25/04/26

Casas bolivianas


Isto não é um artigo sobre arquitetura; é só um breve apontamento fotográfico de viagem, mas com um enfoque específico: as casas de habitação bolivianas. Acho que as casas bolivianas têm algumas características que as distinguem das casas dos outros países que conheço, mas é bem possível que algumas dessas características sejam comuns a outros países, nomeadamente da América Latina (além da Bolívia, na América Latina só conheço a Colômbia, o Brasil, o Paraguai e uma pequena parte do Peru). As fotos estão na definição original, de maneira que, clicando-as, podem vê-las em tamanho grande.

As casas antigas que sobrevivem na Bolívia são quase todas de adobe. Notem que não conheço tão bem as terras baixas como a cordilheira andina, mas, mesmo no pouco que vi das terras baixas, vi várias vezes adobe em casas mais velhas. 

Paredes de adobe, vendo-se, na segunda foto, que, o adobe não é feito só de barro, mas também de palha. À direita, casas antigas de adobe na cidade de Sucre.
Na última foto, na parede da empena da casa à direita, o reboque caiu e vê-se o adobe.  


As casas antigas têm muitas vezes tetos de cana, e às vezes também telhados de cana cobertos com terra e depois com telha. Muitas têm pátios interiores e alpendres com pilares de madeira ou de pedra. Muitas casas urbanas antigas têm também balcões de madeira, muitas vezes fechados e às vezes decorados.

As duas primeiras fotos deste série são de Santa Cruz e são exemplos de pilares antigos (ou à antiga) de alpendres e galerias.
Nas quatro seguintes, de Potosí, Sucre e Tarija, veem-se pátios interiores. Os três primeiros exemplos de varandas são de Potosí e os cinco últimos de Sucre.


Encontram-se também, como em qualquer lado, exemplos de várias vertentes modernistas, às vezes bonitos, mas que não me parece terem nenhuma característica especialmente boliviana. 

Três fotos de La Paz .


As casas mais modernas são normalmente de tijolo furado e têm muitas vezes falta de reboco ou outros sinais de inacabamento. A explicação mais comum é que é uma maneira de pagar menos impostos, porque estes aumentam quando uma casa está terminada. A situação é igual no Peru e, segundo um artigo do Economista , são vários os fatores que contribuem para o fenómeno. 

A primeira foto é de La Paz e as duas seguintes de Camargo, uma pequena vila da região dos Cintis.
É assim uma boa parte da paisagem urbana da Bolívia: tijolo cru e alguma coisa inacabada...


Um fenómeno interessante é da chamada arquitetura neoandina, um estilo que é característico da cidade de El Alto. El Alto era, até meados do século passado, um apêndice de La Paz, nascido sobretudo da construção de um terminal de autocarros e do aeroporto. Tendo nascido oficialmente como município próprio em 1985, a nova cidade cresceu rapidamente e tem hoje mais habitantes que La Paz. Alguns dos comerciantes locais prosperaram e começaram a construir prédios grandes e muito vistosaos, conhecidos como cholets, uma amálgama de cholo com chalet . A arquitetura neoandina diz-se inspirada pelas cores e formas da cultura aimara, e nomeadamente pelos motivos pré-incaicos de  Tiahuanaco , a que se mistura, por vezes alguma estética de ficção científica do tipo dos Transformers, Trons ou Iron Man... Aqui e aqui ficam links para dois artigos sobre cholets , ilustrados com muito boas fotografias – , sobretudo o segundo. Agora, é claro que nem todos os cholets são prédios de habitação, mas alguns são. 

Embora não se encontrem cholets como os de El Alto no resto do país, há alguns traços do seu estilo que começam a espalhar-se.

As duas primeiras fotos não são minhas, são Wikimedia Commons. Desta série de fotos, só as três primeiras são de El Alto. As quatro fotos seguintes são exemplos de edifícios que, sem serem verdadeiros cholets, revelam alguma influência da estética neoandina. A primeira é La Paz, a segunda de Uyuni, a terceira de pequena vila de Coroico e a quarta de Rurrenabaque. O edifício de Coroico é interessante, porque é uma versão pobre, digamos assim, de um estilo exuberante. Notem-se os vidros espelhados e as empenas triangulares decorativas («estilo pagode», como vi algures) como características do neoandino que se começam a espalhar.


