14/08/22

De escatologia e outras convergências

[Orientação para leitura do texto: i) quando não é referida uma língua específica, o étimo é latino; ii) os mm finais do acusativo latino já não se pronunciavam em latim tardio e a sua ausência é assinalada com um -; iii) as formas assinaladas com *são formas reconstruídas pelos etimologistas não atestadas em textos escritos.]

Chamam-se palavras convergentes as palavras que, numa determinada fase de uma língua, têm a mesma forma, embora tenham origens diferentes. Em princípio, quando digo «têm a mesma forma», quero dizer «têm a mesma forma linguística», isto é, são constituídas pelos mesmos sons; mas haverá decerto quem conte como convergentes apenas palavras homónimas, ou seja que se dizem e se escrevem da mesma maneira, embora provindo de étimos diferentes[1]. Em português, os exemplos mais comuns são vão do verbo ir, vão adjetivo e vão nome, são do verbo ser, são no sentido de santo e são adjetivo, como advérbio e como do verbo comer, o nome mente e a forma verbal mente, o pronome, advérbio ou nome nada e a forma nada do verbo nadar, entre vários outros.

«Está a ver ali? O meu filho, a minha nora e os meus netos.»

[Ilustração de Gustave Doré em L'Espagne, de CH. Davillier, 1874.
Wikimedia Commons, daqui.]
Evidentemente, como se trata, em todos os casos acima referidos, de convergência entre formas de categorias diferentes, a convergência nunca causa nenhum mal-entendido. Quando muito, serve para alguma brincadeira pateta («Não disseste nada? Olha, quem nada não se afoga.»). Mais interessante, porém, é o escrutínio de formas convergentes da mesma classe gramatical, que também as há. Podem causar ambiguidades?

Temos, por exemplo: fiar, «tecer», de filare, e fiar, «ter confiança», de *fidare por fidere; junco, a planta, de juncu-  e junco, a embarcação, do malaio-javanês jung; manga, a parte da roupa, de manica e manga, a fruta, empréstimo ao malaio; nora, «esposa do filho», da forma vulgar *nora, do clássico nurus, e nora, engenho de puxar água, do árabe نَاعُورَة‎, nāʿūra; renda, 'rendimento; quantia recebida», deverbal de render e renda, «malha de fios ornamental», cujo étimo é obscuro; velar, «passar a noite, ou boa parte dela, acordado; estar alerta, vigiar», de vigilare e velar, «cobrir com véu», de velare;

Um caso curioso é cabo. Quando designa o posto militar ou significa «término, fim, limite», vem de caput, «cabeça, topo», e quando significa «extremidade pela qual se segura um objeto ou instrumento, corda grossa, feixe de fios», vem de capulu-. Ao contrário do que se poderia talvez supor, capulu-  não é imediatamente um diminutivo de caput, mas provém antes de capere, «segurar» – embora, em última instância, caput também provenha, provavelmente, da mesma raiz proto-indo-europeia...

«Aquela senhora vive de rendas.»

Caspar Netscher: A rendeira, 1662. Wallace Collection, Londres.
Wikimedia Commons, daqui.]
Também nestes casos as ambiguidades parecem raras. Evidentemente, pode dizer-se «Ali está o meu filho e a minha nora» referindo com esta última palavra não a mulher ao lado do rapaz, que não é sua mulher, mas antes antes a roda com alcatruzes que se encontra atrás dele. E pode cobrir-se uma morta ou um morto com um véu e dizer-se então que se está a velá-la/o, como se a/o vela numa vigília — seja ela ou não à luz de velas[2]. E também se pode dizer que uma pessoa vive de rendas, querendo com renda significar a malha decorativa e não os rendimentos não provenientes de trabalho – se se estiver a falar de uma rendeira!... Mas quando é que essas coisas se dizem? Nunca. E é precisamente por isso que estes termos convergentes podem existir, já que a língua tende a desfazer convergências que causem ambiguidades.

A mim, o que me faz mais confusão é a convergência de duas palavras muito diferentes em escatologia – e, por consequência, também de dois adjetivos diferentes no adjetivo escatológico. É que a escatologia tanto pode ser a «parte da teologia que trata dos fins últimos do homem e do que há de acontecer no fim do mundo» e, por extensão, «qualquer área do pensamento que trate do fim último da humanidade, do mundo ou da história» (do grego ἔσχατος, éskhatos, com o kh pronunciado como um jota espanhol), «último, mais distante» ou «estudo ou tratado acerca de excrementos; coprologia» e, por isso, também «alusão aos temas das fezes, da imundície, da obscenidade» (do grego σκατός, skatós, genitivo de σκῶρ, skór, «excremento»). Evidentemente, o contexto acaba por esclarecer de que escatologia se está a falar. Mas, numa referência breve a uma obra ou a um(a) autor/a que não se conhece, pode às vezes ficar-se na dúvida... Bom, também não é palavra que toda gente use todos os dias...




_________________

[1] Veja-se o caso de ótico, que tanto pode querer dizer «relativo à visão» (de ὀπτῐκός, optikós) como «relativo aos ouvido» (de ὠτῐκός, ōtikós). Os termos convergiram há muito tempo, mas alguns acharão que só agora há verdadeira convergência, depois de o antigo óptico ter perdido na grafia o p que não se pronunciava...
[2] Já agora, é a palavra vela, objeto alumiador, que vem do verbo velar, no sentido de ficar em vigília, e não ao contrário, como talvez se pudesse supor.



06/07/22

Matrículas de carros

 

Falei aqui há pouco tempo de o alfabeto latino ser o mais usado no mundo e porquê — e de como, por causa disso, muitas vezes parece que se considera o alfabeto latino mais «normal». A questão das matrículas dos carros, que referi de passagem, é, este respeito, bastante curiosa. 

A Convenção sobre Trânsito Rodoviário está em vigor desde Março de 1952. Esta convenção foi inicialmente assinada em Genebra por 20 países, em 1949, e foi posteriormente revista em Viena de Áustria em 1968 e, desde a sua primeira versão, ratificada por mais 83 países. É uma convenção claramente «latinista», se se pode dizer assim. O Anexo n.º 2, sobre «Número de matrícula dos automóveis e seus reboques em circulação internacional», diz no seu ponto 1: 
«O número de matrícula […] deve ser composto quer por numerais, quer por numerais e letras. Os numerais devem ser algarismos e as letras em caracteres latinos maiúsculos. Podem, no entanto, ser utilizados outros numerais ou caracteres, caso em que o número de matrícula deve ser repetido em algarismos e caracteres latinos maiúsculos.» 
Compreende-se que haja necessidade de standardização e compreende-se a escolha do alfabeto mais usado. Mas deve ser estranho, no mínimo, ter de usar um alfabeto outro que não o seu — ou, em última análise, um alfabeto que não se conhece. Bom, russos e búlgaros resolvem o problema de forma airosa: usam nas matrículas apenas as 12 letras do alfabeto cirílico que têm a mesma forma que letras do alfabeto latino, embora não representem forçosamente sons semelhantes: А, В, Е, К, М, Н, О, Р, С, Т, У e Х*.
Uma matrícula da Arábia Saudita, com caracteres árabes e latinos.
Como os caracteres correspondentes se sucedem na mesma ordem,
mas a escrita árabe se lê da direita para a esquerda, presumo que,
quando se diz a matrícula em árabe, se diga JNT em vez de TNJ…
(Imagem: Wikimedia Commons, 
daqui)
Agora, em muitos países em que não se usa o alfabeto latino, as matrículas têm apenas caracteres latinos e não os caracteres locais mais a sua transcrição em caracteres latinos, como a convenção permite. Na Geórgia, por exemplo, nunca há caracteres georgianos. Agora, o que é que isto implica para um georgiano que não tenha aprendidos línguas estrangeiras — ou que, quando muito, só tenha aprendido russo, como é o caso de muitos deles? A questão não é só ser obrigado a usar caracteres estrangeiros**, é também ter de usar caracteres desconhecidos. Não sei como resolvem este problema. Se calhar, quando compram um carro, decoram as letras da matrícula e a que sons elas correspondem. Mas imaginem uma conversa***
− რა არის თქვენი მანქანის სარეგისტრაციო ნომერი? (Qual é a matrícula do seu carro?) 
− ეე ოთხას სამოცდასამი ვვ (É, é, quatrocentos e setenta e três, vê, vê.) 
− და ამას როგორ წერ (E como é que isso se escreve?) 
E como farão para escrever no computador as matrículas, se não usam o nosso teclado? Têm de mudar de teclado (não o físico, entenda-se) e decorar no seu teclado que letras correspondem às do alfabeto latino que entram na matrícula do carro? Por exemplo, que EE-473-VV corresponde a ეე-473- ვვ… Deve ser assim. Ou haverá tendência para se usar cada vez mais teclados «internacionais» georgianos e latinos? Devia ter perguntado isto quando lá estive e não perguntei. Fica para a próxima vez. Ou talvez algum dos meus leitores me saiba responder. 

_______________
* Muitas destas letras representam sons diferentes nas várias línguas escritas com alfabeto latino, mas H nunca representa [n], nem P representa [r], nem Y representa [u], como acontece quando usadas num alfabeto cirílico.
** O que também é uma questão interessante, em termos identitários: como reagiríamos nós se tivéssemos de usar matrículas com caracteres não latinos?
**A tradução para georgiano foi feita com Google translator e pode estar incorreta, mas isso é irrelevante para o que aqui está em discussão.

05/07/22

Funeral em vida

Uma amiga contou-me que o seu pai e os amigos dele organizaram funerais em vida. É uma grande ideia. Por muito que o funeral seja um dos dias mais importantes da vida de uma pessoa, é celebração a que essa pessoa não assiste — não tem possibilidade de se comover com os elogios fúnebres que os amigos lhe fazem, nem de se rir com as muitas histórias engraçadas que dela recordam nessa ocasião. 

