13/08/26

Mise en abyme, infinite loop, pescadinhas de rabo na boca ou como lhes queiram chamar


Os diversos tipos de autorreferência constituem um mundo que pode ser apenas divertido, surpreendente ou muito complexo, conforme os casos e conforme se o queira ver. Coisas dentro delas próprias, textos a falarem de si mesmos. Não tenho a mínima intenção de desenvolver o assunto, só de aqui reunir meia dúzia de coisas sem grande importância que eu acho engraçadas. 

I. Já uma vez aqui falei dos problemas levantados pela tradução de frases autorrerenciais, mas eis mais um exemplo. A frase 

Esta frase tem vinte e oito letras

não se traduz para espanhol sem lhe dar grandes voltas, porque

Esta frase tiene veintiocho letras

tem 30 letras; mas traduz-se facilmente para francês, já que

Cette phrase a vingt-huit lettres

tem também 28 letras. Tentem traduzir para outras línguas.

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II. Tem-me aparecido muitas vezes nos últimos tempos este problema (de que não consegui encontrar a origem, mas cuja versão mais antiga que consigo encontrar é esta, reformulada aqui):

Se escolher aleatoriamente a resposta a esta pergunta, qual a probabilidade de acertar?

a) 25%
b) 50%
c) 0%
d) 25%

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III. Uma brincadeira famosa com um circuito fechado de autorreferência encontra-se no livro LaTeX: A Document Preparation System , de Leslie Lamport (1994), onde, no índice, a referência de infinite loop remete para a página do índice onde ela própria se encontra, sem mais.

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IV. Fotografias tiradas por mim de coisas dentro delas mesmo (ou quase, vá…):

A) Esta casa famosa de Faaborg (Hobys Gård, Holkegade 3) tem à janela uma imagem de si própria (na janela mais à esquerda).



B) A título anunciado no cartaz, Under isen , que significa «debaixo do gelo», está parcialmente debaixo do gelo (ou talvez não seja bem gelo, mas pode facilmente tornar-se gelo…) 

P.S. Finalmente, um links apenas para uma imagem que, em princípio, não posso aqui pôr: no blogue Illustration Art , David Apatoff tem uma excelente foto onde se mostram, lado a lado, dois excelentes exemplos de mise en abyme em pintura , o da esquerda com óbvia referência ao da direita e claras intenções humorísticas: Richard Williams (Alfred E. Numan, Triple Self Portrait, 2002) vs Norman Rockwell (Triple Self Portrait, 1960)


12/08/26

Fazer bem sem ver a quem


Apareceram-me no outro dia estes dois vídeos de uma fundação ligada a uma companhia de seguros, a «Fundação do Coração», HjerteFonden, que recruta «corredores do coração», pessoas que ajudam vítimas de paragem cardíaca. O primeiro vídeo mostra como funciona o sistema: quando a central recebe uma chamada de emergência, os «corredores do coração» que se encontram mais perto dessa pessoa correm para a ajudar, indo buscar, de passagem, um desfibrilador, se houver algum nas proximidades. Hoje em dia, há quase sempre. Ao mesmo tempo, é enviada uma ambulância. Segundo um comentário ao vídeo de uma pessoa que diz ser «corredora do coração», há uma pequena incorreção no vídeo: a enfermeira responde que a ambulância está no local passados cinco minutos, e, se a ambulância estiver tão perto da pessoa, não é enviado um «corredor do coração», porque não vale a pena. Parece-me interessante no vídeo a mensagem que, quando há paragem cardíaca, não há ajudas incorretas — dirigido a pessoas como eu, que, por muito que tenha feito vários cursos sobre ajuda nesta situação e tenha sido, até há pouco tempo, profissional de saúde, tenho sempre medo de fazer algum disparate numa situação destas. 

A mensagem do segundo vídeo que aqui ponho é diferente. 

«Sou corredor do coração e agora não me interessa nada… em quem é que votaste… o que escreveste nas redes sociais… Não me interessa se podíamos ou não tornar-nos amigos…  quem amas… ou em que acreditas… Porque, se te parou o coração, há uma ligação entre nós.»

É sabido que os profissionais de saúde, desde pessoal de cuidados a pessoal médico, assumem como obrigação cuidar de qualquer pessoa e tratá-la independentemente da etnia, crenças, sexualidade, estatuto social, etc., e independentemente do que ela faça ou tenha feito. Os médicos tradicionalmente proferem o juramento de Hipócrates. Há várias versões deste juramento. Na versão de 2017, que é atualmente usada em Portugal, um dos pontos é, precisamente, 

Não permitirei que considerações sobre idade, doença ou deficiência, crença religiosa, origem étnica, sexo, nacionalidade, filiação política, raça, orientação sexual, estatuto social ou qualquer outro fator se interponham entre o meu dever e o meu doente.

Os outros profissionais de saúde não fazem um juramento formal, ao que sei, mas o mesmo princípio é implícito na aceitação da sua profissão e explícito na legislação que a rege, além de que é constantemente sublinhado ao longo da sua formação. Agora, se «qualquer outro fator» é uma formulação algo vaga no juramento de Hipócrates, os profissionais de saúde aprendem que devem tratar e cuidar o melhor que souberem e puderem todos os seus doentes, independentemente também do que possam saber da sua vida presente ou passada, de todo o mal ou bem que estes possam ter feito, independentemente de serem criminosos ou heróis, e independentemente de quaisquer traços de personalidade.

Há evidentemente, ressalvas óbvias e explícitas à universalidade do dever de médicos, enfermeiros e outros profissionais do setor. Uma é que a saúde e o bem-estar do doente não podem ultrapassar a própria segurança do profissional de saúde ou a vida de outras pessoas. Para ajudar alguém, tenho de me certificar primeiro de que o posso fazer sem correr graves riscos eu próprio ou pôr em risco outras pessoas. Mas esta ressalva é sem grande importância no dia-a-dia do trabalho de cuidados de saúde, a não ser talvez em situações extremas de guerras, catástrofes naturais ou epidemias altamente contagiosas — e, em situações dessas, é muitas vezes ignorada, como se sabe. Outra ressalva é que o profissional de saúde pode negar-se a uma tarefa que não considera ser capaz de desempenhar, porque nunca lhe foi ensinado, ou porque há muito tempo que não o faz, ou seja por que outra razão for. Mas também esta ressalva, em situações de emergência, acaba por ser ignorada.

Na prática, há também outros limites para o que os profissionais de saúde toleram (ou devem tolerar) dos doentes, das condições de trabalho, etc. Vi casos de doentes que obrigam a reuniões, às vezes reuniões regulares, do pessoal e chefia das unidades, para encontrar alguma estratégia que permita lidar com eles. São pessoas cujo contacto cria problemas sérios ao pessoal de saúde: doentes que insultam e ofendem constantemente, que rebaixam e provocam o pessoal, que insistem, de forma obsessiva, desesperante, que tudo tem de ser feito exatamente como eles querem, ao arrepio de preceitos técnicos ou de higiene, que quase chegam à agressão física. Não porque tenham alguma doença psíquica (a situação das pessoas com doenças psíquicas é completamente diferente e deixo de lado essa questão neste texto), mas simplesmente por serem pessoas agressivas, talvez tornadas ainda mais agressivas pela doença, e, muitas vezes, por terem nessas atitudes a única oportunidade, a última e desesperada possibilidade, de exercer poder sobre outros e, de alguma forma, tentar assim exercer controlo também sobre a sua vida. E há de facto profissionais de saúde que se negam a atender doentes deste tipo. Não conseguem aguentar, simplesmente. É claro, em todos os casos a que assisti, há sempre outros que não se negam. Não sei o que aconteceria, se todos se negassem, mas criar-se-ia uma situação incompatível com os princípio dos serviços de saúde. Não há propriamente, nesta situação, grave risco para a integridade física de quem se recusa a tratar o doente, mas será que a angústia ou o stress, às vezes muito grandes, que resultam do contacto com um doente muito agressivo e que recusa colaborar com o cuidador ou enfermeiro são motivos que justifiquem recusar o cumprimento do seu dever? Creio que sim. Não é só a salvaguarda da integridade física que se deve ter conta quando se fala do dever do profissional de saúde: uma pessoa numa situação de profundo stress não consegue fazer adequadamente o seu trabalho. E é por isso que, sempre que possível, se atendem os pedidos de quem se nega a atender um doente por estas razões. Mas é uma situação com potencial para desencadear outro tipo de conflitos: haverá, provavelmente, colegas que pensarão: «Se ela não aguenta, porque terei eu de aguentar?» É sempre difícil mostrar objetivamente que os níveis de stress perante a mesma situação variam de pessoa para pessoa… Mas variam.

