16/07/24

Cantigas de rima esdrúxula e encontros de consoantes


1. A valsa “Drama de Angélica (Canto Tétrico)” foi composta por Manoel Gabriel Manhães Barreto e Lubiti, e gravada originalmente pelo Grupo do Calundas em 1931. Ei-la aqui na versão de Alvarenga e Ranchinho, de 1942.

A letra autodescreve-se como «poesia ética em forma esdrúxula, / feita sem métrica com rima rápida». Na realidade, é ao contrário: métrica até tem, apenas com algumas irregularidades, rima é que não. Se tivermos em conta que o fim da canção é descrito na própria letra como um dístico, a forma da letra é esta que ponho aqui em baixo, com 48 decassílabos acentuados na quarta sílaba. No entanto, se não aparecesse a palavra «dístico» a introduzir os últimos versos, e tendo em conta que o texto se quer «em forma esdrúxula», podia considerar-se que é de facto um texto em 96 versos de quatro sílabas, todos esdrúxulos — o que as pausas na melodia confirmam —, já que as palavras acentuadas na quarta sílaba de cada verso são todas esdrúxulas, como as que surgem no fim dos decassílabos. Ou quase todas esdrúxulas: perplexo e convexo são graves e não deviam, portanto, aparecer na letra, se se quiser levar mesmo a sério a tal condicionante dos versos esdrúxulos.

Ouve meu cântico, quase sem ritmo
Que a voz de um tísico, magro esquelético
Poesia ética em forma esdrúxula
Feita sem métrica com rima rápida
Amei Angélica, mulher anêmica
De cores pálidas e gestos tímidos
Era maligna e tinha ímpetos
De fazer cócegas no meu esôfago

Em noite frígida, fomos ao Lírico
Ouvir um músico, pianista célebre
Soprava o zéfiro, ventinho úmido
Então Angélica ficou asmática
Fomos a um médico de muita clínica
Com muita prática e preço módico
Depois do inquérito, descobre o clínico
O mal atávico, mal sifilítico.

Mandou-me célere comprar noz vômica E ácido cítrico para o seu fígado
O farmacêutico, mocinho estúpido,
Errou na fórmula, fez despropósito
Não tendo escrúpulo, deu-me sem rótulo
Ácido fênico e ácido prússico
Corri mui lépido, mais de um quilômetro
Num bonde elétrico de força múltipla

O dia cálido deixou-me tépido
Achei Angélica, já toda trêmula
A terapêutica dose alopática
Lhe dei em xícara de ferro ágate
Tomou num fôlego triste e bucólica
Esta estrambólica droga fatídica
Caiu no esôfago, deixou-a lívida
Dando-lhe cólica e morte trágica

O pai de Angélica, chefe do tráfego,
Homem carnívoro, ficou perplexo
Por ser estrábico, usava óculos
Um vidro côncavo, e o outro convexo
Morreu Angélica de um modo lúgubre
Moléstia crônica levou-a ao túmulo
Foi feita a autópsia todos os médicos
Foram unânimes no diagnóstico

Fiz-lhe um sarcófago assaz artístico
Todo de mármore da cor do ébano
E sobre o túmulo uma estatística
Coisa metódica como Os Lusíadas
E numa lápide paralelepípedo
Pus esse dístico terno e simbólico
«Cá jaz Angélica, moça hiperbólica
Beleza helênica, morreu de cólica»

Enfim, uma brincadeira com versos esdrúxulos, que são muito raros em letras de canções. Alguém comenta no YouTube que, além desta, a única canção que conhece com versos esdrúxulos é “Construção”, de Chico Buarque, uma obra-prima, digo eu, da canção em língua portuguesa — e da canção em geral. (Não vou aqui transcrever a letra da canção, que é muito conhecida e tem pouco a ver, no tom e no conteúdo, com as outras cantigas satíricas que aqui trato, mas podem lê-la aqui. As três últimas estrofes sem versos esdrúxulos são de outrs composição, “Deus lhe pague”, que se segue a “Construção” sem intervalo.)

De facto, se falarmos de canções em português com todos os versos terminados em palavras esdrúxulas, também não me lembro de mais nenhuma. Mas conheço outra, do início dos anos setenta, em que as palavras finais dos versos são quase todas esdrúxulas: “Homem Tétrico Morreu em Pé Num Carro Eléctrico”, do cantautor português Daniel. Não deixa de ser curioso que esta canção de Daniel tenha também no título a palavra tétrico. Será que Daniel conhecia a valsa de Manhães Barreto e foi inspirado por ela na criação da sua canção, que também tem um espírito satírico e também termina em morte? Há uma diferença fundamental, porém, entre a rima das duas canções: Daniel diverte-se a criar palavras, esdruxulizando palavras não esdrúxulas: na canção aparecem amarélico, sentádico, funerárico e qualquérico, que, embora não existam, toda a gente percebe, e um estranho fétrico, que eu não conheço e que não consigo encontrar nos dicionários. 

Entrou num carro elétrico um homem tétrico
E estava muito cheio o carro elétrico
Ficou de pé, cansado e com ar patético
Enquanto o carro avança e solavanca, frenético
Agarrado ao banco de metal amarélico
Suportando empurrões do jeito mais histérico
Dizendo palavrões ia o homem tétrico
Que não gramava nada andar de carro elétrico
Avança e solavanca, segue o carro elétrico

A tarde era amarela como o homem tétrico
O carro era amarelo como o homem tétrico
Deu-lhe uma pisadela um psicadélico (lá está o pessicadélico)
E ele fica muito muito amarélico
Deu um grito no carro deixando patético
O povo que ia agarrado ao carro fético
E cai no chão de pau nunca mais sendo cético
Avança e solavanca, para o carro elétrico E a tarde continua muito amarélica

O polícia cala o apito metálico
E sai p’la porta fora o corpo do homem tétrico
Que morreu em pé num carro elétrico
Não havia lugar para ir sentádico
Naquele carro doido que ia armado em sádico
E chega o carro negro do funerárico

E, mesmo assim, a tarde continua muito amarélica
O polícia toca o apito metálico
E numa casa pobre há um grito histérico
E na necrologia, num jornal qualquérico,
Anuncia-se a morte de um qualquer Américo
Que morreu em pé num carro elétrico
Não havia lugar para ir sentádico
Naquele carro doido que ia armado em sádico
Que não andava a gás, porque era elétrico

Companhia nem enlutou o homem tétrico
Que gramou meio século mulher de choro histérico
E só teve dinheiro para andar de elétrico
Que de tanto andar ficou cadavérico
Pois negaram-lhe sempre um salário módico
Por isso só andou no carro fétrico

Mas graças a Deus, ele já não é tétrico
Nem mais terá de ouvir o lamento histérico
Da sua Alzira com hálito elétrico

Mas não há três sem quatro, e há outra canção que é preciso aqui referir. Daniel também pode ter conhecido uma mazurca de Violeta Parra, a “Mazúrquica Modérnica”,  em que todas as rimas — esdrúxulas! — são, como o título já indicia, palavras criadas pelo mesmo processo com que Daniel cria amarélico, sentádico e qualquérico: acrescentar um pseudo-sufixo ico a palavras graves e agudas, esdruxulizando-as. A canção tem também um claro tom satírico, mas o conteúdo é fortemente político. Bom, talvez se possa também falar de um tom político na canção de Daniel, mas num sentido de uma crítica social mais difusa que a da canção de  Violeta Parra, em que ela diz claramente que não são as canções de intervenção social que agitam as massas populares, mas sim as condições de miséria, a repressão e as políticas governamentais***.

Me han preguntádico varias persónicas
Si peligrósicas para las másicas
Son las canciónicas agitadóricas
Ay, qué pregúntica más infantílica
Sólo un piñúflico la formulárica
Pa' mis adéntricos yo comentárica

Le he contestádico yo al preguntónico
Cuando la guática pide comídica
Pone al cristiánico firme y guerrérico
Por sus poróticos y sus cebóllicas
No hay regimiéntico que los deténguica
Si tienen hámbrica los populáricos

Preguntadónicos, partidirísticos
Disimuládicos y muy malúlicos
Son peligrósicos más que los vérsicos
Más que las huélguicas y los desfílicos
Bajito cuérdica firman papélicos
Lavan sus mánicos como piláticos

Caballeríticos almidonádicos
Almibarádicos mini ni ni ni ni
Le echan carbónico al inocéntico
Y arrellenádicos en los sillónicos
Cuentan los muérticos de los encuéntricos
Como frivólicos y bataclánicos

Varias matáncicas tiene la histórica
En sus pagínicas bien imprentádicas
Para montárlicas no hicieron fáltica
Las refalósicas revoluciónicas
El juraméntico jamás cumplídico
Es el causántico del desconténtico
Ni los obréricos, ni los paquíticos
Tienen la cúlpica, señor fiscálico

Lo que yo cántico es una respuéstica
A una pregúntica de unos graciósicos
Y más no cántico porque no quiérico
Tengo flojérica en los zapáticos
En los cabéllicos, en el vestídico
En los riñónicos y en el corpíñico


2. De cantigas com rimas esdrúxulas e letratura comparada, que é como eu chamo ao estudo de influências e semelhanças em canções de mundos diferentes, ficamos por aqui. Mas não é só para vos apresentar estas cantigas que este texto serve. É também para falar de encontros consonânticos que o não chegam a ser — ou que deixaram de o ser, talvez...

Provavelmente repararam que, no “Drama de Angélica”, há na letra duas palavras que, em princípio, não são esdrúxulas em português europeu, mas que o são de facto no português brasileiro atual, ritmo e maligna. Sabemos que a estrutura fonética do português do Brasil não admite certos encontros consonânticos e que, por isso, surge aqui uma vogal entre a consoante em fim de sílaba e a consoante inicial da sílaba seguinte, produzindo uma nova sílaba. Assim, rit-mo transforma-se em rí-ti-mo e ma-lig-na transforma-se em ma-lí-gui-na. Verifiquei que o mesmo se passa por vezes no português moçambicano (por causa do substrato banto?), mas não tenho uma ideia clara nem da extensão do fenómeno, nem se ele se começa a verificar no falar dos jovens que têm o português como língua materna, e nem se se verifica nas outras variantes africanas do português.

Muitos acharão que se trata de uma diferença efetivamente estrutural (fonológica) entre o português europeu e pelo menos o português do Brasil, porque, em português europeu, não temos grandes problemas com encontros consonânticos: pronunciamos ritmo e maligna, sem mais sons entre o /t/ e o /m/ de ritmo ou entre o /g/ e o /n/ de maligno. Aliás, produzimos constantemente, até, sequências de muitas consoantes, mesmo em palavras que, etimologicamente — e na escrita — não têm encontros consonânticos, porque os EE átonos podem pronunciar-se [ɨ]* (se falamos muito pausadamente, por exemplo, ou num registo formal) ou podem não se pronunciar, que é o que acontece a maior parte das vezes: por exemplo, a palavra telefone pode dizer-se [tɨlɨfɔnɨ], com as suas supostas quatro sílabas, ou [tlfɔn], numa única sílaba.

