Eis um excerto que transcrevi (e que traduzo) de uma entrevista a Robert Sapolsky no site Vert Dider*.
Entrevistador: Quando diz que não há livre-arbítrio, o que quer dizer exatamente com livre-arbítrio? Porque parece que isso faz confusão a muita gente…
Robert Sapolsky: Uma pessoa faz um gesto: move o dedo e este [dobra]… O cérebro diz-lhe para fazer isso ao dedo — é o comportamento o mais simples e fundamental que se possa imaginar… E é uma ação perfeitamente insignificante, que por acaso tem consequências muito importantes, porque essa pessoa está a puxar o gatilho de uma arma. (…)
Os neurobiologistas podem localizar o neurónio no córtex motor que enviou os sinais para aqueles músculos se flexionarem; e poder-se-ia depois encontrar os neurónios no chamado córtex pré-motor, que enviaram sinais que acionaram esse córtex motor para enviar esses sinais; e poder-se-ia depois encontrar neurónios no córtex frontal que desencadearam tudo isso; e depois encontrar neurónios no córtex pré-frontal que por sua vez o acionaram; e neurónios nas áreas emocionais do cérebro que acionaram esses neurónios e, basicamente, mostrar os neurónios que deram início a essa sequência de acontecimentos em cascata.
Um neurónio que tenha sido ativado com um potencial de ação sem motivo nenhum, um neurónio cujo acionamento não tenha sido regulado pelas leis físicas do universo, um neurónio que tenha sido ativado sem uma causa anterior — mostre-me um neurónio que tenha dado início a tudo e que funcione dessa maneira, e então já podemos falar de livre-arbítrio. Tem de me mostrar uma espécie de elemento neurobiológico de base que seja constitutivo do livre-arbítrio — e isso simplesmente não existe. Não há causa sem causa. Não há nada na biologia do nosso comportamento que aconteça a partir de coisa nenhuma. Todos os acontecimentos biológicos que se dão em nós têm uma história.
Tudo isto é tão evidente como difícil de aceitar, ao que vejo. Mesmo pessoas que aceitam, como Sapolsky — e eu —, que não faz sentido falar de nenhum mecanismo de ação fisicamente imotivado, continuam, na prática, a recusar a ideia de que não decidem livremente o que fazem. Na realidade, não há nada de novo nem de muito surpreendente nas afirmações de Sapolsky. Há muito que são aceites por toda a gente que existem motivações inconscientes para as nossas ações e que somos moldados pela nossa herança genética, pela bioquímica do nosso corpo e pelo meio onde vivemos, incluindo uma história de vida e permanentes estímulos do exterior. Mas dar um passo mais, só um passinho avante, e aceitar que, quando pensamos decidir alguma coisa, não o estamos de facto a fazer, e apenas a seguir uma interminável sucessão de reações simples — isso é muito difícil.
Há um senhor chamado David Lawrence que tem um canal de YouTube só para refutar a ideia de que o livre arbítrio é uma ilusão. Há pessoas em quem a ideia de que somos seres programados provoca sempre veementes reações. Num dos seus vídeos curtos, David Lawrence diz que há uma contradição no cerne do determinismo (traduzo eu):
Se alguém disser que os nossos pensamentos são causalmente determinados, está a dizer que esse pensamento é causalmente determinado. Os deterministas não acreditam no determinismo por ser verdade. Nos seus próprios termos, acreditam nele porque foram forçados a acreditar. Não, não, não, diz o determinista, não, não, espere aí, é mesmo verdade. As razões são: tal e tal e tal e tal. Mas esperem, esses pensamentos são também tão casualmente determinados como o pensamento que o determinismo é verdade. Não há maneira de se sair daqui. Não há verdade num universo causal.