Agora, outra questão relacionada com o dever de não-discriminação: será que mesmo a/o mais empenhada/o profissional de saúde, por mais que sinceramente o queira fazer, não presta cuidados diferentes a doentes diferentes? Não haverá sempre vieses inconscientes? 

A psicologia ensina-nos que há características pessoais, algumas inatas e independentes de qualquer controlo, que, em geral, suscitam respostas mais positiva ou mais negativas de desconhecidos. E há estudos que mostram, por exemplo, o efeito positivo da beleza física em situações de cuidados médicos, ou o efeito negativo da obesidade (que é tanto maior quanto mais a obesidade for descrita como produto do estilo de vida, isto é, da responsabilidade do doente). Outros estudos demonstram a influência do género do paciente. Um estudo feito com 500 enfermeiras/os, por exemplo, mostra, quando estas/es enfermeiras/os são postos perante um mesmo quadro clínico de enfarte do miocárdio, variando a idade e o género dos doentes, os homens de meia idade são considerados casos mais urgentes, são mais frequentemente enviados aos cuidados intensivos e são mais frequentemente diagnosticados positivamente que mulheres de meia idade com exatamente os mesmos sintomas. Estes estudos nem sempre são, porém, coincidentes: um estudo mostra que, no mesmo quadro clínico, as mulheres recebem menos analgésicos que os homens; mas outro mostra precisamente o contrário, que as/os enfermeiras/os tendem a administrar menos analgésicos aos homens.   

É difícil aferir o valor geral de estudos isolados. Parece-me mais interessante ver os resultados de meta-análises. Só encontrei uma, de 2021, de 215 estudos publicados ao longo de 38 anos. Traduzo o resumo, sublinhando que, como os estudos atrás referidos, aliás, diz respeito a um meio cultural diferente da Dinamarca, que é o que conheço melhor, ou de Portugal: 

Os estudo sobre preconceito de enfermeiras/os e/ou disparidades nos cuidados têm vindo a tornar-se cada vez mais frequentes ao longo do período de 38 anos em que foram produzidos os relatórios incluídos neste estudo. Foram analisadas várias características dos doentes, sendo as mais comuns a raça e/ou etnia, o género e a idade. Vinte e nove dos 215 estudos identificam uma potencial relação entre preconceito das/os enfermeiras/os relativamente a uma determinada característica e os cuidados pessoais e de saúde prestados a indivíduos com essa característica. Destes estudos, 27 sugerem que o preconceito tem um impacto negativo e resulta em desigualdade nos cuidados de enfermagem. Groves, Bunch & Sabin (2021), «Nurse bias and nursing care disparities related to patient characteristics»)

É interessante constatar que, de 215 estudos, só numa relativamente pequena percentagem se observa um efeito negativo do preconceito em tratamentos e cuidados. Esta conclusão confirma o que fui vendo enquanto pesquisava: os vieses existem, mas é mais fácil constatar uma diferenciação de tratamento em função de características do paciente que constatar um efeito negativo dessa diferenciação — que também existe, sem dúvida, e que poderá seguramente, em casos isolados, ser até muito grande. É também provável que a parcialidade contatada nos professionais de saúde não signifique, na grande maioria dos casos, que não haja vontade sincera de honrar a universalidade do dever de cuidados — mas antes que eles obedecem, como todas as pessoas, a preconceitos não conscientes. 

Agora, os preconceitos, conscientes ou inconscientes, de que pode ser vítima um doente existem também na perspetiva inversa: um doente não trata de igual maneira todos os profissionais de saúde. Assisti a casos de clara discriminação de colegas meus por parte de doentes, com base apenas na origem étnica. A lei dinamarquesa, como a lei portuguesa e a lei de muitos outros países, não permite que a/o doente escolha por quem quer ser tratado, mas já vi doentes que, às vezes de forma indireta, utilizando desculpas, recusam ser tratados por pessoas de certos grupos étnicos. A lei também não dá o direito a escolher o género do enfermeiro ou cuidador, mas acontece às vezes que doentes do sexo feminino peçam explicitamente uma enfermeira ou cuidadora — e especialmente quando se trata de cuidados íntimos, o que, dentro da medida do possível e embora a lei não o sancione, se tenta normalmente satisfazer. 

Não são apenas, porém, a origem étnica e o género que estão na origem de recusas de doentes de ser tratados por um determinado profissional. Às vezes, estas recusas resultam de conflitos surgidos durante tratamentos ou cuidados. E, por muito que a lei não consagre este direito do doente, também esta recusa é às vezes satisfeita, se possível, apenas para evitar uma situação de stress para ambas as partes.

A conclusão é trivial: embora haja assimetria na relação de poder entre um profissional de saúde/cuidador e um doente/cuidado, qualquer relação humana é forçosamente biunívoca. As características que o doente encontra no cuidador também têm seguramente uma influência, consciente ou não, na maneira como interage com ele; e a relação entre os dois é o produto de várias circunstâncias, das quais as imagens um do outro, incluindo preconceitos positivos e negativos, conscientes ou não, são partes fundamentais. 

Volto ao ao segundo vídeo deste texto. Uma paragem cardíaca é talvez a situação mais simples deste ponto de vista: aquela em que só um das partes está envolvida na relação. Só uma pessoa, com os seus sentimentos e as suas ideias preconcebidas — que pode efetivamente deixar de lado, e deixa mesmo, no momento em que decide ajudar quem desesperadamente dela nessa altura precisa.

***
Perdoar-me-ão a desorganização do texto, própria de quem escreve sobre um tema que considera importante, mas de que não é, de modo nenhum, grande conhecedor. Sabia que queria escrever sobre este assunto, mas não tinha, à partida, definido claramente o que queria dizer sobre ele. Fui-o descobrindo à medida que escrevia e pesquisava. Não tenho acesso às versões integrais dos estudos que refiro e que me foram sugeridos pelo ChatGPT. Assim, só refiro o que está nos resumos e, por isso, me parece seguro referir. E quero agora acrescentar três breves notas avulsas que complementam um pouco o texto acima:

1: O dever de ajudar uma pessoa em perigo de vida não é, note-se, exclusivo de profissionais de saúde. O Artigo 200.º do Código Penal português não define positivamente o dever, mas criminaliza a omissão de auxílio:

«Quem, em caso de grave necessidade, nomeadamente provocada por desastre, acidente, calamidade pública ou situação de perigo comum, que ponha em perigo a vida, a integridade física ou a liberdade de outra pessoa, deixar de lhe prestar o auxílio necessário ao afastamento do perigo, seja por ação pessoal, seja promovendo o socorro, é punido com pena de prisão até 1 ano ou com pena de multa até 120 dias.»

A pena é a dobrar se a pessoa que não ajuda tiver criado ela própria a situação de perigo (ponto 2), mas ressalvam-se as situações em que haja perigo de vida do omitente ou «quando, por outro motivo relevante, o auxílio lhe não for exigível». Não sei o que a jurisprudência ou a opinião dos peritos considera, nesta caso, «motivo relevante».

2: Propõem-se muitas vezes experiências mentais sobre o dever de prestar ajuda a uma pessoa que é consensualmente considerada um grande criminoso. Hitler é uma figura frequentemente usada nestas experiências e já aqui falei uma vez de uma experiência mental deste tipo, mas referindo-a como «dilema». É, na minha opinião, um tema fascinante, nos seus múltiplos matizes, que tem, aliás, sido tema central do debate moral: como se equilibram os direitos individuais e o bem-estar das comunidades? Quem se pode — ou deve, até — sacrificar em nome da satisfação da maioria ou de valores considerados universais e inalienáveis? 

3: Na minha breve vida profissional no setor da saúde, toda ela na Dinamarca e sobretudo na área da ajuda domiciliária, encontrei outro motivo para os profissionais de saúde pedirem dispensa de cuidar determinados pacientes: o facto de os conhecerem na sua vida privada, com diversos graus de intimidade na relação com esses pacientes. Essa dispensa é quase sempre dada, se bem que informalmente, a não ser em casos extremos de falta de pessoal. A ideia que subjaz a esta exceção ao dever do profissional de cuidar toda a gente é que as relações com os doentes se devem manter sempre ao nível profissional, o que está excluído à partida nesta situação.

