14/05/26

A língua dos outros

Ouvi no outro dia alguém dizer mais ou menos o seguinte: 

«Quando queremos comunicar com os animais, tentamos ensinar-lhes a nossa linguagem − sons ou gestos que eles têm de reconhecer. É estranho. Como somos mais inteligentes, seria mais lógico que fôssemos nós a aprender a linguagem deles…» 

Não sei se a nossa maior inteligência nos torna melhores em compreender linguagens de outras espécies do que elas a nossa. O que é certo é que temos poder sobre os animais a quem queremos ensinar a nossa linguagem, e é por isso que o fazemos, não por nenhuma consideração de ordem prática.

***

Uma situação muito diferente, mas em que também se põe a questão da assimetria de poder, é a da aprendizagem de línguas no contacto entre povos. Que tenha sido Sexta-Feira a aprender a língua de Robinson Crusoe, e não o contrário, é um a priori numa relação que, como tem muitas vezes sido referido, se inscreve no ideário e imaginário coloniais: não há, evidentemente, nenhuma reflexão sobre quem deveria aprender a língua do outro, nem considerações de ordem prática sobre se seria melhor Sexta-Feira aprender inglês ou Crusoe aprender a língua dele, que nem sequer é nomeada. (Nem sequer ficamos a saber qual era o verdadeiro nome de Sexta-Feira, antes de Crusoe o batizar com um dia da semana…) Cabia simplesmente a Sexta-Feira aprender a língua de Crusoe. Ah, e falá-la mal, pois claro — é também esse o fado de quem é obrigado a falar a língua que lhe é imposta. Como teria falado Crusoe a língua de Sexta-Feira?


(Imagem: Robinson Crusoe and his man Friday, litografia publicada por Currier & Ives, ca. 1874. 
Library of Congress Prints and Photographs Division Washington.)

13/05/26

De hipocrisias


Dizia António Aleixo[1]

Só quando a hipocrisia
cair do seu pedestal, 
nascerá, dia após dia, 
um sol p’ra todos igual.

Em D. Juan , Molière põe na boca de D. Juan um louvor da hipocrisia que não pode deixar de ser entendido como uma crítica devastadora[2]:

SGANARELLE: Ora essa! Não acreditais em absolutamente nada e quereis, ainda assim, fazer-vos passar por homem de bem?

D. JUAN: E porque não? […] Isso deixou de ser vergonha: a hipocrisia é um vício da moda, e todos os vícios da moda passam por virtudes. A personagem do homem de bem é a melhor de todas as personagens que se pode interpretar. […] É neste favorável refúgio que quero abrigar-me e pôr em segurança os meus bens. Não abandonarei os meus doces hábitos; mas terei o cuidado de me esconder e divertir-me-ei sem dar muito nas vistas. Se vier a ser descoberto, sem mexer um dedo, verei toda a camarilha defender os meus interesses e serei defendido por ela contra todos. Enfim, é esse o verdadeiro meio de fazer impunemente tudo o que me aprouver. Tornar-me-ei censor das ações alheias, direi mal de toda a gente e só terei boa opinião de mim próprio.

A hipocrisia, na literatura e na vida real, é alvo de contumaz e veemente reprovação. A mim, porém, sempre me pareceu estranha essa tão espalhada sanha contra a hipocrisia. Deve mesmo ser colocada numa posição cimeira na lista dos crimes contra a igualdade ou a justiça? 

Creio que, o mais das vezes, a condenação da hipocrisia é a priori: as pessoas aprendem que a hipocrisia é má e não sentem nunca necessidade de repensar a questão — o que eu compreendo perfeitamente —, pelo que a sua condenação é um adquirido com sólidas raízes no senso comum.

Quando comecei a refletir sobre a hipocrisia, porém, não encontrei, nem nas minhas reflexões, nem em diálogos com outros, razões que justificassem a habitual veemência da sua condenação. Aliás, inicialmente nem sequer encontrei razões para a condenar. Pensei: se alguém disser que se deve fazer uma coisa e fizer o contrário do que afirma dever fazer-se, ou condeno a afirmação ou condeno a ação, pelo que, obviamente, concordo sempre com uma das duas — exceto em casos raríssimos em que não tenho uma posição relativamente a nenhuma delas. Um exemplo típico de dissonância entre o que se defende publicamente e as ações praticadas é uma pessoa afirmar que não se deve ter sexo fora do casamento e, mais ou menos às escondidas, praticar o que diz que não se deve. Agora, das duas uma: ou eu defendo o mesmo que essa pessoa, e condeno, por isso, a sua infidelidade conjugal, ou considero errada a prescrição da monogamia e condeno a sua afirmação. Por outras palavras, assentei em que o que posso avaliar moralmente são ações — incluindo afirmações de caráter moral, que são um tipo de ação. Parecia-me, porém, moralmente irrelevante criticar a incoerência entre aquilo que alguém afirma dever praticar-se e a prática real, porque essa incoerência não é, em si mesma, uma ação, nem sequer propriedade ou caraterística de uma ação.

De que falamos quando falamos de hipocrisia? 

A definição de hipocrisia em que baseei esta minha reflexão inicial («contradição entre o que uma pessoa apregoa que se deve fazer, e o que essa mesma pessoa faz — Que bem prega frei Tomás…») é uma definição claramente insuficiente, se não mesmo muito enviesada, e é esse o primeiro defeito que a reflexão tem. Dei-me conta disto ao diversificar os exemplos de contradição entre o que se diz e que se faz e avaliando até que ponto essa contradição é ou não criticada como hipocrisia. E às vezes não é. E, outras vezes, chama-se hipocrisia a outra coisa.

