07/06/23

De hinos nacionais... e transnacionais

Dos hinos nacionais que conheço, não me lembro de nenhum que me agrade mesmo – nem melodias nem letras... Mas enfim, também conheço poucos. Não deixa de ser curioso, porém, que não haja mais hinos nacionais que sejam canções «tradicionais» ou «folclóricas». Parece que ficaria bem à romântica ideia de nação um símbolo que romanticamente definisse «a alma de um povo», uma capacidade que — muito romanticamente também — se atribui muitas vezes à música «tradicional» ou «folclórica».

«Tradicional» ou «folclórico», quando se refere a autoria (ou ausência dela, seja), significa apenas que não se sabe quem é o autor. Muitas vezes, a canção de autor desconhecido assim referida sofreu várias mutações, ou seja, foi reescrita por várias pessoas anónimas ao longo do tempo, e tem, muitas vezes, várias versões, todas de autor desconhecido. Quando olhamos para a lista dos hinos nacionais, presentes ou passados, e dos seus autores, só os da Eslováquia (música), da Suécia (música) e de Montenegro (letra e música) são «folclóricos»*.

Por mim, proponho a canção tradicional «Segadinhas» para hino português: presta-se a ser cantada em coro por muita gente, até com arranjos sofisticados, é rica em lirismo, que muitos consideram uma qualidade nacional, com uma mensagem bem mais razoável e mais positiva que o apelo bélico e suicida a marchar contra canhões, e inclui o termo larilolé, que é dos mais portugueses que há... Mas receio que não haja muito gente a concordar comigo.

Agora, um caso curioso é «Land of the Rising Sun», o hino da República do Biafra, autoproclamada em 1967 e que durou só até 1970. A letra é de Charles Okereke e a melodia é do hino «Finlândia«, de Jean Sibelius, extraído do poema sinfónico do mesmo nome e transformado em canção com duas letras diferentes, a primeira de Wäinö Sola em 1937 e a segunda de Veikko Antero Koskenniemi em 1941 (além de outras letras noutras línguas). Ora, o hino «Finlândia» não só é uma obra nacionalista, como tem sido muitas vezes proposto para hino nacional da Finlândia, sem que isso se tenha concretizado. Só no Biafra é que «Finlândia» finalmente cumpriu, durante três anos apenas, a sua vocação de hino nacional.

Para terminar, deixo-vos o poema sinfónico Finlandia, de Jean Sibelius, numa excelente versão, por tal sinal muito finlandesa: a Orquestra Filarmónica de Helsínquia conduzida por Leif Segerstam. Não é propriamente um hino nacional, mas é uma obra referida no texto e é mais bonita que os hinos nacionais que conheço. Para mim, claro.


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* O hino do Sara Ocidental também é de compositor e letrista desconhecido, mas não me soa nada a tradicional sarauí. A música do hino «God Save The King», que é usada também no hino nacional do Listenstaine, também é de autor desconhecido e decerto suficientemente antiga para poder ser considerada «tradicional»...

05/06/23

[Frango de] Fricassé


Depois de vários meses sem aqui pôr nada, proponho-vos uma receita de frango. Não estejam à espera de invenção ou de inspirada variação: é uma receita clássica que vos trago — tão clássica que até já deu lugar a variações regionais que se tornaram clássicas elas próprias. E não vos vou dizer que este é que é o «verdadeiro» fricassé, ou o fricassé «original», porque isso não há nem nunca houve, mas é um fricassé relativamente canónico, se se pode dizer assim. E muito saboroso!

Mas porque me fui eu lembrar de fricassé? Bom, num grupo de amigos, falou-se um dia destes desse prato e de várias maneiras de o fazer. E então, por causa disso, fui ver um bocadinho a história da palavra e daquilo que ela refere, e fui ver o que diziam os clássicos. E fiquei cheio de vontade de comer um fricassé, claro está, que já não comia há muito tempo. De maneira que fiz um e estava bem bom.

O verbo francês fricasser, de origem discutida (de frire + casser ou de fric- + o sufixo -asser?) está atestado já no séc. XV. O significado parece estar sempre ligado a carne cortada em pedaços cozinhada no seu próprio caldo. A carne que mais se usa para fricassé é a de galinha, mas o mesmo processo também se pode usar para outras carnes e até mariscos. Para Escoffier, no seu clássico Guia Culinário de 1903, a diferença entre um fricassé e uma blanquette é que, nesta, a carne é só cozida no caldo, ao passo que, num fricassé, a carne é primeiro salteada em manteiga e só depois molhada com um caldo branco previamente preparado. Na receita de Escoffier, como em várias outras receitas de «Fricassé à moda antiga», há um duplo espessamento do molho: a carne é primeiro polvilhada de farinha antes de ser salteada, o que forçosamente contribui para ligar o molho, mas este é também ligado no fim com gemas de ovos e nata.

As variações sobre o prato são muitas por esse mundo fora, mas, na versão mais comum em Portugal, omitem-se as natas, os cogumelos e a farinha — liga-se só com gemas de ovos, a que se junta sumo de limão e salsa picada.

O melhor é uma pessoa adaptar as receitas ao que tem à mão e à inspiração do momento, Desta vez, o meu fricassé foi assim:

Primeiro, desossei o frango, só para lhe tirar a carcaça. A carcaça não fica bem num prato assim, além de que, se uma pessoa não tiver caldo de galinha já feito e não quiser usar caldos desses liofilizados que se compram em cubos, precisa de ossos para fazer a canja, não é verdade? Cortei a carne em bocados pequenos, com as pernas e as asas cortadas ao meio e os peitos divididos em quatro.

Numa panela, pus a carcaça do franco e a ponta das asas a cozer com uma cebola, uma cenoura, umas ramas de aipo e de alho francês e um ramo de cheiros (tomilho, dois tipos de salva e alecrim, que é o que tenho agora no quintal).

Pus os bocados de frango a dourar numa frigideira com cebola e alho previamente refogados. Ao fim de pouco tempo, retirei os bocados de carne branca, para não ficarem secos demais. Depois de cozinhados mais uns minutos as asas e pernas, tirei-lhes a pele: é boa para dar sabor, mas não a queria no prato final. Pernas e asas voltaram à frigideira, juntei-lhe uns cogumelos cortados em lâminas. Uns minutinhos depois, cobri tudo com a canja, que entretanto tinha passado num passador. Juntei-lhe um pouco de nata. Deixei cozer neste molho mais alguns minutos e juntei-lhe então a carne branca. Quando dei por terminada a cozedura, já fora do lume mas ainda muito quente, juntei-lhe duas gemas de ovos, que tinha batido com sumo de limão e salsa picada. Voilà ! 

Ah, já agora: a receita de Escoffier inclui sumo de limão. De facto, o sumo de limão só é diretamente mencionado na receita de blanquette de vitela, mas na receita de fricassé diz-se que o molho se faz da mesma forma que o da blanquette.


08/02/23

Que tenhas um dia bom

 

Não deixa de ser curioso: os votos de aniversário eram antigamente mais ambiciosos, se se pode dizer assim, do que agora são. Era costume desejar saúde e felicidades para o resto da vida – que, por sua vez, se desejava longa. Agora, deseja-se o mais das vezes um bom dia de aniversário. 

É capaz de ser sinal da fortuna da desumana ideia de que há que viver só no presente ou talvez mais uma marca do tão falado fim das utopias…

31/01/23

«Ah, mas isso é um palavrão!...», um artigo quase brejeiro

 

Aí pelo ano 2000, tive a ideia de criar e comercializar uma aplicação (basicamente uma base de dados, que nessa altura, seria em CD-ROM, claro), que avisasse de palavras — ou sequências de palavras/sons — tabus em todas as línguas do mundo. Ok, nas mais importantes, vá... Assim, por exemplo, se uma pessoa quisesse comercializar um produto no mercado internacional, podia perguntar à aplicação se o nome do produto podia ser motivo de chacota ou de embaraço em alguma língua[1].

Mas nunca cheguei sequer a fazer um estudo de viabilidade da coisa. Fazer uma base de dados assim havia de dar muito trabalho e achei que ninguém ou quase ninguém a compraria — até porque a informação sobre a aceitabilidade do nome de um produto ou de uma instituição numa determinada região se pode, em princípio, obter dos representantes locais da firma ou da organização que os cria. A Hyundai sabia, antes de lançar o Kona em Portugal, que o carro não se podia chamar assim e foi só em Portugal que o modelo se chamou Kauai. O Opel Ascona foi comercializado em Portugal como Opel 1204, Opel 1604 e Opel 1904[2]. A Mitsubishi sabia que não devia usar nos países de língua castelhana o nome Pajero para o seu modelo Opel utilitário-desportivo lançado em 1981 (ver aceção 3 no DRAE) e chamou-lhe antes Montero nesses países. Quanto ao Toyota MR2, esse chama-se mesmo só MR, sem o 2, nos países de língua francesa, pela razão simples de que MR2 se pronuncia /ɛmɛʁdø/, exatamente como «est merdeux». No Québec, a Buick lançou o Lacrosse como Allure, porque já sabia que o nome original não ficava bem em francês canadiano[3]

Hoje em dia, até já há ferramentas gratuitas em linha que permitem verificar palavrões em diversas línguas. Com esta, por exemplo, que tem mais de 14 000 palavras inconvenientes — e é, por isso, muito, muito incompleta. E, como também há casos em que um palavrão ou outra palavra indesejável se esconde dentro de outra palavra (como no caso do Opel Ascona atrás referido), existe até outra ferramenta, também grátis e também muito incompleta, que permite encontrar palavras dentro de palavras.

