12 de fevereiro de 2021

As músicas e as nações

Com o aumento das quotas obrigatórias de música portuguesa na rádio, ressurgiu há pouco tempo a discussão dessas quotas. Não é isto, porém, que motiva este meu texto, cujo esboço foi iniciado, aliás, há quase cinco anos (!). Quero deixar claro que não tenho nada contra medidas de apoio aos músicos portugueses, e muito menos no atual contexto de pandemia. O que discuto neste texto, porém, tem um âmbito bem mais vasto que a questão das quotas de rádio. 

Tive várias vezes longas discussões com amigos meus que me diziam que era preciso «defender a música portuguesa». Esta ideia da «defesa da música portuguesa» – às vezes também chamada «a nossa música» – é suficientemente antiga para eu sempre a ter conhecido e é uma ideia que tem a força de ser comum a vários setores ideológicos e musicais. Mas é uma ideia que sempre me pareceu pouco clara ou, por vezes, bastante ilógica, assumindo pressupostos que, para mim, não são de modo algum evidentes. 

Uma interrogação que nos surge imediatamente quando começamos a refletir sobre este tema é porquê defender uma música e que música se deve defender? Satisfaz-me a resposta que cabe ao Estado defender os interesses dos seus cidadãos e que, por isso, o Estado deve defender a música feita por esses cidadãos — embora, como argumentarei mais à frente, nem sempre disso resulte a defesa de uma música que todos considerem portuguesa. Mas, aceitando essa primeira premissa, deve então defender-se toda a música de cidadãos portugueses da mesma maneira? A resposta depende, em grande medida, da ideia política de cada um, do papel que cada um atribui ao Estado na nivelação das assimetrias existentes. A resposta que me surge imediatamente é que se deve defender mais a música que mais precisa de ser defendida: a música de qualidade que não pode defender-se a si própria, porque, pelas suas características, não pode ser nunca suficientemente vendável para que dela alguém possa viver. É esse o critério que, nalguns países, leva à atribuição de subsídios a artistas — músicos, poetas ou outros — que trabalham em géneros artísticos não comerciais que se pretende preservar, porque se considera que, embora marginais, são uma parte importante da produção artística de um país. Evidentemente, estas decisões são também difíceis e às vezes polémicas — porque o grande público vê com maus olhos gastarem-se os dinheiros públicos em coisas de que o grande público não gosta nada; e porque é muito difícil arranjar critérios fiáveis e abrangentes para aferir a qualidade. Mas não é normalmente destas músicas que se fala quando se afirma que é preciso defender a música nacional… 

De que se fala então quando se fala de música portuguesa? Como dizia acima, a única definição que me parece aceitável é «música composta por indivíduos de nacionalidade portuguesa[1]». Há outras definições, assentes, por exemplo, não no autor mas sim na própria música, mas não vejo bem como se possa medir a portugalidade de uma música. 

Só não digo que os nomes maiores da música portuguesa promoveram música essencialmente estrangeira, porque não acredito que haja alguma música essencialmente nacional. Carlos Seixas é, dizem os entendidos, um compositor bastante à italiana; Bomtempo tinha em Haydn a sua principal influência e muitos críticos referem que Joly Braga Santos remete para Respighi e Vaughan Williams. Por exemplo… E podia, sem arriscar muito a que me acusassem de delírio, apontar o «estrangeirismo» de outros nomes maiores da música portuguesa. 

Se passarmos da música dita erudita à chamada música popular, a sua portugalidade não é mais fácil de definir. A canção dita ligeira têm óbvias influências estrangeiras. Que haverá de mais popular português que a música pimba que anima de norte a sul o povo português, em bailaricos de verão, patuscadas familiares e jornadas de trabalho? Ora, como outros estilos de canção ligeira anteriores a ele, o pimba e seus congéneres de grande público fizeram adaptações «portuguesas» de música estrangeira — a chamada música schlager internacional[2]. A canção dita «de texto» ou «de autor» tem também influências directas da canção de outros países, talvez sobretudo da canção francesa, como, aliás, os seus autores muitas vezes admitem. O pop-rock português, esse, é frequentemente criticado por ter como modelo a «música anglo-saxónica» (mais uma expressão muito difícil de definir com rigor). Há até dois esquemas clássicos de fado que se chamam o bolero do Machado e o bolero do Zé Inácio… Todos os géneros musicais têm, enfim, muitos modelos estrangeiros e isso é apenas natural: por que razão haveria um músico de recusar absorver o que é feito além-fronteiras? 

É claro que Luís de Freitas Branco tem as Suites Alentejanas Nº 1 e Nº 2, Braga Santos as Variações sobre um tema alentejano, que a música «tradicional rural» influencia também desde a canção ligeira até à canção de intervenção, que o fado de Coimbra é uma das principais influências dalguns dos primeiros e mais influentes cantautores, etc. Mas também a música «tradicional», rural ou urbana (um adjetivo como tradicional cobre coisas muitos diferentes, muitas delas bastante recentes, por tal sinal) é, como todas as outras músicas, o produto de músicas que vêm um pouco de toda a parte, desde a música de origem persa do Califado de Córdoba, provavelmente, até à música litúrgica ou às canções e músicas de dança que, mesmo antes de haver discos, circulavam já com relativa facilidade, por toda a Europa e não só. Toda a música dita tradicional é, pelo menos em parte, fusão de músicas diversas, das melodias às letras e às sonoridades, e vai-se sempre alterando num processo  dinâmico. 

E depois, músicas nacionais são também as músicas nacionalizadas, ou não? Para as pessoas da minha idade e da minha região, a música do canadiano Robert Farnon que abriu durante anos as emissões da RTP é uma música portuguesa, porque é a música da televisão portuguesa; e a música tradicional do Carnaval português... é o samba. 

Músicas puras, enfim, que reflitam de forma inequívoca e trans-histórica a «alma de um povo», desculpem, mas não sei quais sejam, porque essa ideia romântica não corresponde a nada de efetivamente observável. Mas, mesmo sem sabermos bem o que é música portuguesa, podemos voltar ao início da discussão para a concluir com uma constatação simples: se cabe ao Estado proteger os seus cidadãos e, por conseguinte, a música destes cidadãos, são todos os músicos portugueses vivos que o Estado deve proteger, antes de mais — componham ou não «música portuguesa» e em português, e — muito importante — toquem e cantem ou não música portuguesa e em português. Não se garantiria, ainda assim, a resolução do problema atrás referido (apoiar e proteger os que mais precisam de apoio e proteção, por serem menos comerciais), mas já se teria uma definição mais sensata de quem defender: não uma entidade bastante vaga chamada música portuguesa, mas os músicos de nacionalidade portuguesa, mesmo que componham música klezmer ou interpretem Motörhead ou Stravinski.

***

Das peças abaixo, quais refletem o património cultural português e as sonoridades e ambientes tradicionais portugueses? Quais se podem considerar música portuguesa? 

Simone de Oliveira, “Amor à portuguesa”, 1959  

Uma canção composta pelo espanhol Enrique Confiner em 1953. Além do original castelhano, tinham já sido gravadas versões em inglês, francês, alemão e italiano antes da versão portuguesa de Simone Oliveira. 

Iris Rautio:  “Benfica”, 1963  

Não sei nada desta canção finlandesa, mas não há dúvida de que fala de Portugal. Se fala de Benfica ou do Benfica, isso não sei, mas, como Iris Rautio era uma cantora pop conhecida, há de ter contribuído para divulgar Portugal na Finlândia, numa altura em que não havia provavelmente muitos finlandeses que viessem de férias a Portugal. 

Conjunto de João Paulo:  “Hully Gully do Montanhês”, 1965  

Não se trata de uma versão. É uma composição de Sérgio Borges e Carlos Alberto Gomes. Hully Gully não é uma expressão portuguesa, mas acho que se pode dizer que a letra é em português... 