Arte e acaso: música e pintura, menus de restaurante e haikus

 

Um amigo meu, Luís M. F. Gaspar, escreveu em 1974 que «[o] mais verdadeiro dos poetas não é tanto aquele que escreve como aquele outro que apenas medita» e que «mais importante que escrever poesia é, sem dúvida, saber percecioná-la nos gestos quotidianos mais vulgares». Não sei ao certo onde ele queria chegar e surpreende-me sobretudo a escolha de gestos como poesia observável. Creio que meditação se deve compreender aqui como um estado de profunda atenção e parece-me certo que num estado de profunda atenção aos seres à nossa volta, podem descobrir-se neles e entre eles relações inesperadas, súbitas, singulares, que são características da poesia e desfrutar do deslumbre que esse estranhamento nos traz; mas também se pode ir buscar o mesmo espanto «poético», digamos assim, às coisas incapazes de gestos.   

A profunda atenção ao mundo parece-me uma excelente proposta, e não só para poetas e outros artistas. Para mim, porém, a poesia não é o resultado de meditativa contemplação, mas de palavras. Poesia são palavras. É famosa a resposta de Mallarmé a Degas, quando este lhe confessou a sua frustração por, apesar de ter muitas ideias, não conseguir escrever um poema que o satisfizesse: «Mas, Degas, não é com ideias que se fazem versos... É com palavras.» Podemos agora substituir ideias por qualquer outro conceito e a segunda parte da frase de Mallarmé manter-se-á sempre válida: Não é com sensibilidade/meditação/atenção ao mundo que se escrevem poemas — é com palavras. Agora, significa isto que toda a poesia tem de ser feita para ser poesia e não pode, por isso, surgir por acaso à nossa volta? 

Para haver poemas, tem de haver palavras. E as palavras só podem ser produzidas por humanos, é claro. Mas o objeto efetivamente produzido, quer se trate de palavras ou sons não linguísticos, tem uma vida independente da intenção com que foi produzido. Pode considerar-se que um poema são as palavras que ali estão, sem mais. É só preciso ter a tal atenção ao mundo. Neste caso, ao mundo das palavras em que constantemente nos movemos. Dou-vos dois exemplos simples: 

A 28 de maio de 1999 tomei nota deste texto que me surgiu pela frente num restaurante. 

OS PREÇOS INCLUEM ....................................... HÁ LIVRO DE
...........................................
BOM APETITE
IVA A 16%
........................................................... RECLAMAÇÕES

Não sei se é só a mim, mas parece-me um poema — um poema um pouco acerbo, diria eu, mas isso depende, claro, de como se o interpreta... Parece-me um poema e fico na dúvida se outras possíveis disposições no espaço destas três frases me suscitariam a mesma reação...  

Outro exemplo: Há cerca de uma semana, num parque de campismo, um amigo meu leu em voz alta um SMS de um amigo dele que lhe tinha ficado a olhar pelas cabras durante as férias. Não o leu porque o achasse poético, mas só para transmitir à esposa a mensagem que acabava de receber.

Está tudo bem:
duas cabras, dois cabritos,
os nenúfares estão em flor. 

− É um haiku! – disse eu. Acham exagero? Eu acho que não. Se é ou não um bom haiku é outra discussão, mas, se não limitarmos o haiku à métrica clássica de 5-7-5, o mais das vezes ignorada nos haikus modernos, é mesmo um haiku. E foi isso que me deu a ideia deste texto. 

***

É conhecida a ideia de que a música não tem de se limitar, não se limita, aos sons produzidos para  serem música. John Cage di-lo de forma emblemática em 1937, em The Future of Music: Credo (todas as traduções neste texto são minhas).

Estejamos nós onde estivermos, o que ouvimos é sobretudo ruído. Quando o ignoramos, perturba-nos. Quando o escutamos, achamo-lo fascinante. 

Tudo pode ser música, porque tudo pode ser ouvido como música. Em Listening, de 1977, diz R. Murray Schafer

A melhor maneira de compreender o que eu quero dizer com design acústico é encarar a paisagem sonora do mundo como uma enorme composição musical, que vai acontecendo à nossa volta sem parar. Somos simultaneamente o seu público, os seus executantes e os seus compositores.  

Duvido que alguém tenha já observado estas portas
como pintura artística. É possível, mas improvável.
Num artigo do Source Magazine de 1967, «Some Sound Observations», Pauline Oliveros faz uma descrição detalhada do que pode ser ouvir o mundo como música:

Sento-me em silêncio com o despertador na mão, fecho os olhos e abro os ouvidos. Nesse momento, a cortina sobe e começa o espetáculo. Tudo ao meu redor parece ganhar vida, cada som revelando a personalidade do seu criador. Há vários sons que se fixam nos meus ouvidos como um basso ostinato: o zumbido contínuo das máquinas de uma fábrica lá ao longe e o som oco da água a cair numa fonte próxima. Este fundo sonoro é interrompido pelo motivo penetrante de um pássaro. Uma súbita lufada de ar varre o palco. As páginas do meu livro respondem com estalidos rápidos. A porta de entrada range e geme no mesmo tom que uma velha cadeira de baloiço e depois fecha-se com um ruído surdo. Consigo ouvir as cortinas de uma janela aberta a roçar o reboco áspero das paredes, enquanto o cordão da persiana bate sincopadamente contra o vidro da janela. 

Em Deep Listening: A Composer's Sound Practice (2005), Oliveros explica que, embora os dicionários registem aceções de hear, «ouvir», em que é sinónimo de listen, «escutar», considera haver uma diferença fundamental entre os dois termos: 

Ouvir diz respeito ao meio físico que permite a perceção. Escutar é dar atenção ao que é percecionado tanto acústica como psicologicamente. Ouvir é transformar um determinado intervalo de vibrações em sons percetíveis. Escutar é algo que acontece no córtex auditivo.

É uma banalidade considerar as rochas do Deserto de Dali, na Bolívia,
e outras formações rochosas da região como «esculturas naturais»...
A escuta profunda que propõe, diz-nos ela mais adiante, «é uma forma de meditação». De profunda atenção ao som do mundo.   

Pode passar-se algo semelhante com as artes plásticas? Há entre a música e as artes plásticas uma diferença fundamental que influi na questão de perceção de fragmentos do mundo como arte: a música não imita normalmente os sons do mundo, ao passo que as artes plásticas são em grande parte miméticas — tradicionalmente é o mundo que lhes serve de modelo. Mas, claro, mesmo a arte figurativa não é nunca pura representação, longe disso: há enquadramento, há composição, há escolha de que cenas e cores se fixam na tela ou em pedra, de entre todas as que o mundo pode ter, de entre todas as que se conseguem pôr em imagens, isto é imaginar. Isso permite que se encare, acidentalmente, uma parte do mundo como artes plásticas: todos ouvimos já alguém comentar, perante um qualquer cenário, que «parece uma pintura (ou uma escultura)», e compreendemo-lo sem saber ao certo o que quer isso dizer. Além disso, nem sempre as artes plásticas são figurativas. E eu sei que já dei por mim a admirar pedaços de parede onde o tempo, a erosão, a deterioração natural dos materiais tinham pintado o que eu observava agora como quem observa uma pintura; sei que já admirei pedras esculpidas pelos elementos como se fossem esculpidas por gente. Ver e observar, a mesma distinção que há entre ouvir e escutar


Podem ver-se redes de pesca como se vê pintura abstrata? Talvez.
Mas isto é uma fotografia, que é mais que observação atenta do mundo.
Parece que às artes plásticas se podem, pelo menos em certa medida, aplicar os princípios defendidos por Cage, Murray Schafer ou Oliveros para a música: em focando a nossa atenção, pode-se descobrir no mundo à nossa volta pinturas e esculturas que ninguém fez... Não é precisamente isso, aliás, que constitui a arte fotográfica?: recortar do mundo um pedaço que a atenção do artista observa como obra de arte. Só que,  neste caso, não há apenas observação — há também que fixar esse recorte do mundo num suporte material. E retocá-lo, ou trabalhá-lo como se quiser, se se quiser... A descoberta do pedaço de realidade a ser transformado em obra fotográfica é apenas o início de um processo.