Estas pesquisas, porém, nem sempre se fazem e há produtos ou organizações com nomes pouco recomendáveis em países ou regiões onde são lançados. A Internet está cheia de histórias de produtos assim, umas mais verdadeiras que outras, provavelmente — e a maior parte delas muito difícil de verificar. Ao que vejo, às vezes exagera-se um bocado sobre a falta de aceitabilidade do nome e inventa-se um problema que não existiu. Eis alguns exemplos do que para aí se diz e a avaliação que faço deles:

Parece que há um chocolate com nozes chamado Fart na Polónia, para grande divertimento dos falantes do inglês, mas a verdade é que só encontro o produtos em páginas em inglês que tratam de «erros de marketing» — e não sei se alguma vez alguém pensou em vender o chocolate fora da Polónia… Enfim… Os falantes do inglês também acham muita graça quando, na Dinamarca, vêm um letreiro «I fart» («em movimento»), por exemplo num elevador, mas não devem estar à espera que os dinamarqueses mudem isso só por causa deles…

A revista sueca Auto Motor Sport de 3 de Abril de 2002, diz que, segundo um artigo publicado no jornal Dagens Nyheter, o Honda Fit estava para ser lançado como Honda Fitta e que uma mensagem do escritório sueco da firma fez a companhia mudar de nome, o que lhe custou caro, já que tinham brochuras e filmes publicitários com o nome que não ficava bem nem em sueco nem nas duas línguas norueguesas oficiais, danonorueguês e neonorueguês. Como o nome do carro em japonês se transcreve Fitto e não encontro nenhuma outra referência a este acontecimento, parece-me bem possível que o Dagens Nyheter a tenha publicado a 1 de abril…

Alguém assegura que a cadeia alemã de ferragens e material de construção Götzen Baumarkt devia mudado de nome quando começou a operar na Turquia, porque o nome alemão soa como a palavra turca göt (sim, o alemão e o turco, como aliás o sueco, o finlandês e provavelmente outras línguas, usam a mesma letra ö para as vogais anteriores arredondadas) a forma da segunda pessoa do verbo ser, algo como «és um cu». Mas se tivesse sido mesmo um problema para a firma, alguém teria feito alguma coisa para o resolver.

Leio também que a Ikea mudou mesmo o nome de dois produtos, a cama Redalen e o vaso Jättebra, porque ambos significam «sexo» — sendo o primeiro um termo eufemístico e o segundo um termo de calão. O que eu gostava de perceber, sobretudo na palavra Jättebra, é como os tailandeses, que presumo que tenham contacto com o nosso alfabeto sobretudo através do inglês, conseguem ler o som do sueco. Jättebra lê-se algo como [iétebró]. Ou é o sueco lido à inglesa que soa como a palavra-tabu tailandesa? Enfim, até me explicarem melhor, também não acredito muito nesta história.

Já o que li sobre o queijo de barrar norueguês Kavli na Grécia tem mais possibilidades de ser verdade. Kavli vende-se em muitos países e é certo que se vende na Grécia. Se muito ou pouco, já não sei… E é certo que καυλί em grego não é bom nome para queijo.

Leio em vários sítios na net que o Mazda Laputa, uma versão do Suzuki Kei, nunca foi comercializado em países hispanófonos, por causa do nome — mas será mesmo verdade?

Lumia, um smartphone da Nokia, significa de facto «prostituta» em espanhol, mas é termo raro, não sei se muita gente o conhece. Pelos vistos, a Nokia não se preocupou muito, nem teve problemas com isso.

Também não há dúvida de que sega é mesmo um termo informal para masturbação em italiano, mas parece que a conhecida marca de jogos de vídeo resolveu o problema, se o havia, comercializando o seu produto em Itália com a pronúncia /siga/ em vez de /sega/ (e isto é mesmo assim).

Outra situação em que um possível problema se resolve foneticamente é a dos Audis e-tron em França: e-trone pronuncia-se /itrone/ e não étron.

Também parece certo que სირი, Siri em georgiano, é uma antiga palavra para «pássaro, pássaro jovem ou pintainho» que se usa atualmente como palavrão para designar o pénis. Mas, se significa também pássaro, pássaro jovem e pintainho, სირი é exatamente como pinto ou rola no Brasil e pode discutir-se até que ponto é um verdadeiro palavrão. A verdade é que os georgianos não sentiram necessidade de arranjar outro nome para a assistente virtual da Apple[4].


Enfim, não se pode sempre verificar os nomes de tudo em todas as línguas — quando muito, se houver tempo e paciência para isso, nas línguas em que há mais possibilidade de o produto vir a ser mencionado. Não faço ideia de como se pode calcular a probabilidade de uma qualquer palavra ser inconveniente em alguma das 6.000 línguas do mundo (ou mais, segundo alguns), nem sequer se há maneira de calcular essa probabilidade — mas ela está, pelos vistos, longe de ser nula…

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[1] Quem diz nome de produto, diz nome de instituição ou organização, evento, etc. E, claro, há muitas outras razões para um nome ser embaraçoso além de ser uma palavra-tabu. Neste texto, porém, para não me alargar demasiado, limito-me a referir nomes de marcas que evocam os chamados palavrões.

[2] Ao que vejo, mais tarde foi também comercializado como Ascona. As ressonâncias do nome parecem ter deixado de preocupar a firma...

[3] Ver aqui um excelente artigo [em francês] sobre a palavra crosse e os seus derivados, que se podem, de facto, relacionar com masturbação. Ainda assim, surpreende-me que se tenha alterado o nome do modelo no Québec — o desporto com o mesmo nome é popular e não creio que alguém já tenha querido mudar-lhe o nome.

[4] A Siri da Apple também veio causar problemas doutro tipo às pessoas com esse nome, que passaram a ser vítimas constantes de graças sem graça nenhuma, mas isso é outra história. Tivéssemos nós adivinhado que em 2011 a Apple lançaria a Siri e nunca teríamos, sete anos antes, dado esse nome à nossa filha mais nova.


19/01/23

Javanês e criptografia

 

Escrevia Aquilino Ribeiro, no seu prefácio ao Dicionário de Calão de Albino Lapa, que «o calão começou por ser uma linguagem de defesa do fraco contra o poderoso, do preso contra o carcereiro e algoz, do conspirador contra o juiz e o tirano. Que procurasse tornar-se criptográfica o mais possível, é lógico.» 

Há muitas maneiras de encriptar o que se diz, umas mais simples e outras mais complicadas, para se poder falar sem ser entendido. Normalmente, o calão usa um processo de substituição lexical: em vez de calças, diz-se galdos ou galdinas; em vez de porta diz-se drofa; em vez de ir-se embora, diz-se ir d’espiante; e assim sucessivamente, mas sem alterar as regras sintáticas, morfológicas, fonéticas, etc., da língua. Há formas de calão, porém, em que, em vez de substituir as palavras, se as criptografam — com códigos muito mais simples que os usados em verdadeira criptografia, mas que chegam para que quem não domine o código não compreenda o que é dito.

Há um código português desse tipo chamado badoncali, que aprendi na minha adolescência. Funciona assim: agarra-se numa palavra e tira-se-lhe um número qualquer de sons do início (no mínimo, uma consoante ou um grupo de consoantes), deixando uma vogal como som inicial. Depois, cola-se bad- (b- apenas, nalguns casos raros) no início do pedaço de palavra que ficou e acrescentam-se à nova sequência os sons que se roubaram no início, juntando-lhes um -i para rematar. Badoncali é calão em badoncali: calão − cal- = ão + bad- (antes) = badão + -cal- + -i = badãocali. Só que, por muito que seja concebido para não ser entendido por falantes do português, o badoncali é português, porque é falado por pessoas que têm na cabeça a estrutura do português. E não há o ditongo [ão] no meio de uma palavra, a não ser antes de diminutivos e aumentativos [o que é, de facto, um argumento sólido para defender que os sufixos aumentativos e diminutivos não são vulgares sufixos, mas isso é outra história] e a sequência ‑cali não é diminutivo nem aumentativo. É então necessário transformar badãocali em badoncali, aplicando-lhe as regras fonéticas do português. .

Existem em francês dois códigos semelhantes a este, o louchébem, o calão dos talhantes, e o largonji. Louchébem (pronunciado /luchêbéme/) é boucher, “talhante” (pronunciado [buchê]) sem o B inicial, que vai para o fim e que é susbtituído por um L. Ao todo acrescenta-se /-eme/ e está feito.: /buchê/ -B + L= /luchê/; /luchê/ + B + /eme/ = /luchêbème/, louchébem. Sabendo agora vocês que largonji é jargon, «jargão», em largonji, não preciso de vos explicar o processo de formação deste outro código.

Quando éramos miúdos pequenos, tínhamos a língua dos PP, um código mais simples (chamado jeringonza em espanhol), em que se pospõe a cada sílaba uma outra sílaba igual, mas começada por P. Batata, por exemplo, fica /bapatápátapa/.

O javanais, também francês, é um esquema simples como a língua dos PP, mas dá formas complicadas: acrescenta-se /av/ entre uma consoante ou grupo de consoantes em princípio de sílaba e a vogal que se lhes segue. Por exemplo, patate, «batata», fica /pavatavatave/.

Para terem uma ideia de como soa, deixo-vos uma cantiga com letra de Boris Vian e música do grande Alain Goraguer. A canção tem partes em javanais e partes em francês não encriptado, digamos assim, mas o francês nem sempre é aquele que se aprende na escola, de maneira que mesmo o que não é em javanais é capaz de não ser fácil de perceber para quem não domine bem o calão francês. Com tantos dicionários de calão francês que há em linha, porém (nesta plataforma, pode pesquisar-se em vários deles), rapidamente esclarecerão as dúvidas que possam ter.

