08/06/26

Da arrenegação das duplas negativas, uma coisa que agora há


Já uma vez aqui o disse, mas quero agora insistir e desenvolver: essa moda que há agora de defender que as frases negativas só podem ter uma palavra negativa (não, nada, nenhum(ns)/a/as) é simplesmente  sem muitos pés nem muita cabeça. Ao contrário do que pretendem alguns (realço com negrito todas as palavras negativas),

Não fiz nada

não quer dizer «fiz tudo» e a forma correta de negar toda a atividade não é nem

− *Não fiz alguma coisa

que soa a barbarismo, nem

Não fiz tudo,

que obviamente significa outra coisa.

Ao contrário do que pretendem outros

− *Vi nada ou 

− *Conheço aqui ninguém

são simplesmente frases mal construídas. 

Falar e escrever assim é um erro. E não é erro no sentido em que muita gente usa a palavra de «não conforme com a norma culta», até porque eu não escrevo textos a criticar esse tipo de «erros». É erro no verdadeiro sentido da palavra: essa construção não existe em nenhuma variante, seja ela regional ou social, da língua portuguesa; a não ser, claro está, nos últimos tempos, depois de se ter começado a espalhar a ideia estapafúrdia de que a dupla negativa é erro. Começa-se, aliás, a ver essas construções em textos de pessoas que até escrevem bem — o que é bastante interessante, para refletir sobre como se espalham estes fenómenos de pretensa correção... 

O argumento usado para defender estas construções estranhas ao português é pretensamente lógico: duas negações cancelam-se mutuamente, portanto de duas negativas resulta uma positiva: 

− Não vi nada

significaria, assim, «vi alguma coisa» e

Não conheço ninguém

significaria «conheço alguém». Este argumento «lógico» é falacioso, como explicarei mais à frente, e o que eu creio que está por trás dessa recente tomada de consciência de, ai!, uma tão grande falha de lógica! é antes do inglês, cuja norma culta não aceita duplas negativas. 

Em inglês padrão (e noutras línguas germânicas) não é obrigatório um termo negativo antes do verbo em frases negativas e usam-se determinantes, pronomes e advérbios específicos depois do verbo, consoante se tenha ou não usado a partícula de negação antes. Assim, segundo essa norma  

I didn’t see nothing (palavra a palavra, um pouco simplificado: «Eu não vi nada»)

é errado, devendo antes dizer-se

I didn’t see anything (palavra a palavra, um pouco simplificado: «Eu não vi qualquer coisa») ou 

I saw nothing (palavra a palavra: «Eu vi nada»)[1]

Mas não é o inglês que aqui me interessa, é antes a maneira como se pretende aplicar esta norma ao português. Algumas pessoas, sem grande ideia de como diferentes línguas podem funcionar de diversas maneiras, consideram que a língua deve obedecer ao que eles consideram lógica — algo de que a norma culta do inglês seria bom exemplo — concluindo que as línguas latinas devem seguir o mesmo modelo. 

Vejamos então a questão da lógica. Não se pode dizer que as línguas naturais não sejam lógicas, mas a lógica das línguas é diferente da lógica matemática e de outros tipos de lógica. Essa diferença pode ilustrar-se com exemplos simples e, como não me quero alargar muito sobre o tema, deixo-vos um dos mais óbvios: existem na língua muitas aparentes tautologias, que têm, na realidade, um significado bem diferente de x=x — embora nem sempre seja fácil, mesmo para os especialistas, explicar esse significado. Todos os falantes do português intuem que uma frase como «essa é que é essa» quer dizer algo, mas como descrever o que significa? O mesmo se passa com «um homem é um homem» ou «Trabalho é trabalho, conhaque é conhaque» ou a famosa frase «um gato é um gato, um cão é um cão, xxxxx é aquilo que os outros não são» (perdoem os xx, mas não quero fazer aqui publicidade...). Uma transcrição desta última proposição que fosse feita hipoteticamente por quem diz que duas negativas dão forçosamente uma positiva poderia ser x=-(-x), o que evidentemente não é de modo nenhum o que a frase diz, até porque, se o dissesse, não seria usada em publicidade...[2] 

Enfim, haveria uma número muito grande de exemplos a dar e muito mais a dizer sobre estas coisas, que são muito interessantes, mas não é essa a intenção do texto. O que eu quero é deixar claro que a lógica da língua não é imediatamente acessível a quem atribua simplesmente um valor determinado a cada forma linguística, em vez de se dotar de instrumentos eficazes para descrever o que se passa de facto quando criamos significado.

Além disso, mesmo para quem insista na lógica matemática, poder-se-ia argumentar, como eu já ouvi a alguém, que as línguas de concordância negativa também têm uma lógica matemática, só que, em vez de ser a da multiplicação, como as línguas germânicas, é a da adição: em inglês é menos por menos dá mais, em português é menos mais menos dá menos. Está bem assim? 

Mas passemos à negativa e à negação. As diversas línguas têm várias maneiras de construir frases negativas. Há línguas em que é obrigatória uma negativa antes do verbo e outras em que não, línguas em que a negativa ocorre quase sempre depois do verbo, outras em que é expressa por uma forma flexional no verbo, etc. Não há nenhuma mais ou menos lógica que outras, todas servem para exprimir as mesmas proposições[3]

Há, pois, línguas em que, como já vimos, a dupla negativa cancela a negação, usando-se geralmente, neste caso, palavras não negativas como objetos do verbo ou com os objetos do verbo, quando este é negado. Estão neste caso, para referir apenas as línguas mais próximas da nossa, a variante padrão do inglês e a maioria das línguas do mesmo grupo, as chamadas línguas germânicas, como o alemão, o neerlandês, o dinamarquês, etc. 

Há outras línguas em que, nas negativas, uma palavra negativa pré-verbal convoca outras palavras negativas também após o verbo: o que se designa como concordância negativa ou negativa enfática. O português é uma das línguas em que se observa este fenómeno (e não há razão nenhuma para deixar de o ser, sim?).

Não quero dar-vos aqui uma lista extensiva das línguas com concordância negativa, até porque não quero dar exemplos em africâner ou farsi, mas podemos ficar-nos pelas línguas mais próximas e mais fáceis de compreender. As línguas latinas têm, em geral, esta característica[4], de maneira que, em castelhano, catalão e italiano tudo funciona como em português. O francês oral moderno é diferente, porque, como desapareceu a partícula ne, não tem obrigatoriedade de negativas antes do verbo, mas o francês padrão escrito (ou falado em situações formais) faz também parte deste grupo. 

Assim, as frases

Não vi nada. Não conheço aqui ninguém 

dizem-se, nestas línguas,

No he visto/ví nada. No conozco aquí a nadie,

No vaig veure res. No conec ningú aquí e

Non ho visto niente/nulla. Non conosco nessuno qui.

Em francês oral, é diferente (J’ai rien vu. Je connais personne ici), mas, em francês escrito, a estrutura é a mesma que nas outras línguas românicas:

Je n’ai rien vu. Je ne connais personne ici.

E porque é assim nas línguas latinas? Era já assim em latim? Não. Em geral, em latim clássico, as duplas negações resultavam numa afirmação, embora haja alguns escritores clássicos que usassem duplas negativas (Plauto: Iura te non nociturum esse homini de hac re nemini, «Jura que não farás, por isto, mal a ninguém.»). 

É interessante constatar que muitas das palavras negativas usadas hoje nas línguas latinas não são as palavras negativas latinas (nemo, nullus, nihil...) e nem sequer são, na origem, palavras negativas. Em português e castelhano, por exemplo, nada vem de [re(s)] nata, «[coisa] nascida»; nadie, «ninguém», em castelhano, vem de nati, «nascidos»; rien, em francês, res, em catalão, e ren, em galego, «nada» vêm de diferentes declinações de rēs, «coisa»; personne, «ninguém», em francês, vem de persona, «pessoa», aucun vem de aliquī unus, «alguém, qualquer pessoa, algo, qualquer coisa», pas vem de pas, «passo», etc. Seria abuso, porém, considerar que a dupla negativa é apenas uma forma cristalizada de palavras originalmente não negativas («não vi nada = não vi coisa nascida [coisa existente]»), porque algumas das palavras negativas, como ninguém em português e nunca em português e castelhano, são negativas à partida. Além disso, uma palavra como nada já não tem hoje, nenhum significado não negativo.

O único caso em português que não é originalmente uma dupla negativa e que se pode considerar inalterado desde há muito tempo é o de nenhum/ns (a/as), que é de facto sempre substituível pela expressão que llhe dá origem, nem um/ns(a/as)e que há até quem (muito poucas pessoas, eu sei, mas conheci algumas) continue a pronunciar exatamente como nem um

Mas, enfim, a verdade é que não é necessário saber porque é que um fenómeno linguístico é como é para constatar que ele existe. E a dupla negativa é um facto inegável nas línguas latinas desde sempre.