Tenho muitas vezes observado, porém, no português europeu — e é aqui que queria chegar — a ocorrência de um som não assinalado na grafia exatamente nos mesmos contextos em que ocorre o /i/ dito epentético de rítimo ou malíguina. Só que o som é um [ɨ], o som dos EE átonos. Tomemos por exemplo, a palavra pneu, que não tem historicamente nenhum som entre o P e N. Se, no Brasil, se ouve sempre pineu, em Portugal também se ouve às vezes peneu. O mesmo em, por exemplo segmento, subsolo, admitir e até palavras como claro ou credo, que se podem ouvir pronunciadas sèguemento, subessolo, ademitir, quelaro ou queredo. Não sei se alguma vez ouvi o maligno da canção pronunciado malígueno em Portugal, mas não me surpreenderia. E tenho a certeza de que ritmo se diz muitas vezes rítemo**. Palavras terminadas em R também se pronunciam muitas vezes com um [ɨ] final: falare, mulhere

Não sei se é um fenómeno novo, nem no Brasil nem em Portugal. No caso do português brasileiro, parece haver, como disse atrás, uma impossibilidade de certos encontros consonânticos, que é, aliás, semelhante à que se verifica noutras línguas ibéricas. Esta característica pode existir desde estados muitos anteriores da língua e os encontros consonânticos de que a escrita aparentemente dá conta podem nunca o ter sido de facto, que é como quem diz que ritmo e maligno podem ter-se pronunciado sempre com alguma vogal entre as consoantes em contacto, como se pronunciam atualmente no português do Brasil. Mas também pode ser que esses encontros consonânticos tenham sido possíveis em fases anteriores da língua e só mais recentemente se tenham tornado impossíveis no português brasileiro. Nunca vi nada escrito sobre o assunto, não sei. Não sei...

Agora, o apagamento, na pronúncia, dos EE átonos veio produzir um grande número de encontros de consoantes, às vezes cinco de seguida (!), que tornam o português europeu difícil de pronunciar e de compreender, mesmo para falantes de línguas próximas ou até de outras variantes do português. Mas cria também uma incerteza no sistema, que é como quem diz, na cabeça dos falantes da língua: quando é que há um [ɨ] não pronunciado ou quando é que não há som nenhum? Isto faz, por exemplo, não só que se hesite na grafia de palavras como Amsterdão/Amesterdão (ambas formas correntes), mas também que se escreva (aqui erro ortográfico, claro!) eslado em vez de gelado, como eu já vi escrito: de facto, ouvindo-se apenas [ʒladu] e sendo jlado estranho à grafia portuguesa, tanto um hipotético eslado como gelado se leem da mesma forma se o E for mudo — a primeira parte da palavra, até ao /a/, não se distingue da mesma sequência em eslavo.

Uma estratégia simples do cérebro dos falantes (da língua, seja), para regularizar a estrutura dos encontros consonânticos pode ser «postular» um E átono não pronunciado entre todos eles — ou pelo menos entre vários deles. É possível que se transformem estruturalmente (ou se tenham transformado ou se estejam a transformar…) encontros consonânticos em duas sílabas — dí-gue-no, a-pe-ti-dão — que podem ou não, em Portugal, ser pronunciadas como uma só. Não tenho, infelizmente, nem tempo nem meios para testar seriamente a hipótese, mas a ideia aqui fica.


_______________

* Este som é muitas vezes transcrito [ə], embora não seja realmente um schwa, pelo que prefiro transcrevê-lo aqui de forma mais rigorosa

** E até rítimo, que ouvi em sotaques populares lisboetas, que conservam alguns [i] em vez de [ɨ]; mas isto é, estou em crer, muito excecional.

*** A versão reconstruída da letra, sem os satíricos esdrúxulos: 

«Me han preguntado varias personas si peligrosas para las masas son las canciones agitadoras. Ay, qué pregunta más infantil, sólo un piñufla la formularía, para mis adentros yo comentaría. 

Le he contestado yo al preguntón: Cuando la guata pide comida, pone al cristiano firme y guerrero por sus porotos y sus cebollas. No hay regimiento que los detenga, si tienen hambre los populares.

Preguntadones partidaristas, disimulados y muy malulos, son peligrosos más que los versos, más que las huelgas y los desfiles. Bajito cuerda firman papeles, lavan sus manos como Pilatos.

Caballeritos almidonados, almibarados, mi-ni-ni-ni-ni-ni, le echan carbón al inocente y arrellenados en los sillones cuentan los muertos de los encuentros como frívolos y bataclanes.

Varias matanzas tiene la historia, en sus páginas bien imprentadas. Para montarlas no hicieron falta las refalosas revoluciones. El juramento jamás cumplido es el causante del descontento. Ni los obreros, ni los paquitos tienen la culpa, señor fiscal.

Lo que yo canto es una respuesta a una pregunta de unos graciosos. Y más no canto porque no quiero: tengo flojera en los zapatos, en los cabellos, en el vestido, en los riñones y en el corpiño-»

E uma tradução possível, para quem não perceba bem o espanhol de Violeta:

«Várias pessoas me perguntaram se canções agitadoras são perigosas para as massas. Ah, que pergunta infantil, só um miserável a faria, comentaria eu de mim para mim.

Respondi eu ao perguntador: Quando a barriga pede comida, torna-se uma pessoa firme e guerreira por feijão e cebola. Não há regimento que detenha os populares, quando têm fome.

Perguntadores partidários, dissimulados e maldosos, são mais perigosos que versos, e que greves e desfiles. Assinam papéis pela calada, lavam as mãos como Pilatos.

Senhorzinhos engomados e xaroposos, mi-ni-ni-ni-ni-ni, atiçam os inocentes e, esparramados nas poltronas, contam as mortes dos recontros como sendo frívolas e teatrais.

A história tem vários massacres, nas suas páginas impressas. Para os perpetrar não foram precisas tímidas revoluções. O juramento nunca cumprido é a causa do descontentamento. Nem os trabalhadores nem os polícias têm culpa, senhor juiz.

O que canto é uma resposta a uma pergunta de uns engraçadinhos. E não canto mais porque não quero: sinto-me fraca nos sapatos, no cabelo, no vestido, nos rins e no corpete.»

27/06/24

No início era o movimento… e o espaço

 

Os sistemas nervosos não surgiram para que, um dia, uma das espécies que os possui concebesse o modelo padrão da física de partículas. É claro, não há nenhum consenso sobre a razão do surgimento dos sistemas nervosos ou do seu desenvolvimento, mas uma das hipóteses mais aceites é que surgiram para controlar movimento, com o que isso implica, claro está, de orientação espacial. Seja como for, e independentemente da razão por que tenham surgido, controlo de movimento e orientação espacial são, sem dúvida, duas das suas funções principais — mesmo em sistemas nervosos tão complexos como o nosso…

Agora, o surgimento e evolução dos sistemas nervosos não é área da minha especialidade e não é bem este tema que quero aqui discutir. A minha intenção é bem mais simples. É sublinhar que a criação de significado na língua — um produto complexíssimo do mais complexo nervoso que conhecemos — parece dar conta do papel primordial do movimento e do que mais diretamente com ele se relaciona, o espaço e a orientação espacial, na nossa atividade conceptual.

«O que é que anda a ler?»
Gravura de JT Smith, 1815. Creative Commons Attribution, daqui
Já alguma vez repararam na quantidade de palavras para designar conceitos abstratos que são de facto metáforas espaciais? Dizemos que a temperatura subiu muito, que o império romano caiu, que alguém anda um pouco em baixo, fazemos planos para as férias, falamos de pessoas retas… Muitas vezes, como nestes dois últimos exemplos, provavelmente nem nos apercebemos de que estamos a usar metáforas espaciais, porque a metáfora foi criada há muito tempo e aprendemos a aceitar o sentido «literal» e o sentido «figurado» como palavras essencialmente diferentes. Avançar, recuar, prosseguir, regredirevoluir, por exemplo, são também termos originalmente espaciais que produziram significados não espaciais, mas talvez não nos apercebamos disso. Há casos, até, em que a ideia de metáfora espacial não nos vem sequer à cabeça, como, por exemplo, supérfluo, que significa originalmente, em latim, «o que transborda, o que vem por fora», significado que nunca chegou até nós. Uma palavra como antes, que hoje tem tantos significados (de tempo, espaço, preferência) tem, no seu étimo indo-europeu, um significado espacial. O mesmo, muito provavelmente, palavras como com ou porém.  É claro, quando digo metáfora espacial, estou a pressupor que o significado primeiro é o espacial, que é dos conceitos espaciais que derivam os outros conceitos — ou, pelo menos a sua expressão. Mas será mesmo assim? Bom, as consultas etimológicas que tenho feito levam-me a crer que sim, que o significado original dos termos referidos é de facto espacial. 

Estas metáforas são especialmente fáceis de observar no domínio do tempo. Não é disparatado pensar que, antes de se «conceberem» a viajar pelo tempo, os sistemas nervosos se conceberam como viajando no espaço. E na língua — e talvez na organização conceptual da mente, se aceitarmos que, possivelmente, a linguagem a reflete — são também metáforas espaciais que se usam para a expressão (para a organização mental?) do tempo. Dizemos: «Vou fazer o jantar», «Ando a ler um livro muito interessante», «Ela tem um percurso de vida fora do vulgar», «Ele entrou nessa altura», «O jogo começa daqui a duas horas», «O tempo passa depressa» e «Passei a manhã a dormir», «Como vai a vida?», «O exame correu-me bem, «A festa prolonga-se pela noite fora (ou dentro)», etc., etc. Aliás, nem estou a ver muitos termos para a passagem do tempo que não tenham simultaneamente um significado espacial… Mesmo decorrer e transcorrer são originalmente verbos de movimento espacial, por muito que tenham perdido esse significado em português atual. Porque será? Bom, muitos conceitos abstratos são referidos com metáforas de coisas materiais: base, cerne, marco, coração, raízes…, a lista é muito extensa… Talvez se possa considerar que tempo, é, para a mente humana, mais abstrato que o espaço, porque não se vê e porque — voltamos ao princípio — a nossa mente não se desenvolveu para o navegarmos como navegamos o espaço: estamos nele, mas não podemos decidir se avançamos ou recuamos e se mais ou menos depressa*. Talvez seja por isso. 

P. S. Há também estudos que apontam para que metáforas espaciais não expressas linguisticamente funcionem também na nossa mente para conceptualizarmos não só o tempo (as linhas temporais são representadas orientadas da esquerda para a direita), mas também a quantidade, a semelhança, a frequência fundamental de um som e o valor afetivo. Alto é bom, por exemplo, e direita também é bom — para os destros…** É, em suma, um domínio fascinante de reflexão e investigação.

