Conheço dois casos curiosos em que um/a artista da canção popular refere outro(a) artista numa canção e esse(a)
artista responde com uma canção em que refere a/o primeiro(a).
Em 1959, Neil Sedaka teve um grande êxito com «Oh! Carol», que escreveu a meias com Howard Greenfield. A letra da canção pode resumir-se à primeira estrofe cantada, que é depois declamada:
Oh! Carol, que parvo sou. Querida, amo-te, apesar de me tratares com crueldade. Fazes-me sofrer e chorar, mas, se me deixares, de certeza que morro.
Uma letra típica da pop da época para o mercado de adolescentes.
Neil Sedaka: «Oh! Carol», 1959
Carole King tinha sido namorada de Sedaka no liceu e era ela a Carol da canção. Ou, pelo menos, achou que devia ser. E então gravou no mesmo ano uma versão da canção de Sedaka chamada «Oh, Neil», com uma letra escrita pelo seu marido Gerry Goffin. A letra galhofeira fazia da canção, mais do que apenas uma versão do êxito de Sedaka, uma novelty song. Uma tradução livre em prosa:
Oh, Neil, há tanto que te amo, nunca imaginei que me pusesses numa canção. Sou eu a Carole e moro no Tennessee. Nunca esperei que te lembrasses de mim. Quando te vi no baile, meu querido, deu-me um baque, senti um aperto no peito, como se tivesse comido demais. ... Oh! Neil, era capaz de não tocar em tabaco de mascar um mês inteiro, só para ser conhecida como Sra. Neil Sedaky. O meu avô não gosta dos teus discos. Disse-me que, se eu os pusesse a tocar, morria de certeza. Cuidado! Lá vem ela com a espingarda! Não há nada a fazer. Oh! Neil, de certeza que vou morrer por ti.
Não faço ideia de como Sedaka reagiu à brincadeira. O que sei é que «Oh, Neil» nunca teve o sucesso de «Oh! Carol»...
Carole King: «Oh, Neil», 1959
A canção de Sedaka não é muito (ou absolutamente nada…) o meu estilo de música, passemos a duas canções que me agradam
mais em que há a mesma nomeação de um músico e a resposta deste, nomeando a cantora da primeira canção.
Em 1967, Blossom Dearie gravou uma canção dedicada a Georgie Fame, chamada «Sweet Georgie Fame», com música sua e
letra de Sandra Harris. Georgie Fame e os seus Blue Flames eram uma das mais conceituadas bandas inglesas da primeira
metade dos anos 60, que faziam uma mistura de blues, Jazz, R&B e pop, e Blossom Dearie viu-os em Londres em 1966 e, diz ela, gostou muito. Depois, de visita a casa de uma amiga, viu os filhos da amiga a dançar
ao som da música de Georgie Fame e teve uma ideia para uma melodia — para a qual a irmã dessa amiga escreveu a letra, um elogio simples da música de Fame.
Blossom Dearie. «Sweet Georgie Fame», 1967
Words and music are all that I need,
I will follow wherever they lead
and I'm finding more fun in the game,
a darling boy
has brought me joy,
sweet Georgie Fame.
Oh, I heard him one night quite by chance,
now wherever I'm walking, I dance
and London is not quite the same,
'cause when he sings,
the city swings,
sweet Georgie Fame.
London Bridge is falling down,
pop songs I hear with suspicion,
But now at last I'm glad to meet
a sweet lovin' real good musician
Oh, from Broadway to Festival Hall,
I have listened and I've heard them all
and they say I'm a real swinging dame,
yet I'm impressed,
my ears are blessed
with Georgie Fame.
So stay a while,
you'll see 'em smile,
you won't complain. His hands and feet
make music sweet,
you'll miss your train.
My goose is cooked,
l'm gettin' hooked
on Georgie Fame!
Georgie Fame demorou dois anos a responder à declaração de Blossom Dearie, se se pode dizer assim. Fê-lo com música sua e letra de Jeff Alexander Ryan. Acho graça à maneira como a rima em -ings de «'cause when he sings, the city swings» da canção de Dearie é aumentada para «and everybody swings to all the things she sings» na canção-resposta de Fame.
Georgie Fame: «Blossom», 1969
When she sits down, her piano
gives her a warm welcoming smile,
and when she begins playing them chords,
singing her songs, everyone listens.
Blossom fills the air with a rare perfume
and everybody swings to all the things she sings.
Changing her mood, she can be sad,
making her blues lonely and lost
in a midnight of nowhere
and everyone starts feeling the same
She looks small when the spotlights hit her,
she sings tall and we're all getting bigger,
soon the room seems to shrink and shiver,
soon the moon will be here having dinner.
Thirty two bars never could say
everything I wanted to;
that is why songs of love 'ought to be longer,
especially for people like Blossom,
far longer, yes, much longer than this.
Quero defender aqui que para que uma ação seja boa ou má, não contam para nada as virtudes ou a falta de virtudes de
quem a pratica.
A discussão moral (incluindo a discussão política, que é uma parte da discussão moral) deveria centrar-se
exclusivamente em ações e nunca em quem as pratica. Nenhuma pessoa é moral ou imoral, o que pode estar mal ou bem são
as suas ações.
Evidentemente, é impossível desligar completamente as pessoas das suas ações, porque qualquer regra, seja ela um
preceito moral ou uma lei do código civil, precisa de punição para poder existir. Uma regra cuja infração não acarrete
castigo não é uma verdadeira regra, é uma pseudorregra. Se uma lei disser que a escolaridade é obrigatória para todas
as crianças, mas não houver castigo para quem não mande os filhos à escola, não se pode dizer que há de facto uma lei.
Quando se trata de regras apenas morais, o castigo não implica o mesmo tipo de penas, mas não deixa, por isso, de
haver penas para quem não as cumpra, que podem variar muito, conforme a regra violada e a comunidade onde se viva, da
crítica mal-assumida ao desprezo e ao ostracismo. Mas é apenas para poder haver castigo e, por conseguinte, lei (e já
é muito, eu sei) que há que ligar ações a quem as pratica. Para as discussões propriamente éticas e morais, as ações
devem ser julgadas por si — até porque, como todos sabemos, todos os seres humanos são capazes de todas as ações, das
mais sublimes às mais vis, e não acredito que alguém ache que se deva perdoar um crime apenas por ele ter sido
praticado por quem, tirando esse crime, nunca fez senão o bem na vida, nem deixar de louvar alguma boa ação de alguém
que passou a vida a fazer mal aos outros. E cheguei já aonde queria chegar, depois desta breve introdução que peca
talvez por banalidade: às virtudes.
Não se vê que mal possa haver em cultivar as virtudes. Em princípio, as virtudes são sempre traços positivos. Mas não
é claro para mim — nem para ninguém, creio — até que ponto se tem esta ou aquela virtude por desígnio próprio ou se
são antes traços de caráter sobre os quais a sua possuidora ou o seu possuidor tem pouco ou nenhum controlo. Pode
argumentar-se, porém, que, da mesma forma que ninguém manda em nascer forte ou saudável, mas pode, ainda
assim, decidir ou não cultivar as suas capacidades físicas, também as virtudes se podem treinar,
pelo menos parcialmente. É possível, mas tenho dúvidas de que isto se aplique a todas as virtudes da mesma
forma e de que virtudes como a coragem não sejam sobretudo comandadas por processos fora do alcance da consciência.
Mas talvez… Seja como for, não pode haver mal em tentar cultivar as virtudes. Agora, talvez ao contrário do que muita
gente entende, não me parece que as virtudes deem a quem quer que seja alguma superioridade moral.
Convém, antes de prosseguir, deixar claro o que quero aqui dizer com virtudes*. Nesta reflexão, não quero de maneira
nenhuma delimitar conceitos: quando digo bem e mal, entendam, por favor, como aquilo que a vossa própria moral
considera beme mal; e quando digo virtudes, deixo completamente ao leitor a listagem dessas mesmas virtudes. O que eu
digo aqui deverá fazer sentido independentemente da ética e da conceção de virtude de quem lê — senão, os meus
argumentos falharam. Ainda assim, cabe aqui uma lista do que se consideram virtudes, nem que só como exemplos. A lista
varia de autor para autor e, de certa forma, ao longo dos tempos, mas reuni no parágrafo seguinte algumas das que
costumam ser referidas. Virtudes podem então ser, entre outras, o altruísmo e a generosidade; o
apego à verdade e a sinceridade; a compaixão e a empatia; a contenção e o controlo de si; a coragem; a desambição e o
desprendimento dos bens materiais; a diligência e a perseverança; a disciplina, a organização e a ordem; a determinação, a firmeza e o sentido do dever; a frugalidade e a moderação; a honestidade; a
humildade e a modéstia; a paciência; a prudência; o sentido de justiça; e o sentido de responsabilidade.