Agora, a minha experiência é que, em geral, é difícil argumentar com pessoas que defendem a estranha ideia que aqui critico, porque não se interessam muito por questões de língua, apenas por impor uma regra que decidiram adotar, vá lá saber-se porquê – até porque ela não figura em nenhuma gramática normativa que eu conheça. Contra essa tão rígida convicção, mesmo a apresentação de abonações de escritores considerados modelares no uso do idioma pode ser infrutífera. Uma vez, quando, após uma busca de poucos minutos, apresentei abonações de duplas negativas por Camilo Castelo Branco, Ramalho Ortigão e Luís de Camões, o meu interlocutor rejeitou-as como erros dos escritores. 

Mas, como se trata aqui de insistir, agora, em dois ou três minutos, encontro, nas Viagens na minha terra, de Almeida Garrett,

«O meu novelo, filha: não posso estar sem fazer nada, faz-me mal.»

«Mas eu não tenho ódio nenhum a Vila Franca, nem a esse famoso círio que lá foi fazer a monarquia.»

« … porque Addison não põe nada acima da modéstia»

«… depois desta desgraça não me importa já nada»

« Mas não viu nada: o nobre Marquês sempre soube esconder o seu jogo.»

N’Os Maias, de Eça de Queirós, encontro imediatamente

«Nenhum desejo forte parecera jamais vibrar naquela alma meio adormecida e passiva»

«– Sem contar que o pequeno está muito atrasado. A não ser um bocado de inglês, não sabe nada... Não tem prenda nenhuma

«– O Sr. Baptista não tem gosto nenhum

«Não inspira nenhum respeito pela minha ciência.»

«Carlos não sabia, essa manhã não vira jornal nenhum

− Então não lhe digam nada – gritou o marquês.»

E podia continuar com muitos mais citações destas duas obras e de todas as obras de todos os grandes escritores da língua portuguesa, porque, neste tipo de frases, a dupla negativa é tudo o que há — fora talvez de certas liberdades poéticas que eu não me lembro de ter alguma vez encontrado... Continuo a pedir a quem critique a dupla negativa que me apresente abonações do uso que consideram correto por bons utentes da língua. Até hoje, nunca ninguém me mostrou nem uma frase que fosse (ena, tantas negativas!) de um grande escritor que tivesse escrito algo do estilo de 

– *Uma pessoa não aprende alguma coisa ou

– *Uma pessoa aprende nada,

em vez de 

– Uma pessoa não aprende nada

Já agora — mas porque insistes tu, Vítor, porque insistes tu? — note-se que «uma pessoa não aprende alguma coisa» até é uma frase possível, num contexto como

– Se aprendi alguma coisa com a minha professora? Ora, com uma professora como ela, uma pessoa não aprende alguma coisa, uma pessoa aprende tudo o que há para aprender!.

Da mesma forma, «uma pessoa aprende nada» também é possível, num contexto bastante Zen como

– Com a paragem do diálogo interno, uma pessoa aprende nada, aprende vazio, aprende essência sem substância, a comunhão com o Todo pela anulação da Mente...

Não há nada impossível. Se for mesmo isto que se quer dizer...

E a propósito, nesta frase do parágrafo anterior,

Nãonada impossível

pela tal lógica matemática, deve cortar-se não e im-, que se anulam, e escrever

– Há nada possível?

E já agora, mais algumas perguntas aos detratores da concordância negativa:

– Mais do que nunca, sinto-me incapaz de não dizer senão a verdade

é uma frase negativa ou positiva? Eliminando a concordância negativa, como ficaria? E

Não haverá nunca ninguém que não deixe de se pronunciar sobre coisas de que, por não ter pensado nelas o suficiente, não sabe que chegue para não dizer disparates?

Não duvido que haja quem não tenha nunca pensado no que eu o escrevo, senão não o escrevia ?

Na frase

Não creio que ela saiba nada de negativas,

aceita-se a concordância negativa porque o escopo das negativas é diferente nos dois casos (eu não creio e ela não sabe)? E, se não se aceitar, qual é a lógica disso, se só há uma negativa para cada verbo?

– Se escrevermos as palavras «absolutamente nada» de trás para a frente, obtemos «adan etnematulosba», o que não significa absolutamente nada.  

Como se escreve esta frase com a norma de eliminação da concordância negativa? 

Esta última era a brincar, embora fosse a brincar a sério. Deixei-me levar, não liguem. E notem, porém, que não sou radical ao ponto de recusar construções como (é o que faz o Dicionário Huaiss

– Embora ferida, não recebeu qualquer ajuda da polícia

considerando que, em bom português, tem de se escrever

– Embora ferida, não recebeu nenhuma ajuda da polícia

e nem sequer recuso frases como 

Não estou de forma alguma disposto a pactuar nesta questão

que alguns puristas consideram galicismo, achando que, em português correto, se deve dizer e escrever

Não estou de forma nenhuma (ou nenhuma forma) disposto a pactuar nesta questão

Acho que são construções perfeitamente consagradas pelo uso, ao contrário das que aqui recuso.


Por fim, mais como digressão que conclusão, uma perspetiva diacrónica: naturalmente, a maneira como as línguas exprimem a negativa vai também evoluindo ao longo do tempo. E fá-lo segundo determinados padrões que resultam da diminuição da intensidade articulatória das partículas de negação ao longo dos tempos ou da criação de formas enfáticas de negação que acabam por se tornar as formas standards. Esta proposta de evolução cíclica, mais conhecida na versão do linguista dinamarquês Otto Jespersen, assenta na constatação de uma sucessão de fases que se observa em muitas línguas: 

(I) partícula negativa seguida de verbo; 

(II) partícula negativa seguida de verbo e de segunda partícula negativa; e 

(III) verbo seguido de partícula negativa. 

Roy Bualuan faz aqui (infelizmente só em inglês) um excelente resumo deste «ciclo de Jespersen». 

Quase todas as variantes do português estão atualmente na fase (I), com eventuais construções do tipo (II) para ênfase, como

– Ele não come nada, é um pisco

que não significa que a pessoa em questão não ingere alimentos em absoluto, senão já estaria morto, mas entende-se antes como «ele come muito pouco».

A fase (II) observa-se em variantes brasileiras com o redobro do não após o verbo, como em

Não sei não,

além de cadeias de concordância negativa, claro;

E, embora com menos frequência, observam-se também construções da fase (III), com um único não posposto ao verbo em variantes não-standard brasileiras:

– Dona Rute, aqui na rua? Conheço não, amigo

E, por agora, não tenho mais nada a dizer. 

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[1] Note-se que, embora não sejam termos negativos, any, anyone, anything, etc., não são termos positivos como o são some, someone, something, e não se usam apenas no escopo de um verbo negado, mas também no escopo de certos verbos não negados como em «he doubted he had seen anyone» — e não «he doubted he had seen someone»  *«I did’t see something» é tão agramatical como a frase que diretamente lhe corresponde em português, *«Eu não vi alguma coisa».

[2] Vejamos então, seguindo um raciocínio lógico, o que se passa quando digo, por exemplo, que

− A minha cadela está farta de saber que não pode trazer os ossos que lhe dou no quintal para dentro de casa, mas insiste, insiste, insiste sempre — não sei para quê, porque eu ponho sempre os ossos lá fora outra vez…

e a minha interlocutora comenta

− O que é que querias? Um cão é um cão, pá!

O que acontece é que uma mesma palavra pode significar várias coisas, por exemplo, referir um ser do mundo real ou a classe de todos os seres do mesmo tipo ou as características que o falante atribui a esse tipo de ser. O que a minha interlocutora diz, obviamente, é que «uma característica da espécie que não pode deixar de se aplicar ao teu cão é querer guardar os ossos no seu território e contra isso não há nada a fazer». As duas ocorrências da palavra cão têm, na sua resposta, significados diferentes.