________________

* Dedre Gentner resume aqui esta questão, referindo também outros estudos sobre o assunto. O artigo faz também um bom resumo da questão das metáforas espaciais na conceção do tempo.

** Ver resumo da questão e referência bibliográficas por exemplo neste artigo de B. Pitt e D. Casasanto (2021) 


13/06/24

Formar a juventude: Montaigne, os enciclopedistas e a Karen

 

Um jovem marinheiro volta a casa da família, de onde fugira. Gravura de Lumb Stocks,
 baseada numa obra de Joseph Clark. Séc. XIX, data desconhecida. Wikimedia Commons, daqui.
Os franceses dizem que «as viagens formam a juventude». É um provérbio, que é como se chama a um aforismo de autor desconhecido. Bom, neste caso, muitas vezes atribui-se a frase a Montaigne, mas parece que é uma atribuição exagerada — Montaigne nunca escreveu essa frase, embora tenha de facto enaltecido o valor da «visita a países estrangeiros» desde a primeira infância, começando pelos países onde as línguas são mais distantes, e que, se não forem aprendidas cedo, não se conseguem aprender. E isto para «de lá trazer sobretudo os humores dessas nações e os seus costumes, e para confrontar e polir o nosso cérebro com o cérebro dos outros».*

Uma formulação mais próxima da do provérbio atual é a do Dicionário Universal de Furetière em 1690: «As viagens são necessárias à juventude para aprender a viver no mundo».

Em 1751, lê-se na Enciclopédia de D’Alembert e Diderot:

«Hoje em dia, as viagens nos estados civilizados da Europa (pois que não se trata aqui das viagens de longo curso) constituem, no entender das pessoas esclarecidas, uma das partes mais importantes da educação da juventude e uma parte da experiência dos idosos.

Não havendo outras diferenças, toda a nação que desfrute de um bom governo e em que a nobreza e as pessoas com mais posses viajem tem grandes vantagens sobre outra em que não exista este ramo da educação.

As viagens desenvolvem o espírito, elevam-no, enriquecem-no com conhecimentos e curam-nos dos preconceitos nacionais. É um tipo de estudo para o qual não contribuem os livros nem os relatos alheios: é preciso uma pessoa avaliar por si própria os homens, os lugares e os objetos.»

Em 1835, o provérbio aparece já registado, na forma atual, no Dicionário da Academia.

Parece-me certo que as viagens na juventude são bons instrumentos de formação de uma pessoa. É bom aprender o mais cedo possível que há outros hábitos, outras comidas, outras línguas, outras organizações sociais, outras maneiras de viver, enfim; por tudo o que atrás foi apontado por Montaigne ou pelos enciclopedistas, mas também, acrescentaria eu, porque esse conhecimento nos ajuda a determinar a especificidade do nosso lugar e das suas maneiras de ser. Como se pode definir a identidade senão por contraste com a alteridade? Um exemplo culinário, que funciona bem como metáfora: como se pode saber se o pimentão é ou não um tempero muito específico da cozinha portuguesa, sem se conhecer a cozinha espanhola, húngara, croata, sérvia e por aí fora?
***

Outras atividades para formar a juventude? A Karen, a minha mulher, costuma propor antes, como elemento fundamental de uma boa formação dos jovens, — vejam lá! — o apoio domiciliário. Ainda ontem o repetiu: toda a gente deveria, em jovem, trabalhar em apoio domiciliário a idosos. Ela fê-lo quando tinha os seus 20 anos, e diz que foi uma das mais enriquecedoras experiências da sua juventude: falar com pessoas que tinham já vivido uma vida quase toda, ouvir pela boca delas as suas histórias e histórias de outros tempos, e descobrir como viviam pessoas muito diferentes daquelas com quem normalmente se relacionava. Também me parece certo. Também é um bom instrumento de formação de uma pessoa — e o trabalho no apoio domiciliário mais que num lar, porque (pelo menos aqui, não conheço a situação noutros países) vamos encontrar no seu próprio meio pessoas com as quais é mais fácil estabelecer relações que as pessoas que vivem em lares, normalmente em piores condições físicas e mentais. Acho também que, além das razões que a minha mulher aponta, há outras que me parecem muito importantes. Trata-se também de contactar diretamente o mais cedo possível com coisas que estão cada vez mais escondidas do quotidiano dos mais jovens: velhice e doença, sofrimento, a morte ou a sua iminência. Para se perceber o mais cedo possível de que é (também) feita a vida.


[Um breve aparte | É curioso, somos agora três na família, a trabalhar em apoio domiciliário: eu, que, há pouco mais de dois anos e já com 63 anos feitos, conclui um curso de 38 meses e me tornei profissional de saúde (quem imaginaria uma coisa assim?); e o meu filho e uma das minha filhas, que não têm formação na área, mas a quem o trabalho não deixará de formar, se me permitem o trocadilho — ele vai assim ganhando a vida enquanto espera pelos 25 anos para começar um curso profissionalizante noutra área com salário de adulto; e ela está a juntar dinheiro para viajar, nos dois anos sabáticos que decidiu tirar antes de começar a universidade.]

_______________

* As traduções das citações são minhas. Todas as informações sobre a história da frase vêm deste dicionário de provérbios.



E com que regra se formam as formas irregulares?

 

Ao descrever um programa de produção de texto que criou, Douglas Hofstadter (Gödel, Escher, Bach: an Eternal Golden Braid, pág. 631 deste pdf) explica como resolveu a questão das formas irregulares da flexão (traduzo eu):

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«Muito teve de ser feito ao nível das palavras, como seja conjugar os verbos e fazer o plural dos nomes; os nomes e verbos irregulares também eram primeiro formados regularmente e em seguida, se as formas geradas fossem iguais a alguma entrada de umas tabelas, eram feitas substituições pelas formas (irregulares) certas.»

Compare-se, por curiosidade, este processo de inteligência artificial com o que Steven Pinker propõe, em Words and rules (1999), como mecanismo linguístico subjacente à produção de formas irregulares pelos seres humanos. Pinker dá, na passagem que aqui traduzo com algumas explicações minhas entre parênteses retos, um exemplo das formas irregulares do passado em inglês, mas o mecanismo aplica-se, segundo os defensores desta hipótese, as todas as formas irregulares:

«Se a memória nos fornecer uma forma [irregular] do passado de uma palavra, é bloqueada a produção da forma regular; é por isso que os adultos, que conhecem broke [passado irregular de break], nunca dizem *breaked [a inexistente forma regular, às vezes produzida por crianças que ainda não memorizaram a forma irregular]. Quando isto não acontece (por defeito), aplica-se a regra; é por isso que as crianças conseguem produzir ricked [passado regular de rick, «torcer, dar um jeito a (parte do corpo)»], e os adultos conseguem produzir moshed [passado regular de mosh, «dançar aos pulos, num concerto»], mesmo que nunca tenham tido possibilidade de memorizar nenhuma destas formas.»

É curioso, porque o método que Hofstadter usou para o seu programa de produção de texto não só é o oposto do que Pinker propõe que se passa no cérebro humano, mas difere também das outras teorias que conheço sobre a geração de formas irregulares. Já aqui falei disto uma vez e referi que, além da teoria que Pinker defende, há ainda uma teoria que diz que, como todas as outras formas flexionais, as formas flexionais irregulares são produzidas pela nossa mente a partir de regras computacionais – as formas irregulares a partir de regras menores – e outra segundo a qual todas as formas são memorizadas a partir de um sistema complexo de relações entre traços das diversas formas. Não sei se haverá também quem defenda (mas é bem possível...) que se passa no nosso cérebro algo semelhante ao que se passa no programa de Hofstadter.



[Imagem: Desenho decorativo. autor desconhecido, séc. XIX. Wikimedia Commons, daqui]

Canções que referem outras canções #7: “Freddie's Alive And Well”, de The Spirit Of Atlanta, e “Freddie's Dead”, de Curtis Mayfield

Costumo, nesta série, pôr primeiro a canção que refere a outra e só depois a canção referida, mas hoje faço ao contrário.

Em 1972, Curtis Mayfield diz que Freddie morreu. Fat Freddie era uma personagem do filme Super Fly. “Freddie's Dead” faz parte da banda sonora desse filme, mas numa versão instrumental e só no álbum que se seguiu ao filme é que o tema é cantado. O triste obituário de Freddie é também um apelo a não se deixar agarrar às drogas.

Let the man rap a plan

Said he'd see him home

But his hope was a rope

And he should've known

It's hard to understand

There was love in this man

I'm sure all would agree

That his misery was his woman and things

Now Freddie's dead

That's what I said

Everybody's misused him

Ripped him up and abused him

Another junkie plan

Pushin' dope for the man

A terrible blow But that's how it goes

A Freddie's on the corner now

If you wanna be a junkie, wow

Remember Freddie's dead!

 

No ano seguinte, porém, Tommy Stewart (que tinha obviamente em Mayfield um dos principais modelos para o seu Spirit of Atlanta) diz que, afinal, Freddie não morreu: passou por um inferno, mas não foi para o inferno: está bem vivo, deixou-se de drogas e até arranjou um emprego. Não deixa de ser curioso... Porque será que Tommy Stewart decidiu ressuscitar Freddie?

People said he died and he went to hell.

The reason I know is cause' he told me so.

He's down here doin' his thing.

Freddie is alive and well.

He didn't die but he went through hell.

He's doing his thing hustlin' diamond ring.

He sure is clean

Ridin' his bad machine.

He got him a job.

He's the king of the mob.

He don't mess with drugs.

Said it gives him the bugs.

He's down here doin' his thing.

Freddie is alive and well.


31/05/24

Línguas românicas vivas

 

Um dia, farto que estava de ouvir dizer que as línguas latinas são o francês, o português, o espanhol, o italiano e o romeno, decidi fazer uma pequena lista das línguas latinas. Evidentemente, isto é, com rigor, uma tarefa impossível, já que não há maneira de distinguir línguas de dialetos e os linguistas não estão de acordo sobre que variantes linguísticas do espaço neolatino se devem considerar ou não variantes dialetais de outra língua ou uma língua de pleno direito. Tive de fazer algumas escolhas e nem todos concordarão com as escolhas que fiz. Agradeço críticas e sugestões para melhorar o artigo.

Depois de cada língua, ponho o seu código internacional ISO 639-3 entre parênteses curvos. Depois, a sua situação de vulnerabilidade, de acordo com o UNESCO: NA para «não ameaçada«, VU para «vulnerável», PE para «em perigo» PG para «em perigo grave». Indico entre parênteses retos os países onde são falados e onde são (muitas vezes só na região onde são faladas) oficiais ou cooficiais (O) ou línguas de minorias com alguma forma de reconhecimento oficial (R). Dou por fim o número aproximado de falantes nativos e é com base nessa variante que a lista está organizada, das línguas com mais falantes nativos para as línguas com menos falantes nativos. Só incluo línguas com mais de 10.000 falantes nativos. Este número é perfeitamente arbitrário. Os dados sobre o nome de falantes provêm de fontes diversas e alguns são mais antigos do que outros, de maneira que há que desconfiar um pouco de muitos deles, que são hoje provavelmente mais baixos do que os que indico. É de notar que algumas línguas, como o espanhol, têm um grande número de falantes não nativos e há até casos, como o do catalão, em que o número de falantes como língua segunda, é, segundo algumas fontes, apresentado como sendo superior ao do de falantes nativos. No caso do estremenho, do ladino/judeu-espanhol e da fala estremenha, não consegui encontrar o grau de vulnerabilidade definido pelo UNESCO.

