01/07/26

Dois apontamentos sobre comida tradicional – história, cultura e gastronomia


Como é que uma comida se torna tradicional? 

A ideia de que a cultura material de um povo é, se não completamente determinada, pelo menos grandemente influenciada pelas condições naturais dos lugares que esse povo habita é tão sensata que é difícil pô la em causa. É interessante constatar, porém, que às vezes se observam certos fenómenos culturais, certas tradições, que parecem tão a contrapelo dessa lógica que uma pessoa se sente baralhada com o seu aparente desarrazoado.   

Três exemplos que me vêm imediatamente à cabeça, da área da gastronomia: Se os pratos típicos de uma região se vão desenvolvendo a partir dos ingredientes disponíveis nessa região (nativos ou importados, não importa, contanto que lá existam), porque é que as passas de uva são um produto indispensável nos lares dinamarqueses e de outros países do norte da Europa, e já de muito antes da moderna globalização culinária? E porque é que o maçapão de Lübeck é uma Indicação Geográfica Protegida, quando não há amendoeiras no norte da Alemanha? E porque é os portugueses consomem há tanto tempo tanto bacalhau, quando o importaram sempre quase todo? 

Parece-me muito provável que, algumas vezes, seja precisamente a raridade de um produto — importado, por ser inacessível localmente, e por isso consumido apenas pelas classes mais ricas — que o torna desejado e, por razões nem sempre fáceis de explicar em pormenor, que faz dele um produto necessário à «boa mesa», sobretudo quando passa a ser mais abordável para um maior grupo de pessoas. Creio que é isto que se passa com as passas e o massapão no norte da Europa.  

As passas de uva são consumidas há muito tempo no norte da Europa, principalmente em bolos e inicialmente como especiaria. Foram, durante muito tempo, uma das poucas fontes de açúcar que havia — um produto de luxo reservado à nobreza e algum clero. Depois, como marca de estatuto social, foram também adotadas pela burguesia e depois por toda a gente, à medida que se iam tornando mais acessíveis a todas as bolsas. [1]  

O maçapão de Lübeck tem uma história semelhante. Referido pela primeira vez nos registos da Guilda de Lübeck em 1530, o maçapão era um produto de luxo, com pretensas propriedades medicinais, que só podia ser fabricado e vendido pelos boticários. E, como produto de luxo que era, comia-se sobretudo nas festas dos ricos. Se o de Lübeck se tornou famoso, foi pela sua qualidade: a cidade era um grande centro comercial e era, por isso, possível assegurar aí o fornecimento de pasta de amêndoa, um produto importado do sul e cuja escassez fazia que, em muito outros sítios, o maçapão fosse quase só açúcar sem amêndoa. A partir do início do séc. XIX, com a abolição das corporações, o maçapão passou a ser produzido por pasteleiros e, poucas décadas depois, havia já várias fábricas de maçapão na cidade. O maçapão era agora mais barato, ao mesmo tempo que aumentava o poder de compra dos consumidores; e espalhou-se pelo norte da Europa. [2]    


Já a história do consumo de bacalhau em Portugal não é em nada semelhante. Não se trata, neste caso, de um produto de luxo que se tornou depois mais acessível a todos.  

Muito consumido em Portugal desde o séc. XVI, o bacalhau sempre foi comida do povo, uma situação que não era, aliás, exclusiva de Portugal: o bacalhau foi, durante séculos, um produto de consumo comum em toda a Europa, sobretudo entre as classes mais pobres. Dizem José Manuel Sobral e Patrícia Rodrigues no seu estudo O fiel amigo: o bacalhau e a identidade portuguesa :  

Cremos que a razão da [exaltação do bacalhau] em Portugal radica, em última instância, na celebração pelas classes populares rurais e urbanas de um alimento que enriqueceu uma dieta secular pobríssima feita de pão e de alguns vegetais ou toucinho. 

Agora, se nos séculos XV e XVI os portugueses iam pescar bacalhau no Atlântico Norte, entre o século XVI e fins dos séc. XIX o bacalhau era todo importado; e, mesmo quando a pesca nacional de bacalhau foi aumentando ao longo do século XX e Portugal chegou brevemente a ser, na década de 1950, o maior pescador mundial de bacalhau, continuou a importar-se cerca de um quarto do bacalhau consumido.  

Passados 70 anos, o bacalhau é de novo todo importado, como o foi durante séculos, e continuamos a ser de longe os maiores consumidores de bacalhau do mundo, como já somos pelo menos desde os anos 30 do século XX. Mas não só de bacalhau — de peixe em geral. Todos os dados que encontro sobre o consumo de peixe indicam que, se excetuarmos pequenos territórios insulares, Portugal é atualmente o maior consumidor de peixe per capita. E 80% do peixe que se come em Portugal é, como o bacalhau, importado. [3]  

Não vou desenvolver esta questão, por muito que ela seja interessante. O que me interessa aqui salientar é que não é preciso um produto existir num determinado sítio para fazer parte da gastronomia desse sítio. O preço é com certeza uma condicionante, mas mesmo um preço elevado não parece fazer excluir totalmente um produto que tenha passado a fazer parte de uma tradição — do que se considera normal. E, para isso, pode haver várias razões: por exemplo, pode ter-se tornado um produto alimentar de base por ter sido já considerado de elite ou, no extremo oposto, por ter sido a mais barata fonte de proteína para as classes populares — e talvez por muitas outras possíveis razões entre estes dois extremos… 

E o que é que se pode considerar tradicional?  

Conheci também há pouco tempo um brevíssimo ciclo de quatro canções de Leonard Bernstein , cujos textos são excertos de receitas de La Bonne Cuisine Française , um clássico de Emile Dumont, de 1889 . A receita de plum pudding de Dumont pede, como única gordura, sebo de rim de vaca, de que se devem retirar todas as peles e veios, e picar até ficar reduzido a pó fino. Acho que quem se proponha hoje seguir estas receitas substitui a gordura de rim de vaca por manteiga, não vos parece? Ou banha, vá que seja — ainda há bolos feitos com banha, mesmo industriais. Mas gordura de rim de vaca?

Se uma receita de fins do século XIX nos pode parecer exótica, mais exóticas nos podem parecer receitas mais antigas. Tive um livro chamado Notas de Cozinha , de Leonardo da Vinci, que me serviu de introdução à estranheza da gastronomia do passado. Como já não tenho o livro de notas de Leonardo da Vinci em português, traduzo uma receita d a versão em espanhol a que tenho acesso: 

Sopa de amêndoa 

Fervem-se alguns nabos tenros numa panela onde se pôs uma cabeça de ovelha cozida; depois, desfaz-se tudo com sal, pimenta e sementes de cominho, junta-se-lhes um ovo para ligar esta mistura e com ela fazem-se bolas e outras formas que se cobrem com migas de pão. No centro de cada uma destas bolas e formas coloca-se um testículo de borrego cozido. Põe-se tudo [a fritar] numa frigideira com óleo até ficar duro e castanho e serve-se.   