Pode alargar-se muito a lista, ou reduzi-la a algumas virtudes fundamentais, mas não é isso que está em causa neste
texto. O que quero agora sublinhar — e é essa uma razão essencial para não se poder fazer derivar valor moral das virtudes —
é que a virtude é atributo da pessoa que pratica a ação e não da própria ação. Pode argumentar-se que o cultivar da
virtude leva à realização de ações boas e é essa, precisamente, a ideia que subjaz à apologia das virtudes. Por
exemplo, o apego à verdade e a sinceridade levam a que não se minta, engane ou finja, e se se considerar, como alguns
moralistas, que a verdade, sobre o mundo e sobre si próprio, é, em sim mesmo, um valor ético inalienável e universal,
estas virtudes levam a que não se pratiquem alguns atos que são sempre moralmente condenáveis. Talvez se possa dizer o
mesmo de outras virtudes... Mas é difícil argumentar que a perseverança, a disciplina, a organização e a ordem, por
exemplo, conduzem forçosamente a algo moralmente louvável. Tudo depende, obviamente, de que ação se leva a cabo com
perseverança, disciplina, organização e ordem — se é pesquisa sobre novos medicamentos ou um genocídio. Ora eu creio
que se pode dizer o mesmo também da verdade e da sinceridade: não lhes nego um valor absoluto em certas
circunstâncias, mas também podem não ser a melhor escolha moral em certas situações — sobretudo se pusermos acima de
valores éticos abstratos como a verdade outros valores tão universais como ela, mas bastante mais tangíveis, como a
vida ou evitar o sofrimento.
Escrevia Lutz Brückelmann, numa publicação no Facebook, que tinha visto um documentário sobre Rudolf Hess, e percebeu assim «que uma pessoa pode ser honesta, modesta e guiada por ideais», pode ser “[u]m marido e pai de família carinhoso, um amigo leal, um superior honesto, responsável e justo, que abomina corrupção e fraude» — que «ao mesmo tempo, defende e promove sem escrúpulos o extermínio dos judeus e dos ciganos, bem como a escravização de outros “sub-humanos”». Como Lutz Brückelmann aponta e muito bem, o facto de que «nunca se distanciou, nem mesmo em Nuremberga, da ideologia nazi e dos seus objetivos, tendo-se, pelo contrário, declarado expressamente a favor deles até ao fim» «é um sinal da sua “honestidade”». Talvez até também de outras qualidades que se costumam considerar virtudes, como coragem e verticalidade...
Hess está longe de ser um exemplo isolado. Encontram-se com certeza na História exemplos de líderes corruptos,
mentirosos, cobarde e cínicos que causaram grandes sofrimentos a muita gente; mas também exemplos de líderes íntegros, honestos, corajosos, diligentes, determinados, firmes e com um profundo sentido de
responsabilidade — até para com a própria História, na perspetiva deles —, fiéis aos ideais que os orientavam e que
eles consideravam redentores da sua pátria ou de toda a humanidade… e que causaram ainda mais sofrimento. De facto, não é só de grandes dirigentes políticos, militares ou religiosos que se pode dizer isto. O mesmo se aplica
exatamente, a uma escala menor, a quem não tem tão grandes responsabilidades públicas. Encontrei na vida, provavelmente encontrámos todos, pessoas com muitas virtudes que causavam muito sofrimento aos que as rodeavam.
Finalmente, há outra questão que quero aqui comentar: nenhuma virtude o é em todas as situações e algumas das virtudes
geralmente prezadas podem estar em conflito entre si. Ou seja, é muito discutível a almejada universalidade das
virtudes. A desambição, por exemplo, não é uma qualidade louvável num político — que tem o dever de
ter ambições, também de poder, para poder concretizar o mais possível os objetivos definidos no seu programa político. A moderação é muitas vezes indesejável num artista. O sentido do dever e/ou da responsabilidade podem em muitas situações entrar em conflito com outras virtudes, como a
compaixão ou a prudência, ou até com o sentido de justiça. A temperança e a contenção podem suprimir a sinceridade em
momentos de grande tensão emocional ou vice-versa. Etc.
Se há virtude que vale sempre, é uma que não costuma ser
referida como tal: não se fixar em nenhum bem, mas avaliar antes, em cada situação, o que é melhor. Tentemos então
desenvolver em cada um de nós as virtudes que considerarmos mais importantes, porque não?, mas não nos esqueçamos de
as silenciar, se necessário, quando necessário, para fazer sempre o que acharmos moralmente mais defensável.
P.S.: Diz Gregory Corso, num conhecido poema: «You are kind because you live a kind life» («But I Do Not Need Kindness», 1958). Suspeito de que é mais fácil cultivar algumas virtudes a quem tenha uma vida no mínimo desafogada
(como é mais fácil cultivar a saúde, aliás, ou a condição física, ou seja lá o que for). Virtudes como cultura e
refinamento parecem estar mais ao alcance de pessoas de um certo estatuto social. Virtudes como benevolência,
clemência e magnanimidade pressupõem forçosamente algum poder, embora não pressuponham forçosamente uma determinada
condição social. Isto não quer dizer que o desenvolvimento destas virtudes esteja, à partida, negado a certas pessoas.
Quer só dizer que, para desenvolver algumas delas, algumas pessoas parecem ter uma vantagem à partida.
_______________
* A palavra latina virtus, de que deriva a palavra portuguesa virtude e as palavras correspondentes nas línguas mais próximas, vem de vir, «homem» e
significa originalmente «as qualidades de um homem» e, por extensão, «força, vigor; bravura, coragem, valor, etc.»
Isto não deve ter implicações na presente discussão, porque não é esse o significado atual da palavra em português e
nessas outras línguas. Da mesma forma, não devem interferir na discussão outros significados mais ou menos datados da
palavra, por exemplo em relação à virtude feminina.
Para muitas e muitos artistas, é importante situar-se e situar a sua arte num movimento,
numa tradição, numa linhagem, etc. Na canção, uma maneira interessante de deixar clara uma filiação estética é dedicar
canções aos seus ídolos. E este é o primeiro de uma nova série de breves apontamentos sobre esse tema: canções sobre
músicos.
Começo com Bob Dylan. Sendo Bob Dylan uma fonte tão grande de inspiração para tantos compositores de canções,
sobretudo nos anos 60 e 70, é natural que haja, como de facto há, várias canções que lhe são dedicadas. Eis duas delas, por dois músicos importantes
da música popular da segunda metade do séc. XX.
***
Em 1965, Syd Barrett escreveu «Bob Dylan Blues», que viria a gravar em 1970 e que só foi publicado em 2001. Segundo Robert Chapman na sua biografia de Syd Barrett (Syd Barrett: a very irregular head, London: Faber & Faber, 2010), este escreveu o seguinte numa carta à sua
namorada (traduzo eu todas as citações):
Escrevi uma canção sobre Bob Dylan. Pois, pois. Alma. Deus, etc. Começa assim: «Tenho a tristeza de Bob Dylan e os
sapatos de Bob Dylan, e tenho o cabelo e a roupa num completo desalinho, mas estou-me bem nas tintas»: Na verdade, é
um bocado satírico e humorístico.
E comenta Chapman:
Para além da pura alegria infantil de fazer rimar «I'm a poet» com «don't you know it», «Bob Dylan Blues» é uma
canção irónica e perspicaz, que brinca com o fenómeno Dylan e com a armadilha que a fama é.
A letra da canção faz alusão a várias canções de Dylan, a saber, «Blowin’ in the Wind», «Girl of the North Country», «Down the Highway», «Masters of War», «Bob Dylan’s Blues», «A Hard Rain’s Gonna Fall» e «Bob Dylan’s Dream», todos
elas do álbum The Freewheelin’ Bob Dylan, lançado no Reino Unido na primavera de 1964.
Mais diretamente — mas Chapman parece não se dar conta disso — a canção faz referência a «I Shall Be Free No. 10», do
mesmo álbum. Além da rima de poet com know it e blow it, Barrett recupera da canção de Dylan também o tom sarcástico. É um talking blues bastante surrealista, que tem passagens como:
Bem, sou liberal, mas até certo ponto. Quero que toda a gente seja livre, mas se pensas que vou deixar o Barry Goldwater [o candidato presidencial republicano em 1964] mudar-se para a casa ao lado e casar com a minha filha, deves pensar que sou louco! Não deixava, nem que me oferecessem as quintas todas de Cuba. […]
Pediram-me para ler um poema numa associação de estudantes universitárias. Apanhei uma grande moca e fiquei com a cabeça a andar à roda. No fim, tive de levar com a diretora da associação. Iúpi! Sou poeta e sei que sou. Espero não estragar tudo. […]
E
para quê ser sarcástico com Dylan, pode uma pessoa perguntar-se, quando Dylan era o primeiro a ser sarcástico consigo próprio?