[3] Há quem considere também que há dupla negativa nas frases em que um dos elementos da predicação nega a negação da predicação, como em «isto não está incompleto», em que «incompleto» significa «não completo». Creio que, neste aspeto, todas as línguas funcionam da mesma forma. Neste caso, há dupla negação, o que resulta numa afirmação, mas é duvidoso que haja dupla negativa em sentido estrito. Se admitirmos que «incompleto» é «não completo» e que, por isso, há duas negações na frase, como muitas palavras têm antónimos, mais ou menos perfeitos e mais ou menos graduáveis,  teremos de admitir que há dupla negativa em (i) frases como «esta folhagem não é caduca» ou «ele não está morto» (mas como se determina qual é o valor não negado em pares de adjetivos como «caduco» e «perene» ou «morto» e «vivo»?); (ii) em frases como «ele não é imberbe», por muito que «berbe» não exista; e (iii) em frases sinónimas da frase com a pretensa dupla negativa, por exemplo «isto não está por terminar» em vez de «isto não está incompleto» — e acho que ninguém o faz…

[4] Há até línguas em que tradicionalmente se usam,  sobretudo no discurso mais formal, duas negativas antes do verbo em contextos específicos:

Nada é gratuito, tudo tem um preço e ninguém pode negar que me esforcei

diz-se, em catalão e francês, respetivamente,

Res és gratuït, tot té un preu i ningú pot negar que m’hi he esforçat e

Rien est gratuit, tout a un pri et personne peut nier que j’ai fait un effort,

mas também se pode dizer e escrever (alguns puristas dirão que se deve...) 

Res no és gratuït, tot té un preu. Ningú no pot negar que m’hi he esforçat e

Rien n’est gratuit, tout a un prix. Personne ne peut nier que j’ai fait un effort

O mesmo fenómeno existia em português medieval, em que se documentam frases como «nehūu scapou nen nehūa cousa que na vyla ouvesse» e também em inglês médio (Chaucer: «He nevere yet no vileynye ne sayde», palavra a palavra: «Ele nunca [ainda] nenhuma vilania não disse»).  

Observa-se, curiosamente, uma construção parecida no português de Moçambique, que, não sendo ainda considerada standard, talvez se venham a fixar: em frases iniciadas com nem, com o sentido de «nem sequer», coloca-se um segundo não antes do verbo: «nem dinheiro para o chapa não tenho». 



Curgete


Notícias do quintal: estão os espargos a chegar ao fim (muitos espargos comemos em maio!), mas as curgetes começaram agora a dar e, como temos quatro plantas, vamos ter de apanhar curgetes quase todos os dias. Mas é praticamente a mesma coisa todos os anos e eu desenrasco-me sempre: se não arranjo dezenas de maneiras de cozinhar curgete, vou pelo menos metendo curgete em dezenas pratos, que é quase a mesma coisa. 

Isto a culinária é como tudo o resto, tem ondas. Houve alturas em que o prato com curgete que mais se comia cá em casa era ratatouille, mas normalmente uma ratatouille rápida, com os legumes ainda firmes. Depois houve um período de pastelinhos de curgete, não sei como lhes hei de chamar, assim uma espécie de peixinhos da horta com curgete ralada em vez de feijão-verde, mas com muito pouca farinha e só salteados em vez de fritos em óleo. Atualmente, porém — não é que a ratatouille e os tais pastelinhos tenham desaparecido, nada disso —, acho que os pratos com curgete que mais gosto de fazer são arroz de curgete e curgete com anchovas e alcaparras. 

O arroz de curgete à minha maneira faz-se assim: refoga-se bastante cebola e bastante curgete (não vale a pena picar muito fininho) em azeite, quando estiver bem refogado junta-se o arroz (de preferência, um arroz com bastante goma) e deixa-se absorver a gordura, deita-se um bocadinho de vinho branco ou vinho da Madeira, conforme prefiram mais ácido ou menos ácido, deixa-se o vinho evaporar e junta-se caldo de legumes. Não digo aqui nada sobre o sal, mas cada um é que sabe como gosta, se o caldo que utiliza já tem sal e se o queijo que vão utilizar mais tarde é muito salgado ou não.

Entretanto, enquanto o arroz coze, refoga-se mais curgete com cebola noutra frigideira. Mais curgete que cebola, desta vez, O melhor até é começar a refogar antes de começar o arroz, para dar tempo a esta porção de curgete e cebola de refogarem muito devagarinho, com o menos de coloração possível. Pode ir-se juntando água, se secar. E sal, se quiserem. 

Quando o arroz estiver quase pronto (não deve ficar muito seco, mas também não deve ficar a nadar em líquido) põe-se um bocado de queijo e, se se quiser, um bocadinho de nata. 

Passa-se com a varinha o refogado de curgete e cebola da outra frigideira e junta-se o creme resultante ao arroz. Verifica-se sal e junta-se um bom bocado de pimenta preta, de preferência moída na altura. 

Não tenho fotografias de arroz de curgete e é pena, porque fica muito bonito, mas tenho de curgete com anchova e alcaparras, que fiz ontem. Aliás, não é bem anchovas e alcaparras, porque não tinha anchovas cá em casa, é com molho de soja em vez de anchovas, uma alternativa possível. Mas com anchovas é melhor. 

A receita é muito simples. Corta-se a curgete em tiras muito finas. O melhor é usar a lâmina da mandolina para fazer tiras, como eu faço, mas também se pode fazer à mão, dá é muito mais trabalho. Salteiam-se as tiras de curgete num bocadinho de azeite a fogo muito brando durante alguns minutos e junta-se depois um punhado de alcaparras e de anchovas dessas de lata, salgadas, tudo picado. Deixa-se apurar mais uns minutos, retifica-se o sal e junta-se um pouco de pimenta preta. Também se pode pôr sal antes, mas a curgete vai largar água e a consistência fica diferente. Até se pode, se preferirem, pôr as tiras de curgete em água com um bocadinho de sal antes de as saltearem, vocês verão, depois de experimentarem, que maneira vos agrada mais. 

E bom proveito!



28/05/26

Recordações de infância: o amolador


A nostalgia coletiva é um fator de identidade. Um dos nossos vários círculos identitários é constituído pelas pessoas com recordações de juventude semelhantes às nossas: «E lembras-te de quando apareceram os iogurtes, naqueles boiões de vidro?»

Bem vistas as coisas, talvez não seja exatamente um círculo, mas sim vários, porque algumas destas recordações são muito locais («Lembras-te daquelas grandes tardes de futebol ali na praceta»?), outras são um bocadinho menos locais («E os homens que vendiam bolacha americana, lembras-te?»), e, no mundo moderno, outras são até bastante mais globais: «E do Bonanza, lembras-te? E do Santo?» «Perfeitamente. E do Ironside? A minha avó chamava-lhe «homem das rodas», não conseguia dizer Ironside.» 

E depois, há recordações que tendemos a considerar locais, quando na realidade podem ser partilhadas com gente de muito longe do território da nossa infância. A última vez que vi um limpa-chaminés, que, para mim já só existia nas minhas nebulosas recordações de infância, foi em Copenhaga há cerca de 25 anos. Já são raríssimos em todo o lado e podem recordar-se com a mesma nostalgia com que se recordam as primeiras calças à boca de sino.

Outro exemplo de algo que se pode recordar em conversas nostálgicas com alemães, italianos ou argentinos da nossa idade («Lembras-te?...») é a figura do amolador, uma figura que foi já comum em todo o mundo e que em todo o mundo está em vias de extinção, quando não está mesmo extinta... E que é o tema deste muito breve artigo, em que pouco mais faço que juntar aqui algumas fotografias e alguns vídeos. Não há nada mais irritante que lâminas que não cortem, não é verdade?

Evidentemente, os amoladores não foram sempre iguais em todos os tempos e lugares — e não se anunciaram, nem anunciam, todos com o mesmo som. O som é, curiosamente, o que primeiro me vem à cabeça quando penso num amolador. E o som que eu associo ao amolador da minha infância, a escala ascendente e depois descendente numa flauta de Pã de plástico, parece ser comum, com muito pequenas variações, aos amoladores de línguas ibéricas, dos Pirenéus à América Latina. 

Em França, ao que consegui descobrir, os amoladores de antanho anunciavam a sua passagem não com uma flauta de Pã, mas sim com um sino. E andavam, como em muitos outros países, com carrinhos de mão. Quase de certeza também em Portugal, antes do meu tempo, mas não sei..

Também nunca tinha ouvido falar, antes da pesquisa que fiz para este texto, de carrinhos de amolador puxados por cães, que parece que eram comuns nalguns países.

As pessoas da minha geração de vários países, porém, provavelmente já só se lembram de amoladores de bicicleta, motorizada ou furgoneta. A minha mulher, dinamarquesa, diz que os da juventude dela andavam de ciclomotor.  Uma enciclopédia sueca em linha, por exemplo, diz que, antigamente, os amoladores «tinham geralmente equipamento móvel, frequentemente sob a forma de uma bicicleta adaptada em se que acionava a pedra de amolar com os pedais» — exatamente com os que eu conheci em Portugal. 