E há também edifícios modernos que, embora estilisticamente diferentes do neoandino, têm em comum com este as cores garridas e a exuberância.  

As duas primeiras fotos desta última série são de El Alto e estão, infelizmente, pouco nítidas, porque foram tiradas de dentro de um autocarro em movimento. As três seguintes são de Rurrenabaque e a sexta é de Sucre.
A última foto é de Tupiza e não tem nada a ver com as outras; é só um exemplo de alguma arquitetura 
sui generis e algo delirante que se encontra às vezes.



23/04/26

De bainhas e vagens


Gosto às vezes de fazer textos assim: pegar numa palavra ou num molho delas e, já que as palavras são como as cerejas, ir dizendo o que me venha agarrado a essa ou essas palavras. Desta vez, o molho de palavras é o das derivadas do latim vagina, porque acho curiosa uma derivação tão produtiva, com tantos descendentes tão diferentes (?) uns dos outros.

***

A palavra latina vagina significava originalmente «bainha, estojo de faca ou espada», significado que se alargou para «estojo, capa, proteção» de qualquer coisa (casca de grão, vagem, vagina, etc.). A palavra tem muitos descendentes, sobretudo nas línguas românicas, mas também em línguas célticas. Em português deu bainha, vagem e a forma não standard vage/bage, e a forma culta vagina

E também deu baunilha, que não deriva diretamente do latim, mas sim do castelhano vainilla, diminutivo de vaina, «vagem», palavra essa que deriva, essa sim, diretamente de vagina. Será que se pode considerar «uma vagem de baunilha» um pleonasmo? 😊

Os axónios dos neurónios são revestidos por uma  bainha de mielina,
que os protege e acelera a propagação dos impulsos nervosos. 
Imagem: Creative Commons, daqui

Bainhas

Não deixa de ser curioso assinalar, que, nas línguas latinas mais próximas, há vários cognatos de bainha com o significado original de «estojo de arma branca [1] », mas o significado de «dobra cosida para rematar uma peça de vestuário» só se desenvolveu em português [2]

Note-se, já agora, que não são só as armas brancas que têm bainhas: as unhas retráteis dos felinos também. 

Além dos usos mais comuns, bainha tem ainda usos técnicos e científicos muito específicos que não vou listar aqui, mas que têm sempre a ideia de capa, invólucro, proteção.


Vagens

A evolução de vagem é curiosa: paralelamente a vainha/bainha, vagina evoluiu também, no romance do noroeste ibérico, para vaginha/baginha, que foi depois interpretado como diminutivo de vage/bage, tendo-se então «reconstruído» uma forma que nunca existira[3]. Quando digo «interpretado» não falo de uma interpretação consciente, mas de uma interpretação inconsciente pelo programa mental, digamos assim, dos falantes da língua. Isto acontece muitas vezes e é o que se chama reanálise.

Além do seu significado geral mais comum de «fruto em forma de cápsula, com muitas sementes lá dentro», a palavra vagem designa também, nalgumas regiões de Portugal, uma vagem específica, a do feijão, quando se come inteira antes de os feijões se desenvolverem — o que, nas outras regiões se chama feijão verde[4]

Agora, não é só a vagem do feijão que se pode comer inteira: as vagens de ervilhas e favas também são comestíveis. Ver, por exemplo, aqui, aqui, aqui e aqui.


Vagens de baunilha, ilha da Reunião
A baunilha é a mais cara de todas as vagens. O preço varia muito conforme a sua qualidade, mas vi agora online que as vagens de baunilha de qualidade superior podem custar algo como 2€/grama, para quantidades pequenas. A baunilha é uma orquídea domesticada na zona que é hoje o México e o seu cultivo é bastante trabalhoso, implicando nomeadamente polinização feita à mão, com uma técnica descoberta por Edmond Albius, um rapaz escravizado da ilha da Reunião. Edmond Albius tinha só 12 anos quando descobriu o método que veio revolucionar a produção de baunilha.