Louis Massis, « La Java Javanaise » (B. Vian/A. Goraguer), 1957

(Parlé)

Salut les mecs

Alors, c’est d’accord?

Pour que les caves ils n’entravent que dalle

On jaspine le javanais


Traînons ce soir 

Travaînavons çave soivar

Cherchons un cave rempli de pognon

Ravemplavi d’pavognavon

Pour y jouer la java javanaise

Sur le pont de Charenton

Voilà un mec

Voivalava avun mavec

Fais-y les poches

Vas-y Jimmy

Vava-z-avy Djavimavy

Aussi sec on se barre à l’anglaise

Dans la rue de paradis


Tous les chemins mènent à Rome

Mêm’ si c’est d’Rom’ qu’on est partis

Mais les javas mêm’ javanaises

Vous ramèn’nt tout’ à Paris

On est bourrés

Avon n’avest bavourravés

Bourrés d’billets

Comm’ des rajahs

Cavomm’ davez ravajavahs

Allons boire un coup de vichy-fraise

Loin de la plac’ de l’Opéra


Sifflons en chœur

Savifflavons zaven choaveur

Sifflons en chœur

Cette java

Çavettave javavava

Sifflavons la java javanaise

C’est à Pigalle qu’on ira

Passez le pognon

Pavassavez l’pavognavon

Passez l’oseille

Passez le fric

Pavassavez lave fravic

Faut que l’artiste se fass’ de la braise

Tout en haut d’la rue Lepic

L’accordéon

Et le saxo

Nous mett’nt le cœur en morceaux

Tiens… ma Julie

‘S’que tu fous là ?

Je te croyais chez ton papa …

Et qui c’est, ce gonze avec qui tu guinches?

On peut savoir?

Lâche ma souris

Lavâche mava savouravis

Lâch’ ma souris

Sinon j’te tue

Savinavon j’tave tavues

Adieu la javavavanaise

Jamais tu la dans’ras plus


Et ramène-toi par là, tézigue

Prends toujours ça c’est un acompte…

Vas-y, Balta, fais-le creuver

Ton soufflet

[Atualizado a 2 de julho de 2023]

18/01/23

Patrimónios mundiais


Duas fotos de cima: catedral de Gelati, perto de Kutaisi
Terceira foto: o mosteiro de Jvari, Mtskheta
Quarta foto: uma das entradas da catedral de Svetiskhoveli, Mtskheta
Há dois lugares que são património mundial da UNESCO que eu creio que visitei, mas não tenho a certeza absoluta: o centro histórico de Guimarães e os templos de água de Bali. Sei que estive em Guimarães, mas não me lembro bem onde estive, e sei que vi templos com jardins de água em Bali, mas não sei se eram os que devia ter visto… Há outros desses lugares onde sei que estive, mas não me lembro de grande coisa: o parque nacional do lago Maláui (chama-se lago Niassa em Moçambique, mas vá, eu acedo a chamar-lhe lago Maláui), no Maláui; a parte velha da cidade de Québec, no Canadá; e o porto de Karlskrona, na Suécia. Sei que vi, em França, os monumentos romanos de Arles, a ponte do Gard e o centro histórico de Avignon, mas não foi com muita atenção. Estive na parte antiga de Santiago de Compostela, em Espanha, mas também já não me lembro muito bem. Conheço La Chaux-de-Fonds, na Suíça, mas confesso que não sei se lá vi o que devia ter visto. A Torre de Belém e o mosteiro de Alcobaça, só os conheço por fora, e passei em Elvas e vi as suas muralhas, mas sem grande demora. Visitei o convento e o palácio de Mafra, mas sem visitar a tapada…

Também há, porém, vários desses lugares a que fiz visitas turísticas normais: o convento de Cristo em Tomar e a Universidade de Coimbra; o palácio de Kronborg, a catedral de Roskilde e as falésias brancas de Stevn, na Dinamarca; a cidade do Cuzco e o Machu Pichu, no Peru; o Grande Zimbábuè e as cataratas de Victoria, no Zimbábuè; o centro de Salvador e a cidade de Ouro Preto, no Brasil; a Grand Place de Bruxelas, na Bélgica; a cidade fortificada de Carcassone, em França; Göreme na Capadócia e as ruínas de Éfeso, na Turquia; e a igreja de Svetiskhoveli em Mtskheta e a catedral de Gelati, na Geórgia.

Outros visitei-os muitas vezes, posso dizer que os conheço bem: os Jerónimos e a Batalha, o centro do Porto, o centro de Évora, o Mar Frísio (sobretudo a parte dinamarquesa, mas não só) e a Ilha de Moçambique. E há quatro que posso dizer que conheço muito bem: o centro histórico de Sucre e a cidade de Potosí, na Bolívia; as margens do Sena em Paris; e, sobretudo, a paisagem cultural de Sintra.

Acho que nunca fui a um sítio por ele ser património da UNESCO e, na maior parte dos casos, ao visitar um sítio desses, nem sequer sabia que ele estava assim classificado. Também nem sempre os sítios que são património mundial da UNESCO são/foram os que mais me agrada(ra)m num determinado país ou região. Mas compreendo o seu valor e compreendo que possam advir benefícios da classificação.

Enfim, de tantas coisas bonitas e interessantes que há para ver neste mundo, sejam elas património mundial da UNESCO ou não, tão poucas que vi ainda, tão poucas que hei de ver…



12/01/23

Bipolarização e democracia

 

Há uma ideia que me anda na cabeça há anos, sem eu conseguir escrutinar satisfatoriamente o seu valor de verdade nem desenvolvê-la convenientemente. Ainda assim, ei-la aqui, em rascunho, proposta só de reflexão sem conclusão nenhuma. Muito provavelmente, o tema está mais que debatido em obras que desconheço…

A ideia é que a dominação exclusiva da cena política por dois ou três partidos e/ou a alternância no poder desses dois ou três partidos durante longos períodos podem bem criar ou ser sinal de um défice democrático numa sociedade democrática — sobretudo quando há de facto uma longa tradição de bipolarização partidária.

Como a palavra défice se pode entender de várias maneiras, convém, antes de mais, explicar o que quero dizer aqui com défice democrático. Muita gente concordará que há várias formas de democracia, mas penso que é também fácil assentar em que, sob as suas diversas formas, o conceito de democracia é graduável: em cada democracia, enquanto regime, pode haver mais ou menos democracia, enquanto acesso de todos à possibilidade de definir as regras da vida em comum. É neste sentido apenas que falo de défice democrático: não ausência de democracia, mas menos democracia.

A minha ideia assenta, à partida, em duas constatações simples:

A primeira é que, como não pode haver tão poucos grupos de opinião diferentes (e verifica-se, nos países onde não há bipolarização, que efetivamente não há), cada partido num sistema bipolarizado encerra em si várias tendências muito diferentes.

Não sei até que ponto isto é um óbice à participação, já que pode ser mais difícil para um(a) cidadão/ã identificar-se com partidos muitos abrangentes, em que certas fações representam as suas ideias e outras fações têm ideias bastante diferentes das suas. Outra questão importante é a de saber se uma discussão entre várias fações internas de um partido muito grande é ou não menos transparente que uma discussão pública entre vários partidos mais pequenos e tem ou não menos possibilidade de chegar a toda sociedade. Uma terceira questão é como jogam entre si a lealdade a projetos políticos específicos, que variam entre os membros de um grande partido, e a lealdade ao próprio partido.

A segunda constatação é que, num sistema em que alternam no poder dois ou três partidos grandes, há setores de opinião minoritários que nunca têm expressão política, o que não corresponde à sua importância na sociedade, que, embora mais pequena, não é nula — ou pode estar até longe disso.

A questão é complexa e deveria, provavelmente, ser analisada em conjunto com outras questões, como, por exemplo, as tradições de estabilidade do espetro partidário versus constante surgimento e desaparecimento de partidos influentes. E, evidentemente, pode também argumentar-se, numa perspetiva oposta, que, em sistemas com muitos partidos e em que raramente ou nunca se formam maiorias absolutas*, os partidos pequenos podem ganhar um poder desproporcional à sua votação nas negociações do seu apoio a um partido ou a um grupo de partidos minoritário.


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* Dos países que conheço, os países escandinavos são exemplo de ausência de tradição de maiorias absolutas (com exceção da Noruega, que teve, ainda assim, 14 governos de maioria nos últimos cem anos). Nos outros países da Escandinávia, no mesmo período, só houve dois governos de maioria na Suécia e não houve nenhum na Dinamarca nem na Finlândia (nem na Islândia, desde a sua independência em 1944).


09/01/23

Depois da morte

 


«O filme Depois da morte (Dopo la morte/Nach dem Tod/Après la mort), da realizadora suíça Lara Tàcita, é descrito pela autora como um ensaio:

Não é tanto um ensaio filmado, que seria outra coisa, mas é um ensaio mais que uma obra de ficção. Cheguei a pensar em categorizá-lo simplesmente como documentário, mas achei que seria uma classificação algo arrogante. Acho que muita gente vê o filme como um poema visual, não no sentido mais tradicional da expressão, mas como o equivalente cinematográfico da música programática, em que se pede ao ouvinte que aceite que a obra descreve ou de alguma forma sugere, de facto, o programa, a história, a ideia, enfim, que o autor com ele se propõe tratar. Para mim, também não é isso. Mas compreendo que o vejam assim. Também já vi o filme descrito como filme de tese, mas não me parece bem. Não só me parece uma designação demasiado pomposa, como se lhe aplica mal, se compararmos Depois da morte com outros filmes que costumam ser assim designados.