Leonardo da Vinci acrescenta que desconhece por que razão este «famoso prato milanês» é conhecido como sopa de amêndoas e eu também não faço ideia. Talvez amêndoas fosse um termo eufemístico para testículos. Mas o que me interessa aqui é o facto de ser um prato conhecido. Não se fica a saber quem o comia, é certo, e um problema destes livros de receitas antigos é darem conta apenas do que se comia nas casas dos ricos. Parece-me provável, até pelos ingredientes, que este prato não fosse comido apenas em banquetes de nobres, mas não sei… 

José Manuel Sobral e Patrícia Rodrigues notam, no texto atrás referido, que não há receitas de bacalhau no mais antigo livro de cozinha português, A Arte de Cozinha , de Domingos Rodriguez, de 1680, e esse reparo fez-me revisitar o livro, que eu já conhecia. Domingos Rodriguez foi cozinheiro do Conde de Vimioso e do rei Pedro II, de maneira que aqui não temos dúvidas de que é da cozinha dos ricos que se trata. Há, neste livro, muitas receitas que nos parecem hoje estranhíssimas, algumas com quantidades enormes de ovos, com muito açúcar e fruta em pratos de carne, etc. Deixo aqui uma, que escolhi porque Domingos Rodriguez a descreve como «um prato ordinário» (no sentido de «comum», nota-se, não no sentido pejorativo que muitas vezes tem hoje) e deixo aqui a grafia original, que lhe dá outro… sabor.  [4]   

Sopa de qualquer genero de aßado.  

Feito hum vintem de paõ em fatias, ponhaſe hũa cama dellas em hũa frigideira grande untada de manteiga, cubraõ-ſe de açucar, & de canella, & ſobre eſta cama ponhaſe outra da meſma ſorte, & por cima della hũa pequena de manteiga de vaca lavada, & açafraõ, deitem-lhe hum pouco de caldo de galinha, ou de carneiro, & deixe-ſe eſtofar de vagar em pouco lume; & logo tirandoſe fóra do lume, deitem-lhe huma duſia de ovos por cima (ou menos, conforme for a frigideira) com açucar, & canella : feito iſlo, tomeſe hũa tampa com lume, & ponha-ſe hũ pouco levantada ſobre a ſopa até que tome boa cor ; tirada da frigideira, & poſta no prato, ſe trinchará o aſſado, que podem fer galinhas, ou frangãos, ou põbos, ou perùs. Este he hum prato ordinario.

Chamou-me a atenção o surpreendente requinte técnico do «gratinado» com a tampa a arder colocada por sobre a frigideira. 

Mas não há dúvida de que o passado é um país distante. E as tradições, essas, não são na maioria muito antigas. Também na gastronomia. Quantos anos têm as receitas tradicionais portuguesas, francesas ou italianas que todos conhecemos hoje? De cada vez que me ponho a explorar a história de uma delas, descubro sempre que não são tão antigas como isso. [5]  

De maneira que insisto, espraiando a partir da gastronomia: não tentemos dar aos elementos que se dizem constituir uma identidade nacional um caráter trans-histórico que eles, de cada vez que se investiga, se verifica não terem. O que se come hoje em Portugal é muito mais parecido com o que come hoje na Dinamarca do que com o que se comia em Portugal há 500 anos. E o que se veste. E o que se pensa. Etc.  


Imagens:
[Muitos quilos de passas] Membros da União dos Cozinheiros preparando um plum-pudding gigante, xilogravura para o jornal The Illustrated London News de 3.1.1863, daqui
[Outros maçapães nórdicos] A fábrica de maçapão M. Zappa na Schloßplatz de Königsberg, atual Calininegrado. Carta postal, autor desconhecido, s.d. anterior a 1914. Bildarchiv Ostpreußen, daqui
[Terra nova e Labrador] Barco de pesca com bacalhau (e halibute pendurado), foto de N.B (?) Miller, s.d. (anterior a 1927), Biblioteca do Congresso dos EUA, daqui

____________________

Notas:

[1] Não encontrei nada específico sobre a história das passas de uva no norte da Europa, mas vários sites dizem o mesmo que esta página  ou esta página , por exemplo. Para uma cronologia da história das passas de uva, ver aqui .  

[2] Esta informação é tirada das páginas da Wikipédia sobre o massapão de Lübeck em três línguas diferentes, que se completam: as páginas   em francês, em alemão e em inglês

[3] Toda a informação sobre o bacalhau é tirada de duas fontes, que aconselho: o estudo de José Manuel Sobral e Patrícia Rodrigues O fiel amigo: o bacalhau e a identidade portuguesa (2013) e o episódio «Faina maior, a pesca do bacalhau»  (2015) da série televisiva História a História,  de Fernando Rosas, que inclui uma entrevista a um especialista da história do bacalhau, Álvaro Garrido. Para Informação sobre a importação de peixe, ver aqui ou aqui .

[4] A página em inglês do artigo da Wikipédia sobre Alfred Korzybski inclui um curioso episódio referido num jornal neerlandês, que eu traduzo: 

Um dia, Korzybski estava a dar uma aula e, de repente, interrompeu-a a aula para tirar da pasta um pacote de bolachas, embrulhado em papel branco. Disse que precisava mesmo de comer alguma coisa e perguntou aos alunos da primeira fila se também queriam uma bolachinha. Alguns estudantes aceitaram uma bolacha. «Boas bolachas, não acham?», perguntou Korzybski, e comeu mais uma. [..] Depois, rasgou o papel branco onde as bolachas estavam embrulhadas, mostrando a embalagem original. Via-se uma imagem de um focinho de cão e as palavras «bolachas para cães». Quando os alunos viram a embalagem, ficaram chocados. Dois deles sentiram vómitos, taparam a boca com as mãos e saíram da sala a correr. «Vejam», comentou Korzybski, «acabo de demonstrar que as pessoas não comem só comida, mas também palavras, e que às vezes conta mais o sabor das palavras que o sabor da comida.

Peço desculpa pela excursão, mas gosto muito desta história. 

[5] Como diz Luís Pontes no seu blogue

[a] ideia generalizada de que aquilo que comemos e a que se convencionou chamar «cozinha tradicional portuguesa» é um património que nos acompanha enquanto povo desde tempos imemoriais é um dos mais lamentáveis logros, que nos é vendido por uma certa «gastronomia» que, à falta da criatividade e reinvenção de que a Gastronomia é feita, nos impinge uma cozinha geralmente com meia dúzia de dezenas de anos (a cozinha de infância destes gastrónomos), que tem sido perpetuada numa visão museográfica da cozinha [...] .



10/06/26

Almanaques


Escrevia eu a 5 de março deste ano, numa espécie de diário de viagem que eu tinha:

Quando faço uma viagem longa como esta, quero ter o menos bagagem possível, e, como escolhi criteriosamente tudo aquilo que havia de me fazer falta, decidi que não comprava nada durante a viagem. Mas é uma decisão às vezes difícil de respeitar, sobretudo quando o objeto que nos seduz pesa apenas uns gramas e custa meio euro…

Era ao Almanaque de Bristol que me referia. Esclarece a Wikipédia em espanhol (traduzo eu):

O Almanaque de Bristol, cujo nome completo é Almanaque pitoresco de Bristol, é una publicação da empresa Lanman & Kemp-Barclay & Co. Inc., de Nova Jérsei, EUA, para promover os seus produtos de saboaria e perfumaria. É publicado ininterruptamente desde 1832, sendo muito popular desde princípios do século XX nos países da América Latina, para os quais a empresa faz edições nacionais ou regionais.

Sabões e perfumes! Nunca me teria passado pela cabeça. Interessantes estratégias de publicidade que havia antigamente. Diz também a Wikipédia que o Almanaque é, por isso, gratuito, mas que também se vende às vezes por preços muito baixos — o tal meio euro que paguei…

A página da Wikipédia tem ainda (não há enciclopédia como esta!) uma secção «O almanaque e a literatura», com informação fascinante:

Devido à sua popularidade, o almanaque de Bristol é mencionado por destacados escritores hispano-americanos como parte do quotidiano ou como referência e fonte de consulta comum de personagens de novelas e contos, como é o caso de Gabriel García Márquez nas novelas A revoada e O amor nos tempos de cólera, e nas suas memórias Viver para contá-la. Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares também o mencionam na sua obra conjunta publicada com o pseudónimo H. Bustos Domecq Seis problemas para Dom Isidro Parodi, e o mesmo fazem Miguel Ángel Asturias em Mulata de tal e o escritor salvadorenho Napoleón Rodríguez Ruiz na sua novela costumbrista Jaraguá.