O verbo português amolar não perdeu o l intervocálico latino, como perderam , moer ou moinho, que são parentes próximos. As palavras para designar o amolador são semelhantes à portuguesa em várias línguas romances e têm todas relação com (mola- , em latim), como em português: amolador ou amolanchín existem em espanhol, a par do mais comum afilador; em catalão diz-se esmolet, esmolaire ou esmolador; em occitano  amolaire ou amoulaire; mołeta em véneto; ammulatóre em tarentino; ammuola forbece («amola-tesouras») em napolitano; e ammola/ammula cuteddi («amola-facas») em siciliano. Em galego, porém, que é a língua mais próxima do português, amolador diz-se afiador

É interessante notar, a propósito, que encontrei em vários sítios a informação de que, em Espanha, os amoladores vinham quase sempre da província galega de Ourense.  A Wikipédia em galego também dá conta deste fenómeno (traduzo eu): «O ofício consolidou-se com especial intensidade na Galiza interior, documentando-se a presença de amoladores ambulantes pelo menos desde finais do século XVII. A maioria procedia de zonas rurais da província de Ourense, onde o trabalho de amolador funcionava como estratégia económica complementar à agricultura.»

Os amoladores galegos chegaram até a criar um calão profissional, o barallete, para não serem compreendidos pelas outras pessoas. 



P. S. 1: É interessante constatar que ainda há quem decida lançar-se com entusiasmo numa profissão que geralmente se considera condenada a desaparecer. É o caso de Gaël Charlot, na província francesa dos Altos Alpes. Não posso inserir aqui o documentário sobre este jovem amolador, mas podem vê-lo no YouTube  (só em francês, sem legendas disponíveis).

P.S. 2: Também há canções sobre amoladores. Deixo aqui três, uma argentina, uma italiana e uma francesa. A primeira é uma valsa ranchera de 1932, pela «voz romântica do tango», Agustín Magaldi; a segunda é de Luciano Tajoli e foi editada em 1951; e a terceira é de 1952 e é cantada por André Claveau.

P.S. 3: O mais completo repositório de imagens sobre o ofício de amolador que encontrei é 12 Eeuwen Scharensliep («12 séculos de amoladores»), um vídeo de quase uma hora. Infelizmente, as legendas explicativas são só em neerlandês. O vídeo é feito com uma sequência de fotografias, pinturas e desenhos de várias épocas e vários sítios, e mostra todo o tipo de amoladores, fixos ou ambulantes, incluindo carrinhos de vários tipos. A partir de 30:00 e até 43:40, é intercalado um filme alemão (também só com legendas em neerlandês) que mostra o processo tradicional de fazer uma pedra de amolar. 

P.S. 4:  A página da Wikipédia sobre o ofício existe em 23 línguas, com quantidades de informação variáveis. A página em inglês é a mais completa.

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As fotografia são Wikimedia Commons. 1. Amolador em Amersfoort, Países Baixos, 1909: 2. Amolador em Marselha, s.d., início do séc. XX; 3. Amolador e cliente, Alemanha, 1939, foto de Richard Peter; 4. Amolador com carrinho puxado por um cão, França, postal de 1908; 5. Bicicleta de amolador e menina turista, Caorle, Itália, 1958, foto de Karl Oppolzer.









27/05/26

Uma piada algo pateta, descobertas forçosas e fatores hereditários da infertilidade


«É científico, Tintim! A infertilidade é hereditária.
Se os seus pais não tiverem tido filhos, 
você também não terá!»
Encontrei noutro dia numa página humorística no Facebook a piada aqui à direita (evidentemente, o texto não é de nenhum livro do Tintim, foi posto na imagem pelo autor da piada). 

Ora eu tinha feito a mesma piada numa rubrica humorística de um programa de rádio em que participei nos anos oitenta. Era uma «entrevista» com um «cientista» (eu), que afirmava ter finalmente descoberto a causa da infertilidade e que dizia o mesmo que se pode ler na imagem ao lado, acrescentando ainda qualquer coisa como «E, nos casos em que se revelou que, afinal, nem o pai nem a mãe eram estéreis, a mãe não tinha tido a filha ou o filho com o pai dessa filha ou desse filho, mas antes com outro homem que, esse sim, era estéril.» O que a gente se diverte na juventude… 

***

Uma das maneiras de se definir a especificidade da ciência relativamente a outras áreas de trabalho intelectual é o caráter forçoso das suas descobertas. Neil deGrasse Tyson, ao estabelecer uma comparação entre a criatividade em ciência e nas artes, diz que, nas artes, ninguém que tenha nascido antes ou que venha a nascer depois de um(a) determinada/o artista criou ou criará a mesma coisa que essa/e artista, ao passo que, em ciência,  «posso descobrir alguma coisa no universo, mas, se eu não descobrisse, alguém depois de mim descobriria exatamente a mesma coisa».  E isto porque, ao contrário da arte, que é «uma expressão única do indivíduo», «a ciência é a descoberta das condições naturais pré-existentes».

Parece-me que ele tem toda a razão e há, de facto, descobertas científicas múltiplas independentes. Num texto em que refletia sobre a questão, referi, como exemplos óbvios, as manchas solares e o oxigénio.  Agora, isto não é exclusivo das descobertas científicas. No mesmo texto, falava também exemplos de invenções múltiplas independentes, que, por não serem descobertas científicas, tinham tido formas muito diferentes das várias vezes que foram inventadas, como é o caso da a escrita. E referia também uma invenção minha, a expressão «do prado ao prato» para traduzir «from gate to plate», que, vim a saber pouco tempo depois de a criar, também já tinha sido inventada por outras pessoas. Noutro texto da Travessa (a propósito doutra brincadeira, a água liofilizada, que inventei para o programa de rádio atrás referido e que, mais uma vez, não fui o único a inventar...), discutia até a possibilidade de aferir o grau de criatividade de qualquer ideia a partir, precisamente, do número de ocorrências independentes: «Quanto menos vezes [uma ideia] tiver ocorrido autonomamente, mais genial ela é.» A minha tradução «do prado ao prato» não era, pelos vistos, nada genial, como também não era  muito genial — vejo agora, mas já calculava... — a minha piada da infertilidade herdada. 

Agora, o mais interessante disto tudo é que, apesar do pueril paradoxo que está na base desta piada, é mesmo verdade que algumas doenças ou alterações genéticas suscetíveis de causar infertilidade podem mesmo ser herdadas, da mesma forma que se herdam outras doenças de que os progenitores não sofrem; e até que problemas de baixa fertilidade nos homens podem ser diretamente herdados dos pais: filhos de homens que tenham tido necessidade de tratamentos de fertilidade para procriar têm mais possibilidades de ter de recorrer eles próprios a esses mesmos tratamentos para terem filhos. (Ver um resumo desta questão aqui, mas é fácil encontrar na Internet informação sobre o tema.)

(Quando eu era rapaz, também se dizia de uma rapariga de peito pequeno que «saía ao pai», mas sendo o tamanho do peito um traço poligénico, como a cor dos olhos, forma do corpo, cor do cabelo, etc., resulta provavelmente de uma combinação de genes de ambos os progenitores, de maneira que, em princípio, os genes do pai contribuem tanto para um peito pequeno como para um peito grande, não é verdade?)


19/05/26

Diferenças de género entre o português e o castelhano e alguns comentários a propósito

 

É mais fácil aprender línguas mais parecidas com a nossa língua que línguas menos parecidas. Isto dito assim parece uma grande lapalissada, mas há muito quem tente difundir a ideia de que há línguas fáceis e difíceis para toda a gente, de maneira que é sempre bom insistir um pouco no que talvez seja óbvio para algumas pessoas. Agora, mais fácil  não significa «fácil». Nunca é fácil aprender uma língua. E mesmo uma língua tão próxima do português como o castelhano pode ter, para nós, algumas dificuldades. 

O tema deste texto não é uma das maiores dificuldades do castelhano. Mas há umas quantas palavras castelhanas que, sendo cognatas de palavras portuguesas e tendo, por isso, formas semelhantes, são de género diferente. Às vezes, achamos isso estranho, ás vezes engraçado, mas estas diferenças de género existem, enfim, e temos de habituar-nos a elas ao falar castelhano.

Exemplos de palavras comuns femininas em castelhano e masculinas em português são la ducha, la leche, la miella narizla risa, la sal, la sangre, la señal e la sonrisa, e palavras em -umbre que correspondem a palavras portuguesas em -ume, como la costumbre e la legumbre. Vislumbre é uma exceção nesta lista: pode ser masculino ou feminino em castelhano e não há *vislume em português... A palavra portuguesa vislumbre é importada do castelhano e fixou-se no género masculino na nossa língua. 

É de notar também os nomes femininos de várias máquinas terminados em -dora, que têm correspondentes masculinos em português: aspiradoracomputadora, grabadora e secadora

Quanto às palavras masculinas em castelhano e femininas em português, algumas das mais comuns são el análisis, el árbol, el equipo, el estante, el fraude, el frente, el lente, el orden, el origen, el partido [desportivo] e el puente, além das palavras em -aje que correspondem a palavras portuguesas em -agem, como el aprendizaje, el coraje, el garaje, el mensaje, el paisaje, el viaje, etc., e algumas palavras em -or, como el color, el dolor, el honor, etc.