Joly Braga Santos: Sinfonia Nº 6, 1972  

Não se trata de uma obra em português, embora tenha um texto de Camões — mas em castelhano… 

Constança Capdeville: Momento I, 1974  

Música bem portuguesa, esta, na autoria e na interpretação (do Grupo de Música Contemporânea de Lisboa, dirigido por Jorge Peixinho) 

Enza Pagliara:  “Pizzicarella”, 2002  

O folclore salentino tem, como outros tipos de folclore europeu, sonoridades semelhantes às de algum folclore português. Contribui para essa semelhança o uso do acordeão, um instrumento inventado na Alemanha há cerca de 200 anos, com base no sheng asiático, trazido para a Europa nos fins do séc. XVIII, que inspirou a criação de vários aerofones de palheta livre. 

César Viana: Land der Brüderlichkeit, 2020  

Land der Brüderlichkeit significa «terra da fraternidade». Trata-se de um «prelúdio coral», que, em vez de se basear num hino luterano, se baseia em “Grândola, vila morena” de José Afonso.



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[1] É claro, uma pessoa pode perguntar-se se a música de Thilo Krasmann era portuguesa antes de este músico ter obtido a cidadania portuguesa, mas deixemos agora essas picuinhices… 

[2] A música que em Portugal se chama pimba e os seus parentes próximos designam-se em várias línguas pela palavra alemã Schlager. Para dar apenas dois exemplos simples de schlager em português, o “Vinho verde” que é do meu Portugal e que faz seguramente parte da música portuguesa que alguns querem defender, é uma versão de uma canção alemã de Michael Kunze e Udo Jürgens, “Griechischer Wein”, de que há também versões pelo menos em croata, finlandês, neerlandês e polaco – e que alguns croatas, finlandeses, neerlandeses e polacos considerarão provavelmente, música sua; e os dois amores de Marco Paulo são uma versão de um tema do músico grego Giorgios Hatzinassisos... 


5 de fevereiro de 2021

Pensar p'la sua cabeça

(Soneto inglês em redondilha maior, se é que tal coisa existe)

Pensar p’la sua cabeça,
para mim, só vale mais
quando esse pensar pareça
melhor que os pensares demais.
Em não julgando pensar
melhor que outros, porém,
o melhor ‘inda é tomar
por nosso o pensar de quem
julgamos pensar melhor
do que a nossa cabeça,
e deitar fora o amor-
-próprio, que nada interessa
— conta se se pensa bem,
não p’la cabeça de quem...


19 de janeiro de 2021

A beleza e a verdade


Na sua página do Facebook, lembrava Frederico Lourenço em vésperas de Natal uma conversa entre Charles Ryder e Sebastian Flyte, duas personagens do romance Brideshead Revisited, de Evelyn Waugh (traduzo eu[1]):
[Charles:] “Mas, meu caro, Sebastian, não podes mesmo acreditar nisso tudo... O Natal, quero eu dizer, e a estrela e os três e o boi e o burro.
[Sebastian:] “Acredito nisso tudo, sim. É uma ideia adorável.”
[Charles:] “Mas não se pode acreditar em coisas só porque são uma ideia adorável.”
[Sebastian:] “Mas eu acredito. É assim que eu acredito.”
No texto de Waugh, a palavra é lovely. Eu traduzi lovely por adorável. É uma tradução aceitável, mas não é sem problemas. Lovely é uma palavra mais corrente que adorável é tem um sentido mais vasto — pode dizer-se, por exemplo, de comida e de outras coisas para as quais nunca se usa a palavra adorável em português. E depois, em inglês, lovely distingue-se de adorable, que, em muitos casos, parece também traduzir-se por adorável. Em última análise, porëm, todas estas palavras têm um sentido semelhante: dizem-se de uma coisa de que se gosta. Embora com matizes de sentido que, a um certo nível de análise, não são despiciendas, palavras como adorável, maravilhoso, encantador, etc., são termos de aprovação — como bom. No seu texto, Frederico Lourenço refere a loveliness de Sebastian como beleza e, de facto, acho que bela ou bonita funciona tão bem como adorável para traduzir lovely. Lovely usa-se também para apreciações puramente —ou sobretudo — estéticas. E belo é também um termo de aprovação, como bom, mas cobrem os dois termos áreas às vezes diferentes: com bom aprova-se a funcionalidade, a moral, o gosto ou o cheiro, entre muitas coisas, ao passo que belo é o que se vê ou ouve; mas um texto, um período de tempo ou um tecido — e milhentas outras coisas — tanto podem ser belos como bons, às vezes sem grande diferença de significado entre as duas adjetivações, outras vezes com diferenças claras.

As palavras são como as cerejas, sobretudo neste blogue, e escorrem conversas de outras conversas. Mas deixemos agora esta faz-de-conta-que semântica, não é esse o propósito do texto. Como também não é de modo algum intenção minha, note-se, criticar quem acredite no Natal (independentemente do que acreditar no Natal queira dizer para essa pessoa) por achar que o Natal é uma ideia adorável. E muito menos criticar a mensagem de Natal de Frederico Lourenço, que acho bonita e cuja leitura aconselho (se n'ao o fizeram ainda, sigam o link no inïcio deste texto, o post é público). Antes quero, a propósito desta passagem da novela de Evelyn Waugh, alinhar algumas breves considerações sobre a relação da verdade com categorias como beleza, harmonia e simplicidade.

Lembro-me de ler, quando era rapaz novo, o livro Descobertas na Terras dos Maias (aliás, já aqui referido na Travessa), em que Pierre Ivanoff apresenta uma hipótese surpreendente para explicar o colapso do período clássico maia: e se, baseando-se na estrutura cíclica do seu calendário, os sacerdotes maias tivessem anunciado o fim próximo da sua civilização e, por acreditarem nas suas predições e abandonarem as cidades, as populações tivessem confirmado a veracidade das profecias tornando-as realidade? É uma grande ideia, sem dúvida — se o Sebastian Flyte de Brideshead a achasse adorável ao ponto de acreditar nela, quem lhe poderia levar isso a mal? Para mentes mais escrutinadoras, porém, que possibilidades tem esta ideia de descrever o que realmente se passou (mesmo que a também apaixonante ideia de colapso repentino da civilização não fosse, como é, muitas vezes posta em causa)?

A beleza seduz, evidentemente[2]. Há muitas histórias de ideias assim, «bem achadas» mas sem grande — ou nenhuma — possibilidade de serem verdadeiras[3]. Se escolhi esta é porque é também uma história sobre wishful thinking na sua versão mais forte: desejar tanto uma coisa que se faz com que essa coisa aconteça — algo que é muito raro na vida… Mas acreditar numa asserção porque a achamos bonita pode considerar-se, afinal, uma forma de wishful thinking, acreditar na realidade de uma coisa porque a desejamos. É certo que desejar e achar bonito não são exatamente a mesma coisa, mas normalmente deseja-se o que se valoriza…

Enfim, eis que as palavras saem mais uma vez umas pegadas às outras, como as cerejas. Voltemos ao cerne da questão: que implicações pode ter a sedução da beleza de uma ideia nas asserções sobre a sua veracidade? Ou então, mudando ligeiramente de perspetiva, onde nos pode levar o fascínio da beleza quando é a verdade que queremos saber? Talvez dependa das áreas de pesquisa. Como realista que sou, costumo afirmar que não há nada de fundamentalmente diferente numa investigação judicial ou numa investigação científica: em ambos casos se procura demonstrar o que se acredita ser a verdade com recurso a observáveis, ou seja, coisas que todos podem ver, quando elas lhes são apresentadas. Muito provavelmente, porém, poucos defenderão a importância da beleza na investigação judiciária, ao passo que há muito quem defenda uma íntima correlação entre beleza e verdade no domínio científico[4].