Uma vagem muito saborosa (ou melhor, a polpa branca que a reveste interiormente) é o pacai (Inga feuilleei). Em inglês, o pacai chama-se ice cream bean, o que dá uma ideia da textura e sabor da polpa. 

________________

[1] Entre outros, vaina em castelhano, gaine em francês, guaina em italiano, beina em catalão e vaíña em galego.

[2] Por exemplo, ourlet em francês e orlo em italiano, cognatos do português orla; dobladillo em castelhano e doblec em catalão, ambos de origem óbvia; e basta em galego (que também existe em castelhano com o significado de «alinhavo», que confusão!), de origem germânica. 

[3] A nasalização no fim da palavra surge depois por analogia com palavras que a tinham naturalmente por derivarem de termos latinos terminados em -ine, como margem ou origem .

[4] Em vários falares hispano-americanos, usa-se também vaina, «vagem», para designar o feijão verde.  



22/04/26

Três breves notas sobre etimologias não muito claras

Caiar

[* significa forma hipotética, não atestada]

O Dicionário Etimológico de José Pedro Machado, diz que caiar vem do latim canāre, «tornar branco», passando pelas formas *cãar e *cãiar[1]. A etimologia proposta por José Pedro Machado parece-me estranha, porque não faz derivar de cal o verbo caiar — e caiar é cobrir de cal, pelo que seria muita coincidência vir de uma palavra não relacionada com cal com os mesmos sons iniciais. Além disso, não encontro outras palavras com uma evolução semelhante à que José Pedro Machado propõe...

O Aulete faz a mesma proposta, mas com menos convicção: propõe que talvez venha de canāre. O Priberam prefere considerar que o termo é de «etimologia duvidosa». O Porto Editora propõe em alternativa canāre ou caleāre, «estar quente», mas com interrogação. O Dicionário da Academia das Ciência de Lisboa propõe apenas o latim *caleāre, por calēre, «estar quente». Antenor Nascentes no seu Dicionário Etimológico Resumidoconcorda que «a base deve ser cal», mas acha que «a parte fonética está difícil de estabelecer», porque «*caleare daria *calhar e não caiar»[2]. O Aurélio também propõe em alternativa duas hipóteses, canāre ou a forma portuguesa [e galega, acrescento eu] calear, que vem obviamente de cal. Esta última hipótese de vir de outro verbo, deverbal de cal, parece-me bem mais convincente do que a de vir do clássico caleāre, «estar quente». 

Agora, não sei se a evolução de calear(e) levaria forçosamente a *calhar e não a caiar. Vejamos o que aconteceu com bailar. É normalmente aceite que bailar vem do latim tardio ballare, nalgumas propostas através do provençal balar, mas Antenor Nascente diz que «o i é inexplicado». Nunca vi nenhuma explicação sobre o i no bailar português, mas há uma boa hipótese sobre a evolução em espanhol que explica esse mesmo i: ocorre primeiro uma passagem do ll latino a li e depois uma metátese de *baliar a bailar. Em português, está atestada a forma balhar, que parece confirmar uma forma *baliar anterior, e bailar bem pode provir também da metátese de *baliar a bailar postulada para o castelhano. A ser isso certo, balhar foi uma das evoluções de *baliar, a outra foi bailar. Podemos ainda ir mais longe e constatar que, pelo menos no Brasil, se regista a forma baiar, que não sei onde nem quando se formou. 

Por fim, das palavras diretamente relacionadas com cal, não é só na palavra caiar que surge o i . Há também caieira, que coexiste com caleira para significar «forno de cal»; e caieiro que, como caleiro, refere o homem que fabrica e/ou vende cal[3]. Estas formas são fáceis de explicar (cal+eiro=caleiro>caeiro>caieiro) e devem ser considerada na discussão de caiar. O que eu não sei é se tiveram uma difusão tal que se possa considerar que caiar se possa ter formado por influência delas...

