Caiar
[* significa forma hipotética, não atestada]
O
Dicionário Etimológico
de José Pedro Machado, diz que
caiar
vem do latim
canāre
, «tornar branco», passando pelas formas *
cãar
e *
cãiar
[1]
. A etimologia proposta por José Pedro Machado parece-me estranha, porque não faz derivar de
cal
o verbo
caiar
— e
caiar
é cobrir de
cal
, pelo que seria muita coincidência vir de uma palavra não relacionada com
cal
com os mesmos sons iniciais. Além disso, não encontro outras palavras com uma evolução semelhante à que José Pedro
Machado propõe...
O
Aulete
faz a mesma proposta, mas com menos convicção: propõe que
talvez
venha de
canāre
. O
Priberam
prefere considerar que o termo é de «etimologia duvidosa». O
Porto Editora
propõe em alternativa
canāre
ou
caleāre
, «estar quente», mas com interrogação. O Dicionário da Academia das Ciência de Lisboa propõe apenas o latim *
caleāre
, por
calēre
, «estar quente». Antenor Nascentes no seu
Dicionário Etimológico Resumido
,
concorda que «a base deve ser cal», mas acha que «a parte fonética está difícil de estabelecer», porque «*
caleare
daria *
calhar
e não
caiar
»
[2]
. O
Aurélio
também propõe em alternativa duas hipóteses,
canāre
ou a forma portuguesa [e galega, acrescento eu]
calear
, que vem obviamente de
cal
. Esta última hipótese de vir de outro verbo, deverbal de
cal
, parece-me bem mais convincente do que a de vir do clássico
caleāre
, «estar quente».
Agora, não sei se a evolução de
calear
(e)
levaria forçosamente a *
calhar
e não a
caiar
. Vejamos o que aconteceu com
bailar
. É normalmente aceite que
bailar
vem do latim tardio
ballare
, nalgumas propostas através do provençal
balar
, mas Antenor Nascente diz que «o
i
é inexplicado». Nunca vi nenhuma explicação sobre o
i
no bailar português, mas há
uma boa hipótese
sobre a evolução em espanhol que explica esse mesmo
i
: ocorre primeiro uma passagem do
ll
latino a
li
e depois uma metátese de *
baliar
a
bailar
. Em português, está atestada a forma
balhar
, que parece confirmar uma forma *
baliar
anterior, e
bailar
bem pode provir também da metátese de *
baliar
a
bailar
postulada para o castelhano. A ser isso certo,
balhar
foi uma das evoluções de *
baliar
, a outra foi
bailar
. Podemos ainda ir mais longe e constatar que, pelo menos no Brasil, se regista a forma
baiar
, que não sei onde nem quando se formou.
Por fim, das palavras diretamente relacionadas com
cal
, não é só na palavra
caiar
que surge o
i
. Há também
caieira
, que coexiste com
caleira
para significar «forno de cal»; e
caieiro
que, como
caleiro
, refere o homem que fabrica e/ou vende cal
[3]
. Estas formas são fáceis de explicar (cal+eiro=caleiro>caeiro>caieiro) e devem ser considerada na discussão de
caiar
. O que eu não sei é se tiveram uma difusão tal que se possa considerar que
caiar
se possa ter formado por influência delas...
Serralheiro e
cerrajero
|
Serralheiro, séc. XV (Wikimedia Commons,
ver mais informação
aqui
.)
|
Pode surpreender que a palavra espanhola para
serralheiro
seja
cerrajero
, porque é fácil associar
serralheiro
a
serra
e
cerrajero
a
cerrar
, «fechar». Mas como é que duas palavras tão semelhantes não são cognatas?
Quando se pesquisa, porém, chega-se à conclusão que as duas palavras são de facto cognatas, porque vêm ambas, em
última instância, do verbo latino
serāre
, «fechare». O
Dicionário da Real Academia Espanhola
dá como étimo imediato de
cerrajero
o termo
cerraja
, «fechadura», derivado de
seracŭlum
, do latim tardio
serāre
, «fechar» [de
sĕra
, «tranca de porta»]. Os dicionários portugueses dão antes como étimo o latim
serracŭlum
, «leme». Já agora — e isto é também interessante — todos os dicionários que vi concordam que é o latim tardio
serāre
que está na origem de
cerrar
e
encerrar.