Estou a pensar em organizar o meu funeral em vida um dia destes. Depois, se alguns dos meus convidados acharem por bem dar continuidade à minha iniciativa organizando os seus próprios funerais em vida, teremos finalmente possibilidade de retribuir uns aos outros a presença no nosso funeral — uma coisa que, sem estes funerais em vida, é muito difícil de fazer...

21/06/22

Nota de viagem

«24 de maio: Da varanda da casa onde ficámos, em Zadar, o que se vê podia ser Portugal: as vivendas e os quintais, com nespereiras, figueiras, oliveiras e cerejeiras. Só o que parece muito mais Dinamarca que Portugal é a rapariga de bicicleta, certamente a caminho da escola, de mochila às costas e sem mãos no guiador, comendo o pequeno-almoço enquanto pedala.»







Dois artigos de jornal

Dois artigos curiosos de jornais dinamarqueses:

O primeiro é do Semanário de Svendborg (UgeAvisen Svendborg), um dos jornais locais que recebemos gratuitamente. É um artigo de setembro do ano passado e conta a história de Ebba Hackmann, uma senhora que, quando o artigo foi publicado, fazia trabalho administrativo na firma Elektro Svendborg – desde 1959! Digo fazia, porque não sei se a senhora continua a trabalhar. Ebba tinha nessa altura 91 anos e continuava a trabalhar a tempo inteiro. A firma é agora da filha, mas já foi dela e do marido. O marido tinha morrido três anos antes, com 91 anos, e também trabalhou sempre na firma até morrer. Quando a filha ficou a ser proprietária da firma, em 2007, Axel Hackmann, então com 80 anos, passou de diretor a paquete e foi como paquete que continuou a trabalhar até ao fim da vida. 

O segundo artigo é muito mais antigo. Na página em que o encontrei, não dizia, infelizmente, em que jornal tinha sido publicado. Podia bem ser um conto romântico, ou parte dele, mas é apenas uma notícia de jornal, de 15 de fevereiro de 1915. 

«Uma senhora idosa, pobre mas bem vestida, entrou no “Prestamista Barato”, em Overgaden Neden Vandet Nº 29, em Copenhague, para empenhar a sua aliança de casamento. Olhando para a senhora, era fácil perceber que não tinha sido fácil para ela dirigir-se ao prestamista com a última recordação de momentos felizes. Estava muito abatida, mal conseguia falar e, no momento em que pôs o anel no balcão, caiu inconsciente no chão. O gerente da casa de penhores ligou imediatamente para a polícia e, pouco depois, chegou ao local uma ambulância, que transportou a senhora ao hospital municipal. Lá chegada, porém, os médicos verificaram imediatamente que havia já falecido. A senhora tinha sofrido um ataque cardíaco. E toda a assistência que se lhe pudesse prestar era já em vão.»

Pronto, era só isto. 

16/06/22

Há línguas em que é mais fácil brincar com as palavras?

[!!! Este texto pode ser muito difícil de entender para pessoas que não dominem muito bem a língua francesa. Dada a natureza dos textos franceses referidos e citados, é perfeitamente vã a tentativa de os traduzir.]

Já aqui fiz no blogue alguns comentários à tão popularizada ideia de que a língua determina a nossa perceção do mundo e à alegre falta de rigor com que muitas vezes se faz o escrutínio desta ideia. E hoje venho, vejam lá, sugerir que talvez a língua possa de facto interferir na nossa relação com o mundo. Mais concretamente, venho sugerir que bem pode haver línguas em que é mais fácil que noutras «brincar» com a própria língua: fazer humor e literariedade. E, mais concretamente ainda, sugiro que é provável que em francês seja mais fácil fazer trocadilhos e rimar [pelo menos, no sentido em que entendemos rima hoje em dia na nossa cultura] que nas outras línguas que conheço. E isto porque
  • o francês é uma língua de acento fixo, o que torna as coisas muito mais fáceis; e
  • a evolução fonética do francês foi, antes de mais, no sentido de um vocalismo muito forte, e portanto uma perda de muitos sons consonânticos, gerando assim
    • um número muito grande de palavras e sequências homófonas (fundamental para os trocadilhos) e
    • menos sons possíveis em final de palavra (fundamental para a rima).
Convém esclarecer que não estou de modo algum a apresentar a conclusão de algum estudo que tenha feito, longe disso, mas sim a propor um projeto de investigação, a mim próprio ou a quem nele queira pegar, que se baseia num observável simples: há mais formas [foneticamente] convergentes em francês que nas outras línguas que conheço.

Para dar dois exemplos muito simples [mas há muitos, muitos!], a forma /vɛ̃/ pode provir de vários étimos diferentes: de vinum [vin], de vi[gi]nti [vingt], de vanus[vain], de vēnī [vins], de vēnistī [vins] e de vēnit [vint]), da mesma forma que /po/ pode derivar de pellis ou de potus e /depo/ tanto pode corresponder a des pots como a des peaux como a dépôt.

É certo que, se que esta convergência de formas se deu, é porque não causa ambiguidades, senão ela não podia existir. Mas, existindo no discurso comum sem causar ambiguidades, está disponível para ativamente se construírem, a partir dela, trocadilhos e jogos de palavras ou com as palavras. Não deve ser por acaso que são em francês os exemplos mais famosos de holorrimas, isto é, rimas em que não rima só o fim do verso, mas sim o verso inteiro. Creio que a holorrima mais famosa é de Marc Monnier, nos célebres versos
Gall, amant de la Reine, alla, tour magnanime ! ,
Galamment de l'Arène à la Tour Magne, à Nîmes.
que se pronunciam exatamente da mesma maneira. Outros exemplos são
Par les bois du Djinn, où s'entasse de l'effroi,
Parle et bois du gin !… ou cent tasses de lait froid.
de Alphonse Allais, ou
Dans ces bois automnaux, graves et romantiques,
Danse et bois aux tonneaux, graves et rhums antiques
de Jacques Prévert. Mas há muitas mais. Vejam por exemplo, aqui, aqui ou aqui.

Transcrevo abaixo a letra da canção « Saucisson de Cheval », de Boby Lapointe, um exemplo radical do que é brincar com as palavras em francês — como aliás todas as canções de Boby Lapointe, o maior mestre dos jogos de palavras, que aconselho a explorar, se não conhecerem.

Um jogo de palavras assenta sempre numa relação entre um segmento sonoro pronunciado e um outro evocado na mente do ouvinte. Pode haver semelhança fonética ou total homofonia dos dois segmentos que constituem o trocadilho, com ou sem coincidência sintática. Por vezes o segmento não dito pode ser uma expressão fixa, o que facilita a sua evocação na mente do ouvinte; e por vezes a evocação do segmento pode também ser facilitada pela introdução prévia de um elemento no texto – ou pode mesmo haver, como no caso da canção transcrita abaixo, uma delimitação à partida de um determinado campo semântico [neste caso, o cavalo]. Como alguns jogos de palavras da canção podem não ser óbvios, mesmo para quem domine relativamente bem o francês, sublinho em cada verso a parte que deveria evocar outra coisa no ouvinte e deixo entre parênteses retos o segmento evocado. Não transcrevo os onomatopaicos refrães nem as breves passagens faladas, que, contribuindo sem dúvida para o humor e para o ambiente geral da canção, não são relevantes para o tema aqui discutido.

Se existem, em países de língua latinas ou germânicas, alguém que faça jogos de palavras como Boby Lapointe, não conheço. Mas será mesmo possível fazer canções como « Saucisson de cheval » noutras línguas? A pergunta não é de modo algum retórica: línguas há muitas e eu conheço muito poucas. Digam-me, pois: que sabem e opinam sobre o assunto? 
« Saucisson de cheval », 1966

C'est un saucisson de cheval, un saucisson que... (de cheval) [queue]
que je viens de faire, (à cheval) [fer]
c'est une chanson de saillies
Ah, chanson de saillies, (de cheval) [saillie]
moi qui suis esthète, (de cheval) [tête]
ah, je trouve ça beau (de cheval) [sabot]
génial, admirable, (de lapin) [râble]

Moi, qui viens de Grèce, (de cheval) [graisse]
je m'appelle au reste (de cheval) [Oreste] 
Tapaboufélos. (de cheval) [t’as pas bouffé l’os]
je débarque à Paris (de veau) [ris],
Oh, oh, quel régal, oh, (de cheval) [galop]
de prendre le métro. (de cheval) [trot]
Quand on ne connaît pas, (de cheval) [pas]
oh, ce qu'on s'amuse, oh ! (de bœuf) [museau]

Mes enfants, ma foi, [foie] (de cheval) [foie]
sont de vilains grognons. (de cheval) [rognons]
Quand ils pleurent en chœur, (de cheval) [cœur]
j'essaie de les distraire (les vaches) [traire]
Je viens à bout d'un, (de cheval) [boudin]
mais les autres aussi sont (de cheval) [saucisson]
toujours dans le besoin, (de cheval) [soin (?)]
ça ne peut pas être pis. (de chèvre) [pis]

Quel est cet aztèque (de cheval) [steak]
qu'on vient de voir filer (de cheval) [filet]
du haut de la côte (de cheval) [côte]
dans le précipice, en moto ?
Peut-être bien est-ce Thomas (de cheval) [estomac]
qui vient de me vendre (de cheval) [ventre]
un complet à carreaux (de cheval) [garrot]
et un gilet pied de poule.