Voltando ao exemplo já referido (e que, por típico, vou continuar a usar ao longo do texto), uma pessoa que defenda a monogamia e tenha relações sexuais extraconjugais pode ser facilmente acusada de hipocrisia tanto por quem está de acordo com o que ela afirma dever fazer-se como por quem o não defende. Se, porém, uma pessoa defender o amor livre e se mantiver fiel a uma pessoa, creio que ninguém o acusará de hipocrisia. Parece, pois, que hipocrisia não se pode definir como sendo apenas toda a incoerência entre a moral que uma pessoa defende e as ações que efetivamente pratica. Pensei então, ao analisar estes exemplos, que podia há uma assimetria na aceitação à partida do que se diz e do que se faz, e que, para que alguém seja considerado hipócrita talvez seja preciso que a moral que preconiza, e que trai, seja dominante na comunidade em que essa pessoa vive — seja o que geralmente se considera «o bem». 

Este conceito de moral dominante parecia, contudo, ser algo elástico… Se uma pessoa pregar que é necessário que cada um de nós se empenhe individualmente na redução das emissões de dióxido de carbono e passar a vida a andar de avião, há, provavelmente, maior consenso quanto à sua hipocrisia que quanto à necessidade de reduzir as emissões de dióxido de carbono. A ideia de reduzir emissões de carbono talvez seja, porém, considerada positiva por alguém que a ache demasiado radical para a assumir. Uma pessoa que a prega será vista como estando a pregar «o bem», um pouco da mesma forma que uma pessoa pregando a caridade será vista como estando pregando «o bem» mesmo por quem não a considera seu dever, mas também não a considera errada. Agora, parecia-me que uma pessoa vegetariana apanhada a comer carne nas férias, alegando, por exemplo, que é muito difícil encontrar comida vegetariana onde está, seria mais facilmente considerada hipócrita por outra pessoa vegetariana do que pelas outras pessoas. Mas tinha dúvidas. 

Não me foi fácil encontrar exemplos de propostas morais que sejam completamente opostas à moral dominante. Poderíamos supor que uma pessoa defende publicamente o velho princípio proudhoniano de que a propriedade é um roubo e se revela, na prática, cioso da sua propriedade. Haverá quem a acuse de ser hipócrita? Provavelmente, sim, mas só por quem, como ela, defende, a anulação do direito de propriedade. Ou seja, neste caso, para que uma pessoa seja considerada hipócrita, pareceu-me ser necessário que o comportamento que ela diz defender seja também defendido por quem o considera hipócrita. 

Notei que outras vezes, porém, uma pessoa pode considerar que há hipocrisia relativamente à defesa de valores que não são dominantes nem de alguma forma considerados «bem» por essa mesma pessoa: ouvi, por exemplo, uma pessoa assumidamente de direita e que não defende de modo algum que se deva ter os filhos na escola pública criticar, por hipócrita, um político de esquerda que, dizia ela, «defendia a escola pública, mas tinha os filhos numa escola privada». 

Enfim, para ter uma ideia mais justa do que significa de facto hipocrisia/hipócrita teria de analisar um número muito maior de contextos orais e escritos em que o termo fosse utilizado, o que não sei se alguma vez chegarei a fazer... Chegado este ponto da reflexão, e mesmo não tendo chegado a uma definição de hipocrisia que abarcasse todas as suas utilizações, tinha constatado que a minha definição inicial era inexata.

E se hipócrita fosse um termo vago indicando apenas fingimento, sem mais, e que pudesse, por isso, ser usado em circunstâncias muito diversas[3]? Pareceu-me provável. 

Dos dicionários que consultei, em português e em línguas próximas, o do CNRLT é o que dá uma definição de hipocrisia mais completa e mais organizada , que cobre, de facto, as definições de todos os outros e que insiste, precisamente, na noção de fingimento. A primeira aceção é (traduzo eu): «Caráter de quem esconde a sua verdadeira personalidade e finge — na maioria das vezes por interesse — ter opiniões, sentimentos ou qualidades que não possui. (…) Sobretudo, fingimento de extrema piedade ou falsa devoção», como em «a hipocrisia dos fariseus ou de Tartufo». E a segunda aceção é: “Caráter do que carece de sinceridade, daquilo que está imbuído de fingimento e/ou duplicidade [«a hipocrisia de uma atitude, de uma promessa, de um olhar, de um sorriso»], nomeadamente o «carácter (de uma instituição) que reflete a má-fé das pessoas que estão na sua origem e/ou que a aprovam; carácter que tende a encobrir a realidade», como em «a hipocrisia das leis»[4].

Aliás, parece nem ser necessário que haja incoerência entre o que se apregoa e o que se faz. Em muitos casos, basta que haja incoerência entre o que se diz sentir e o que se mostra sentir. Por exemplo, parece-me muito possível a seguinte afirmação: «Ele diz que adora crianças, mas é tudo hipocrisia: não liga nenhuma ao neto, é incapaz de passar cinco minutos com a criança ou de a levar a passear com ele.» Ou seja, a hipocrisia, neste caso, é de facto uma mentira, mas uma mentira de uma pessoa sobre os seus sentimentos ou o seu caráter — que cria dissonância entre o que se diz ser e o que se revela ser. Mas será possível considerar hipócrita alguém que diz que adora futebol e se constata que nunca vai a um jogo, não compra jornais desportivos e não vê jogos de futebol na televisão? Creio que, neste caso, «mentiroso» talvez seja um epíteto mais provável para uma pessoa assim — mesmo que ele estivesse a tentar seduzir alguém dizendo-se apreciador de futebol. 