Nos nomes das línguas, há links para um vídeo falado nessa língua, para que quem não as conheça possa ouvir como soam (exceto nas quatro primeiras, que todos conhecem). Muitos destes vídeos são do projeto Wikitongues, que pretende precisamente criar documentação acessível de línguas minoritárias e contribuir para a sua preservação. Nalguns casos, nota-se claramente uma influência da língua oficial do país (espanhol francês, italiano, português) no discurso na língua minoritária. Como falantes do português, é-nos fácil notar isso no vídeo em mirandês. Mas também no vídeo em picardo, por exemplo, é fácil notar a influência do francês. O «verdadeiro» picardo é, ao que parece, raro hoje em dia e o ch'ti atual está muito contaminado pelo francês. É natural, dado que as línguas oficiais são as línguas de escolarização, da rádio e da televisão, das instituições públicas, etc. 

A questão da classificação dos crioulos de base espanhola, francesa ou portuguesa como línguas neolatinas é complicada e não sei praticamente nada sobre ela. Não os incluo nesta lista.

Castelhano ou Espanhol (spa) NA [Argentina (O), Bolívia (O), Chile (O), Colômbia (O), Costa Rica (O), Cuba (O), El Salvador (O), Equador (O), Espanha (O), Guatemala (O), Guiné Equatorial (O), Honduras (O), México (O), Nicarágua (O), Panamá (O), Paraguai (O), Peru (O), Porto Rico (O), República Árabe Saaraui Democrática (O), República Dominicana (O), Uruguai (O) e Venezuela (O)] 500.000.000 falantes nativos

Português (por) NA Angola (O), Brasil (O), Cabo Verde (O), China (O), Guiné-Bissau (O), Guiné Equatorial (O), Moçambique (O), Portugal (O), São Tomé e Príncipe (O), Timor-Leste (O) 230.000.000 falantes nativos

Francês (fra) NA [Bélgica (O), Benim (O), Burundi (O), Camarões (O), Canadá (O), Chade (O), Comores (O), Congo (O), Costa do Marfim (O), Djibuti (O), EUA (R), França (O), Gabão (O), Guiné (O), Guiné Equatorial (O), Haiti (O), Índia (O), Itália (O), Líbano (R), Luxemburgo (O), Madagáscar (O), Maurícia (R), Mónaco (O), Níger (O), República Centro-Africana (O), República Democrática do Congo (O), Ruanda (O), Senegal (O), Seicheles (O), Suíça (O), Togo (O), Vanuatu (O) (oficial não de jure mas de facto na Argélia, Mauritânia, Mali, Marrocos e Tunísia)] 74.000.000 falantes nativos

Italiano (ita) NA [Bósnia-Herzegovina (R), Croácia (O), Eritreia (R), Eslovénia (O), Itália (O), Roménia (R), São Marino (O), Suíça (O), Vaticano (O)] 65.000.000 falantes nativos

Romeno (nalguns países conhecido como Moldavo) (ron) NA [Hungria (R), Moldova (O), Roménia (O), Sérvia (O), Ucrânia (R)] 25.000.000 falantes nativos

Napolitano (nap) VU [Itália] 5.700.000 falantes nativos

Siciliano (scn) VU [Itália (R)] 4.700.000 falantes nativos

Catalão (também conhecido nalgumas regiões como Valenciano, Maiorquino, Menorquino, etc.) (cat) VU [Andorra (O), França (M), Itália (O), Espanha (O)] 4.100.000 falantes nativos (e mais de 5 milhões como L2)

Véneto (também chamado Taliano no Brasil e Chipileño no México) (vec) VU [Brasil (R), Itália (R), Mexico (R)] 3.900.000 falantes nativos

Lombardo (lmo) PE [Itália, Suíça] 3.800.000 falantes nativos

Galego (glg) PE [Espanha (O)] 2.400.000 falantes nativos

Piemontês (pms) PE [Itália (R)] 2.000.000 falantes nativos

Emiliano (egl) PE [Itália (R)] 1.300.000 falantes nativos

Sardo (srd) PE [Itália (R)] 1.000.000 falantes nativos (2010 -2016)

Picardo (também conhecido como Ch'timi ou Ch'ti) (pcd) PG [Bélgica (R), França] 700.000 falantes nativos

Lígure (chamado Monegasco no Mónaco) (lij) PE Itália (O), Mónaco (O) 600.000 falantes nativos

Romanholo (rgn) PE [Itália, San Marino] 430.000 falantes nativos

Friulano(fur) PE [Itália] 420.000 falantes nativos

Asturo-Leonês (ast) PE [Espanha (R)] 250.000 falantes nativos

Arromeno (também conhecido como Vlach ou Mácedo-Romeno) (rup) PE [Albânia (R), Bulgária, Grécia, Macedónia do Norte (R), Roménia e Sérvia] 210.000 falantes nativos

Occitano (também chamado Provençal em França e Aranês em Espanha) (oci) PE [Espanha (O), França (R), Itália (R), Mónaco (R)] 200.000 falantes nativos

Estremenho (ext) [Espanha] 200.000 falantes nativos

Franco-Provençal ou Arpitano (frp) PE [França (R), Itália (R) e Suíça (R)] 157.000 falantes nativos

Sassarês (sdc) PE [Itália (R)] 100.000 falantes nativos

Ladino ou Judeu-Espanhol (lad) [Bósnia e Herzegovina (R), França (R), Grécia, Israel (R), Turquia] 51.000 falantes nativos

Ladino Dolomítico (lld) PE [Itália (R)] 41.000 falantes nativos

Romanche (ou Grisão) (roh) PE [Suíça (O)] 40.000 falantes nativos

Normando (chamado Jersês e Guernsiês em Jersey e Guernsey) (nrf) PE [França, Reino Unido (R)] 20.000 falantes nativos

Corso (cos) PE [França (R)] 15.000 falantes nativos

Fala estremenha (fax) [Espanha (R)] 11.000 falantes nativos

Aragonês (arg) PE [Espanha (R)] 10.000 falantes nativos

Mirandês (mwl) PE [Portugal (R)] 10.000

Eis um mapa que dá uma boa ideia da distribuição geográfica das línguas românicas. A lista das línguas representadas no mapa não coincide completamente com a lista acima. 

Autoria: Yuri Koryakov, modificado por mim (Wikimedia commons, daqui)

Segue-se uma lista com as traduções de comer, beber, pão e água para 34 línguas românicas (as 31 acima e mais três com menos de 10.000 falantes). Só por curiosidade.

Tendo só em conta estas palavras, parece haver uma distinção de base entre as línguas em que a palavra mais imediata para «ingerir alimentos sólidos» vem do latim clássico comedere, latim tardio comere (as línguas iberorromânicas), e as línguas em que a palavra o mesmo conceito vem do latim manducare (as outras todas…). Mas é uma distinção algo fortuita. Tivesse escolhido outras palavras e saltariam à vista outras aparentes distinções. Todas as organizações são complicadas, mas podem distinguir-se dois grandes ramos, as línguas românicas orientais e as línguas românicas ocidentais, com algumas pelo meio que se discute onde pertencem ou que podem ser um terceiro grupo… As orientais dividem-se em ítalo-dálmatas e em balco-românicas e as ocidentais em ibero-românicas e galo-românicas. A Wikipédia dá uma panorâmica simples destas classificações

Também chama a atenção a variação de uma mesma palavra numa mesma língua. Pode pensar-se: «Como pode haver tantas maneiras, e tão diferentes, de dizer beber em sardo ou pão em romanche? A maior variação dialetal pode depender de fatores como fronteiras políticas e, tradicionalmente, também do isolamento geográfico das comunidades de falantes. Outro fator é a falta de padrão ou uma padronização recente e ainda pouco influente. Quando uma língua é padronizada, muitas variantes passam a ser consideradas incorretas e desaparecem dos registos escritos e dos registos orais menos educados. Quando não há tanto peso da norma padrão, os linguistas tendem a registar todas as formas produzidas em vários dialetos. Se os registos do português seguissem essa lógica, seria preciso registar, (e só no português europeu) as formas comêre e comêri, bebêre, bebêri, buber, buer, auga, entre outras, que são efetivamente produzidas pelos falantes da língua, mas que só em contextos muito especiais são registadas nas descrições do seu vocabulário.


P.S.: Algumas curiosidades

Ao procurar vídeos nas várias línguas, encontrei algumas coisas curiosas, que quero aqui destacar. Acho muito interessante, por exemplo, que um americano dos EUA, da quinta geração de imigrantes sicilianos, ainda fale siciliano (e perfeitamente, a julgar pelos comentários). 

Tão habituados que estamos às fronteiras dos estados nações atuais e à ideia de uma língua nacional para cada um deles, esquecemo-nos de que há muitas vezes um continuum de dialetos mutuamente inteligíveis através de fronteiras políticas. Para um português que conheça o galego, o asturo-leonês (incluindo o mirandês) e a fala estremenha, por exemplo, isso parecerá óbvio. Mas também é interessante ver como, noutros lugares, duas pessoas de nacionalidades diferentes comunicam sem problemas em línguas diferentes. Laura é espanhola, da província de Barcelona, e fala catalão, que é a sua língua materna; e Gabrièu é francês, de Nice (que não é logo ali ao lado da Catalunha), e fala occitano, em que é perfeitamente fluente, mas que não é a sua língua materna.  

Finalmente, e já que estamos em maré de catalão, um vídeo em que Joan Lluís-Lluís, um francês de Perpignhão, fala, num catalão impecável, dos problemas dessa língua – e de várias outras línguas – em França. Isto é interessante, porque não há muitos jovens franceses a falar catalão como ele. Como Joan diz, o catalão está moribundo em França e, se procurarem outros vídeos sobre o catalão na zona, verão que os jovens que o ainda o falam como língua segunda têm uma fluência limitada e um claro sotaque francês. 


20/04/24

Ser ou não ser, eis a questão

 

to%20be%20or%20not%20to%20be
Whether 'tis nobler in the mind to suffer
The slings and arrows of outrageous fortune,
Or to take arms against a sea of troubles
And by opposing end them. 