Je désirais m'assoir (de cheval) [mâchoire]
et tu m'amenas au (de cheval) [naseaux]
canapé en rotin (de cheval) [crottin]
et mon cœur, vous fumiez mes cigares. [fumier]
N'étais-je pas l'affreux niais, (de cheval) [palefrenier]
qui fourbu s'affaisse (de cheval)? [fesse]
Ça fait rire les groupes (de cheval) [croupe]
ah, comme l'écurie est gaie ! [les culs rient] (aqui, inverte-se a lógica: o segmento relacionado com cavalo é o dito e não o evocado)



P. S.: Boby Lapointe desenvolveu o tema dos trocadilhos equestres, se se pode dizer assim, numa segunda canção com o mesmo fundo musical, « Saucisson de Cheval nº 2 ». O segundo salsichão de cavalo não é em nada inferior ao primeiro, mas não quero abusar da paciência dos meus leitores, pelo que não o transcrevo. A letra é fácil de encontrar na Internet.




15/06/22

A letra C e outras histórias de letras: uma viagem por vários alfabetos

[Tentei evitar, neste texto, o uso do alfabeto fonético internacional, que muita gente não conhece, mas nem sempre foi possível. Assim, transcrevo a maior parte das vezes para a pronúncia mais aproximada do português europeu, entre parêntesis retos [ ] em itálico, e, quando tenho mesmo de usar um símbolo fonético uso barras (/ /) e o símbolo sem itálico, acrescentando ainda uma nota que explica de que som se trata. Para referir letras, uso sempre maiúsculas em negrito: C.]


Em abril e maio fiz, com a minha mulher e um casal amigo, uma viagem de carro da Dinamarca à Geórgia (Geórgia) e volta. Fizemos 12.300 km por 14 países[1]: à ida, passámos pela Alemanha, Chéquia[2], Eslováquia, Hungria e Turquia; à volta, atravessámos de novo a Turquia e depois a Grécia, Albânia, Montenegro, Croácia, Eslovénia, Áustria e, claro, de novo a Alemanha. Foi uma viagem fascinante por várias gentes, paisagens, arquiteturas, histórias, culturas, gastronomias e línguas. Mas foi também uma viagem por vários alfabetos e várias variações de cada um deles. Talvez aqui venha a falar da viagem propriamente dita, ou de partes dela, pelo menos — dos lugares e situações por aonde passámos. Mas agora é mais de escrita que vos quero falar. Foi uma parte curiosa da minha experiência em viagem — reaprender a ler. Quando ao fim de duas semanas na Geórgia, comecei a juntar letras antes desconhecidas, timidamente, devagarinho, quase revivi a aprendizagem da leitura. Quase, digo bem, porque aprender um alfabeto novo não é exatamente a mesma coisa que aprender a descodificar a escrita pela primeira vez…

Antes de mais, uma panorâmica dos sistemas de escrita por onde passei. Não conto a Dinamarca, país de partida e de chegada, e país onde moro. Dos outros países por onde passámos, em onze deles usam-se versões locais do alfabeto latino (Alemanha, Chéquia, Eslováquia, Hungria, Turquia, Albânia, Montenegro, Croácia, Sérvia, Eslovénia e Áustria); em três deles, versões locais do alfabeto cirílico (Montenegro, Sérvia e Bulgária); na Geórgia, o alfabeto georgiano; e na Grécia, o alfabeto grego. Agora, onze mais três mais um e mais um dá dezasseis e não catorze. É que a Sérvia e Montenegro têm dois alfabetos oficiais, o cirílico e o latino[3].

Nos países onde não se usa o alfabeto latino (Bulgária, Geórgia e Grécia), os nomes das localidades aparecem quase sempre na escrita local e numa forma latinizada: normalmente, adota-se uma transcrição/transliteração «internacional», que eu creio, de facto, se baseia na tradição inglesa (CH para [tch], SH para [ch], KH para /x[4]/, etc.). Foi em grande parte a partir destas placas toponímicas em dois alfabetos que fui deduzindo os sons correspondentes às letras dos alfabetos novos, consultando depois Google em caso de dúvida, quando chegava a um sítio com ligação à internet.

Isto de se apresentarem os nomes das localidades também num alfabeto estrangeiro, não deixa de ser curioso, já que, nos países em que se escreve com alfabeto latino, não passa pela cabeça de ninguém transcrever em cirílico, em grego ou em georgiano os nomes das terras. E é pena, porque Braga havia de ficar bem como Брага, e ficam muito bonitos Córdoba como Κόρδοβα e Liverpool como ლივერპული, por exemplo. Também as matrículas dos automóveis, os códigos de identificação internacional de automóveis e os códigos ISO dos países são, em todo o lado, em alfabeto latino. E isto diz alguma coisa sobre como o alfabeto latino é de alguma forma considerado mais «neutro» ou «universal» — sobre como ele é, de facto, mais poderoso, por ser usado pela maior parte das nações mais poderosas nos últimos séculos, que colonizaram uma grande parte do mundo, o que faz com que seja atualmente usado por 70% da população mundial…). Por isto mesmo, num país que use um alfabeto não latino, ninguém espera — e acertadamente — que um estrangeiro saiba ler o alfabeto local. Lembro-me que, num hotel em Plovdiv, para me treinar na leitura do cirílico, li em voz alta закуска numa nota na parede ([zakusska], «pequeno-almoço») e que o rececionista se surpreendeu («Ah, sabe ler búlgaro?») e me informou — em inglês, note-se — que era das 7:00 às 10:00.

Já agora, de passagem, a questão das transcrições de um para outro alfabeto é interessante. Note-se, antes de mais, que não há uma forma única de transcrever de um sistema para outro, mas a transcrição depende antes da língua de chegada, porque normalmente se transcreve som e não se transliteram caracteres um a um. Assim, a transcrição de Чайкóвский para o alfabeto latino é normalmente Tchaikovsky em inglês (o T inicial é, em última análise, desnecessário…), Chaikovski em castelhano, Tchaïkovski em francês, e Ciaikovski em italiano, por exemplo, para a leitura, nessas línguas, se aproximar o mais possível do som russo original. E são questões de transcrição que justificam, às vezes, certas «anomalias» como a grafia turca de otomobile, otogar ou otel. A explicação é, quase de certeza, que as palavras automobile, autogare e hotel, importadas do francês, foram primeiro transcritas — foneticamente, sublinho — para a variante otomana do alfabeto árabe. Depois, quando a escrita do turco passou, em 1928, a fazer-se com o alfabeto latino, não se retomou a grafia original do francês, que seria confusa para um falante do turco que não estava habituado a ela, mas as palavras foram antes retranscritas, mais uma vez foneticamente, e é por isso que têm atualmente a forma que têm. Vi também, no programa em inglês de um balé que fomos ver em Tbilisi, na Geórgia, o nome próprio de Ravel escrito Moris. Mais uma vez, uma questão de retranscrição: o nome Maurice é, naturalmente, transcrito em georgiano como se pronuncia, მორის [moriss]. Ao retranscrever, a pessoa que escreveu o texto em inglês, transformou apenas as letras e sons georgiano nos correspondentes «normais» em inglês.[5] Vi também fakhitas num menu georgiano em inglês. Mais uma vez, o resultado de uma retranscrição: o som /x/ do jota castelhano em fajitas é transcrito em georgiano pela letra que o representa nesta língua: ; e foi depois retranscrito por KH, que é, na Geórgia, a sua mais habitual transcrição para o alfabeto latino.

Agora, um exemplo concreto de viagem alfabética: uma letra que é igual em todos os alfabetos e suas variantes por que passámos na nossa viagem, menos no georgiano, é a letra C. Notem que o C do alfabeto latino, derivado do gama grego, não tem a mesma origem que os CC dos alfabetos cirílico e grego, derivados ambos do chamado sigma crescente, uma variante cursiva do sigma grego. Mas têm hoje exatamente a mesma forma, de maneira que muita gente os verá como a mesma letra, apenas representando valores diferentes. Nos alfabetos cirílico e grego (atualmente, é muito pouco usado em grego), o C representa sempre o som /s[6]/: Sófia é Со́фия e Subotica é Суботица, e pronto. Não é muito fácil, para quem está habituado a outros valores de uma letra visualmente igual, habituar-se a isto: Сара lê-se [sara] e não [capa] e салат lê-se [salat]. Mas, com o tempo…

No alfabeto latino, o C representava originalmente o som /k[7]/; mas, nas diversas variações modernas desse mesmo alfabeto, o C pode representar vários sons. Pode ser, por exemplo, como em português, francês, castelhano americano[8] e inglês, /s/ antes de E e I, e, se não cedilhado, /k/ antes de A, O e U; e pode representar muitos outros sons. Mas não quero passar aqui em revista todos os possíveis sons que o C pode representar (vejam aqui) — interessam-me antes os novos sons de C que fomos encontrando na nossa viagem.

O primeiro contacto com um novo valor de C foi na nossa primeira paragem, em Pardubice, na Chéquia. A nossa amiga Alice, que nos acolheu, explicou-nos que o nome da terra se pronuncia [pardubitse[9]]. E nós ficámos a saber que era assim em checo, mas só mais tarde descobrimos que o C se lê assim em todas as outras línguas eslavas escritas com o alfabeto latino[10].

– Mas então –, perguntei eu à Alice, – mas isso significa que o teu nome se pronuncia [alitse] em vez de [alisse]… 

 – Em checo, sim –, disse ela, – mas, a pessoas que falam outras línguas, digo sempre como elas esperam ouvir. 

E a minha mulher, que é amiga dela há quase quarenta anos, não sabia que a Alice de Pardubice é, afinal, a Alitse de Pardubitse.