Não me surpreende nada que Borges e Bioy Casares refiram o Bristol. E o parágrafo citado da Wikipédia quase podia também, sem a referência a García Márquez, ser um parágrafo de um conto de Borges… O mais interessante, porém, é o parágrafo seguinte:

O historiador e ensaísta colombiano Germán Arciniegas assinalou que o Almanaque de Bristol teve nele uma profunda influência e diz:

«A minha curiosidade literária, como a de quase todos os da minha geração, não nasceu de me ter ido parar às mãos nem Homero, nem Cervantes, nem Virgílio, mas sim o Almanaque de Bristol

O link para a fonte da citação está morto, mesmo no Wayback Machine, mas não duvido de que Arciniegas tenha dito a frase. Mas, se não, façamos de conta que é uma fantástica citação borgiana…

O Bristol é quase igual ao Borda d’Água, o mítico almanaque português, só que este último, se bem que quase centenário, é quase 100 anos mais novo que o almanaque americano: o Borda d’Água é publicado pela Minerva desde 1926. 

Quando vivia em Portugal, comprava todos os anos o Borda d’Água, não sei bem porquê nem para quê… Uma das coisas que me seduzia era o nome. Borda d’Água é um nome muito bonito, com o aquele apóstrofe, B, D´D e G sonoros, o Ó e Á tónicos, tudo muito harmonioso... Quem terá inventado esse nome? Soa misterioso, não soa? Significará algo que eu desconheço? Ou é mesmo só orla, fímbria, litoral? Chama-se assim porque traz as marés? Outro aspeto atraente é o grafismo, que é desusado. Histórico, se se preferir: há coisas que nunca mudam, como os movimentos dos astros e a sequência das estações e dos anos. 

O Borda d’Água traz o mesmo que o Bristol, tirando os anúncios de sabões e perfumes: signos e horóscopos, calendário com feriados, festas e santos dos dias, nasceres do sol e ocasos, marés, fases da lua, datas de nascimento de pessoas célebres, início das estações do ano, eclipses… Deve ser o que trazem todos os almanaques. Mas o Borda d’Água traz conselho para a agricultura, a jardinagem e os animais, que o Bristol não traz; e o Bristol tem recomendações para a pesca e duas páginas sobre cuidados e ter com a água, que o Borda d’Água não tem. Mas como, se ele é que é Borda d’Água? E o Bristol tem uma historieta moral em oito quadros, um texto sobre inteligência artificial (!) e uma página de «frases célebres». Uma dessas frases é atribuída a uma «edição imaginária» do próprio Almanaque de Bristol, outra a uma sua «edição profética» e outra ainda a um «poeta das estrelas». Estas atribuições também são algo borgianas, ao contrário das frases atribuídas, que são demasiado desinteressantes para eu aqui as transcrever.  O Borda d’Água também tem aforismos, mas de autores desconhecidos, os chamados provérbios populares — um para cada mês do ano: «Junho floreiro, paraíso verdadeiro»...

Não é só o grafismo que é doutros tempos, também a informação: já ninguém quer saber dos santos de cada dia, nem de feiras anuais… E, se houver ainda quem queira informação sobre marés, estações e equinócios, ou seja lá o que for, aliás, tem outras maneiras, mais rápidas e mais acessíveis, de a encontrar. Sem o papel finíssimo e o homem de cartola na capa. Se é pena ou não julgará o sentir de cada um, que ser pena, aqui, não é julgamento da razão. 


08/06/26

Da arrenegação das duplas negativas, uma coisa que agora há


Já uma vez aqui o disse, mas quero agora insistir e desenvolver: essa moda que há agora de defender que as frases negativas só podem ter uma palavra negativa (não, nada, nenhum(ns)/a/as) é simplesmente  sem muitos pés nem muita cabeça. Ao contrário do que pretendem alguns (realço com negrito todas as palavras negativas),

Não fiz nada

não quer dizer «fiz tudo» e a forma correta de negar toda a atividade não é nem

− *Não fiz alguma coisa

que soa a barbarismo, nem

Não fiz tudo,

que obviamente significa outra coisa.

Ao contrário do que pretendem outros

− *Vi nada ou 

− *Conheço aqui ninguém

são simplesmente frases mal construídas. 

Falar e escrever assim é um erro. E não é erro no sentido em que muita gente usa a palavra de «não conforme com a norma culta», até porque eu não escrevo textos a criticar esse tipo de «erros». É erro no verdadeiro sentido da palavra: essa construção não existe em nenhuma variante, seja ela regional ou social, da língua portuguesa; a não ser, claro está, nos últimos tempos, depois de se ter começado a espalhar a ideia estapafúrdia de que a dupla negativa é erro. Começa-se, aliás, a ver essas construções em textos de pessoas que até escrevem bem — o que é bastante interessante, para refletir sobre como se espalham estes fenómenos de pretensa correção... 

O argumento usado para defender estas construções estranhas ao português é pretensamente lógico: duas negações cancelam-se mutuamente, portanto de duas negativas resulta uma positiva: 

− Não vi nada

significaria, assim, «vi alguma coisa» e

Não conheço ninguém

significaria «conheço alguém». Este argumento «lógico» é falacioso, como explicarei mais à frente, e o que eu creio que está por trás dessa recente tomada de consciência de, ai!, uma tão grande falha de lógica! é antes do inglês, cuja norma culta não aceita duplas negativas. 

Em inglês padrão (e noutras línguas germânicas) não é obrigatório um termo negativo antes do verbo em frases negativas e usam-se determinantes, pronomes e advérbios específicos depois do verbo, consoante se tenha ou não usado a partícula de negação antes. Assim, segundo essa norma  

I didn’t see nothing (palavra a palavra, um pouco simplificado: «Eu não vi nada»)

é errado, devendo antes dizer-se

I didn’t see anything (palavra a palavra, um pouco simplificado: «Eu não vi qualquer coisa») ou 

I saw nothing (palavra a palavra: «Eu vi nada»)[1]

Mas não é o inglês que aqui me interessa, é antes a maneira como se pretende aplicar esta norma ao português. Algumas pessoas, sem grande ideia de como diferentes línguas podem funcionar de diversas maneiras, consideram que a língua deve obedecer ao que eles consideram lógica — algo de que a norma culta do inglês seria bom exemplo — concluindo que as línguas latinas devem seguir o mesmo modelo. 

Vejamos então a questão da lógica. Não se pode dizer que as línguas naturais não sejam lógicas, mas a lógica das línguas é diferente da lógica matemática e de outros tipos de lógica. Essa diferença pode ilustrar-se com exemplos simples e, como não me quero alargar muito sobre o tema, deixo-vos um dos mais óbvios: existem na língua muitas aparentes tautologias, que têm, na realidade, um significado bem diferente de x=x — embora nem sempre seja fácil, mesmo para os especialistas, explicar esse significado. Todos os falantes do português intuem que uma frase como «essa é que é essa» quer dizer algo, mas como descrever o que significa? O mesmo se passa com «um homem é um homem» ou «Trabalho é trabalho, conhaque é conhaque» ou a famosa frase «um gato é um gato, um cão é um cão, xxxxx é aquilo que os outros não são» (perdoem os xx, mas não quero fazer aqui publicidade...). Uma transcrição desta última proposição que fosse feita hipoteticamente por quem diz que duas negativas dão forçosamente uma positiva poderia ser x=-(-x), o que evidentemente não é de modo nenhum o que a frase diz, até porque, se o dissesse, não seria usada em publicidade...[2] 

Enfim, haveria uma número muito grande de exemplos a dar e muito mais a dizer sobre estas coisas, que são muito interessantes, mas não é essa a intenção do texto. O que eu quero é deixar claro que a lógica da língua não é imediatamente acessível a quem atribua simplesmente um valor determinado a cada forma linguística, em vez de se dotar de instrumentos eficazes para descrever o que se passa de facto quando criamos significado.