Got the Bob Dylan blues
And the Bob Dylan shoes
And my clothes and my hair's in a mess
But you know I just couldn't care less
Goin' to write me a song
'Bout what's right and what's wrong
'Bout god and my girl and all that
Quiet while I make like a cat
Cause I'm a poet, don't ya know it
And the wind, you can blow it
Cause I'm Mr. Dylan, the king
And I'm free as a bird on the wing
Roam from town to town
Guess I get people down
But I don't care too much about that
Cause my gut and my wallet are fat
Make a whole lotta dough
But I deserve it though
I've got soul and a good heart of gold
So I'll sing about war in the cold
Cause I'm a poet, don't ya know it
And the wind, you can blow it
Cause I'm Mr. Dylan, the king
And I'm free as a bird on the wing
Well I sing about dreams
And I rhymes it with «seems» Cause it seems that my dream always means
That I can prophesy all kinds of things
Well the guy that digs me
Should try hard to see
That he buys all my discs and a hat
And when I'm in town, go see that
***
Em 1971, David Bowie também escreveu uma “Song for Bob Dylan”, em que se dirige diretamente a Dylan tratando-o pelo seu
nome de batismo, Robert Zimmerman, e deixando claro logo de início que a canção lhe é dedicada mas não é sobre ele,
Zimmerman, mas sim «sobre um rapaz estranho chamado Dylan, com uma voz que era como areia e cola» e com palavras que «agarravam as pessoas à terra», que «convenceram alguns» e «assustaram muitos mais».
David Bowie incita claramente Robert Zimmerman a reativar a sua personagem Bob Dylan, que estava meio adormecida naquela altura, para voltar a ser o líder incontestado da música moderna, como o fora na primeira parte da década
anterior. Diz Bowie em 1976, numa entrevista ao Melody Maker, que, por muito que «Song For Bob Dylan», «não
fosse uma das [canções] mais importantes do álbum, definia o que [ele] queria fazer no rock»:
Foi nesse período que eu
disse «OK, Dylan, se não queres fazer isso, faço eu». Vi essa falta de um líder.
Estranhíssimas declarações, não
acham?
Oh, hear this Robert Zimmerman
I wrote a song for you
About a strange young man called Dylan
With a voice like sand and glue
Some words had truthful vengeance
That could pin us to the floor
Brought a few more people on
And put the fear in a whole lot more
[Refrão]
Ah, here she comes
Here she comes, here she comes again
The same old painted lady
From the brow of the superbrain
She'll scratch this world to pieces
As she comes on like a friend
Couple of songs from your old scrapbook
Could send her home again
Gave your heart to every bedsit room,
At least a picture on my wall
And you sat behind a million pair of eyes
And told them how they saw
Then we lost your train of thought
Your paintings are all your own
While troubles are rising, we'd rather be scared
Together than alone
[Refrão]
Now hear this, Robert Zimmerman
Though I don't suppose we'll meet
Ask your good friend Dylan
If he'd gaze a while down the old street
Tell him we've lost his poems
So we're writing on the walls
Give us back our unity
Give us back our family
You're every nation's refugee
Don't leave us with their sanity
Os diversos tipos de autorreferência constituem um mundo que pode ser apenas divertido, surpreendente
ou muito complexo, conforme os casos e conforme se o queira ver. Coisas dentro delas próprias,
textos a falarem de si mesmos. Não tenho a mínima intenção de desenvolver o assunto, só de aqui reunir meia dúzia de
coisas sem grande importância que eu acho engraçadas.
I. Já
uma vez aqui falei
dos problemas levantados pela tradução de frases autorrerenciais, mas eis mais um exemplo. A frase
Esta frase tem vinte e oito letras
não se traduz para espanhol sem lhe dar grandes voltas, porque
Esta frase tiene veintiocho letras
tem 30 letras; mas traduz-se facilmente para francês, já que
Cette phrase a vingt-huit lettres
tem também 28 letras. Tentem traduzir para outras línguas.
***
II. Tem-me aparecido muitas vezes nos últimos tempos este problema (de que não consegui encontrar a origem, mas cuja
versão mais antiga que consigo encontrar é
esta, reformulada
aqui):
Se escolher aleatoriamente a resposta a esta pergunta, qual a probabilidade de acertar?
a) 25% b) 50% c) 0% d) 25%
***
III. Uma brincadeira famosa com um circuito fechado de autorreferência encontra-se no livro
LaTeX: A Document Preparation System
, de Leslie Lamport
(1994), onde, no índice, a referência de
infinite loop
remete para a página do índice onde ela própria se encontra, sem mais.
***
IV. Fotografias tiradas por mim de coisas dentro delas mesmo (ou quase, vá…):
A) Esta casa famosa de Faaborg (Hobys Gård, Holkegade 3) tem à janela uma imagem de si própria (na janela mais à
esquerda).
B) A título anunciado no cartaz,
Under isen
, que significa «debaixo do gelo», está parcialmente debaixo do gelo (ou talvez não seja bem gelo, mas pode facilmente
tornar-se gelo…)
P.S. Finalmente, um links apenas para uma imagem que, em princípio, não posso aqui pôr: no blogue
Illustration Art
,
David Apatoff
tem
uma excelente foto onde se mostram, lado a lado, dois excelentes exemplos de
mise en abyme
em pintura
, o da esquerda com óbvia referência ao da direita e claras intenções humorísticas: Richard Williams (Alfred E. Numan,
Triple Self Portrait, 2002) vs Norman Rockwell (Triple Self Portrait, 1960)
Apareceram-me no outro dia estes dois vídeos de uma fundação ligada a uma companhia de seguros, a «Fundação do Coração»,
HjerteFonden, que recruta «corredores do coração», pessoas que ajudam vítimas de paragem cardíaca. O primeiro vídeo
mostra como funciona o sistema: quando a central recebe uma chamada de emergência, os «corredores do coração» que se
encontram mais perto dessa pessoa correm para a ajudar, indo buscar, de passagem, um desfibrilador, se houver algum
nas proximidades. Hoje em dia, há quase sempre. Ao mesmo tempo, é enviada uma ambulância. Segundo um comentário ao
vídeo de uma pessoa que diz ser «corredora do coração», há uma pequena incorreção no vídeo: a enfermeira responde que
a ambulância está no local passados cinco minutos, e, se a ambulância estiver tão perto da pessoa, não é enviado um
«corredor do coração», porque não vale a pena. Parece-me interessante no vídeo a mensagem que, quando há paragem
cardíaca, não há ajudas incorretas — dirigido a pessoas como eu, que, por muito que tenha feito vários cursos sobre
ajuda nesta situação e tenha sido, até há pouco tempo, profissional de saúde, tenho sempre medo de fazer algum
disparate numa situação destas.
A mensagem do segundo vídeo que aqui ponho é diferente.
«Sou corredor do coração e agora não me interessa nada… em quem é que votaste… o que escreveste nas redes sociais… Não
me interessa se podíamos ou não tornar-nos amigos… quem amas… ou em que acreditas… Porque, se te parou o
coração, há uma ligação entre nós.»
É sabido que os profissionais de saúde, desde pessoal de cuidados a pessoal médico, assumem como obrigação cuidar de
qualquer pessoa e tratá-la independentemente da etnia, crenças, sexualidade, estatuto social, etc., e
independentemente do que ela faça ou tenha feito. Os médicos tradicionalmente proferem o juramento de Hipócrates. Há
várias versões deste juramento. Na versão de 2017, que é atualmente usada em Portugal, um dos pontos é, precisamente,
Não permitirei que considerações sobre idade, doença ou deficiência, crença religiosa, origem étnica, sexo,
nacionalidade, filiação política, raça, orientação sexual, estatuto social ou qualquer outro fator se interponham
entre o meu dever e o meu doente.
Os outros profissionais de saúde não fazem um juramento formal, ao que sei, mas o mesmo princípio é implícito na aceitação da sua
profissão e explícito na legislação que a rege, além de que é constantemente sublinhado ao longo da sua formação. Agora, se «qualquer outro fator» é uma formulação algo vaga no juramento de Hipócrates, os profissionais de saúde aprendem que devem tratar e cuidar o melhor que souberem e puderem todos os seus doentes, independentemente também do que possam saber da sua vida presente ou passada, de todo o mal ou bem que estes possam ter feito, independentemente de serem criminosos ou heróis, e independentemente de quaisquer traços de personalidade.
Há evidentemente, ressalvas óbvias e explícitas à universalidade do dever de médicos, enfermeiros e outros profissionais do setor. Uma é que a saúde e o bem-estar do doente não podem
ultrapassar a própria segurança do profissional de saúde ou a vida de outras pessoas. Para ajudar
alguém, tenho de me certificar primeiro de que o posso fazer sem correr graves riscos eu próprio ou pôr em risco outras pessoas.