A conclusão desta breve tentativa de tentar definir o significado de hipocrisia através do seu uso real não foi muito animadora... E ainda não sei bem o que se quer dizer com hipocrisia…

Interesse e fraqueza

Nas definições do CNRLT que citei atrás, a expressão «na maioria das vezes por interesse» chamou-me a atenção para um facto simples que eu tinha deixado de lado na minha reflexão: pode também ser-se hipócrita por fraqueza ou cobardia , por não se ser capaz de assumir publicamente uma posição desviante em relação à moral dominante ou por não ter a força de agir de acordo com o que se considera ser correto. A hipocrisia que daqui resulta difere da mais difundida noção de «hipocrisia por interesse» no controlo que o hipócrita tem das suas ações. Para não fugirmos aos exemplos anteriores, pode acontecer que uma pessoa que não tenha a coragem de assumir publicamente que defende a liberdade sexual, ou até que a monogamia é impossível ou malsã, pratique às escondidas o que não tem coragem de assumir publicamente. E pode acontecer que quem ache sinceramente que deve praticar a monogamia não o consiga fazer, deixando-se cair em tentação contra as suas convicções.

Uma pessoa que defenda que a cobardia é, por si, um defeito, achará criticável esta hipocrisia, quanto mais não seja como falha de caráter, já que, para essa pessoa, todos têm o dever de assumir a responsabilidade do seu quadro moral, mesmo quando ele é desviante em relação à moral dominante; mas quem, como eu, ache que a cobardia, como a valentia e tudo o que fica no meio, acontecem n uma pessoa , acontecem a uma pessoa , estando fora do controlo da sua vontade, não achará criticável este traço de personalidade — não mais do que ser mais ou menos inteligente, forte ou fraco, introvertido ou extrovertido, dotado para a música ou não, etc. É natural que quem se sinta incapaz de assumir o que pensa ou de levar à prática o que acha correto sofra com isso e pode, por isso, considerar-se problemática esta situação. Mas como se a pode criticar moralmente?

Várias perspetivas morais

Parece-me que, num quadro moral assente numa lista de virtudes a priori que se devem cultivar, uma ética das virtudes , surge naturalmente uma crítica da hipocrisia, em qualquer das suas aceções, porque a hipocrisia revela, neste quadro, uma falta — de honestidade, sinceridade, integridade, coragem, etc. Mas, e se se preferir julgar o valor moral de qualquer ação ou padrão de ação a partir de princípios éticos universais? Ou se se preferir antes julgar a moralidade dos atos pelas suas consequências?

À partida, pode pensar-se que a hipocrisia assenta na mentira e, se se considerar que a verdade é, precisamente, um dos valores universais que deve presidir a qualquer código moral, a hipocrisia é condenável. Mas será que a hipocrisia é sempre uma mentira? 

Se se considerar hipocrisia dizer ou mostrar ter opiniões, sentimentos ou qualidades que não se tem de facto, então hipocrisia é mentira , simplesmente. Se se considerar antes que, para haver hipocrisia, tem de haver uma contradição entre o que se diz que se deve fazer e o que se faz de facto, o hipócrita só mente sobre a sua verdadeira posição moral se ela for contra aquilo em que conscientemente acredita: «Eu acho que se deve respeitar a monogamia no casamento…» é mentira se o hipócrita de facto não achar que se deve. Mas é interessante notar que não é necessário haver mentira para que haja hipocrisia. Uma pessoa que acredite realmente que não se deve ter sexo fora do casamento e tem sexo fora do casamento por fraqueza (por paixão, por exemplo), mas nunca nega que o teve, não mente, mas pode ser acusado de hipocrisia. Uma pessoa que acredite que não há mal em ter sexo fora do casamento, mas que nunca o afirma, aparentemente assumindo, por omissão, o que vigora na sua comunidade, por medo de que isso lhe cause problemas, insegurança ou conflitos, e que tem, de acordo com a sua convicção, relações fora do casamento, também não mente. Ou então considera-se que há mentira por omissão. Muitos consideram, porém, que a mentira por omissão é desculpável quando se trata de evitar consequências negativas da assunção da verdade. Evidentemente, é diferente não exprimir opinião sobre a fidelidade conjugal ou não exprimir opinião sobre um genocídio; e também é diferente ficar calado para agradar a um grupo de amigos, para não perder o emprego, para não ir preso ou para não ser morto. Haveria que analisar a mentira por omissão caso a caso…

Pode também acusar-se os hipócritas de ter uma moral dupla , o que viola, obviamente, a universalidade e a imparcialidade dos princípios morais [5] . A ideia é que o hipócrita não aplica a si próprio os princípios morais que aplica aos outros. Sem mais desenvolvimento, pelo menos, este argumento é muito discutível: que os hipócritas não cumpram os princípios morais que defendem não implica que defendam que a si próprios se apliquem outros princípios morais… 

Numa perspetiva consequencialista , há quem ache que a hipocrisia pode gerar cinismo, falta de confiança e ceticismo relativamente a ética e moral em geral, e decadência moral, incluindo desvalorização dos ideais que o hipócrita diz promover, sobretudo se vier de pessoas com posições de autoridade ou influência — modelos de conduta, portanto. Parece-me uma crítica sensata, na fração dos casos de hipocrisia a que se aplica: se as pessoas responsáveis por difundir normas (institucionais, morais, etc.), e/ou por as fazer respeitar, não seguirem elas próprias essas normas, espalha-se a perceção de que essas normas não são verdadeiras normas, apenas pseudopreceitos que se podem descartar sem problemas.