Além disso, há, em castelhano standard, várias palavras que podem ter os dois géneros sem serem comuns de dois. Listo aqui as três mais importantes:

Azúcar é uma das palavras que pode ter os dois géneros. Na Europa, é preferida a forma masculina, na América quase sempre a forma feminina.

Arte também é um caso curioso: a palavra pode ser feminina ou masculina, mas algumas das expressões cristalizadas em que aparece juntamente com um adjetivo são sempre de um ou do outro género. Por exemplo, arte poética, bellas artes e malas artes são sempre femininas; e são sempre masculinas arte abstracto, arte figurativo, arte pop, el arte por el arte e sé(p)timo arte, entre outras expressões.

Mar também pode ter dois géneros, sendo o feminino mais literário ou formal. Há casos, porém, em que mar é sempre feminino, como sejam as expressões alta mar, mar ancha e mar larga, que significam todas «alto-mar», e expressões para descrever o estado do mar, como mar cerrada, mar llana, mar rizada, etc. É claro, a palavra mar em português também seria às vezes feminina se baixa-mar, preia-mar ou praia-mar fossem consideradas pares de palavras separadas, com mar e os adjetivos baixa e preia/praia ...  

Há mais palavras que podem ser ser masculinas ou femininas em castelhano, mas nenhuma delas é muito comum. O fenómeno é raro em português, mas não tão raro como eu pensava até há pouco tempo. Descobri que os dicionários registam apenas o duplo género de componente, avestruz e cólera (doença), mas sei que, na prática, se verifica instabilidade no género de outras palavras, como auto-estrada, diabetes, enzima, grama e derivados (quilo-, hecto-, etc.), e matiz, das que agora me vêm à mente.


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Diferenças de género entre o português e o castelhano 

Até aqui, dei só exemplos, mas deixo agora aqui, para consulta, uma lista o mais exaustiva possível de diferenças de género entre o português e o castelhano. É uma lista que comecei há 27 anos e que está em permanente atualização, à medida que vou descobrindo mais.

Nomes femininos em castelhano e masculinos em português

la alerta = o alerta
la altamar = o alto mar. 
la aspiradora = o aspirador
la baraja = o baralho
la brea = o breu
la cárcel = o cárcere
la centésima [de segundo, etc.] = o centésimo
la computadora = o computador
la costumbre* = o costume
las cuartas de final [de competição desportiva] = os quartos de final
la cumbre* = o cume
la décima [de segundo, etc.] = o décimo
la diadema = o diadema
la diapositiva = o diapositivo
la(s) dote(s) = o(s) dote(s) na aceção de «dons, qualidades». De resto, a palavra castelhana pode ter os dois géneros. 
la ducha = o duche
la escuadra = o esquadro. Apenas na aceção de «esquadro»; a palavra escuadra corresponde também a esquadra nos outros sentidos.
la espora = o esporo
la grabadora = o gravador
la guía [livro] = o guia. O uso de feminino em português é muito raro e nem está consagrado em todos os dicionários. 
la hectárea = o hectare
la labor = o lavor; o labor
la leche = o leite
la legumbre* = o legume
la lumbre* = o lume
la masacre = o massacre
la miel = o mel
la nada = o nada
la nariz = o nariz
la paradoja = o paradoxo
la pesa  [para balanças, ou em ginástica e halterofilia]= o peso.
la pez = o pez. Não confundir com el pez , «o peixe»
la posguerra = o pós guerra 
la postal = o postal
la protesta = o protesto
la risa = o riso
la sal = o sal
la sangre = o sangue
la secadora = o secador
la señal = o sinal
la sonrisa = o sorriso
la tilde = o til

Nomes masculinos em castelhano e femininos em português

el (psico)análisis = a (psic)análise
el aprendizaje** = a aprendizagem
el árbol = a árvore
el armadijo = a armadilha 
el avestruz = a avestruz. Sei que os dicionários aceitam os dois géneros em português, embora, no meu português, a palavra seja sempre feminina.   
el calambre = a cãibra
el candor*** = a candura
el cassette = a cassete
el centinela [comum de dois em castelhano] = a sentinela [só feminino em português]
el cerco = a cerca. Também se pode usar cerca com o mesmo signficado e  cerco pode corresponder também ao português cerco , p. ex. a uma cidade.
el cólera [doença] = a cólera. Sei que os dicionários aceitam os dois géneros em português, mas creio que o cólera é uma forma caída em desuso
el color*** = a cor
el conducto [de água, por exemplo] = a conduta. A palavra conducta , no sentido de comportamento, é feminina como em português.
el coraje** = a coragem
el dolor*** = a dor
el engranaje** = a engrenagem
el equipo = a equipa
el espesor*** = a espessura
el estante = a estante
el estreno = a estreia
el forraje** = a forragem
el fraude = a fraude
el frente = a frente, nas aceções militar, política e meteorológica. Quando significa «testa» ou «face», a palavra  frente é feminina. 
el garaje = a garagem
el honor = a honra
el insomnio  = a insónia
el iris = a íris
el lenguaje** = a linguagem
el lente = a lente
el maratón  = a maratona
el margen = a margem. A palavra margen , na aceção geográfica, pode ser dos dois géneros, mas, nos outros sentidos, é sempre masculina.
el matiz = a matiz
el mensaje** = a mensagem
el orden = a ordem. Na aceção religiosa ou de «instituição civil ou militar», orden é feminino.
el origen = a origem
el paisaje** = a paisagem
el partido [desportivo] = a partida. Em castelhano europeu, a palavra partida também existe, mas usa-se para o conjunto das várias mãos de uma competição.
el pasaje** = a passagem
el pétalo = a pétala
el puente = a ponte
el rezo = a reza
el riego = a rega
el sino = a sina
el trueque = a troca
el vals = a valsa
el viaje** = a viagem
 
** = Os nomes castelhanos em  - aje , masculinos, correspondem muitas vezes a nomes portugueses em  agem, femininos.
*** = Os nomes castelhanos em -or , masculinos, correspondem a nomes sem género típico em português.

Palavras com dois géneros em castelhano e masculinas em português

azúcar = o açúcar. Azúcar pode ter os dois géneros em castelhano. Na Europa, é preferida a forma masculina, na América ocorre muitas vezes a forma feminina.
dote = o dote
gráfico, gráfica = o gráfico
mar = o mar. Mar é sempre feminino nas expressões alta mar , mar ancha e mar larga , que significam todas «alto-mar», e em expressões para descrever o estado do mar, como mar arbolada , mar cerrada , mar gruesa , mar llana , mar rizada , mar sorda e mar tendida .
terminal [de autocarro]   = o terminal. Em castelhano, terminal pode ter os dois géneros, consoante as regiões, quando se trata de um terminal de autocarros ou de computador. Quando se trata de um terminal elétrico, é masculino.
vislumbre = o vislumbre

Palavras com dois géneros em castelhano e femininas em português

armazón   = a armação
arte = a arte. Segundo o dicionário da Real Academia Espanhola, são sempre femininas as expressões arte cisoria («arte de cortar carne»), artes mayores, artes menores, arte metálica, arte métrica, arte poética, bellas artes e malas artes e são sempre masculinas as expressões arte abstracto, arte figurativo, arte mobiliar, arte pobre, arte pop, el arte por el arte e sé(p)timo arte .
enzima = a enzima  
frente = a frente, na aceção de «fachada»
margen = a margem. Na aceção geográfica, a palavra 
margen pode ser dos dois géneros, mas, nas outras aceções, é sempre masculina.
vodka = a vodka/vodca



14/05/26

A língua dos outros

Ouvi no outro dia alguém dizer mais ou menos o seguinte: 

«Quando queremos comunicar com os animais, tentamos ensinar-lhes a nossa linguagem − sons ou gestos que eles têm de reconhecer. É estranho. Como somos mais inteligentes, seria mais lógico que fôssemos nós a aprender a linguagem deles…» 

Não sei se a nossa maior inteligência nos torna melhores em compreender linguagens de outras espécies do que elas a nossa. O que é certo é que temos poder sobre os animais a quem queremos ensinar a nossa linguagem, e é por isso que o fazemos, não por nenhuma consideração de ordem prática.