Embora muitos vejam nele uma rutura com todas as formas anteriores de cinema, julgo que o filme de Lara Tàcita segue apenas as convenções narrativas habituais. Todos os romances, todas as novelas, todos os filmes são feitos de uma escolha das imagens, situações ou palavras que o autor considera relevantes para a história a ser contada, para o ambiente a ser sugerido ou para a ideia a ser veiculada. O tempo total em que «se passa» a narrativa, que pode ser de horas a séculos, mas que é, mais comummente, de meses a anos, é reduzido ao tempo em que ela é apresentada ao público — que, no cinema, normalmente é entre uma e duas horas, às vezes um pouco mais. Mesmo quando, em propostas ditas hiper-realistas, se insiste em mostrar as banalidades que são por tradição omitidas noutras histórias (fazer comida, passar a ferro, lavar os pés…), essa redução narrativa não deixa nunca de existir. E é isso que Lara Tàcita faz também aqui neste filme: durante três horas e 16 minutos apresenta-nos uma seleção dos acontecimentos por que passa o protagonista (que nunca é nomeado, nem nunca se vê no filme) depois da sua morte.»

Leo Fredholm, Gazeta d’Aosta, 18.12.22


O trailer de Depois da morte dá-nos uma ideia muito clara do que podemos esperar do filme: depois dos segundos iniciais (em que, pelos olhos do moribundo protagonista, vemos a única personagem do filme além dele) desfilam em rápida sequência, durante um pouco mais de dois minutos, alguns breves excertos das principais cenas do filme — alguma das principais experiências do protagonista depois da sua morte.




07/12/22

Da pouca fiabilidade da memória e mais

Diz a canção de Caetano Veloso (há canções ricas em filosofia, mas só poucas) que a plenitude e a morte coincidem forçosamente um dia*. Jorge Luis Borges escreveu em 1985 que, «no instante que antecede a morte», a sorte nos libertará «do triste hábito de ser alguém e do peso do universo»**. Escrevi em jovem (onde terei posto isso?) que era bem possível que o nirvana budista não fosse, afinal, senão a morte***: quando se paga com a morte o pecado de ser um, voltamos a ser apenas parte de tudo e atingimos, assim, a perfeição.

É uma ideia que me persegue desde rapaz. Uma maneira de dar à morte algum sentido positivo, será?, de embelezar o maior de todos os pesadelos… É tentador pensar que sou autor de uma ideia igual (?) à de poetas que admiro, mas é bem provável, como me hei de lembrar?, que estivesse apenas a repetir o que deles — ou de outra(s) pessoa(s) — tivesse lido ou ouvido...

*  *  *

Sobre a canção:

Ignorante que sou das coisas da música popular brasileira, sempre pensei que o «Nº 2» de “Janelas Abertas Nº 2” indicasse a versão da canção (muitas vezes, as obras passam por várias versões que os autores numeram), mas descobri agora que não é assim: remete antes para “Janelas Abertas”, uma canção de Antônio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes gravada em 1958 por Elizete Cardoso e em 1959 por Sílvia Telles. Caetano Veloso «cita» o início da canção («Sim / Eu poderia…» ) e o início da última estrofe («Mas / Quero as janelas abrir…») dessa “Janelas Abertas” «Nº 1». Também se pode estabelecer uma relação entre «Eu poderia morrer / E me serenizar» da letra de Vinicius de Moraes e «Até que a plenitude e morte e coincidissem um dia» da letra de Caetano Veloso.

A versão original de “Janelas abertas No. 2” é esta, do álbum A tua presença, de Maria Bethânia (ou Maria Bethânia Viana Telles Veloso, como vem na capa do disco), 1971

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* “Janelas Abertas Nº 2”: «Sim, eu poderia abrir as portas que dão pra dentro / Percorrer correndo, corredores em silêncio / Perder as paredes aparentes do edifício / Penetrar no labirinto / Um labirinto de labirintos dentro do apartamento / Sim, eu poderia procurar por dentro a casa / Cruzar uma por uma as sete portas, sete moradas / Na sala receber o beijo frio em minha boca / Beijo de uma deusa morta / Deus morto, fêmea de língua gelada, língua gelada como nada / Sim, eu poderia em cada quarto rever a mobília / Em cada um matar um membro da família / Até que a plenitude e a morte coincidissem um dia / O que aconteceria de qualquer jeito / Mas eu prefiro abrir as janelas / Pra que entrem todos os insetos»

** “Tríada”, in Los conjurados, Alianza Editorial, 1985: «El alivio que habrá sentido César en la mañana de Farsalia, al pensar: Hoy es la batalla. / El alivio que habrá sentido Carlos Primero al ver el alba en el cristal y pensar: Hoy es el día del patíbulo, del coraje y del hacha. / El alivio que tú y yo sentiremos en el instante que precede a la muerte, cuando la suerte nos desate de la triste costumbre de ser alguien y del peso del universo.»

*** Se analisarmos a palavra nirvana, ela significa originalmente «apagamento, extinção», do sânscrito ni-, nir-, prefixo de cessação, + va- «soprar». A raiz pré-indo-europeia de va- é *we-, «soprar», que chega ao português na palavra vento.



Sopa de couve e salsicha

 

Aqui está um prato (ou a sua ideia de base, seja, que eu introduzo sempre as minhas variações...) que creio que se encontra desde a Alsácia ao sul da Jutlândia. As salsichas que são o seu ingrediente principal, pelo menos, existem em toda essa região. Mas enfim, assentemos que é alemão, pronto, para lhe dar uma nacionalidade. É uma sopa muito boa e muito, muito fácil de fazer. Se não encontrarem a salsicha que eu uso (kohlwurst), usem uma qualquer que aguente meia horinha de cozedura sem se desfazer. Se calhar, também dá com chouriço, é questão de experimentar...

Pica-se cebola, põe-se a refogar com azeite, junta-se as salsichas cortadas às rodelas e deixa-se refogar mais um bocado. Junta-se cenoura aos bocados e batata aos cubos pequenos e deixa-se ficar ali a estufar. Cuidado, que a batata pega com facilidade, é preciso ir mexendo sempre. Quando a batata estiver meio cozida, deita-se repolho aos bocados e continua a estufar-se e a mexer. Em estando tudo cozido, salpica-se com farinha, mexe-se bem, e cobre-se com leite. Fresco, leite sempre fresco, nada de UHT, que isso não presta. Depois deixa-se ficar tudo a ferver um bocado e come-se! 

Variações: Pode usar-se nata em vez de leite, mas, nesse caso, ponho também uma parte de água, porque senão é muito gordo para o meu gosto. Também se pode usar outras verduras, consoante o que se tenha à mão, ou acrescentar outras. Alho francês fica sempre bem. Couve lombarda em vez de repolho também. E o mais que vos passe pela cabeça. Também se pode pôr queijo ralado na sopa, ao servir. Eu acho que fica bem um queijo tipo emmental ou gruyère, mas talvez vocês tenham outros gostos. 

Outra sopa muito boa, parecida com esta mas sem as salsichas, é a sopa de chalet suíça, que eu aprendi com um patrão que tive, que era mesmo de Gruyère. Mas eles não engrossam a sopa com farinha. Às vezes, põem é cotovelinhos para fazer o entulho. Agora, nessa é obrigatório o queijo ralado ou picado (gruyère, de preferência) no prato em que se serve a sopa.

[As fotografias são antigas. Esqueci-me, pelos vistos, de tirar uma foto da sopa depois de pronta, de maneira que tive de ir arranjar na Internet uma que me pareceu dar uma boa ideia de como fica a minha sopa...]

Conforto térmico

 

Juha Uitto: Snow heels, 13.2.14 Creative Commons, daqui

Verão é uma palavra quente e inverno uma palavra fria. Pode parecer uma efusão lírica moderna, daquelas em que se dá uma materialidade inflada à palavra «palavra»; mas não é, é apenas uma constatação simples: se, na frase anterior, entendermos palavra como embrulho de um conceito, parece que basta saber-se que é verão para se ter calor e saber-se que é inverno para se ter frio.

Diz-se que mau tempo não existe, só há roupa inapropriada. É certo, mas isso não significa que é só para o mau tempo que se deve ter roupa apropriada. E há muito quem se vista conforme a data e não conforme o tempo; quem, independentemente da temperatura que faça, ande de manga curta e calções no verão e durma de meias e roupão por cima do pijama no inverno.

Ora o verão é, aqui na Dinamarca, a estação em que há mais possibilidade de passar frio, porque as noites podem ser fresquinhas e estão amiúde desligados os aquecimentos; já que, no inverno, as casas têm sempre uma temperatura entre os 20 ºC e os 25 ºC. Por isso é que eu digo que o ideal para mim era poder passar o verão em Portugal e o inverno da Dinamarca. Mas acho que, aqui, são só as pessoas mais idosas que, por estes tempos, se agasalham dentro de casa. Deve ser algo atávico, digamos assim, que ficou do tempo em que o conforto térmico na Dinamarca era muito menor do que é agora e no inverno se passava tanto frio como em Portugal — ou mais…

Este ano, cheio de boas intenções (ok, e um bocadinho impressionados com os novos preços da energia…) decidimos que podíamos ter a casa só a 19 ºC. Mas era uma promessa de bêbedo, como se costuma dizer — ninguém quer passar um inverno assim.

