15 de setembro de 2021

A Suécia ali do outro lado — um compositor, um cantor e uma cantiga

O grande poeta e compositor de canções dinamarquês Benny Andersen disse várias vezes que tinha escolhido Povl Dissing para cantar as suas maravilhosas canções, porque toda a gente cantava canções alegres de uma forma alegre e canções tristes de uma forma triste, mas só Dissing cantava de tal forma que não se sabia se a canção era para rir ou para chorar. De tanto que o repetiu e de tanto que isso foi notado, creio que não pode haver dúvidas: o projeto de Benny Andersen era mesmo que o público não conseguisse bem decidir se as suas canções eram «para rir» ou «para chorar». E encontrou, de facto, o cantor ideal para esse projeto.

A minha ideia é fazer aqui uma brevíssima apresentação de Benny Andersen e de Povl Dissing[1]. Se vos não incomodar demasiado a barreira da língua (a mim, nunca me incomodou, porque sempre ouvi música popular em inglês, mesmo muito antes de perceber o que estavam a cantar...), talvez queiram explorar o trabalho do duo. E escolho, para a apresentação, uma famosa canção em que Svante, a personagem da canção, sonha com a Suécia do outro lado do Øresund.

O álbum em que a canção aparece chama-se Svantes viser, «As canções de Svante» (pode ouvir-se aqui), e faz parte do Cânone Cultural da Dinamarca, uma lista oficial de 108 obras, elaborada em 2004, sob a égide do Ministério da Cultura: «uma recolha e apresentação das melhores e mais importantes obras do património cultural da Dinamarca», ou seja, basicamente as obras que todos os dinamarqueses deviam conhecer. Uma ideia estranha não é verdade?

Como o nome do álbum indica, todas as canções têm um mesmo protagonista, o escritor de canções Svante Svendsen. Svante nasceu na Suécia, mas perdeu-se dos pais aos nove anos, no barco de Malmö para Copenhaga, e vive desde essa altura na Dinamarca, onde teve de «desenrascar-se sozinho com a ajuda dos outros». Não há, porém, uma narrativa no ciclo de canções. Quando muito, o eu lírico das várias canções mantém, de umas para as outras, alguma coerência psicológica, se se pode dizer assim. Aparece também nalgumas canções (nesta não) uma personagem feminina: Nina, a musa de Svante. Creio que há aqui um piscar de olho a Carl Michael Bellman, um famoso poeta e cantautor sueco do século XVIII, cujas canções se continuam a cantar até hoje. Bellman também tinha uma personagem recorrente, o relojoeiro Jean Fredman, nos seus ciclos de canções Epístolas de Fredman e Canções de Fredman[2].

Tanta digressão! Eis então a canção e a letra traduzida A tradução, bastante livre e prosificada, é minha e é extremamente empobrecedora do texto original, que, como tudo o que Benny Andersen escreveu, é rico em imagens e trocadilhos completamente intraduzíveis:

Aqui estou eu, de olhos fixos na costa da Suécia e a sonhar com montanhas mais altas[3]. Tenho o coração aos pulos no peito – que vontade de apanhar o primeiro ferry e esquecer todo o mal do mudo em bosques claros de bétulas e raparigas risonhas! Mas tenho de ficar, porque eu enjoo quando ando de barco…

É como ver a terra prometida, repleta de dádivas, onde o tempo parece não passar e onde as pessoas cantam canções de Bellman com a boca cheia de bagas silvestres! E eu tenho de aqui ficar a viajar só com os olhos, porque eu enjoo quando ando de barco…

E aqui estou, num paisinho neurótico, habitado por loucos sorridentes. Os suecos sabem fazer muitas coisas que nós não sabemos fazer: mantêm-se corajosamente neutros[4] e são tão saudáveis – em bosques claros de bétulas – e têm sempre tantas ideias! E eu tenho de aqui ficar a definhar, porque eu enjoo quando ando de barco.

As minhas cinzas serão enviadas para a Suécia e espalhadas aos quatro ventos, para eu ser assim levado de praia em praia. Sim, talvez encontre finalmente um lugar onde possa ficar, em bosques claros de bétulas... Mas, até lá, acho que vou ter de viver aqui nesta terra, porque eu enjoo quando ando de barco…

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[2] Povl Dissing gravou em 1991 um disco de versões dinamarquesas de algumas canções de Bellman, que se pode ouvir aqui

[3] A Dinamarca é o quarto ou quinto país mais baixo do mundo, com uma altitude média de 34 metros e a elevação natural mais alta com 170 metros.

[4] Referência clara à tão discutida neutralidade sueca durante várias guerras, nomeadamente as duas guerras mundiais.

14 de setembro de 2021

Duas histórias de um lar


[São histórias que me emocionaram. Pode ser que volte a contar aqui outras histórias de lares, porque sei muitas. Talvez alegres, porque também há muitas histórias alegres nos lares.]

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O Sr. Jorge tem graves problemas de disfagia. É alimentado por sonda já há uns meses.
A Sra. Isabel, irmã do Sr. Jorge, vem visitá-lo ao lar onde ele vive.
A enfermeira entra no quarto e cumprimenta-a. Desliga a máquina que acaba de dar ao Sr. Jorge a sua segunda refeição do dia e dá-lhe, também por sonda, mas à mão, os 150 ml de água que se dão sempre antes e depois das refeições.
– Hoje que está aqui a minha irmã, eu não podia comer ao menos um iogurte? – pergunta o Sr. Jorge à enfermeira.
– Sr. Jorge, já falámos disso muito vezes, não falámos? Não lhe posso dar iogurte, não lhe posso dar nada a não ser a alimentação por sonda. É perigoso, sabe bem, e para quê habituar-se a comer outra vez, agora que já se conseguiu desabituar? Depois, amanhã pede-me outro iogurte e depois uma sopa e depois… Não pode ser, Sr. Jorge. Lamento, mas não pode ser.
A Sra. Isabel está visivelmente emocionada. Quando a enfermeira acaba de falar, começa a chorar.
– Mas quando ele vier a casa pelo Natal, tem de comer alguma coisa – diz ela. – A ceia de Natal não pode ser alimentação por sonda…
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– Não viu o meu marido? – pergunta a D. Lurdes a uma empregada nova do lar. – Estive lá em baixo no jardim, não sei se ele andou à minha procura.
Não o conheço, minha senhora, sou nova aqui e ainda não tive o prazer de conhecer seu marido. Mas ninguém me perguntou por si.
A enfermeira aparece e aperta com as duas mãos a mão direita da D. Lurdes.
– D. Lurdes, o seu marido faleceu em março.
– Faleceu em março… – repete a D. Lurdes. – Oh, minha menina, e eu a perguntar-lhe por ele, tanto disparate. Peço-lhe muita desculpa! Tanto disparate…
– Não tem nada que pedir desculpa, D. Lurdes. Não sabia que o seu marido tinha falecido. Lamento muito.
– Vou escrever um papel e pôr na parede do quarto, para não me esquecer mais e não voltar a fazer estas figuras – diz a Dona Lurdes.
– Já escreveu um papel a dizer que o Sr. Lionel faleceu, D. Lurdes – diz a enfermeira. – Há pelo menos três meses que o tem pendurado na parede do quarto. Logo à entrada, do lado esquerdo.



13 de setembro de 2021

Chalado

E a palavra chalado, que origem tem? 

Conheço desde miúdo o termo de calão chalar-se, com o sentido de «ir-se embora» e tinha há já muitos anos a hipótese de que chalado viesse dessa palavra: chalado seria originalmente «ido» – uma pessoa que perdeu o tino «foi-se». E tinha também outra hipótese: a de que chalar fosse um cognato do castelhano jalar, «puxar», porque entre «puxar» e «ir» a distância semântica não é longa, sobretudo se pensarmos nas ideias intermédias de «tirar» e «sair» – puxar(-se) => tirar(-se)=> sair=> ir(-se), movimentos espaciais básicos. Veja-se, por exemplo que o francês tirer, «puxar», se usa reflexivamente como forma popular para «ir-se embora». Enfim, tinha estas hipóteses todas, mas nunca tinha investigado a sua plausibilidade.

Um dia destes, porém, fui ao parar à entrada chalado do Dicionário da Porto Editora em linha, que define o termo como «1. coloquial amalucado, adoidado; 2. coloquial sem graça; pouco interessante; 3. (água) misturado com infusão de chá» e que propõe para o termo uma etimologia bastante estranha: «Do alemão schal, “insípido” +-ado».