Mas enfim, não me parece, com isto tudo, que a hipocrisia seja o maior de todos os pecados e creio que há problemas muito maiores a resolver para que o sol nasça igual para todos. E depois, e isso raramente é referido, a hipocrisia é, em certa medida, necessária ou, pelo menos, recomendável. Ou, talvez melhor, deixem-me reordenar os elementos da frase: é necessária, ou pelo menos recomendável, uma certa medida de hipocrisia.

O lado positivo da «hipocrisia»

Sempre ouvi dizer que quando não se tem nada de positivo a dizer de alguém ou alguma coisa, é melhor não dizer nada. Trata-se, dirão alguns, de um apelo ao cinismo e à hipocrisia (fica ainda também por estabelecer a diferença exata entre os dois termos, que também se confundem às vezes no seu uso…). Não há dúvida de que quem considere que é dever de cada um revelar sempre o que pensa ou sente não pode deixar de criticar esta máxima. Mas a verdade é que, em última análise, é muito difícil viver-se num mundo em que todos revelem sempre o seu íntimo. É esse o terror, de facto, da leitura de pensamentos: não poder omitir julgamentos e afetos.

Imaginemos, por exemplo, que digo a alguém que me pede uma opinião sobre a sua muito empenhada tentativa de ser artista: «Não vou ser hipócrita, não gosto nada da tua pintura.» Não é o fim do mundo, mas é uma situação que se pode evitar. E responder com uma evasiva ou simplesmente mentir não revela forçosamente falta de caráter ou apenas vontade de agradar. Pode mostrar também alguma forma de respeito, ou, pelo menos, vontade de não magoar. Mas não falo só de mentiras destas (que, como referi atrás, nem sequer estou certo de que se possam considerar verdadeira hipocrisia), mas de todo o esconder de emoções, atitudes ou opiniões de que é feita a vida quotidiana, mostrando, em vez de irritação e desacordo, afabilidade. Todos encontramos a toda a hora coisas de que não gostamos nada e até mesmo que nos irritam. Mesmo quem achar que uma pessoa deve ter a coragem de assumir em público as suas opiniões, por muitos dissabores que isso lhe traga, não achará que se deve dizer a alguém que se ofereceu para nos ajudar a fazer a salada que nos irrita a maneira como ela está a cortar os legumes e nem, mesmo sem dizer nada, mostrar irritação. Deve-se, isso sim, sorrir e agradecer. Ninguém achará bem revelar, a uma pessoa que nos mostra, entusiasmada, uma canção de que gosta muito, que achamos a canção horrível. 

A lista é sem fim. A vida quotidiana está cheia de pequenas e grandes irritações causadas pelos outros e pequenos e grandes desacordos com eles. Há pessoas sem filtros, que revelam sempre o que sentem por coisas e pessoas, e isso é frequentemente problemático. Vale mais a pequena dose de hipocrisia necessária a tornar vivível o quotidiano. 




  

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[1] António Aleixo, Este livro que vos deixo. Lisboa: Ed. Notícia, 1994

[2] Molière, Don Juan, ou le Festin de pierre, Paris: Firmin-Didot et Cie, 1890 (traduzo eu) 

[3] Este significado mais vasto e mais simples derivaria, aliás, diretamente da etimologia última: o grego ὑπόκρισις ( hupokrisis ), significava «ato de representar; papel do ator». Há que ter sempre cuidado, porém, para não cair na chamada falácia etimológica — o significado atual de uma palavra pode não ser o significado do seu étimo, mas resulta antes da maneira como é usada agora pelos falantes da língua.

[4] Embora seja de louvar o rigor da divisão do conceito em duas entradas, podemos lidar com os dois conceitos à uma: a hipocrisia de uma atitude, promessa, olhar ou sorriso é a hipocrisia de quem age, promete, olha ou sorri, da mesma forma que a rapidez de um movimento é a rapidez de quem se move, etc.

[5] Aliás, em dinamarquês, língua em que não há um cognato de hipócrita , uma expressão que pode traduzir a palavra portuguesa é dobbeltmoralsk, «de dupla moral». Outras são skinhellig, literalmente «de santidade superficial», que quer dizer (traduzo a definição do dicionário) «que prega moral ardentemente, sem cumprir o que prega», e hyklerisk, deverbal do verbo hykle , que significa (mais uma vez, tradução da definição do dicionário) «mentir relativamente aos seus sentimentos e opiniões para obter a simpatia de outrem ou outros benefícios».

Ilustração: Grandville: « Misère, hypocrisie, convoitise », 1828 ou 1829, Wikimédia Commons, daqui

Notas ilustradas sobre algumas palavras do castelhano da América do Sul

 

Abarrotes

Uma mercearia é, nalgumas zonas da América Latina, uma tienda de abarrotes. Abarrotes são os produtos que a mercearia vende, comestíveis e não só. Se estabelecem intuitivamente uma relação entre abarrotes e o verbo português abarrotar, está a vossa intuição a funcionar bem. Mas a relação não é uma pessoa ficar a abarrotar por comer muitos abarrotes — não é bem essa a história das expressões… 

Joan Coromines   explica : barrote vem de barra; e de barrote vem abarrotar, que significava originalmente fixar a estiva (a primeira carga a entrar no porão) «enchendo os espaços vazios, primeiro com barrotes e depois com qualquer objeto, em especial artigos alimentícios, que ocupavam pouco espaço, donde abarrotes como nome destes fardos e, na América, dos artigos que eles continham, importados de Espanha na época colonial». O verbo abarrotar alarga depois o seu significado de «encher os espaços do porão, fixando a carga» para «encher completamente». 