Em Pardubice aprenderam também os meus companheiros de viagem (eu já sabia) que o C com um circunflexo invertido, Č, se pronuncia [tch]. Mais tarde, descobrimos que há também um C com acento, Ć, que representa um som ligeiramente diferente no alfabeto latino servo-croata, mas que a maior parte de nós ouvirá e pronunciará também como [tch]. 

Zona, em servo-croata, escreve-se como em português
e pronuncia-se também quase da mesma maneira.
Mas o esloveno é diferente do servo-croata e a palavra
 pronuncia-se [
tsona] e escreve-se com C.
Obviamente, é mais fácil reter o valor de Č e Ć que de apenas C, que é uma letra que já se conhece, que já tem sons na nossa cabeça. Se, como referi atrás, é difícil habituar-se a um novo valor do C em cirílico — num contexto em que as letras à volta são diferentes das nossas —, mais difícil é habituar-se a um novo valor num alfabeto também latino: os meus companheiros de viagem passaram, de Pardubice em diante, a pronunciar bem os ČČ, que fomos encontrando, mas continuaram a pronunciar mal os CC — não havia maneira de se lembrarem, por exemplo, que carina, «alfândega» em servo-croata, se pronuncia [tsarina] e não [karina].

Também foi mais fácil para toda a gente aprender o valor do Ç do alfabeto turco, que é igual ao do Č dos alfabetos latinos de línguas eslavas, que o valor do C turco, que é [dj], como em inglês jeans ou gin. Aprendi isto na primeira noite na Turquia. A rececionista do hotel soletrou-me o código do wifi e quando ela disse [dj] eu escrevi um J, provavelmente porque o inglês é a língua que falo que tem esse som e J é uma das maneiras de o escrever.

– Não, não [j], [dj], [dj]!

E fez-me o sinal com a mão no ar. Um C? Escrevi um C

– Sim, [dj].

Evidentemente, se uma portuguesa dissesse a um turco que não conhecesse a escrita portuguesa para escrever [], ele escreveria S e não lhe passaria pela cabeça que a letra a que ele chama [djê] se pudesse usar para representar tal som…

Para terminar este longo devaneio, deixem-me só acrescentar que, para os meus companheiros de viagem, esta coisa de alfabetos e pronúncias não tinha interesse por aí além e eu aprendi rapidamente que era coisa que devia guardar para mim próprio, para não os chatear. 

Vejam se adivinham que companhia sueca de roupa
tem este símbolo na Geórgia.
Para a maior parte dos leitores do blogue, este texto também não terá grande interesse. Mas deu-me gozo escrevê-lo. Se houver um ou dois leitores que lhe achem graça, já fico satisfeito.





_____________________

[1] Quinze, de facto, mas só estivemos cerca de um quarto de hora na Bósnia e Herzegovina, de maneira que não conta. Também atravessámos apenas, quase sem parar, a Eslováquia, a Sérvia e a Áustria, mas deu para me ir entretendo com letreiros vários. Em termos de alfabetos, porém, a Eslováquia e a Áustria não têm nada de muito novo: o alfabeto eslovaco é quase igual ao alfabeto checo (e ao alfabeto servo-croata) e na Áustria usa-se a mesma variante do alfabeto latino que nos outros países de língua oficial alemã.

[2] A propósito da recente polémica sobre o nome do país, quero lembrar que Chéquia é a designação oficial em Portugal (a par, claro, de República Checa, da mesma forma que França também pode ser República Francesa ou Dinamarca pode ser Reino da Dinamarca). Também é de ler, sobre o assunto, um texto de Margarita Correia no DN.

[3] A mesma situação existe na Bósnia e Herzegovina. Na Sérvia, os dois alfabetos convivem em todas as esferas, exceto na esfera jurídica, em que o cirílico é obrigatório; em Montenegro e na Bósnia e Herzegovina, há uma prevalência do alfabeto latino.

[4] O som [x] é um som muito comum, que existe em muitas línguas, muito próximo do som do R gutural português em carro, por exemplo, e igual ao G neerlandês, a alguns CH alemães (como em Bach, por exemplo) e ao jota de vários falares castelhanos.

[5] Note-se, de passagem e um pouco a despropósito, que o criador de Lucky Luke, Maurice de Bevere, usava o nome artístico Morris.

[6] Como o nosso S em início de sílaba, quando não precedido de vogal (só, penso) ou os nossos SS (isso)

[7] O som /k/ é o som do nosso C em carro ou do nosso QU em quente. No chamado «latim eclesiástico», pronuncia-se o C do latim como em italiano moderno ([tch] antes de I e E, /k/ nos outros casos), mas na verdade, em latim pronunciava-se /k/. Bom, como quase todas as línguas, o latim nunca nasceu nem nunca morreu, apenas evoluiu, e a sua pronúncia foi obviamente mudando sempre, pelo que é pouco rigoroso dizer que isto ou aquilo se pronunciava assim em latim, mas isto é só para simplificar a conversa... Caesar, por exemplo, pronunciava-se [kaissar] e coelus, «céu», pronunciava-se [koiluss]

[8] Também na pronúncia andaluza e canária do castelhano europeu. Em castelhano europeu standard, porém, antes de E e I, o C tem o som /θ/, pronunciado com a língua entre os dentes (o chamado «S de sopinha de massa»), como o Θ grego, o Þ islandês e muitos TH em inglês.

[9] O último som é não é exatamente como o do nosso E átono, mas algo entre o nosso E átono e o nosso A átono. Talvez mais [pardubitsa] que [pardubitse]…

[10] Como se pronunciava também em português arcaico (pelo menos, na sua primeira fase) antes de E e I, ou quando cedilhado: cidade era [tsidade], faço era [fatso], etc.


09/04/22

Politicamente correto, mais uma vez

 

Permitam-me repisar: correto é um termo de aprovação e politicamente correto é, por isso, aquilo que cada indivíduo ou cada comunidade na sua maioria considera politicamente correto, de acordo com os seus princípios políticos (isto é, os princípios éticos que a devem reger). É uma categoria forçosamente variável, de pessoa para pessoa, de sociedade para sociedade, de uns tempos para os outros. Todas as leituras «referenciais» da expressão, ou seja, referindo um pretenso corpus definido e invariável de princípios e regras, revela apenas uma incompreensão ou — mais provavelmente! — uma posição ideológica.
Em 1786, escrevia Joseph Townsend no seu tratado A Dissertation on the Poor Laws, by a Well-wisher to Mankind («Dissertação sobre as Leis dos Pobres, por alguém que quer bem à Humanidade», traduzo eu): 
Os pobres sabem pouco dos motivos que levam as classes mais altas à ação: orgulho, honra e ambição. Em geral, só a fome pode estimulá-los e incitá-los a trabalhar; as nossas leis, porém, dizem que eles nunca deverão passar fome. As leis, há que o admitir, também dizem que eles estão obrigados a trabalhar. Mas a obrigatoriedade legal traz sempre muitos problemas, violência e barulho; cria má vontade e não pode nunca produzir um serviço bom e aceitável; ao passo que a fome não só é uma pressão pacífica, silenciosa e incessante, como também, sendo o motivo mais natural para a indústria e o trabalho, suscita os maiores esforços; e, quando satisfeita com a generosidade de outrem, cria uma base duradoura e segura para a boa vontade e a gratidão.
Não tenho razão nenhuma para acreditar que isto não era politicamente correto na época — pelo menos para uma grande parte das pessoas que sabiam ler o panfleto. Ainda bem que hoje já não o seria para a grande maioria (embora haja com certeza ainda quem pense assim).

07/04/22

Dupla negativa

 

Pela alminha de quem vos seja mais querido, não escrevam frases negativas sem negação antes do verbo! 
Surgiu agora uma moda, talvez inspirada na estrutura das línguas germânicas (inglês?), de não pôr negativa antes do verbo quando há um elemento negativo depois, justificando-se essa prática com a pretensa regra «lógica» de que uma negativa de uma negativa é uma positiva. Assim, por exemplo, dever-se-ia escrever 
Eu vi nada 
porque, se se escrever 
Eu não vi nada 
está-se a dizer que se viu alguma coisa. Francamente... 
Em português — e nas outras línguas latinas que conheço, exceto em francês oral, por causa da supressão do advérbio ne na fala — a regra é que, numa frase negativa tem de haver sempre uma negativa antes do verbo. «Nada vi» ou «Não vi nada», está bem; *«Vi nada», não! E é igual em espanhol, «No he visto nada», em italiano, «Non ho visto niente», e em francês escrito, «Je n’ai rien vu». Nas línguas latinas, não há nenhuma distinção do tipo da que existe, por exemplo, entre nothing e anything em inglês: numa frase negativa, nada é ambas as coisas. 
Procurem lá onde quiserem, nos textos todos da língua desde sempre, em todos os escritores que considerem modelos de bem escrever, a ver se encontram abonações dessa estranha estrutura que agora se começa a ver por aí. 
«Vi nada» é uma frase poética que diz que se alcançou a mais alta e perfeita iluminação. Ou então é um erro de português.