Uma etimologia assim precisa de uma explicação muito detalhada: se o significado 2. de «sem graça; pouco interessante» decorre bem da ideia de insipidez, já o significado 1. de «amalucado, adoidado» não decorre diretamente da mesma noção. Com alguma boa vontade, porém, consegue encontrar-se alguma relação – sobretudo se se tiver em conta (se não é ir longe demais…) o significado de «secar» do étimo proto-indo-europeu (s)kelh₁, que dá, por exemplo em sueco, o adjetivo skäll, «delgado, débil». O que é mais difícil é explicar como é que uma palavra alemã entra assim no português. Por um termo intermédio numa língua intermédia? Mas qual?

Quanto ao significado 3 (que bem pode derivar apenas de chá, com influência de chalado 1.), se temos água chalada com o significado de «chá muito diluído com água» talvez seja melhor procurar aí a origem do significado 2. de «sem graça; pouco interessante» que num termo alemão.

Achei também estranho que o mesmo dicionário, embora registe chalar com o significado de «fugir», dê o termo como «intransitivo» e «popular», quando eu sempre o ouvi reflexivo («chala-te, pá!» e não «chala, pá!») e apenas como termo do calão restrito da malandragem.
Enfim, tudo isto me incitou a aprofundar a questão. E eis os resultados da minha pesquisa:
Segundo o DRAE (Dicionário da Real Academia Espanhola), jalar vem de halar, que vem, por sua vez, do francês haler – a minha hipótese de relação entre o português chalar e o castelhano jalar não presta.
Chalar também existe em castelhano, mas com o sentido de «adoidar, enlouquecer». Está assim explicada a origem natural de chalado como «amalucado», tanto em castelhano como em português. A minha primeira conclusão foi que ou o termo português foi importado do castelhano ou o verbo chalar existiu também em português com o mesmo significado do chalar espanhol. E encontrei, nessa mesma entrada do DRAE, uma etimologia para o termo de calão português chalar: o dicionário dá o caló chalar («ir; andar») como origem do chalar castelhano. Que um termo de calão português tenha origem num termo caló é perfeitamente normal, há várias nessas condições[1]. Não é por acaso, aliás, que a palavrão calão vem da palavra caló (sorriso). E a minha hipótese de que chalado como «amalucado» decorre de chalar no sentido de «ir» parecia boa.
Diz o mesmo Valentín Anders no seu site, que, pelo menos no que toca a etimologias (nunca explorei o resto), é sempre sensato (escuso-me a traduzir o castelhano, que creio que os meus leitores compreendem sem problemas):
La palabra chalado es término caló, la lengua patrimonial de los gitanos españoles. Viene del verbo chalar, que en caló significa “ir”, como ilustra esta copla flamenca en este peculiar idioma, que tiene la estructura gramatical morfológica y sintáctica del español pero está enjoyado de léxico de procedencia romaní:
Chalo para mi quer,
[Yendo para mi casa,]
me topé con el meripé;
[me topé con la muerte;]
me penó, “¿a dónde chalas?”,
[me dijo: “¿a dónde vas?”,]
le pené “para mi quer”.
[le dije: “para mi casa'] 
Del significado de “ir” viene el sentido de “loco”, pues al loco se le llama “ido”, como si dijéramos que se le ha ido la cabeza y no está en sus cabales. Así es como se han aceptado en español los tres gitanismos chalado, sinónimo de “ido” y participio del verbo chalar, y el nombre de la acción chaladura. Luego en español las tres palabras han derivado hasta significar “enamorado”, “enamorar” y “enamoramiento”, pues ya se sabe que el amor y la locura no andan lejos.
E dizem o mesmo vários outros estudiosos (as citações que faço a seguir vêm de uma longa e interessante discussão no fórum do Word Reference sobre o uso e a etimologia de chalado em castelhano):
María Inés Chamorro  defende que chalar, proveniente «[d]e la germanía chalán, que viene del fr[ancés] chaland “que trata en compra y venta”, ha pasado a la jerga actual. En gitano chalar “ir, andar, caminar” > cat[alán] atxalar “ir”, xalar “huir, ir deprisa”; en Andalucía “hacer huir a otro” y chalárselas “huir, desaparecer de un sitio”. Hubo un cambio semántico y pasó de “ido” a “enajenado, loco”.[2]»
O mesmo diz Joan Coromines, apoiando-se em Carlos Clavería[3] e Max Leopold Wagner[4], que «[recuerda] que guillarse y pirar (propiamente “marcharse”) también tomaron el sentido de “volverse loco” (…) . El transitivo chalar “enloquecer” [...] debe de ser una creación secundaria; también lo es el paso de “enloquecer” a “enamorar”. No es cierto que tengan igual origen jalar y chalar “enamorar”, como sugiere G[arcía] de Diego.[5]»
O que não é certo, e me parece até improvável, é a complicada origem franco-germânica do termo caló chalar, de que derivam as formas de calão nas línguas peninsulares. É que Géraldine Moureau indica antes a forma do sânscrito džala como origem do chalado caló, o que faz mais sentido, já que o romani, fonte do léxico caló, é uma língua de origem indiana. Javier Fuentes Cañizares refere, aliás, o termo romaní džal, «ir» como origem imediata do caló chalar[6]. A origem indiana é também defendida por Francisco Coelho[7], citando Franz von Miklosich[8].
Quando aqui chegamos, parece-me que reunimos boas e suficientes explicações para a etimologia de chalar e chalado e termos relacionados, nas várias aceções que têm nos falares ibéricos. Quero só fazer três comentários finais.
Achei curiosa a referência de Coromines ao pirar castelhano, que também tem os mesmos significados em português: «ir-se embora» e «enlouquecer». É certo que com o significado de «ir-se embora», o pirar português é sempre reflexivo, mas isso explica-se pela analogia com «ir-se embora», precisamente. É provavelmente a mesma analogia, aliás, que está na origem da reflexivização de chalar com esse mesmo significado em português.
Achei também curioso que Vicente García de Diego tenha tido a mesma intuição que eu, a da origem comum de jalar e chalar – que, como já referido acima, a Academia Espanhola desqualifica – e de que Coromines duvida[9].
Finalmente, há que dar conta dos desacordos. Como sempre nestas coisas, não há consenso entre filólogos. Eis duas propostas etimológicas alternativas, ambas com mais de um século: Adolfo de Castro[10] e Luis Montotoy Rautenstrauch[11]  propõem uma origem hebraica, respetivamente chisla e chirla, variações apenas de um mesmo termo com o significado de «estultícia ou insensatez»; e, para Matías Calandrelli[12], chalado é uma corruptela de chiflado. Cabe a cada um analisar os argumentos apresentados e decidir depois, destas propostas, quais as plausíveis e quais as… chaladas.

Notas:
[1] Ver, por exemplo, a dissertação de Mestrado em Estudos Ibéricos de Géraldine Chantal Moureau, Influência do calão cigano nas línguas portuguesa e castelhana em contextos de comunicação de massa, Universidade da Beira Interior, 2010, disponível em linha aqui 
[2] Chamorro Fernández, María Inés. Tesoro de villanos. Lengua de jacarandina: rufos, mandiles, galloferos, viltrotonas, zurrapas, carcaveras, murcios, floraineros y otras gentes de la carda. Barcelona: Herder, 2002
[3] Clavería, Carlos. “Estudios sobre los gitanismos del español” in Revista de Filología Española, anejo LIII. Madrid, 1951
[4] Wagner, Max Leopold. Notes linguistiques sur l’argot barcelonais. Barcelona: Institut d’estudis catalans, 1924 
[5] Coromines, Joan. Diccionario crítico etimológico de la lengua castellana. Berna: Editorial Francke, 1954
[6] Fuentes Cañizares, Javier. “Fuentes literarias para el estudio del caló en el siglo XVIII” (in Ivo Buzek (coord.).Interacciones entre el caló y el español : historia, relaciones y fuentes. Brno : Filozofická fakulta, Masarykova univerzita, 2016, disponível em linha aqui 
[7] Coelho, Francisco Adolfo. Os ciganos de Portugal. Lisboa: Imprensa Nacional, 1892, disponível em linha aqui 
[8] Miklosich, Franz von. Über die Mundarten und die Wanderungen der Zigeuner Europa’s. Viena, 1872, disponível em linha aqui 
[9] García de Diego, Vicente. “Dialectalismos” in Revista de Filología Española, tomo III, 1916, disponível em linha aqui
[10] Castro, Adolfo de. Estudios prácticos de buen decir y de arcanidades del habla española. Cádiz: Imp. de la Revista Médica, de D. Federico Joly, 1880, disponível em linha aqui
[11] Montoto y Rautenstrauch, Luis. Un paquete de cartas: de modismos, locuciones, frases hechas, frases proverbiales y frases familiares. Sevilha: [Oficina Tipográfica,] 1888, disponível em linha aqui
[12] Calandrelli, Matías. Diccionario filológico-comparado de la lengua castellana. Buenos Aires: Impr. de M. Biedma é hijo, 1907, disponível em linha aqui

11 de setembro de 2021

«Os verbos foram mudados, / Não ficou um só de pé !»