Mas esta ressalva é sem grande importância no dia-a-dia do trabalho de cuidados de saúde, a não ser talvez em situações extremas de guerras, catástrofes naturais ou epidemias altamente contagiosas — e, em situações dessas, é muitas vezes ignorada, como se sabe. Outra ressalva é que o profissional de saúde pode negar-se a uma tarefa que não considera ser capaz de desempenhar, porque nunca lhe foi ensinado, ou porque há muito tempo que não o faz, ou seja por que outra razão for. Mas também esta ressalva, em situações de emergência, acaba por ser ignorada.
Na prática, há também outros limites para o que os profissionais de saúde toleram (ou devem tolerar) dos doentes, das
condições de trabalho, etc. Vi casos de doentes que obrigam a reuniões, às vezes reuniões regulares, do pessoal e chefia das unidades, para encontrar alguma
estratégia que permita lidar com eles. São pessoas cujo contacto cria problemas sérios ao pessoal de saúde: doentes
que insultam e ofendem constantemente, que rebaixam e provocam o pessoal, que insistem, de forma obsessiva, desesperante, que tudo tem de ser feito
exatamente como eles querem, ao arrepio de preceitos técnicos ou de higiene, que quase chegam à agressão física. Não
porque tenham alguma doença psíquica (a situação das pessoas com doenças psíquicas é completamente diferente e deixo de lado
essa questão neste texto), mas simplesmente por serem pessoas agressivas, talvez tornadas ainda mais agressivas pela doença, e, muitas vezes, por terem nessas atitudes a
única oportunidade, a última e desesperada possibilidade, de exercer poder sobre outros e, de alguma forma, tentar assim exercer controlo também
sobre a sua vida. E há de facto profissionais de saúde que se negam a atender doentes deste tipo. Não conseguem aguentar, simplesmente. É claro, em todos os casos a que assisti, há sempre outros que não
se negam. Não sei o que aconteceria, se todos se negassem, mas criar-se-ia uma situação incompatível com os princípio dos serviços de saúde. Não há propriamente, nesta situação,
grave risco para a integridade física de quem se recusa a tratar o doente, mas será que a angústia ou o stress, às vezes muito grandes, que
resultam do contacto com um doente muito agressivo e que recusa colaborar com o cuidador ou enfermeiro são motivos que justifiquem recusar o cumprimento do seu dever? Creio que sim. Não é só a salvaguarda da integridade física que se deve ter conta quando se fala
do dever do profissional de saúde: uma pessoa numa situação de profundo stress não consegue fazer adequadamente o seu
trabalho. E é por isso que, sempre que possível, se atendem os pedidos de quem se nega a atender um doente por estas
razões. Mas é uma situação com potencial para desencadear outro tipo de conflitos: haverá, provavelmente, colegas que
pensarão: «Se ela não aguenta, porque terei eu de aguentar?» É sempre difícil mostrar objetivamente que os níveis de
stress perante a mesma situação variam de pessoa para pessoa… Mas variam.
Agora, outra questão relacionada com o dever de não-discriminação: será que mesmo a/o mais empenhada/o profissional de
saúde, por mais que sinceramente o queira fazer, não presta cuidados diferentes a doentes diferentes? Não haverá
sempre vieses inconscientes?
A psicologia ensina-nos que há características pessoais, algumas inatas e independentes de
qualquer controlo, que, em geral, suscitam respostas mais positiva ou mais negativas de desconhecidos. E há estudos que mostram, por exemplo, o efeito positivo da beleza física em situações de cuidados médicos, ou o efeito negativo da obesidade (que é tanto maior quanto mais a obesidade for descrita como produto do estilo de vida, isto é, da
responsabilidade do doente). Outros estudos demonstram a influência do género do paciente. Um estudo feito com 500 enfermeiras/os, por exemplo, mostra, quando estas/es enfermeiras/os são postos perante um mesmo quadro clínico de enfarte do miocárdio, variando a idade e o género dos doentes, os homens de meia idade são considerados casos mais urgentes, são mais frequentemente enviados aos cuidados intensivos e são mais frequentemente diagnosticados positivamente que mulheres de meia idade com exatamente os mesmos sintomas. Estes estudos nem sempre são, porém, coincidentes: um estudo mostra que, no mesmo quadro clínico, as mulheres recebem menos analgésicos que os homens; mas outro mostra precisamente o contrário, que as/os enfermeiras/os tendem a administrar menos analgésicos aos homens.
É difícil aferir o valor geral de estudos isolados. Parece-me mais interessante ver os resultados de meta-análises. Só encontrei uma, de 2021, de 215 estudos publicados ao longo de 38 anos. Traduzo o resumo, sublinhando que, como os estudos atrás referidos, aliás, diz respeito a um meio cultural diferente da Dinamarca, que é o que conheço melhor, ou de Portugal:
Os estudos sobre preconceito de enfermeiras/os e/ou disparidades nos cuidados têm vindo a tornar-se cada vez mais frequentes ao longo do período de 38 anos em que foram produzidos os relatórios incluídos neste estudo. Foram analisadas várias características dos doentes, sendo as mais comuns a raça e/ou etnia, o género e a idade. Vinte e nove dos 215 estudos identificam uma potencial relação entre preconceito das/os enfermeiras/os relativamente a uma determinada característica e os cuidados pessoais e de saúde prestados a indivíduos com essa característica. Destes estudos, 27 sugerem que o preconceito tem um impacto negativo e resulta em desigualdade nos cuidados de enfermagem. Groves, Bunch & Sabin (2021), «Nurse bias and nursing care disparities related to patient characteristics»)
É interessante constatar que, de 215 estudos, só numa relativamente pequena percentagem se observa um efeito negativo do preconceito em tratamentos e cuidados. Esta conclusão confirma o que fui vendo enquanto pesquisava: os vieses existem, mas é mais fácil constatar uma diferenciação de tratamento em função de características do paciente que constatar um efeito negativo dessa diferenciação — que também existe, sem dúvida, e que poderá seguramente, em casos isolados, ser até muito grande. É também provável que a parcialidade contatada nos professionais de saúde não signifique, na grande maioria dos casos, que não haja vontade sincera de honrar a universalidade do dever de cuidados — mas antes que eles obedecem, como todas as pessoas, a preconceitos não conscientes.
Agora, os preconceitos, conscientes ou inconscientes, de que pode ser vítima um doente existem também na perspetiva inversa:
um doente não trata de igual maneira todos os profissionais de saúde. Assisti a casos de clara discriminação de
colegas meus por parte de doentes, com base apenas na origem étnica. A lei dinamarquesa, como a lei portuguesa e a lei
de muitos outros países, não permite que a/o doente escolha por quem quer ser tratado, mas já vi doentes que, às vezes
de forma indireta, utilizando desculpas, recusam ser tratados por pessoas de certos grupos étnicos. A lei também não
dá o direito a escolher o género do enfermeiro ou cuidador, mas acontece às vezes que doentes do sexo feminino peçam
explicitamente uma enfermeira ou cuidadora — e especialmente quando se trata de cuidados íntimos, o que, dentro da medida do possível e embora a lei não o sancione, se tenta normalmente satisfazer.
Não são apenas, porém, a origem étnica e o género que estão na origem de recusas de doentes de ser tratados por um
determinado profissional. Às vezes, estas recusas resultam de conflitos surgidos durante tratamentos ou cuidados. E, por muito que
a lei não consagre este direito do doente, também esta recusa é às vezes satisfeita, se possível, apenas para evitar
uma situação de stress para ambas as partes.
A conclusão é trivial: embora haja assimetria na relação de poder entre um profissional de saúde/cuidador e um
doente/cuidado, qualquer relação humana é forçosamente biunívoca. As características que o doente encontra no cuidador
também têm seguramente uma influência, consciente ou não, na maneira como interage com ele; e a relação entre os dois
é o produto de várias circunstâncias, das quais as imagens um do outro, incluindo preconceitos positivos e negativos, conscientes ou não, são partes fundamentais.
Volto ao ao segundo vídeo deste texto. Uma paragem cardíaca é talvez a situação mais simples deste ponto de vista: aquela em que só uma das partes está
envolvida na relação. Só uma pessoa, com os seus sentimentos e as suas ideias preconcebidas — que pode efetivamente deixar de
lado, e deixa mesmo, no momento em que decide ajudar quem desesperadamente dela nessa altura precisa.