Serralheiro e cerrajero  

Serralheiro, séc. XV (Wikimedia Commons, 
ver mais informação aqui.)
Pode surpreender que a palavra espanhola para serralheiro seja cerrajero, porque é fácil associar serralheiro a serra e cerrajero a cerrar, «fechar». Mas como é que duas palavras tão semelhantes não são cognatas? 

Quando se pesquisa, porém, chega-se à conclusão que as duas palavras são de facto cognatas, porque vêm ambas, em última instância, do verbo latino serāre, «fechare». O Dicionário da Real Academia Espanhola dá como étimo imediato de cerrajero o termo cerraja, «fechadura», derivado de seracŭlum, do latim tardio serāre, «fechar» [de sĕra, «tranca de porta»]. Os dicionários portugueses dão antes como étimo o latim serracŭlum, «leme». Já agora — e isto é também interessante — todos os dicionários que vi concordam que é o latim tardio serāre que está na origem de cerrar e encerrar.

Há aqui vários mistérios: 

Na proposta espanhola dos étimos seracŭlum para cerraja e na proposta de todos os dicionários de serāre para cerrar, como é que o r intervocálico latino se transforma em rr? De facto, a oposição entre r e rr entre vogais é clara em todos os falares ibéricos e parece manter-se inalterada desde o latim aos falares modernos. 

Quanto à distinção entre c e s, se é verdade que ela hoje está anulada em muitos falares ibéricos, ela manteve-se até hoje na maior parte do castelhano de Espanha, uma parte do galego, e persiste ainda, embora moribunda, em falares do norte de Portugal. É certo que se anulou na maioria das zonas de falas ibéricas (castelhano andaluz, canário e americano, português moderno excetuando os dialetos já referidos), mas foi clara até relativamente tarde. Será que cerrar já foi serrar? É claro, na proposta dos dicionários portugueses de serracŭlum para base de serralheiro, a questão do rr não se põe, mas... como se chega de leme a serralharia?

Há algo nestas questões que merece maior esclarecimento…

Sobre a questão do rr, diz Antenor Nascentes que cerrar vem do latim serare, «fechar com fechadura», «influenciado por serra, serrare, como atestam muitas glosas». O latim serrāre tinha já o mesmo significado que serrar, «cortar com serra».

Antenor Nascentes assinala, para a etimologia de serralharia e serralheiro, que vêm de «um primitivo perdido, derivado do lat. vulg. serraculu, «fechadura», tirado de serrare (pelo clássico serare, e conservado em espanhol, italiano, provençal e francês)»

Se a proposta de interferência de serrar na história de cerrar me parece perfeitamente plausível, é ainda mais plausível, pela proximidade semântica, uma influência de serrar na história de serralheiro. E é certo que esta interferência pode, nos dois casos, ter levado à adoção de um rr onde a etimologia não o justifica. Assim, o mais lógico é que o étimo seja seracŭlum, «fechadura», como propõe a Real Academia Espanhola, mais tarde transformado pela influência de serra, e não o leme serracŭlum. E o lógico é que o primitivo perdido, que se encontra noutras línguas, seja, em português, *serralho ou *serralha, com o sentido de «fechadura».