04/04/22

Cristal Limiñana (uma história com um bocadinho de publicidade)

A 28 de fevereiro, cheguei a Marselha com duas colegas minhas para lá fazer um estágio de um mês. A organização que organizava o nosso estágio tinha-nos também arranjado alojamento: um apartamento no Boulevard Jeanne d’Arc. Quando chegámos, surpreendeu-me uma loja mesmo ao lado do nosso prédio, de uma fábrica de runs e anisetes chamada Cristal Limiñanas. É que, mais versado que sou em música que em bebidas marselhesas, Limiñanas era para mim apenas um nome de um duo de rock. Les Limiñanas são um casal de Perpignan, Lionel e Maria Limiñana e o segundo dos seus nove álbuns chama-se Crystal Anis. Uma estranha coincidência! Ou então não… 

  
Descobri que a fábrica Cristal Limiñanas é conhecida sobretudo pelo pastis Un Marseillais, que eu não conhecia. Como já disse aqui uma vez, sempre bebi a mesma marca de pastis (até começar a fazê-lo eu próprio), sem nunca me ter dado para explorar a grande variedade que há. Ora isto não podia continuar, evidentemente. O Un Marseillais, pelo menos, tinha de experimentar. 
De maneira que, na véspera de me vir embora, fui à loja comprar uma garrafa de Un Marseillais e talvez mais alguma que na loja me pudesse interessar. Quando contei à senhora que me atendeu que tinha achado curioso aquela marca de anisete ter o mesmo nome que uma banda de rock que eu conhecia e que, curiosamente, tinha um álbum chamado Crystal Anis, ela disse-me: «Ah, claro, os nossos primos! Veja aqui!» e apontou, na parede, um cartaz da tournée do álbum. «Bem vê, somos a única família com este nome em França. É um nome que vem de uma pequena aldeia espanhola, ali da zona de Alicante.» 

P.S.: A senhora era Maristella Vasserot, a dona da fábrica. A história da empresa, podem ouvi-la aqui, por exemplo, ou lê-la aqui. É um bocadinho de publicidade, eu sei, mas já a história acima também é um bocado publicitária, de maneira que…




19/03/22

História de M.

M. trabalha num lar de idosos em Marselha e trabalha demais. Raramente recusa os turnos extra que lhe propõem quando falta pessoal. Também o trabalho é ali mesmo, mesmo ao lado de casa. Fora do trabalho, M. ajuda outras pessoas. «As pessoas não fazem ideia de como a vida é difícil noutros lugares», repete ela muitas vezes. «Ou aqui, para quem não tem nada. As pessoas têm tantas coisas e nem sonham o que é viver sem ter as coisas que elas têm. Dizem mal dos outros, mas não os percebem. Não fazem ideia do que é a vida deles. As pessoas que vêm ali vender coisas a Noailles, por exemplo. Alguns andam a apanhar tudo o que presta nos caixotes do lixo. Outros dão-lhes coisas. Se calhar, outros roubam também, mas quem é que os pode criticar? Muitos nem podem trabalhar, não lhes dão papéis. Vivem daquilo que vendem. Se não vendem, não comem. É fácil criticar, que não pagam impostos, isto e aquilo, que são marginais. Eu também já os cheguei a criticar. Mas agora sei o que é a vida deles e não os critico. Antes os ajudo no que posso. Neste momento, dou abrigo a um homem do Kosovo. Ligou-me há bocadinho. A polícia fez uma rusga em Noailles. A malta que lá estava a vender e que não tem papéis teve de fugir a correr. Muitos deles deixaram as coisas no chão. É sempre a mesma coisa. Depois vem um camião do lixo e leva aquilo tudo. Era daquilo que aquelas pessoas iam viver um dia ou dois ou mais, mas a polícia deita tudo fora. Aquelas pessoas vivem de quê? A maior parte das pessoas nem sonha o que é a vida daquela gente, o que é a vida de tanta gente... O homem que eu ajudo não pode voltar ao Kosovo. Não lhe dão licença de residência aqui, mas ele também não pode voltar a casa. Se voltar ao Kosovo, matam-no.  Colaborou com os sérvios durante a guerra. Ele era um rapaz novo e não percebia bem as coisas. Mas ninguém se esquece e ninguém lhe perdoa. E eu ajudo-o no que posso, dou-lhe alojamento, mais não posso fazer. As minhas filhas não sabem. Elas ficam zangadas quando sabem que eu ajudo alguém, com dinheiro ou seja lá com o que for. Se quero ajudar alguém, dizem elas, que participe numa organização, numa coisa organizada, que assim com caridade não resolvo nada e um dia ainda me arrependo. Mas elas não percebem bem o que é a vida destas pessoas.»





11/02/22

Duas histórias de carne

 

Uma vez, um amigo meu perguntou-me, enquanto devorava uma perna de frango assado: 
 – Mas tu sabes porque é que toda a gente gosta de frango em qualquer lado do mundo? 
 – Não, porquê? 
– Porque é mesmo bom, pá! 
[Segundo o site statista, a produção mundial de carne de Gallus gallus domesticus em 2021 foi de cerca de 100 mil milhões de quilos, o que dá uma média de cerca de um quilo de carne por mês por ser humano. Uma média assim quer dizer que, por muito que toda a gente goste de frango em qualquer lado do mundo, como diz o meu amigo, há muito quem só muito raramente o coma.]


***
Tinha a certa altura, em Genebra, um grupo de amigos muito interessados na grande cozinha. Passavam muitas vezes fins de semana gastronómicos na Saboia e encontravam-se regularmente em casa uns dos outros. para comezainas requintadas. E a boa comida era, claro está, um dos seus temas de conversa favoritos. Numa das várias discussões a que assisti sobre o tema, em que se fazia uma apetitosa enumeração de pratos sofisticados, diz um dos gourmets
– Para mim, entrecôte com batatas fritas. Poucos pratos atingem tão grande sofisticação. 
[Entrecôte é um bife da vazia (ou do acém, como aqui se discute). O gosto do meu amigo suíço coincide com o de uma grande maioria dos franceses: há muitas sondagens sobre os pratos favoritos dos franceses e com resultados variados, mas o bife com batatas fritas, seja ele entrecôte ou não, vem sempre entre os dez primeiros.]

09/02/22

Faláfel

Diz-se que a prática faz o mestre e é bem verdade, na maior parte dos casos. Normalmente, faz-se mal aquilo que não se praticou o suficiente. Polmes, por exemplo — não sei fazer bons polmes, mas acho que é só porque não pratiquei o suficiente… Às vezes, porém, também é questão de encontrar uma maneira de fazer as coisas que funcione para nós.

Queria falar-vos de faláfeles, aqueles pastelinhos médio-orientais que há. Experimentei muitas receitas e improvisei muito à volta delas, com grão cozido, meio cozido e cru, e nunca me saíram bem. De sabor sim, mas sem a consistência devida. Até que encontrei, no Comidista, a receita que funciona mesmo — para mim! — e que sabe melhor que as outras todas. A questão, afinal, era usar três quartos de favas secas para um quarto de grão e não demolhar nem triturar demasiado as leguminosas. Vejam aqui a receita:

Já agora, há um artigo do History Today que confirma o que se ouve no vídeo do Comidista: o faláfel original é egípcio e é de fava, cuja designação em árabe egípcio está, aliás, na origem do seu nome. Mas vários dicionários, alguns deles fiáveis, como o dicionário etimológico Etymology Online, propõem um étimo árabe, falafil, que segundo alguns significa «pimenta(s)» e segundo outros «crocante, estaladiço».

Parece que as primeiras referências ao faláfel datam do séc. XIX. Como tudo o que é tradicional — já era de esperar – o faláfel não é, pois, uma coisa assim tão antiga... Cabe agora a quem se interesse muito pelo assunto investigá-lo mais a fundo e descobrir se há outras versões da história do faláfel que sejam mais dignas de crédito que este artigo do History Today. A mim, interessam-se mais os faláfeles que a sua história... Bom proveito! 


Moral e mercado

[Este é daqueles textos que está há seis anos (!) para eu lhe dar forma definitiva. Mas eu não sei dar forma definitiva a nada, e isto também é só um blogue, não é verdade? De maneira que aqui vai como está sem mais, meio em esboço. Fala-se de mercado e liberalismo económico numa perspetiva moral.]

Estou em crer que nem o mais ferrenho defensor do liberalismo económico defenderia, pelo menos às claras, que todo o comércio é sempre aceitável. Mas, para não se defender essa ideia tão pouco popular, há que ter como critério algo mais que o bom funcionamento da economia. E isto porque, como já uma vez aqui referi, de acordo com a teoria pura dos mercados, qualquer intervenção estatal, nem que para definir, com base nalgum critério moral (ou político, que neste caso é o mesmo), que comércio se pode ou não fazer reduz forçosamente a eficácia da economia. Por exemplo, se houver mercado para escravos não há razão nenhuma, numa perspetiva exclusivamente económica, para não se fazer comércio de escravos. Etc.

A verdade simples, de que nos esquecemos com demasiada frequência, é que o liberalismo económico é uma teoria económica, não uma teoria política, embora, como qualquer teoria económica, possa fazer parte de uma teoria política. É por isso que há uma tão grande divergência no plano propriamente político entre partidos que defendem o liberalismo económico (o grupo liberal do Parlamento Europeu é exemplo disso).

É claro que é perfeitamente possível a defesa de uma versão do liberalismo económico que não passe pela defesa de uma teoria pura dos mercados, avessa a toda e qualquer intervenção exterior e, por isso, completamente imoral. Saindo do louvor apenas do «bom funcionamento» dos mercados, pode definir-se alguma base moral do que é moralmente aceitável comerciar e defender, em seguida, que todas as transações moralmente aceitáveis se processem livremente, sem regulação do estado nem de entidade nenhuma que não sejam os agentes económicos nelas intervenientes*.