Há aqui vários mistérios:
Na proposta espanhola dos étimos
seracŭlum
para
cerraja
e na proposta de todos os dicionários de
serāre
para
cerrar
, como é que o
r
intervocálico latino se transforma em
rr
? De facto, a oposição entre r e rr entre vogais é clara em todos os falares ibéricos e parece manter-se inalterada
desde o latim aos falares modernos.
Quanto à distinção entre
c
e
s
, se é verdade que ela hoje está anulada em muitos falares ibéricos, ela manteve-se até hoje na maior parte do
castelhano de Espanha, uma parte do galego, e persiste ainda, embora moribunda, em falares do norte de Portugal. É
certo que se anulou na maioria das zonas de falas ibéricas (castelhano andaluz, canário e americano, português moderno
excetuando os dialetos já referidos), mas foi clara até relativamente tarde. Será que
cerrar
já foi
serrar
? É claro, na proposta dos dicionários portugueses de
serracŭlum
para base de
serralheiro
, a questão do
rr
não se põe, mas... como se chega de leme a serralharia?
Há algo nestas questões que merece maior esclarecimento…
Sobre a questão do
rr
, diz Antenor Nascentes que
cerrar
vem do latim
serare
, «fechar com fechadura», «influenciado por
serra
,
serrare
, como atestam muitas glosas». O latim
serrāre
tinha já o mesmo significado que
serrar
, «cortar com serra».
Antenor Nascentes assinala, para a etimologia de
serralharia
e
serralheiro
, que vêm de «um primitivo perdido, derivado do lat. vulg.
serraculu
, «fechadura», tirado de
serrare
(pelo clássico
serare
, e conservado em espanhol, italiano, provençal e francês)»
Se a proposta de interferência de
serrar
na história de
cerrar
me parece perfeitamente plausível, é ainda mais plausível, pela proximidade semântica, uma influência de
serrar
na história de
serralheiro
. E é certo que esta interferência pode, nos dois casos, ter levado à adoção de um
rr
onde a etimologia não o justifica. Assim, o mais lógico é que o étimo seja
seracŭlum
, «fechadura», como propõe a Real Academia Espanhola, mais tarde transformado pela influência de
serra
, e não o leme
serracŭlum
. E o lógico é que o primitivo perdido, que se encontra noutras línguas, seja, em português, *
serralho
ou *
serralha
, com o sentido de «fechadura».
Vaipe
Descobri agora que alguns dicionários já registam a palavra
vaipe
(Porto Editora: «mudança súbita de comportamento; reação inesperada; impulso»), mas não propõem nenhuma etimologia. A
mim, a origem sempre me pareceu óbvia, mas uma pessoa nunca se deve fiar muito nas suas intuições, de maneira que
despromovo a minha certeza a tímida proposta: creio que
vaipe
é uma deturpação, feita na gíria jovem angolana dos anos 60/70, do inglês
vibe
, abreviatura, na gíria juvenil da década de sessenta, de
vibration
. A confusão entre [b] e [p] não surpreende, pelo que a única coisa que falta explicar é o género masculino, já que,
sendo
vibration
um cognato facilmente identificável de
vibração
, a sua abreviação seria naturalmente feminina em português. A atribuição do género feminino acontece de facto, quando
se usa o empréstimo
vibe(s)
no discurso em português, que eu creio que é algo posterior e que mantém o significado da expressão inglesa. Se
pensarmos, porém, que a importação anterior, que deu
vaipe
, foi feita por pessoas com poucos conhecimentos de inglês, é provável que não houvesse consciência da relação entre
vibe
e
vibration
. Essa falta de domínio da língua de origem da palavra pode também explicar o desvio semântico: em vez de descrever «
o ambiente de um lugar, de uma situação ou estado de espírito, disposição de uma pessoa, etc., e a maneira como nos
fazem sentir
»,
vaipe
passa a descrever o
surgimento
de uma disposição ou estado de espírito.
_______________
[1]
A edição a que tenho acesso diz que
canāre
passou a «*
cãar
que se tornou *
caiar
e, depois,
caiar
». Presumo que a repetição da forma seja gralha e que a segunda forma intermédia seja antes *
cãiar
.
[2]
Dependendo do período em que se proponha a evolução de
caiar
a partir de
calear
, pode dizer-se o mesmo desta proposta que da proposta de um
caleare
latino: também devia dar *
calhar
.
[3]
A. M. Galopim Carvalho
inclui na lista de derivados de cal
os
caios
, «ilhas rasas, feitas de areia calcária, dos mares recifais das Caraíbas», mas é palavra que não encontro em
dicionários.