provocação tinha uma base ideológica: é que discordo da tão costumeira desvalorização daquela relativamente a esta.
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A ideia de que a acção vale mais do que a reflexão é uma ideia bastante difundida. E uma variante também muito divulgada dessa ideia é a que valoriza a reflexão para a acção em relação à reflexão para a interpretação apenas. Nas Teses sobre Feuerbach (1845), Marx tem uma frase famosa (tese 11), Die Philosophen haben die Welt nur verschieden interpretiert; es kommt aber darauf an, sie zu verändern, que tem sido interpretada de diversas maneiras e, se calhar, nalguns casos muito transformada (aqui têm um exemplo de coincidência de interpretação e transformação, smile, smile…), mas que se pode traduzir – e se traduz – desta maneira: Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de diversas maneiras; mas o que importa [ou a questão ou o que conta…] é transformá-lo.
Deixo para os estudiosos de Marx a discussão de significado e sentido exactos da 11ª tese sobre Feuerbach. O que eu quero aqui dizer é que, independentemente de qual seja o real sentido da frase de Marx, não me parece correcto afirmar, como se afirma muitas vezes, que o que importa é transformar o mundo. O que importa é compreender o mundo (sempre) e transformar o mundo quando não concordarmos com o seu estado actual. E o filósofo pode, se quiser, ser um homem de acção; pode, mesmo sem ser um homem de acção, contribuir pela sua reflexão para a transformação do mundo; mas o papel do filósofo não é, enquanto filósofo, transformar o mundo, mas sim tentar contribuir para chegar à verdade sobre o mundo – e o que lhe fica ao redor (depende muito, claro está, do que se considere o mundo…).
Nesse aspecto, o filósofo não é, aliás, fundamentalmente diferente do cientista: Para o dizer com a elegância de Tchekhov – ou melhor, de uma sua personagem –­, “cada ciência no mundo deve ter sempre um único passaporte, que é sempre o mesmo e sem o qual ela não faz sentido – deve aspirar à verdade[3]”. Como não é ao filósofo que cabe agir sobre o mundo, também não é ao biólogo nem ao químico nem ao linguista que cabe agir sobre ele. Não cabe ao cientista transformar o mundo e é erradamente que se imputa muitas vezes à ciência acções negativas sobre a realidade. A ciência apenas explica o mundo; dos males que advenham da utilização do conhecimento para intervir no mundo acusem a técnica, não a ciência; mas, quando a utilização do conhecimento teve bons resultados, dêem à técnica apenas uma parte dos louvores, reservando o resto dos elogios para a ciência que produziu esse conhecimento.
Parece-vos que temos aqui parcialidade, não é? Então, quando a técnica faz mal com o conhecimento que a ciência produziu, culpamo-la só a ela; e quando a técnica faz bem com o conhecimento que a ciência produziu, louvamo-la a ela e à ciência que produziu o conhecimento por ela utilizado? Mas não, não há aqui nada de errado, se pressupusermos, como eu pressuponho, que a produção de conhecimento é sempre e só positiva e que o que pode ser positivo ou negativo é a aplicação desse conhecimento[4].
Quanto a transformar o mundo, é dever de todos os que acharem que ele deve ser transformado (todos os não conservadores, portanto) e, por conseguinte, também de quem se especializou em filosofia, biologia, química, serralharia, contabilidade ou gastronomia, não na sua qualidade de filósofo, biólogo, químico, serralheiro, contabilista ou cozinheiro, mas enquanto membro de uma comunidade, cidadão, ser político – e isso somos todos nós, sem necessidade de nenhuma especialização em nenhuma área do saber ou da técnica.
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Maldita tendência para a excursão. Voltemos à conversa com o meu conhecido em Tete. Não é só o trabalho de desenvolvimento a enfermar de ânsia de fazer desprezando a vontade de reflectir – estou convencido de que o mundo em geral sofre mais de excesso de acção pouco reflectida que de excesso de discussão teórica relativamente à prática. E mesmo a vida emotiva de cada um. No outro dia, encontrei no Facebook a sedutora frase (traduzo eu da frase original em inglês) “Podes passar minutos, horas, dias, semanas ou até meses a sobreanalisar uma situação, tentando juntar as peças, justificando o que podia ter acontecido, o que teria acontecido – ou podes deixar apenas as peças no chão e ala!, seguir em frente”. Não sei o que significa ao certo sobreanalisar e a ideia com que fico é que o prefixo sobre- foi colado ao verbo apenas para conotar negativamente a tentativa de análise. Tirando isso, é claro que se pode, pode sempre seguir-se em frente desistindo de perceber o que se passou ou o que se está a passar. Mas é aconselhável?
Encontrei várias vezes na internet, em várias línguas e com pequenas variações de forma, a frase “um grama de acção vale mais do que uma tonelada de teoria”[5]. Para mim, é quase ao contrário. Não é bem ao contrário, porque não vejo grande sentido em afirmar que um grama de teoria vale mais do que uma tonelada de acção. Mas uma tonelada de acção, se tiver para a sustentar apenas um grama de reflexão, tem quase cem por cento de probabilidades de vir a dar buraco…
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[1] Para ele ser cooperante em vez de assessor, bem podem ver há quanto tempo não foi…
[2] E também o teria sido se ele me tivesse dito que os políticos só se querem é encher ou que as pessoas são cada vez mais individualistas…
[3] No conto “On the way”, Selected Stories. Ware: Wordsworth, 1996. Traduzo eu.  
[4] Do que se pode concluir – com alguma boa vontade, talvez… – que a teoria vale, em abstracto, mais que a prática. Mas eu já nem quero ir por aí…
[5] A frase é, o mais das vezes, atribuída a Friedrich Engels, mas é duvidoso que seja de facto uma frase de Engels. Eu, pelo menos, não o consegui confirmar. Também é às vezes atribuída a Ralph Waldo Emerson ou a Lenine, ou é ainda apresentada com um provérbio. Há uma página de Snopes.com em que se discute, precisamente, a autoria da frase. Mas a autoria da frase é completamente irrelevante para a sua discussão, pelo menos no presente contexto.