Sabine Hossenfelder é uma física teórica alemã e divulgadora científica. Tem um blogue e um canal de vídeo que acompanho e publicou em junho de 2018 um livro chamado Lost in Math: How Beauty Leads Physics Astray, em que defende que a sedução de beleza das grandes teoria está a travar o progresso da física teórica. Não li o livro, mas vi na Internet algumas palestras em que Hossenfelder resume as ideias que aí defende. Segundo ela, há no trabalho científico, e nomeadamente em Física teórica, uma tradição de valorizar a beleza, entendida como «simplicidade», «naturalidade» e «elegância»[5].

O matemático e físico Hermann Weyl afirmava ter sempre tentado juntar a verdade com a beleza, mas que, a ter de escolher só uma delas, escolheria a beleza[6]. O físico Paul Dirac postulava que, com a teoria da relatividade, o princípio da necessária simplicidade de todas as equações descrevendo a realidade fora substituída por outro princípio mais fundamental: a da sua necessária beleza matemática; e que, a escolher entre simplicidade e beleza, havia, pois, que escolher a última, como Einstein fizera[7]. O físico Anthony Zee, referindo também Eistein, torna explícita, de forma radical, a procura da beleza como programa científico, indo ao ponto de postular que a beleza é mais importante que a verdade[8]. Steven Weinberg, que ganhou um prémio Nobel da Física, defende também que a beleza serve como guia em ciência e justifica a afirmação dizendo que a história deu aos cientistas o sentido «estético» que lhes permite reconhecer, pela sua beleza, as boas teorias, como um criador de cavalos reconhece, pela beleza, a qualidade de um animal[9]. Murray Gell-Mann também pensa — com base na sua própria experiência, diz ele — que, perante uma teoria de uma grande beleza, um cientista pode até duvidar de experiências que a infirmem. E explica até de forma mais organizada como funciona esse sentido estético que permite reconhecer, pela sua beleza, uma teoria cientifica: a matemática usada em novas teorias é simples e bela, porque é muito semelhante à usadas nas descobertas que a precederam e motivaram, «porque já a sabemos escrever de modo conciso e sedutor»[10].

Diz Frederico Lourenço na referida mensagem de Natal que «A capacidade humana para ver e criar beleza é a grande redenção.» É sem dúvida uma capacidade humana fundamental e tempos de crise como a atual pandemia vêm com certeza recordar a importância dessa nossa capacidade a quem acaso a tivesse esquecido. Mas vêm também recordar-nos outra verdade fundamental a que muitos, infelizmente, continuam a não dar o devido valor: é que pelo menos tão importante como a capacidade humana de ver e criar beleza é a capacidade humana de ir além dos limites «naturais» dos seus sentidos e intuições e criar descrições adequadas («verdadeiras!») não só do nosso mundo como de todos os mundos. A ciência resulta dessa capacidade.

A objeção que nos surge imediatamente a esta ideia de Weinberg e Gell-Mann — uma objeção de que Hossenfelder também dá conta, aliás — é que fiar-se assim num sentido de beleza assente no reconhecimento das qualidades que funcionaram antes implica que as novas boas teorias não tenham de cortar com as anteriores. Não sei nada de Física e não posso avaliar se, como Hossenfelder defende, há de facto um desperdício de recursos em Física teórica porque se valoriza sedutoras teorias gerais, que não se têm conseguido demonstrar ou que são por natureza intestáveis (ela dá como exemplos a teoria das cordas e hipótese dos multiversos, respetivamente), em vez de se seguir a via mais prática de tentar resolver os problemas imediatos, as contradições dos modelos existentes, com hipóteses que, no presente, possamos testar. Mas a questão da beleza das teorias não se coloca exclusivamente na Física e não me parece que seja avisado, em nenhum empreendimento intelectual, partir do princípio de que o queremos descobrir se parece com o que já sabemos; nem vejo que boa razão pode haver, a não ser uma não assumida religiosidade, para pressupor que as leis da Natureza terão de ser atraentes, harmoniosas, simétricas, simples… — ou seja, à medida de conceitos de beleza que seguramente não se desenvolveram em nós para nos motivar na procura dessas leis e muito menos para as avaliar.

Como dizia Richard Feynman, a única coisa — a única! — que faz com uma teoria seja boa é estar de acordo com o observado. «Se a hipótese é muita bonita ou não, se se é muito esperto ou não, quem criou a hipótese e o nome que tem», nada disso conta[11].

Jimmy Harris: Locomotiva a vapor abandonada no cemitério de comboios de Uyuni, Bolívia (pormenor), 2009. Creative Commons, daqui


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Notas

[1] O original:
“But my dear Sebastian, you can’t seriously believe it all... I mean about Christmas and the star and the three kings and the ox and the ass.”
“Oh yes, I believe that. It’s a lovely idea.”
“But you can’t believe things because they’re a lovely idea.”
“But I do. That’s how I believe.”
É de notar que não é como «ideia adorável» que a maioria das pessoas religiosas acredita nos dogmas, nas personagens ou nas narrativas oficiais da sua religião, mas sim como factos verídicos, embora não observáveis por todos — só quem tem fé lhes reconhece a realidade.

[2] E não é só a beleza das ideias que nos leva a acreditar nelas: a psicologia experimental revela que «uma melhor aparência física contribui para que se acredite que uma pessoa é melhor, mais inteligente, mais bem-sucedida, mais importante e mais valiosa» — e que, convenhamos, é moralmente assustador. Esta definição é retirada da secção «Fenómeno do privilégio da beleza» do artigo da Wikipédia sobre o «Estereótipo da beleza física». Na secção referida, listam-se alguns dos vieses cognitivos causados pela beleza física, com links para muitos estudos e artigos sobre a questão.

[3] Brinco aqui com a célebre frase de Giordano Bruno em De gl’eroici furori: «Se não é verdade, é muito bem achado» («se non è vero, è molto ben trovato»).

[4] Saindo da questão da relação entre beleza e verdade, é interessante constatar que, no que diz respeito à pura aferição da veracidade uma asserção, as mesmas pessoas que aceitam a fé como única premissa necessária para justificar uma crença exigem, e ainda bem, que haja provas factuais (observáveis) para as decisões de um tribunal de lei. (Também as mesmas pessoas que duvidam da «objetividade» do mundo real têm o mesmo comportamento a atravessar a rua que qualquer realista que acredite que o mundo é mais que construção mental ou social… Mas isso é outra conversa. Ou talvez não…)

[5] Hossenfelder sobre esta sua definição de beleza (traduzo eu, daqui):
Com simplicidade (…) refiro-me à simplicidade absoluta: uma teoria deve ser simples, ponto final. Quando as teorias não são suficientemente simples para os gostos dos meus colegas, elaes tentam torná-las mais simples – unificando várias forças ou postulando novas simetrias que combinam partículas em conjuntos ordenados.
O segundo critério é a naturalidade. A naturalidade é uma tentativa de descartar o elemento humano, exigindo que uma teoria não utilize pressupostos que pareçam escolhidos a dedo. Este critério aplica-se o mais das vezes aos valores de constantes sem unidades, como sejam os rácios das massas de partículas elementares. A naturalidade exige que esses números sejam próximos da unidade ou, se assim não for, a teoria explica porque não.
Depois há a elegância, o terceiro e mais esquivo aspeto da beleza. É muitas vezes descrita como uma combinação de simplicidade e surpresa que, em conjunto, apontam para novas associações. Encontramos a elegância no «efeito ah ah», o momento de descoberta em que as coisas encaixam umas nas outras.
A lista de autores e respetivas ideias que apresento no parágrafo seguinte é tirada de uma palestra de Sabine Hossenfelder no Centre de Cultura Contemporània de Barcelona, em 2019, How Beauty Leads Physics Astray Quantum, disponível aqui.

Para ter ideia das críticas de Hossenfelder ao que ela considera a estagnação da Física teórica, ver, por exemplo, este texto do seu blogue: “The Present Phase of Stagnation in the Foundations of Physics Is Not Normal” ou o texto em The Week já referido no início desta nota.

[6]My work always tried to unite the truth with the beautiful, but when I had to choose one or the other, I usually chose the beautiful.” Citado por Freeman J. Dyson na revista Nature, de 10 de março de 1956.