Tomer Hanuka, capa de The New Yorker, 10.2.2014, pormenor



 




30/09/22

A bicicleta como meio de transporte


Segundo um estudo do Eurobarometer de 2014 baseado nas declarações de 27.000 pessoas*, a percentagem média de pessoas que usam a bicicleta como principal meio de transporte na Europa, num dia normal, é de 8%. Os países que mais se afastam da média da UE** são, no topo da tabela de utilizadores da bicicleta, os Países Baixos (36%), a Dinamarca (23%), a Hungria (22%), a Suécia (17%) e a Finlândia (14%) e, nos últimos lugares, Malta (0%), Chipre e Portugal (1%), a Irlanda, a Grécia e o Luxemburgo (2%).

É interessante notar que, se, no total europeu***, a taxa de utilização diária da bicicleta é a mesma para homens e mulheres, já se notam diferenças quando temos em conta a idade: os jovens entre os 15 e os 24 são os maiores utilizadores (11%) e, curiosamente, as pessoas com 55 anos ou mais usam um pouco mais a bicicleta que os outros (8% contra 7% entre os 25 e aos 54). Se considerarmos antes o nível de educação, é quem ainda está a estudar que mais utiliza a bicicleta (13%) e quem tem uma educação mais longa usa-a um pouco mais que quem tem menos anos de educação (8% de pessoas que acabaram de estudar depois dos 20, contra 7% de pessoas que acabaram a escola mais cedo). Depois dos estudantes, as categorias socioprofissionais que mais usam a bicicleta são desempregados (9%) e reformados (8%).

Tendo em conta estes últimos dados, poderá parecer óbvio que há razões económicas para a escolha da bicicleta como meio de transporte e, de facto, há 24% de ciclistas que dizem que a sua escolha é determinada pelo preço. Mas há outras razões que contam mais: como os utilizadores de outros meios de transporte, os ciclistas dizem usar a bicicleta por uma questão de conveniência/facilidade e de velocidade (o que significa, com certeza, que a bicicleta não é usada para longas deslocações). 22% dos ciclistas invocam também considerações de ordem ambiental para a sua escolha, uma percentagem muito maior que a dos utilizadores de outros meios de transporte com a mesma preocupação (4%).

Evidentemente, um estudo destes, baseado em entrevistas, não esboça sequer uma tentativa de explicação das grandes diferenças das taxas de utilização das bicicletas nos vários países da EU. A que se deverão?


Das quatro bicicletas cá de casa, só duas são usadas quotidianamente como meio de transporte

Invoca-se muitas vezes as condições do terreno para explicar o maior ou o menor uso da bicicleta. É indubitável que a poupança de esforço é um fator importante na escolha de opções de transporte (entra obviamente no conceito de «conveniência» do relatório da EU) e terrenos muito acidentados levam muito provavelmente a outras opções menos exigentes do ponto de vista físico. A dificuldade está, pelo menos para mim, em comparar as elevações a que estão sujeitos os ciclistas dos diferentes países. Se compararmos elevação média dos países da EU com o número de ciclistas quotidianos, não há dúvida de que os dois países onde mais se usa a bicicleta são os países com menor elevação média (os Países Baixos e a Dinamarca, com 30 m e 36 metros, respetivamente), mas acaba-se aí a correlação entre os dois valores. Também é, obviamente, uma correspondência demasiado simplista. Para se avaliar devidamente a influência do terreno na escolha da opção de transporte, teria de se ver a distribuição das pessoas no país e ter em conta não a elevação média, mas ver se são acidentadas as zonas onde as pessoas vivem e trabalham. Isto é um trabalho demasiado difícil para mim – por falta de tempo e de informação.

Também é fácil infirmar a correlação entre PNB per capita e percentagem de ciclistas, mas, mais uma vez, é capaz de ser relação que nem sequer se deva tentar estabelecer, porque, por si só, não nos dá uma ideia da percentagem de pessoas que, num país, optam pela bicicleta como meio de transporte por razões essencialmente económicas.

É bem capaz de haver uma forte componente cultural na utilização da bicicleta como meio de transporte. Usar mais ou menos a bicicleta não terá também a ver com a normalidade com que todos encaram a utilização do velocípede — ou até com o maior ou menor prestígio e associações de estatuto ligados ao seu uso? Talvez não, talvez seja eu a delirar. Ou talvez sim. Passo a descrever alguns aspectos da minha experiência pessoal na Dinamarca, que não é evidência de coisa nenhuma, claro, mas que talvez sejam interessantes para muitos dos meus leitores que não conhecem o país e que podem também servir de exemplo, precisamente, das tais diferenças culturais que talvez possam estar na base da maior utilização da bicicleta aqui.

Da segunda vez que vim à Dinamarca, no outono de 94, lembro-me de que, ao atravessar uma rua no centro da cidade, a amiga com quem eu ia apontou para um senhor que ia a passar de bicicleta e me disse que era um ministro. Não me lembro que ministro era, mas é provável que fosse o ministro das finanças ou o ministro da investigação, que são dois dos políticos conhecidos que, nos vários cargos oficiais que tiveram, costum(av)am ir para o trabalho de bicicleta. 

Quando comecei a trabalhar no centro de línguas do Ministério dos Negócios Estrangeiros em Copenhaga, em princípios de 2002, dei-me conta de que os funcionários do ministério, das mais baixas às mais altas funções, iam para o trabalho de bicicleta e, quando por ali se via um carro, tinha muitas vezes matrícula CD − um diplomata de outro país que lá tinha ido a alguma reunião. E o Google maps (foto de julho deste ano) sugere-me que as coisas não devem ter mudado muito.

Não me parece que em Portugal – e em vários outros países – isto seja possível. É claro que não quero com isto defender que é o uso da bicicleta pelas elites que explica a grande diferença na quantidade de utilizadores diários entre, por exemplo, a Dinamarca e Portugal (se bem que as elites possam sempre ser importantes como modelos de conduta…). Como disse atrás, trata-se aqui de um exemplo da (culturalmente determinada) diferença de atitude relativamente ao uso da bicicleta. Ciclistas de fato e gravata ou de fato de saia e casaco são uma coisa normal na Dinamarca, como o são ciclistas com todas as outras indumentárias possíveis.

E de todas as idades. Todos os dias de manhã, quando vou para o trabalho (de bicicleta), vejo vários pais e as mães que pedalam ao lado dos seus filhos pequenos até ao infantário ou à escola primária, onde os deixam para depois seguirem – de bicicleta, mas a maior velocidade – para o seu trabalho na vila. Também isto não creio que seja comum em Portugal e em vários outros países europeus. Mas é de pequenino que se torce o pepino, não é verdade?, como diz o conhecido refrão. Quer dizer, é assim que se interioriza que a bicicleta é um meio de transporte natural e valorizado, e se aprende a utilizá-la.

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* Não consegui encontrar estudos abrangentes mais recentes, mas a situação não se deve ter alterado muito

** Nesta altura, ainda com o Reino Unido, claro.

***O documento não apresenta todos os dados discriminados por país, infelizmente.

09/09/22

Dois mares

Paul Nash: Totes Meer, 1940–1. Tate Gallery, Londres 
Quando vi pela primeira vez a pintura Totes Meer («Mar Morto») de Paul Nash, vi nela uma relação com Das Eismeer («O Mar de Gelo») de Caspar David Friedrich. E uma rápida pesquisa no Google revelou-me que, claro, muitas pessoas veem a mesma relação. Se essa relação é intencional ou não, se Nash de facto se inspirou em Friedrich ou se o «cita», isso é que não se sabe. O nome em alemão da obra de Nash poderia indicar isso, mas também se pode dever apenas ao facto de a obra representar destroços de aviões alemães... 

Caspar David Friedrich: Das Eismeer, 1823–4. Kunsthalle Hamburg








31/08/22

Puré de batata: três variações


Muitas vezes fazemos as coisas de uma certa forma sem saber ao certo porquê, só porque foi assim que aprendemos e sempre vimos fazer e escusamo-nos a experimentar alguma variação — por mais óbvia (mas só depois o percebemos) que possa ser. 

1. Eu, por exemplo, fiz sempre puré de batata com batatas cozidas em água, manteiga, sal, pimenta, noz moscada e leite ou nata. O puré de batata clássico, digamos assim. Acho que foi só quando conheci o stamppot neerlandês e o stoemp belga que me dei conta de que se podia juntar à batata outro legume qualquer — e ganhar com isso sabor e diversidade, e maior valor nutritivo. Atualmente, é raro fazer puré só de batatas. Noutras épocas do ano, junto à batata cenoura, alho francês, brócolos, o que tiver à mão; mas no verão, quando temos muitas curgetes no quintal, é a curgete o auxiliar típico do nosso puré de batata. Dá-lhe boa consistência e um sabor leve. 

Um bom puré de batata com curgete é o seguinte: cozer cerca de 400 g de curgete e 600 g de batata, escorrer bem quando bem cozidas, esmagar com um pisa-batatas, juntar manteiga, noz-moscada e pimenta preta, acertar o sal, e juntar, mexendo rapidamente, duas gemas de ovos batidas num bocadinho de leite (para não cozerem em contacto com o puré quente), e levar tudo ao lume para engrossar um bocadinho. Fica com boa consistência e bom sabor. 