É extremamente difícil, porém definir as fronteiras do que é, em termos morais, suficientemente aceitável para poder ser comprado e vendido ou que tipo de transações comerciais devem estar sujeitas apenas à regulação do mercado. Por exemplo, se se aceita pagar muito dinheiro a uma pessoa pelos contactos e pela influência que tem (o valor dos salários de muitos gestores é nisso que assenta), então porque não aceitar o suborno e a corrupção, que são também a compra, num mercado autorregulado, do poder de uma pessoa? A questão dos monopólios é também interessante: uma lei antimonopólio é sempre contra o mercado, até porque, por muito que se afirme que os monopólios implicam o fim da concorrência (e a concorrência seria um motor de aumento da qualidade), o fim último de uma empresa a funcionar num mercado livre com o lucro apenas como telos é conseguir um monopólio.
Este são problemas da definição de mercado livre. Tem sido muitas vezes argumentado que a defesa de um mercado livre é, em última análise, contraditória, porque implica sempre a defesa de uma instância reguladora fora do mercado e não influenciável por ele que assegure o respeito da liberdade de transação e o respeito das regras comerciais. Porque um mercado realmente livre é um mercado em que manda mesmo e só a economia, mas isso é uma abstração do mesmo tipo que «o ser humano anterior à socialização»: é um conceito utilizável em exercícios de reflexão, mas que não corresponde a nada que tenha existido ou possa vir a existir.

Uma solução simples para estes dilemas é assentar que o comércio livre não deve ultrapassar os limites da lei, que a lei em vigor no lugar onde se comercia é a única instância reguladora aceite pelo mercado. Isto é, pelo menos em teoria, aceite pelos liberais, mas essa aceitação das leis vigentes é contraditória com o princípio do mercado livre, porque então devem também aceitar-se, sem protestar, as leis que regulam o mercado, até porque nunca ninguém defendeu a regulação do mercado per se, mas sempre esta regulação se deu para atingir fins políticos, que é outra maneira de dizer que a regulação do mercado se enquadra em programas éticos – pelo menos, quando não é determinada por uma parte poderosa dos participantes no mercado para se protegerem a si próprios**... Ora as forças do mercado não aceitam, precisamente, que as leis sejam como são quando as leis não são como elas as querem e tentam constantemente alterá-las, em função apenas da ideia de que «o mercado não deve ser regulado». O que nos traz de volta ao círculo da definição de limites morais essenciais a que os liberais não querem responder e que podiam resolver-se com a aceitação das leis vigentes, fossem elas quais fossem, porque são todas igualmente inimigas dos mercados – o que os liberais, afinal, não aceitam. E neste círculo giramos.

No fundo, o que não se diz, porque não convém, mas que determina em última análise a pressão do mercado sobre todos os regimes, é que se pretende que não haja mesmo nenhuma lei, nenhuma moral, que limite o funcionamento do mercado. O liberalismo económico acaba sempre por defender, opondo-se a toda a política, que o comércio é o único objetivo aceitável – o que, pelos vistos, é politicamente tão indefensável que nem o mais ferrenho defensor do liberalismo económico ousa admiti-lo às claras…

_______________________

* Complica um pouco as coisas o poder julgar-se especificamente a moralidade de uma transação comercial enquanto tipo específico de ação – a compra e a venda de sexo, por exemplo, são passíveis de uma análise moral independente da análise moral da prática de sexo não transacionado. Mas deixemos isto para outra conversa.

** Isto também dava uma conversa à parte: muitos liberais não se coíbem de defender a regulação do mercado, se esta regulação defender os seus interesses – alguém defende comércio livre com o mundo inteiro, que é o mesmo que dizer a desregulação efetiva do comércio?

30/01/22

Silêncio

 

No meu conto «Silêncio» (que apresentei aqui), um músico do sul da Índia chamado Venmani Tirunal Patire conclui que a música de Deus, que ele tinha procurado em vão em várias formas de música religiosa, só pode, afinal, ser o silêncio, porque «[a] única matriz absoluta é uma matriz vazia, a que tudo pode conter». Decidido a «ouvir» o silêncio, Venmani Tirunal Patire suicida-se por inanição numa redoma de pedra o mais insonorizada possível, construída com ele lá dentro.

E então aqui fica um spoiler (mas não faz mal, porque vocês nunca hão de ler os meus contos…) – a história termina assim:

Mais versado nas ciências humanas do que nas ciências da natureza, Venmani Tirunal Patire não sabia que os processos mentais morrem antes das outras funções vitais. Não se consegue, por isso, deixar de ouvir o corpo no minuto ínfimo e extático que antecede a morte. E Venmani Tirunal Patire, tenho a certeza, morreu sem nunca ter ouvido a matriz sonora de Tudo – o mais perfeito de todos os sons, a sinfonia de todas as sinfonias, a música de Deus.
***

No outro dia, encontrei uma entrevista que o compositor e teórico da música John Cage deu em 1963 a Jack Hirschman na estação de rádio KPFK (podem descarregá-la aqui). Nessa entrevista, Cage conta como descobriu que o silêncio não existe, numa câmara anecoica da Universidade de Harvard, um espaço que é, em princípio, completamente insonorizado — como a redoma de Venmani Tirunal Patire (traduzo eu):

Nessa câmara, embora esperasse não ouvir nada, ouvi dois sons. Por isso, quando saí, perguntei ao engenheiro responsável que sons eram aqueles. Pensei que a câmara não devia estar a funcionar bem. E ele disse: «Descreva-os». E eu descrevi: um era agudo e o outro era grave. E ele disse: «Bem, o agudo era o seu sistema nervoso em funcionamento; e o grave era a circulação do seu sangue». Percebi então que, sem querer, eu produzia constantemente dois sons. Portanto, mesmo permanecendo em silêncio, eu era, em certas circunstâncias, musical.



29/01/22

Vista de uma janela

1. 

Na sua recensão do álbum Music for Nine Postcards (1982), de Hiroshi Yoshimura (revista Pitchfork, 15.11.2017), diz Thea Ballard:

Associa-se muitas vezes a música ambiente a uma espécie de interioridade psíquica, mas Yoshimura (…) fez música inspirada em lugares físicos e concebida para existir nesses espaços: para estações de comboio, desfiles de moda, etc.

Em 1982, Music for Nine Postcards foi o primeiro lançamento da série Wave Notation, de Satoshi Ashikawa; Ashikawa e Yoshimura definiram e defenderam aquilo a que chamaram «música ambiental», música que, segundo Ashikawa, «muda o caráter e o significado do espaço, das coisas e das pessoas». «A música», defende ele, «não se destina apenas a ser algo que existe sozinho.»

Por invulgar que possa parecer, a ideia aceita-se com naturalidade: em vez de exprimir uma maneira de sentir o mundo (um mundo interior, digamos assim) ou de constituir ela própria um mundo à parte, sem relação direta com nenhuma realidade, porque não há de a música fazer parte de um pedaço de mundo — imiscuir‑se no meio, ser ambiente?

2. 

Segundo Thea Ballard, o álbum «inspirou-se numa série de vistas de janelas». Não consigo, noutras recensões do álbum, confirmar a fenestral inspiração, mas há no álbum um tema chamado «View from my window»:

Publiquei uma vez no Facebook uma foto da janela do meu escritório e pedi aos meus amigos que publicassem nos comentários uma foto de uma das suas janelas. 

Não houve muita gente disposta a colaborar, mas ofereceram-me, ainda assim, três bonitas janelas.

Tamara Barile mandou‑me uma janela de S. Paulo.

Teresa Silva mandou-me uma janela do Dafundo/Cruz Quebrada.

Fernando Ramalho (Berlau) mandou-me uma janela sonora de Verderena, Barreiro, incluída numa compilação de janelas sonoras.

Maria Serrano mandou-me uma janela de Montreuil.

E J. J. Amarante Mandou-me uma janela dos Olivais, e eplica que a «casa amarela com uma pequena torre encimada por um telhado de 4 águas é a Bedeteca Municipal, adjacente à Quinta Pedagógica, da qual se vê o arvoredo e onde as crianças podem fazer pão, ver vários vegetais a sair da terra em vez de nas prateleiras dos supermercados e animais de quinta, ovelhas, vacas, cavalos, porcos, aves de capoeira, etc. A Bedeteca e a Quinta Pedagógica estão na antiga Quinta do Contador-Mor onde alegadamente o Eça de Queiroz escreveu Os Maias, no que seria um local de vilegiatura e agora é o Bairro dos Olivais.»

Recolher vistas de janelas não é uma coisa muito original. Há um grupo no Facebook, um site que deu dois livros e um site de repousantes filmes de 10 minutos. Mas não faz mal. Não têm uma vista de uma janela que queiram aqui pôr, por baixo das quatro iniciais? Se sim, mandem-ma por e-mail.

São Paulo

Dafundo/Cruz Quebrada

Montreuil





Olivais


19/11/21

É o inverno a chegar [Crónicas de Svendborg #42]

 [As fotos têm precisamente um ano. As quadras também. Eu, embora sendo do sul da Europa, não me queixo da escuridão; mas há muita gente daqui que se queixa...]

Está a doca já vazia, 
tem um outro azul o mar. 
Chega às quatro o fim do dia: 
é o inverno a chegar… 

Caem as folhas e o céu 
tem outro azul, como o mar. 
Às cinco, já escureceu: 
é o inverno a chegar…










30/10/21

Um pecado não muito original

 "Estavam ambos nus, o homem e sua mulher, sem terem vergonha um do outro.