[7] Paul Adrien Maurice Dirac, “The Relation between Mathematics and Physics, lecture delivered on presentation of the James Scott prize", 6 de fevereiro de 1939, in Proceedings of the Royal Society (Edinburgh) Vol. 59, 1938-39, Part II pp. 122-129 (disponível aqui):
The dominating idea in this application of mathematics to physics is that the equations representing the laws of motion should be of a simple form[, but t]he discovery of the theory of relativity made it necessary to modify the principle of simplicity. (…) What makes the theory of relativity so acceptable to physicists in spite of its going against the principle of simplicity is its great mathematical beauty. This is a quality which cannot be defined, any more than beauty in art can be defined, but which people who study mathematics usually have no difficulty in appreciating.
The research worker, in his efforts to express the fundamental laws of Nature in mathematical form, should strive mainly for mathematical beauty. He should still take simplicity into consideration in a subordinate way to beauty. (…) It often happens that the requirements of simplicity and of beauty are the same, but where they clash the latter must take precedence.
[8] Fearful Symmetry: The Search for Beauty in Modern PhysicsPrinceton University Press (1986), Cap. I, secção “Beauty before truth” (disponível aqui):
My colleagues and I in fundamental physics are the intellectual descendants of Albert Einstein; we like to think that we too search for beauty. Some physics equations are so ugly that we cannot bear to look at them, let alone write them down. Certainly, the Ultimate Designer would use only beautiful equations in designing the universe! we proclaim. When presented with two alternative equations purporting to describe Nature, we always choose the one that appeals to our aesthetic sense. "Let us worry about beauty first, and truth will take care of itself!" Such is the rallying cry of fundamental physicists.
[9] Entrevista à série televisiva de divulgação científica NOVA (data?; acessível aqui):
NOVA: What is beauty to a theoretical physicist?
Weinberg: It may seem wacky that a physicist looking at a theory says, "That's a beautiful theory," and therefore takes it seriously as a possible theory of nature. What does beauty have to do with it? I like to make an analogy with a horse breeder who looks at a horse and says, "That's a beautiful horse." While he or she may be expressing a purely aesthetic emotion, I think there's more to it than that. The horse breeder has seen lots of horses and from experience with horses knows that that's the kind of horse that wins races.
So it's an aesthetic sense that's been beaten into us by centuries of interaction with nature. We've learned that certain kinds of theories—the kind that win races—actually succeed in accounting for natural phenomena. The kind of beauty we look for is a kind of rigidity, a sense that the theory is the way it is because if you change anything in it, it would make no sense.
[10] Ver, por exemplo, este TED Talk (excerto da tradução portuguesa da palestra, disponível na mesma página):
O fundamental desta palestra é o seguinte: Temos uma experiência notável neste campo da física fundamental, ou seja, a beleza é um critério bem-sucedido para escolher a teoria certa. Porque é que será?
Vou dar-vos um exemplo da minha experiência. É realmente surpreendente que isto tenha acontecido. Em 1957, três ou quatro de nós, formulámos uma teoria parcial de uma destas forças, a força fraca. Estava em desacordo com sete — sete, contem-nas — sete experiências. As experiências estavam todas erradas.
Nós publicámos a teoria antes de o saber, porque achámos que era tão bela que tinha que estar correta! As experiências tinham que estar erradas, e estavam mesmo. (…) Porque é que este tipo de teorias funciona? A questão é esta. O que é queremos dizer quando falamos em beleza? Vou tentar esclarecer este ponto — esclarecê-lo em parte. Porque é que funciona? (…)
Diz-se, com frequência, que estamos cada vez mais perto das leis fundamentais ao examinarmos fenómenos a baixas energias e, de seguida, a energias mais altas, e ainda mais altas, ou distâncias mais curtas e, a seguir, ainda mais curtas e de novo distâncias ainda mais curtas, etc., É como descascar as camadas de uma cebola. (...)
Sucede que, (...) consoante vamos descascando as camadas da cebola e nos aproximamos cada vez mais da lei de base, verificamos que cada camada tem algo em comum com a anterior, e com a seguinte. Podemos escrevê-lo matematicamente, e verificamos que a matemática é muito semelhante. As diferentes camadas requerem uma matemática semelhante. (…)
O que sucede é que os novos fenómenos, as novas camadas, as camadas interiores das camadas ligeiramente menores da cebola que atingimos, parecem-se com as ligeiramente maiores. O tipo de matemática de que necessitámos para a camada anterior é quase o mesmo de que necessitamos para a camada seguinte. É por isso que as equações parecem tão simples. Porque usam a matemática que já temos. (…) Cada camada da cebola mostra uma semelhança com as camadas adjacentes. A matemática para as camadas adjacentes é muito semelhante à que necessitamos para a nova camada. Por isso é muito bela. Porque já a sabemos escrever de modo conciso e sedutor.
[11] Eis a transcrição de um excerto de uma conhecida aula de Feynman, que se pode ver, por exemplo, aqui (traduzi e sublinhei eu a parte em itálico):
Now I’m going to discuss how we would look for a new law. In general, we look for a new law by the following process. First, we guess it (audience laughter), no, don’t laugh, that’s the truth. Then we compute the consequences of the guess, to see what, if this is right, if this law we guess is right, to see what it would imply and then we compare the computation results to nature or we say compare to experiment or experience, compare it directly with observations to see if it works.
If it disagrees with experiment, it’s wrong. In that simple statement is the key to science. It doesn’t make any difference how beautiful your guess is, it doesn’t matter how smart you are who made the guess, or what his name is … If it disagrees with experiment, it’s wrong. That’s all there is to it.








16 de janeiro de 2021

Sprint

Veio-me há bocado à ideia, já não sei a que propósito, a seguinte interrogação: será que a velocidade da metade final dos 200 m em atletismo não é mais rápida que a dos 100 m? «Não será que o balanço ganho contrabalança a dificuldade do arranque?», pensei eu, que destas coisas não percebo nada.

Fui ver. Quer dizer, não fiz um estudo exaustivo, comparei apenas os tempos de alguns dos campeões de sprint que correm as duas distâncias. E cheguei logo à conclusão que as coisas não são nada lineares: para alguns, o tempo dos 200 m é mais que o dobro do tempo dos 100 m — por exemplo, para o recordista mundial de ambas as distâncias, Usain Bolt; mas há outros que correm alguma parte dos 200 m (não forçosamente a metade final, pensei eu depois) mais depressa que os 100 m, porque o seu tempo nos 200 m é menos que o dobro do seu tempo nos 100 m (ver as casas com fundo cor-de-rosa na tabela).

 
200 m
200 m / 2
100 m
Usain Bolt
19,19
9,595
9,58
Yohan Blake
19,26
9,63
9,69
Noah Lyles
19,50
9,75
9,86
Walter Dix
19,53
9,765
9,88
Tyson Gay
19,58
9,79
9,69
Asafa Powell
19,90
9,95
9,72

Agora, não se pode saber quem correu os 100 metros mais rápidos de sempre numa competição oficial (não a prova, mas a distância). Talvez haja 100 metros de uma prova de 200 m de Usain Bolt que ele tenha corrido mais depressa do que quando bateu o record do mundo dos 100 m em Berlim, em 2009. Até pode ser que alguns 100 metros da corrida de Yohan Blake em Bruxelas em 2011, quando alcançou a segunda melhor marca de sempre nos 200 m, tenham sido mais rápidos que os 100 m de Bolt em Berlim, quem sabe?

Adenda a 17.1.21:
J. J. Amarante teve a gentileza de me enviar um  detalhadíssimo relatório biomecânico da final de 200 m do Campeonato Mundial de Atletismo de 2017, em Londres, elaborado por uma equipa de cientistas da Carnegie School of Sport para a Associação Internacional de Federações de Atletismo (que se pode descarregar aqui). Na página 9 deste relatório, comparam-se os tempos dos primeiros 100 metros com os tempos dos últimos 100 m e sete dos oito finalistas correm mais depressa a segunda metade da prova que a primeira. A minha hipótese de leigo não era, ao que parece, disparatada de todo. 