Joaquim Pinto de Sousa Macário é escritor seguramente desconhecido da maior parte dos leitores deste blogue. Também eu o desconhecia, até topar um dia, já nem me lembro nem como nem porquê, com esta digitalização da sua obra Satyras e galhofas: livro de versos alegres, publicada em 1899 por uma editora de Lamego, a Minerva da Loja Vermelha. 

Como amante que sou das coisas da língua, da sua história e das suas histórias, chamou-me muito a atenção esta “Resposta a uma carta que Nicolau Tolentino dirigiu do outro mundo ao auctor deste livro”, que vos quero dar a conhecer. E deixo-a tal como vem no original, em parte por preguiça de lhe atualizar grafia e corrigir pontuação, e em parte porque acho que o documento da história das palavras que o texto é ganha com documentar também uma fase da história da sua escrita.

Notem agora que Nicolau Tolentino, a quem Joaquim Pinto de Sousa Macário dedica as Satyras e galhofas e que é o explícito destinatário da carta em verso de que aqui se trata, morreu em 1811. Macário lista, portanto, expressões que ele crê que Tolentino não conheceria, ou seja, surgidas ao longo do século XIX. Se tem razão ou se se engana a avaliar a idade dos termos que refere como novidade é discussão que aqui não vou ter agora, embora, nalguns casos, tenha quase a certeza de que se engana: pança, por exemplo, muito provavelmente existiu sempre, em português, como aliás nas outras línguas latinas. Mas vejam que a maior parte deles se mantém até hoje, uns ainda como gíria, outros já como termos standard. Também é difícil perceber, no texto de Macário, em que registos se usavam na altura os diferentes termos, mas parece provável que se incluam na lista desde modismos finos (como fauteuil), até termos do registo informal, como carraspana, ou mesmo calão, como guita. É também de notar que se mantiveram até hoje os termos importados do francês que eram na altura novidade*. Mas chega de comentários. Desfrutai, como costuma dizer-se.

Lisboa, 1º–2º–89.

Nicolau:

Recebi a tua carta
E vejo o que me dizes do outro mundo,
Confessas que de ti se não aparta
O teu fado cruel, sempre iracundo.
Nunca a pança por cá tiveste farta.
Mas lá que o teu martyrio é mais profundo,
Lamento, meu amigo, que assim seja,
Mas, dos que estão por cá, não haja inveja.

Dizes que és lampianista logo á entrada
Do céo, e que S. Pedro é teu amigo;
Mas, que por teres cá lingua damnada,
Embirram lá no céu muito comtigo !
Dizes q’ereres voltar á Lísbia amada
P'ra viveres aqui junto co’migo.
Mal sabes tu, meu velho Tolentino,
Quanto fôra isso em ti um desatino !

Isto por cá, não é o que foi d'antes,
E hoje um purgatório ! uma inferneira !
A cidade já chega quasi a Abrantes !
E, por ter muita gente, ha já lazeira !
E abundam de tal forma os meliantes
Dos que sabem metter mãos na algibeira,
Que é preciso um policia, bem armado,
Pra cada cidadão andar guardado.

Isto está tudo torto ! Transformado !
Todos se tratam já por excellencia;
Com ares, cada qual, d'afidalgado,
Soffrem por este mal triste demencia!
Qualquer, p'ra ser ministro ou deputado,
Se julga com saber, e competência !
Todos, mettendo á Pátria gorda espiga,
Só tratam bem da bolsa e ... da barriga !

Pelas ruas, em carros estofados,
Sentados os lacaios, vão gozando I
Emquanto que, em cocheiros transformados,
Os fidalgos os carros vão guiando !
Ha homens já com homens namorados,
Tudo n'uma balburdia, e alto desmando !
Ha-de custar-te a crer! ha até senhoras
Mais homens que mulheres, e doutoras !

E todas, noite e dia, pelas ruas
Navegam, já sosinhas, á vontade,
E aos homens, graçolinhas lá das suas,
Apresentam com toda a liberdade !
E os donos de taes náus, de taes faluas,
Dos naufragios não temem a impiedade,
De forma que os naufrágios, meu amigo,
são tantos ! ! e óra adeus ! chamam-lhe um figo !

As egrejas já estão quasi desertas,
Só ás moscas entregues, e ás baratas,
E quando, aos domingos, são abertas,
Chamam ás que lá vão, tolas, beatas !
Ao passo que mui anchas, mui espertas,
Com mira no casório, as taes fragatas,
Aos cardumes passando alegre vida,
Innundam os theatros, e a Avenida. ( )

Qualquer fedelho, apenas de dez annos.
Já fuma, e joga as cartas e namora;
Se vão, por troça, ao templo taes insanos,
Precisa o enxota-cães pôl-os lá fora;
E assim vão caminhando nos enganos
Da podre educação que o céo deplora;
Depois, já pódes vêr, por taes assômos
Quem póde ser juiz com taes mordomos ! ?

Fazem-se hoje viagens em vapores
Que, voando pela terra e pelos mares,
Vão em sete minutos aos Açores
E em menos d'um minuto a Valladares.
A guerra! Santo Deus! ergue terrores.
Que fazem tiritar os militares!
É tanta, e de tal forma, a artilheria,
Que alcança já d'aqui á Alexandria !

Usa cada soldado uma espingarda
Que dá sete mil tiros por minuto !
E só deixam agora vestir farda
A quem fôr mais membrudo e féro bruto !
E cada general, gordo, bojarda,
No seu officio ou arte, é tão astuto
De forma que, se cá tivermos guerra,
Ninguém fica de pé ! Vae tudo a terra !

Isto por cá, mudou completamente !
Nem tu nada já d'isto conhecias;
As mulheres nem teem cara de gente,
São figuras de gesso ! e muito esguias !
Até mesmo o idioma está diff’rente
De forma que já nada percebias !
E se julgas que minto no que digo,
Eu passo a bem provar-t'o, meu amigo :

Os verbos foram mudados,
Não ficou um só de pé !
São hoje assim consid'rados:
Gritar, é fazer banzé !
Chama-se ao fugir raspar,
Liscar, safar e pisgar,
’Té mesmo passar o pé.

O morrer é arrefecer
É o calar, engulir.
Namorar, é padecer,
Chama-se ao comer murquir !
Espreitar, diz-se cocar,
Bater, zurzir e zupar,
Olhar p’ra dentro, é dormir !

Chama-sa ao roubar, arranjo !
Ou inglezar e chiprar !
Não sei porque desarranjo
É fazer o passeiar;
O ignorante, é ser cego !
Empenhar, é pôr no prego !
O tremer, é tiritar.

Ninguém falla como d'antes;
Tudo assim, tudo mudou !
'Té mesmo a palha d' Abrantes
De letria o nome achou !
Nem mesmo julgam ser erro
A um cão chamarem-lhe pêrro,
E os calotes serem cães,
E o caloteiro, cãoseiro,
E chelpa qualquer dinheiro,
E cheta os próprios vintens.

Amantes, são padecentes !
A officina, atelier !
Mestres d'escolas, são lentes !
É a carruagem, coupé !
Pernas magras, são varetas !
Botas tortas, são palhetas !
São os narizes, fungões !
A desordem, zaragata!
E cara, figura ou lata !
E as mentiras, são palões !

Chama-se á cabeça, pinha !
Chama-se ao janota, pão !
Ter azar, é ter gallinha !
Mentir, é ser intrujão !
O ser máu, é ser má rolha !
Não ter juizo, é ter bolha !
Chamam ao vinho briól !
E toucado á bebedeira,
Carraspana, e capoteira,
E á barriga, pança e fól !

Sâo as creadas, sopeiras !
Ser gentil, é ser liró !
Aos olhos, chamam setteiras !
Ser limpo, é quite de pó !
N'um jardim um charco é lago !
Dinheiro em geral, é bago!
Um puding, é um poré !
Mulher esguia é fanéca!
Cavallo magro, é pilléca !
Chama-se ao suor chulé !

Jogar, é fazer batota !
É café o botequim !
Perder, é levar derrota !
É um barulho, chinfrim !
O sobscripto, enveloppe!
Chamam-se as valsas galope !
A um ramalhete, bouquet !
E hoteis ás hospedarias !
As medianeiras sâo tias !
O ter gosto, é ter filé !

A vara d'outr’ora, é metro!
Decilitro o quarteirão !
Trocou-se em bandurra o plectro,
Bom cavalleiro, é calção !
Chama-se ás libras piratas !
Pômo de terra ás batatas !
Ao valentão Fcrra-Braz!
Ao municipal, um guita !
A mulher alta, guarita!
Ao homem alto, lambaz !