***

Uma crítica que se faz a alguma música contemporânea é ser indistinguível do acaso. Mesmo quando é resultado de composições minuciosas com base em estruturas complexíssimas, há quem diga que não se distingue de uma série de notas tocadas ao acaso num ou vários instrumentos por pessoas que não saibam tocar. O mesmo alguma pintura moderna (talvez escultura também, mas creio que é acusação menos frequente): também há quem diga que não se consegue distinguir de tintas atiradas ao acaso contra uma tela por um adulto sem qualquer formação em belas-artes, uma criança — ou um macaco. Ao contrário de muitas outras afirmações comuns sobre estética, o postulado da indistinguibilidade do acaso ou da produção por não-artistas é verificável. Não consegui encontrar estudos sobre indistinguibilidade do acaso para a música, mas há estudos sobre perceção de pintura que nos dão boas indicações sobre a questão no domínio das artes plásticas. 

«O meu neto de três anos também consegue fazer um desenho assim!»
Como este, sim (embora não seja qualquer criança que desenha
numa igreja do séc. VII: Ateni Sioni, Geórgia). Curiosamente,
outra criança não muito mais velha saberá também reconhecer
que este desenho não foi feito por um humano adulto.
Um estudo frequentemente referido é o que foi realizado pelas psicólogas Angelina Hawley-Dolan e Ellen Winner em 2011, Seeing the Mind Behind the Art. Eis o resumo do estudo:
Para verificar se as pessoas realmente confundem pinturas de profissionais com pinturas de crianças e animais, mostrámos a estudantes de artes e de outras áreas pares de imagens, uma de um expressionista abstrato e outra de uma criança ou de um animal, e perguntámos de qual gostavam mais e qual consideravam melhor. O primeiro conjunto de pares foi apresentado sem legendas; o segundo conjunto tinha legendas (por exemplo, «artista», «criança») que podiam estar corretamente aplicadas ou ao contrário. Os participantes preferiram as pinturas de profissionais e consideraram-nas melhores do que as pinturas de não profissionais, mesmo quando as legendas estavam ao contrário. Os estudantes de arte preferiram as obras profissionais com mais frequência do que os estudantes de outras áreas, mas os juízos de qualidade dos dois grupos não diferiram. Os participantes de ambos os grupos revelaram maior tendência a justificar as suas escolhas de obras de profissionais do que de obras de não profissionais em termos das intenções dos artistas.  

Hawley-Dolan e Winner foram mais longe em 2015, num estudo conjunto com mais investigadores: em vez de perguntarem aos participantes que pintura de cada par preferiam ou consideravam melhor, perguntaram-lhes diretamente qual delas era de um artista e qual era de um animal. E, tanto em testes com os quadros todos juntos ou com os quadros aos pares, a taxa de identificação por parte dos participantes foi bem acima do acaso. E foram ainda mais longe noutro estudo semelhante no mesmo ano, com dois grupos de crianças, de entre quatro e sete anos, e de entre oito e dez: mesmo crianças jovens também conseguiram distinguir obras de artistas de obras de outras crianças ou de animais. 

«Vá lá, despache-se!» ou «Circulez, y a rien à voir !»
ANDE é a Administración Nacional De Electricidad do Paraguai.
Um falante de português a quem a palavra «ande» não suscite
o nome da instituição paraguaia pode estabelecer uma relação
entre as palavras em sucessão, o local onde estão escritas e os
transeuntes que caminham sobre elas; e talvez descubra...
enfim, não propriamente um poema, mas antes
algo como uma instalação no espaço público... 
São poucos testes, bem sei, e não provam que toda a arte abstrata é sempre e para toda a gente distinguível da manipulação acidental de tintas por crianças ou animais, até porque a taxa de identificação do «acaso» como método de produção se fica pelos 60-70%. Mas é um ponto de partida interessante para uma reflexão. É capaz de haver algum exagero em afirmações comuns do tipo «isso até o meu filho de dois anos fazia!» Creio que resultados semelhantes seriam obtidos com peças de música moderna compostas versus conjuntos de sons aleatórios.

Agora, não há propriamente textos produzidos por acaso, a não ser que, por exemplo, se organizem aleatoriamente palavras isoladas escritas em pequenos papéis ou através de um programa de computador que produza sequências aleatórias, coisas desse tipo. Mas isso é muito diferente dos dois exemplos que dou acima, porque com métodos dessas não se geram frases corretas. Os meus exemplos parecem antes um ready-made: um pedaço de algo encontrado que a vontade de alguém «eleva» à categoria de obra de arte. Neste caso, um pedaço de texto encontrado que eu ouvi como poesia. Mas sem uma parte fundamental do ready-made: normalmente, o ready-made passa a ser obra de quem o assina e lhe dá um nome. Estes textos continuam a ser o que são — e num dos casos até se sabe quem é o autor — sem serem apropriados nem intitulados por quem neles lê ou ouve poesia, neste caso eu. Apenas são, se alguém assim quiser, poesia que não foi feita para o ser. Seria interessante aplicar-lhes um teste de indistinguibilidade relativamente a textos do mesmo tipo que tenham sido feitos para ser poesia. 

________  

Hear e listen correspondem muito diretamente aos verbos portugueses ouvir e escutar, respetivamente. A distinção que Oliveros faz entre ouvir e escutar é trivial e pertinente, mesmo não recorrendo às neurociências: uma análise semântica elementar mostra-nos que os dois verbos se distinguem pela agentividade do sujeito: ouvir acontece ao sujeito, escutar é algo que o sujeito faz. 



30/07/26

Panca: uma nota etimológica muito rápida


Os dicionários que consultei registam o termo panca, com várias aceções e como derivado de palanca ou talvez derivado de palanca

Uma das aceções que registam é a de «maluqueira, doidice; falta de juízo; mania pouco lógica ou irracional».

Parece-me que esta aceção devia ser registada separadamente, porque é uma forma convergente daquela: tendo assistido à divulgação do termo, tenho a certeza de que é uma abreviatura de pancada, que pode ter exatamente o mesmo significado, coexistindo ambas as formas para esse significado no português europeu atual. 

Pancada é formada de panca na aceção de «pau», e a aceção de «maluqueira, etc.» está, portanto, relacionada com aquela; mas não deriva diretamente de palanca, e sim de pancada.


Palavras novas


O dicionário Porto Editora em linha define léxico como «conjunto ilimitado e aberto de todas as palavras e elementos morfológicos com significado possíveis numa língua».  

Atente-se em «conjunto ilimitado e aberto». Ao contrário do que se pensa muitas vezes, o conjunto de palavras disponíveis não só não é fixo como é, em parte, virtual. A palavra fionicamente, por exemplo, significando «de uma forma típica da ilha da Fiónia» era já uma palavra portuguesa antes de eu a ter inventado agora mesmo. E é uma palavra bem formada, isto é, segue as regras interiorizadas pelos falantes para a cunhagem de um termo novo: a um nome de lugar terminado terminado em -ónia posso acrescentar o sufixo -ico para formar um adjetivo significando «natural de» ou «relativo a» esse lugar* e a esse adjetivo posso acrescentar o elemento -mente (não interessa agora se é sufixo ou não...) para formar um advérbio de modo. Evidentemente, esta palavra tem um problema: poucos falantes da língua sabem que existe uma ilha na Dinamarca cujo nome português é Fiónia, pelo que não compreenderiam fiónico e, por isso, também não compreenderiam fionicamente**. Quando, no meu grupo de amigos de Rio de Mouro, se começou a usar o verbo algueiroar, ninguém teve dúvidas sobre o seu significado, que variava, segundo o contexto, entre «ir ao Algueirão» e «estar/parar no Algueirão». Mas quem não soubesse da existência de uma localidade chamada Algueirão não compreenderia o termo.  

Há muitas maneiras de ir atualizando o léxico de uma língua. E uso aqui atualizar em duas aceções ao mesmo tempo: «tornar atual, adaptar ou ajustar ao tempo presente» e «tornar real o que era virtual». Cunhar palavras novas a partir de elementos preexistentes, como exemplifiquei acima, é apenas uma de várias possibilidades. 

A forma mais comum de renovar o léxico é, estou eu em crer, é importar palavras que se usam já noutras línguas. A importação de palavras é muitas vezes criticada enquanto há dela consciência, por se considerar que palavras estrangeiras não devem fazer parte do léxico de uma língua. A distinção entre palavras «nativas» e «estrangeiras» é, porém, muito difícil e, sejam quais forem os critérios que se escolham para fazer essa distinção, há sempre muitas palavras do léxico efetivamente usado num determinado momento em qualquer língua do mundo que são «estrangeiras», no sentido em que houve uma altura em que foram trazidas de outra língua e começadas a usar, em vez de resultaram da evolução de formas anteriores usadas já na língua. 