***

Uma situação muito diferente, mas em que também se põe a questão da assimetria de poder, é a da aprendizagem de línguas no contacto entre povos. Que tenha sido Sexta-Feira a aprender a língua de Robinson Crusoe, e não o contrário, é um a priori numa relação que, como tem muitas vezes sido referido, se inscreve no ideário e imaginário coloniais: não há, evidentemente, nenhuma reflexão sobre quem deveria aprender a língua do outro, nem considerações de ordem prática sobre se seria melhor Sexta-Feira aprender inglês ou Crusoe aprender a língua dele, que nem sequer é nomeada. (Nem sequer ficamos a saber qual era o verdadeiro nome de Sexta-Feira, antes de Crusoe o batizar com um dia da semana…) Cabia simplesmente a Sexta-Feira aprender a língua de Crusoe. Ah, e falá-la mal, pois claro — é também esse o fado de quem é obrigado a falar a língua que lhe é imposta. Como teria falado Crusoe a língua de Sexta-Feira?


(Imagem: Robinson Crusoe and his man Friday, litografia publicada por Currier & Ives, ca. 1874. 
Library of Congress Prints and Photographs Division Washington.)

13/05/26

De hipocrisias


Dizia António Aleixo[1]

Só quando a hipocrisia
cair do seu pedestal, 
nascerá, dia após dia, 
um sol p’ra todos igual.

Em D. Juan , Molière põe na boca de D. Juan um louvor da hipocrisia que não pode deixar de ser entendido como uma crítica devastadora[2]:

SGANARELLE: Ora essa! Não acreditais em absolutamente nada e quereis, ainda assim, fazer-vos passar por homem de bem?

D. JUAN: E porque não? […] Isso deixou de ser vergonha: a hipocrisia é um vício da moda, e todos os vícios da moda passam por virtudes. A personagem do homem de bem é a melhor de todas as personagens que se pode interpretar. […] É neste favorável refúgio que quero abrigar-me e pôr em segurança os meus bens. Não abandonarei os meus doces hábitos; mas terei o cuidado de me esconder e divertir-me-ei sem dar muito nas vistas. Se vier a ser descoberto, sem mexer um dedo, verei toda a camarilha defender os meus interesses e serei defendido por ela contra todos. Enfim, é esse o verdadeiro meio de fazer impunemente tudo o que me aprouver. Tornar-me-ei censor das ações alheias, direi mal de toda a gente e só terei boa opinião de mim próprio.

A hipocrisia, na literatura e na vida real, é alvo de contumaz e veemente reprovação. A mim, porém, sempre me pareceu estranha essa tão espalhada sanha contra a hipocrisia. Deve mesmo ser colocada numa posição cimeira na lista dos crimes contra a igualdade ou a justiça? 

Creio que, o mais das vezes, a condenação da hipocrisia é a priori: as pessoas aprendem que a hipocrisia é má e não sentem nunca necessidade de repensar a questão — o que eu compreendo perfeitamente —, pelo que a sua condenação é um adquirido com sólidas raízes no senso comum.

Quando comecei a refletir sobre a hipocrisia, porém, não encontrei, nem nas minhas reflexões, nem em diálogos com outros, razões que justificassem a habitual veemência da sua condenação. Aliás, inicialmente nem sequer encontrei razões para a condenar. Pensei: se alguém disser que se deve fazer uma coisa e fizer o contrário do que afirma dever fazer-se, ou condeno a afirmação ou condeno a ação, pelo que, obviamente, concordo sempre com uma das duas — exceto em casos raríssimos em que não tenho uma posição relativamente a nenhuma delas. Um exemplo típico de dissonância entre o que se defende publicamente e as ações praticadas é uma pessoa afirmar que não se deve ter sexo fora do casamento e, mais ou menos às escondidas, praticar o que diz que não se deve. Agora, das duas uma: ou eu defendo o mesmo que essa pessoa, e condeno, por isso, a sua infidelidade conjugal, ou considero errada a prescrição da monogamia e condeno a sua afirmação. Por outras palavras, assentei em que o que posso avaliar moralmente são ações — incluindo afirmações de caráter moral, que são um tipo de ação. Parecia-me, porém, moralmente irrelevante criticar a incoerência entre aquilo que alguém afirma dever praticar-se e a prática real, porque essa incoerência não é, em si mesma, uma ação, nem sequer propriedade ou caraterística de uma ação.

De que falamos quando falamos de hipocrisia? 

A definição de hipocrisia em que baseei esta minha reflexão inicial («contradição entre o que uma pessoa apregoa que se deve fazer, e o que essa mesma pessoa faz — Que bem prega frei Tomás…») é uma definição claramente insuficiente, se não mesmo muito enviesada, e é esse o primeiro defeito que a reflexão tem. Dei-me conta disto ao diversificar os exemplos de contradição entre o que se diz e que se faz e avaliando até que ponto essa contradição é ou não criticada como hipocrisia. E às vezes não é. E, outras vezes, chama-se hipocrisia a outra coisa.

Voltando ao exemplo já referido (e que, por típico, vou continuar a usar ao longo do texto), uma pessoa que defenda a monogamia e tenha relações sexuais extraconjugais pode ser facilmente acusada de hipocrisia tanto por quem está de acordo com o que ela afirma dever fazer-se como por quem o não defende. Se, porém, uma pessoa defender o amor livre e se mantiver fiel a uma pessoa, creio que ninguém o acusará de hipocrisia. Parece, pois, que hipocrisia não se pode definir como sendo apenas toda a incoerência entre a moral que uma pessoa defende e as ações que efetivamente pratica. Pensei então, ao analisar estes exemplos, que podia há uma assimetria na aceitação à partida do que se diz e do que se faz, e que, para que alguém seja considerado hipócrita talvez seja preciso que a moral que preconiza, e que trai, seja dominante na comunidade em que essa pessoa vive — seja o que geralmente se considera «o bem». 

Este conceito de moral dominante parecia, contudo, ser algo elástico… Se uma pessoa pregar que é necessário que cada um de nós se empenhe individualmente na redução das emissões de dióxido de carbono e passar a vida a andar de avião, há, provavelmente, maior consenso quanto à sua hipocrisia que quanto à necessidade de reduzir as emissões de dióxido de carbono. A ideia de reduzir emissões de carbono talvez seja, porém, considerada positiva por alguém que a ache demasiado radical para a assumir. Uma pessoa que a prega será vista como estando a pregar «o bem», um pouco da mesma forma que uma pessoa pregando a caridade será vista como estando pregando «o bem» mesmo por quem não a considera seu dever, mas também não a considera errada. Agora, parecia-me que uma pessoa vegetariana apanhada a comer carne nas férias, alegando, por exemplo, que é muito difícil encontrar comida vegetariana onde está, seria mais facilmente considerada hipócrita por outra pessoa vegetariana do que pelas outras pessoas. Mas tinha dúvidas. 

Não me foi fácil encontrar exemplos de propostas morais que sejam completamente opostas à moral dominante. Poderíamos supor que uma pessoa defende publicamente o velho princípio proudhoniano de que a propriedade é um roubo e se revela, na prática, cioso da sua propriedade. Haverá quem a acuse de ser hipócrita? Provavelmente, sim, mas só por quem, como ela, defende, a anulação do direito de propriedade. Ou seja, neste caso, para que uma pessoa seja considerada hipócrita, pareceu-me ser necessário que o comportamento que ela diz defender seja também defendido por quem o considera hipócrita. 

Notei que outras vezes, porém, uma pessoa pode considerar que há hipocrisia relativamente à defesa de valores que não são dominantes nem de alguma forma considerados «bem» por essa mesma pessoa: ouvi, por exemplo, uma pessoa assumidamente de direita e que não defende de modo algum que se deva ter os filhos na escola pública criticar, por hipócrita, um político de esquerda que, dizia ela, «defendia a escola pública, mas tinha os filhos numa escola privada». 

Enfim, para ter uma ideia mais justa do que significa de facto hipocrisia/hipócrita teria de analisar um número muito maior de contextos orais e escritos em que o termo fosse utilizado, o que não sei se alguma vez chegarei a fazer... Chegado este ponto da reflexão, e mesmo não tendo chegado a uma definição de hipocrisia que abarcasse todas as suas utilizações, tinha constatado que a minha definição inicial era inexata.

E se hipócrita fosse um termo vago indicando apenas fingimento, sem mais, e que pudesse, por isso, ser usado em circunstâncias muito diversas[3]? Pareceu-me provável. 

Dos dicionários que consultei, em português e em línguas próximas, o do CNRLT é o que dá uma definição de hipocrisia mais completa e mais organizada , que cobre, de facto, as definições de todos os outros e que insiste, precisamente, na noção de fingimento. A primeira aceção é (traduzo eu): «Caráter de quem esconde a sua verdadeira personalidade e finge — na maioria das vezes por interesse — ter opiniões, sentimentos ou qualidades que não possui. (…) Sobretudo, fingimento de extrema piedade ou falsa devoção», como em «a hipocrisia dos fariseus ou de Tartufo». E a segunda aceção é: “Caráter do que carece de sinceridade, daquilo que está imbuído de fingimento e/ou duplicidade [«a hipocrisia de uma atitude, de uma promessa, de um olhar, de um sorriso»], nomeadamente o «carácter (de uma instituição) que reflete a má-fé das pessoas que estão na sua origem e/ou que a aprovam; carácter que tende a encobrir a realidade», como em «a hipocrisia das leis»[4].