É fauteuil, uma cadeira!
É sofá, um canapé !
É pandega, a brincadeira !
Ao povo chamam-lhe Zé !
Chama-se instituto, a escola !
Banza e bandurra, a viola!
As gazetas, são jornaes !
Ser peralta, é ser penetra !
Edecetra, e édecetra,
E assim muitas coisas mais.

Já vês d'esta maneira, meu amigo,
Que vinhas tu fazer cá por Lisboa?!
Teus versos não valiam hoje um figo,
Nem rimas encontravas p'ra uma lôa;
Sem saberes fallar, feito um mendigo,
Sem te intender sequer, uma pessoa,
Ai ! amigo, não venhas, tem juizo,
Não troques pelo inferno o teu p'raizo.



___________________

Atelierbouquetcanapécoupéenveloppefauteuil; e jornal e  pomo de terra, já na altura com formas aportuguesadas. Só pomo de terra desapareceu completamente e provavelmente fauteuil, que os dicionários de português ainda registam como galicismo para «poltrona», mas que nunca me lembro de ter ouvido. Filé é provavelmente também um empréstimo ao francês, mas não consigo atestar nesta língua o significado que Macário aqui descreve, nem o de «empenho», que registam os dicionários. 

8 de setembro de 2021

Um passeio com Kai [Crónicas de Svendborg #40]


Os nomes são falsos, a história é verdadeira.

O Kai foi marinheiro, mas já está reformado há muito anos, Vou dar uma volta com ele.
– Então e não tens saudades de Portugal? – pergunta-me ele.
– Bom, tenho saudades de muitas pessoas que lá estão, claro... 
– Eu tenho! – diz ele. – Muitas! Tenho muitas saudades de Portugal.

Encontramos um casal de amigos dele, o Jens e a Lotte. O Kai tem idade para ser meu pai, o Jens e a Lotte devem ser da minha idade, pouco mais ou menos. Não se veem há algum tempo, percebo eu pela conversa, mas, curiosamente, vão estar juntos numa festa no próximo sábado: o 80º aniversário da mãe do Jens. 
 – Que tal a vida, Kai? 
– Uma merda. Estou velho e a velhice é uma merda. E vocês? 
– Nós estamos bem. 
– Sempre venderam a casa? 
– Vendemos, pois. 
 – E a vossa vida sexual, que tal? 
O Jens e a Lotte ficam muito surpreendidos, claro está. Eu também. E vocês também, não é verdade? Quem é que espera uma pergunta assim? 
 – Está boa, acho eu – sorri o Jens e interroga a Lotte: – Está boa, não está? 
A Lotte sorri também e assente com a cabeça. 
 – E a tua vida sexual, Kai? 
 – Ah, mais ou menos… Mas estou velho e a velhice é uma merda. 

Foto: Tim Webb, Svenborgsund & Tarquence, 1981 (pormenor), daqui. (Wikimedia Commons)

22 de maio de 2021

Da fortuna e das viagens de um poema [Crónicas de Svendborg #39]

Se há poema português com grande fortuna internacional, descobri há pouco tempo, é o poema «Oração da árvore», muitas vezes referido como «Ao viandante», escrito por Alberto da Veiga Simões em 1914.
 Oração da Árvore 
Tu que passas e ergues para mim o teu braço, 
Antes que me faças mal, olha-me bem. 
Eu sou o calor do teu lar nas noites frias de Inverno; 
Eu sou a sombra amiga que tu encontras 
Quando caminhas sob o sol de Agosto; 
E os meus frutos são a frescura apetitosa 
Que te sacia a sede nos caminhos. 
Eu sou a trave amiga da tua casa, 
A tábua da tua mesa, a cama em que tu descansas 
E o lenho do teu barco. 
Eu sou o cabo da tua enxada, a porta da tua morada, 
A madeira o teu berço e o aconchego do teu caixão. 
Eu sou o pão da bondade e a flor da beleza. 
Tu que passas, olha-me e não me faças mal. 
Conheci o poema em miúdo, no Castelo de S. Jorge, e sei que o fui reencontrar mais tarde noutros lugares, mas não me lembro ao certo onde. Na placa do Castelo, um verso inicial, «Ao viandante», especifica o destinatário da árvore que é o sujeito lírico do poema, mas, ao que consigo perceber, «Ao viandante» não faz parte do texto original. 
Das muitas vezes que li o poema em Lisboa, nunca reparei na autoria, confesso. Até há pouco tempo, não fazia ideia, sequer, de que fosse um poema português. Agora, há coisa de três meses, encontrei aqui em Svendborg, uma tradução dinamarquesa do texto e, claro, fiquei surpreendido: «Ah, também aqui é conhecido? Deve ser algum poema clássico que está traduzido para todas as línguas.» 
Fiquei curioso e fui pesquisar na Internet. E foi aí que fiquei a saber de quem é o poema. É claro que nem sempre se refere o autor, e encontrei também versões adulteradas do texto ou autorias fantasiosas; mas, um muitas das páginas que encontrei, menciona-se de facto a autoria de Veiga Simões. 
O poema é, pelos vistos, conhecido em todo o mundo. Encontrei mais que uma tradução do poema para inglês, não só na Internet, mas também em parques e em jardins, na Escócia, na Flórida, em todo o lado. E uma dessas traduções inglesas foi até musicada por Tony Dekker em 2013. 
   
Em conversa com amigos dinamarqueses, a quem contei a minha descoberta em Svendborg, fiquei a saber que o poema era referido e traduzido por Christian Yde Frostholm, numa sua obra de 2018, Træmuseet, “O museu das árvores”. É um livro que fala de árvores — de arvores em Inglaterra, na Dinamarca, em França e nos Estados Unidos, mas, sobretudo em Portugal; e sobretudo em Lisboa. «Então é isso», pensei eu, «foi assim que o poema aqui chegou a Svendborg, pela mão de Christian Yde Frostholm. Bom, lembrava-me de que a poema que tinha visto estava escrita à antiga, com aa em vez de å, como se escrevia antes da reforma de 1948, mas, pensei eu, era de certeza só para dar algum estilo à folha plastificada a fazer de placa. Até porque os nomes não estavam escritos com maiúscula, como mandava a regra antiga. 
Só no fim de semana passado pude cotejar a tradução de Christian Yde Frostholm com a tradução da árvore de Svendborg. São diferentes. Afinal, o texto que eu tinha visto não é a tradução de Christian Yde Frostholm. 
Havia que voltar à Internet. Num minuto, encontrei o que buscava. A tradução que está na árvore de Svendborg aparece em dois documentos online: uma página de uma associação de moradores e um jornal paroquial. Neste último, diz-se que «o poema pode ler-se numa placa de bronze numa grande corticeira da Plaza Lavalles, em Buenos Aires» e que «foi depois traduzido e pode agora também ler-se na Quinta de Tranekær», em Langeland. Nada sobre a sua autoria, nem sobre a autoria da tradução. Na outra página, porém, diz-se da mesma tradução que se trata de «um velho texto português traduzido do inglês por Frank Jæger». 
O poeta Frank Jæger (1926-1977), foi viver para Tranekær em 1969. Se foi nessa altura que traduziu o poema de Veiga Simões de uma versão inglesa, o que parece o mais provável, já não se escrevia com aa há 20 anos. Muito provavelmente, quem pendurou a folha de A4 plastificada no bonito cedro do nº 31 de Strandvej queria mesmo dar ao poema um toque antigo... 

12 de fevereiro de 2021

As músicas e as nações

Com o aumento das quotas obrigatórias de música portuguesa na rádio, ressurgiu há pouco tempo a discussão dessas quotas. Não é isto, porém, que motiva este meu texto, cujo esboço foi iniciado, aliás, há quase cinco anos (!). Quero deixar claro que não tenho nada contra medidas de apoio aos músicos portugueses, e muito menos no atual contexto de pandemia. O que discuto neste texto, porém, tem um âmbito bem mais vasto que a questão das quotas de rádio. 

Tive várias vezes longas discussões com amigos meus que me diziam que era preciso «defender a música portuguesa». Esta ideia da «defesa da música portuguesa» – às vezes também chamada «a nossa música» – é suficientemente antiga para eu sempre a ter conhecido e é uma ideia que tem a força de ser comum a vários setores ideológicos e musicais. Mas é uma ideia que sempre me pareceu pouco clara ou, por vezes, bastante ilógica, assumindo pressupostos que, para mim, não são de modo algum evidentes. 