 (W. S., 1601)

Como se costuma avisar à entrada de algumas entradas da Wikipédia (a deselegância estilística é aqui propositada), este texto é sobre o verbo ser e é um texto mais para quem se interesse por coisas de língua; se procura algo sobre a frase de Shakespeare, talvez seja melhor dirigir-se, por exemplo, à Wikipédia, precisamente. Isto não é correr com ninguém, note-se, longe de mim tal ideia! Não, não, fique mais um bocadinho e leia o texto, já agora; talvez até ache graça ao pequeno delírio que se segue…

Este texto é uma versão revista de um texto originalmente publicado aqui a 15/12/10, que deixou de me agradar e que decidi que precisava de ser reescrito. Tentei reescrevê-lo sem usar muitos termos técnicos, mas, quando se fala de língua, nem sempre é possível deixar de usar alguns termos gramaticais e/ou linguísticos — que eu creio, aliás, que a maior parte das pessoas compreende. Também não levo muito longe o rigor linguístico, porque isso não é relevante neste texto.

O que significa ser? Talvez isto vos surpreenda, mas há línguas em que não existe um verbo que corresponda diretamente ao nosso ser. E há outras em que, embora existindo um verbo semelhante ao nosso ser, ele é dispensável em certos tipos de frases. De facto, e no que toca apenas ao significado, o verbo ser às vezes não serve para grande coisa. Por exemplo, se quero dizer «Eu sou português» e dispensar o sou, e disser «Eu português», não deito fora nenhum bocado de significado: toda a gente compreende exatamente o que quero dizer e compreende-o como sendo «Eu sou português», precisamente. O que eu deito fora com essa construção é antes a boa formação da frase em português, que é uma coisa diferente. Em português, essa frase exige um verbo e «Eu português», por muito que se perceba, não é uma frase da língua portuguesa. Nenhuma pessoa de língua portuguesa diz uma coisa assim. Há línguas, porém (como, por exemplo, o russo), em que a omissão de verbo que corresponde a ser é gramatical e omiti-lo é uma maneira normal de construir a frase.

Já o mesmo não acontece na frase «Ela tinha sido professora, quando a conheci», porque, sem o tempo verbal expresso pela forma verbo ser, não se distingue esta frase de, por exemplo, «Ela era professora, quando a conheci», que tem um significado muito diferente. Temos aqui, então, um importante significado de verbo ser e dos verbos do mesmo tipo, chamados cópulas ou verbos copulativos: carregar marcas de tempo, modo e outras categorias da língua, por muito que não tenham um significado específico eles próprios, ou sejam, por muito que não contribuam, por si, para dizer alguma coisa de alguém ou de alguma coisa. Nos exemplos dados atrás, o que se diz de mim é <[ser] português> e o que se diz dela é <[ser] professora>. Aliás, muitas vezes, as construções com o verbo ser correspondem diretamente a construções com outros verbos, que, esses, sim, dizem alguma coisa de alguma coisa ou alguém. Por exemplo, «ensino no Barreiro» ou «dou aulas no Barreiro» significam o mesmo e correspondem a «sou professor no Barreiro».

Podemos, então, ser tentados a pensar que, em termos de significado, e deixando de lado as marcas de tempo, modo, etc., o verbo ser é como um sinal de igual apenas (eu=professor; ele=soldado), mas é, de facto, uma maneira pouco rigorosa de o descrever, sobretudo porque x=y ⇒ y=x (xis igual a ípsilon implica ípsilon igual a xis) e é fácil constatar que a frase «o leão é um mamífero» não significa, como toda a gente sabe, que «um mamífero é o leão».

Há apenas um tipo de frases, chamadas equativas, que têm a propriedade especial de se poder nelas trocar livremente o que fica dos dois lados do verbo ser sem alterar em nada o sentido: «a Ana é a professora de português da minha irmã» é o mesmo que «a professora de português da minha irmã é a Ana». Só nestas frases, em que ser liga duas expressões com artigo definido é que o verbo ser funciona como um sinal de igual. (A questão é de facto mais complicada, mas não a desenvolvo aqui.)

Nos outros casos, acho que, a ter de escolher um símbolo simples para representar o significado de base do verbo ser preferia uma flecha a um sinal de igual – o que se diz de alguma coisa ou de alguém tem uma direção (eu <= professor; ele <= soldado). Há um sujeito de quem se diz alguma coisa («eu», «ele», «a Ana»…) e um predicativo que diz (predica) alguma sobre o sujeito («professor», «soldado»…) Este predicativo pode ser um nome («professor»), um adjetivo («bom», «alto»…) ou um sintagma preposicional, ou seja, introduzido por uma preposição: «para brincadeiras», em «Ela não é para brincadeiras», ou «de madeira», em «A mesa é de madeira», por exemplo.

Aparecem na frase anterior dois daqueles termos gramaticais, sujeito e predicativo, que não são fáceis de evitar num texto destes; e a palavra sujeito, que toda a gente conhece, merece aqui uma breve discussão. Não sei se alguma vez pensaram nisso, mas dizer-se, como me diziam os meus professores da primária, que é «quem pratica a ação» é uma definição de sujeito que funciona muito mal. Sujeito significa «submetido» («Estavam sujeitos às intempéries» ou «Eram sujeitos da coroa»); sujeito é o que subjaz, o está por baixo: de facto, na origem, sujeito significa «quem sofre a ação» e não «quem pratica a ação». Mas, claro, como as palavras da gramática deram muitas voltas até chegar ao seu uso atual e, por causa dessas muitas voltas, são muitas vezes enganosas, também se chama agora sujeito ao agente, aquele que faz alguma coisa. Digamos que há muitos tipos de sujeitos, aqueles que fazem coisas, aqueles a quem acontecem coisas, aqueles em que se passam coisas, aqueles a quem os outros fazem coisas, etc.

É bom ter isto em mente quando se fala do verbo ser, porque os sujeitos do verbo ser nunca fazem nada. Às vezes, até parece que fazem, mas não fazem. «Mas ser professor não é fazer alguma coisa?». Sem dúvida que dar aulas é uma atividade — meritória, importante e cansativa —, mas é preciso ver que uma professora é professora mesmo quando está a dormir. O verbo ser usa-se com um predicativo para atribuir qualidade ou características a alguém ou a alguma coisa, não para descrever ações. Quando se quer falar da atividade concreta de dar aulas, não se vai dizer «Ontem, fui professor das 8 às 13».

Voltemos um pouco atrás: o sujeito e o seu predicativo não são, como vimos, intersubstituíveis. Além disso, têm casos gramaticais diferentes. Mais um termo gramatical: os nomes de uma frase estão sempre num caso qualquer, conforme a sua função na frase. Há línguas em que isto é óbvio, porque os nomes têm formas diferentes segundo a sua função. Por exemplo, em finlandês (ou em russo ou em muitas outras línguas), na frase «A Paula viu a Maria», Paula e Maria têm formas diferentes das que têm na frase «A Maria viu a Paula», porque no primeiro caso Paula é sujeito e Maria objeto e, no segundo, passa-se o inverso: a primeira frase é Paula näki Marian e a segunda é Maria näki Paulan. Em línguas como o português, os casos são menos visíveis, mas veem-se no pronome. O pronome que corresponde à pessoa que fala é eu quando é sujeito (caso nominativo), mas é me, quando é objeto direto ou indireto (casos acusativo ou dativo) e mim quando vem depois de uma preposição (caso oblíquo). Quando o sujeito é ela ou ele, porém, já há formas diferentes para o acusativo (o/a) e para o dativo (lhe), mas a forma oblíqua é igual à forma de sujeito (ele, ela): «Ela joga badminton», «Conheço-a bem», «Telefonei-lhe ontem» e «Falei com ela». Estes casos são, em português, iguais para todos os verbos. O sujeito é sempre nominativo, seja ele sujeito de que verbo for: o sujeito de «cortei a lenha» é eu, nesta frase que descreve uma ação minha, exatamente como é eu o sujeito de «apanhei muita chuva», em que eu não ajo absolutamente nada.

Porque é que isto aparece aqui no meio da conversa sobre o verbo ser? Porque as frases com o verbo ser têm algumas características especiais. O predicativo do sujeito é sempre acusativo, como os complementos diretos dos verbos que os têm: «ele é professor» porta-se, neste aspeto, como «ele varre a sala todos os dias», e isto vê-se precisamente no caso: «ele é professor e é-o já há muito tempo» e «ele varre a sala todos os dias e varre-a com uma grande minúcia». Tanto o o como o a destas frases são a forma acusativa do pronome da terceira pessoa do singular. Por isso é que até já houve quem propusesse considerar o verbo ser um verbo transitivo, como varrer, ver ou virar. Mas não funciona, porque este predicativo tem características diferentes dos complementos diretos: quando se transforma em pronome, fica sempre no masculino. Dizemos «a Ana é professora da minha irmã e é-o já há muito tempo» e não «*a Ana é professora da minha irmã e é-a já há muito tempo». Além disso, é com o acusativo que se faz a concordância do verbo, que, noutros tipos de frases, é forçosamente com o sujeito. Como toda a gente sabe, «a vida são dois dias e o Carnaval são três» e não «a vida é dois dias e o Carnaval é três» (por muito que os corretores ortográficos nos queiram às vezes para aí puxar). Como se explicam estas anomalias, não sei. Nem sei se alguém sabe, mas é bem possível que haja explicações que desconheço.


17/04/24

Estupidez e discriminação, mais uma vez

 Ricky Gervais (traduzo eu):

«Quando se está morto, são se sabe que se está morto. É só para os outros que isso é doloroso e difícil. O mesmo acontece quando se é estúpido.»

Encontra-se a mesma ideia noutro meme que circula nas redes sociais: 

«As pessoas gordas sabem que são gordas. As pessoas magras sabem que são magras. Não seria maravilhoso se as pessoas estúpidas soubessem que são estúpidas?»

Seria quase tentado a dizer que estas afirmações são uma estupidez e que, por isso mesmo, tenho de lhes dar razão: quem as diz não faz ideia da estupidez que são. Mas não é assim. São apenas afirmações em que tenho boas razões para não acreditar e que quero aqui discutir. Aliás, já aqui falei desta questão uma vez, mas quero agora desenvolver um pouco a discussão.

Precisamos de assentar, antes de mais, no que queremos dizer com estúpido e estupidez. Estúpido pode significar coisas como «atónito»; «insensato», «imprudente»; «grosseiro», «indelicado»; «desinteressante», «entediante»; ou «absurdo», mas nas frases que servem de introdução a este texto, estúpido é usado no sentido de «falto de inteligência», que é, provavelmente, o significado mais imediato da palavra para a maior parte das pessoas.

É claro, pode considerar-se que estúpido é muitas vezes apenas um termo de forte desaprovação. Muitas vezes, chamamos estúpido a alguém apenas para discordar veementemente das suas ideias ou ações mais do que para o acusarmos propriamente de alguma deficiência cognitiva. Se escolhemos utilizar estúpido nesta situação, porém, é para afirmarmos que falta à pessoa que acusamos de estupidez a capacidade de compreender ou sentir algo que nós compreendemos e sentimos. Há sempre alguma acusação de falta de capacidade.