Em português, é tudo muito semelhante. Alguns dicionários de português dão para abarrotar o significado «colocar barrotes; cobrir ou segurar com barrotes» e o de «encher completamente, atafulhar», que é o mais comum. Outros, porém, referem também o significado mais antigo da linguagem náutica: «atulhar os vãos da estiva com carga miúda», «encher os porões até às escotilhas». 

Ou fomos buscar o termo abarrotar ao castelhano (que é o que me parece mais provável e o que propõe Antenor Nascente no seu dicionário etimológico) ou eles a nós, ou evoluiu da mesma maneira nas duas línguas, que é o mais improvável. O que é certo é que, se de facto importámos abarrotar, não importámos o nome abarrotes — não se encontra em português. 

Empastado e empanadas

Em castelhano, pasta podia designar um tipo de encadernação (ver aqui, aceção nº 7), e empastar significava encadernar desta maneira; mas o significado do verbo alargou-se e acabou por se tornar sinónimo de encadernar em geral. Empastados são, pois, encadernações  — no caso da fotografia à direita de fotocópias de livros de estudo.

Empanada (cartaz do rés-do-chão) significa «empada» e até aí não há nada a dizer. É uma das diferenças gerais entre português e espanhol, a falta de uma sílaba na nossa língua, resultante da queda de uma consoante entre vogais e posterior fusão das duas vogais em hiato, como em, por exemplo, panadaria > paadaria > padaria com o primeiro a aberto. Mas o que se perde, creio eu, com esta evolução portuguesa, é a imediata ligação de empada a pão. Num caso como padaria, isso importa pouco, porque uma padaria é o sítio onde se vende pão, de maneira que a ligação está presente na cabeça dos falantes. Mas, em empada , não se ouve imediatamente que é algo que é metido dentro de pão. É claro, existe panar com uma relação óbvia [?] com pão, mas é uma coisa diferente. Curiosamente, no Brasil, ao que sei, empanar designa o que nós chamamos panar, envolver em pão ralado, e não fazer empanadas … Agora, haveria que perguntar aos falantes do castelhano se «ouvem» em empanada o pão que lá está dentro. «Ouvimos» nós o pão em panar ? Não sei…

Llanta 

A história da palavra llanta é curiosa: a palavra veio do francês jante, tal e qual como a palavra portuguesa jante 😊 E, como vem de jante, podemos ser levados a pensar que deveria ser antes yanta e que llanta seria o resultado de um erro natural e muito comum, a confusão das grafias de y e ll — já que, na grande maioria das variantes do coastelhano, se pronunciam da mesma maneira. Mas não. A ter sido erro, foi há tanto tempo que já ninguém se lembra dele e llanta é mesmo a forma considerada correta. Agora, houve sítios em que llanta, de designar a jante, passou a designar o que lhe está por fora, o pneu [!] — como talvez já tivessem percebido pela fotografia, porque furar jantes seria uma ameaça muito estranha… 

Já agora, jante, em francês, vem do latim tardio *gambita. Poder-se-ia supor que fosse alguma forma diminutiva de gamba, «jarrete do cavalo», que foi a palavra que deu  jambe, «perna» (e gâmbia, em português...) e que se tivesse feito alguma analogia entre as rodas dos carros e as pernas dos animais. É com estas suposições que nascem muitas falsas etimologias e, por isso, é sempre necessário ir ver o que escreveu quem estudou mesmo o assunto. De facto, a palavra gambita parece vir antes do gaulês cambita, que significava, precisamente… «círculo de madeira formando a periferia da roda»! 

Mistela

Mistela é uma daquelas palavras que, com variações mínimas, se encontra em todas as línguas mais próximas da nossa, incluindo o inglês, mas com um significado que não parece ter em português: o de «mosto de uva a que se adiciona aguardente». Aparentemente, a diferença entre uma mistelle como o Pineau francês e vinhos fortificados como o Porto, o Xerês, o Marsala ou o Madeira, entre outros, é que, na mistela, o sumo de uva não chega a começar a fermentar. Em francês, mistelle parece ser sinónimo da designação mais oficial vin de liqueur. Parece que a origem do termo é o italiano mistella, de origem óbvia (de misto) e que é através do castelhano que se espalha para as outras línguas. (É estranho: o CNRTL diz que a primeira atestação em castelhano é de 1914 , mas Coromines diz que é de 1822 ...)

Além deste primeiro significado, os derivados de mistella parecem ter, em castelhano, catalão e português, pelo menos, o significado de «bebida resultante da mistura de água, açúcar e temperos a uma base de vinho ou aguardente».

Não é difícil entender como, dos significados anteriores, deriva o significado mais comum em português atual, de «bebida de mau sabor e/ou de má qualidade, zurrapa» e desse o significado mais geral de «mistura desagradável, mixórdia». Muitos portugueses (como eu até muito pouco tempo) só conhecem estas duas últimas aceções do termo, pelo que não deixariam provavelmente de sorrir, se vissem uma mistela comercializada com esse nome.