2. E já que estou com a mão em ovos e puré, proponho, como segunda variação, uma coisa simples que se pode fazer para dar outro toque e outra apresentação a um puré, que é simplesmente juntar ovos batidos (muito bem batidos, para ficarem com muito ar dentro) a um puré de batata convencional e meter no forno uma meia horita a uns 200º (enfim, depende da quantidade e do recipiente, vocês verão). É uma coisa a meio caminho entre o puré e o suflê, com boa apresentação, tostadinho por cima, e, mais uma vez, boa consistência e bom sabor.

3. A terceira variação é recente aqui em casa e eu pergunto a mim próprio porque não descobri isto há mais tempo. Se se fazem refogados para dar gosto a tantos tipos de pratos, porque não usar um refogado num puré? Fica muito bom. Experimentem, por exemplo, um refogado com uma mirepoix clássica, cebola, cenoura e aipo tudo picado (não precisa de ser muito fininho), talvez acrescentada de alho francês — um refogado longo a lume brando, sem deixar nada começar a tostar. E depois deitem-lhe batatas aos bocados, acompanhadas ou não de outro legume, como na primeira sugestão. As batatas não estufam sem mais líquido, mesmo com lume muito brando e num recipiente tapado. A certa altura, terão de lhe juntar água. (Não experimentei ainda nenhuma variação com caldo de verduras ou de carne, mas também é capaz de não ser mau.) Mas pouca, de maneira a não restar líquido quando as batatas estiverem cozidas. Em caso de dúvida sobre a quantidade, pode ir-se acrescentando aos bocadinhos. E depois é esmagar com o pisa-batatas (ou com um garfo, ou com o fundo de uma caneca, tudo vale mais que passe-vite — e máquinas de cozinha nem pensar, seja lá de que tipo forem, destroem os purés) e acrescentar manteiga, sal-pimenta-moscada. É bom. 


26/08/22

Histórias de ilhas

Placa na ilha de Strynø indicando
direções e distâncias de outras ilhas. 

A Dinamarca é um país pequeno, mas tem uma linha de costa muito comprida: 8.750 km de litoral para um país de 43.000 km2 é obra! Tem também muitas ilhas: mais de 400 com nome e, segundo dados de 2013, 75 habitadas (aqui têm uma lista ordenada por número de habitantes). 

Algumas ilhas são privadas. Agora, quando pensamos em ilhas privadas, temos tendência a associá-las a gente de muito dinheiro, mas nem todas as ilhas privadas da Dinamarca pertencem a milionários que as compraram para lá passarem uns diazinhos de férias. Passo a contar-vos um bocadinho da história de Halmø, uma ilha do Arquipélago Meridional da Fiónia. Traduzo, para começar, um artigo do canal 2 da televisão dinamarquesa datado de 9 de março de 2019

«Há mais de quatro décadas que Peter e Gitte Didrichsen são proprietários da ilha de Halmø no Arquipélago Meridional da Fiónia, entre a Fiónia propriamente dita e Ærø. Mas o casal optou agora por pôr a ilha à venda. A ilha tem 43 hectares e a casa de 200 metros quadrados [a única casa da ilha] está incluída na venda.

– A minha esposa e eu temos ambos 82 anos. Tratar disto exige muito tempo, era mais fácil quando comprámos a ilha há 40/50 anos – diz Peter Didrichsen. (…) 

Os Didrichsen tinham anteriormente afirmado que (…), quando já não pudessem tratar da propriedade, prefeririam não vender a ilha e queriam antes que continuasse a ser da família. Mas (…) os quatro filhos do casal não estão muito interessados em ficar com a ilha.

– Acho que tudo tem o seu fim, mas estamos tristes por termos de nos desfazer da ilha, devo dizer. Gostámos muito de aqui viver desde o início dos anos 70 (…).»

A ilha de Halmø vista de outra ilha, Ærø. 
Foto de Erik Christiansen, 2004, daqui. Atribuição Creative Commons.
É assim a vida, já ninguém quer ser agricultor, e menos ainda numa ilha pequena. Halmø não é a única ilha que era propriedade agrícola habitada até há pouco tempo e está agora desabitada.

Quando o artigo foi publicado, a casa de Halmø estava avaliada em 3,8 milhões de coroas dinamarquesas (≈510.000 €) e o terreno em cerca de 1,2 milhões de coroas dinamarquesas ((≈161.000 €) e. Mas a agência imobiliária pedia no mínimo 15 milhões (dois milhões de euros). Os dez milhões extras deviam ser o valor de ter uma ilha só para si. Não há obrigatoriedade de residência, como há normalmente na Dinamarca para uma casa deste tamanho, de maneira que se pode usar a casa só como casa de férias. Em 2020, a ilha foi comprada por uma firma, por 9,8 milhões de coroas. Não faço ideia do que querem lá fazer ou do que lá já tenham feito, mas sei que se pode visitar a ilha – se se tiver um barco para lá chegar.  

Aqui muito perto de nós, a ilha de Siø também foi vendida há quatro anos. É uma ilha pequenina que está ligada à nossa por uma ponte que não se nota que o é, de maneira que não se dá forçosamente pela sua existência. Esteve à venda dois anos e meio e o preço foi baixando de 39 milhões de coroas (≈ 5.245.000€) para seis milhões e meio (≈870.000€). Não é muito dinheiro, sobretudo quando há várias construções em bom estado na ilha. Há casas (casarões!) aqui na aldeia que custam mais que isso.

E depois têm sido vendidas vários outras nas últimas décadas, de tamanhos e preços variáveis. A mais barata foi pelos vistos Peberholm, no fiorde de Roskilde, que foi vendida por menos de dois milhões de coroas. Também não é muito grande


Cozinha nacional mais tradicional que o habitual

Sabemos que o tempo é uma dimensão, mas custa-nos aceitá-lo. Cremos (queremos?) ter mais em comum com quem habitou o mesmo espaço noutro tempo que com quem habita outro espaço no mesmo tempo, mas é uma ilusão nossa. O passado é mesmo um país distante.

Seguem-se duas receitas do primeiro livro de culinária português, a Arte de cozinha de Domingos Rodrigues, «cozinheyro do Conde do Vimioso», publicado pela primeira vez em 1680 e que foi reeditado várias vezes até meados do séc. XIX, em Portugal e no Brasil. Há várias edições disponíveis na internet para download. Por exemplo, esta segunda edição de 1683. Estas duas receitas foram escolhidas ao acaso e atualizo a grafia. Ainda não experimentei nenhuma delas. 

Sopa de queijo, e lombo de porco ou de vaca

Um lombo de porco, ou de vaca, depois de estar quatro dias de vinho, e alhos, ponha-se a assar; e como estiver assado, e feito em talhadas delgadas, tome-se uma frigideira untada de manteiga de vaca, ponham-lhe fatias de pão e sobre elas fatias de queijo muito delgadas, e por cima destas as talhadas de lombo, deitem-lhe miolo de pão ralado, e açúcar, e desta maneira enchem a frigideira até cima; e como estiver cheia deitem-lhe por cima meia dúzia de ovos balidos, e mande-se ao forno a cozer, e como estiver corado, façam-lhe uns buracos com um garfo; deitem-lhe açúcar por cima, e mandem-na à mesa com canela pisada.

Entrida [que é uma «olha», isto é, um tipo de cozido]

Cozam em uma panela duas galinhas, duas galinholas, duas perdizes, um coelho, e dois arráteis de entrecosto de porco com água, (como carneiro) tempere-se com vinagre e todos os adubos; como estiver cozida, tire-se o caldo, e migando-se nele três ou quatro bolos de açúcar e manteiga, ponha-se a cozer; como estiver grosso, acabe-se de cozer com oito ovos, e sumo de quatro limões; depois de bem enxuto deite-se no prato e canela por cima e pondo-se a carne sobre esta entriga, mande-se à mesa. [Ficamos sem saber se é entrida ou entriga…]

Que tal?


Gadespejl

Este curioso objeto chama-se na Dinamarca «espelho de rua», «espelho-espião» ou «espelho-coscuvilheiro». 

Só vi espelhos destes aqui na Dinamarca, mas a Wikipédia tem páginas sobre eles em neerlandês, sueco e finlandês, pelo que os há com certeza noutros lados. 

A fotografia, tirada em Gudhjem, na ilha de Bornholm, não é muito boa, mas espero que se perceba que se trata de dois espelhos que formam entre si um  ângulo obtuso e que, montados do lado de fora da janela, permitem que, de dentro de casa, se veja o que se passa na rua, à esquerda e à direita, sem ter de abrir a janela para espreitar lá para fora. 


14/08/22

De escatologia e outras convergências

[Orientação para leitura do texto: i) quando não é referida uma língua específica, o étimo é latino; ii) os mm finais do acusativo latino já não se pronunciavam em latim tardio e a sua ausência é assinalada com um -; iii) as formas assinaladas com *são formas reconstruídas pelos etimologistas não atestadas em textos escritos.]

Chamam-se palavras convergentes as palavras que, numa determinada fase de uma língua, têm a mesma forma, embora tenham origens diferentes. Em princípio, quando digo «têm a mesma forma», quero dizer «têm a mesma forma linguística», isto é, são constituídas pelos mesmos sons; mas haverá decerto quem conte como convergentes apenas palavras homónimas, ou seja que se dizem e se escrevem da mesma maneira, embora provindo de étimos diferentes[1]. Em português, os exemplos mais comuns são vão do verbo ir, vão adjetivo e vão nome, são do verbo ser, são no sentido de santo e são adjetivo, como advérbio e como do verbo comer, o nome mente e a forma verbal mente, o pronome, advérbio ou nome nada e a forma nada do verbo nadar, entre vários outros.

«Está a ver ali? O meu filho, a minha nora e os meus netos.»