30 de dezembro de 2020

Pastis, Portugal e o Mediterrâneo


Muitas pessoas consideram Portugal um país mediterrânico, embora Portugal, do ponto de vista geográfico, não seja propriamente um país mediterrânico. Mas, culturalmente, pode Portugal considerar-se mediterrânico? Bom, uma questão destas é muito difícil — se não impossível — de responder, antes de mais porque é muito difícil — se não impossível — definir «cultura mediterrânica». É bem provável que Portugal tenha traços culturais semelhantes aos dos outros países mediterrânicos, até porque partilha, em certa medida, o mesmo espaço climático, com óbvias consequências na flora e na fauna disponíveis — quer naturais, quer domesticadas. Para dar um exemplo óbvio no que respeita à gastronomia, que foi o que me motivou a escrever este texto, Portugal faz parte da zona gastronómica do azeite, um traço importante da cultura material mediterrânica. Mas não faz parte das zonas bebidas das bebidas anisadas mediterrânicas.

Pastis (Foto de Heike Schauz em Pixabay)
Disse que queria falar de gastronomia, mas, como o título do texto indica, era a este ponto específico da gastronomia que eu queria chegar: as bebidas anisadas mediterrânicas. É certo que há em Portugal anis escarchado, mas é preciso muito boa vontade para classificar o anis escarchado na mesma categoria que o arak do Médio Oriente, Norte de África e Turquia, o raki turco, o ouzo grego, a Sambuca italiana ou o pastis francês. E não só por não se observar no anis escarchado o chamado efeito ouzo, que se observa nestas bebidas (ficar leitoso quando se junta água) — mas também porque é uma bebida com outro tipo de sabor.

Creio lembrar-me — mas a memória é sempre muito falível, ainda mais quando uma pessoa já vai nos 60, como eu — que tentaram a certa altura introduzir Ricard em Portugal, sem êxito nenhum. E lembro-me de que, em Lisboa, pelo menos, ninguém sabia quanto devia levar pelo Ricard esquecido nas prateleiras de bares e cafés, e nem como o devia servir, e várias vezes me aproveitei disso, pagando muito pouco por doses muito grandes.

Mas a que propósito vem tudo isto? É que recebi de prenda de Natal um kit de produção de pastis: aguardente a 40% (de batata ou de trigo, não sei) dessa «sem sabor», que se usa para, juntando-se-lhe especiarias várias, fazer akvavit condimentada; álcool etílico a 96%; e pacotes de anis de estrela, sementes de anis, sementes de funcho, sementes de coentros e raiz de alcaçuz. O resultado há de ser um pastis de estalo — eu nunca o fiz, mas já o bebi feito com a receita que vou utilizar e, creiam-me, é melhor que Ricard ou 51… Agora, talvez vos surpreenda, como me surpreendeu a mim, usarem-se dois tipos de álcool de base: porque não um apenas, mais ou menos diluído? Garante-me o amigo que me deu a receita que, se não se usar uma parte de álcool puro, não se obtém o tal efeito ouzo. Não tenho, infelizmente, conhecimentos de química que me permitam avaliar, já nem digo a veracidade mas, pelo menos, a plausibilidade da asserção do meu amigo. Podia investigar, mas não me apetece. E menos me apetece correr riscos: pastis que não fica branco quando se lhe mistura água, não, obrigado. De maneira que sigo a receita e não penso mais no assunto.

Para terminar, uma pequena nota algo lateral, a propósito de dois ingredientes do meu pastis: estou em crer que o alcaçuz e os coentros afastam Portugal não só do Mediterrâneo, mas de toda a Europa. Em toda a Europa que eu conheço se consomem doces de alcaçuz ou pastilhas de alcaçuz forte, mas a minha experiência é que os portugueses torcem sempre o nariz (literalmente) quando alguém lhos dá a provar. Quanto aos coentros, se as sementes não parecem ter muito uso na cozinha portuguesa (pelo menos, na que eu conheço…), já a utilização das folhas frescas da planta dá à cozinha portuguesa uma grande originalidade no contexto Europeu — acho que, saindo de Portugal e correndo toda a Europa, só se voltam a encontrar coentros frescos na Turquia. Ou estou a exagerar?


18 de outubro de 2020

Chaves de parafusos magnéticas

Ontem surgiu-me a questão: quem terá inventado as chaves de parafusos de ponta magnética? É uma grande invenção, que nos veio facilitar a vida em inúmeras situações, mas, como sempre nestas coisas, ninguém faz ideia de quem tenha sido o seu inventor. E depois, pensei logo que, neste caso, é extremamente provável que tenha havido muitas pessoas a ter tido a ideia independentemente umas das outras (já aqui escrevi sobre invenções paralelas), até porque a magnetização de uma chave de parafusos, de tão simples que é, deve ter acontecido milhares de vezes por acaso antes de se venderem chaves magnetizadas.
Da mesma forma, também já muita gente já se interrogou sobre a questão da invenção da chave magnetizada, como eu me interroguei ontem, e a pergunta surge em vários fóruns na internet. Li até num deles que a magnetização involuntária de ferramentas podia ser considerada incómoda e que, antes de aparecerem os desenhos de ponta em cruz (Phillips e outros), a magnetização não era útil por aí além, porque uma chave de fenda simples magnetizada não segura bem os parafusos.
Agora, se não há, neste caso, um único inventor, há, pelo menos, quem primeiro tenha registado a patente, para fins comerciais. Uma pesquisa em Google dá-me um registo de patente de William J. Hood e Eugene J. Hood em 1921, que, a julgar pela descrição, bem pode ser a primeira patente de chave de parafusos magnética (traduzo eu).
Fazemos saber que nós, William J. Hood e Eugene. J. Hood, cidadãos dos Estados Unidos e residentes em Toledo, condado de Lucas, Ohio, somos autores de uma invenção que diz respeito a Chaves de Fendas Magnéticas (…) A nossa invenção tem por finalidade fornecer um meio simples para segurar um parafuso na extremidade de uma chave de fendas, imediatamente antes e no decorrer da operação de aparafusar o parafuso num objeto. O propósito da invenção é, especificamente, fornecer um meio para manusear comodamente um parafuso. Através da nossa invenção, fornece-se um meio de manusear os parafusos a aparafusar com a mão que segura a chave de fendas e sem o uso da outra mão de quem com ele trabalha, ficando essa outra mão livre para segurar, se assim se o desejar, qualquer objeto a ser fixado pelo parafuso.
Se não é a patente original das chaves de parafusos magnéticas, é, pelo menos, uma patente original: destina-se a parafusos de fendas simples e propõe uma solução para o problema referido no segundo parágrafo deste texto — com uma cabeça de chave que, além da parte que se insere na fenda, tem uma ponta chata, que assenta na superfície da cabeça do parafuso.