Além disso, mesmo para quem insista na lógica matemática, poder-se-ia argumentar, como eu já ouvi a alguém, que as línguas de concordância negativa também têm uma lógica matemática, só que, em vez de ser a da multiplicação, como as línguas germânicas, é a da adição: em inglês é menos por menos dá mais, em português é menos mais menos dá menos. Está bem assim? 

Mas passemos à negativa e à negação. As diversas línguas têm várias maneiras de construir frases negativas. Há línguas em que é obrigatória uma negativa antes do verbo e outras em que não, línguas em que a negativa ocorre quase sempre depois do verbo, outras em que é expressa por uma forma flexional no verbo, etc. Não há nenhuma mais ou menos lógica que outras, todas servem para exprimir as mesmas proposições[3]

Há, pois, línguas em que, como já vimos, a dupla negativa cancela a negação, usando-se geralmente, neste caso, palavras não negativas como objetos do verbo ou com os objetos do verbo, quando este é negado. Estão neste caso, para referir apenas as línguas mais próximas da nossa, a variante padrão do inglês e a maioria das línguas do mesmo grupo, as chamadas línguas germânicas, como o alemão, o neerlandês, o dinamarquês, etc. 

Há outras línguas em que, nas negativas, uma palavra negativa pré-verbal convoca outras palavras negativas também após o verbo: o que se designa como concordância negativa ou negativa enfática. O português é uma das línguas em que se observa este fenómeno (e não há razão nenhuma para deixar de o ser, sim?).

Não quero dar-vos aqui uma lista extensiva das línguas com concordância negativa, até porque não quero dar exemplos em africâner ou farsi, mas podemos ficar-nos pelas línguas mais próximas e mais fáceis de compreender. As línguas latinas têm, em geral, esta característica[4], de maneira que, em castelhano, catalão e italiano tudo funciona como em português. O francês oral moderno é diferente, porque, como desapareceu a partícula ne, não tem obrigatoriedade de negativas antes do verbo, mas o francês padrão escrito (ou falado em situações formais) faz também parte deste grupo. 

Assim, as frases

Não vi nada. Não conheço aqui ninguém 

dizem-se, nestas línguas,

No he visto/ví nada. No conozco aquí a nadie,

No vaig veure res. No conec ningú aquí e

Non ho visto niente/nulla. Non conosco nessuno qui.

Em francês oral, é diferente (J’ai rien vu. Je connais personne ici), mas, em francês escrito, a estrutura é a mesma que nas outras línguas românicas:

Je n’ai rien vu. Je ne connais personne ici.

E porque é assim nas línguas latinas? Era já assim em latim? Não. Em geral, em latim clássico, as duplas negações resultavam numa afirmação, embora haja alguns escritores clássicos que usassem duplas negativas (Plauto: Iura te non nociturum esse homini de hac re nemini, «Jura que não farás, por isto, mal a ninguém.»). 

É interessante constatar que muitas das palavras negativas usadas hoje nas línguas latinas não são as palavras negativas latinas (nemo, nullus, nihil...) e nem sequer são, na origem, palavras negativas. Em português e castelhano, por exemplo, nada vem de [re(s)] nata, «[coisa] nascida»; nadie, «ninguém», em castelhano, vem de nati, «nascidos»; rien, em francês, res, em catalão, e ren, em galego, «nada» vêm de diferentes declinações de rēs, «coisa»; personne, «ninguém», em francês, vem de persona, «pessoa», aucun vem de aliquī unus, «alguém, qualquer pessoa, algo, qualquer coisa», pas vem de pas, «passo», etc. Seria abuso, porém, considerar que a dupla negativa é apenas uma forma cristalizada de palavras originalmente não negativas («não vi nada = não vi coisa nascida [coisa existente]»), porque algumas das palavras negativas, como ninguém em português e nunca em português e castelhano, são negativas à partida. Além disso, uma palavra como nada já não tem hoje, nenhum significado não negativo.

O único caso em português que não é originalmente uma dupla negativa e que se pode considerar inalterado desde há muito tempo é o de nenhum/ns (a/as), que é de facto sempre substituível pela expressão que llhe dá origem, nem um/ns(a/as)e que há até quem (muito poucas pessoas, eu sei, mas conheci algumas) continue a pronunciar exatamente como nem um

Mas, enfim, a verdade é que não é necessário saber porque é que um fenómeno linguístico é como é para constatar que ele existe. E a dupla negativa é um facto inegável nas línguas latinas desde sempre.

Agora, a minha experiência é que, em geral, é difícil argumentar com pessoas que defendem a estranha ideia que aqui critico, porque não se interessam muito por questões de língua, apenas por impor uma regra que decidiram adotar, vá lá saber-se porquê – até porque ela não figura em nenhuma gramática normativa que eu conheça. Contra essa tão rígida convicção, mesmo a apresentação de abonações de escritores considerados modelares no uso do idioma pode ser infrutífera. Uma vez, quando, após uma busca de poucos minutos, apresentei abonações de duplas negativas por Camilo Castelo Branco, Ramalho Ortigão e Luís de Camões, o meu interlocutor rejeitou-as como erros dos escritores. 

Mas, como se trata aqui de insistir, agora, em dois ou três minutos, encontro, nas Viagens na minha terra, de Almeida Garrett,

«O meu novelo, filha: não posso estar sem fazer nada, faz-me mal.»

«Mas eu não tenho ódio nenhum a Vila Franca, nem a esse famoso círio que lá foi fazer a monarquia.»

« … porque Addison não põe nada acima da modéstia»

«… depois desta desgraça não me importa já nada»

« Mas não viu nada: o nobre Marquês sempre soube esconder o seu jogo.»

N’Os Maias, de Eça de Queirós, encontro imediatamente

«Nenhum desejo forte parecera jamais vibrar naquela alma meio adormecida e passiva»

«– Sem contar que o pequeno está muito atrasado. A não ser um bocado de inglês, não sabe nada... Não tem prenda nenhuma

«– O Sr. Baptista não tem gosto nenhum

«Não inspira nenhum respeito pela minha ciência.»

«Carlos não sabia, essa manhã não vira jornal nenhum

− Então não lhe digam nada – gritou o marquês.»

E podia continuar com muitos mais citações destas duas obras e de todas as obras de todos os grandes escritores da língua portuguesa, porque, neste tipo de frases, a dupla negativa é tudo o que há — fora talvez de certas liberdades poéticas que eu não me lembro de ter alguma vez encontrado... Continuo a pedir a quem critique a dupla negativa que me apresente abonações do uso que consideram correto por bons utentes da língua. Até hoje, nunca ninguém me mostrou nem uma frase que fosse (ena, tantas negativas!) de um grande escritor que tivesse escrito algo do estilo de 

– *Uma pessoa não aprende alguma coisa ou

– *Uma pessoa aprende nada,

em vez de 

– Uma pessoa não aprende nada

Já agora — mas porque insistes tu, Vítor, porque insistes tu? — note-se que «uma pessoa não aprende alguma coisa» até é uma frase possível, num contexto como

– Se aprendi alguma coisa com a minha professora? Ora, com uma professora como ela, uma pessoa não aprende alguma coisa, uma pessoa aprende tudo o que há para aprender!.

Da mesma forma, «uma pessoa aprende nada» também é possível, num contexto bastante Zen como

– Com a paragem do diálogo interno, uma pessoa aprende nada, aprende vazio, aprende essência sem substância, a comunhão com o Todo pela anulação da Mente...