12/05/26

Vinte e cinco anos

 

Dizem que não devemos nunca voltar aonde fomos felizes. A Karen e eu não fomos especialmente felizes nos dois anos que passámos em Malacate, mas também não fomos especialmente infelizes. Foram sobretudo tempos intensos, disso não há dúvida. Voltámos a Malacate em 2026, para rever pessoas e sítios, para voltar a ver os desfiladeiros de rocha vermelha e as velhas casas de adobe à beira do rio. Queríamos saber o que tinha mudado. 

A rua principal continua aparentemente igual, com as mesmas lojas sem horário, barbearias, pequenas mercearias, vinho e aguardente, fotocópias e encadernações. Mas só aparentemente. Faltam as pessoas que já lá não estão.

Susana, a dona do mais famoso bar da vila — era uma das melhores cantoras da província, dizia-se sem exagero nenhum — morreu o ano passado. 

Fechou o café da D. Lucha, que servia os melhores lomitos da zona. Também morreu há uns anos, coitada, ainda relativamente jovem. 

Falta a velha camioneta Dodge de D. Edgar, chofer de mudanças e de tudo, e especialista em churrascadas. Também já não está entre nós.

A D. Abel, que tinha vindo da capital para trabalhar para Malacate num programa agrícola, decidiu por lá ficar, comprou terra e se lançou  em vários pequenos e bem-sucedidos negócios, levou-o o covid, dizem que por só ter procurado ajuda tarde demais. 

D. Clotilde, a mulher dele, morreu seis meses depois dele de uma morte estúpida: engoliu mal qualquer coisa que estava a comer e que se lhe entalou na garganta, asfixiando-a antes que ela tivesse tempo de pedir ajuda. 

D. Cristóbal tem agora 98 anos, que é uma idade a bem dizer impossível na região. Passa as tardes sentado no jardim à entrada de casa e saúda quem passa com um sorriso distante. Se alguém o cumprimenta e se apresenta explicando-lhe quem é, D. Cristóbal, se consegue localizar o interlocutor na sua memória, começa a chorar. De alegria. 

D. Rosa, a sua mulher, um pouco mais nova que ele e ainda de cabeça clara, diz que, depois da morte do filho, o ano passado, vive à espera da morte do marido, e depois da sua, porque é assim que as coisas são. 

D. Carlos, Carlitos para os amigos e para quem lhe conhece a fama de guitarreiro, está demasiado velho para os impecáveis ponteios em zambas, cuecas e tonadas. Está a morrer, dizem os seus antigos companheiros de descantes e guitarrear.

A estrada foi talvez o que mais mudou. Já não existe a velha estrada de terra batida, mortal em vários trechos, que ligava Muñecas a Belgrano. As velhas cruzes a assinalar acidentes mortais, normalmente despistes em ribanceiras de dezenas de metros, centenas às vezes, ainda lá estão à beira da estrada, mas a estrada é agora asfaltada e as seis horas que se levava até Muñecas ou Belgrano foram reduzidas a metade. 

A vila cresceu, como seria de esperar, e está mais bonita. Há várias pracetas novas, floridas e bem cuidadas, e foram arranjadas muitas das casas antigas que estavam à beira de ruir. O mercado também se alargou, no espaço e nos produtos disponíveis, e tem agora um edifício com comedores populares. E há dois terminais ferroviários, um para autocarros de longo curso e outro para os minibuses que saem a toda a hora para Muñecas e Belgrano. 

E houve também quem conseguisse melhorar a sua vida.

D. Isabel conseguiu transformar num bonito hotel a casa grande que tinha na vila. Fez as obras com o dinheiro que foi juntando a alugar quartos aos trabalhadores da estrada, aquando da sua construção há uns anos.

Félix foi a única pessoa que, nos dois anos que passámos em Malacate, nos convidou a almoçar em sua casa. E claro, convidou-nos outra vez durante a nossa visita. Rimo-nos e cantámos e recordámos episódios de há 25 anos. Está para abrir um restaurante. Diz que vai finalmente haver um sítio em Malacate onde se coma bem. 

D. Jaime e D. Luzmila continuam a dar aulas, apesar de terem já idade para a reforma. Quando conheci D. Luzmila, ainda não era professora, começou o magistério depois de ter a segunda filha há 26 anos. D. Jaime e D. Luzmila começaram também um negócio de doces e compotas, vai já para 20 anos, e passam todos os fins de semana nas cidades mais próximas, a vender os seus produtos. Dizem que foi o que os safou, porque só os salários não chegavam para muito e assim lá conseguiram aumentar a casinha e pagar a educação das filhas, que têm agora cursos superiores. Nunca ninguém da família de nenhum deles tinha tirado um curso superior. 

As pracetas da vila, tanto as novas como as que eu já conhecia, homenageiam aristocratas e militares do início do século XIX. Faltam monumentos aos atuais heróis da nação: gente como D. Jaime e D. Luzmila.

Há coisas em Malacate que parecem não querer mudar. E porque haviam de mudar em 25 anos, quando não mudaram em centenas deles? Continua a servir-se porco assado no forno ao fim de semana nalgumas fazendas centenárias à beira-rio. Os bêbedos continuam beber dias e noites sem parar e as velhas famílias de proprietários continuam a achar que el honor os impede de trabalhar e queixam-se de que os campos estão cada vez mais abandonados porque não há quem queira trabalhar pelo que eles lhes querem pagar; e trabalhar é o que mais faz quem não é, como eles, dono das melhores terras. 