Aliás, parece nem ser necessário que haja incoerência entre o que se apregoa e o que se faz. Em muitos casos, basta que haja incoerência entre o que se diz sentir e o que se mostra sentir. Por exemplo, parece-me muito possível a seguinte afirmação: «Ele diz que adora crianças, mas é tudo hipocrisia: não liga nenhuma ao neto, é incapaz de passar cinco minutos com a criança ou de a levar a passear com ele.» Ou seja, a hipocrisia, neste caso, é de facto uma mentira, mas uma mentira de uma pessoa sobre os seus sentimentos ou o seu caráter — que cria dissonância entre o que se diz ser e o que se revela ser. Mas será possível considerar hipócrita alguém que diz que adora futebol e se constata que nunca vai a um jogo, não compra jornais desportivos e não vê jogos de futebol na televisão? Creio que, neste caso, «mentiroso» talvez seja um epíteto mais provável para uma pessoa assim — mesmo que ele estivesse a tentar seduzir alguém dizendo-se apreciador de futebol. 

A conclusão desta breve tentativa de tentar definir o significado de hipocrisia através do seu uso real não foi muito animadora... E ainda não sei bem o que se quer dizer com hipocrisia…

Interesse e fraqueza

Nas definições do CNRLT que citei atrás, a expressão «na maioria das vezes por interesse» chamou-me a atenção para um facto simples que eu tinha deixado de lado na minha reflexão: pode também ser-se hipócrita por fraqueza ou cobardia , por não se ser capaz de assumir publicamente uma posição desviante em relação à moral dominante ou por não ter a força de agir de acordo com o que se considera ser correto. A hipocrisia que daqui resulta difere da mais difundida noção de «hipocrisia por interesse» no controlo que o hipócrita tem das suas ações. Para não fugirmos aos exemplos anteriores, pode acontecer que uma pessoa que não tenha a coragem de assumir publicamente que defende a liberdade sexual, ou até que a monogamia é impossível ou malsã, pratique às escondidas o que não tem coragem de assumir publicamente. E pode acontecer que quem ache sinceramente que deve praticar a monogamia não o consiga fazer, deixando-se cair em tentação contra as suas convicções.

Uma pessoa que defenda que a cobardia é, por si, um defeito, achará criticável esta hipocrisia, quanto mais não seja como falha de caráter, já que, para essa pessoa, todos têm o dever de assumir a responsabilidade do seu quadro moral, mesmo quando ele é desviante em relação à moral dominante; mas quem, como eu, ache que a cobardia, como a valentia e tudo o que fica no meio, acontecem n uma pessoa , acontecem a uma pessoa , estando fora do controlo da sua vontade, não achará criticável este traço de personalidade — não mais do que ser mais ou menos inteligente, forte ou fraco, introvertido ou extrovertido, dotado para a música ou não, etc. É natural que quem se sinta incapaz de assumir o que pensa ou de levar à prática o que acha correto sofra com isso e pode, por isso, considerar-se problemática esta situação. Mas como se a pode criticar moralmente?

Várias perspetivas morais

Parece-me que, num quadro moral assente numa lista de virtudes a priori que se devem cultivar, uma ética das virtudes , surge naturalmente uma crítica da hipocrisia, em qualquer das suas aceções, porque a hipocrisia revela, neste quadro, uma falta — de honestidade, sinceridade, integridade, coragem, etc. Mas, e se se preferir julgar o valor moral de qualquer ação ou padrão de ação a partir de princípios éticos universais? Ou se se preferir antes julgar a moralidade dos atos pelas suas consequências?

À partida, pode pensar-se que a hipocrisia assenta na mentira e, se se considerar que a verdade é, precisamente, um dos valores universais que deve presidir a qualquer código moral, a hipocrisia é condenável. Mas será que a hipocrisia é sempre uma mentira? 

Se se considerar hipocrisia dizer ou mostrar ter opiniões, sentimentos ou qualidades que não se tem de facto, então hipocrisia é mentira , simplesmente. Se se considerar antes que, para haver hipocrisia, tem de haver uma contradição entre o que se diz que se deve fazer e o que se faz de facto, o hipócrita só mente sobre a sua verdadeira posição moral se ela for contra aquilo em que conscientemente acredita: «Eu acho que se deve respeitar a monogamia no casamento…» é mentira se o hipócrita de facto não achar que se deve. Mas é interessante notar que não é necessário haver mentira para que haja hipocrisia. Uma pessoa que acredite realmente que não se deve ter sexo fora do casamento e tem sexo fora do casamento por fraqueza (por paixão, por exemplo), mas nunca nega que o teve, não mente, mas pode ser acusado de hipocrisia. Uma pessoa que acredite que não há mal em ter sexo fora do casamento, mas que nunca o afirma, aparentemente assumindo, por omissão, o que vigora na sua comunidade, por medo de que isso lhe cause problemas, insegurança ou conflitos, e que tem, de acordo com a sua convicção, relações fora do casamento, também não mente. Ou então considera-se que há mentira por omissão. Muitos consideram, porém, que a mentira por omissão é desculpável quando se trata de evitar consequências negativas da assunção da verdade. Evidentemente, é diferente não exprimir opinião sobre a fidelidade conjugal ou não exprimir opinião sobre um genocídio; e também é diferente ficar calado para agradar a um grupo de amigos, para não perder o emprego, para não ir preso ou para não ser morto. Haveria que analisar a mentira por omissão caso a caso…

Pode também acusar-se os hipócritas de ter uma moral dupla , o que viola, obviamente, a universalidade e a imparcialidade dos princípios morais [5] . A ideia é que o hipócrita não aplica a si próprio os princípios morais que aplica aos outros. Sem mais desenvolvimento, pelo menos, este argumento é muito discutível: que os hipócritas não cumpram os princípios morais que defendem não implica que defendam que a si próprios se apliquem outros princípios morais… 

Numa perspetiva consequencialista , há quem ache que a hipocrisia pode gerar cinismo, falta de confiança e ceticismo relativamente a ética e moral em geral, e decadência moral, incluindo desvalorização dos ideais que o hipócrita diz promover, sobretudo se vier de pessoas com posições de autoridade ou influência — modelos de conduta, portanto. Parece-me uma crítica sensata, na fração dos casos de hipocrisia a que se aplica: se as pessoas responsáveis por difundir normas (institucionais, morais, etc.), e/ou por as fazer respeitar, não seguirem elas próprias essas normas, espalha-se a perceção de que essas normas não são verdadeiras normas, apenas pseudopreceitos que se podem descartar sem problemas.

Mas enfim, não me parece, com isto tudo, que a hipocrisia seja o maior de todos os pecados e creio que há problemas muito maiores a resolver para que o sol nasça igual para todos. E depois, e isso raramente é referido, a hipocrisia é, em certa medida, necessária ou, pelo menos, recomendável. Ou, talvez melhor, deixem-me reordenar os elementos da frase: é necessária, ou pelo menos recomendável, uma certa medida de hipocrisia.

O lado positivo da «hipocrisia»

Sempre ouvi dizer que quando não se tem nada de positivo a dizer de alguém ou alguma coisa, é melhor não dizer nada. Trata-se, dirão alguns, de um apelo ao cinismo e à hipocrisia (fica ainda também por estabelecer a diferença exata entre os dois termos, que também se confundem às vezes no seu uso…). Não há dúvida de que quem considere que é dever de cada um revelar sempre o que pensa ou sente não pode deixar de criticar esta máxima. Mas a verdade é que, em última análise, é muito difícil viver-se num mundo em que todos revelem sempre o seu íntimo. É esse o terror, de facto, da leitura de pensamentos: não poder omitir julgamentos e afetos.