Uma interrogação que nos surge imediatamente quando começamos a refletir sobre este tema é porquê defender uma música e que música se deve defender? Satisfaz-me a resposta que cabe ao Estado defender os interesses dos seus cidadãos e que, por isso, o Estado deve defender a música feita por esses cidadãos — embora, como argumentarei mais à frente, nem sempre disso resulte a defesa de uma música que todos considerem portuguesa. Mas, aceitando essa primeira premissa, deve então defender-se toda a música de cidadãos portugueses da mesma maneira? A resposta depende, em grande medida, da ideia política de cada um, do papel que cada um atribui ao Estado na nivelação das assimetrias existentes. A resposta que me surge imediatamente é que se deve defender mais a música que mais precisa de ser defendida: a música de qualidade que não pode defender-se a si própria, porque, pelas suas características, não pode ser nunca suficientemente vendável para que dela alguém possa viver. É esse o critério que, nalguns países, leva à atribuição de subsídios a artistas — músicos, poetas ou outros — que trabalham em géneros artísticos não comerciais que se pretende preservar, porque se considera que, embora marginais, são uma parte importante da produção artística de um país. Evidentemente, estas decisões são também difíceis e às vezes polémicas — porque o grande público vê com maus olhos gastarem-se os dinheiros públicos em coisas de que o grande público não gosta nada; e porque é muito difícil arranjar critérios fiáveis e abrangentes para aferir a qualidade. Mas não é normalmente destas músicas que se fala quando se afirma que é preciso defender a música nacional… 

De que se fala então quando se fala de música portuguesa? Como dizia acima, a única definição que me parece aceitável é «música composta por indivíduos de nacionalidade portuguesa[1]». Há outras definições, assentes, por exemplo, não no autor mas sim na própria música, mas não vejo bem como se possa medir a portugalidade de uma música. 

Só não digo que os nomes maiores da música portuguesa promoveram música essencialmente estrangeira, porque não acredito que haja alguma música essencialmente nacional. Carlos Seixas é, dizem os entendidos, um compositor bastante à italiana; Bomtempo tinha em Haydn a sua principal influência e muitos críticos referem que Joly Braga Santos remete para Respighi e Vaughan Williams. Por exemplo… E podia, sem arriscar muito a que me acusassem de delírio, apontar o «estrangeirismo» de outros nomes maiores da música portuguesa. 

Se passarmos da música dita erudita à chamada música popular, a sua portugalidade não é mais fácil de definir. A canção dita ligeira têm óbvias influências estrangeiras. Que haverá de mais popular português que a música pimba que anima de norte a sul o povo português, em bailaricos de verão, patuscadas familiares e jornadas de trabalho? Ora, como outros estilos de canção ligeira anteriores a ele, o pimba e seus congéneres de grande público fizeram adaptações «portuguesas» de música estrangeira — a chamada música schlager internacional[2]. A canção dita «de texto» ou «de autor» tem também influências directas da canção de outros países, talvez sobretudo da canção francesa, como, aliás, os seus autores muitas vezes admitem. O pop-rock português, esse, é frequentemente criticado por ter como modelo a «música anglo-saxónica» (mais uma expressão muito difícil de definir com rigor). Há até dois esquemas clássicos de fado que se chamam o bolero do Machado e o bolero do Zé Inácio… Todos os géneros musicais têm, enfim, muitos modelos estrangeiros e isso é apenas natural: por que razão haveria um músico de recusar absorver o que é feito além-fronteiras? 

É claro que Luís de Freitas Branco tem as Suites Alentejanas Nº 1 e Nº 2, Braga Santos as Variações sobre um tema alentejano, que a música «tradicional rural» influencia também desde a canção ligeira até à canção de intervenção, que o fado de Coimbra é uma das principais influências dalguns dos primeiros e mais influentes cantautores, etc. Mas também a música «tradicional», rural ou urbana (um adjetivo como tradicional cobre coisas muitos diferentes, muitas delas bastante recentes, por tal sinal) é, como todas as outras músicas, o produto de músicas que vêm um pouco de toda a parte, desde a música de origem persa do Califado de Córdoba, provavelmente, até à música litúrgica ou às canções e músicas de dança que, mesmo antes de haver discos, circulavam já com relativa facilidade, por toda a Europa e não só. Toda a música dita tradicional é, pelo menos em parte, fusão de músicas diversas, das melodias às letras e às sonoridades, e vai-se sempre alterando num processo  dinâmico. 

E depois, músicas nacionais são também as músicas nacionalizadas, ou não? Para as pessoas da minha idade e da minha região, a música do canadiano Robert Farnon que abriu durante anos as emissões da RTP é uma música portuguesa, porque é a música da televisão portuguesa; e a música tradicional do Carnaval português... é o samba. 

Músicas puras, enfim, que reflitam de forma inequívoca e trans-histórica a «alma de um povo», desculpem, mas não sei quais sejam, porque essa ideia romântica não corresponde a nada de efetivamente observável. Mas, mesmo sem sabermos bem o que é música portuguesa, podemos voltar ao início da discussão para a concluir com uma constatação simples: se cabe ao Estado proteger os seus cidadãos e, por conseguinte, a música destes cidadãos, são todos os músicos portugueses vivos que o Estado deve proteger, antes de mais — componham ou não «música portuguesa» e em português, e — muito importante — toquem e cantem ou não música portuguesa e em português. Não se garantiria, ainda assim, a resolução do problema atrás referido (apoiar e proteger os que mais precisam de apoio e proteção, por serem menos comerciais), mas já se teria uma definição mais sensata de quem defender: não uma entidade bastante vaga chamada música portuguesa, mas os músicos de nacionalidade portuguesa, mesmo que componham música klezmer ou interpretem Motörhead ou Stravinski.

***

Das peças abaixo, quais refletem o património cultural português e as sonoridades e ambientes tradicionais portugueses? Quais se podem considerar música portuguesa? 

Simone de Oliveira, “Amor à portuguesa”, 1959  

Uma canção composta pelo espanhol Enrique Confiner em 1953. Além do original castelhano, tinham já sido gravadas versões em inglês, francês, alemão e italiano antes da versão portuguesa de Simone Oliveira. 

Iris Rautio:  “Benfica”, 1963  

Não sei nada desta canção finlandesa, mas não há dúvida de que fala de Portugal. Se fala de Benfica ou do Benfica, isso não sei, mas, como Iris Rautio era uma cantora pop conhecida, há de ter contribuído para divulgar Portugal na Finlândia, numa altura em que não havia provavelmente muitos finlandeses que viessem de férias a Portugal. 

Conjunto de João Paulo:  “Hully Gully do Montanhês”, 1965  

Não se trata de uma versão. É uma composição de Sérgio Borges e Carlos Alberto Gomes. Hully Gully não é uma expressão portuguesa, mas acho que se pode dizer que a letra é em português... 

Joly Braga Santos: Sinfonia Nº 6, 1972  

Não se trata de uma obra em português, embora tenha um texto de Camões — mas em castelhano… 

Constança Capdeville: Momento I, 1974  

Música bem portuguesa, esta, na autoria e na interpretação (do Grupo de Música Contemporânea de Lisboa, dirigido por Jorge Peixinho) 

Enza Pagliara:  “Pizzicarella”, 2002  

O folclore salentino tem, como outros tipos de folclore europeu, sonoridades semelhantes às de algum folclore português. Contribui para essa semelhança o uso do acordeão, um instrumento inventado na Alemanha há cerca de 200 anos, com base no sheng asiático, trazido para a Europa nos fins do séc. XVIII, que inspirou a criação de vários aerofones de palheta livre. 

César Viana: Land der Brüderlichkeit, 2020  

Land der Brüderlichkeit significa «terra da fraternidade». Trata-se de um «prelúdio coral», que, em vez de se basear num hino luterano, se baseia em “Grândola, vila morena” de José Afonso.



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[1] É claro, uma pessoa pode perguntar-se se a música de Thilo Krasmann era portuguesa antes de este músico ter obtido a cidadania portuguesa, mas deixemos agora essas picuinhices… 

[2] A música que em Portugal se chama pimba e os seus parentes próximos designam-se em várias línguas pela palavra alemã Schlager. Para dar apenas dois exemplos simples de schlager em português, o “Vinho verde” que é do meu Portugal e que faz seguramente parte da música portuguesa que alguns querem defender, é uma versão de uma canção alemã de Michael Kunze e Udo Jürgens, “Griechischer Wein”, de que há também versões pelo menos em croata, finlandês, neerlandês e polaco – e que alguns croatas, finlandeses, neerlandeses e polacos considerarão provavelmente, música sua; e os dois amores de Marco Paulo são uma versão de um tema do músico grego Giorgios Hatzinassisos... 