Se nos detivermos agora a analisar agora esta ideia de falta de inteligência, constatamos umas quantas coisas importantes:

A capacidade cognitiva de uma pessoa não é adquirida e está fora do seu controlo — a não ser que identifiquemos inteligência com conhecimento, o que não parece muito sensato. A dificuldade de aprendizagem é, claro está, um obstáculo à aquisição de conhecimentos, mas apenas um dos muitos obstáculos possíveis, e há pessoas muito inteligentes que nunca tiveram, por razões várias, acesso à aquisição de conhecimentos. Assim sendo, o nível de inteligência de uma pessoa, seja lá o que for que com isso queiramos dizer, é como a cor dos olhos ou da pele, a forma das pernas ou a tendência inata para a corrida ou para determinada doença.

A falta de capacidade cognitiva de uma pessoa, quando existe, não se aplica necessariamente a todas as suas funções cognitivas, mas apenas a algumas delas. Por exemplo, pode ser-se muito fraco em raciocínio abstrato e ter uma excelente memória ou uma grande capacidade de organizar volumes no espaço, etc. Muitas pessoas eram antigamente simplesmente consideradas «burras» em geral e incapazes de aprendizagem por terem dislexia ou discalculia — o que hoje está longe de ser considerado sinónimo de burrice.

A falta de capacidade cognitiva não é uma condição comum entre humanos — todos fazemos coisas desarrazoadas, estupidezes (!), mas a falta de inteligência como condição (ser estúpido, ter deficiências cognitivas) é rara.

E por fim, a falta de inteligência não tem implicações morais: são possíveis todas as combinações de qualquer grau de inteligência com qualquer grau de moralidade. Muitas pessoas más, seja lá o que for que cada qual defina como mau, são inteligentes, algumas até acima da média, e muitas pessoas com pouca inteligência são boas pessoas.

A estupidez está muitas vezes incluída na retórica discriminatória como sendo, precisamente, a característica que mais justifica a discriminação. Às vezes, é a (pretensa) categoria que justifica, só por si, a discriminação. É certo que, às vezes, se atribuem, a quem se discrimina, outras qualidades negativas, como a maldade, a preguiça, o espírito de trapaça, etc. Mas, de que costuma mais rir-se quem se ri de anedotas de alentejanos (ou belgas, ou aarhusianos, ou seja lá o que for, as histórias são as mesmas em todo o lado, muda só o objeto de chacota), do Samora Machel ou de loiras, entre muitas outras? Da sua pretensa estupidez…

Talvez a característica com que seja mais fácil comparar as deficiências cognitivas seja a fealdade. Ser feio tem, em parte, as características que enumerei atrás para ser pouco inteligente e também resulta em desvantagens ao longo da vida, às vezes grandes. No entanto, há muito quem não ache bem acusar outras pessoas de serem feias, mas não se coíba de chamar burros àqueles de quem discorda — ou até de considerar a burrice em geral como um dos males da humanidade.

Voltemos ao início do texto: «Não seria maravilhoso se as pessoas estúpidas soubessem que são estúpidas?» Tenho boas razões para crer que, tal como as pessoas feias sabem bem que são feias, também as pessoas com alguma deficiência cognitiva sabem muito bem que a têm. Tanto a umas como outras, foi-lhes recordada toda a vida a sua «falha», de várias formas, umas mais diretas que outras. E não há nisso nada de maravilhoso – nem para essas pessoas, nem para ninguém…



12/04/24

Frikadeller

 

A ideia de fazer bolas de carne picada é, pelos vistos, tão natural que toda a gente a teve em todo o lado e já há muito tempo (a Wikipédia dá uma boa panorâmica da coisa). No sul da Europa, as almôndegas são feitas num guisado com tomate, mas em muitos outros sítios são fritas ou cozidas num caldo. É claro, variam também a carne usada e os temperos — e o tamanho das bolas. 

Na Escandinávia, as bolas de carne são um prato comum e chamam-se algo como «pãezinhos de carne» em norueguês, sueco e finlandês (kjøttboller, köttbullar e lihapullat, respetivamente), mas frikadeller em dinamarquês. Dizia-me uma amiga brincalhona, já há muitos anos, que uma experiência traumática de todos os homens escandinavos — segundo ela, bem descrita na literatura psicanalítica nórdica — era a passagem das almondegas da mãe às almôndegas da mulher. Bem feito, digo eu, fizessem os homens a comida e nada disso acontecia. Mas a verdade é que, pelo menos no caso das frikadeller (não sei nada das bolas de carne dos outros países escandinavos), há sempre grande uniformidade de sabor e textura, nada que justifique traumas. A não ser que apareça algum português com a mania das inovações… Mas passemos à substância da coisa. Frikadeller clássicas: 

Meio quilo de carne picada (em princípio de vitela e de porco misturadas, também pode levar um bocadinho de toucinho); 1 cebola média; 3 colheres de farinha; 1 ovo; 1,5 dl leite; e sal e pimenta, claro. Mistura-se tudo bem misturado, deixa-se descansar pelo menos uma horinha no frio, molda-se a carne em bolinhas e frita-se em muita manteiga. 

Frikadeller com salada de batata. Foto de cyclonebill, daqui. Licença Creative Commons. 
Eu muitas vezes acrescento uma cenourinha picadinha muito fina e uso flocos de aveia em vez de farinha. Também já usei salsa. Vão experimentando, a ver o que acham que fica bem. Atenção: não se pode (!!!) misturar tudo na máquina. Quer dizer, dá para picar e misturar na máquina os outros ingredientes além da carne e misturá-los depois com a carne à mão, mas meter a carne no processador, não. Ou então, só uma pequena parte da carne, vá. E cuidado, frikadeller é um prato muito guloso, uma pessoa vai comendo, comendo, sem dar por isso, e nunca mais para. 

Agora, da mesma forma que há bolas de carne em todo o lado, também há pastéis de peixe em muitos lados. As frikadeller de peixe (fiskefrikadeller) são o correspondente dinamarquês dos pastéis de bacalhau. Mais uma vez, uma receita clássica, que se pode adaptar ao gosto de cada um: 

Para 800 de bacalhau fresco (ou outro peixe qualquer, mas aqui costuma usar-se bacalhau fresco), uma cebola, duas claras de ovo, três colheres de fécula de batata e três colheres de farinha, e 1 dl de leite, além de sal e pimenta. Com o peixe é que sim, pode triturar-se tudo junto no processador, até obter uma pasta homogénea, que se frita em lume brando. Se não vos sair bem à primeira, ajustem as quantidades à segunda, sim? 




06/04/24

Do trema, do seu desaparecimento e da falta que às vezes faz

 

Se o desaparecimento de letras não pronunciadas foi, na última reforma ortográfica, um passo em frente no sentido de levar mais longe a lógica fonológica que subjaz à reforma republicana, já o desaparecimento do trema foi um passo atrás. 

É claro, em ortografia faz-se muitas vezes compromissos entre a lógica e a simplicidade. A não marcação do acento tónico na escrita do inglês ou do italiano são exemplos disso – por um lado, reduz-se o número de sinais e de regras a aprender; por outro, deixa de se assinalar todo um aspeto importante da língua. Não tenho dúvidas de que o que preside à eliminação do trema na grafia do português (do Brasil apenas, porque em Portugal não se usava) é essa vontade de simplificação. Para ser coerente com o espírito fonológico da ortografia portuguesa, porém, devia ter-se feito ao contrário: devia o uso do trema ter-se alargado à ortografia do português fora da América. Há outros casos, mas, por exemplo, a distinção entre as sequências /kwe/, /kwi/ e /ke/, /ki/ ou /gwe/, /gwi/ e /ge/, /gi/ em, por exemplo, cinquenta e apoquenta, tranquilo e quilo, desague e afague, preguiça e linguiça, é efetivamente fonológica e seria, por isso, mais lógico grafar cinqüenta, tranqüilo, desagüe e lingüiça. (Há outras soluções possíveis, mas seriam tão mal recebidas que é melhor nem pensar nelas…).

Em Portugal, o trema foi suprimido no Acordo Ortográfico de 1945. É claro, a supressão do trema foi na altura criticada — como é sempre criticada qualquer alteração na ortografia —, mas, neste caso, com razão, na minha perspetiva. 

O dramaturgo, poeta e escritor João Silva Tavares publicou a propósito, no Diário de Lisboa, este divertido poema que encontrei no Ciberdúvidas da Língua Portuguesa (mantenho a grafia original). Silva Tavares estranhava a supressão do trema em muitas palavras, mas não em saudade. Não conheço a história da palavra ao pormenor, e não sei se a forma sem ditongo foi muito difundida em alguma época ou lugar, mas, na Lisboa de 1945, devia já ser, como agora, forma muito rara. Embora os dicionários registem as duas pronúncias, a maioria dos falantes do português não pronuncia sa-u-da-de, mas sim sau-da-de — em todas as variantes da língua. 

«SIC TRANSIT GLORIA MUNDI»


Não há que ver—tudo morre. 
Chegada a hora suprema,
nada, nada nos socorre...

Desta vez, morreu o «trema»!


Morreu, não:—foi condenado

pela nossa Academia,

no acordo há tempos firmado

referente á Ortografia.


O «trema», tal corno é

do conhecimento geral,

quando se põe sobre o «u»,

torna expressiva a vogal.


Acento que muita gente

se esquecia de empregar,

consiste, graficamente,

em dois pontinhos a par.


Eu, por mim, digo em verdade:

—nas outras palavras, não,

mas na palavra «Saüdade»,

produzia-me impressão.


Por quê, saudade com «trema»?

Não lhes parece arriscado

complicarmos um problema

que é já de si, complicado?


Fora os «pontos» escusados,

por inuteis, por hostis!

Bem basta sermos forçados

a pôr os «pontos nos i i».


Louvemos, pois, o sistema

do acordo, já concluído,

pois dando sumiço ao «trema»

acabou com o «u» tremido!


Depois disto já firmado,

um amigo intrometido

e filólogo afamado,

declarou-me, compungido,

que não se diz «u» tremido

mas «u» tremado.


Que novidade!... Mau grado

o seu famoso bestunto,

o «sábio» não percebeu

que se eu escrevesse «u» tremado,

o «tremado» neste assunto

não era o «u»:—era eu!


Alexandre O’Neil dizia do trema em «Divertimento com sinais ortográficos» (de Abandono vigiado, 1960)

¨

Frequento palavras estrangeiras


Já vivi em saudade,

mas expulsaram-me

(p'ra sempre?...)

da língua portuguesa.





31/03/24

Criminosos, cães e dilemas morais

 

Num artigo de 2 de fevereiro do blogue 2 Dedos de Conversa, Helena Araújo propõe o seguinte dilema: «Se uma casa estivesse a arder, e lá dentro estivesse um cão e o Hitler, e você só pudesse salvar um deles, qual deles salvava?» A sua própria resposta (que, diz ela, lhe veio «rápida e segura») é que o Hitler era muito pesado.