Sentir-se ou não uma palavra como «estrangeirismo» tem muitas vezes a ver com o seu som, por muito que qualquer palavra passe por um certo grau de «nacionalização» ao ser usada no discurso noutra língua. A palavra feeling, por exemplo, usada em português, transforma-se em fílingue, com um /ĩ/ nasal seguido de um /g/ final, já que os sons originais /ɪŋ/ não existem na nossa língua, mas continua a soar «estrangeira», porque um -ingue atóno em palavras esdrúxulas é incomum em português. Uma palavra como lanche, porém, também importada do inglês e com uma sequência de sons não muito comum em português, já deixou de ser sentida como estrangeira***. O mesmo se passa com futebol ou túnel e muitíssimas outras palavras importadas do inglês. Também ninguém pensa já em constatar ou restaurante como palavras francesas, nem em cavalheiro ou camarada como palavras espanholas, nem em atacar e palhaço como palavras italianas. E o que é mais curioso é que às vezes nos chegam através de uma determinada língua palavras de uma terceira língua: televisão é meio grega meio latina, mas não foi em português que foi cunhada a palavra, foi importada do inglês ou do francês. Placebo é uma palavra latina, mas importámo-la muito provavelmente do inglês, onde é atestada a aceção médica que tem hoje já em 1900. 

Às vezes, em vez de se importarem palavras de outra língua, criam-se palavras novas com palavras ou elementos «nativos», mas segundo o modelo da palavra estrangeira. É o que se chama um decalque (que é um termo importado do francês...). Há dezenas e dezenas deles em todas as línguas. Por exemplo, arranha-céus e lua de mel são decalques dos termos ingleses skyscraper e honeymoon; jardim de infância ou jardim infantil e mundividência ou cosmovisão são decalques das palavras alemãs Kindergarten e Weltanschauung; e franco-atirador e pequeno-burguês são decalques do francês, de franc-tireur e petit-bourgeois. Em linha, na primeira linha deste texto, é um decalque do inglês online

Pode acontecer que um decalque distorça o significado de uma expressão na língua original. Um caso óbvio é o do francês Tiers Monde, que, decalcado para várias línguas, entre as quais o português como Terceiro Mundo, introduz uma ideia de hierarquia dos mundos que não está patente no original (não é Troisième Monde!): a expressão foi cunhada por Alfred Sauvy em 1952, com base nos três estados anteriores à revolução francesa, aristocracia, clero e povo/burguesia, le tiers état: o Terceiro Mundo era a parte do mundo subjugada que haveria de se emancipar, como o tiers état francês.

E alguns decalques podem ser mais sofisticados ou menos óbvios. Por exemplo, a palavra nostalgia, cunhada pelo suíço Johannes Hofer em 1688, juntando os elementos gregos nostos, «regresso a casa» e algos, «dor, sofrimento», decalca a palavra alemã para «saudades de casa; saudades da terra», Heimweh, composta de Heim, «lar, casa, lugar natal» e Weh, «dor, sofrimento». A palavra nostalgia fixou-se sem mais transformações em várias línguas, incluindo o português, mas, noutros casos, dão-se decalques múltiplos sucessivos. Por exemplo, uafhængihed, «independência» em dinamarquês, foi decalcada do alemão Unabhängigkeit, usando elementos diretamente correspondentes (Un-ab-hängigkeit > u-af-hængihed), e a palavra alemã, por sua vez, é composta a partir dos elementos latinos de independentia-, ou seja, prefixo de negação + preposição do verbo que corresponde a pender + nome da raiz de pender, estado do que pende). Muitos termos científicos espalham-se assim, através de decalques sucessivos: uma palavra como anticorpo vem do alemão Antikörper e passa, como decalque, a várias outras línguas (é muito provável que o português não seja um decalque direto do alemão, mas sim do decalque francês ou inglês da palavra alemã, mas não posso ter a certeza).  

Também pode haver decalques semânticos. Os decalques semânticos não implicam cunhagem nem empréstimo de palavras em sentido estrito, mas antes atribuir a uma palavra uma aceção nova com base numa aceção duma palavra estrangeira que normalmente a traduz. Rato para designar o «dispositivo operado manualmente que permite executar funções no computador sem o recurso ao teclado» não é propriamente um termo cunhado em português, mas sim um decalque semântico do inglês mouse.

Um decalque é, bem vistas as coisas, uma forma de importação de palavras (mesmo quando se cria uma nova aceção por decalque semântico, está-se a importar vocabulário) e não é uma estratégia nem mais nem menos apropriada que a importação direta. Há certos puristas que a acham até mais «perigosa» que a importação direta de palavras estrangeiras, mas também isso não faz muito sentido. Importar ou criar palavras novas numa língua nunca a põe em perigo, é uma dinâmica natural e todas as línguas sempre o fizeram. Pode até considerar-se uma prova de vigor. Estou a lembrar-me de um artigo que li há muito tempo, em que o linguista Francisco Raga Gimeno afirmava que, das línguas maias, o maia do Iucatão era a mais contaminada pelo castelhano — e a que mostrava maior vitalidade. O que põe em perigo uma língua é, isso sim, não ser falada, ser língua materna de cada vez menos pessoas. Há muitas línguas a desaparecer todos os dias, porque morrem os seus últimos falantes nativos. E foram efetivamente mortas por outras línguas mais poderosas, mas não porque tenham sido inundadas de estrangeirismos — porque as línguas mais poderosas importaram os seus potenciais falantes. 

O léxico é a parte mais superficial, eu diria «a menos linguística» de uma língua, aquela que se altera com mais facilidade e para a qual mais contribuem outras línguas. Se falarmos dos sons e da estrutura das frases, é certo que também mudam e que também mudam constantemente, mas muito mais devagar. E mudam devido a dinâmicas internas: para haver neles influência de outra língua (chamam os linguistas a isso influência de superstrato) são precisas migrações muito grandes. Que o /R/ «longo» do português moderno tenha surgido por influência francesa, para citar uma crença bastante espalhada, é um mito apenas, uma influência desse tipo não tem nenhuma possibilidade de ser real.

A fortuna de uma palavra é difícil de calcular quando ela é cunhada ou importada, mas conta muito, claro está, o poder linguístico de quem a cunha ou importa. Por exemplo, muitos latinismos renascentistas importados do castelhano por Camões acabaram por ficar na língua. Mas não é preciso ser o poeta mais famoso de uma língua: todas as figuras públicas têm mais possibilidade de fazer vingar um termo novo, cunhado ou importado. Ou os rapazes ou as raparigas mais influentes num grupo de amigos… 

P.S.: No parágrafo sobre importação de palavras estrangeiras repito, resumindo muito, coisas que já aqui disse noutros textos e sobretudo num texto de fevereiro de 2017 a que vou buscar alguns exemplos que uso neste texto. Quem se interesse por esta questão dos estrangeirismos, pode chegar aos textos que escrevi sobre o tema carregando na etiqueta Estrangeirismos por baixo deste texto.

_________________

* Nem sempre correspondem adjetivos em -ónico aos topónimos em -ónia, mas existem em número suficiente para justificar o neologismo fiónico: encontro, pelo menos, amazónico, babilónico, caledónico, estónico, jónico, letónico, macedónico, patagónico e saxónico, às vezes a par de outras formas.

** Deste tipo de advérbios de modo, só encontrei, nos dicionários que consultei (mas não foi uma consulta extensiva, longe disse), portuguesmente e americanamente. É estranho. Parece-me claro que francesmente, inglesmente, etc. são palavras portuguesas –– e surpreender-me-ia que fossem apenas virtuais...

*** Note-se que são poucas as palavras em -anche em português, embora a sequência não soe estrangeira. Só consigo pensar em palavras originalmente importadas (avalanche, comanche, revanche, romanche e tranche), além de formas dos verbos (des)enganchar, desmanchar (também importado do francês), manchar e remanchar.


19/07/26

Canções que referem outras canções #13: «À jeun» e «Mirza»

 

Em «À Jeun», de 1967 (que, palavra a palavra, é «em jejum», mas que, neste e noutros contextos, significa de facto «sóbrio; sem ter bebido bebidas alcoólicas »), Jacques Brel faz uma alusão clara à canção «Mirza», de Nino Ferrer, que tinha sido lançada dois anos antes e que tinha sido um grande sucesso. 