***
Perdoar-me-ão a desorganização do texto, própria de quem escreve sobre um tema que considera importante, mas de que não é, de modo nenhum, grande conhecedor. Sabia que queria escrever sobre este assunto, mas não tinha, à partida, definido claramente o que queria dizer sobre ele. Fui-o descobrindo à medida que escrevia e pesquisava. Não tenho acesso às versões integrais dos estudos que refiro e que me foram sugeridos pelo ChatGPT. Assim, só refiro o que está nos resumos e, por isso, me parece seguro referir. E quero agora acrescentar três breves notas avulsas que complementam um pouco o texto acima:
1: O dever de ajudar uma pessoa em perigo de vida não é, note-se, exclusivo de profissionais de saúde. O Artigo 200.º
do Código Penal português não define positivamente o dever, mas criminaliza a omissão de auxílio:
«Quem, em caso de grave necessidade, nomeadamente provocada por desastre, acidente, calamidade pública ou situação de
perigo comum, que ponha em perigo a vida, a integridade física ou a liberdade de outra pessoa, deixar de lhe prestar o
auxílio necessário ao afastamento do perigo, seja por ação pessoal, seja promovendo o socorro, é punido com pena de
prisão até 1 ano ou com pena de multa até 120 dias.»
A pena é a dobrar se a pessoa que não ajuda tiver criado ela própria a situação de perigo (ponto 2), mas ressalvam-se
as situações em que haja perigo de vida do omitente ou «quando, por outro motivo relevante, o auxílio lhe não for
exigível». Não sei o que a jurisprudência ou a opinião dos peritos considera, nesta caso, «motivo relevante».
2: Propõem-se muitas vezes experiências mentais sobre o dever de prestar ajuda a uma pessoa que é consensualmente
considerada um grande criminoso. Hitler é uma figura frequentemente usada nestas experiências e já aqui falei uma vez de uma experiência mental deste tipo, mas referindo-a como «dilema». É, na minha opinião, um tema
fascinante, nos seus múltiplos matizes, que tem, aliás, sido tema central do debate moral: como se equilibram os
direitos individuais e o bem-estar das comunidades? Quem se pode — ou deve, até — sacrificar em nome da satisfação da
maioria ou de valores considerados universais e inalienáveis?
3: Na minha breve vida profissional no setor da saúde, toda ela na Dinamarca e sobretudo na área da ajuda domiciliária, encontrei outro motivo para os profissionais de saúde pedirem dispensa de cuidar determinados pacientes: o facto de os conhecerem na sua vida privada, com diversos graus de intimidade na relação com esses pacientes. Essa dispensa é quase sempre dada, se bem que informalmente, a não ser em casos extremos de falta de pessoal. A ideia que subjaz a esta exceção ao dever do profissional de cuidar toda a gente é que as relações com os doentes se devem manter sempre ao nível profissional, o que está excluído à partida nesta situação.
Um amigo meu, Luís M. F. Gaspar, escreveu em 1974 que «[o] mais verdadeiro dos poetas não é tanto aquele que escreve
como aquele outro que apenas medita» e que «mais importante que escrever poesia é, sem dúvida, saber percecioná-la nos
gestos quotidianos mais vulgares». Não sei ao certo onde ele queria chegar e surpreende-me sobretudo a escolha de
gestos
como poesia observável. Creio que meditação se deve compreender aqui como um estado de profunda atenção e parece-me
certo que num estado de profunda atenção aos seres à nossa volta, podem descobrir-se neles e entre eles relações
inesperadas, súbitas, singulares, que são características da poesia e desfrutar do deslumbre que esse estranhamento
nos traz; mas também se pode ir buscar o mesmo espanto «poético», digamos assim, às coisas incapazes de gestos.
A profunda atenção ao mundo parece-me uma excelente proposta, e não só para poetas e outros artistas. Para mim, porém,
a poesia não é o resultado de meditativa contemplação, mas de palavras. Poesia são palavras. É famosa a resposta de
Mallarmé a Degas,
quando este lhe confessou a sua frustração por, apesar de ter muitas ideias, não conseguir escrever um poema que o satisfizesse: «Mas, Degas, não é com
ideias que se fazem versos... É com palavras.» Podemos agora substituir ideias por qualquer outro conceito e a segunda
parte da frase de Mallarmé manter-se-á sempre válida: Não é com sensibilidade/meditação/atenção ao mundo que se
escrevem poemas — é com palavras. Agora, significa isto que toda a poesia tem de ser feita para ser poesia e não pode,
por isso, surgir
por acaso
à nossa volta?
Para haver poemas, tem de haver palavras. E as palavras só podem ser produzidas por humanos, é claro. Mas o objeto
efetivamente produzido, quer se trate de palavras ou sons não linguísticos, tem uma vida independente da intenção com que
foi produzido. Pode considerar-se que um poema são as palavras que ali estão, sem mais. É só preciso ter a tal atenção
ao mundo. Neste caso, ao mundo das palavras em que constantemente nos movemos. Dou-vos dois exemplos
simples:
A 28 de maio de 1999 tomei nota deste texto que me surgiu pela frente num restaurante.
OS PREÇOS INCLUEM....................................... HÁ LIVRO DE
........................................... BOM APETITE
IVA A 16%........................................................... RECLAMAÇÕES
Não sei se é só a mim, mas parece-me um poema — um poema um pouco acerbo, diria eu, mas isso depende, claro, de como se o interpreta... Parece-me um poema e fico na dúvida se outras possíveis disposições no espaço
destas três frases me suscitariam a mesma reação...
Outro exemplo: Há cerca de uma semana, num parque de campismo, um amigo
meu leu em voz alta um SMS de um amigo dele que lhe tinha ficado a olhar pelas cabras durante as férias. Não o leu
porque o achasse poético, mas só para transmitir à esposa a mensagem que acabava de receber.
Está tudo bem:
duas cabras, dois cabritos,
os nenúfares estão em flor.
− É um haiku! – disse eu. Acham exagero? Eu acho que não. Se é ou não um bom haiku é outra discussão, mas, se não limitarmos o haiku à métrica clássica de 5-7-5, o
mais das vezes ignorada nos haikus modernos, é mesmo um haiku. E foi isso que me deu a ideia deste texto.
***
É conhecida a ideia de que a música não tem de se limitar, não se limita, aos sons produzidos para serem música.
John Cage
di-lo de forma emblemática em 1937, em The Future of Music: Credo(todas as traduções neste texto são minhas).
Estejamos nós onde estivermos, o que ouvimos é sobretudo ruído. Quando o ignoramos, perturba-nos. Quando o escutamos,
achamo-lo fascinante.
Tudo pode ser música, porque tudo pode ser ouvido como música. Em
Listening, de 1977, diz
R. Murray Schafer:
A melhor maneira de compreender o que eu quero dizer com design acústico é encarar a paisagem sonora do mundo como uma
enorme composição musical, que vai acontecendo à nossa volta sem parar. Somos simultaneamente o seu público, os seus
executantes e os seus compositores.
Duvido que alguém tenha já observado estas portas
como pintura artística. É possível, mas improvável.
Num artigo do
Source Magazine
de 1967, «Some Sound Observations»,
Pauline Oliveros
faz uma descrição detalhada do que pode ser ouvir o mundo como música:
Sento-me em silêncio com o despertador na mão, fecho os olhos e abro os ouvidos. Nesse momento, a cortina sobe e
começa o espetáculo. Tudo ao meu redor parece ganhar vida, cada som revelando a personalidade do seu criador. Há
vários sons que se fixam nos meus ouvidos como um
basso ostinato: o zumbido contínuo das máquinas de uma fábrica lá ao longe e o som oco da água a cair numa fonte próxima. Este fundo
sonoro é interrompido pelo motivo penetrante de um pássaro. Uma súbita lufada de ar varre o palco. As páginas do meu
livro respondem com estalidos rápidos. A porta de entrada range e geme no mesmo tom que uma velha cadeira de baloiço e
depois fecha-se com um ruído surdo. Consigo ouvir as cortinas de uma janela aberta a roçar o reboco áspero das
paredes, enquanto o cordão da persiana bate sincopadamente contra o vidro da janela.
Em
Deep Listening: A Composer's Sound Practice(2005), Oliveros explica que, embora os dicionários registem aceções de
hear, «ouvir», em que é sinónimo de
listen, «escutar», considera haver uma diferença fundamental entre os dois termos:
Ouvir diz respeito ao meio físico que permite a perceção. Escutar é dar atenção ao que é percecionado tanto acústica
como psicologicamente. Ouvir é transformar um determinado intervalo de vibrações em sons percetíveis. Escutar é algo
que acontece no córtex auditivo.*
É uma banalidade considerar as rochas do Deserto de Dali, na Bolívia,
e outras formações rochosas da região como «esculturas naturais»...
A
escuta profunda
que propõe, diz-nos ela mais adiante, «é uma forma de meditação». De profunda atenção ao som do mundo.