O Tintim, esse, não hesitou e salvou mesmo o Hitler de morrer afogado. Bom, como o Milou tinha desaparecido, não se lhe pôs o problema da escolha entre Hitler e um cão.

Esta imagem é d'O caso Girassol (1956) e, claro, não é Hitler que Tintim salva – mas parece,
o que faz com que esta imagem circule na Internet com intenções humorísticas.

Isto fez-me pensar em John Suart Mill — mais concretamente, numa nota de rodapé de Utilitarianism. Escreve J. S. Mill a certo passo [traduzo eu do original]:

Cabe à ética dizer-nos quais são os nossos deveres, ou por que teste podemos conhecê-los; mas nenhum sistema de ética exige que o único motivo de tudo o que fazemos seja um sentimento de dever; pelo contrário, noventa e nove por cento de todas as nossas ações são realizadas por outros motivos, e está muito bem que o sejam, se a regra do dever não as condenar. É ainda mais injusto para com o utilitarismo que este equívoco específico se torne motivo de objeção, na medida em que os moralistas utilitaristas foram mais longe que quase todos os outros ao afirmar que o motivo nada tem a ver com a moralidade da ação, embora muito com o valor de quem age. Quem salva um semelhante de morrer afogado faz o que é moralmente correto, quer o seu motivo seja o dever ou a esperança de ser pago pelo trabalho a que deu; e quem trai o amigo que nele confia é culpado de crime, mesmo que o seu objetivo seja servir outro amigo com quem tem maiores obrigações.

A passagem não tem relação nenhuma com o dilema moral atrás apresentado, nem com o quadradinho de Hergé com que aqui brinco. Mas J. S. Mill faz uma interessante nota de rodapé a esta passagem do seu texto, em que responde a uma objeção à ideia acima apresentada:

Um oponente, cuja honestidade intelectual e moral reconheço com prazer (o Rev. J. Llewellyn Davis), objetou a esta passagem, dizendo: «É claro que o há de certo ou errado em salvar um homem de morrer afogado depende muito do motivo com que se o faz. Suponhamos que um tirano, quando um inimigo seu se lança ao mar para lhe escapar, o salva de morrer afogado apenas para poder infligir-lhe torturas mais requintadas — seria sensato descrever esse salvamento como “uma ação moralmente correta”? (…)»

Eu digo que uma pessoa que salve outra de morrer afogado para depois a torturar até à morte não difere apenas no motivo de outra pessoa que faz a mesma coisa por dever ou benevolência; é o próprio ato que é diferente. O salvamento do homem é, no caso em apreço, apenas o início necessário de um ato muito mais atroz do que seria deixá-lo afogar-se. Se o Sr. Davis tivesse dito: «O que há de certo ou errado em salvar um homem de morrer afogado depende muito — não do motivo, mas sim — da intenção», nenhum utilitarista discordaria dele. (…) A moralidade da ação depende inteiramente da intenção — isto é, do que quem age quer fazer. Mas o motivo, isto é, o sentimento que o leva a querer realizá-la, quando não faz diferença no ato, também não altera de modo nenhum a sua moralidade (…).

Não me adianto na discussão da relevância do motivo de uma ação para a moralidade da mesma e da distinção milliana entre motivo e intenção. Proponho antes modificar um pouco a reflexão proposta por Llewellyn Davis: imaginemos que, em vez de um tirano que salva um oponente de morrer afogado para depois lhe infligir horríveis torturas, se trata antes do adversário de um tirano que o salva para ele poder ser julgado e condenado pelos crimes que cometeu. Como avaliar agora o salvamento?

Quando publicou o dilema e a sua resposta no Facebook, a Helena teve, é claro, muitos comentários. Algumas das pessoas que comentaram o post da Helena defenderam o princípio ético fundamental de que, quando se trata de escolher quem deve viver e quem deve morrer, mesmo o pior humano tem prioridade em relação a um animal não humano — a estranha solidariedade da espécie, como dizia já não me lembro quem. Mas não é essa a única razão possível para decidir salvar Hitler: pode-se salvá-lo «para o entregar directamente num tribunal», como a Helena sugeria numa resposta a um comentário à sua publicação.

Se é moralmente mais correto ficar a olhar para a morte por afogamento dos hitleres deste mundo ou ir buscá-los à água para responderem em tribunal pelos seus crimes, eis uma boa discussão moral — tanto numa perspetiva deontológica (há um princípio ético universal de base que o justifique?) como numa perspetiva utilitária (condená-lo tem consequências mais positivas para a maior parte das pessoas que deixá-lo morrer?). Que opinais?

26/03/24

De bons e maus fígados — em iscas ou em pâté ou até por cozinhar

 

Lembro-me de alguém me contar — já não me lembro é quem foi… — que a sua mãe, quando estava grávida, tinha desejos de fígado cru — o que, segundo essa pessoa, nem devia espantar ninguém, porque o fígado era dos alimentos mais saudáveis que se podia comer. Mas cru? Porque não?

Ficou-me sempre na memória o louvor de um repasto de fígado cru de antílope que Rider Haggard faz em As Minas de Salomão, pela voz de Allan Quatermain, narrador e protagonista desse matricial romance de aventuras (deixo aqui a tradução de Eça de Queirós, com grafia original[1], para dar ainda mais exotismo a tão exótica passagem):

Andada uma milha, que nos levou muito tempo, chegámos emfim á extremidade do planalto do monte sobre o qual assentava o «bico do peito». E foi uma grande emoção. Por baixo de nós, adiante de nós, estava (devia estar) emfim essa região mysteriosa para além das serras, que nós vinhamos demandando:—mas toda ella se occultava sob um denso nevoeiro. Alli ficámos pois repousando, esperando. Pouco a pouco, as camadas mais altas da nevoa foram-se desfazendo. Avistámos então um pendor da serra, muito dôce e todo coberto de neve. Depois outras camadas de nevoeiro mais abaixo clarearam; e appareceu aos nossos olhos famintos uma campina de herva verde, um regato correndo através, e á beira d’agua, deitados ou pastando, uns dez ou doze animaes que nos pareceram antilopes.

A nossa alegria foi como a d’uma resurreição. Caça! Alli estava caça para comer, e deliciosa! Era a salvação, era a vida! A difficuldade era caçar—essa caça!... Lembro-me que no nosso immenso alvoroço tivemos uma rapida e atarantada discussão, em voz baixa e tremula—se deviamos aproximar-nos da caça ou fazer fogo d’alli, se deviamos usar as carabinas Winchester ou a «Express»! Indecisão terrivel—porque de acertar ou falhar dependiam as nossas vidas. Fui eu por fim que me decidi. Se tentassemos atravessar o pendor de neve, podiamos espantar o rebanho. E a carabina «Express», apesar d’um alcance inferior, era preferivel—porque as balas explosivas mais facilmente apanhariam algum dos antilopes.

Emfim fizemos fogo, todos a um tempo, com um estampido que rolou tremendamente nas quebradas dos montes. O fumo clareou. E eis que, alegria sem par! —vemos um dos animaes por terra esperneando furiosamente. Berrámos de puro gozo. Estavamos salvos! Salvos! De fome já não morriamos! Corremos aos trambulhões pela neve abaixo—e em poucos momentos tinhamos nas mãos os figados e o coração do animal, quentes e fumegando!

Mas surgia uma difficuldade. Sem lenha, sem lume, como assar a caça?

— Gente faminta não tem exigencias! Gritou excitadamente o capitão John. A ella, e crúa!

Não restava outra solução—e não nos pareceu repugnante. Arrefecemos as visceras na neve, lavámol-as na agua corrente—e devorámol-as com voracidade! Parece horrivel—mas confesso que aquella carne crúa me soube divinamente! D’ahi a um quarto de hora, que mudança! Voltára-nos a vida, o vigor! O pulso batia outra vez, forte e regular. Eu por mim sentia positivamente o sangue degelar-se, correr-me dentro das veias!

Ao que parece, o consumo de fígado cru tornou-se uma moda nos últimos tempos, devido, sobretudo, à promoção que dele fazem alguns influencers, mas, se é verdade que o fígado é um alimento rico em vitaminas e minerais que não se encontram frequentemente em muitas dietas, também é verdade que o seu consumo regular pode resultar em perigos para a saúde — e não só os que advêm do consumo de qualquer carne crua (ver o que explica sobre o tema uma dietista [em inglês]). Em geral, os médicos aconselham moderação no consumo de fígado.

Fígado à berlinense. Wikimedia Commons, daqui.
Na Dinamarca, come-se muita pasta de fígado, como aliás nos outros países do norte da Europa. A pasta de fígado foi introduzida na Dinamarca em meados do séc. XIX, inicialmente como manjar de luxo, a que só as famílias muito ricas tinham acesso. No início do século XX, porém, com o aumento da produção de suínos para exportação de bacon, o preço do fígado desceu muito e a pasta de fígado tornou-se mais acessível e foi passando cada vez mais a fazer parte dos lanches dos operários dinamarqueses, até acabar por se tornar no produto de grande consumo que atualmente é, um dos condutos mais usados nas sandes abertas de pão de centeio que praticamente todos os dinamarqueses almoçam. Mas é praticamente só em pasta que se come o fígado na Dinamarca. Ainda se encontra às vezes fígado e coração nos supermercados, mas é comida que só algumas pessoas mais velhas comem muito de vez em quando: as novas gerações nunca provaram vísceras, nem querem provar.

Tenho, aliás, a ideia — perfeitamente incomprovada, note-se — que, à medida que uma sociedade vai enriquecendo, as gorduras e as vísceras dos animais vão progressivamente sendo substituídas por carne limpa. Talvez seja só uma impressão minha, mas não me parece que seja só aqui na Dinamarca que as gerações mais jovens que a minha deixaram de comer vísceras e toucinhos. Creio que se passa o mesmo em todos os países mais ricos. Os pratos tradicionais com vísceras, que existem em todo o lado, comem-se cada vez menos. Em Portugal, quem — e onde — come hoje coiratos, rins e fressura? Quem é que come iscas hoje em dia, mesmo em Lisboa, onde podem ser consideradas um dos poucos pratos típicos da cidade?