Não há nada impossível. Se for mesmo isto que se quer dizer...

E a propósito, nesta frase do parágrafo anterior,

Nãonada impossível

pela tal lógica matemática, deve cortar-se não e im-, que se anulam, e escrever

– Há nada possível?

E já agora, mais algumas perguntas aos detratores da concordância negativa:

– Mais do que nunca, sinto-me incapaz de não dizer senão a verdade

é uma frase negativa ou positiva? Eliminando a concordância negativa, como ficaria? E

Não haverá nunca ninguém que não deixe de se pronunciar sobre coisas de que, por não ter pensado nelas o suficiente, não sabe que chegue para não dizer disparates?

Não duvido que haja quem não tenha nunca pensado no que eu o escrevo, senão não o escrevia ?

Na frase

Não creio que ela saiba nada de negativas,

aceita-se a concordância negativa porque o escopo das negativas é diferente nos dois casos (eu não creio e ela não sabe)? E, se não se aceitar, qual é a lógica disso, se só há uma negativa para cada verbo?

– Se escrevermos as palavras «absolutamente nada» de trás para a frente, obtemos «adan etnematulosba», o que não significa absolutamente nada.  

Como se escreve esta frase com a norma de eliminação da concordância negativa? 

Esta última era a brincar, embora fosse a brincar a sério. Deixei-me levar, não liguem. E notem, porém, que não sou radical ao ponto de recusar construções como (é o que faz o Dicionário Huaiss

– Embora ferida, não recebeu qualquer ajuda da polícia

considerando que, em bom português, tem de se escrever

– Embora ferida, não recebeu nenhuma ajuda da polícia

e nem sequer recuso frases como 

Não estou de forma alguma disposto a pactuar nesta questão

que alguns puristas consideram galicismo, achando que, em português correto, se deve dizer e escrever

Não estou de forma nenhuma (ou nenhuma forma) disposto a pactuar nesta questão

Acho que são construções perfeitamente consagradas pelo uso, ao contrário das que aqui recuso.


Por fim, mais como digressão que conclusão, uma perspetiva diacrónica: naturalmente, a maneira como as línguas exprimem a negativa vai também evoluindo ao longo do tempo. E fá-lo segundo determinados padrões que resultam da diminuição da intensidade articulatória das partículas de negação ao longo dos tempos ou da criação de formas enfáticas de negação que acabam por se tornar as formas standards. Esta proposta de evolução cíclica, mais conhecida na versão do linguista dinamarquês Otto Jespersen, assenta na constatação de uma sucessão de fases que se observa em muitas línguas: 

(I) partícula negativa seguida de verbo; 

(II) partícula negativa seguida de verbo e de segunda partícula negativa; e 

(III) verbo seguido de partícula negativa. 

Roy Bualuan faz aqui (infelizmente só em inglês) um excelente resumo deste «ciclo de Jespersen». 

Quase todas as variantes do português estão atualmente na fase (I), com eventuais construções do tipo (II) para ênfase, como

– Ele não come nada, é um pisco

que não significa que a pessoa em questão não ingere alimentos em absoluto, senão já estaria morto, mas entende-se antes como «ele come muito pouco».

A fase (II) observa-se em variantes brasileiras com o redobro do não após o verbo, como em

Não sei não,

além de cadeias de concordância negativa, claro;

E, embora com menos frequência, observam-se também construções da fase (III), com um único não posposto ao verbo em variantes não-standard brasileiras:

– Dona Rute, aqui na rua? Conheço não, amigo

E, por agora, não tenho mais nada a dizer. 

_________________   

[1] Note-se que, embora não sejam termos negativos, any, anyone, anything, etc., não são termos positivos como o são some, someone, something, e não se usam apenas no escopo de um verbo negado, mas também no escopo de certos verbos não negados como em «he doubted he had seen anyone» — e não «he doubted he had seen someone»  *«I did’t see something» é tão agramatical como a frase que diretamente lhe corresponde em português, *«Eu não vi alguma coisa».

[2] Vejamos então, seguindo um raciocínio lógico, o que se passa quando digo, por exemplo, que

− A minha cadela está farta de saber que não pode trazer os ossos que lhe dou no quintal para dentro de casa, mas insiste, insiste, insiste sempre — não sei para quê, porque eu ponho sempre os ossos lá fora outra vez…

e a minha interlocutora comenta

− O que é que querias? Um cão é um cão, pá!

O que acontece é que uma mesma palavra pode significar várias coisas, por exemplo, referir um ser do mundo real ou a classe de todos os seres do mesmo tipo ou as características que o falante atribui a esse tipo de ser. O que a minha interlocutora diz, obviamente, é que «uma característica da espécie que não pode deixar de se aplicar ao teu cão é querer guardar os ossos no seu território e contra isso não há nada a fazer». As duas ocorrências da palavra cão têm, na sua resposta, significados diferentes.

[3] Há quem considere também que há dupla negativa nas frases em que um dos elementos da predicação nega a negação da predicação, como em «isto não está incompleto», em que «incompleto» significa «não completo». Creio que, neste aspeto, todas as línguas funcionam da mesma forma. Neste caso, há dupla negação, o que resulta numa afirmação, mas é duvidoso que haja dupla negativa em sentido estrito. Se admitirmos que «incompleto» é «não completo» e que, por isso, há duas negações na frase, como muitas palavras têm antónimos, mais ou menos perfeitos e mais ou menos graduáveis,  teremos de admitir que há dupla negativa em (i) frases como «esta folhagem não é caduca» ou «ele não está morto» (mas como se determina qual é o valor não negado em pares de adjetivos como «caduco» e «perene» ou «morto» e «vivo»?); (ii) em frases como «ele não é imberbe», por muito que «berbe» não exista; e (iii) em frases sinónimas da frase com a pretensa dupla negativa, por exemplo «isto não está por terminar» em vez de «isto não está incompleto» — e acho que ninguém o faz…

[4] Há até línguas em que tradicionalmente se usam,  sobretudo no discurso mais formal, duas negativas antes do verbo em contextos específicos:

Nada é gratuito, tudo tem um preço e ninguém pode negar que me esforcei

diz-se, em catalão e francês, respetivamente,

Res és gratuït, tot té un preu i ningú pot negar que m’hi he esforçat e

Rien est gratuit, tout a un pri et personne peut nier que j’ai fait un effort,

mas também se pode dizer e escrever (alguns puristas dirão que se deve...) 

Res no és gratuït, tot té un preu. Ningú no pot negar que m’hi he esforçat e

Rien n’est gratuit, tout a un prix. Personne ne peut nier que j’ai fait un effort

O mesmo fenómeno existia em português medieval, em que se documentam frases como «nehūu scapou nen nehūa cousa que na vyla ouvesse» e também em inglês médio (Chaucer: «He nevere yet no vileynye ne sayde», palavra a palavra: «Ele nunca [ainda] nenhuma vilania não disse»).  

Observa-se, curiosamente, uma construção parecida no português de Moçambique, que, não sendo ainda considerada standard, talvez se venham a fixar: em frases iniciadas com nem, com o sentido de «nem sequer», coloca-se um segundo não antes do verbo: «nem dinheiro para o chapa não tenho». 



Curgete


Notícias do quintal: estão os espargos a chegar ao fim (muitos espargos comemos em maio!), mas as curgetes começaram agora a dar e, como temos quatro plantas, vamos ter de apanhar curgetes quase todos os dias. Mas é praticamente a mesma coisa todos os anos e eu desenrasco-me sempre: se não arranjo dezenas de maneiras de cozinhar curgete, vou pelo menos metendo curgete em dezenas pratos, que é quase a mesma coisa. 