Os deterministas acreditam, de facto, que são como são e que acreditam no que acreditam por razões concretas, cadeias de causalidade — que, como toda a gente, desconhecem quase completamente, porque são complexas demais para serem conhecidas. Mas isso não tem nada a ver com o valor de verdade das suas afirmações sobre o livre-arbítrio. Uma afirmação é verdadeira ou não consoante se adequa ou não ao observável. Ou mais verdadeira ou menos verdadeira consoante se adeque mais ou menos ao observável, se preferirem, mas, nesta discussão, podemos passar bem sem essa formulação mais afinada. A razão pela qual uma pessoa faz uma afirmação; o que a pessoa que faz a afirmação pensa sobre a razão pela qual a faz; ou o que os outros pensam que é — ou sabem ser — a razão pela qual a pessoa faz a afirmação são sem relevância no julgamento do valor de verdade dessa afirmação. Podemos fazer uma experiência mental: imaginemos alguém que acredita que a Terra é plana (há, infelizmente, muita gente que acredita nisso…) e que é hipnotizado** para acreditar que a Terra é redonda. Aquilo que ele passa a acreditar é tão verdade como se ele acreditasse na esfericidade do planeta sem ser hipnotizado. Imaginemos uma pessoa que acredita que a terra é redonda porque lho disse um tio em quem tem muita confiança. Aquilo em que crê é tão verdade como se ela tivesse chegado a essa crença através de um processo experimental. Etc., etc., etc. Quanto à frase «Não há verdade num universo causal» — que obviamente se deve interpretar, neste contexto, como «quem afirma que tudo resulta de uma causa não pode acreditar em nenhuma verdade» — não se vê mesmo o que possa significar...
Voltemos à tomada de decisões. Há muitas críticas a experiências que se diz provarem que a consciência da decisão de uma ação de alguém é posterior ao início dessa ação nos seus sistemas nervoso e muscular, nomeadamente à famosa experiência de Benjamin Libet em 1983, e é provavelmente exagerado afirmar que há evidência clara da anterioridade da decisão relativamente à ação, mas também não há evidência neurofisiológica nenhuma do contrário, nem, como Sapolsky muito bem explica na entrevista transcrita acima, evidência nenhuma de uma instância de atividade cerebral não sujeita a uma história de reações. Ou seja, se há livre-arbítrio, não se sonha como funciona nem onde funciona.
Mas, como Sapolsky também gosta de nos recordar, não é preciso passar pela neurofisiologia de intenções, decisões e controlo para recusar a ideia de livre-arbítrio. O que se segue é meu, não de Sapolsky, mas segue a sua linha de pensamento. Suponhamos que, para o almoço numa cantina, tenho de escolher entre costeletas de porco e bacalhau; e, porque gosto mais de bacalhau ou porque me está a apetecer mais bacalhau, escolho bacalhau. Fui eu que escolhi. Podia ter escolhido costeletas, mas escolhi bacalhau. Mas porque é que gosto mais de bacalhau ou porque é que me estava a apetecer mais bacalhau? Escolhemos gostar daquilo de que gostamos? Escolhemos apetecer-nos o que nos apetece? Agora, outro exemplo muito diferente: fui preso pela polícia política de uma terrível ditadura porque faço parte de um grupo que trabalha para a derrubar; e sei que, se não revelar o nome e a localização dos meus companheiros, serei morto. A escolha é minha. Se não tiver medo da morte, deixarei que me matem e não atraiçoarei ninguém; se tiver um pavor pânico da morte, direi tudo o que sei dos meus companheiros. Mas ninguém escolhe se é mais forte que o medo da morte ou não, se é um herói ou um humano médio, digamos assim... Estas coisas não se escolhem, é-se como como se é.
Entre estes dois polos opostos de um gradiente de dificuldade e responsabilidade de escolhas, podemos imaginar todas as que quisermos. Se, a cada escolha, nos perguntarmos o que é fez de nós a pessoa que faz aquela escolha, demos as voltas que dermos, foram sempre coisas que nós não decidimos: os pais que nos deram, já no momento da nossa conceção, potencialidades e limitações inatas, a relação com a família, a educação, uma classe socioeconómica e um meio social e cultural, os milhares de acidentes que vão fazendo a nossa vida. Somos, em cada momento, o resultado disso tudo e depois o resultado disso gosta de bacalhau e não consegue encarar de frente a morte. E quando chega à altura de escolher, escolhe (???) o que tem de escolher...
_________________
* Podem ver o vídeo aqui, mas é difícil acompanhar a conversa, por causa da tradução em russo que lhe foi colada por cima. O vídeo sem a «tradução simultânea» em russo já não se encontra disponível no YouTube (é agora «privado»), mas podem facilmente encontrar-se muitos vídeos em que Sapolsky fala da questão do livre-arbítrio, dizendo o mesmo que aqui diz.
** Não digo que isto seja possível, é uma experiência mental. Se preferirem, para ser completamente fantasiosa, imaginemos que é um extraterrestre com o poder de mandar na mente dos humanos que lhe altera a crença. Nada disso interessa para o meu argumento.