14 de outubro de 2020

Adelheid & Johannes

Quero contar-vos uma história verdadeira e recente, mas, como não tenho autorização dos protagonistas para tornar pública a sua vida, vou omitir todos os pormenores que permitam identificá-los. É uma história de amor. 
Vai agora fazer 31 anos que caiu o muro de Berlim e, com ele, o resto da Cortina de Ferro. Eva, uma amiga minha escandinava, na altura estudante universitária, resolveu nas férias grandes de 1990 dar uma voltinha por alguns países de Leste, para observar de perto como as coisas se estavam a passar.
Na capital de um desses países, conheceu Adelheid, também estudante universitária, de quem se tornou amiga. Voltou a visitá-la no ano seguinte e Adelheid retribuiu-lhe a visita. Eva arranjou-lhe um trabalho sazonal a apanhar fruta na quinta de uns amigos seus, para Adelheid poder pagar a sua viagem. 
Nessa quinta, Adelheid conheceu Johannes, que era amigo de Eva, e apaixonaram-se um pelo outro. Mas foi uma história sem grande continuação. Johannes ainda foi visitar Adelheid à sua terra uma vez, no ano seguinte, mas depois deixaram de se ver e, com o tempo, acabaram também por deixar de se escrever. Cada qual continuou a sua vida no seu país. Casaram-se ambos. Joahnnes teve dois filhos. Adelheid não teve filhos, mas o seu marido tinha dois filhos de um casamento anterior.
Com o tempo, Eva também foi perdendo o contacto com Adelheid. Depois veio o Facebook. Um dia, Eva decidiu procurar Adelheid e encontrou-a. Escreveram umas quantas mensagens entusiasmadas uma à outra, como acontece sempre quando se encontra no Facebook alguém que não se vê há muito tempo, mas depois o contacto foi esmorecendo. No início do presente ano, porém, Eva escreveu a Adelheid dizendo que estava a pensar visitá-la no verão. Claro!, que boa ideia!, tinha uma casa à sua disposição, seria maravilhoso encontrarem-se outra vez — ao fim de quase 30 anos... Mas depois veio a pandemia e Eva cancelou a viagem planeada. 
Quando as fronteiras europeias voltaram a abrir, porém, foi Adelheid que se deslocou à Escandinávia. Uma visita curta, só cinco dias, mas era o que se podia arranjar. Para matar saudades. Adelheid ficou dois dias em casa de Eva. Foram dois dias maravilhosos, em que beberam vinho e recordaram os tempos que tinham passado juntas e contaram uma à outra em pormenor o que tinha acontecido nas suas vidas desde que tinham deixado de se ver. No dia seguinte, Adelheid foi visitar Johannes. Tinha-o contactado e ele tinha-lhe contado que se tinha separado. Também ia gostar muito de o rever! Depois, o plano era que Adelheid voltasse a casa de Eva e aí passasse mais dois dias, antes de voltar a casa. 
Só passou mais um dia. Ao segundo dia de manhã, disse a Eva que Johannes lhe tinha mandado uma mensagem, dizendo que ela se tinha esquecido do passaporte em casa dele. Tinha de o ir buscar. E depois, como a casa de Johannes ainda ficava longe da casa de Eva, já não voltava nessa noite. Ficava lá a dormir e partia no dia seguinte, de volta a casa. Enfim, tinha de ser... Que pena não poderem passar mais um dia juntas. Mas tinha sido tão bom voltarem a encontrar-se!
Passadas duas semanas, Eva recebeu uma mensagem de Adelheid. Pedia muita desculpa de lhe ter mentido: não tinha sido o passaporte que tinha deixado em casa de Johannes, mas sim o coração. Tinha agora voltado à Escandinávia e estava outra vez em casa de Johannes, mas agora não apenas de visita. Tinham decidido viver juntos. Quando se tinham encontrado duas semanas antes, a paixão de juventude tinha renascido com a mesma intensidade e Adelheid não hesitou em pôr fim a 29 anos de casamento e começar uma vida nova noutro país. 
Foi exatamente assim que as coisas se passaram. Para que vejam como é a erupção de um amor latente...
 

Foto: Reencontro de Marina Abramović com Ulay (Frank Uwe Laysiepen), que não se viam há 20 anos. Fotograma deste famoso vídeo, filmado no MoMANa retrospectiva que o MoMA lhe dedicou em 2010, Marina Abramović ficava sentada o dia todo, imóvel e silenciosa, enquanto os visitantes se iam sentando à sua frente. A certa altura, veio Ulay sentar-se em frente a ela e Marina reagiu de forma muito emotiva.  Seis anos depois deste reencontro, Ulay levou-a a tribunal por ela lhe estar a dever royalties das obras criadas em conjunto entre 1976 e 1989. 


12 de outubro de 2020

Henry J. Garret vs Ursula K. Le Guin (VLindegaard mashup)

– Mãe, como é que sabemos quando passamos de um oceano para outro? 
– Não sabemos. As fronteiras são construções sociais e há que ter cuidado com quem as leva muito a sério. 
Como se odeia um país? Ou como se ama um país? … Conheço pessoas, conheço cidades, quintas, outeiros e rios e rochas, sei como o sol se põe ao lado de um certo terreno arado nas colinas; mas que sentido faz pôr a tudo isso um limite, dar-lhe um nome e deixar de amar um lugar onde o nome deixa de se aplicar? 
Henry J. Garrett, Whales without borders, s. d
Ursula K. Le Guinn, A Mão Esquerda da Escuridão (The Left Hand of Darkness), 1969

Rio Acre, que em partes do seu percurso serve de fronteira entre a Bolívia e o Brasil. Foto: Arison Jardim/Secom, Agência de Notícias do Acre (Wikimedia Commons, daqui)

11 de outubro de 2020

Uma stout em Brixton

Foto: Ewan Munro (Wikimedia Commons, daqui, modificada por mim)
No início dos anos 90, já não sei bem em que ano, estou eu sentado ao balcão numa discoteca jamaicana em Brixton, já às tantas da manhã, muito sossegadinho a beber um quartilho de stout, quando chega ao pé de mim um rudeboy que me dá uma palmada nas costas e me diz assim, com um ar que eu não sabia se devia entender como ameaçador ou não: 
 – Eh pá, tu és português, de certeza! 
– Pois sou – respondi eu – como é que sabes? 
– Paga lá uma cerveja, vá! 
Nunca antes, no estrangeiro, me tinham adivinhado a nacionalidade. Muita gente tentou, mas nunca ninguém acertou. «Esta malta da Jamaica tem truques, pá...», pensei eu, e paguei-lhe mesmo a cerveja.
Soube no dia seguinte que era uma zona de emigrantes portugueses. À zona de South Lambeth, no sul de Londres (ou seja, a zona entre Brixton, Vauxhall e Stockwell) costuma até chamar-se Little Portugal. Havia cafés portugueses e restaurantes portugueses e, enfim, era provável que, naquela zona da cidade, um gajo com a minha pinta fosse português. De maneira que isso de bruxedos, enfim…






10 de outubro de 2020

Muleta

Os dicionários a que tenho acesso (que não são muitos, nem os melhores, mas, mesmo assim…) dão muitas definições de muleta, mas esquecem todos eles uma muito importante:
objeto que o carteirista usa para encobrir o exercício das suas habilidades, normalmente um casaco dobrado, mas também um jornal, uma toalha de praia, etc.
Esta aceção de muleta é muito conhecida e aparece em muitos textos, não sei porque não chega aos dicionários…

Curiosamente (ou nem tanto, porque já se sabe que o calão português e o calão espanhol partilham muitas palavras), usa-se a mesma palavra em castelhano, como se pode verificar no relatório donde vem este desenho (autor desconhecido). De notar que, segundo esse relatório, o desenho não ilustra um carteirista típico, mas faz antes de uma síntese de todos os tipos de carteiristas.

30 de agosto de 2020

Bodil [Crónicas de Svendborg #38]

Um dia, na costa sudoeste de Tåsinge, perto da ponte para a ilha de Siø, Karen encontrou uma chávena no mar. A chávena estava a poucos metros da praia, num sítio onde a água não tinha mais de meio metro, em cima de um monte de pedras.

Era uma bonita chávena, com uma gaivota e o nome Bodil pintados à mão. Bodil não é um nome incomum, mas também não é um nome muito normal: há presentemente 11.444 Bodils na Dinamarca; e, no ano passado, só cinco meninas foram batizadas com esse nome. Karen pôs-se a especular sobre a dona da chávena: o mais provável era ser uma mulher com mais de 50 anos e de classe média alta, pensava ela.

Tirou uma foto à chávena e pô-la no Facebook, com o seguinte texto:
Quem conhece a Bodil? Uma lindíssima chávena pintada à mão encontrada na água perto da ponte para Siø, do lado de Tåsinge. Conheces a Bodil? Creio que há de ficar contente se recuperar a sua chávena.
É inacreditável o que um post destes pode desencadear nas redes sociais. As pessoas bem podiam estar apenas caladas, quando não são os destinatários do post. Mas não. Fazem comentários e mais comentários, cada um menos a propósito que o outro. E o post foi muito partilhado.