Pode passar-se algo semelhante com as artes plásticas? Há entre a música e as artes plásticas uma diferença
fundamental que influi na questão de perceção de fragmentos do mundo como arte: a música não imita normalmente os sons
do mundo, ao passo que as artes plásticas são em grande parte miméticas — tradicionalmente é o mundo que lhes
serve de modelo. Mas, claro, mesmo a arte figurativa não é nunca pura representação, longe disso: há enquadramento, há
composição, há escolha de que cenas e cores se fixam na tela ou em pedra, de entre todas as que o mundo pode ter, de
entre todas as que se conseguem pôr em imagens, isto é
imaginar. Isso permite que se encare, acidentalmente, uma parte do mundo como artes plásticas: todos ouvimos já alguém comentar,
perante um qualquer cenário, que «parece uma pintura (ou uma escultura)», e compreendemo-lo sem saber ao certo o que
quer isso dizer. Além disso, nem sempre as artes plásticas são figurativas. E eu sei que já dei por mim a admirar pedaços de parede onde o tempo, a erosão, a deterioração natural dos materiais tinham
pintado
o que eu observava agora como quem observa uma pintura; sei que já admirei pedras esculpidas pelos elementos como se
fossem esculpidas por gente.
Ver
e
observar, a mesma distinção que há entre
ouvir
e
escutar.
Podem ver-se redes de pesca como se vê pintura abstrata? Talvez.
Mas isto é uma fotografia, que é mais que observação atenta do mundo.
Parece que às artes plásticas se podem, pelo menos em certa medida, aplicar os princípios defendidos por Cage, Murray
Schafer ou Oliveros para a música: em focando a nossa atenção, pode-se descobrir no mundo à nossa volta pinturas e esculturas que
ninguém fez... Não é precisamente isso, aliás, que constitui a arte fotográfica?: recortar do mundo um pedaço que a
atenção do artista observa como obra de arte. Só que, neste caso, não há apenas observação — há também que fixar
esse recorte do mundo num suporte material. E retocá-lo, ou trabalhá-lo como se quiser, se se quiser... A descoberta do pedaço de realidade a ser transformado em obra fotográfica é apenas o início de um processo.
***
Uma crítica que se faz a alguma música contemporânea é ser
indistinguível do acaso. Mesmo quando é resultado de
composições minuciosas com base em estruturas complexíssimas, há quem diga que não se distingue de uma série de notas tocadas ao acaso num ou vários instrumentos por pessoas que
não saibam tocar. O mesmo alguma pintura moderna (talvez escultura também, mas creio que é acusação menos
frequente): também há quem diga que não se consegue distinguir de tintas atiradas ao acaso contra uma tela por um adulto sem
qualquer formação em belas-artes, uma criança — ou um macaco. Ao contrário de muitas outras afirmações comuns sobre
estética, o postulado da indistinguibilidade do acaso ou da produção por não-artistas é verificável. Não consegui
encontrar estudos sobre indistinguibilidade do acaso para a música, mas há estudos sobre perceção de pintura que nos
dão boas indicações sobre a questão no domínio das artes plásticas.
«O meu neto de três anos também consegue fazer um desenho assim!» Como este, sim (embora não seja qualquer criança que desenha numa igreja do séc. VII: Ateni Sioni, Geórgia). Curiosamente, outra criança não muito mais velha saberá também reconhecer que este desenho não foi feito por um humano adulto.
Para verificar se as pessoas realmente confundem pinturas de profissionais com pinturas de crianças e animais,
mostrámos a estudantes de artes e de outras áreas pares de imagens, uma de um expressionista abstrato e outra de uma
criança ou de um animal, e perguntámos de qual gostavam mais e qual consideravam melhor. O primeiro conjunto de
pares foi apresentado sem legendas; o segundo conjunto tinha legendas (por exemplo, «artista», «criança») que podiam
estar corretamente aplicadas ou ao contrário. Os participantes preferiram as pinturas de profissionais e
consideraram-nas melhores do que as pinturas de não profissionais, mesmo quando as legendas estavam ao contrário. Os
estudantes de arte preferiram as obras profissionais com mais frequência do que os estudantes de outras áreas, mas
os juízos de qualidade dos dois grupos não diferiram. Os participantes de ambos os grupos revelaram maior tendência
a justificar as suas escolhas de obras de profissionais do que de obras de não profissionais em termos das intenções
dos artistas.
Hawley-Dolan e Winner foram mais longe em 2015,
num estudo conjunto com mais investigadores: em vez de perguntarem aos participantes que pintura de cada par preferiam ou consideravam melhor, perguntaram-lhes
diretamente qual delas era de um artista e qual era de um animal. E, tanto em testes com os quadros todos juntos ou
com os quadros aos pares, a taxa de identificação por parte dos participantes foi bem acima do acaso. E foram ainda
mais longe
noutro estudo semelhante no mesmo ano, com dois grupos de crianças, de entre quatro e sete anos, e de entre oito e dez: mesmo crianças
jovens também conseguiram distinguir obras de artistas de obras de outras crianças ou de animais.
«Vá lá, despache-se!» ou «Circulez, y a rien à voir !»
ANDE é a Administración Nacional De Electricidad do Paraguai.
Um falante de português a quem a palavra «ande» não suscite o nome da instituição paraguaia pode estabelecer uma relação
entre as palavras em sucessão, o local onde estão escritas e os
transeuntes que caminham sobre elas; e talvez descubra... enfim, não propriamente um poema, mas antes algo como uma instalação no espaço público...
São poucos testes, bem sei, e não provam que toda a arte abstrata é sempre e para toda a gente distinguível da
manipulação acidental de tintas por crianças ou animais, até porque a taxa de identificação do «acaso» como método
de produção se fica pelos 60-70%. Mas é um ponto de partida interessante para uma reflexão. É capaz de haver algum
exagero em afirmações comuns do tipo «isso até o meu filho de dois anos fazia!» Creio que resultados semelhantes
seriam obtidos com peças de música moderna compostas versus conjuntos de sons aleatórios.
Agora, não há propriamente textos produzidos por acaso, a não ser que, por exemplo, se organizem aleatoriamente
palavras isoladas escritas em pequenos papéis ou através de um programa de computador que produza sequências
aleatórias, coisas desse tipo. Mas isso é muito diferente dos dois exemplos que dou acima, porque com métodos dessas não se geram
frases corretas. Os meus exemplos parecem antes um
ready-made: um pedaço de algo encontrado que a vontade de alguém «eleva» à categoria de obra de arte. Neste caso, um pedaço de texto encontrado que eu ouvi como poesia. Mas sem uma parte fundamental
do
ready-made: normalmente, o
ready-made
passa a ser obra de quem o assina e lhe dá um nome. Estes textos continuam a ser o que são — e num dos casos
até se sabe quem é o autor — sem serem apropriados nem intitulados por quem neles lê ou ouve poesia, neste caso eu. Apenas são, se
alguém assim quiser,
poesia que não foi feita para o ser. Seria interessante aplicar-lhes um teste de indistinguibilidade relativamente a textos do mesmo tipo que tenham sido feitos para ser
poesia.
________
* Hear
e
listen
correspondem muito diretamente aos verbos portugueses
ouvir
e
escutar, respetivamente. A distinção que Oliveros faz entre ouvir e escutar é trivial e pertinente, mesmo não recorrendo às
neurociências: uma análise semântica elementar mostra-nos que os dois verbos se distinguem pela agentividade do
sujeito:
ouvir
acontece ao sujeito,
escutar
é algo que o sujeito faz.
Os dicionários que consultei registam o termo
panca, com várias aceções e como derivado de
palanca
ou
talvez
derivado de
palanca.
Uma das aceções que registam é a de «maluqueira, doidice; falta de juízo; mania pouco lógica ou irracional».
Parece-me que esta aceção devia ser registada separadamente, porque é uma forma convergente daquela: tendo assistido à
divulgação do termo, tenho a certeza de que é uma abreviatura de pancada, que pode ter exatamente o mesmo significado, coexistindo ambas as formas para esse significado no português europeu
atual.
Pancada
é formada de
panca
na aceção de «pau», e a aceção de «maluqueira, etc.» está, portanto, relacionada com aquela; mas não deriva
diretamente de
palanca, e sim de
pancada.
O dicionário Porto Editora em linha
define
léxico como «conjunto ilimitado e aberto de todas as palavras e elementos morfológicos com significado possíveis numa
língua».
Atente-se em «conjunto ilimitado e aberto». Ao contrário do que se pensa muitas vezes, o conjunto de palavras
disponíveis não só não é fixo como é, em parte, virtual. A palavra
fionicamente, por exemplo, significando «de uma forma típica da ilha da Fiónia» era já uma palavra portuguesa antes de eu a ter
inventado agora mesmo. E é uma palavra bem formada, isto é, segue as regras interiorizadas pelos falantes para a
cunhagem de um termo novo: a um nome de lugar terminado terminado em
-ónia
posso acrescentar o sufixo
-ico
para formar um adjetivo significando «natural de» ou «relativo a» esse lugar* e a esse adjetivo posso acrescentar o elemento -mente (não interessa agora se é sufixo ou não...) para formar um advérbio de modo. Evidentemente, esta palavra tem um
problema: poucos falantes da língua sabem que existe uma ilha na Dinamarca cujo nome português é Fiónia, pelo que não
compreenderiam
fiónico
e, por isso, também não compreenderiam
fionicamente**. Quando, no meu grupo de amigos de Rio de Mouro, se começou a usar o verbo
algueiroar, ninguém teve dúvidas sobre o seu significado, que variava, segundo o contexto, entre «ir ao Algueirão» e
«estar/parar no Algueirão». Mas quem não soubesse da existência de uma localidade chamada Algueirão não compreenderia
o termo.
