18/04/26

Canções que referem outras canções #12: «Orly» e «Dimanche à Orly»


O último álbum de Jacques Brel, Brel (também conhecido como Les Marquises), saiu em 1977, um ano antes da morte de Brel e quando ele estava já muito doente. Na canção «Orly», Brel descreve, com a paixão que o caracteriza, uma despedida de dois amantes no aeroporto. Mas o possante refrão bem pode ser também sobre a sua própria situação, a consciência sofrida da iminência da morte: «A vida não poupa ninguém, e, porra!, é triste Orly ao domingo — com Bécaud ou sem Bécaud…»


 Ils sont plus de deux mille
Et je ne vois qu'eux deux
La pluie les a soudés
Semble-t-il, l'un à l'autre
Ils sont plus de deux mille
Et je ne vois qu'eux deux
Et je les sais qui parlent
Il doit lui dire « Je t'aime »
Elle doit lui dire « Je t'aime »
Je crois qu'ils sont en train
De ne rien se promettre
Ces deux-là sont trop maigres
Pour être malhonnêtes


Ils sont plus de deux mille
Et je ne vois qu'eux deux
Et brusquement il pleure
Il pleure à gros bouillons
Tout entourés qu'ils sont
D'adipeux en sueur
Et de bouffeurs d'espoir
Qui les montrent du nez
Mais ces deux déchirés
Superbes de chagrin
Abandonnent aux chiens
L'exploit de les juger

La vie ne fait pas de cadeau
Et nom de Dieu c’est triste
Orly, le dimanche
Avec ou sans Bécaud

O que Brel refere no refrão de «Orly» é a famosa canção «Dimanche à Orly», um sucesso de Gilbert Bécaud de 1963. A canção de Bécaud tem letra de Pierre Delanoë e não tem nada a ver com despedidas de amantes. Fala de alguém que, ainda rapaz, ia ao domingo ver os aviões em Orly, que o faziam sonhar; e que, mais tarde, já casado e com uma vida rotineira, continua a ir a Orly ao domingo e a sonhar com as viagens de avião que talvez nunca venha a fazer.


À l'escalier C, bloc 21
J'habite un très chouette appartement
Que mon père, si tout marche bien
Aura payé en moins de 20 ans
On a le confort au maximum
Un ascenseur et une salle de bain
On a la télé, le téléphone
Et la vue sur Paris, au lointain
Le dimanche, ma mère fait du rangement
Pendant que mon père, à la télé
Regarde les sports religieusement
Et moi, j'en profite pour m'en aller
Je m'en vais dimanche à Orly
Sur l'aéroport, on voit s'envoler
Des avions pour tous les pays
Tout l'après-midi, y a de quoi rêver
Je me sens des fourmis dans les idées
Quand je rentre chez moi la nuit tombée



As meias da Tove [Crónicas de Svendborg #55]

Tenho um amigo que usa sempre meias de lã, mesmo no verão, e até com sandálias. Hei de perguntar-lhe de onde lhe vem esse hábito. É capaz de o ter adquirido na África Austral, porque ele viveu no Zimbábuè, onde se vê às vezes gente de calções e botas — e meias grossas até ao joelho. Mas também é capaz de ser uma coisa dos dinamarqueses mais velhos: conheço um senhor que tem agora 100 anos e que me explicou que também usa sempre meias de lã todo o ano, todas feitas pela mulher dele. Eu também tenho vários pares de meias de lã feitas à mão e, embora só as costume usar quando está frio, sei que, de facto, não são mais quentes no verão que outras meias quaisquer. 

Há umas semanas, numa longa viagem de autocarro-cama, olhei para as meias de lã cinzentas que trazia calçadas e lembrei-me da Tove, que mas tinha oferecido. E escrevi uma nota no meu telefone, para escrever um texto — este — quando voltasse a casa e ao computador: «As meias da Tove». O que queria dizer «As meias que a Tove me deu.» Mas eu entendo-me.  