Ora a serpente era o animal mais astuto dos campos que Deus Senhor fizera. Disse à mulher: 
– Deveras? Deus disse «Não comereis de todas as árvores do jardim»? 
Respondeu a mulher à serpente: 
– Do fruto das árvores do jardim podemos comer; mas, do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: «Não comereis dele, nem nele tocareis, para não morrerdes». 
A serpente disse à mulher: 
– Não, não morrereis; mas Deus sabe que no dia em que comerdes do fruto, abrir-se-vos-ão os olhos, e sereis como deuses, conhecendo o bem e o mal. 
Viu, pois, a mulher que a árvore era boa para comer, que era uma delícia para os olhos, e que era árvore desejável para adquirir sabedoria; tirou dela um fruto e comeu dele; deu também o fruto a comer a seu marido, e ele comeu. E abriram-se os olhos de ambos e deram-se conta de que estavam nus; coseram folhas de figueira, e delas fizeram tangas. Ouviram os passos de Deus Senhor que passeava pelo jardim na brisa do dia; e o homem e a mulher esconderam-se de Deus Senhor entre as árvores do jardim. 
E Deus Senhor chamou o homem e perguntou-lhe: 
– Onde estás? 
E o homem respondeu: 
– Ouvi a tua voz no jardim, e tive medo, porque estava nu; e escondi-me. 
Perguntou-lhe Deus: 
– Quem te revelou que estavas nu? Comeste da árvore de que te mandei não comer?"
[Livro da Génese, cap. 2 e 3]

Tommaso Masolino da Panicale: A tentação de Adão e Eva, 1426-1427. Fresco, Capela Brancacci, Florença. 
Por volta de 1670, os frescos foram pintados por cima, para tapar a nudez, tendo sido restaurados no fim do século XX. 

Masaccio (Tommaso di Ser Giovanni di Simone): A expulsão de Adão e Eva do Éden, 1426-1428. Fresco, Capela Brancacci, Florença 
As folhas de figo foram acrescentadas em 1680 e foram de novo retiradas numa restauração feita em 1980.

Hubert van Eyck, Retábulo de Gante ou Adoração do Cordeiro Místico, concluído em 1432. Pintura sobre painel, Catedral de São Bavão, Gante 
No século XIX, as representações originais de Adão e Eva nus foram consideradas inaceitáveis numa igreja e os painéis foram substituídos por reproduções vestidas (à esquerda).


22/10/21

Televisão: programação de 3 a 9 de outubro de 1965 [Crónicas de Svendborg #41]

Eis a programação da televisão dinamarquesa para a semana de domingo 3 de outubro até sábado 9 de outubro de 1965, tal como aparece na revista Billedbladet de 1 de outubro desse ano.

Eu tinha nessa altura seis anos. Tínhamos televisão lá em casa e tenho a impressão que a programação da televisão portuguesa era muito diferente da dinamarquesa, mas, é claro, não passa disso mesmo – uma impressão. Seria curioso encontrar uma revista com a programação da televisão portuguesa dessa altura (ou de outro país, porque não?), para verificar se era de facto assim tão diferente. 

Seja como for, surpreende-me a quantidade de programas informativos e educativos, a qualidade dos programas culturais, e o facto de, numa semana, haver apenas duas séries americanas, os Flintstones e The Defenders, uma série sobre advogados e tribunais que eu creio que nunca passou em Portugal.

DOMINGO
9:55 Missa de outono transmitida da igreja dinamarquesa de Glücksburg, na Alemanha. [Glücksburg fez já parte da Dinamarca e continua a haver na região muitos falantes do dinamarquês. Indica-se no programa o nome do pastor e os salmos que vão ser cantados.]
20:00 «Bactérias ao microscópio»: Ingvald Lieberkind fala de um filme científico russo sobre bactérias.
20:25 Ópera «O Barbeiro de Sevilha». Transmissão do Kornmarktteatret, em Bregenz, Áustria.
No intervalo:
22:05 Notícias, incluindo as notícias desportivas de domingo
23:05 Telejornal.

SEGUNDA FEIRA
9:15–9:40 «Os elementos mais pequenos da matéria»: primeiro filme da série «As moléculas na Física».
17:15–18:00 Programa «A casinha das bonecas»: 1. «Bichana de olhos azuis», primeira parte de um romance para os mais pequenos; 2. «Caça ao tesouro na biblioteca», uma visita à biblioteca familiar de Vejlby-Risskov.
20:00 Notícias.
20:20 «A criança deficiente que vive com os pais»: o apoio social oferece muito pouco aos pais que não têm seus filhos numa instituição?
21:20 Teleteatro: «A Aula», peça de Engene Ionesco.
22:15 Visita do Papa às Nações Unidas. Transmissão da mensagem do Papa Paulo IV à Assembleia Geral da ONU.
22:45 Telejornal.

TERÇA-FEIRA
9:15–9:35 «A caminho da escola»: primeiro episódio do programas sobre segurança rodoviária para os mais jovens.
11:55 Abertura do Parlamento. Transmissão do discurso de abertura do Primeiro-Ministro Jens Otto Krag no início do novo ano parlamentar.
17:30–18:00 «O que fazer?», programa sobre livros
19:30 «Walter e Connie»: 1ª e 2ª aula de «Inglês na TV»
20:00 Notícias.
20:20 O novo ano parlamentar: entrevista com o primeiro-ministro Jens Otto Krag sobre os principais pontos do discurso de abertura do ano parlamentar.
20:45 «Do desporto à arte»: a dança dos séculos XVI e XVII. 1. episódio da série «História e estética do ballet».
21.15–22.00 Programa «Horizonte»: comentários sobre a actualidade política estrangeira.

QUARTA-FEIRA
13:15–13:40 «Os elementos mais pequenos da matéria»: primeiro filme da série «As moléculas na Física». (Retransmissão).
19:30 «O corpo humano»: primeiro filme da série sobre o corpo humano.
20:00 Notícias.
20:20 «A natureza vista ao microscópio»: vamos de novo apanhar cogumelos com o Professor Morten Lange nas florestas de Sorø.
20:35 Teleteatro. «Ateljé Mia», uma peça de Lars Helgesson (Emissão da televisão sueca).
21:20 Jazz.
21:50 Programa escolar. Informação sobre uma série experimental sobre matemática.
22.30 Telejornal.

QUINTA-FEIRA
13:15–13:35 «A caminho da escola»: primeiro episódio do programas sobre segurança rodoviária para os mais jovens. (Retransmissão de 5/10 9.15).
15:15–16:00 Programa «A casinha das bonecas»: 1. «Bichana de olhos azuis», primeira parte de um romance para os mais pequenos; 2. «Caça ao tesouro na biblioteca», uma visita à biblioteca familiar de Vejlby-Risskov. (Retransmissão)
19:30 Notícias desportivas.
20:00 Notícias.
20:20 «O lago»: documentários sobre uma reserva indígena na floresta virgem do Brasil (BBC).
20:50 Com 10 centavos no bolso. Estreia dinamarquesa. Fime americano de 1941 ("Sullivan's Travels").
22:20 Telejornal.

SEXTA-FEIRA
15:30–16:00 «O que fazer?», programa sobre livros (Retransmissão).
19:30 «Os elementos mais pequenos da matéria»: primeiro filme da série «As moléculas na Física». (Retransmissão).
20:00 Notícias.
20:20 «Tons negros»: documentário sobre a vida numa fazenda branca sul–africana (BBC).
21:00 Actualidade cinematográfica («Note que esta emissão pode incluir excertos de filmes proibidos para crianças»).
21:20 Promenade Concert de Londres. Orquestra Sinfónica da BBC dirigida por Sir MaIcolm Sargent.
22:35 Telejornal.

SÁBADO
16:00 «Os Flinstones», desenhos animados
16:25 «Uma deficiência – e então?»: visitamos jovens desportistas com deficiências.
17:10–17:55 Jornal de sábado
19:30 «Walter e Connie». 1ª e 2ª aula de «Inglês na TV»
20:00 Notícias.
20:20 «As famílias do concurso “Tétrade”»: apresentação dos participantes do concurso televisivo desta noite.
20:30 «Tétrade»: Concurso musical entre famílias nórdicas, esta noite de Oslo (Nordvision da Noruega).
21:30 Programa «Duelo»: Poul Trier Pedersen entrevista dois convidados.

21/10/21

Da boa educação


Há agora no Facebook uma moda de páginas que fazem perguntas às pessoas: «Destas capitais, quais é que já visitou?», «Qual foi a sua primeira viagem de avião?», etc. Quando uma pessoa nossa amiga responde a uma destas perguntas, vemos a resposta dessa pessoa e sentimo-nos tentados a responder também, muitas vezes até mais para dialogar com a amiga ou o amigo que respondeu, creio eu.

Enfim, não costumo responder a coisas dessas e às vezes até escolho a opção de nunca mais voltar a ver a página, mas já me aconteceu cair em tentação. Aqui há umas semanas, vi uma «pergunta» que era qualquer coisa como «Se me convidarem para jantar, o meu maior medo é que seja…» E, em vez de escrever um prato qualquer que me desagrade, como escrevia toda a gente, escrevi apenas «…pouco»: «Se me convidarem para jantar, o meu maior medo é que seja pouco.»
 
Por um lado, gosto de tudo (a sério!); por outro lado, aprendi com a minha avó, uma mulher muito sábia, que, quando nos convidam para comer, a gente deve mesmo encher a barriga! Mais concretamente, a expressão dela era esta:

«Ó filho, também a gente ficar em favores e ainda por cima passar fome…»

[Pelo traço, a ilustração é quase de certeza de Charles Dana Gibson (1867– 1944), mas não tenho a certeza absoluta. Não consigo encontrar nem título nem data da obra. Uso aqui uma parte apenas da imagem original e ligeiramente modificada por mim.] 

11/10/21

Reabilitação com guitarra

[Não é uma história de um lar, desta vez, mas sim uma história do hospital. Também ela acontecida, como quase todas as histórias que aqui conto.]