Há muitas maneiras de ir atualizando o léxico de uma língua. E uso aqui
atualizar
em duas aceções ao mesmo tempo: «tornar atual, adaptar ou ajustar ao tempo presente» e «tornar real o que era
virtual». Cunhar palavras novas a partir de elementos preexistentes, como exemplifiquei acima, é apenas uma de várias
possibilidades.
A forma mais comum de renovar o léxico é, estou eu em crer, é importar palavras que se usam já noutras línguas. A
importação de palavras é muitas vezes criticada enquanto há dela consciência, por se considerar que palavras
estrangeiras não devem fazer parte do léxico de uma língua. A distinção entre palavras «nativas» e «estrangeiras» é,
porém, muito difícil e, sejam quais forem os critérios que se escolham para fazer essa distinção, há sempre muitas
palavras do léxico efetivamente usado num determinado momento em qualquer língua do mundo que são «estrangeiras», no
sentido em que houve uma altura em que foram trazidas de outra língua e começadas a usar, em vez de resultaram da
evolução de formas anteriores usadas já na língua.
Sentir-se ou não uma palavra como «estrangeirismo» tem muitas vezes a ver com o seu som, por muito que qualquer
palavra passe por um certo grau de «nacionalização» ao ser usada no discurso noutra língua. A palavra
feeling, por exemplo, usada em português, transforma-se em fílingue, com um /ĩ/ nasal seguido de um /g/ final, já que os sons
originais /ɪŋ/ não existem na nossa língua, mas continua a soar «estrangeira», porque um
-ingue
atóno em palavras esdrúxulas é incomum em português. Uma palavra como
lanche, porém, também importada do inglês e com uma sequência de sons não muito comum em português, já deixou de ser sentida
como estrangeira***. O mesmo se passa com
futebol
ou
túnel
e muitíssimas outras palavras importadas do inglês. Também ninguém pensa já em
constatar
ou
restaurante
como palavras francesas, nem em
cavalheiro
ou
camarada
como palavras espanholas, nem em
atacar
e
palhaço
como palavras italianas. E o que é mais curioso é que às vezes nos chegam através de uma determinada língua palavras
de uma terceira língua:
televisão
é meio grega meio latina, mas não foi em português que foi cunhada a palavra, foi importada do inglês ou do francês.
Placebo
é uma palavra latina, mas importámo-la muito provavelmente do inglês, onde é atestada a aceção médica que tem hoje já
em 1900.
Às vezes, em vez de se importarem palavras de outra língua, criam-se palavras novas com palavras ou elementos
«nativos», mas segundo o modelo da palavra estrangeira. É o que se chama um
decalque
(que é um termo importado do francês...). Há dezenas e dezenas deles em todas as línguas. Por exemplo,
arranha-céus
e
lua de mel
são decalques dos termos ingleses
skyscraper
e
honeymoon;
jardim de infância
ou
jardim infantil
e
mundividência
ou
cosmovisão
são decalques das palavras alemãs
Kindergarten
e
Weltanschauung; e
franco-atirador
e
pequeno-burguês
são decalques do francês, de
franc-tireur
e
petit-bourgeois.
Em linha, na primeira linha deste texto, é um decalque do inglês
online…
Pode acontecer que um decalque distorça o significado de uma expressão na língua original. Um caso óbvio é o do
francês
Tiers Monde, que, decalcado para várias línguas, entre as quais o português como
Terceiro Mundo, introduz uma ideia de hierarquia dos mundos que não está patente no original (não é
Troisième Monde!): a expressão foi cunhada por Alfred Sauvy em 1952, com base nos três estados anteriores à revolução francesa,
aristocracia, clero e povo/burguesia,
le tiers état: o Terceiro Mundo era a parte do mundo subjugada que haveria de se emancipar, como o
tiers état
francês.
E alguns decalques podem ser mais sofisticados ou menos óbvios. Por exemplo, a palavra
nostalgia,
cunhada pelo suíço Johannes Hofer em 1688, juntando os elementos gregos
nostos, «regresso a casa» e
algos, «dor, sofrimento», decalca a palavra alemã para «saudades de casa; saudades da terra»,
Heimweh, composta de
Heim, «lar, casa, lugar natal» e
Weh, «dor, sofrimento». A palavra
nostalgia
fixou-se sem mais transformações em várias línguas, incluindo o português, mas, noutros casos, dão-se decalques
múltiplos sucessivos. Por exemplo,
uafhængihed
, «independência» em dinamarquês, foi decalcada do alemão
Unabhängigkeit, usando elementos diretamente correspondentes (Un-ab-hängigkeit
>
u-af-hængihed), e a palavra alemã, por sua vez, é composta a partir dos elementos latinos de
independentia-, ou seja, prefixo de negação + preposição do verbo que corresponde a pender + nome da raiz de pender, estado do que
pende). Muitos termos científicos espalham-se assim, através de decalques sucessivos: uma palavra como
anticorpo
vem do alemão
Antikörper
e passa, como decalque, a várias outras línguas (é muito provável que o português não seja um decalque direto do alemão,
mas sim do decalque francês ou inglês da palavra alemã, mas não posso ter a certeza).
Também pode haver decalques semânticos. Os decalques semânticos não implicam cunhagem nem empréstimo de palavras em
sentido estrito, mas antes atribuir a uma palavra uma aceção nova com base numa aceção duma palavra estrangeira que
normalmente a traduz.
Rato
para designar o «dispositivo operado manualmente que permite executar funções no computador sem o recurso ao teclado» não é propriamente um termo cunhado em português, mas sim um decalque semântico do inglês
mouse.
Um decalque é, bem vistas as coisas, uma forma de importação de palavras (mesmo quando se cria uma nova aceção por
decalque semântico, está-se a importar vocabulário) e não é uma estratégia nem mais nem menos apropriada que a
importação direta. Há certos puristas que a acham até mais «perigosa» que a importação direta de palavras
estrangeiras, mas também isso não faz muito sentido. Importar ou criar palavras novas numa língua nunca a põe em
perigo, é uma dinâmica natural e todas as línguas sempre o fizeram. Pode até considerar-se uma prova de vigor. Estou a
lembrar-me de um artigo que li há muito tempo, em que o linguista Francisco Raga Gimeno afirmava que, das línguas
maias, o maia do Iucatão era a mais contaminada pelo castelhano — e a que mostrava maior vitalidade. O que põe em
perigo uma língua é, isso sim, não ser falada, ser língua materna de cada vez menos pessoas. Há muitas línguas a
desaparecer todos os dias, porque morrem os seus últimos falantes nativos. E foram efetivamente mortas por outras
línguas mais poderosas, mas não porque tenham sido inundadas de estrangeirismos — porque as línguas mais poderosas
importaram os seus potenciais falantes.
O léxico é a parte mais superficial, eu diria «a menos linguística» de uma língua, aquela que se altera com mais
facilidade e para a qual mais contribuem outras línguas. Se falarmos dos sons e da estrutura das frases, é certo que
também mudam e que também mudam constantemente, mas muito mais devagar. E mudam devido a dinâmicas internas: para
haver neles influência de outra língua (chamam os linguistas a isso
influência de superstrato
) são precisas migrações muito grandes. Que o /R/ «longo» do português moderno tenha surgido por influência francesa,
para citar uma crença bastante espalhada, é um mito apenas, uma influência desse tipo não tem nenhuma possibilidade de
ser real.
A fortuna de uma palavra é difícil de calcular quando ela é cunhada ou importada, mas conta muito, claro está, o poder
linguístico de quem a cunha ou importa. Por exemplo, muitos latinismos renascentistas importados do castelhano por
Camões acabaram por ficar na língua. Mas não é preciso ser o poeta mais famoso de uma língua: todas as figuras
públicas têm mais possibilidade de fazer vingar um termo novo, cunhado ou importado. Ou os rapazes ou as raparigas
mais influentes num grupo de amigos…
P.S.: No parágrafo sobre importação de palavras estrangeiras repito, resumindo muito, coisas que já aqui disse noutros
textos e sobretudo num texto de fevereiro de 2017 a que vou buscar alguns exemplos que uso neste texto. Quem se interesse por esta questão dos estrangeirismos, pode
chegar aos textos que escrevi sobre o tema carregando na etiqueta
Estrangeirismos
por baixo deste texto.
_________________
* Nem sempre correspondem adjetivos em
-ónico
aos topónimos em
-ónia
, mas existem em número suficiente para justificar o neologismo
fiónico: encontro, pelo menos,
amazónico,
babilónico,
caledónico,
estónico,
jónico,
letónico,
macedónico,
patagónico
e
saxónico, às vezes a par de outras formas.