Um tema recorrente nas canções de Jacques Brel é a infidelidade das mulheres. Não sei da vida de Brel o suficiente para saber se, nas suas canções, o eu que se queixa da infidelidade tem algo de autobiográfico e, para dizer a verdade, a vida de Brel não me interessa por aí além. Também não há nada de muito original nessa temática. Há muitas, muitas canções de voz masculina a acusar mulheres de infidelidade —  e também muitas canções de voz feminina a revoltar-se contra a infidelidade dos homens — que deve, no mínimo, ser tão comum como a das mulheres. Esta introdução é um comentário de passagem, porque «À jeun» tem precisamente essa temática. 

O motivo da canção é um enterro, o enterro da infiel esposa do eu da canção, que se embebeda no enterro. Brel tratara já o mesmo tema da infidelidade usando um motivo próximo em « Le Moribond », em que o eu da canção é um homem à beira da morte. 

«À jeun» é obviamente uma canção satírica e Brel lança mão de artifícios que se pretendem humorísticos, como dizer que estavam todos de negro, menos ele que estava gris, «cinzento», o que em francês significa «bêbedo»; baralhar masculino e feminino em sogro e sogra, «beau-maman», «belle-papa»; referir a procura de um cão no meio do enterro («Z'avez pas vu Mirza ?»); e, sobretudo, a interpretação: um cantar de bêbedo. A figura do bêbedo é, aliás, uma figura humorística recorrente na canção, que se interpreta às vezes, como aqui, imitando no canto a fala vacilante do embriagado. 

«À jeun» é também uma canção de crítica social, se se pode dizer assim, porque o ouvinte percebe, no fim da canção, que o amante da falecida esposa é o chefe do contencioso no local de trabalho do marido da falecida Huguette. 

Parfaitement à jeun
Vous me voyez surpris
De n'pas trouver mon lit ici
Parfaitement à jeun
Je le vois qui recule
Je le vois qui bascule aussi

Guili guili guili

Viens là mon petit lit
Si tu n'viens pas-t-à moi
C'est pas moi qui irai-t-à toi
Mais qui n'avance pas recule
Comme dit monsieur Dupneu
Un mec qui articule
Et qui est chef du contentieux

Parfaitement à jeun
Je reviens d'une belle fête
J'ai enterré Huguette ce matin
Parfaitement à jeun
J'ai fait semblant d'pleurer
Pour ne pas faire rater la fête

Z'étaient tous en noir
Les voisins, les amis
Y avait qu'moi qui étais gris
Dans cette foire
Y avait beau-maman, belle-papa
Z'avez pas vu Mirza ?
Et puis monsieur Dupneu
Qui est chef du contentieux
Parfaitement à jeun
En enterrant ma femme
J'ai surtout enterré
La maîtresse d'André

Je n'l'ai su que c'matin
Et par un enfant d'chœur
Qui m'racontait qu'sa sœur
Ah ça !!
Il me reste deux solutions
Ou bien frapper André
Ou bien gnougnougnafier la femme d'André
Sur son balcon
Ou bien rester chez moi
Feu cocu mais joyeux
C'est c'que me conseille André
André, André Dupneu
Qu'est mon chef du contentieux

Parfaitement à jeun
Vous me voyez surpris
De ne pas trouver mon lit ici


A canção «Mirza», de Nino Ferrer, é uma canção pop cuja letra, um monólogo de alguém que procura e encontra o seu cão, é apenas um pretexto para cantar. 

Z'avez pas vu Mirza?
Où est donc passé ce chien ?
Je le cherche partout
Il va me rendre fou
Oh, ça y est, je le vois
Veux-tu venir ici ?
Je ne le répéterai pas
Sale bête, va
Oh, il est reparti
C'est bien la dernière fois
Que je te cherche comme ça
Oh et ne bouge pas
Oh, satané Mirza


13/07/26

Ensimesmamento


A palavra mais esquisita da língua portuguesa deve ser o verbo ensimesmar-se

É certo que nem todas as palavras se formam das maneiras mais canónicas. Parabéns, por exemplo, formou-se de uma preposição e um nome (para bens); e o je-m’en-foutisme francês, que refere uma atitude de desinteresse, de se estar nas tintas para o que se passa,  formado de je m’en fous, «estou-me nas tintas» — dois pronomes, um advérbio e um verbo. Também são palavras um pouco esquisitas, mas ensimesmar-se é muito mais.

Ensimesmar-se é, ao que parece, uma palavra importada do castelhano. Quem terá tido a ideia de a usar em português? E, sobretudo, quem terá tido a ideia de lhe acrescentar a mais anómala conjugação da língua portuguesa, a «dupla flexão pronominal reflexa», que não existe no termo castelhano e que, em português, só existe para este verbo? Em castelhano, ensimismarse, por muito que seja tenha sido formado de maneira incomum, é apenas um verbo regular:  yo me ensimismo, tú te ensimismas, ella se ensimisma, nosotros nos ensimismamos, vosotras os ensimismáis, ellos se ensimisman, etc. O que é mesmo estranho no ensimesmar-se português é o pseudo-radical mudar de pessoa para pessoa: eu emmimmesmo-me, tu entimesmas-te, ela ensimesma-se, nós ennosmesmamo-nos, vós envosmemais-vos, eles ensimesmam-se

Pormenor de um desenho de Cory, J. Campbell, 1911
Wikimedia Commons, daqui.
Pode argumentar-se: «Estranho será; mas é lógico.» Bom, a ser lógico, é só meio lógico, porque o particípio passado estraga tudo: o particípio passado é sempre ensimesmado, o que faz que a pretensa lógica dos tempos simples despareça nos tempos compostos. Seguindo a lógica da tal «dupla flexão pronominal reflexa», podia esperar-se uma frase como 

Depois de me ter *emmimmesmado durante um longo período, comecei, nesse verão, a abrir-me ao mundo à minha volta.

Mas não, não existe. Diz-se e escreve-se 

Depois de me ter ensimesmado durante um longo período, comecei, nesse verão, a abrir-me ao mundo à minha volta.

Não há dúvida: a palavra mais esquisita da língua portuguesa é mesmo o verbo ensimesmar-se


09/07/26

Orgulho

 

– E até uma vizinha me disse uma vez – dizia ela visivelmente emocionada, à beira das lágrimas – «que bem que a senhora estende a roupa, tão direitinha».

Na vida desgraçada que levara, em que tudo e toda a gente à sua volta lhe lembrava constantemente que ela não era nada, não valia nada, só em coisas assim conseguia encontrar motivo de orgulho.

E nós, ao ouvi-la, como não ficarmos também à beira das lágrimas?  

01/07/26

Dois apontamentos sobre comida tradicional – história, cultura e gastronomia


Como é que uma comida se torna tradicional? 

A ideia de que a cultura material de um povo é, se não completamente determinada, pelo menos grandemente influenciada pelas condições naturais dos lugares que esse povo habita é tão sensata que é difícil pô la em causa. É interessante constatar, porém, que às vezes se observam certos fenómenos culturais, certas tradições, que parecem tão a contrapelo dessa lógica que uma pessoa se sente baralhada com o seu aparente desarrazoado.   

Três exemplos que me vêm imediatamente à cabeça, da área da gastronomia: Se os pratos típicos de uma região se vão desenvolvendo a partir dos ingredientes disponíveis nessa região (nativos ou importados, não importa, contanto que lá existam), porque é que as passas de uva são um produto indispensável nos lares dinamarqueses e de outros países do norte da Europa, e já de muito antes da moderna globalização culinária? E porque é que o maçapão de Lübeck é uma Indicação Geográfica Protegida, quando não há amendoeiras no norte da Alemanha? E porque é os portugueses consomem há tanto tempo tanto bacalhau, quando o importaram sempre quase todo? 

Parece-me muito provável que, algumas vezes, seja precisamente a raridade de um produto — importado, por ser inacessível localmente, e por isso consumido apenas pelas classes mais ricas — que o torna desejado e, por razões nem sempre fáceis de explicar em pormenor, que faz dele um produto necessário à «boa mesa», sobretudo quando passa a ser mais abordável para um maior grupo de pessoas. Creio que é isto que se passa com as passas e o massapão no norte da Europa.  