Agora, à laia de introdução, deixem-me contar-vos uma história de há uns anos, que não tem nada a ver com a Tove nem com meias de lã. Ao fim do meu primeiro estágio em apoio domiciliário, aprendi que nem tudo o que vem nos livros se deve sempre seguir muito à letra. Na escola, tinha aprendido que é expressamente proibido aos profissionais de saúde aceitarem individualmente presentes dos doentes. Podem fazer-se doações em dinheiro ou oferecer presentes em géneros a instituições (hospitais, secções de apoio domiciliário, lares, etc.), mas não a pessoas individuais. E quando uma doente minha quis oferecer-me uma garrafa de vinho pelo Natal, eu, inexperiente e fiel ao que me ensinavam na escola, recusei: que agradecia imenso, exatamente como se tivesse aceitado, que era de uma grande gentileza da parte dela e ficava muito sensibilizado, mas que, infelizmente, as regras eram regras e não podia aceitar. No dia seguinte, a minha supervisora de estágio chamou-me: 

− A Irene está inconsolável, pediu para falar comigo e tinha as lágrimas nos olhos: disse-me que tinha pedido à filha para lhe trazer de Copenhaga uma garrafa de vinho para ti e que tu não aceitaste o presente, porque era contra as normas. Enfim, é o teu primeiro estágio e eu percebo, mas agora vais aprender uma coisa que não vem nos teus manuais: o que é mesmo contra todas as normas da nossa profissão é deixar uma pessoa desolada recusando-lhe um presente que, para ela, é importante dar. De maneira que vais já a casa da I., aceitas a garrafa de vinho e pronto!

A partir daí, tive uma atitude menos rígida em relação aos presentes dos meus doentes. À Tove, não me passou sequer pela cabeça tentar recusar as meias, quando ela mas ofereceu. Fiquei muito contente e ela também e é assim que devem ser as ofertas.

A Tove tinha mais de noventa anos e vivia sozinha. Íamos lá a casa duas vezes por semana, para lhe esfregar as pernas com um creme, muito devagarinho, muito delicadamente, que as pernas, magríssimas e escamadas, doíam-lhe muito, muito!, e de quinze em quinze dias para lhe organizar os medicamentos em caixas diárias, manhã, almoço, jantar e noite. Estava sempre de boné de pala dentro de casa a fazer paciências de cartas na mesa da cozinha e tinha sempre as cortinas corridas. Contou-me que tinha nascido na Jutlândia e vindo aqui para a aldeia ainda rapariga, para trabalhar como criada de servir. E depois tinha conhecido um homem daqui e tinha-se casado e tinha passado a ser dona de casa — o que, se não lhe tinha alterado muito a vida diária, tinha aumentado muito o seu estatuto social. Quando o marido morreu, já há muitos anos, já os filhos eram adultos e se tinham mudado para Copenhaga, de maneira que ficou ali sozinha, naquela casa antiga de divisões pequenas, tetos baixos e telhado de colmo, e a vida dela era fazer paciências de cartas, comer alguma coisita de vez em quando e tricotar meias de lã, que vendia — e às vezes oferecia.

Vi-a pela última vez numa terça-feira de pesadelo. Tinha comigo uma colega nova, a quem estava a fazer uma introdução ao trabalho. Tinha, nessa manhã, uma visita extra à Tove. Uma colega minha tinha escrito, no dia anterior, que a Tove se tinha queixado de uma indisposição indefinida que depois lhe tinha passado e eu tinha de ir ver como ela estava. Num cruzamento perto da casa da Tove, vimos fumo a sair de uma casa. Era uma casa de um doente nosso e eu sabia que ele, paralisado, estava dentro de casa. Enquanto a minha colega ligava para os bombeiros, eu e mais uns vizinhos que tinham aparecido nessa altura corremos para socorrer o homem, mas era tarde demais: o interior da casa estava todo em chamas. Era impossível entrar e ele estava com toda a certeza já morto há algum tempo. Depois de um quarto de hora de horror, quando chegaram os bombeiros, seguimos então para casa da Tove. Podem imaginar o nosso estado de espírito.

Vamos encontrar a Tove no quarto, caída no chão, com um braço bastante esfacelado pela queda. Não responde quando a chamamos, mas reage ao contacto físico:

− Estou morta, não estou? Digam lá: morri, não morri?

Faço-lhe as perguntas habituais para avaliar a consciência. Sabe quem é, onde está, que dia é e sabe que que caiu. Também sabe quem eu sou. Só não sabe há quanto ali está caída no chão. Tentamos de várias maneiras levantá-la para a sentar, mas, de cada vez, começa a gritar muito. Queixa-se da coxa. Quando a apalpo, começa a gritar de novo. O que se faz numa situação destas é chamar o 112 e foi isso que eu fiz.

Soube depois que, afinal, não tinha nada partido. Nunca cheguei a saber o que é ela tinha, mas soube que nunca voltou a casa: morreu no hospital. 