5 de fevereiro de 2021

Pensar p'la sua cabeça

(Soneto inglês em redondilha maior, se é que tal coisa existe)

Pensar p’la sua cabeça,
para mim, só vale mais
quando esse pensar pareça
melhor que os pensares demais.
Em não julgando pensar
melhor que outros, porém,
o melhor ‘inda é tomar
por nosso o pensar de quem
julgamos pensar melhor
do que a nossa cabeça,
e deitar fora o amor-
-próprio, que nada interessa
— conta se se pensa bem,
não p’la cabeça de quem...


19 de janeiro de 2021

A beleza e a verdade


Na sua página do Facebook, lembrava Frederico Lourenço em vésperas de Natal uma conversa entre Charles Ryder e Sebastian Flyte, duas personagens do romance Brideshead Revisited, de Evelyn Waugh (traduzo eu[1]):
[Charles:] “Mas, meu caro, Sebastian, não podes mesmo acreditar nisso tudo... O Natal, quero eu dizer, e a estrela e os três e o boi e o burro.
[Sebastian:] “Acredito nisso tudo, sim. É uma ideia adorável.”
[Charles:] “Mas não se pode acreditar em coisas só porque são uma ideia adorável.”
[Sebastian:] “Mas eu acredito. É assim que eu acredito.”
No texto de Waugh, a palavra é lovely. Eu traduzi lovely por adorável. É uma tradução aceitável, mas não é sem problemas. Lovely é uma palavra mais corrente que adorável é tem um sentido mais vasto — pode dizer-se, por exemplo, de comida e de outras coisas para as quais nunca se usa a palavra adorável em português. E depois, em inglês, lovely distingue-se de adorable, que, em muitos casos, parece também traduzir-se por adorável. Em última análise, porëm, todas estas palavras têm um sentido semelhante: dizem-se de uma coisa de que se gosta. Embora com matizes de sentido que, a um certo nível de análise, não são despiciendas, palavras como adorável, maravilhoso, encantador, etc., são termos de aprovação — como bom. No seu texto, Frederico Lourenço refere a loveliness de Sebastian como beleza e, de facto, acho que bela ou bonita funciona tão bem como adorável para traduzir lovely. Lovely usa-se também para apreciações puramente —ou sobretudo — estéticas. E belo é também um termo de aprovação, como bom, mas cobrem os dois termos áreas às vezes diferentes: com bom aprova-se a funcionalidade, a moral, o gosto ou o cheiro, entre muitas coisas, ao passo que belo é o que se vê ou ouve; mas um texto, um período de tempo ou um tecido — e milhentas outras coisas — tanto podem ser belos como bons, às vezes sem grande diferença de significado entre as duas adjetivações, outras vezes com diferenças claras.

As palavras são como as cerejas, sobretudo neste blogue, e escorrem conversas de outras conversas. Mas deixemos agora esta faz-de-conta-que semântica, não é esse o propósito do texto. Como também não é de modo algum intenção minha, note-se, criticar quem acredite no Natal (independentemente do que acreditar no Natal queira dizer para essa pessoa) por achar que o Natal é uma ideia adorável. E muito menos criticar a mensagem de Natal de Frederico Lourenço, que acho bonita e cuja leitura aconselho (se n'ao o fizeram ainda, sigam o link no inïcio deste texto, o post é público). Antes quero, a propósito desta passagem da novela de Evelyn Waugh, alinhar algumas breves considerações sobre a relação da verdade com categorias como beleza, harmonia e simplicidade.

Lembro-me de ler, quando era rapaz novo, o livro Descobertas na Terras dos Maias (aliás, já aqui referido na Travessa), em que Pierre Ivanoff apresenta uma hipótese surpreendente para explicar o colapso do período clássico maia: e se, baseando-se na estrutura cíclica do seu calendário, os sacerdotes maias tivessem anunciado o fim próximo da sua civilização e, por acreditarem nas suas predições e abandonarem as cidades, as populações tivessem confirmado a veracidade das profecias tornando-as realidade? É uma grande ideia, sem dúvida — se o Sebastian Flyte de Brideshead a achasse adorável ao ponto de acreditar nela, quem lhe poderia levar isso a mal? Para mentes mais escrutinadoras, porém, que possibilidades tem esta ideia de descrever o que realmente se passou (mesmo que a também apaixonante ideia de colapso repentino da civilização não fosse, como é, muitas vezes posta em causa)?

A beleza seduz, evidentemente[2]. Há muitas histórias de ideias assim, «bem achadas» mas sem grande — ou nenhuma — possibilidade de serem verdadeiras[3]. Se escolhi esta é porque é também uma história sobre wishful thinking na sua versão mais forte: desejar tanto uma coisa que se faz com que essa coisa aconteça — algo que é muito raro na vida… Mas acreditar numa asserção porque a achamos bonita pode considerar-se, afinal, uma forma de wishful thinking, acreditar na realidade de uma coisa porque a desejamos. É certo que desejar e achar bonito não são exatamente a mesma coisa, mas normalmente deseja-se o que se valoriza…

Enfim, eis que as palavras saem mais uma vez umas pegadas às outras, como as cerejas. Voltemos ao cerne da questão: que implicações pode ter a sedução da beleza de uma ideia nas asserções sobre a sua veracidade? Ou então, mudando ligeiramente de perspetiva, onde nos pode levar o fascínio da beleza quando é a verdade que queremos saber? Talvez dependa das áreas de pesquisa. Como realista que sou, costumo afirmar que não há nada de fundamentalmente diferente numa investigação judicial ou numa investigação científica: em ambos casos se procura demonstrar o que se acredita ser a verdade com recurso a observáveis, ou seja, coisas que todos podem ver, quando elas lhes são apresentadas. Muito provavelmente, porém, poucos defenderão a importância da beleza na investigação judiciária, ao passo que há muito quem defenda uma íntima correlação entre beleza e verdade no domínio científico[4].

Sabine Hossenfelder é uma física teórica alemã e divulgadora científica. Tem um blogue e um canal de vídeo que acompanho e publicou em junho de 2018 um livro chamado Lost in Math: How Beauty Leads Physics Astray, em que defende que a sedução de beleza das grandes teoria está a travar o progresso da física teórica. Não li o livro, mas vi na Internet algumas palestras em que Hossenfelder resume as ideias que aí defende. Segundo ela, há no trabalho científico, e nomeadamente em Física teórica, uma tradição de valorizar a beleza, entendida como «simplicidade», «naturalidade» e «elegância»[5].

O matemático e físico Hermann Weyl afirmava ter sempre tentado juntar a verdade com a beleza, mas que, a ter de escolher só uma delas, escolheria a beleza[6]. O físico Paul Dirac postulava que, com a teoria da relatividade, o princípio da necessária simplicidade de todas as equações descrevendo a realidade fora substituída por outro princípio mais fundamental: a da sua necessária beleza matemática; e que, a escolher entre simplicidade e beleza, havia, pois, que escolher a última, como Einstein fizera[7]. O físico Anthony Zee, referindo também Eistein, torna explícita, de forma radical, a procura da beleza como programa científico, indo ao ponto de postular que a beleza é mais importante que a verdade[8]. Steven Weinberg, que ganhou um prémio Nobel da Física, defende também que a beleza serve como guia em ciência e justifica a afirmação dizendo que a história deu aos cientistas o sentido «estético» que lhes permite reconhecer, pela sua beleza, as boas teorias, como um criador de cavalos reconhece, pela beleza, a qualidade de um animal[9]. Murray Gell-Mann também pensa — com base na sua própria experiência, diz ele — que, perante uma teoria de uma grande beleza, um cientista pode até duvidar de experiências que a infirmem. E explica até de forma mais organizada como funciona esse sentido estético que permite reconhecer, pela sua beleza, uma teoria cientifica: a matemática usada em novas teorias é simples e bela, porque é muito semelhante à usadas nas descobertas que a precederam e motivaram, «porque já a sabemos escrever de modo conciso e sedutor»[10].

Diz Frederico Lourenço na referida mensagem de Natal que «A capacidade humana para ver e criar beleza é a grande redenção.» É sem dúvida uma capacidade humana fundamental e tempos de crise como a atual pandemia vêm com certeza recordar a importância dessa nossa capacidade a quem acaso a tivesse esquecido. Mas vêm também recordar-nos outra verdade fundamental a que muitos, infelizmente, continuam a não dar o devido valor: é que pelo menos tão importante como a capacidade humana de ver e criar beleza é a capacidade humana de ir além dos limites «naturais» dos seus sentidos e intuições e criar descrições adequadas («verdadeiras!») não só do nosso mundo como de todos os mundos. A ciência resulta dessa capacidade.