** Deste tipo de advérbios de modo, só encontrei, nos dicionários que consultei (mas não foi uma consulta
extensiva, longe disse),
portuguesmente
e
americanamente
. É estranho. Parece-me claro que
francesmente,
inglesmente, etc. são palavras portuguesas –– e surpreender-me-ia que fossem apenas virtuais...
*** Note-se que são poucas as palavras em
-anche
em português, embora a sequência não soe estrangeira. Só consigo pensar em palavras originalmente importadas (avalanche
,
comanche,
revanche,
romanche
e
tranche), além de formas dos verbos
(des)enganchar,
desmanchar
(também importado do francês),
manchar
e
remanchar.
Em «À Jeun», de 1967 (que, palavra a palavra, é «em jejum», mas que, neste e noutros contextos, significa de facto
«sóbrio; sem ter bebido bebidas alcoólicas »), Jacques Brel faz uma alusão clara à canção «Mirza», de Nino Ferrer, que tinha sido
lançada dois anos antes e que tinha sido um grande sucesso.
Um tema recorrente nas canções de Jacques Brel é a infidelidade das mulheres. Não sei da vida de Brel o suficiente
para saber se, nas suas canções, o eu que se queixa da infidelidade tem algo de autobiográfico e, para dizer a
verdade, a vida de Brel não me interessa por aí além. Também não há nada de muito original nessa temática. Há muitas,
muitas canções de voz masculina a acusar mulheres de infidelidade — e também muitas canções de voz feminina a
revoltar-se contra a infidelidade dos homens — que deve, no mínimo, ser tão comum como a das mulheres. Esta introdução
é um comentário de passagem, porque «À jeun» tem precisamente essa
temática.
O motivo da canção é um enterro, o enterro da infiel esposa do eu da canção, que se embebeda no enterro. Brel tratara
já o mesmo tema da infidelidade usando um motivo próximo em « Le Moribond », em que o eu da canção é um homem à beira
da morte.
«À jeun» é obviamente uma canção satírica e Brel lança mão de artifícios que se pretendem humorísticos, como dizer que
estavam todos de negro, menos ele que estava gris, «cinzento», o que em francês significa «bêbedo»; baralhar masculino
e feminino em sogro e sogra, «beau-maman», «belle-papa»; referir a procura de um cão no meio do enterro («Z'avez pas
vu Mirza ?»); e, sobretudo, a interpretação: um cantar de bêbedo. A figura do bêbedo é, aliás, uma figura humorística
recorrente na canção, que se interpreta às vezes, como aqui, imitando no canto a fala vacilante do embriagado.
«À jeun» é também uma canção de crítica social, se se pode dizer assim, porque o ouvinte percebe, no fim da canção, que o amante da falecida
esposa é o chefe do contencioso no local de trabalho do marido da falecida Huguette.
Parfaitement à jeun Vous me voyez surpris De n'pas trouver mon lit ici Parfaitement à jeun Je le vois qui recule Je le vois qui bascule aussi
Guili guili guili Viens là mon petit lit Si tu n'viens pas-t-à moi C'est pas moi qui irai-t-à toi Mais qui n'avance pas recule Comme dit monsieur Dupneu Un mec qui articule Et qui est chef du contentieux Parfaitement à jeun Je reviens d'une belle fête J'ai enterré Huguette ce matin Parfaitement à jeun J'ai fait semblant d'pleurer Pour ne pas faire rater la fête Z'étaient tous en noir Les voisins, les amis Y avait qu'moi qui étais gris Dans cette foire Y avait beau-maman, belle-papa Z'avez pas vu Mirza ? Et puis monsieur Dupneu Qui est chef du contentieux Parfaitement à jeun En enterrant ma femme J'ai surtout enterré La maîtresse d'André Je n'l'ai su que c'matin Et par un enfant d'chœur Qui m'racontait qu'sa sœur Ah ça !! Il me reste deux solutions Ou bien frapper André Ou bien gnougnougnafier la femme d'André Sur son balcon Ou bien rester chez moi Feu cocu mais joyeux C'est c'que me conseille André André, André Dupneu Qu'est mon chef du contentieux Parfaitement à jeun Vous me voyez surpris De ne pas trouver mon lit ici
A canção «Mirza», de Nino Ferrer, é uma canção pop cuja letra, um monólogo de alguém que procura e encontra o seu cão,
é apenas um pretexto para cantar.
Z'avez pas vu Mirza?
Où est donc passé ce chien ?
Je le cherche partout
Il va me rendre fou
Oh, ça y est, je le vois
Veux-tu venir ici ?
Je ne le répéterai pas
Sale bête, va
Oh, il est reparti
C'est bien la dernière fois
Que je te cherche comme ça
Oh et ne bouge pas
Oh, satané Mirza
A palavra mais esquisita da língua portuguesa deve ser o verbo
ensimesmar-se.
É certo que nem todas as palavras se formam das maneiras mais canónicas.
Parabéns, por exemplo, formou-se de uma preposição e um nome (para bens); e o
je-m’en-foutisme
francês, que refere uma atitude de desinteresse, de se estar nas tintas para o que se passa, é formado de
je m’en fous
, «estou-me nas tintas» — dois pronomes, um advérbio e um verbo. Também são palavras um pouco esquisitas, mas
ensimesmar-se é muito mais.
Ensimesmar-se
é,
ao que parece, uma palavra importada do castelhano. Quem terá tido a ideia de a usar em português? E, sobretudo, quem terá tido a
ideia de lhe acrescentar a mais anómala conjugação da língua portuguesa, a «dupla flexão pronominal reflexa»,
que não existe no termo castelhano
e que, em português, só existe para este verbo? Em castelhano,
ensimismarse, por muito que seja tenha sido formado de maneira incomum, é apenas um verbo regular: yo me ensimismo,
tú te ensimismas,
ella se ensimisma,
nosotros nos ensimismamos,
vosotras os ensimismáis,
ellos se ensimisman, etc. O que é mesmo estranho no
ensimesmar-se
português é o pseudo-radical mudar de pessoa para pessoa: eu
emmimmesmo-me, tu
entimesmas-te, ela
ensimesma-se, nós
ennosmesmamo-nos, vós
envosmemais-vos, eles
ensimesmam-se.
Pormenor de um desenho de Cory, J. Campbell, 1911
Wikimedia Commons,
daqui
.
Pode argumentar-se: «Estranho será; mas é lógico.» Bom, a ser lógico, é só meio lógico, porque o particípio passado
estraga tudo: o particípio passado é sempre
ensimesmado, o que faz que a pretensa lógica dos tempos simples desapareça nos tempos compostos. Seguindo a lógica da tal «dupla
flexão pronominal reflexa», podia esperar-se uma frase como
Depois de me ter *emmimmesmado
durante um longo período, comecei, nesse verão, a abrir-me ao mundo à minha volta.
Mas não, não existe. Diz-se e escreve-se
Depois de me ter
ensimesmado
durante um longo período, comecei, nesse verão, a abrir-me ao mundo à minha volta.
Não há dúvida: a palavra mais esquisita da língua portuguesa é mesmo o verbo
ensimesmar-se…
Conheço aqui pouca gente e há conversas que não tenho com quem ter. Aqui fica metade dessas conversas. Não querem contribuir com a metade que falta? [Foto da Travessa do Fala-Só de Rodrigo Cortez]
Quem se interessar pelo português falado em Moçambique pode visitar um faz-de-conta-que-blogue que eu fiz, que é, de facto, um glossário de moçambicanismos.
Aqui fica um endereço de e-mail, para o caso de alguém querer comentar ou discutir alguma coisa do que eu para aqui vou escrevendo:
A disposição das imagens está calculada para um ecrã de computador. A maior parte das páginas do blogue vêem-se e lêem-se mal nos formato de tablet ou telemóvel. Aconselho, por isso, que, para ler as páginas do blogue em tablets ou telefones, escolha a opção «Ver a versão da Web».
Gralhas, há muitas. Está visto que não sirvo para revisor, e muito menos dos meus próprios textos... Um pedido, então, à malta amiga que por aqui passar: deixem-me correcções nos comentários, sim?
Já agora, peço também que me digam, se encontrarem links que tenham deixado de funcionar. Antigamente, fazia uma revisão regular dos links, mas agora a Travessa tem muitos textos e muito texto, e uma revisão dessas demora mais tempo do que aquele que normalmente tenho para dedicar ao blogue.
Ah, a propósito de links: Como todos os textos têm uma data de publicação, acho desnecessário estar a escrever em cada link a data de acesso – assumo que a data de todos eles é a data de publicação do post onde eles vêm.
E muito obrigado!
A partir de agosto de 2011, passo a escrever com a nova ortografia.
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