As passas de uva são consumidas há muito tempo no norte da Europa, principalmente em bolos e inicialmente como especiaria. Foram, durante muito tempo, uma das poucas fontes de açúcar que havia — um produto de luxo reservado à nobreza e algum clero. Depois, como marca de estatuto social, foram também adotadas pela burguesia e depois por toda a gente, à medida que se iam tornando mais acessíveis a todas as bolsas. [1]  

O maçapão de Lübeck tem uma história semelhante. Referido pela primeira vez nos registos da Guilda de Lübeck em 1530, o maçapão era um produto de luxo, com pretensas propriedades medicinais, que só podia ser fabricado e vendido pelos boticários. E, como produto de luxo que era, comia-se sobretudo nas festas dos ricos. Se o de Lübeck se tornou famoso, foi pela sua qualidade: a cidade era um grande centro comercial e era, por isso, possível assegurar aí o fornecimento de pasta de amêndoa, um produto importado do sul e cuja escassez fazia que, em muito outros sítios, o maçapão fosse quase só açúcar sem amêndoa. A partir do início do séc. XIX, com a abolição das corporações, o maçapão passou a ser produzido por pasteleiros e, poucas décadas depois, havia já várias fábricas de maçapão na cidade. O maçapão era agora mais barato, ao mesmo tempo que aumentava o poder de compra dos consumidores; e espalhou-se pelo norte da Europa. [2]    


Já a história do consumo de bacalhau em Portugal não é em nada semelhante. Não se trata, neste caso, de um produto de luxo que se tornou depois mais acessível a todos.  

Muito consumido em Portugal desde o séc. XVI, o bacalhau sempre foi comida do povo, uma situação que não era, aliás, exclusiva de Portugal: o bacalhau foi, durante séculos, um produto de consumo comum em toda a Europa, sobretudo entre as classes mais pobres. Dizem José Manuel Sobral e Patrícia Rodrigues no seu estudo O fiel amigo: o bacalhau e a identidade portuguesa :  

Cremos que a razão da [exaltação do bacalhau] em Portugal radica, em última instância, na celebração pelas classes populares rurais e urbanas de um alimento que enriqueceu uma dieta secular pobríssima feita de pão e de alguns vegetais ou toucinho. 

Agora, se nos séculos XV e XVI os portugueses iam pescar bacalhau no Atlântico Norte, entre o século XVI e fins dos séc. XIX o bacalhau era todo importado; e, mesmo quando a pesca nacional de bacalhau foi aumentando ao longo do século XX e Portugal chegou brevemente a ser, na década de 1950, o maior pescador mundial de bacalhau, continuou a importar-se cerca de um quarto do bacalhau consumido.  

Passados 70 anos, o bacalhau é de novo todo importado, como o foi durante séculos, e continuamos a ser de longe os maiores consumidores de bacalhau do mundo, como já somos pelo menos desde os anos 30 do século XX. Mas não só de bacalhau — de peixe em geral. Todos os dados que encontro sobre o consumo de peixe indicam que, se excetuarmos pequenos territórios insulares, Portugal é atualmente o maior consumidor de peixe per capita. E 80% do peixe que se come em Portugal é, como o bacalhau, importado. [3]  

Não vou desenvolver esta questão, por muito que ela seja interessante. O que me interessa aqui salientar é que não é preciso um produto existir num determinado sítio para fazer parte da gastronomia desse sítio. O preço é com certeza uma condicionante, mas mesmo um preço elevado não parece fazer excluir totalmente um produto que tenha passado a fazer parte de uma tradição — do que se considera normal. E, para isso, pode haver várias razões: por exemplo, pode ter-se tornado um produto alimentar de base por ter sido já considerado de elite ou, no extremo oposto, por ter sido a mais barata fonte de proteína para as classes populares — e talvez por muitas outras possíveis razões entre estes dois extremos… 

E o que é que se pode considerar tradicional?  

Conheci também há pouco tempo um brevíssimo ciclo de quatro canções de Leonard Bernstein , cujos textos são excertos de receitas de La Bonne Cuisine Française , um clássico de Emile Dumont, de 1889 . A receita de plum pudding de Dumont pede, como única gordura, sebo de rim de vaca, de que se devem retirar todas as peles e veios, e picar até ficar reduzido a pó fino. Acho que quem se proponha hoje seguir estas receitas substitui a gordura de rim de vaca por manteiga, não vos parece? Ou banha, vá que seja — ainda há bolos feitos com banha, mesmo industriais. Mas gordura de rim de vaca?

Se uma receita de fins do século XIX nos pode parecer exótica, mais exóticas nos podem parecer receitas mais antigas. Tive um livro chamado Notas de Cozinha , de Leonardo da Vinci, que me serviu de introdução à estranheza da gastronomia do passado. Como já não tenho o livro de notas de Leonardo da Vinci em português, traduzo uma receita d a versão em espanhol a que tenho acesso: 

Sopa de amêndoa 

Fervem-se alguns nabos tenros numa panela onde se pôs uma cabeça de ovelha cozida; depois, desfaz-se tudo com sal, pimenta e sementes de cominho, junta-se-lhes um ovo para ligar esta mistura e com ela fazem-se bolas e outras formas que se cobrem com migas de pão. No centro de cada uma destas bolas e formas coloca-se um testículo de borrego cozido. Põe-se tudo [a fritar] numa frigideira com óleo até ficar duro e castanho e serve-se.   

Leonardo da Vinci acrescenta que desconhece por que razão este «famoso prato milanês» é conhecido como sopa de amêndoas e eu também não faço ideia. Talvez amêndoas fosse um termo eufemístico para testículos. Mas o que me interessa aqui é o facto de ser um prato conhecido. Não se fica a saber quem o comia, é certo, e um problema destes livros de receitas antigos é darem conta apenas do que se comia nas casas dos ricos. Parece-me provável, até pelos ingredientes, que este prato não fosse comido apenas em banquetes de nobres, mas não sei… 

José Manuel Sobral e Patrícia Rodrigues notam, no texto atrás referido, que não há receitas de bacalhau no mais antigo livro de cozinha português, A Arte de Cozinha , de Domingos Rodriguez, de 1680, e esse reparo fez-me revisitar o livro, que eu já conhecia. Domingos Rodriguez foi cozinheiro do Conde de Vimioso e do rei Pedro II, de maneira que aqui não temos dúvidas de que é da cozinha dos ricos que se trata. Há, neste livro, muitas receitas que nos parecem hoje estranhíssimas, algumas com quantidades enormes de ovos, com muito açúcar e fruta em pratos de carne, etc. Deixo aqui uma, que escolhi porque Domingos Rodriguez a descreve como «um prato ordinário» (no sentido de «comum», nota-se, não no sentido pejorativo que muitas vezes tem hoje) e deixo aqui a grafia original, que lhe dá outro… sabor.  [4]   

Sopa de qualquer genero de aßado.  

Feito hum vintem de paõ em fatias, ponhaſe hũa cama dellas em hũa frigideira grande untada de manteiga, cubraõ-ſe de açucar, & de canella, & ſobre eſta cama ponhaſe outra da meſma ſorte, & por cima della hũa pequena de manteiga de vaca lavada, & açafraõ, deitem-lhe hum pouco de caldo de galinha, ou de carneiro, & deixe-ſe eſtofar de vagar em pouco lume; & logo tirandoſe fóra do lume, deitem-lhe huma duſia de ovos por cima (ou menos, conforme for a frigideira) com açucar, & canella : feito iſlo, tomeſe hũa tampa com lume, & ponha-ſe hũ pouco levantada ſobre a ſopa até que tome boa cor ; tirada da frigideira, & poſta no prato, ſe trinchará o aſſado, que podem fer galinhas, ou frangãos, ou põbos, ou perùs. Este he hum prato ordinario.

Chamou-me a atenção o surpreendente requinte técnico do «gratinado» com a tampa a arder colocada por sobre a frigideira. 

Mas não há dúvida de que o passado é um país distante. E as tradições, essas, não são na maioria muito antigas. Também na gastronomia. Quantos anos têm as receitas tradicionais portuguesas, francesas ou italianas que todos conhecemos hoje? De cada vez que me ponho a explorar a história de uma delas, descubro sempre que não são tão antigas como isso. [5]  

De maneira que insisto, espraiando a partir da gastronomia: não tentemos dar aos elementos que se dizem constituir uma identidade nacional um caráter trans-histórico que eles, de cada vez que se investiga, se verifica não terem. O que se come hoje em Portugal é muito mais parecido com o que come hoje na Dinamarca do que com o que se comia em Portugal há 500 anos. E o que se veste. E o que se pensa. Etc.  