Reunião para combinar os passos e objetivos seguintes do processo de reabilitação neurológica de Jorge: estão presentes o Jorge, a mulher dele e o pessoal do serviço de reabilitação neurológica que mais diretamente trabalha com ela: uma fisioterapeuta, um ergoterapeuta, uma enfermeira e uma médica. Jorge teve um acidente vascular cerebral, de que resultou paralisia parcial do lado direito do corpo. Depois de um mês de reabilitação intensiva, os progressos são muitos: a afasia expressiva praticamente desapareceu e Jorge já consegue fazer sozinho muitas das suas atividades diárias, embora ainda mexa pouco o braço e a perna direita. Está muito satisfeito com os progressos que tem feito, em grande parte devido ao seu grande empenho na reabilitação, e isso vê-se-lhe bem na expressão do rosto.

«E que tal começar a tentar tocar guitarra outra vez? Não fazer dedilhados, claro está, que isso ainda não é possível, mas só palhetar, para treinar a mão direita», propõe a certa altura o ergoterapeuta. Antes do AVC, Jorge era um exímio guitarrista, além de que compunha e escrevia letras para canções.

A expressão de Jorge altera-se completamente. Fica de repente muito triste.

«Nem pensar nisso», diz ele. «A guitarra nunca pode fazer parte do treino. Nunca. Só lhe volto a tocar quando tiver o controlo perfeito da mão direita… Se alguma vez o recuperar, seja… Senão, nunca mais toco numa guitarra.»

04/10/21

Elogio da boa vida em forma de fado

 

Ele era um bom rapaz, trabalhador, 
Um operário leal cumprindo o bem. 
Vint'anos de ilusões brotando em flor 
E uma terna afeição por sua mãe. 
Mas um dia fatal, os companheiros 
Levaram-no à taberna onde parava 
A malta dos vadios e desordeiros, 
Dos quais um à guitarra assim cantava: 

Um fadinho a soluçar 
Faz de nós afugentar 
A ideia da própria morte; 
Mata a dor, mata a tristeza, 
Jacques Alfred Van Muyden (1918–1998): Três músicos romanos numa taberna, s. d.
O fado é bendita reza 
Dos desgraçados sem sorte, 
Tem tal dor e mágoa tanta,
Quando canta uma garganta
De quem vive amargurado,
Que o refúgio preferido
P’ra quem viver dolorido
Está na doçura do fado 

Esta triste canção foi mau agoiro 
Que a vida lhe viesse transtornar 
Tomou gosto à taberna, o matadoiro, 
E em breve deixou de trabalhar (…) 

Parecerá normal a equivalência que se estabelece neste «Fado maldito[1]» entre ser «um bom rapaz» e «cumprir o bem» e ser «trabalhador» e «um operário leal». O louvor — quando não o culto — do trabalho é transversal a quase todas as camadas e grupos sociais, e, pelo menos no mundo em que cresci, só nos estratos sociais mais baixas é que o louvor do trabalho convivia com a apologia da recusa de se deixar aprisionar no mercado laboral e tentar sobreviver doutra maneira, o mais das vezes dedicando-se a alguma atividade ilegal. 
A questão dá pano para mangas. Mas, se não se pode —pelo menos na praça pública — aceitar o elogio do não fazer nada como modo de vida, que vergonha!, pode-se certamente aceitá-lo como tema humorístico — até porque o humor resulta, em geral, de uma perturbação na normalidade das coisas, não é verdade? E então, se há fados como o que cito acima, que fazem corresponder à perdição a vida de boémia e o não querer trabalhar, também há outros em que desfilam simpáticos mandriões que suscitam no ouvinte mais simpatia que reprovação. 
Preguiça é a palavra que costuma definir este topos humorístico. Evidentemente, nestes fados, não há nunca uma tomada de posição política[2]: a recusa do trabalho é sempre apresentada como um (simpático) defeito de carácter. Um traço de personalidade, enfim. Pelo que nos canta Joaquim Cordeiro, em «Trabalho, vai-te embora[3]», a preguiça é até hereditária. Mas o mais curioso neste fado é que sugere que a profissão ideal para quem não quer fazer nada é a de ator — uma profissão, ainda assim, demasiado trabalhosa para um mandrião que se preze, como a personagem da canção.
Vejo pás e picaretas
Nos buracos da Avenida; 
E vejo a Rua das Pretas
Cada vez mais encardida;
Vejo a malta a protestar,
Porque o Benfica perdeu; 
Vejo tudo a trabalhar, 
Quem não trabalha sou eu

Trabalho, vai-te embora, 
Ai de mim, estou tão cansado. 
Isto de ser calão já é meu fado 
Ficou escrito no vento este dilema: 
Nem que me levem para o cinema 
 P’ra ser galã dos mais catitas, 
Ser um bijou bonito e fazer fitas... 
Ai de mim que não consigo fazer coisas tão esquisitas! 

Oiço gritos, correrias, 
Quando aparece um emprego.
Acordo todos os dias
E ainda não fui ao prego.
Já dizia a minha mãe: 
«Filho, não te dê cuidado, 
Que o teu paizinho também
Tinha nascido cansado». 
Outro fado de Joaquim Cordeiro sobre este tema da preguiça é «Bendito seja o descanso[4]». Trata-se aqui de uma anedota em verso, com um desfecho bem achado. Acho curioso que o Chico Malhado ponha a questão do trabalho em termos de gosto. Quase se pode descortinar nos dois patuscos mandriões uma postura aristocrática.
De corpinho estiraçado,
À sombra de uma figueira, 
Estava o Chico Malhado 
Mais o Baltazar Pintado 
Dois campeões da lazeira, 
O Malhado a bocejar, 
Passando as mãos pelo rosto.
Perguntou. «Ó Baltazar,
Quem gosta de trabalhar,
Não achas que tem mau gosto?»
«Camarada mandrião», 
Diz-lhe o outro com ripanço,
«Tens muita e muita razão,
Sou da tua opinião,
Bendito seja o descanso!!... 
Trago um projecto na mente 
Carrega-se unicamente 
Num botão e, de repente, 
Aparece tudo feito.»  
Diz o Malhado: «Isso, amigo,
É uma grande invenção,
Mas escuta o que te digo:
Não deves contar comigo
P'ra carregar no botão!»
Um outro fado que é também uma anedota versificada sobre o mesmo tema é «Os Preguiçosos[5]». Na minha opinião, o fado é notável pela frase «com dotes colossais p’ra descansar», um verdadeiro achado retórico, mas o desfecho da história assenta num jogo de palavras simples e conhecido.
Stock image. Autor, título e data desconhecidos.

O Chico Barnabé e o Zé Ramalho, 
Com dotes colossais p’ra descansar, 
Se um não gostava nada do trabalho, 
O outro tinha raiva em trabalhar.
E assim andavam neste rodopio, 
Dois amigos leais da boa vida
E, p’ra não aturarem senhorio, 
Pernoitavam nos bancos na Avenida.
Mas certa noite em que pernoitavam,
Um polícia de giro ali passou.
Por fim, enquanto os dois se espreguiçavam, 
O guarda ao Barnabé assim falou: 
«Diga-me qual a sua profissão 
E responda-me já, sem fantasia!» 
«Pois saiba que trabalho, pois então, 
Na firma Boavida & Companhia.» 
«E você?», diz o guarda ao Zé Ramalho,
«Diga-me sem mentir, responda já!» 
«Pois bem, fique sabendo que trabalho 
E estou na mesma casa onde este está!» 
A expressão boa vida é a chave deste meu breve devaneio. Geralmente, a anteposição do adjetivo ao nome fá-lo perder a sua função qualificativa: um grande homem não é um homem que é grande e por aí adiante. Não vou entrar aqui em pormenores — mais por preguiça que por outra razão qualquer. Uma vida boa pode significar uma vida sem problemas de saúde ou de dinheiro, uma vida interessante, folgada, com boas condições… de vida, precisamente, uma vida… boa, enfim; e uma vida má é o contrário disso: doença, miséria, problemas de toda a sorte. Já a boa vida não é o contrário da má vida. Muitas vezes, as expressões são quase sinónimas. A má vida é a vida da personagem decaída do primeiro fado deste texto. Mas essa má vida é, afinal — e pelo menos no que diz respeito a não trabalhar – a boa vida. Talvez não seja esse o caso do protagonista do «Fado maldito», não sei, mas, com alguma sorte, esta (má/boa) vida pode ser até ser uma vida boa.

______________
[1] Raúl Ferrão, sobre versos de Pedro Bandeira e Álvaro Leal. Mais aqui
[2] Quando digo «tomada de posição política », estou a pensar no célebre «direito à preguiça«, defendido por Paul Lafargue, na obra com esse nome de 1880, em que se defende que o natural da espécie humana é a procura do prazer e não o amor ao trabalho, que ele considera «um dogma desastroso» e uma «estranha loucura», quando vindo da classe trabalhadora, e que é, segundo ele, «a causa de toda a degenerescência intelectual e de toda a deformação orgânica». Ora, preguiça é uma palavra curiosa, porque não define, em princípio, a recusa de um trabalho formal, apenas o excesso de inércia e de falta de iniciativa. Na realidade, muitas das atividades dos «malandros« que vivem fora do trabalho formal não se prestam em absoluto para preguiçosos, mas isso é outra história. Note-se, a propósito, que a expressão «mulheres de vida fácil» que antigamente se usava para se designar as trabalhadoras sexuais — e que remete também para a «boa vida» que se discute neste texto — dá-nos conta de que o trabalho sexual estava também incluído no «não (querer) trabalhar». 
[3] Uma versão do célebre “Saudade, vai-te embora”, de Júlio de Sousa. Desconheço o autor da letra da versão humorística.
[4] Com versos de Armando Coutinho Dias e música do «Fado Patolas» (de Alcídia Rodrigues, ao que consigo descobrir).
[5] Com letra de Aureliano Lima da Silva e música do «Fado Margaridas», dos irmãos Casimiro e Miguel Ramos