[Ilustração de Gustave Doré em L'Espagne, de CH. Davillier, 1874.
Wikimedia Commons, daqui.]
Evidentemente, como se trata, em todos os casos acima referidos, de convergência entre formas de categorias diferentes, a convergência nunca causa nenhum mal-entendido. Quando muito, serve para alguma brincadeira pateta («Não disseste nada? Olha, quem nada não se afoga.»). Mais interessante, porém, é o escrutínio de formas convergentes da mesma classe gramatical, que também as há. Podem causar ambiguidades?

Temos, por exemplo: fiar, «tecer», de filare, e fiar, «ter confiança», de *fidare por fidere; junco, a planta, de juncu-  e junco, a embarcação, do malaio-javanês jung; manga, a parte da roupa, de manica e manga, a fruta, empréstimo ao malaio; nora, «esposa do filho», da forma vulgar *nora, do clássico nurus, e nora, engenho de puxar água, do árabe نَاعُورَة‎, nāʿūra; renda, 'rendimento; quantia recebida», deverbal de render e renda, «malha de fios ornamental», cujo étimo é obscuro; velar, «passar a noite, ou boa parte dela, acordado; estar alerta, vigiar», de vigilare e velar, «cobrir com véu», de velare;

Um caso curioso é cabo. Quando designa o posto militar ou significa «término, fim, limite», vem de caput, «cabeça, topo», e quando significa «extremidade pela qual se segura um objeto ou instrumento, corda grossa, feixe de fios», vem de capulu-. Ao contrário do que se poderia talvez supor, capulu-  não é imediatamente um diminutivo de caput, mas provém antes de capere, «segurar» – embora, em última instância, caput também provenha, provavelmente, da mesma raiz proto-indo-europeia...

«Aquela senhora vive de rendas.»

Caspar Netscher: A rendeira, 1662. Wallace Collection, Londres.
Wikimedia Commons, daqui.]
Também nestes casos as ambiguidades parecem raras. Evidentemente, pode dizer-se «Ali está o meu filho e a minha nora» referindo com esta última palavra não a mulher ao lado do rapaz, que não é sua mulher, mas antes antes a roda com alcatruzes que se encontra atrás dele. E pode cobrir-se uma morta ou um morto com um véu e dizer-se então que se está a velá-la/o, como se a/o vela numa vigília — seja ela ou não à luz de velas[2]. E também se pode dizer que uma pessoa vive de rendas, querendo com renda significar a malha decorativa e não os rendimentos não provenientes de trabalho – se se estiver a falar de uma rendeira!... Mas quando é que essas coisas se dizem? Nunca. E é precisamente por isso que estes termos convergentes podem existir, já que a língua tende a desfazer convergências que causem ambiguidades.

A mim, o que me faz mais confusão é a convergência de duas palavras muito diferentes em escatologia – e, por consequência, também de dois adjetivos diferentes no adjetivo escatológico. É que a escatologia tanto pode ser a «parte da teologia que trata dos fins últimos do homem e do que há de acontecer no fim do mundo» e, por extensão, «qualquer área do pensamento que trate do fim último da humanidade, do mundo ou da história» (do grego ἔσχατος, éskhatos, com o kh pronunciado como um jota espanhol), «último, mais distante» ou «estudo ou tratado acerca de excrementos; coprologia» e, por isso, também «alusão aos temas das fezes, da imundície, da obscenidade» (do grego σκατός, skatós, genitivo de σκῶρ, skór, «excremento»). Evidentemente, o contexto acaba por esclarecer de que escatologia se está a falar. Mas, numa referência breve a uma obra ou a um(a) autor/a que não se conhece, pode às vezes ficar-se na dúvida... Bom, também não é palavra que toda gente use todos os dias...




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[1] Veja-se o caso de ótico, que tanto pode querer dizer «relativo à visão» (de ὀπτῐκός, optikós) como «relativo aos ouvido» (de ὠτῐκός, ōtikós). Os termos convergiram há muito tempo, mas alguns acharão que só agora há verdadeira convergência, depois de o antigo óptico ter perdido na grafia o p que não se pronunciava...
[2] Já agora, é a palavra vela, objeto alumiador, que vem do verbo velar, no sentido de ficar em vigília, e não ao contrário, como talvez se pudesse supor.



06/07/22

Matrículas de carros

 

Falei aqui há pouco tempo de o alfabeto latino ser o mais usado no mundo e porquê — e de como, por causa disso, muitas vezes parece que se considera o alfabeto latino mais «normal». A questão das matrículas dos carros, que referi de passagem, é, este respeito, bastante curiosa. 

A Convenção sobre Trânsito Rodoviário está em vigor desde Março de 1952. Esta convenção foi inicialmente assinada em Genebra por 20 países, em 1949, e foi posteriormente revista em Viena de Áustria em 1968 e, desde a sua primeira versão, ratificada por mais 83 países. É uma convenção claramente «latinista», se se pode dizer assim. O Anexo n.º 2, sobre «Número de matrícula dos automóveis e seus reboques em circulação internacional», diz no seu ponto 1: 
«O número de matrícula […] deve ser composto quer por numerais, quer por numerais e letras. Os numerais devem ser algarismos e as letras em caracteres latinos maiúsculos. Podem, no entanto, ser utilizados outros numerais ou caracteres, caso em que o número de matrícula deve ser repetido em algarismos e caracteres latinos maiúsculos.» 
Compreende-se que haja necessidade de standardização e compreende-se a escolha do alfabeto mais usado. Mas deve ser estranho, no mínimo, ter de usar um alfabeto outro que não o seu — ou, em última análise, um alfabeto que não se conhece. Bom, russos e búlgaros resolvem o problema de forma airosa: usam nas matrículas apenas as 12 letras do alfabeto cirílico que têm a mesma forma que letras do alfabeto latino, embora não representem forçosamente sons semelhantes: А, В, Е, К, М, Н, О, Р, С, Т, У e Х*.
Uma matrícula da Arábia Saudita, com caracteres árabes e latinos.
Como os caracteres correspondentes se sucedem na mesma ordem,
mas a escrita árabe se lê da direita para a esquerda, presumo que,
quando se diz a matrícula em árabe, se diga JNT em vez de TNJ…
(Imagem: Wikimedia Commons, 
daqui)
Agora, em muitos países em que não se usa o alfabeto latino, as matrículas têm apenas caracteres latinos e não os caracteres locais mais a sua transcrição em caracteres latinos, como a convenção permite. Na Geórgia, por exemplo, nunca há caracteres georgianos. Agora, o que é que isto implica para um georgiano que não tenha aprendidos línguas estrangeiras — ou que, quando muito, só tenha aprendido russo, como é o caso de muitos deles? A questão não é só ser obrigado a usar caracteres estrangeiros**, é também ter de usar caracteres desconhecidos. Não sei como resolvem este problema. Se calhar, quando compram um carro, decoram as letras da matrícula e a que sons elas correspondem. Mas imaginem uma conversa***
− რა არის თქვენი მანქანის სარეგისტრაციო ნომერი? (Qual é a matrícula do seu carro?) 
− ეე ოთხას სამოცდასამი ვვ (É, é, quatrocentos e setenta e três, vê, vê.) 
− და ამას როგორ წერ (E como é que isso se escreve?) 
E como farão para escrever no computador as matrículas, se não usam o nosso teclado? Têm de mudar de teclado (não o físico, entenda-se) e decorar no seu teclado que letras correspondem às do alfabeto latino que entram na matrícula do carro? Por exemplo, que EE-473-VV corresponde a ეე-473- ვვ… Deve ser assim. Ou haverá tendência para se usar cada vez mais teclados «internacionais» georgianos e latinos? Devia ter perguntado isto quando lá estive e não perguntei. Fica para a próxima vez. Ou talvez algum dos meus leitores me saiba responder. 

_______________
* Muitas destas letras representam sons diferentes nas várias línguas escritas com alfabeto latino, mas H nunca representa [n], nem P representa [r], nem Y representa [u], como acontece quando usadas num alfabeto cirílico.
** O que também é uma questão interessante, em termos identitários: como reagiríamos nós se tivéssemos de usar matrículas com caracteres não latinos?
**A tradução para georgiano foi feita com Google translator e pode estar incorreta, mas isso é irrelevante para o que aqui está em discussão.

05/07/22

Funeral em vida

Uma amiga contou-me que o seu pai e os amigos dele organizaram funerais em vida. É uma grande ideia. Por muito que o funeral seja um dos dias mais importantes da vida de uma pessoa, é celebração a que essa pessoa não assiste — não tem possibilidade de se comover com os elogios fúnebres que os amigos lhe fazem, nem de se rir com as muitas histórias engraçadas que dela recordam nessa ocasião. 

Estou a pensar em organizar o meu funeral em vida um dia destes. Depois, se alguns dos meus convidados acharem por bem dar continuidade à minha iniciativa organizando os seus próprios funerais em vida, teremos finalmente possibilidade de retribuir uns aos outros a presença no nosso funeral — uma coisa que, sem estes funerais em vida, é muito difícil de fazer...

21/06/22

Nota de viagem

«24 de maio: Da varanda da casa onde ficámos, em Zadar, o que se vê podia ser Portugal: as vivendas e os quintais, com nespereiras, figueiras, oliveiras e cerejeiras. Só o que parece muito mais Dinamarca que Portugal é a rapariga de bicicleta, certamente a caminho da escola, de mochila às costas e sem mãos no guiador, comendo o pequeno-almoço enquanto pedala.»