A objeção que nos surge imediatamente a esta ideia de Weinberg e Gell-Mann — uma objeção de que Hossenfelder também dá conta, aliás — é que fiar-se assim num sentido de beleza assente no reconhecimento das qualidades que funcionaram antes implica que as novas boas teorias não tenham de cortar com as anteriores. Não sei nada de Física e não posso avaliar se, como Hossenfelder defende, há de facto um desperdício de recursos em Física teórica porque se valoriza sedutoras teorias gerais, que não se têm conseguido demonstrar ou que são por natureza intestáveis (ela dá como exemplos a teoria das cordas e hipótese dos multiversos, respetivamente), em vez de se seguir a via mais prática de tentar resolver os problemas imediatos, as contradições dos modelos existentes, com hipóteses que, no presente, possamos testar. Mas a questão da beleza das teorias não se coloca exclusivamente na Física e não me parece que seja avisado, em nenhum empreendimento intelectual, partir do princípio de que o queremos descobrir se parece com o que já sabemos; nem vejo que boa razão pode haver, a não ser uma não assumida religiosidade, para pressupor que as leis da Natureza terão de ser atraentes, harmoniosas, simétricas, simples… — ou seja, à medida de conceitos de beleza que seguramente não se desenvolveram em nós para nos motivar na procura dessas leis e muito menos para as avaliar.

Como dizia Richard Feynman, a única coisa — a única! — que faz com uma teoria seja boa é estar de acordo com o observado. «Se a hipótese é muita bonita ou não, se se é muito esperto ou não, quem criou a hipótese e o nome que tem», nada disso conta[11].

Jimmy Harris: Locomotiva a vapor abandonada no cemitério de comboios de Uyuni, Bolívia (pormenor), 2009. Creative Commons, daqui


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Notas

[1] O original:
“But my dear Sebastian, you can’t seriously believe it all... I mean about Christmas and the star and the three kings and the ox and the ass.”
“Oh yes, I believe that. It’s a lovely idea.”
“But you can’t believe things because they’re a lovely idea.”
“But I do. That’s how I believe.”
É de notar que não é como «ideia adorável» que a maioria das pessoas religiosas acredita nos dogmas, nas personagens ou nas narrativas oficiais da sua religião, mas sim como factos verídicos, embora não observáveis por todos — só quem tem fé lhes reconhece a realidade.

[2] E não é só a beleza das ideias que nos leva a acreditar nelas: a psicologia experimental revela que «uma melhor aparência física contribui para que se acredite que uma pessoa é melhor, mais inteligente, mais bem-sucedida, mais importante e mais valiosa» — e que, convenhamos, é moralmente assustador. Esta definição é retirada da secção «Fenómeno do privilégio da beleza» do artigo da Wikipédia sobre o «Estereótipo da beleza física». Na secção referida, listam-se alguns dos vieses cognitivos causados pela beleza física, com links para muitos estudos e artigos sobre a questão.

[3] Brinco aqui com a célebre frase de Giordano Bruno em De gl’eroici furori: «Se não é verdade, é muito bem achado» («se non è vero, è molto ben trovato»).

[4] Saindo da questão da relação entre beleza e verdade, é interessante constatar que, no que diz respeito à pura aferição da veracidade uma asserção, as mesmas pessoas que aceitam a fé como única premissa necessária para justificar uma crença exigem, e ainda bem, que haja provas factuais (observáveis) para as decisões de um tribunal de lei. (Também as mesmas pessoas que duvidam da «objetividade» do mundo real têm o mesmo comportamento a atravessar a rua que qualquer realista que acredite que o mundo é mais que construção mental ou social… Mas isso é outra conversa. Ou talvez não…)

[5] Hossenfelder sobre esta sua definição de beleza (traduzo eu, daqui):
Com simplicidade (…) refiro-me à simplicidade absoluta: uma teoria deve ser simples, ponto final. Quando as teorias não são suficientemente simples para os gostos dos meus colegas, elaes tentam torná-las mais simples – unificando várias forças ou postulando novas simetrias que combinam partículas em conjuntos ordenados.
O segundo critério é a naturalidade. A naturalidade é uma tentativa de descartar o elemento humano, exigindo que uma teoria não utilize pressupostos que pareçam escolhidos a dedo. Este critério aplica-se o mais das vezes aos valores de constantes sem unidades, como sejam os rácios das massas de partículas elementares. A naturalidade exige que esses números sejam próximos da unidade ou, se assim não for, a teoria explica porque não.
Depois há a elegância, o terceiro e mais esquivo aspeto da beleza. É muitas vezes descrita como uma combinação de simplicidade e surpresa que, em conjunto, apontam para novas associações. Encontramos a elegância no «efeito ah ah», o momento de descoberta em que as coisas encaixam umas nas outras.
A lista de autores e respetivas ideias que apresento no parágrafo seguinte é tirada de uma palestra de Sabine Hossenfelder no Centre de Cultura Contemporània de Barcelona, em 2019, How Beauty Leads Physics Astray Quantum, disponível aqui.

Para ter ideia das críticas de Hossenfelder ao que ela considera a estagnação da Física teórica, ver, por exemplo, este texto do seu blogue: “The Present Phase of Stagnation in the Foundations of Physics Is Not Normal” ou o texto em The Week já referido no início desta nota.

[6]My work always tried to unite the truth with the beautiful, but when I had to choose one or the other, I usually chose the beautiful.” Citado por Freeman J. Dyson na revista Nature, de 10 de março de 1956.

[7] Paul Adrien Maurice Dirac, “The Relation between Mathematics and Physics, lecture delivered on presentation of the James Scott prize", 6 de fevereiro de 1939, in Proceedings of the Royal Society (Edinburgh) Vol. 59, 1938-39, Part II pp. 122-129 (disponível aqui):
The dominating idea in this application of mathematics to physics is that the equations representing the laws of motion should be of a simple form[, but t]he discovery of the theory of relativity made it necessary to modify the principle of simplicity. (…) What makes the theory of relativity so acceptable to physicists in spite of its going against the principle of simplicity is its great mathematical beauty. This is a quality which cannot be defined, any more than beauty in art can be defined, but which people who study mathematics usually have no difficulty in appreciating.
The research worker, in his efforts to express the fundamental laws of Nature in mathematical form, should strive mainly for mathematical beauty. He should still take simplicity into consideration in a subordinate way to beauty. (…) It often happens that the requirements of simplicity and of beauty are the same, but where they clash the latter must take precedence.
[8] Fearful Symmetry: The Search for Beauty in Modern PhysicsPrinceton University Press (1986), Cap. I, secção “Beauty before truth” (disponível aqui):
My colleagues and I in fundamental physics are the intellectual descendants of Albert Einstein; we like to think that we too search for beauty. Some physics equations are so ugly that we cannot bear to look at them, let alone write them down. Certainly, the Ultimate Designer would use only beautiful equations in designing the universe! we proclaim. When presented with two alternative equations purporting to describe Nature, we always choose the one that appeals to our aesthetic sense. "Let us worry about beauty first, and truth will take care of itself!" Such is the rallying cry of fundamental physicists.
[9] Entrevista à série televisiva de divulgação científica NOVA (data?; acessível aqui):
NOVA: What is beauty to a theoretical physicist?
Weinberg: It may seem wacky that a physicist looking at a theory says, "That's a beautiful theory," and therefore takes it seriously as a possible theory of nature. What does beauty have to do with it? I like to make an analogy with a horse breeder who looks at a horse and says, "That's a beautiful horse." While he or she may be expressing a purely aesthetic emotion, I think there's more to it than that. The horse breeder has seen lots of horses and from experience with horses knows that that's the kind of horse that wins races.
So it's an aesthetic sense that's been beaten into us by centuries of interaction with nature. We've learned that certain kinds of theories—the kind that win races—actually succeed in accounting for natural phenomena. The kind of beauty we look for is a kind of rigidity, a sense that the theory is the way it is because if you change anything in it, it would make no sense.
[10] Ver, por exemplo, este TED Talk (excerto da tradução portuguesa da palestra, disponível na mesma página):
O fundamental desta palestra é o seguinte: Temos uma experiência notável neste campo da física fundamental, ou seja, a beleza é um critério bem-sucedido para escolher a teoria certa. Porque é que será?
Vou dar-vos um exemplo da minha experiência. É realmente surpreendente que isto tenha acontecido. Em 1957, três ou quatro de nós, formulámos uma teoria parcial de uma destas forças, a força fraca. Estava em desacordo com sete — sete, contem-nas — sete experiências. As experiências estavam todas erradas.
Nós publicámos a teoria antes de o saber, porque achámos que era tão bela que tinha que estar correta! As experiências tinham que estar erradas, e estavam mesmo. (…) Porque é que este tipo de teorias funciona? A questão é esta. O que é queremos dizer quando falamos em beleza? Vou tentar esclarecer este ponto — esclarecê-lo em parte. Porque é que funciona? (…)
Diz-se, com frequência, que estamos cada vez mais perto das leis fundamentais ao examinarmos fenómenos a baixas energias e, de seguida, a energias mais altas, e ainda mais altas, ou distâncias mais curtas e, a seguir, ainda mais curtas e de novo distâncias ainda mais curtas, etc., É como descascar as camadas de uma cebola. (...)
Sucede que, (...) consoante vamos descascando as camadas da cebola e nos aproximamos cada vez mais da lei de base, verificamos que cada camada tem algo em comum com a anterior, e com a seguinte. Podemos escrevê-lo matematicamente, e verificamos que a matemática é muito semelhante. As diferentes camadas requerem uma matemática semelhante. (…)
O que sucede é que os novos fenómenos, as novas camadas, as camadas interiores das camadas ligeiramente menores da cebola que atingimos, parecem-se com as ligeiramente maiores. O tipo de matemática de que necessitámos para a camada anterior é quase o mesmo de que necessitamos para a camada seguinte. É por isso que as equações parecem tão simples. Porque usam a matemática que já temos. (…) Cada camada da cebola mostra uma semelhança com as camadas adjacentes. A matemática para as camadas adjacentes é muito semelhante à que necessitamos para a nova camada. Por isso é muito bela. Porque já a sabemos escrever de modo conciso e sedutor.
[11] Eis a transcrição de um excerto de uma conhecida aula de Feynman, que se pode ver, por exemplo, aqui (traduzi e sublinhei eu a parte em itálico):
Now I’m going to discuss how we would look for a new law. In general, we look for a new law by the following process. First, we guess it (audience laughter), no, don’t laugh, that’s the truth. Then we compute the consequences of the guess, to see what, if this is right, if this law we guess is right, to see what it would imply and then we compare the computation results to nature or we say compare to experiment or experience, compare it directly with observations to see if it works.
If it disagrees with experiment, it’s wrong. In that simple statement is the key to science. It doesn’t make any difference how beautiful your guess is, it doesn’t matter how smart you are who made the guess, or what his name is … If it disagrees with experiment, it’s wrong. That’s all there is to it.