Imaginemos, por exemplo, que digo a alguém que me pede uma opinião sobre a sua muito empenhada tentativa de ser artista: «Não vou ser hipócrita, não gosto nada da tua pintura.» Não é o fim do mundo, mas é uma situação que se pode evitar. E responder com uma evasiva ou simplesmente mentir não revela forçosamente falta de caráter ou apenas vontade de agradar. Pode mostrar também alguma forma de respeito, ou, pelo menos, vontade de não magoar. Mas não falo só de mentiras destas (que, como referi atrás, nem sequer estou certo de que se possam considerar verdadeira hipocrisia), mas de todo o esconder de emoções, atitudes ou opiniões de que é feita a vida quotidiana, mostrando, em vez de irritação e desacordo, afabilidade. Todos encontramos a toda a hora coisas de que não gostamos nada e até mesmo que nos irritam. Mesmo quem achar que uma pessoa deve ter a coragem de assumir em público as suas opiniões, por muitos dissabores que isso lhe traga, não achará que se deve dizer a alguém que se ofereceu para nos ajudar a fazer a salada que nos irrita a maneira como ela está a cortar os legumes e nem, mesmo sem dizer nada, mostrar irritação. Deve-se, isso sim, sorrir e agradecer. Ninguém achará bem revelar, a uma pessoa que nos mostra, entusiasmada, uma canção de que gosta muito, que achamos a canção horrível. 

A lista é sem fim. A vida quotidiana está cheia de pequenas e grandes irritações causadas pelos outros e pequenos e grandes desacordos com eles. Há pessoas sem filtros, que revelam sempre o que sentem por coisas e pessoas, e isso é frequentemente problemático. Vale mais a pequena dose de hipocrisia necessária a tornar vivível o quotidiano. 




  

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[1] António Aleixo, Este livro que vos deixo. Lisboa: Ed. Notícia, 1994

[2] Molière, Don Juan, ou le Festin de pierre, Paris: Firmin-Didot et Cie, 1890 (traduzo eu) 

[3] Este significado mais vasto e mais simples derivaria, aliás, diretamente da etimologia última: o grego ὑπόκρισις ( hupokrisis ), significava «ato de representar; papel do ator». Há que ter sempre cuidado, porém, para não cair na chamada falácia etimológica — o significado atual de uma palavra pode não ser o significado do seu étimo, mas resulta antes da maneira como é usada agora pelos falantes da língua.

[4] Embora seja de louvar o rigor da divisão do conceito em duas entradas, podemos lidar com os dois conceitos à uma: a hipocrisia de uma atitude, promessa, olhar ou sorriso é a hipocrisia de quem age, promete, olha ou sorri, da mesma forma que a rapidez de um movimento é a rapidez de quem se move, etc.

[5] Aliás, em dinamarquês, língua em que não há um cognato de hipócrita , uma expressão que pode traduzir a palavra portuguesa é dobbeltmoralsk, «de dupla moral». Outras são skinhellig, literalmente «de santidade superficial», que quer dizer (traduzo a definição do dicionário) «que prega moral ardentemente, sem cumprir o que prega», e hyklerisk, deverbal do verbo hykle , que significa (mais uma vez, tradução da definição do dicionário) «mentir relativamente aos seus sentimentos e opiniões para obter a simpatia de outrem ou outros benefícios».

Ilustração: Grandville: « Misère, hypocrisie, convoitise », 1828 ou 1829, Wikimédia Commons, daqui

Notas ilustradas sobre algumas palavras do castelhano da América do Sul

 

Abarrotes

Uma mercearia é, nalgumas zonas da América Latina, uma tienda de abarrotes. Abarrotes são os produtos que a mercearia vende, comestíveis e não só. Se estabelecem intuitivamente uma relação entre abarrotes e o verbo português abarrotar, está a vossa intuição a funcionar bem. Mas a relação não é uma pessoa ficar a abarrotar por comer muitos abarrotes — não é bem essa a história das expressões… 

Joan Coromines   explica : barrote vem de barra; e de barrote vem abarrotar, que significava originalmente fixar a estiva (a primeira carga a entrar no porão) «enchendo os espaços vazios, primeiro com barrotes e depois com qualquer objeto, em especial artigos alimentícios, que ocupavam pouco espaço, donde abarrotes como nome destes fardos e, na América, dos artigos que eles continham, importados de Espanha na época colonial». O verbo abarrotar alarga depois o seu significado de «encher os espaços do porão, fixando a carga» para «encher completamente». 

Em português, é tudo muito semelhante. Alguns dicionários de português dão para abarrotar o significado «colocar barrotes; cobrir ou segurar com barrotes» e o de «encher completamente, atafulhar», que é o mais comum. Outros, porém, referem também o significado mais antigo da linguagem náutica: «atulhar os vãos da estiva com carga miúda», «encher os porões até às escotilhas». 

Ou fomos buscar o termo abarrotar ao castelhano (que é o que me parece mais provável e o que propõe Antenor Nascente no seu dicionário etimológico) ou eles a nós, ou evoluiu da mesma maneira nas duas línguas, que é o mais improvável. O que é certo é que, se de facto importámos abarrotar, não importámos o nome abarrotes — não se encontra em português. 

Empastado e empanadas

Em castelhano, pasta podia designar um tipo de encadernação (ver aqui, aceção nº 7), e empastar significava encadernar desta maneira; mas o significado do verbo alargou-se e acabou por se tornar sinónimo de encadernar em geral. Empastados são, pois, encadernações  — no caso da fotografia à direita de fotocópias de livros de estudo.

Empanada (cartaz do rés-do-chão) significa «empada» e até aí não há nada a dizer. É uma das diferenças gerais entre português e espanhol, a falta de uma sílaba na nossa língua, resultante da queda de uma consoante entre vogais e posterior fusão das duas vogais em hiato, como em, por exemplo, panadaria > paadaria > padaria com o primeiro a aberto. Mas o que se perde, creio eu, com esta evolução portuguesa, é a imediata ligação de empada a pão. Num caso como padaria, isso importa pouco, porque uma padaria é o sítio onde se vende pão, de maneira que a ligação está presente na cabeça dos falantes. Mas, em empada , não se ouve imediatamente que é algo que é metido dentro de pão. É claro, existe panar com uma relação óbvia [?] com pão, mas é uma coisa diferente. Curiosamente, no Brasil, ao que sei, empanar designa o que nós chamamos panar, envolver em pão ralado, e não fazer empanadas … Agora, haveria que perguntar aos falantes do castelhano se «ouvem» em empanada o pão que lá está dentro. «Ouvimos» nós o pão em panar ? Não sei…

Llanta 

A história da palavra llanta é curiosa: a palavra veio do francês jante, tal e qual como a palavra portuguesa jante 😊 E, como vem de jante, podemos ser levados a pensar que deveria ser antes yanta e que llanta seria o resultado de um erro natural e muito comum, a confusão das grafias de y e ll — já que, na grande maioria das variantes do coastelhano, se pronunciam da mesma maneira. Mas não. A ter sido erro, foi há tanto tempo que já ninguém se lembra dele e llanta é mesmo a forma considerada correta. Agora, houve sítios em que llanta, de designar a jante, passou a designar o que lhe está por fora, o pneu [!] — como talvez já tivessem percebido pela fotografia, porque furar jantes seria uma ameaça muito estranha… 

Já agora, jante, em francês, vem do latim tardio *gambita. Poder-se-ia supor que fosse alguma forma diminutiva de gamba, «jarrete do cavalo», que foi a palavra que deu  jambe, «perna» (e gâmbia, em português...) e que se tivesse feito alguma analogia entre as rodas dos carros e as pernas dos animais. É com estas suposições que nascem muitas falsas etimologias e, por isso, é sempre necessário ir ver o que escreveu quem estudou mesmo o assunto. De facto, a palavra gambita parece vir antes do gaulês cambita, que significava, precisamente… «círculo de madeira formando a periferia da roda»! 

Mistela

Mistela é uma daquelas palavras que, com variações mínimas, se encontra em todas as línguas mais próximas da nossa, incluindo o inglês, mas com um significado que não parece ter em português: o de «mosto de uva a que se adiciona aguardente». Aparentemente, a diferença entre uma mistelle como o Pineau francês e vinhos fortificados como o Porto, o Xerês, o Marsala ou o Madeira, entre outros, é que, na mistela, o sumo de uva não chega a começar a fermentar. Em francês, mistelle parece ser sinónimo da designação mais oficial vin de liqueur. Parece que a origem do termo é o italiano mistella, de origem óbvia (de misto) e que é através do castelhano que se espalha para as outras línguas. (É estranho: o CNRTL diz que a primeira atestação em castelhano é de 1914 , mas Coromines diz que é de 1822 ...)

Além deste primeiro significado, os derivados de mistella parecem ter, em castelhano, catalão e português, pelo menos, o significado de «bebida resultante da mistura de água, açúcar e temperos a uma base de vinho ou aguardente».

Não é difícil entender como, dos significados anteriores, deriva o significado mais comum em português atual, de «bebida de mau sabor e/ou de má qualidade, zurrapa» e desse o significado mais geral de «mistura desagradável, mixórdia». Muitos portugueses (como eu até muito pouco tempo) só conhecem estas duas últimas aceções do termo, pelo que não deixariam provavelmente de sorrir, se vissem uma mistela comercializada com esse nome.