Dois artigos de jornal

Dois artigos curiosos de jornais dinamarqueses:

O primeiro é do Semanário de Svendborg (UgeAvisen Svendborg), um dos jornais locais que recebemos gratuitamente. É um artigo de setembro do ano passado e conta a história de Ebba Hackmann, uma senhora que, quando o artigo foi publicado, fazia trabalho administrativo na firma Elektro Svendborg – desde 1959! Digo fazia, porque não sei se a senhora continua a trabalhar. Ebba tinha nessa altura 91 anos e continuava a trabalhar a tempo inteiro. A firma é agora da filha, mas já foi dela e do marido. O marido tinha morrido três anos antes, com 91 anos, e também trabalhou sempre na firma até morrer. Quando a filha ficou a ser proprietária da firma, em 2007, Axel Hackmann, então com 80 anos, passou de diretor a paquete e foi como paquete que continuou a trabalhar até ao fim da vida. 

O segundo artigo é muito mais antigo. Na página em que o encontrei, não dizia, infelizmente, em que jornal tinha sido publicado. Podia bem ser um conto romântico, ou parte dele, mas é apenas uma notícia de jornal, de 15 de fevereiro de 1915. 

«Uma senhora idosa, pobre mas bem vestida, entrou no “Prestamista Barato”, em Overgaden Neden Vandet Nº 29, em Copenhague, para empenhar a sua aliança de casamento. Olhando para a senhora, era fácil perceber que não tinha sido fácil para ela dirigir-se ao prestamista com a última recordação de momentos felizes. Estava muito abatida, mal conseguia falar e, no momento em que pôs o anel no balcão, caiu inconsciente no chão. O gerente da casa de penhores ligou imediatamente para a polícia e, pouco depois, chegou ao local uma ambulância, que transportou a senhora ao hospital municipal. Lá chegada, porém, os médicos verificaram imediatamente que havia já falecido. A senhora tinha sofrido um ataque cardíaco. E toda a assistência que se lhe pudesse prestar era já em vão.»

Pronto, era só isto. 

16/06/22

Há línguas em que é mais fácil brincar com as palavras?

[!!! Este texto pode ser muito difícil de entender para pessoas que não dominem muito bem a língua francesa. Dada a natureza dos textos franceses referidos e citados, é perfeitamente vã a tentativa de os traduzir.]

Já aqui fiz no blogue alguns comentários à tão popularizada ideia de que a língua determina a nossa perceção do mundo e à alegre falta de rigor com que muitas vezes se faz o escrutínio desta ideia. E hoje venho, vejam lá, sugerir que talvez a língua possa de facto interferir na nossa relação com o mundo. Mais concretamente, venho sugerir que bem pode haver línguas em que é mais fácil que noutras «brincar» com a própria língua: fazer humor e literariedade. E, mais concretamente ainda, sugiro que é provável que em francês seja mais fácil fazer trocadilhos e rimar [pelo menos, no sentido em que entendemos rima hoje em dia na nossa cultura] que nas outras línguas que conheço. E isto porque
  • o francês é uma língua de acento fixo, o que torna as coisas muito mais fáceis; e
  • a evolução fonética do francês foi, antes de mais, no sentido de um vocalismo muito forte, e portanto uma perda de muitos sons consonânticos, gerando assim
    • um número muito grande de palavras e sequências homófonas (fundamental para os trocadilhos) e
    • menos sons possíveis em final de palavra (fundamental para a rima).
Convém esclarecer que não estou de modo algum a apresentar a conclusão de algum estudo que tenha feito, longe disso, mas sim a propor um projeto de investigação, a mim próprio ou a quem nele queira pegar, que se baseia num observável simples: há mais formas [foneticamente] convergentes em francês que nas outras línguas que conheço.

Para dar dois exemplos muito simples [mas há muitos, muitos!], a forma /vɛ̃/ pode provir de vários étimos diferentes: de vinum [vin], de vi[gi]nti [vingt], de vanus[vain], de vēnī [vins], de vēnistī [vins] e de vēnit [vint]), da mesma forma que /po/ pode derivar de pellis ou de potus e /depo/ tanto pode corresponder a des pots como a des peaux como a dépôt.

É certo que, se que esta convergência de formas se deu, é porque não causa ambiguidades, senão ela não podia existir. Mas, existindo no discurso comum sem causar ambiguidades, está disponível para ativamente se construírem, a partir dela, trocadilhos e jogos de palavras ou com as palavras. Não deve ser por acaso que são em francês os exemplos mais famosos de holorrimas, isto é, rimas em que não rima só o fim do verso, mas sim o verso inteiro. Creio que a holorrima mais famosa é de Marc Monnier, nos célebres versos
Gall, amant de la Reine, alla, tour magnanime ! ,
Galamment de l'Arène à la Tour Magne, à Nîmes.
que se pronunciam exatamente da mesma maneira. Outros exemplos são
Par les bois du Djinn, où s'entasse de l'effroi,
Parle et bois du gin !… ou cent tasses de lait froid.
de Alphonse Allais, ou
Dans ces bois automnaux, graves et romantiques,
Danse et bois aux tonneaux, graves et rhums antiques
de Jacques Prévert. Mas há muitas mais. Vejam por exemplo, aqui, aqui ou aqui.

Transcrevo abaixo a letra da canção « Saucisson de Cheval », de Boby Lapointe, um exemplo radical do que é brincar com as palavras em francês — como aliás todas as canções de Boby Lapointe, o maior mestre dos jogos de palavras, que aconselho a explorar, se não conhecerem.

Um jogo de palavras assenta sempre numa relação entre um segmento sonoro pronunciado e um outro evocado na mente do ouvinte. Pode haver semelhança fonética ou total homofonia dos dois segmentos que constituem o trocadilho, com ou sem coincidência sintática. Por vezes o segmento não dito pode ser uma expressão fixa, o que facilita a sua evocação na mente do ouvinte; e por vezes a evocação do segmento pode também ser facilitada pela introdução prévia de um elemento no texto – ou pode mesmo haver, como no caso da canção transcrita abaixo, uma delimitação à partida de um determinado campo semântico [neste caso, o cavalo]. Como alguns jogos de palavras da canção podem não ser óbvios, mesmo para quem domine relativamente bem o francês, sublinho em cada verso a parte que deveria evocar outra coisa no ouvinte e deixo entre parênteses retos o segmento evocado. Não transcrevo os onomatopaicos refrães nem as breves passagens faladas, que, contribuindo sem dúvida para o humor e para o ambiente geral da canção, não são relevantes para o tema aqui discutido.

Se existem, em países de língua latinas ou germânicas, alguém que faça jogos de palavras como Boby Lapointe, não conheço. Mas será mesmo possível fazer canções como « Saucisson de cheval » noutras línguas? A pergunta não é de modo algum retórica: línguas há muitas e eu conheço muito poucas. Digam-me, pois: que sabem e opinam sobre o assunto? 
« Saucisson de cheval », 1966

C'est un saucisson de cheval, un saucisson que... (de cheval) [queue]
que je viens de faire, (à cheval) [fer]
c'est une chanson de saillies
Ah, chanson de saillies, (de cheval) [saillie]
moi qui suis esthète, (de cheval) [tête]
ah, je trouve ça beau (de cheval) [sabot]
génial, admirable, (de lapin) [râble]

Moi, qui viens de Grèce, (de cheval) [graisse]
je m'appelle au reste (de cheval) [Oreste] 
Tapaboufélos. (de cheval) [t’as pas bouffé l’os]
je débarque à Paris (de veau) [ris],
Oh, oh, quel régal, oh, (de cheval) [galop]
de prendre le métro. (de cheval) [trot]
Quand on ne connaît pas, (de cheval) [pas]
oh, ce qu'on s'amuse, oh ! (de bœuf) [museau]

Mes enfants, ma foi, [foie] (de cheval) [foie]
sont de vilains grognons. (de cheval) [rognons]
Quand ils pleurent en chœur, (de cheval) [cœur]
j'essaie de les distraire (les vaches) [traire]
Je viens à bout d'un, (de cheval) [boudin]
mais les autres aussi sont (de cheval) [saucisson]
toujours dans le besoin, (de cheval) [soin (?)]
ça ne peut pas être pis. (de chèvre) [pis]

Quel est cet aztèque (de cheval) [steak]
qu'on vient de voir filer (de cheval) [filet]
du haut de la côte (de cheval) [côte]
dans le précipice, en moto ?
Peut-être bien est-ce Thomas (de cheval) [estomac]
qui vient de me vendre (de cheval) [ventre]
un complet à carreaux (de cheval) [garrot]
et un gilet pied de poule.

Je désirais m'assoir (de cheval) [mâchoire]
et tu m'amenas au (de cheval) [naseaux]
canapé en rotin (de cheval) [crottin]
et mon cœur, vous fumiez mes cigares. [fumier]
N'étais-je pas l'affreux niais, (de cheval) [palefrenier]
qui fourbu s'affaisse (de cheval)? [fesse]
Ça fait rire les groupes (de cheval) [croupe]
ah, comme l'écurie est gaie ! [les culs rient] (aqui, inverte-se a lógica: o segmento relacionado com cavalo é o dito e não o evocado)



P. S.: Boby Lapointe desenvolveu o tema dos trocadilhos equestres, se se pode dizer assim, numa segunda canção com o mesmo fundo musical, « Saucisson de Cheval nº 2 ». O segundo salsichão de cavalo não é em nada inferior ao primeiro, mas não quero abusar da paciência dos meus leitores, pelo que não o transcrevo. A letra é fácil de encontrar na Internet.