Isto a culinária é como tudo o resto, tem ondas. Houve alturas em que o prato com curgete que mais se comia cá em casa era ratatouille, mas normalmente uma ratatouille rápida, com os legumes ainda firmes. Depois houve um período de pastelinhos de curgete, não sei como lhes hei de chamar, assim uma espécie de peixinhos da horta com curgete ralada em vez de feijão-verde, mas com muito pouca farinha e só salteados em vez de fritos em óleo. Atualmente, porém — não é que a ratatouille e os tais pastelinhos tenham desaparecido, nada disso —, acho que os pratos com curgete que mais gosto de fazer são arroz de curgete e curgete com anchovas e alcaparras. 

O arroz de curgete à minha maneira faz-se assim: refoga-se bastante cebola e bastante curgete (não vale a pena picar muito fininho) em azeite, quando estiver bem refogado junta-se o arroz (de preferência, um arroz com bastante goma) e deixa-se absorver a gordura, deita-se um bocadinho de vinho branco ou vinho da Madeira, conforme prefiram mais ácido ou menos ácido, deixa-se o vinho evaporar e junta-se caldo de legumes. Não digo aqui nada sobre o sal, mas cada um é que sabe como gosta, se o caldo que utiliza já tem sal e se o queijo que vão utilizar mais tarde é muito salgado ou não.

Entretanto, enquanto o arroz coze, refoga-se mais curgete com cebola noutra frigideira. Mais curgete que cebola, desta vez, O melhor até é começar a refogar antes de começar o arroz, para dar tempo a esta porção de curgete e cebola de refogarem muito devagarinho, com o menos de coloração possível. Pode ir-se juntando água, se secar. E sal, se quiserem. 

Quando o arroz estiver quase pronto (não deve ficar muito seco, mas também não deve ficar a nadar em líquido) põe-se um bocado de queijo e, se se quiser, um bocadinho de nata. 

Passa-se com a varinha o refogado de curgete e cebola da outra frigideira e junta-se o creme resultante ao arroz. Verifica-se sal e junta-se um bom bocado de pimenta preta, de preferência moída na altura. 

Não tenho fotografias de arroz de curgete e é pena, porque fica muito bonito, mas tenho de curgete com anchova e alcaparras, que fiz ontem. Aliás, não é bem anchovas e alcaparras, porque não tinha anchovas cá em casa, é com molho de soja em vez de anchovas, uma alternativa possível. Mas com anchovas é melhor. 

A receita é muito simples. Corta-se a curgete em tiras muito finas. O melhor é usar a lâmina da mandolina para fazer tiras, como eu faço, mas também se pode fazer à mão, dá é muito mais trabalho. Salteiam-se as tiras de curgete num bocadinho de azeite a fogo muito brando durante alguns minutos e junta-se depois um punhado de alcaparras e de anchovas dessas de lata, salgadas, tudo picado. Deixa-se apurar mais uns minutos, retifica-se o sal e junta-se um pouco de pimenta preta. Também se pode pôr sal antes, mas a curgete vai largar água e a consistência fica diferente. Até se pode, se preferirem, pôr as tiras de curgete em água com um bocadinho de sal antes de as saltearem, vocês verão, depois de experimentarem, que maneira vos agrada mais. 

E bom proveito!



28/05/26

Recordações de infância: o amolador


A nostalgia coletiva é um fator de identidade. Um dos nossos vários círculos identitários é constituído pelas pessoas com recordações de juventude semelhantes às nossas: «E lembras-te de quando apareceram os iogurtes, naqueles boiões de vidro?»

Bem vistas as coisas, talvez não seja exatamente um círculo, mas sim vários, porque algumas destas recordações são muito locais («Lembras-te daquelas grandes tardes de futebol ali na praceta»?), outras são um bocadinho menos locais («E os homens que vendiam bolacha americana, lembras-te?»), e, no mundo moderno, outras são até bastante mais globais: «E do Bonanza, lembras-te? E do Santo?» «Perfeitamente. E do Ironside? A minha avó chamava-lhe «homem das rodas», não conseguia dizer Ironside.» 

E depois, há recordações que tendemos a considerar locais, quando na realidade podem ser partilhadas com gente de muito longe do território da nossa infância. A última vez que vi um limpa-chaminés, que, para mim já só existia nas minhas nebulosas recordações de infância, foi em Copenhaga há cerca de 25 anos. Já são raríssimos em todo o lado e podem recordar-se com a mesma nostalgia com que se recordam as primeiras calças à boca de sino.

Outro exemplo de algo que se pode recordar em conversas nostálgicas com alemães, italianos ou argentinos da nossa idade («Lembras-te?...») é a figura do amolador, uma figura que foi já comum em todo o mundo e que em todo o mundo está em vias de extinção, quando não está mesmo extinta... E que é o tema deste muito breve artigo, em que pouco mais faço que juntar aqui algumas fotografias e alguns vídeos. Não há nada mais irritante que lâminas que não cortem, não é verdade?

Evidentemente, os amoladores não foram sempre iguais em todos os tempos e lugares — e não se anunciaram, nem anunciam, todos com o mesmo som. O som é, curiosamente, o que primeiro me vem à cabeça quando penso num amolador. E o som que eu associo ao amolador da minha infância, a escala ascendente e depois descendente numa flauta de Pã de plástico, parece ser comum, com muito pequenas variações, aos amoladores de línguas ibéricas, dos Pirenéus à América Latina. 

Em França, ao que consegui descobrir, os amoladores de antanho anunciavam a sua passagem não com uma flauta de Pã, mas sim com um sino. E andavam, como em muitos outros países, com carrinhos de mão. Quase de certeza também em Portugal, antes do meu tempo, mas não sei..

Também nunca tinha ouvido falar, antes da pesquisa que fiz para este texto, de carrinhos de amolador puxados por cães, que parece que eram comuns nalguns países.

As pessoas da minha geração de vários países, porém, provavelmente já só se lembram de amoladores de bicicleta, motorizada ou furgoneta. A minha mulher, dinamarquesa, diz que os da juventude dela andavam de ciclomotor.  Uma enciclopédia sueca em linha, por exemplo, diz que, antigamente, os amoladores «tinham geralmente equipamento móvel, frequentemente sob a forma de uma bicicleta adaptada em se que acionava a pedra de amolar com os pedais» — exatamente com os que eu conheci em Portugal. 

O verbo português amolar não perdeu o l intervocálico latino, como perderam , moer ou moinho, que são parentes próximos. As palavras para designar o amolador são semelhantes à portuguesa em várias línguas romances e têm todas relação com (mola- , em latim), como em português: amolador ou amolanchín existem em espanhol, a par do mais comum afilador; em catalão diz-se esmolet, esmolaire ou esmolador; em occitano  amolaire ou amoulaire; mołeta em véneto; ammulatóre em tarentino; ammuola forbece («amola-tesouras») em napolitano; e ammola/ammula cuteddi («amola-facas») em siciliano. Em galego, porém, que é a língua mais próxima do português, amolador diz-se afiador

É interessante notar, a propósito, que encontrei em vários sítios a informação de que, em Espanha, os amoladores vinham quase sempre da província galega de Ourense.  A Wikipédia em galego também dá conta deste fenómeno (traduzo eu): «O ofício consolidou-se com especial intensidade na Galiza interior, documentando-se a presença de amoladores ambulantes pelo menos desde finais do século XVII. A maioria procedia de zonas rurais da província de Ourense, onde o trabalho de amolador funcionava como estratégia económica complementar à agricultura.»

Os amoladores galegos chegaram até a criar um calão profissional, o barallete, para não serem compreendidos pelas outras pessoas. 