16 de janeiro de 2021

Sprint

Veio-me há bocado à ideia, já não sei a que propósito, a seguinte interrogação: será que a velocidade da metade final dos 200 m em atletismo não é mais rápida que a dos 100 m? «Não será que o balanço ganho contrabalança a dificuldade do arranque?», pensei eu, que destas coisas não percebo nada.

Fui ver. Quer dizer, não fiz um estudo exaustivo, comparei apenas os tempos de alguns dos campeões de sprint que correm as duas distâncias. E cheguei logo à conclusão que as coisas não são nada lineares: para alguns, o tempo dos 200 m é mais que o dobro do tempo dos 100 m — por exemplo, para o recordista mundial de ambas as distâncias, Usain Bolt; mas há outros que correm alguma parte dos 200 m (não forçosamente a metade final, pensei eu depois) mais depressa que os 100 m, porque o seu tempo nos 200 m é menos que o dobro do seu tempo nos 100 m (ver as casas com fundo cor-de-rosa na tabela).

 
200 m
200 m / 2
100 m
Usain Bolt
19,19
9,595
9,58
Yohan Blake
19,26
9,63
9,69
Noah Lyles
19,50
9,75
9,86
Walter Dix
19,53
9,765
9,88
Tyson Gay
19,58
9,79
9,69
Asafa Powell
19,90
9,95
9,72

Agora, não se pode saber quem correu os 100 metros mais rápidos de sempre numa competição oficial (não a prova, mas a distância). Talvez haja 100 metros de uma prova de 200 m de Usain Bolt que ele tenha corrido mais depressa do que quando bateu o record do mundo dos 100 m em Berlim, em 2009. Até pode ser que alguns 100 metros da corrida de Yohan Blake em Bruxelas em 2011, quando alcançou a segunda melhor marca de sempre nos 200 m, tenham sido mais rápidos que os 100 m de Bolt em Berlim, quem sabe?

Adenda a 17.1.21:
J. J. Amarante teve a gentileza de me enviar um  detalhadíssimo relatório biomecânico da final de 200 m do Campeonato Mundial de Atletismo de 2017, em Londres, elaborado por uma equipa de cientistas da Carnegie School of Sport para a Associação Internacional de Federações de Atletismo (que se pode descarregar aqui). Na página 9 deste relatório, comparam-se os tempos dos primeiros 100 metros com os tempos dos últimos 100 m e sete dos oito finalistas correm mais depressa a segunda metade da prova que a primeira. A minha hipótese de leigo não era, ao que parece, disparatada de todo. 

30 de dezembro de 2020

Pastis, Portugal e o Mediterrâneo


Muitas pessoas consideram Portugal um país mediterrânico, embora Portugal, do ponto de vista geográfico, não seja propriamente um país mediterrânico. Mas, culturalmente, pode Portugal considerar-se mediterrânico? Bom, uma questão destas é muito difícil — se não impossível — de responder, antes de mais porque é muito difícil — se não impossível — definir «cultura mediterrânica». É bem provável que Portugal tenha traços culturais semelhantes aos dos outros países mediterrânicos, até porque partilha, em certa medida, o mesmo espaço climático, com óbvias consequências na flora e na fauna disponíveis — quer naturais, quer domesticadas. Para dar um exemplo óbvio no que respeita à gastronomia, que foi o que me motivou a escrever este texto, Portugal faz parte da zona gastronómica do azeite, um traço importante da cultura material mediterrânica. Mas não faz parte das zonas bebidas das bebidas anisadas mediterrânicas.

Pastis (Foto de Heike Schauz em Pixabay)
Disse que queria falar de gastronomia, mas, como o título do texto indica, era a este ponto específico da gastronomia que eu queria chegar: as bebidas anisadas mediterrânicas. É certo que há em Portugal anis escarchado, mas é preciso muito boa vontade para classificar o anis escarchado na mesma categoria que o arak do Médio Oriente, Norte de África e Turquia, o raki turco, o ouzo grego, a Sambuca italiana ou o pastis francês. E não só por não se observar no anis escarchado o chamado efeito ouzo, que se observa nestas bebidas (ficar leitoso quando se junta água) — mas também porque é uma bebida com outro tipo de sabor.

Creio lembrar-me — mas a memória é sempre muito falível, ainda mais quando uma pessoa já vai nos 60, como eu — que tentaram a certa altura introduzir Ricard em Portugal, sem êxito nenhum. E lembro-me de que, em Lisboa, pelo menos, ninguém sabia quanto devia levar pelo Ricard esquecido nas prateleiras de bares e cafés, e nem como o devia servir, e várias vezes me aproveitei disso, pagando muito pouco por doses muito grandes.

Mas a que propósito vem tudo isto? É que recebi de prenda de Natal um kit de produção de pastis: aguardente a 40% (de batata ou de trigo, não sei) dessa «sem sabor», que se usa para, juntando-se-lhe especiarias várias, fazer akvavit condimentada; álcool etílico a 96%; e pacotes de anis de estrela, sementes de anis, sementes de funcho, sementes de coentros e raiz de alcaçuz. O resultado há de ser um pastis de estalo — eu nunca o fiz, mas já o bebi feito com a receita que vou utilizar e, creiam-me, é melhor que Ricard ou 51… Agora, talvez vos surpreenda, como me surpreendeu a mim, usarem-se dois tipos de álcool de base: porque não um apenas, mais ou menos diluído? Garante-me o amigo que me deu a receita que, se não se usar uma parte de álcool puro, não se obtém o tal efeito ouzo. Não tenho, infelizmente, conhecimentos de química que me permitam avaliar, já nem digo a veracidade mas, pelo menos, a plausibilidade da asserção do meu amigo. Podia investigar, mas não me apetece. E menos me apetece correr riscos: pastis que não fica branco quando se lhe mistura água, não, obrigado. De maneira que sigo a receita e não penso mais no assunto.

Para terminar, uma pequena nota algo lateral, a propósito de dois ingredientes do meu pastis: estou em crer que o alcaçuz e os coentros afastam Portugal não só do Mediterrâneo, mas de toda a Europa. Em toda a Europa que eu conheço se consomem doces de alcaçuz ou pastilhas de alcaçuz forte, mas a minha experiência é que os portugueses torcem sempre o nariz (literalmente) quando alguém lhos dá a provar. Quanto aos coentros, se as sementes não parecem ter muito uso na cozinha portuguesa (pelo menos, na que eu conheço…), já a utilização das folhas frescas da planta dá à cozinha portuguesa uma grande originalidade no contexto Europeu — acho que, saindo de Portugal e correndo toda a Europa, só se voltam a encontrar coentros frescos na Turquia. Ou estou a exagerar?