Imagens:
[Muitos quilos de passas] Membros da União dos Cozinheiros preparando um plum-pudding gigante, xilogravura para o jornal The Illustrated London News de 3.1.1863, daqui
[Outros maçapães nórdicos] A fábrica de maçapão M. Zappa na Schloßplatz de Königsberg, atual Calininegrado. Carta postal, autor desconhecido, s.d. anterior a 1914. Bildarchiv Ostpreußen, daqui
[Terra nova e Labrador] Barco de pesca com bacalhau (e halibute pendurado), foto de N.B (?) Miller, s.d. (anterior a 1927), Biblioteca do Congresso dos EUA, daqui

____________________

Notas:

[1] Não encontrei nada específico sobre a história das passas de uva no norte da Europa, mas vários sites dizem o mesmo que esta página  ou esta página , por exemplo. Para uma cronologia da história das passas de uva, ver aqui .  

[2] Esta informação é tirada das páginas da Wikipédia sobre o massapão de Lübeck em três línguas diferentes, que se completam: as páginas   em francês, em alemão e em inglês

[3] Toda a informação sobre o bacalhau é tirada de duas fontes, que aconselho: o estudo de José Manuel Sobral e Patrícia Rodrigues O fiel amigo: o bacalhau e a identidade portuguesa (2013) e o episódio «Faina maior, a pesca do bacalhau»  (2015) da série televisiva História a História,  de Fernando Rosas, que inclui uma entrevista a um especialista da história do bacalhau, Álvaro Garrido. Para Informação sobre a importação de peixe, ver aqui ou aqui .

[4] A página em inglês do artigo da Wikipédia sobre Alfred Korzybski inclui um curioso episódio referido num jornal neerlandês, que eu traduzo: 

Um dia, Korzybski estava a dar uma aula e, de repente, interrompeu-a a aula para tirar da pasta um pacote de bolachas, embrulhado em papel branco. Disse que precisava mesmo de comer alguma coisa e perguntou aos alunos da primeira fila se também queriam uma bolachinha. Alguns estudantes aceitaram uma bolacha. «Boas bolachas, não acham?», perguntou Korzybski, e comeu mais uma. [..] Depois, rasgou o papel branco onde as bolachas estavam embrulhadas, mostrando a embalagem original. Via-se uma imagem de um focinho de cão e as palavras «bolachas para cães». Quando os alunos viram a embalagem, ficaram chocados. Dois deles sentiram vómitos, taparam a boca com as mãos e saíram da sala a correr. «Vejam», comentou Korzybski, «acabo de demonstrar que as pessoas não comem só comida, mas também palavras, e que às vezes conta mais o sabor das palavras que o sabor da comida.

Peço desculpa pela excursão, mas gosto muito desta história. 

[5] Como diz Luís Pontes no seu blogue

[a] ideia generalizada de que aquilo que comemos e a que se convencionou chamar «cozinha tradicional portuguesa» é um património que nos acompanha enquanto povo desde tempos imemoriais é um dos mais lamentáveis logros, que nos é vendido por uma certa «gastronomia» que, à falta da criatividade e reinvenção de que a Gastronomia é feita, nos impinge uma cozinha geralmente com meia dúzia de dezenas de anos (a cozinha de infância destes gastrónomos), que tem sido perpetuada numa visão museográfica da cozinha [...] .



10/06/26

Almanaques


Escrevia eu a 5 de março deste ano, numa espécie de diário de viagem que eu tinha:

Quando faço uma viagem longa como esta, quero ter o menos bagagem possível, e, como escolhi criteriosamente tudo aquilo que havia de me fazer falta, decidi que não comprava nada durante a viagem. Mas é uma decisão às vezes difícil de respeitar, sobretudo quando o objeto que nos seduz pesa apenas uns gramas e custa meio euro…

Era ao Almanaque de Bristol que me referia. Esclarece a Wikipédia em espanhol (traduzo eu):

O Almanaque de Bristol, cujo nome completo é Almanaque pitoresco de Bristol, é una publicação da empresa Lanman & Kemp-Barclay & Co. Inc., de Nova Jérsei, EUA, para promover os seus produtos de saboaria e perfumaria. É publicado ininterruptamente desde 1832, sendo muito popular desde princípios do século XX nos países da América Latina, para os quais a empresa faz edições nacionais ou regionais.

Sabões e perfumes! Nunca me teria passado pela cabeça. Interessantes estratégias de publicidade que havia antigamente. Diz também a Wikipédia que o Almanaque é, por isso, gratuito, mas que também se vende às vezes por preços muito baixos — o tal meio euro que paguei…

A página da Wikipédia tem ainda (não há enciclopédia como esta!) uma secção «O almanaque e a literatura», com informação fascinante:

Devido à sua popularidade, o almanaque de Bristol é mencionado por destacados escritores hispano-americanos como parte do quotidiano ou como referência e fonte de consulta comum de personagens de novelas e contos, como é o caso de Gabriel García Márquez nas novelas A revoada e O amor nos tempos de cólera, e nas suas memórias Viver para contá-la. Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares também o mencionam na sua obra conjunta publicada com o pseudónimo H. Bustos Domecq Seis problemas para Dom Isidro Parodi, e o mesmo fazem Miguel Ángel Asturias em Mulata de tal e o escritor salvadorenho Napoleón Rodríguez Ruiz na sua novela costumbrista Jaraguá.

Não me surpreende nada que Borges e Bioy Casares refiram o Bristol. E o parágrafo citado da Wikipédia quase podia também, sem a referência a García Márquez, ser um parágrafo de um conto de Borges… O mais interessante, porém, é o parágrafo seguinte:

O historiador e ensaísta colombiano Germán Arciniegas assinalou que o Almanaque de Bristol teve nele uma profunda influência e diz:

«A minha curiosidade literária, como a de quase todos os da minha geração, não nasceu de me ter ido parar às mãos nem Homero, nem Cervantes, nem Virgílio, mas sim o Almanaque de Bristol

O link para a fonte da citação está morto, mesmo no Wayback Machine, mas não duvido de que Arciniegas tenha dito a frase. Mas, se não, façamos de conta que é uma fantástica citação borgiana…

O Bristol é quase igual ao Borda d’Água, o mítico almanaque português, só que este último, se bem que quase centenário, é quase 100 anos mais novo que o almanaque americano: o Borda d’Água é publicado pela Minerva desde 1926. 

Quando vivia em Portugal, comprava todos os anos o Borda d’Água, não sei bem porquê nem para quê… Uma das coisas que me seduzia era o nome. Borda d’Água é um nome muito bonito, com o aquele apóstrofe, B, D´D e G sonoros, o Ó e Á tónicos, tudo muito harmonioso... Quem terá inventado esse nome? Soa misterioso, não soa? Significará algo que eu desconheço? Ou é mesmo só orla, fímbria, litoral? Chama-se assim porque traz as marés? Outro aspeto atraente é o grafismo, que é desusado. Histórico, se se preferir: há coisas que nunca mudam, como os movimentos dos astros e a sequência das estações e dos anos. 

O Borda d’Água traz o mesmo que o Bristol, tirando os anúncios de sabões e perfumes: signos e horóscopos, calendário com feriados, festas e santos dos dias, nasceres do sol e ocasos, marés, fases da lua, datas de nascimento de pessoas célebres, início das estações do ano, eclipses… Deve ser o que trazem todos os almanaques. Mas o Borda d’Água traz conselho para a agricultura, a jardinagem e os animais, que o Bristol não traz; e o Bristol tem recomendações para a pesca e duas páginas sobre cuidados e ter com a água, que o Borda d’Água não tem. Mas como, se ele é que é Borda d’Água? E o Bristol tem uma historieta moral em oito quadros, um texto sobre inteligência artificial (!) e uma página de «frases célebres». Uma dessas frases é atribuída a uma «edição imaginária» do próprio Almanaque de Bristol, outra a uma sua «edição profética» e outra ainda a um «poeta das estrelas». Estas atribuições também são algo borgianas, ao contrário das frases atribuídas, que são demasiado desinteressantes para eu aqui as transcrever.  O Borda d’Água também tem aforismos, mas de autores desconhecidos, os chamados provérbios populares — um para cada mês do ano: «Junho floreiro, paraíso verdadeiro»...

Não é só o grafismo que é doutros tempos, também a informação: já ninguém quer saber dos santos de cada dia, nem de feiras anuais… E, se houver ainda quem queira informação sobre marés, estações e equinócios, ou seja lá o que for, aliás, tem outras maneiras, mais rápidas e mais acessíveis, de a encontrar. Sem o papel finíssimo e o homem de cartola na capa. Se é pena ou não julgará o sentir de cada um, que ser pena, aqui, não é julgamento da razão.