P. S. 1: É interessante constatar que ainda há quem decida lançar-se com entusiasmo numa profissão que geralmente se considera condenada a desaparecer. É o caso de Gaël Charlot, na província francesa dos Altos Alpes. Não posso inserir aqui o documentário sobre este jovem amolador, mas podem vê-lo no YouTube  (só em francês, sem legendas disponíveis).

P.S. 2: Também há canções sobre amoladores. Deixo aqui três, uma argentina, uma italiana e uma francesa. A primeira é uma valsa ranchera de 1932, pela «voz romântica do tango», Agustín Magaldi; a segunda é de Luciano Tajoli e foi editada em 1951; e a terceira é de 1952 e é cantada por André Claveau.

P.S. 3: O mais completo repositório de imagens sobre o ofício de amolador que encontrei é 12 Eeuwen Scharensliep («12 séculos de amoladores»), um vídeo de quase uma hora. Infelizmente, as legendas explicativas são só em neerlandês. O vídeo é feito com uma sequência de fotografias, pinturas e desenhos de várias épocas e vários sítios, e mostra todo o tipo de amoladores, fixos ou ambulantes, incluindo carrinhos de vários tipos. A partir de 30:00 e até 43:40, é intercalado um filme alemão (também só com legendas em neerlandês) que mostra o processo tradicional de fazer uma pedra de amolar. 

P.S. 4:  A página da Wikipédia sobre o ofício existe em 23 línguas, com quantidades de informação variáveis. A página em inglês é a mais completa.

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As fotografia são Wikimedia Commons. 1. Amolador em Amersfoort, Países Baixos, 1909: 2. Amolador em Marselha, s.d., início do séc. XX; 3. Amolador e cliente, Alemanha, 1939, foto de Richard Peter; 4. Amolador com carrinho puxado por um cão, França, postal de 1908; 5. Bicicleta de amolador e menina turista, Caorle, Itália, 1958, foto de Karl Oppolzer.









27/05/26

Uma piada algo pateta, descobertas forçosas e fatores hereditários da infertilidade


«É científico, Tintim! A infertilidade é hereditária.
Se os seus pais não tiverem tido filhos, 
você também não terá!»
Encontrei noutro dia numa página humorística no Facebook a piada aqui à direita (evidentemente, o texto não é de nenhum livro do Tintim, foi posto na imagem pelo autor da piada). 

Ora eu tinha feito a mesma piada numa rubrica humorística de um programa de rádio em que participei nos anos oitenta. Era uma «entrevista» com um «cientista» (eu), que afirmava ter finalmente descoberto a causa da infertilidade e que dizia o mesmo que se pode ler na imagem ao lado, acrescentando ainda qualquer coisa como «E, nos casos em que se revelou que, afinal, nem o pai nem a mãe eram estéreis, a mãe não tinha tido a filha ou o filho com o pai dessa filha ou desse filho, mas antes com outro homem que, esse sim, era estéril.» O que a gente se diverte na juventude… 

***

Uma das maneiras de se definir a especificidade da ciência relativamente a outras áreas de trabalho intelectual é o caráter forçoso das suas descobertas. Neil deGrasse Tyson, ao estabelecer uma comparação entre a criatividade em ciência e nas artes, diz que, nas artes, ninguém que tenha nascido antes ou que venha a nascer depois de um(a) determinada/o artista criou ou criará a mesma coisa que essa/e artista, ao passo que, em ciência,  «posso descobrir alguma coisa no universo, mas, se eu não descobrisse, alguém depois de mim descobriria exatamente a mesma coisa».  E isto porque, ao contrário da arte, que é «uma expressão única do indivíduo», «a ciência é a descoberta das condições naturais pré-existentes».

Parece-me que ele tem toda a razão e há, de facto, descobertas científicas múltiplas independentes. Num texto em que refletia sobre a questão, referi, como exemplos óbvios, as manchas solares e o oxigénio.  Agora, isto não é exclusivo das descobertas científicas. No mesmo texto, falava também exemplos de invenções múltiplas independentes, que, por não serem descobertas científicas, tinham tido formas muito diferentes das várias vezes que foram inventadas, como é o caso da a escrita. E referia também uma invenção minha, a expressão «do prado ao prato» para traduzir «from gate to plate», que, vim a saber pouco tempo depois de a criar, também já tinha sido inventada por outras pessoas. Noutro texto da Travessa (a propósito doutra brincadeira, a água liofilizada, que inventei para o programa de rádio atrás referido e que, mais uma vez, não fui o único a inventar...), discutia até a possibilidade de aferir o grau de criatividade de qualquer ideia a partir, precisamente, do número de ocorrências independentes: «Quanto menos vezes [uma ideia] tiver ocorrido autonomamente, mais genial ela é.» A minha tradução «do prado ao prato» não era, pelos vistos, nada genial, como também não era  muito genial — vejo agora, mas já calculava... — a minha piada da infertilidade herdada. 

Agora, o mais interessante disto tudo é que, apesar do pueril paradoxo que está na base desta piada, é mesmo verdade que algumas doenças ou alterações genéticas suscetíveis de causar infertilidade podem mesmo ser herdadas, da mesma forma que se herdam outras doenças de que os progenitores não sofrem; e até que problemas de baixa fertilidade nos homens podem ser diretamente herdados dos pais: filhos de homens que tenham tido necessidade de tratamentos de fertilidade para procriar têm mais possibilidades de ter de recorrer eles próprios a esses mesmos tratamentos para terem filhos. (Ver um resumo desta questão aqui, mas é fácil encontrar na Internet informação sobre o tema.)

(Quando eu era rapaz, também se dizia de uma rapariga de peito pequeno que «saía ao pai», mas sendo o tamanho do peito um traço poligénico, como a cor dos olhos, forma do corpo, cor do cabelo, etc., resulta provavelmente de uma combinação de genes de ambos os progenitores, de maneira que, em princípio, os genes do pai contribuem tanto para um peito pequeno como para um peito grande, não é verdade?)


19/05/26

Diferenças de género entre o português e o castelhano e alguns comentários a propósito

 

É mais fácil aprender línguas mais parecidas com a nossa língua que línguas menos parecidas. Isto dito assim parece uma grande lapalissada, mas há muito quem tente difundir a ideia de que há línguas fáceis e difíceis para toda a gente, de maneira que é sempre bom insistir um pouco no que talvez seja óbvio para algumas pessoas. Agora, mais fácil  não significa «fácil». Nunca é fácil aprender uma língua. E mesmo uma língua tão próxima do português como o castelhano pode ter, para nós, algumas dificuldades. 

O tema deste texto não é uma das maiores dificuldades do castelhano. Mas há umas quantas palavras castelhanas que, sendo cognatas de palavras portuguesas e tendo, por isso, formas semelhantes, são de género diferente. Às vezes, achamos isso estranho, ás vezes engraçado, mas estas diferenças de género existem, enfim, e temos de habituar-nos a elas ao falar castelhano.

Exemplos de palavras comuns femininas em castelhano e masculinas em português são la ducha, la leche, la miella narizla risa, la sal, la sangre, la señal e la sonrisa, e palavras em -umbre que correspondem a palavras portuguesas em -ume, como la costumbre e la legumbre. Vislumbre é uma exceção nesta lista: pode ser masculino ou feminino em castelhano e não há *vislume em português... A palavra portuguesa vislumbre é importada do castelhano e fixou-se no género masculino na nossa língua. 

É de notar também os nomes femininos de várias máquinas terminados em -dora, que têm correspondentes masculinos em português: aspiradoracomputadora, grabadora e secadora

Quanto às palavras masculinas em castelhano e femininas em português, algumas das mais comuns são el análisis, el árbol, el equipo, el estante, el fraude, el frente, el lente, el orden, el origen, el partido [desportivo] e el puente, além das palavras em -aje que correspondem a palavras portuguesas em -agem, como el aprendizaje, el coraje, el garaje, el mensaje, el paisaje, el viaje, etc., e algumas palavras em -or, como el color, el dolor, el honor, etc.