Além dos muitos comentários, Karen recebeu três mensagens de Bodils que reclamavam a chávena. Quando insistiu, porém, que queria saber como a chávena tinha ido parar à praia onde a achou, todas elas acabaram por confessar que a chávena não era delas.

Karen descobriu, entretanto, quem tinha feito a chávena: uma ceramista chamada Ulla. Escreveu-lhe a perguntar se sabia a quem tinha vendido aquela chávena, mas Ulla nunca lhe respondeu.

Finalmente, ao fim de duas semanas, alguém escreveu a Karen, dizendo que se chamava Bodil e sabia quem tinha feito e vendido a chávena. Chamemos a esta pessoa Bodil A, para facilitar a narrativa e chamemos Bodil X à pessoa que Karen procura. Karen respondeu-lhe que também tinha descoberto Ulla e lhe tinha escrito, mas que ainda não recebera resposta. Bodil A respondeu-lhe então que a ceramista era sua amiga e ia falar com ela pessoalmente.

Dois dias depois, Bodil A escreveu de novo a Karen: tinha falado com Ulla, Ulla sabia muito bem a quem vendera a chávena e contactou Bodil X. E Bodil X disse-lhe que não queria reaver a chávena. A chávena, explicou ela, estava ligada a uma história que lhe tinha feito muito mal e que preferia esquecer. Não tinha sido ela a perder ou a deitar fora a chávena na praia. Mas ela sabia, claro, quem tinha sido. Não queria, enfim, ouvir mais falar da chávena.

Karen perguntou então a Bodil A se não queria ficar com a chávena. Bodil A disse-lhe que tinha inicialmente pensado nisso, mas que, depois de saber da história de Bodil X, e mesmo sem saber ao certo o que se tinha passado, não, não queria uma chávena assim.

No mesmo dia, Karen recebeu uma mensagem de outra Bodil: «Tinha uma chávena assim, quando trabalhava no dentista em Østergade. Deixei-a lá ficar quando me vim embora. Como é que pode ter ido parar a uma praia em Tåsinge?»

Karen não lhe escreveu mais e ela também nunca disse mais nada. Há quatro dentistas na Dinamarca com consultório numa rua chamada Østergade: em Aarhus, Assens, Hjørring e Silkeborg.

«Só depois de o meu post ter sido partilhado dezenas de vezes é que me dei conta de que era bem possível que a chávena não tivesse sido perdida na praia», diz-me Karen. «Pus-me a imaginar o que podia ter-se passado. Até pensei que a Bodil podia ter morrido e alguém que costumava tomar café com ela podia ter ali posto a chávena naquele montinho de pedras, assim como um memorial. Havia tantas razões possíveis para aquela estátua ali estar, mas eu, ao princípio, só pensei que uma Bodil a tinha perdido.»

22 de agosto de 2020

Da etnicidade de corpos e almas


Há uma dezena de anos, fiz uma viagem de carro de Maputo a Joanesburgo, na companhia de um enfermeiro sul africano. Era um homem mais ou menos da minha idade, nascido e crescido, portanto, no regime de apartheid; e gostava de se queixar da desgraça a que o regime pós-94 tinha levado o país – sem se atrever, ainda assim, a louvar abertamente o regime anterior. E, se ele tinha a cautela de deixar subentendida a sua posição política, eu tinha também a cautela de não confrontar com demasiada veemência o que ele deixava subentendido, para não tornar insuportáveis as muitas horas de viagem que tínhamos de partilhar.
– Você não imagina o conservadorismo da África do Sul antigamente – disse o meu companheiro a certa altura. É a parte da conversa de que lembro melhor. – O corpo era tabu. Não passavam nos cinemas filmes com cenas de nudez e nem uma mulher de bikini se via em revistas e os jornais. Pornografia, então, era impossível de encontrar. Éramos uns frustrados. Os rapazes da minha geração nunca tinham visto um corpo de mulher nu antes de irem para a cama com uma mulher pela primeira vez – quase sempre na noite de núpcias, porque não havia sexo antes do casamento.
Eu, por acaso, nem precisava imaginar – tinha conhecido uma sociedade em muitos aspetos parecida, o Portugal onde eu tinha crescido. Também tinha certeza de que as coisas não tinham sido para todos os sul-africanos como ele agora as descrevia, mas não duvidava de tivessem sido assim na comunidade africânder onde ele tinha crescido.
– O que a gente não dava só para ver as mamas de uma mulher… Bom, tínhamos todos vistos muitas mamas étnicas na televisão e em revistas, mas isso para nós não contava, era outra coisa. E a gente não se excitava com as africanas. 
Há quem diga que, mais que lutar contra o racismo através de leis e práticas institucionais, importa – e custa – tirá-lo das mentes. E há quem diga que, como em todas as questões morais, não se pode exigir de ninguém que mude de sentimentos, conquanto que, sinta o que sentir, não aja de forma discriminatória. Não cabe neste texto a longa e complexa discussão das estratégias, prioridades e alvos preferenciais do trabalho antirracista. Onde esta história quer chegar é que não é só nas mentes que o preconceito se instala, mas no corpo também. Não é que toda a gente tenha de se sentir atraída por toda a gente. As pessoas podem, naturalmente, sentir-se mais ou menos atraídas por determinados tipos físicos. Mas o que está aqui em causa é outra coisa. Ouvi mais histórias como esta, de pessoas que têm entranhado na carne o desprezo do Outro. Alguns religiosos ou místicos dirão que a carne mata o espírito; e eu constato que o contrário também é verdadeiro.
Agora, é claro, se a completa ausência de desejo pelas pessoas de outros grupos étnicos ou de outros tipos físicos (cheguei a ouvir falar de «nojo» do corpo das pessoas racializadas) revela uma forma profunda de racismo, nunca o desejo – ou até a preferência – de um tipo físico diferente é, por si só, sinal de ausência de racismo. Pode discutir-se o que desumaniza mais o Outro: não servir nem para o sexo ou só servir para o sexo…
A recordação da conversa na viagem a Joanesburgo e a ideia deste texto surgiram deste quadro de 1800, que conheci há uns meses no Tout ceci est magnifique. O Retrato de uma negra, que no ano passado se passou a chamar Retrato de Madeleine, é uma obra pouco canónica de Marie-Guilhelmine Benoist, que tem merecido análises interessantes (ver aqui e aqui, por exemplo).

11 de agosto de 2020

[Sem título]


Um cemitério de Carcassonne, visto da Cité
Tinham-nos dito que havia um sítio muito bonito para tomar banho a cerca de um quilómetro do centro da aldeia, onde o rio tinha uma espécie de albufeira natural. «Passa-se o cemitério e vira-se à direita no segundo caminho de terra.»

Mas nós não sabíamos onde era o cemitério. Fui perguntar a um senhor de idade avançada, que estava sentado num banco de jardim, à sombra de um plátano.

– Não tem nada que enganar: vai sempre por este caminho e vai lá dar. São uns 300 ou 400 metros, uma coisa assim.

Agradeci-lhe.

– Eu também para lá vou, mas não é já – riu-se ele. – Quer dizer, espero eu...


A velhice, mais uma vez


Publiquei aqui na Travessa, há mais de dez anos, um poema meu em que ando às voltas de uma ideia que Jorge Luis Borges apresenta em forma lírica no início do seu maravilhoso “Elogio da la sombra” (traduzo eu):
A velhice (tal é o nome que os outros lhe dão)
pode ser o tempo da nossa ventura.
O animal morreu já ou morreu quase.
Restam o homem e a sua alma.
É capaz de ser sobretudo entusiasmo de literato essa ideia de que a velhice (seja qual for o nome que os outros lhe deem) é «o tempo da alma», PORQUE desapareceu já a parte mais animalesca, mais ssssibilante de nós — o anseio de sabores e sexos e toda a classe de satisfações... Não sei se tem muito a ver com a realidade de envelhecer para a maioria das pessoas. Há com certeza velhices assim, em sendo boa a saúde, e é possível que a de Borges tenha sido como a quis, homem e alma, esvaziada de animalidade.