Os imponentes desfiladeiros de rocha vermelha e o rio verde acastanhado continuam iguais, e as velhas mansões de adobe nos arredores da vila cada vez mais em ruínas.  

Não vale a pena procurarem no mapa a vila de Malacate. Ela existe, mas não é Malacate que se chama. A fotografia é de outro sítio.  Todos os nomes próprios do texto foram alterados e também algumas descrições das pessoas, para não se poderem reconhecer a vila e as pessoas reais de que falo. Quem me conhece saberá de que terra se trata e quem conhecer essa terra é bem capaz de descobrir a quem se referem estes nomes que aqui pus. 





A idade, mais uma vez


Toda a gente sabe: quando se vai para a idade, como se costuma dizer, é muito importante manter o exercício, a atividade, a jovialidade e sobretudo a vida social. Mas também toda a gente sabe que é inevitável a perda de capacidades. É assim a vida. Uma pessoa pode continuar a pensar de forma bastante organizada, não ter falhas significativas de memória, fazer sem problema 20 km a pé, mas, sei lá, um dia vê-se aflita para montar um interruptor num candeeiro de mesinha de cabeceira, só porque os parafusos são pequenos e o espaço de manobra é pouco, nunca tal lhe tinha acontecido... A motricidade fina já não é o que era. E quem diz a motricidade fina diz a memória processual, e a força muscular e a vista e… seja lá o que for, varia um pouco de pessoa para pessoa. O que importa é que a pessoa o reconheça.  E que, se a perda de capacidades implicar algum perigo, se torne mais prudente. 

O meu trabalho em apoio domiciliário ensinou-me que uma grande parte dos acidentes domésticos graves de pessoas idosas resultam da teimosia de continuarem a executar as tarefas diárias como sempre fizeram — quer se trate de aparar sebes ou de sacudir os edredões… Há 15 anos que a minha mulher, de casa para o trabalho e do trabalho para casa, faz a autoestrada a 130 km/h. Decidiu agora que chegou a uma idade em que não deve ultrapassar os 110 km/h. Parece-me muito bem.


Imagem: Briton Riviere: O velho jardineiro («The old gardener»), 1863, pormenor. Wikimedia commons, daqui. 


11/05/26

Sincretismo e religião popular


Recordação do Seri Lanca: o táxi que nos leva do aeroporto para a pensão tem, sobre o painel de bordo, uma imagem de Buda, e, pendurado do retrovisor central, um rosário com uma cruz. Podia lá ter estado uma estatueta de Ganexa, creio eu, talvez também um crescente islâmico... Segundo o último censo nacional, e arredondando, 70 % dos nacionais do Seri Lanca são budistas, 12.5 % são hinduístas, 10 % são muçulmanos e 7.5 % são cristãos.

Será que o aparente sincretismo do taxista não o é de facto, mas antes uma estratégia de comerciante para agradar a todos, mas que não corresponde à sua verdadeira fé? Mas, se assim fosse, não faria mais sentido juntar os símbolos das duas religiões que lá faltam? Ou pode uma pessoa ter mesmo mais que uma religião? 

Não perguntei nada ao motorista de táxi. Não me senti à vontade para o fazer. Mas sei a resposta. Logicamente, não: o que define qualquer religião são os seus dogmas e todos os dogmas de todas as religiões excluem forçosamente os dogmas de todas as outras. É claro, pode fazer-se como um amigo meu muçulmano, que diz que também que podia ser cristão ou outra coisa qualquer, porque todas as religiões pregam a mesma moral e fazer o bem é o mesmo para todas elas. Por louvável que seja a sua atitude, isto não é verdade. Quer dizer, não é, pelo menos suficiente para se seguir uma religião. Para se ser cristão, por exemplo, não basta estar de acordo com os ensinamentos morais de Jesus e predispor-se a segui-los — há que acreditar na sua divindade, como forma humana de Deus. Etc. Dito de outra maneira: se cada religião postula a falsidade de cada uma das outras, como ser sincrético? 

Ou será que este e outros sincretismos assentam antes numa versão da aposta de Pascal em que se tenta assegurar maior proteção aumentando o número de divindades reconhecidas? Se pelo menos uma delas for verdadeira… Evidentemente, muitos cristãos argumentariam que não se pode granjear o favor de Deus adorando Buda como divindade. Mas talvez o taxista nunca tenha pensado nisso e talvez ele não seja cristão dessa maneira. Uma vez contei aqui a história de D. Celso, um homem que conheci na Bolívia, quando lá vivi, que, numa situação de desespero, passou a rezar a todas divindades que conhecia, desde a Pachamama à Virgem Maria.

***

Seri Lanca: Buda, Ganexe e João Batista com a Virgem e santos.
As duas primeiras fotos são de Ella, a terceira de Negombo. 
Nem sempre se encara a religião duma forma lógica, racional. Pode-se encará-la de forma menos abstrata: uma relação com as divindades em que uma pessoa aceita submeter-se a elas, aumentar e glorificar o seu panteão, mas esperando em troca que elas a ajudem em caso de necessidade. 

Pode pensar-se que daí às religiões abstratas que hoje conhecemos melhor vai uma grande distância, mas a abstratização da religião parece não ter conseguido livrá-la da sua primitiva concretude. Um exemplo que quem me lê conhece bem é o da vertente católica do cristianismo, em que, na sua versão popular, existe um grande panteão de santas e santos a quem se adora e reza diretamente, e a quem se oferecem oferendas — alguns deles resultando de uma multiplicação de Jesus e da Virgem Maria, e às vezes incluindo até figuras que nem foram canonizadas pela igreja ... 