Além disso, há, em castelhano standard, várias palavras que podem ter os dois géneros sem serem comuns de dois. Listo aqui as três mais importantes:

Azúcar é uma das palavras que pode ter os dois géneros. Na Europa, é preferida a forma masculina, na América quase sempre a forma feminina.

Arte também é um caso curioso: a palavra pode ser feminina ou masculina, mas algumas das expressões cristalizadas em que aparece juntamente com um adjetivo são sempre de um ou do outro género. Por exemplo, arte poética, bellas artes e malas artes são sempre femininas; e são sempre masculinas arte abstracto, arte figurativo, arte pop, el arte por el arte e sé(p)timo arte, entre outras expressões.

Mar também pode ter dois géneros, sendo o feminino mais literário ou formal. Há casos, porém, em que mar é sempre feminino, como sejam as expressões alta mar, mar ancha e mar larga, que significam todas «alto-mar», e expressões para descrever o estado do mar, como mar cerrada, mar llana, mar rizada, etc. É claro, a palavra mar em português também seria às vezes feminina se baixa-mar, preia-mar ou praia-mar fossem consideradas pares de palavras separadas, com mar e os adjetivos baixa e preia/praia ...  

Há mais palavras que podem ser ser masculinas ou femininas em castelhano, mas nenhuma delas é muito comum. O fenómeno é raro em português, mas não tão raro como eu pensava até há pouco tempo. Descobri que os dicionários registam apenas o duplo género de componente, avestruz e cólera (doença), mas sei que, na prática, se verifica instabilidade no género de outras palavras, como auto-estrada, diabetes, enzima, grama e derivados (quilo-, hecto-, etc.), e matiz, das que agora me vêm à mente.


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Diferenças de género entre o português e o castelhano 

Até aqui, dei só exemplos, mas deixo agora aqui, para consulta, uma lista o mais exaustiva possível de diferenças de género entre o português e o castelhano. É uma lista que comecei há 27 anos e que está em permanente atualização, à medida que vou descobrindo mais.

Nomes femininos em castelhano e masculinos em português

la alerta = o alerta
la altamar = o alto mar. 
la aspiradora = o aspirador
la baraja = o baralho
la brea = o breu
la cárcel = o cárcere
la centésima [de segundo, etc.] = o centésimo
la computadora = o computador
la costumbre* = o costume
las cuartas de final [de competição desportiva] = os quartos de final
la cumbre* = o cume
la décima [de segundo, etc.] = o décimo
la diadema = o diadema
la diapositiva = o diapositivo
la(s) dote(s) = o(s) dote(s) na aceção de «dons, qualidades». De resto, a palavra castelhana pode ter os dois géneros. 
la ducha = o duche
la escuadra = o esquadro. Apenas na aceção de «esquadro»; a palavra escuadra corresponde também a esquadra nos outros sentidos.
la espora = o esporo
la grabadora = o gravador
la guía [livro] = o guia. O uso de feminino em português é muito raro e nem está consagrado em todos os dicionários. 
la hectárea = o hectare
la labor = o lavor; o labor
la leche = o leite
la legumbre* = o legume
la lumbre* = o lume
la masacre = o massacre
la miel = o mel
la nada = o nada
la nariz = o nariz
la paradoja = o paradoxo
la pesa  [para balanças, ou em ginástica e halterofilia]= o peso.
la pez = o pez. Não confundir com el pez , «o peixe»
la posguerra = o pós guerra 
la postal = o postal
la protesta = o protesto
la risa = o riso
la sal = o sal
la sangre = o sangue
la secadora = o secador
la señal = o sinal
la sonrisa = o sorriso
la tilde = o til

Nomes masculinos em castelhano e femininos em português

el (psico)análisis = a (psic)análise
el aprendizaje** = a aprendizagem
el árbol = a árvore
el armadijo = a armadilha 
el avestruz = a avestruz. Sei que os dicionários aceitam os dois géneros em português, embora, no meu português, a palavra seja sempre feminina.   
el calambre = a cãibra
el candor*** = a candura
el cassette = a cassete
el centinela [comum de dois em castelhano] = a sentinela [só feminino em português]
el cerco = a cerca. Também se pode usar cerca com o mesmo signficado e  cerco pode corresponder também ao português cerco , p. ex. a uma cidade.
el cólera [doença] = a cólera. Sei que os dicionários aceitam os dois géneros em português, mas creio que o cólera é uma forma caída em desuso
el color*** = a cor
el conducto [de água, por exemplo] = a conduta. A palavra conducta , no sentido de comportamento, é feminina como em português.
el coraje** = a coragem
el dolor*** = a dor
el engranaje** = a engrenagem
el equipo = a equipa
el espesor*** = a espessura
el estante = a estante
el estreno = a estreia
el forraje** = a forragem
el fraude = a fraude
el frente = a frente, nas aceções militar, política e meteorológica. Quando significa «testa» ou «face», a palavra  frente é feminina. 
el garaje = a garagem
el honor = a honra
el insomnio  = a insónia
el iris = a íris
el lenguaje** = a linguagem
el lente = a lente
el maratón  = a maratona
el margen = a margem. A palavra margen , na aceção geográfica, pode ser dos dois géneros, mas, nos outros sentidos, é sempre masculina.
el matiz = a matiz
el mensaje** = a mensagem
el orden = a ordem. Na aceção religiosa ou de «instituição civil ou militar», orden é feminino.
el origen = a origem
el paisaje** = a paisagem
el partido [desportivo] = a partida. Em castelhano europeu, a palavra partida também existe, mas usa-se para o conjunto das várias mãos de uma competição.
el pasaje** = a passagem
el pétalo = a pétala
el puente = a ponte
el rezo = a reza
el riego = a rega
el sino = a sina
el trueque = a troca
el vals = a valsa
el viaje** = a viagem
 
** = Os nomes castelhanos em  - aje , masculinos, correspondem muitas vezes a nomes portugueses em  agem, femininos.
*** = Os nomes castelhanos em -or , masculinos, correspondem a nomes sem género típico em português.

Palavras com dois géneros em castelhano e masculinas em português

azúcar = o açúcar. Azúcar pode ter os dois géneros em castelhano. Na Europa, é preferida a forma masculina, na América ocorre muitas vezes a forma feminina.
dote = o dote
gráfico, gráfica = o gráfico
mar = o mar. Mar é sempre feminino nas expressões alta mar , mar ancha e mar larga , que significam todas «alto-mar», e em expressões para descrever o estado do mar, como mar arbolada , mar cerrada , mar gruesa , mar llana , mar rizada , mar sorda e mar tendida .
terminal [de autocarro]   = o terminal. Em castelhano, terminal pode ter os dois géneros, consoante as regiões, quando se trata de um terminal de autocarros ou de computador. Quando se trata de um terminal elétrico, é masculino.
vislumbre = o vislumbre

Palavras com dois géneros em castelhano e femininas em português

armazón   = a armação
arte = a arte. Segundo o dicionário da Real Academia Espanhola, são sempre femininas as expressões arte cisoria («arte de cortar carne»), artes mayores, artes menores, arte metálica, arte métrica, arte poética, bellas artes e malas artes e são sempre masculinas as expressões arte abstracto, arte figurativo, arte mobiliar, arte pobre, arte pop, el arte por el arte e sé(p)timo arte .
enzima = a enzima  
frente = a frente, na aceção de «fachada»
margen = a margem. Na aceção geográfica, a palavra 
margen pode ser dos dois géneros, mas, nas outras aceções, é sempre masculina.
vodka = a vodka/vodca