E eis-nos chegados às iscas lisboetas, que foram a motivação primeira deste texto, antes de ele, por sua própria vontade, se ter alargado, e muito, a outros fígados. E a ideia de explorar o tema das iscas veio- me de um fado: o «Fado das Iscas», que conheço desde miúdo e que me veio no outro dia à memória:

No tempo das patuscadas

Das guitarras e touradas

Das hortas, do carrascão

Eram as iscas o prato

De mais consumo e barato

Na vida dum cidadão


E ninguém se envergonhava

Toda a gente que passava

Entrava nessas vielas

Sentia-se a gente bem

Sendo simples, um vintém

Trinta réis se eram com elas


Se ao longe vinha um parceiro

E o cheirinho lhes sentia

Até mesmo apetecia

Comê-las só p'lo cheiro

E a sua fama foi tal;

O povo então era vê-lo:


Travessa do Cotovelo

E Rua do Arsenal

Hoje tudo isso mudou

A taberninha acabou

Desapareceram os becos

Os cocheiros são choferes

Vigaristas suteneres

E os casqueiros papo-secos


Se os meninos odaliscas

Comessem um prato d'iscas

Daquelas bem temperadas

Morriam de indigestão

Não bebendo um garrafão

D'água das Pedras Salgadas

É claro, não sabia a letra toda de cor. Ao procurá-la na internet, descobri, num blogue indispensável a quem se interesse pelo fado clássico, que este «Fado das Iscas» tem letra de José de Oliveira Cosme e música de Jaime Mendes e foi criação de Álvaro Pereira na revista Coração Português em 1928. Aqui fica uma gravação de Álvaro Pereira de 1962.

Ao pesquisar este fado, encontrei no mesmo blogue outro fado com o mesmo tema — e o mesmo título. Trata-se de um fado de Lourenço Rodrigues e Raúl Ferrão, cantado por Hermínia Silva, que o estreou na revista Iscas com Elas, precisamente, em 1938 (aqui, numa gravação de 1957).

Noutros tempos da ramboia

Metia sempre tipoia

Os tascos tinham beleza

Davam gosto as berzundelas

Com conserva à portuguesa

E as belas iscas com elas


As iscas sabiam bem

Sem elas era um vintém

Quando metia batatas

Trinta reis era um pratinho;

E um tipo nessas frescatas

Enchia sempre o papinho


Belas iscas do Alfaia

E da Rua da Atalaia

Era um petisco burguês

Tinha um sabor sem igual

Comido no Alvarez

Da Rua do Arsenal


Uma isquinha a preceito

Chega a fazer bem ao peito

Aquele cheirinho a isca

Até regala os mortais

A gente quando a petisca

Ai, no fim chora por mais

Como veem, este fado faz também referência à Rua do Arsenal, referindo até o nome de um restaurante — ou do seu proprietário: o Alvarez. Mas, segundo este fado, as iscas não se comiam só no Cais do Sodré — também no Bairro Alto, na Rua da Atalaia — e na Travessa da Queimada, se o Alfaia daquela altura era o mesmo que há hoje. A informação sobre o preço das iscas coincide, no fado da Hermínia, com a do fado de Álvaro Pereira: um vintém só as iscas, 30 réis com batatas. Pelos vistos, os preços mantiveram-se estáveis nos dez anos que separam os dois fados.

Ouvi falar várias vezes de restaurantes de iscas do Bairro Alto, e, por curiosidade, resolvi investigar se era verdade o que me tinham contado: que os pratos estava pregados às mesas e os talheres também presos com correntes; e que o empregado vinha com um balde de água e um pano para os lavar e depois com uma panela de iscas para o encher para o cliente seguinte — uma história que me sempre me pareceu algo fantasiosa.

Descobri então na Internet um texto imprescindível para todos os iscófilos: As Iscas com Elas ou Iscas à Portuguesa, Património, Gastronomia e Turismo em Lisboa, de Pedro Manuel Pereira da Silva, uma tese de mestrado em Antropologia do Turismo e Património. E esta tese, inclui, entre muitas outras informações interessantes, um texto do jornalista e dramaturgo Eduardo Fernandes (1870-1949), que assinava Esculápio. Chama-se o texto «Petisquinhos de Lisboa» e é de 1941.

Começarei pelas iscas, as saborosas iscas com elas e semelas. Semelas porque, em certas tascas, o letreiro que as anunciava juntava as palavras sem e elas numa só. Custavam um vintém sem elas, e trinta réis com elas, ou seja com batatas cozidas e cortadas às rodas, que lhes davam um sabor particular (…) O galego que confeccionava o fígado (…) de que se faziam as iscas, armado de uma faca enorme e espalmada como as que os judeus empregam para imolar as reses no matadouro, sabia cortá-lo em folhas de uma espessura transparente, com grande perícia e habilidade, espalmando a mão esquerda sobre o fígado sanguinolento e abrindo-o finamente com o facalhão. As iscas transitavam deste para um alguidarão onde tinham previamente feito o escabeche, ou salmoura de vinagre, raspas de baço, alho, louro, sal e pimenta e outros ingredientes e temperos, ficando ali a aboborar largo tempo, tapado o alguidar com uma tampa de madeira e movido o seu conteúdo, de quando em quando, com um enorme e comprido garfo de ferro, que servia para arremessar depois as iscas à frigideira sobre a banha de porco que fervia. A banha, tinha-a o galego perto, em grandes boiões de barro, de onde a extraía com uma monstruosa colher de pau, às vezes até só com os dedos, e a frigideira só lá de tempos a tempos se lavava, acumulando os resíduos das iscas de muitos meses, que vinham a dar o seu particular às iscas que começavam a ferver e eram, depois passadas no riquíssimo e apetitoso molho, estiradas com o citado garfo no pratinho, depois de reduzidas na frigideira, com o mesmo garfo, a exíguas dimensões. As batatas estavam cortadas à parte, no tacho onde haviam sido cozidas, e eram espalhadas à mão sobre o pratinho.

- Mais uma com elas! Bai um de conserva! - Gritava o criado, no meio dos fregueses, em mangas de camisa, grandes sapatorros, sem gravata e com um barretinho de cores enfiado no alto da cabeça.

- Bai! Bai! - Respondia o cozinheiro retirando as iscas do alguidar para as levar à frigideira (…).

Ninguém as comia em família com mais gosto, e só os galegos lhes davam aquele precioso tique saboroso que apenas tinha como rival o cheiro particular do petisco, o qual atulhava as ventas do freguês e o atraía ao antro, lá de longe, visto que as vizinhanças da tasca se impregnavam do mágico odor a que ninguém resistia. A casa das iscas era manhosa e acanhada, com os seus bancos corridos e mesas de madeira, às vezes sem toalha, e os garfos pendiam, em algumas delas, de correntes que os ligavam às mesas, não fossem os fregueses safar-se com eles após o repasto.

Parece então que os pratos pregados à mesa lavados in loco surgem do exagero próprio dos mitos, mas os talheres presos com correntes são históricos. Pedro Manuel Pereira da Silva dá também informação mais detalhada sobre a localização dessas casas das iscas:

Na esmagadora maioria dos casos, as ditas Casas das Iscas estavam dispersas por toda a cidade (...). Algumas destas casas tornaram-se muito afamadas, como é o caso do Marreco das Iscas ao Salitre, junto ao Teatro Variedades, a Magina, às Portas de Santo Antão, ou a da Travessa do Cotovelo na esquina com a Rua do Arsenal, onde as Iscas (também designadas em calão de pelintras como «bifes de cabeça chata» ou «bifes sombrios») eram comidas de pé ao balcão e sem garfo, à maneira do moderno prego ou bifana, ou a da Travessa de S. Domingos e da Travessa da Queimada no Bairro Alto e eram geridas por trabalhadores da Galiza. Os galegos, com seu ar rústico, o seu estilo despachado e a sua pronúncia carregada, eram conhecidos por serem de entre as comunidades da capital aquela que se dedicava aos trabalhos mais pesados como moços de fretes, aguadeiros ou proprietários e empregados das denominadas Casas das Iscas. De acordo com o jornal Diário de Lisboa de 22 de Abril de 1944, a última Casa das Iscas a funcionar em Lisboa, na Travessa da Água em Flor nº 165, no Bairro Alto, fechou as portas em 1943, tendo o edifício sido posteriormente demolido.

Fiquei também a saber, à leitura do texto de Pedro Manuel Pereira da Silva, que as iscas vieram substituir a anterior chanfana, que não era o que hoje se conhece com esse nome na Beira, mas antes fressura preparada sensivelmente como as iscas vieram depois a ser preparadas e que era, no séc. XVIII, um prato muito consumido em Lisboa. Eis como Nicolau Tolentino descreve essa chanfana[2]:

«Perguntando o Príncipe do Brasil D. José — Que cousa era chanfana?»


Comprada em asqueroso matadoiro

Sanguinosa forçura, quente, e inteira,

E cortada por gorda taverneira,

Cujo cachaço adorna um cordão d'oiro;


Cabeças de alho com vinagre e loiro,

E alguns carvões, que saltam da fogueira,

Fervendo tudo em vasta frigideira,

C'os indigestos figados de touro;


Suavissimo cheiro, o qual augura

Grato manjar, mas que por causa justa

Dá um sabor, que nem o dêmo o atura;


Isto é chanfana, e sei quanto ella custa;

Deu-me o berço, dar-me-hia a sepultura,

A não valer-me a vossa mão augusta.

Mas deixemos esse sarapatel e voltemos aos fígados. A minha experiência é que não há maneira de tirar ao fígado o sabor a fígado, a não ser misturando-o com tanto toucinho ou carne de porco e outros ingredientes que o fígado se torne minoritário, como nos pâtés e terrinas. E mesmo assim… Cá em casa, ninguém, tirando eu, gosta de fígado; e têm sido bastante vãos os meus esforços de lhe disfarçar o sabor do fígado com caris e molhos... Pessoalmente, se o fígado é bom, nem é preparado à portuguesa que mais gosto dele: prefiro-o cortado em fatias de uns dois centímetros de largura, só temperadas com sal e pimenta e salteadas em manteiga — tendo o cuidado de deixar a carne rosada no meio! — e salpicadas no fim com alho picado muito fininho (espremido no espremedor de alho) e umas gotas de vinho da Madeira só um meio minutinho antes de as tirar do lume.

E sobre fígado, por agora é tudo.

________________

[1] De facto, é uma tradução tão livre que talvez seja melhor chamar-lhe reescrita. Não sofre, pelo menos, de um mal comum das traduções, o excesso de «apego» ao original — e nem de deselegância. Um exemplo, só para verem onde quero chegar:

Here again was a question. The Winchester repeaters—of which we had two, Umbopa carrying poor Ventvögel’s as well as his own—were sighted up to a thousand yards, whereas the expresses were only sighted to three hundred and fifty, beyond which distance shooting with them was more or less guess-work. On the other hand, if they did hit, the express bullets, being “expanding,” were much more likely to bring the game down. It was a knotty point, but I made up my mind that we must risk it and use the expresses.

Lembro-me que no nosso immenso alvoroço tivemos uma rapida e atarantada discussão, em voz baixa e tremula—se deviamos aproximar-nos da caça ou fazer fogo d’alli, se deviamos usar as carabinas Winchester ou a «Express»! Indecisão terrivel—porque de acertar ou falhar dependiam as nossas vidas. Fui eu por fim que me decidi. Se tentassemos atravessar o pendor de neve, podiamos espantar o rebanho. E a carabina «Express», apesar d’um alcance inferior, era preferivel—porque as balas explosivas mais facilmente apanhariam algum dos antilopes.

[2] Podem ler aqui outras descrições dessa mesma chanfana por Bocage e outros poetas da época.