A questão é também como se deve entender alma. Se se entender alma como espiritualidade, ou mesmo como mente, creio que a velhica é muitas vezes ao revés de como Borges a quer: vai-se esvaindo a espiritualidade, se alguma houve, como se esvai tudo o resto: as forças, enfim, a memória, a paciência, a concentração… 

É claro, velhices há muitas. Na velhice que tenho à minha volta, porém, vejo antes simplificarem-se a vida e os seus prazeres: comer, dormir, gozar a inatividade e o calor do sol, se dele se apanha um bocadinho  — o que, por muito que possa soar a demasiado animal, também está muito bem.

Esquerda: Autor desconhecido: Velha dormindo, sem data, gravura, cópia de Rembrandt. The Met, Nova Iorque, daqui
Direita: Rembrandt: Velho sentado numa poltrona, 1631, daqui.

3 de julho de 2020

Do pão estaladiço da infância [Crónicas de Svendborg #37]


Os escandinavos têm umas bolachas finas e crocantes, com mais centeio que trigo, a que chamam pão estaladiço.

Este knäckebröd (deixem-me usar o nome sueco, já que parece que foi na Suécia que ele surgiu) tem uma característica curiosa: é mais ondulado de um lado que do outro, para assim satisfazer tanto quem gosta de o barrar com muita manteiga ou muito doce como quem gosta de menos manteiga ou menos doce no pão.

Alguns de vocês lembrar-se-ão, como eu me lembro, de um adulto alguma vez vos repreender que «oh filho, isso é não é pão com manteiga (ou queijo, ou o que fosse), isso é mais manteiga com pão»; mas, como não comiam knäckebröd, nunca ninguém vos disse, como a mãe de uma amiga minha lhe dizia, «olha que te enganaste no lado, é do outro lado é que se põe manteiga».


26 de maio de 2020

Herança cultural [Crónicas de Svendborg #36]


Foto: Stockphoto Needpix
Um dos cartões de visita de Svendborg é, creio eu, o grande edifício Wiggers Gård na praça central, Torvet. Muitos visitantes pensarão tratar-se de um edifício antigo, por causa do estilo de construção, com estrutura de enxaimel, mas, na realidade, data apenas de 1939 e foi contruído onde havia antes uma loja e fábricas que tinham sido construídas em meados do séc. XIX.

Foto: Kåre Thor OlsenWikimedia Commons, daqui.












Antiga de facto é a Casa de Anne Hvide, ali mesmo ao pé, que data de 1560. É o edifício de habitação mais antigo de Svendborg e é dos mais antigos que vi aqui na Dinamarca, se não mesmo o mais antigo.


Tirando a Casa de Anne Hvide e uma casa de meados do século XVI, que foi reparada há três anos, os outros edifícios de habitação mais antigos datam, aqui na zona, do século XVII.











Foto: Lars Schmidt.
Wikimedia Commons, daqui
A nossa aldeia, Troense, a quatro quilómetros de Svendborg, é quase uma aldeia museu. Dos 100 edifícios reconhecidos como Património Cultural no Município de Svendborg, 31 são casas da nossa aldeia: casas de habitação – e habitadas, de facto – de um ou dois pisos, na sua grande maioria de estrutura de enxaimel e telhado de colmo. A maior parte delas ficam na Grønnegade, a «Rua Verde». As casas classificadas como Património Cultural estão identificadas com uma placa de metal, colocada ao lado da porta. Este diaporama que encontrei no YouTube, infelizmente a preto e branco, mostra várias casas dessa rua.



 A casa amarela à direita na foto de cima tem uma placa com a data 1675. Se for verdade, é a casa mais antiga da aldeia, mas foi renovada sem cuidado nenhum e não faz parte da lista dos edifícios classificados como Património Cultural.

O mais antigo dos edifícios classificados é o da fotografia de baixo, que é anterior a 1750. Curiosamente, não tem telhado de colmo.

A casa com um campanário, mais abaixo, é também um dos edifícios classificados da aldeia. Construído em 1790, foi escola primária até meados do séc. XX e depois museu, e agora é uma casa particular.






Foto de Artur Franco


25 de maio de 2020

Lentilhas

Livro da Génese, XXV 29-34:
Hendrick ter Brugghen: Esaú vende o direito de primogenitura, ca. 1627
Thyssen-Bornemisza Museum, Madrid
Um dia, quando Jacob preparava uma sopa de lentilhas, chegou Esaú do campo. Vinha muito cansado.
E disse a Jacob: «Dá-me dessa sopa vermelha, porque me sinto derreado de cansaço.» Por esta razão é que lhe foi posto o nome de Edom – ou seja, o vermelho. 
Respondeu-lhe Jacob: «Vende-me ainda hoje o teu direito de primogenitura.»
Continuou Esaú: «Sinto-me morrer: de que me servirá o meu direito de primogenitura?»
«Pois jura-mo», disse-lhe Jacob. «Hoje mesmo.»
E Esaú jurou e vendeu a Jacob o seu direito de primogenitura.
E este deu-lhe pão e sopa de lentilhas. Esaú comeu, e bebeu, e depois foi-se embora, dando-se-lhe bem pouco ter vendido o seu direito de primogenitura.
Que bem entendo Esaú! Eu teria feito a mesma coisa. Mais: mesmo que não estivesse cheiínho de fome. O direito de primogenitura não me serve de nada e gosto muito lentilhas. Vocês não?

As lentilhas são dos primeiros produtos agrícolas: foram domesticadas há cerca de 9.000 anos, ou talvez antes Não sei se em Portugal alguma vez foram populares, mas, pelo menos no Portugal que eu conheço e no meu tempo de vida, comem-se muito pouco. Creio que comi lentilhas pela primeira vez em Espanha, onde são tradicionais as lentilhas guisadas com morcela e/ou com chouriço. Em França, as lentilhas com carne de porco de salmoura são também um prato muito tradicional. Aqui em casa, comem-se muito, a malta gosta.

As lentilhas guisadas à minha maneira levam sempre cenoura e talo de aipo, ambos às rodelas, que refogo em azeite, juntamente com cebola e alho. Junto depois as lentilhas lavadas, molho com um bocadinho de vinho branco e, em desaparecendo o cheiro a vinho, junto tomate picado. Quando começa a secar, ponho líquido (um caldo, de preferência, mas, se não houver, água também serve, paciência...) e deixo cozinhar até estarem as lentilhas cozidas, juntando mais líquido quando necessário. O tempo de cozedura varia muito, conforme a qualidade das lentilhas.

Sopa de lentilhas vermelhas. Foto de nchenga, daqui (Creative Commons)
Tempero sempre as lentilhas com muitos cominhos e muita semente de coentro em pó. Dizem que se deve pôr o sal só no fim, porque senão as lentilhas demoram mais tempo a cozer, não sei se é verdade ou se é mais um mito culinário... O que não é mito é que há que lavar sempre as lentilhas bem lavadinhas e ter cuidado com as pedrinhas que nelas possam vir misturadas.

Acho que as lentilhas ficam muito bem com borrego, não sei se são da mesma opinião. Aqui têm uma sugestão para aproveitar bocados menos nobres do borrego (costelas, pescoço, coisas assim): cozinhem-nos com uns quantos legumes que tenham à mão, para lhes dar mais sabor, numa panela de pressão ou num tacho coberto de ir ao forno, até a carne se separar bem dos ossos; depois, tirem a carne toda, o mais possível sem gordura, juntem-na às lentilhas guisadas e deixem apurar um bocadinho.

Já agora: a mesma coisa – ou parecida, seja – mas com mais água, dá uma rica sopa magrebina. Bom proveito!