Vaipe

Descobri agora que alguns dicionários já registam a palavra vaipe (Porto Editora: «mudança súbita de comportamento; reação inesperada; impulso»), mas não propõem nenhuma etimologia. A mim, a origem sempre me pareceu óbvia, mas uma pessoa nunca se deve fiar muito nas suas intuições, de maneira que despromovo a minha certeza a tímida proposta: creio que vaipe é uma deturpação, feita na gíria jovem angolana dos anos 60/70, do inglês vibe, abreviatura, na gíria juvenil da década de sessenta, de vibration. A confusão entre [b] e [p] não surpreende, pelo que a única coisa que falta explicar é o género masculino, já que, sendo vibration um cognato facilmente identificável de vibração, a sua abreviação seria naturalmente feminina em português. A atribuição do género feminino acontece de facto, quando se usa o empréstimo vibe(s) no discurso em português, que eu creio que é algo posterior e que mantém o significado da expressão inglesa. Se pensarmos, porém, que a importação anterior, que deu vaipe, foi feita por pessoas com poucos conhecimentos de inglês, é provável que não houvesse consciência da relação entre vibe e vibration. Essa falta de domínio da língua de origem da palavra pode também explicar o desvio semântico: em vez de descrever «o ambiente de um lugar, de uma situação ou estado de espírito, disposição de uma pessoa, etc., e a maneira como nos fazem sentir», vaipe passa a descrever o surgimento de uma disposição ou estado de espírito.



_______________

[1] A edição a que tenho acesso diz que canāre passou a «*cãar que se tornou *caiar e, depois, caiar». Presumo que a repetição da forma seja gralha e que a segunda forma intermédia seja antes *cãiar.   

[2] Dependendo do período em que se proponha a evolução de caiar a partir de calear, pode dizer-se o mesmo desta proposta que da proposta de um caleare latino: também devia dar *calhar

[3] A. M. Galopim Carvalho inclui na lista de derivados de cal os caios, «ilhas rasas, feitas de areia calcária, dos mares recifais das Caraíbas», mas é palavra que não encontro em dicionários.

18/04/26

Canções que referem outras canções #12: «Orly» e «Dimanche à Orly»


O último álbum de Jacques Brel, Brel (também conhecido como Les Marquises), saiu em 1977, um ano antes da morte de Brel e quando ele estava já muito doente. Na canção «Orly», Brel descreve, com a paixão que o caracteriza, uma despedida de dois amantes no aeroporto. Mas o possante refrão bem pode ser também sobre a sua própria situação, a consciência sofrida da iminência da morte: «A vida não poupa ninguém, e, porra!, é triste Orly ao domingo — com Bécaud ou sem Bécaud…»


 Ils sont plus de deux mille
Et je ne vois qu'eux deux
La pluie les a soudés
Semble-t-il, l'un à l'autre
Ils sont plus de deux mille
Et je ne vois qu'eux deux
Et je les sais qui parlent
Il doit lui dire « Je t'aime »
Elle doit lui dire « Je t'aime »
Je crois qu'ils sont en train
De ne rien se promettre
Ces deux-là sont trop maigres
Pour être malhonnêtes


Ils sont plus de deux mille
Et je ne vois qu'eux deux
Et brusquement il pleure
Il pleure à gros bouillons
Tout entourés qu'ils sont
D'adipeux en sueur
Et de bouffeurs d'espoir
Qui les montrent du nez
Mais ces deux déchirés
Superbes de chagrin
Abandonnent aux chiens
L'exploit de les juger

La vie ne fait pas de cadeau
Et nom de Dieu c’est triste
Orly, le dimanche
Avec ou sans Bécaud

O que Brel refere no refrão de «Orly» é a famosa canção «Dimanche à Orly», um sucesso de Gilbert Bécaud de 1963. A canção de Bécaud tem letra de Pierre Delanoë e não tem nada a ver com despedidas de amantes. Fala de alguém que, ainda rapaz, ia ao domingo ver os aviões em Orly, que o faziam sonhar; e que, mais tarde, já casado e com uma vida rotineira, continua a ir a Orly ao domingo e a sonhar com as viagens de avião que talvez nunca venha a fazer.