Não se pode considerar que alguma formas de «religião popular» são de facto paganismo disfarçado e que, em rigor, a igreja as devia combater? Não sei… Provavelmente, sempre foi necessário algum tipo de sincretismo para uma religião nova se implantar: se os deuses antigos sempre funcionaram, porquê abandoná-los agora que se aceita outra religião? Melhor dar-lhes nova roupagem. E então eles vão ficando, com essa nova roupagem, até todos esquecerem quem eram antes… Ou talvez seja também uma concessão necessária à sobrevivência de qualquer religião que se afaste da vida real: que interessa o estado de Buda ou a vida eterna quando se tem uma filha a arder em febre há três dias?



25/04/26

Casas bolivianas


Isto não é um artigo sobre arquitetura; é só um breve apontamento fotográfico de viagem, mas com um enfoque específico: as casas de habitação bolivianas. Acho que as casas bolivianas têm algumas características que as distinguem das casas dos outros países que conheço, mas é bem possível que algumas dessas características sejam comuns a outros países, nomeadamente da América Latina (além da Bolívia, na América Latina só conheço a Colômbia, o Brasil, o Paraguai e uma pequena parte do Peru). As fotos estão na definição original, de maneira que, clicando-as, podem vê-las em tamanho grande.

As casas antigas que sobrevivem na Bolívia são quase todas de adobe. Notem que não conheço tão bem as terras baixas como a cordilheira andina, mas, mesmo no pouco que vi das terras baixas, vi várias vezes adobe em casas mais velhas. 

Paredes de adobe, vendo-se, na segunda foto, que, o adobe não é feito só de barro, mas também de palha. À direita, casas antigas de adobe na cidade de Sucre.
Na última foto, na parede da empena da casa à direita, o reboque caiu e vê-se o adobe.  


As casas antigas têm muitas vezes tetos de cana, e às vezes também telhados de cana cobertos com terra e depois com telha. Muitas têm pátios interiores e alpendres com pilares de madeira ou de pedra. Muitas casas urbanas antigas têm também balcões de madeira, muitas vezes fechados e às vezes decorados.

As duas primeiras fotos deste série são de Santa Cruz e são exemplos de pilares antigos (ou à antiga) de alpendres e galerias.
Nas quatro seguintes, de Potosí, Sucre e Tarija, veem-se pátios interiores. Os três primeiros exemplos de varandas são de Potosí e os cinco últimos de Sucre.


Encontram-se também, como em qualquer lado, exemplos de várias vertentes modernistas, às vezes bonitos, mas que não me parece terem nenhuma característica especialmente boliviana. 

Três fotos de La Paz .


As casas mais modernas são normalmente de tijolo furado e têm muitas vezes falta de reboco ou outros sinais de inacabamento. A explicação mais comum é que é uma maneira de pagar menos impostos, porque estes aumentam quando uma casa está terminada. A situação é igual no Peru e, segundo um artigo do Economista , são vários os fatores que contribuem para o fenómeno. 

A primeira foto é de La Paz e as duas seguintes de Camargo, uma pequena vila da região dos Cintis.
É assim uma boa parte da paisagem urbana da Bolívia: tijolo cru e alguma coisa inacabada...


Um fenómeno interessante é da chamada arquitetura neoandina, um estilo que é característico da cidade de El Alto. El Alto era, até meados do século passado, um apêndice de La Paz, nascido sobretudo da construção de um terminal de autocarros e do aeroporto. Tendo nascido oficialmente como município próprio em 1985, a nova cidade cresceu rapidamente e tem hoje mais habitantes que La Paz. Alguns dos comerciantes locais prosperaram e começaram a construir prédios grandes e muito vistosaos, conhecidos como cholets, uma amálgama de cholo com chalet . A arquitetura neoandina diz-se inspirada pelas cores e formas da cultura aimara, e nomeadamente pelos motivos pré-incaicos de  Tiahuanaco , a que se mistura, por vezes alguma estética de ficção científica do tipo dos Transformers, Trons ou Iron Man... Aqui e aqui ficam links para dois artigos sobre cholets , ilustrados com muito boas fotografias – , sobretudo o segundo. Agora, é claro que nem todos os cholets são prédios de habitação, mas alguns são. 

Embora não se encontrem cholets como os de El Alto no resto do país, há alguns traços do seu estilo que começam a difundir-se.

As duas primeiras fotos não são minhas, são Wikimedia Commons. Desta série de fotos, só as três primeiras são de El Alto. As quatro fotos seguintes são exemplos de edifícios que, sem serem verdadeiros cholets, revelam alguma influência da estética neoandina. A primeira é La Paz, a segunda de Uyuni, a terceira de pequena vila de Coroico e a quarta de Rurrenabaque. O edifício de Coroico é interessante, porque é uma versão pobre, digamos assim, de um estilo exuberante. Notem-se os vidros espelhados e as empenas triangulares decorativas («estilo pagode», como vi algures) como características do neoandino que se começam a espalhar.


E há também edifícios modernos que, embora estilisticamente diferentes do neoandino, têm em comum com este as cores garridas e a exuberância.  

As duas primeiras fotos desta última série são de El Alto e estão, infelizmente, pouco nítidas, porque foram tiradas de dentro de um autocarro em movimento. As três seguintes são de Rurrenabaque e a sexta é de Sucre.
A última foto é de Tupiza e não tem nada a ver com as outras; é só um exemplo de alguma arquitetura 
sui generis e algo delirante que se encontra às vezes.