À l'escalier C, bloc 21
J'habite un très chouette appartement
Que mon père, si tout marche bien
Aura payé en moins de 20 ans
On a le confort au maximum
Un ascenseur et une salle de bain
On a la télé, le téléphone
Et la vue sur Paris, au lointain
Le dimanche, ma mère fait du rangement
Pendant que mon père, à la télé
Regarde les sports religieusement
Et moi, j'en profite pour m'en aller
Je m'en vais dimanche à Orly
Sur l'aéroport, on voit s'envoler
Des avions pour tous les pays
Tout l'après-midi, y a de quoi rêver
Je me sens des fourmis dans les idées
Quand je rentre chez moi la nuit tombée



As meias da Tove [Crónicas de Svendborg #55]

Tenho um amigo que usa sempre meias de lã, mesmo no verão, e até com sandálias. Hei de perguntar-lhe de onde lhe vem esse hábito. É capaz de o ter adquirido na África Austral, porque ele viveu no Zimbábuè, onde se vê às vezes gente de calções e botas — e meias grossas até ao joelho. Mas também é capaz de ser uma coisa dos dinamarqueses mais velhos: conheço um senhor que tem agora 100 anos e que me explicou que também usa sempre meias de lã todo o ano, todas feitas pela mulher dele. Eu também tenho vários pares de meias de lã feitas à mão e, embora só as costume usar quando está frio, sei que, de facto, não são mais quentes no verão que outras meias quaisquer. 

Há umas semanas, numa longa viagem de autocarro-cama, olhei para as meias de lã cinzentas que trazia calçadas e lembrei-me da Tove, que mas tinha oferecido. E escrevi uma nota no meu telefone, para escrever um texto — este — quando voltasse a casa e ao computador: «As meias da Tove». O que queria dizer «As meias que a Tove me deu.» Mas eu entendo-me.  

Agora, à laia de introdução, deixem-me contar-vos uma história de há uns anos, que não tem nada a ver com a Tove nem com meias de lã. Ao fim do meu primeiro estágio em apoio domiciliário, aprendi que nem tudo o que vem nos livros se deve sempre seguir muito à letra. Na escola, tinha aprendido que é expressamente proibido aos profissionais de saúde aceitarem individualmente presentes dos doentes. Podem fazer-se doações em dinheiro ou oferecer presentes em géneros a instituições (hospitais, secções de apoio domiciliário, lares, etc.), mas não a pessoas individuais. E quando uma doente minha quis oferecer-me uma garrafa de vinho pelo Natal, eu, inexperiente e fiel ao que me ensinavam na escola, recusei: que agradecia imenso, exatamente como se tivesse aceitado, que era de uma grande gentileza da parte dela e ficava muito sensibilizado, mas que, infelizmente, as regras eram regras e não podia aceitar. No dia seguinte, a minha supervisora de estágio chamou-me: 

− A Irene está inconsolável, pediu para falar comigo e tinha as lágrimas nos olhos: disse-me que tinha pedido à filha para lhe trazer de Copenhaga uma garrafa de vinho para ti e que tu não aceitaste o presente, porque era contra as normas. Enfim, é o teu primeiro estágio e eu percebo, mas agora vais aprender uma coisa que não vem nos teus manuais: o que é mesmo contra todas as normas da nossa profissão é deixar uma pessoa desolada recusando-lhe um presente que, para ela, é importante dar. De maneira que vais já a casa da I., aceitas a garrafa de vinho e pronto!

A partir daí, tive uma atitude menos rígida em relação aos presentes dos meus doentes. À Tove, não me passou sequer pela cabeça tentar recusar as meias, quando ela mas ofereceu. Fiquei muito contente e ela também e é assim que devem ser as ofertas.

A Tove tinha mais de noventa anos e vivia sozinha. Íamos lá a casa duas vezes por semana, para lhe esfregar as pernas com um creme, muito devagarinho, muito delicadamente, que as pernas, magríssimas e escamadas, doíam-lhe muito, muito!, e de quinze em quinze dias para lhe organizar os medicamentos em caixas diárias, manhã, almoço, jantar e noite. Estava sempre de boné de pala dentro de casa a fazer paciências de cartas na mesa da cozinha e tinha sempre as cortinas corridas. Contou-me que tinha nascido na Jutlândia e vindo aqui para a aldeia ainda rapariga, para trabalhar como criada de servir. E depois tinha conhecido um homem daqui e tinha-se casado e tinha passado a ser dona de casa — o que, se não lhe tinha alterado muito a vida diária, tinha aumentado muito o seu estatuto social. Quando o marido morreu, já há muitos anos, já os filhos eram adultos e se tinham mudado para Copenhaga, de maneira que ficou ali sozinha, naquela casa antiga de divisões pequenas, tetos baixos e telhado de colmo, e a vida dela era fazer paciências de cartas, comer alguma coisita de vez em quando e tricotar meias de lã, que vendia — e às vezes oferecia.

Vi-a pela última vez numa terça-feira de pesadelo. Tinha comigo uma colega nova, a quem estava a fazer uma introdução ao trabalho. Tinha, nessa manhã, uma visita extra à Tove. Uma colega minha tinha escrito, no dia anterior, que a Tove se tinha queixado de uma indisposição indefinida que depois lhe tinha passado e eu tinha de ir ver como ela estava. Num cruzamento perto da casa da Tove, vimos fumo a sair de uma casa. Era uma casa de um doente nosso e eu sabia que ele, paralisado, estava dentro de casa. Enquanto a minha colega ligava para os bombeiros, eu e mais uns vizinhos que tinham aparecido nessa altura corremos para socorrer o homem, mas era tarde demais: o interior da casa estava todo em chamas. Era impossível entrar e ele estava com toda a certeza já morto há algum tempo. Depois de um quarto de hora de horror, quando chegaram os bombeiros, seguimos então para casa da Tove. Podem imaginar o nosso estado de espírito.

Vamos encontrar a Tove no quarto, caída no chão, com um braço bastante esfacelado pela queda. Não responde quando a chamamos, mas reage ao contacto físico:

− Estou morta, não estou? Digam lá: morri, não morri?

Faço-lhe as perguntas habituais para avaliar a consciência. Sabe quem é, onde está, que dia é e sabe que que caiu. Também sabe quem eu sou. Só não sabe há quanto ali está caída no chão. Tentamos de várias maneiras levantá-la para a sentar, mas, de cada vez, começa a gritar muito. Queixa-se da coxa. Quando a apalpo, começa a gritar de novo. O que se faz numa situação destas é chamar o 112 e foi isso que eu fiz.

Soube depois que, afinal, não tinha nada partido. Nunca cheguei a saber o que é ela tinha, mas soube que nunca voltou a casa: morreu no hospital. 

Sou um bocadinho animista, acho eu: no meio dos milhares de objetos desalmados que se acumulam — que vamos acumulando — à nossa volta, há uns quantos que têm alma. São aqueles de que podemos contar histórias. Como as meias da Tove. As meias que ela me ofereceu, quero eu dizer — mas vocês tinham entendido… 


[Os nomes são fictícios, claro, mas a história é verdadeira, como indica, aliás, uma das etiquetas abaixo. Ilustração: Knud Holger Olsen: Quintal em Troense, óleo sobre tela, 1922, Wikimedia Commons, daqui.]


13/04/26

Uyuni

O salar de Uyuni (pronunciar uiúni), na Bolívia, é o maior deserto de sal do mundo, com uma superfície de mais de 10.000 km2. 

Pode dizer-se que não há lá muito que ver — quase só sal. E é isso que é impressionante: olhar à sua volta e saber que as montanhas que se avistam no horizonte estão a mais de 80 km, talvez a mais de 100 (o salar tem, em média, cerca de 125 km de comprimento por 85 de largura). E saber que a camada de sal que constitui a superfície do salar tem uma espessura de cerca de 10 metros e que, sob ela, há mais dez camadas, intercaladas com camadas de argila e lençóis de água muito salgada, com uma espessura total de cerca de 125 metros.


No parágrafo anterior, digo «quase só sal», porque há no salar algumas ilhas, restos de antigos vulcões, com solo de terra, onde cresce alguma vegetação, nomeadamente catos muito grandes. Estas ilhas são invisíveis da periferia do salar, o que deveria dar que pensar a quem acredita que a terra é plana. 


Uma dúvida:
Quando se entorna vinho na roupa, aconselha-se a pôr sal, para tirar a nódoa; 
mas como se tiram as nódoas de vinho no sal?