Sou um bocadinho animista, acho eu: no meio dos milhares de objetos desalmados que se acumulam — que vamos acumulando — à nossa volta, há uns quantos que têm alma. São aqueles de que podemos contar histórias. Como as meias da Tove. As meias que ela me ofereceu, quero eu dizer — mas vocês tinham entendido… 


[Os nomes são fictícios, claro, mas a história é verdadeira, como indica, aliás, uma das etiquetas abaixo. Ilustração: Knud Holger Olsen: Quintal em Troense, óleo sobre tela, 1922, Wikimedia Commons, daqui.]


13/04/26

Uyuni

O salar de Uyuni (pronunciar uiúni), na Bolívia, é o maior deserto de sal do mundo, com uma superfície de mais de 10.000 km2. 

Pode dizer-se que não há lá muito que ver — quase só sal. E é isso que é impressionante: olhar à sua volta e saber que as montanhas que se avistam no horizonte estão a mais de 80 km, talvez a mais de 100 (o salar tem, em média, cerca de 125 km de comprimento por 85 de largura). E saber que a camada de sal que constitui a superfície do salar tem uma espessura de cerca de 10 metros e que, sob ela, há mais dez camadas, intercaladas com camadas de argila e lençóis de água muito salgada, com uma espessura total de cerca de 125 metros.


No parágrafo anterior, digo «quase só sal», porque há no salar algumas ilhas, restos de antigos vulcões, com solo de terra, onde cresce alguma vegetação, nomeadamente catos muito grandes. Estas ilhas são invisíveis da periferia do salar, o que deveria dar que pensar a quem acredita que a terra é plana. 


Uma dúvida:
Quando se entorna vinho na roupa, aconselha-se a pôr sal, para tirar a nódoa; 
mas como se tiram as nódoas de vinho no sal?







18/12/25

O que rima é o que não está lá…

[Este texto é uma versão revista e corrigida de um texto que aqui publiquei a 25.11.2013]   

Um dos recursos utilizados por filólogos e linguistas para reconstruir pronúncias antigas é a análise de rimas estranhas, que não funcionam na pronúncia atual, mas que provavelmente já funcionaram. Se, por exemplo, na carta em verso de John Donne a Lady Carew, escrita por volta de 1612, are rima com singular e war; e fear com forbear e there; grown com complexion e none; e several com circumstantial e all, um historiador da língua tem nessas rimas material muito interessante para cruzar com outra informação que possua sobre a pronúncia da época de John Donne no lugar de onde ele é originário. É claro, é preciso saber se o poema se insere numa poética de rimas rigorosas ou se aceita rimas aproximadas ou até «rimas para o olho», em que «rimam» as letras e não os sons. Mas, quem estuda essas coisas tem naturalmente, todos esses cuidados.

É um tipo de trabalho de investigação que já não se fará em relação ao estado atual das línguas. A maior parte dos dialetos de quase todas as línguas faladas no século XX está tão pormenorizadamente descrita e documentada com gravações que os linguistas do futuro não precisarão de se dedicar a esse tipo de exercícios. 

E isto tudo como introdução a uma bagatela, uma pequena curiosidade. Não deixa de ser interessante verificar que a imposição da pronúncia padrão pode esconder, às vezes, rimas que se adivinham – mas não estão lá… Em “Petisca daqui petisca”, do Conjunto António Mafra, o cantor não ousa (ou alguém não achou conveniente…) cantar com a pronúncia regional a palavra comilão, desfazendo assim uma rima que se adivinha com facilidade:

Petisca daqui, petisca, / petisca daqui, que é bom
Quem oferece o que petisca / mostra não ser comilão

_______________

* É claro, há atualmente muito trabalho sobre a pronúncia do inglês desta época, a chamada Primeira Fase do Inglês Moderno, pelo que quem, queira saber sobre o assunto não tem de partir da análise de rimas. Eis aqui o texto de Donne acima referido lido com a pronúncia da época. Não há consenso absoluto sobre todos os pormenores do inglês da época, mas há, ainda assim, um amplo acordo entre especialistas e a pronúncia que se ouve no vídeo é muito fiável. 


16/12/25

Turismo arquitetónico em Bispebjerg [Crónicas de Svendborg #54]


Bispebjerg é um bairro periférico de Copenhaga, nem propriamente rico nem propriamente bem-afamado, que não parece ser, à primeira vista, destino turístico. Mas é. E é-o porque está lá situada a Igreja de Grundtvig, um dos edifícios mais famosos da Dinamarca. 

A igreja e os edifícios que a rodeiam foram concebidos em 1913 por Peder Vilhelm Jensen-Klint, que supervisionou a construção desde o início, em 1921, até à sua morte em 1930. As obras, que ficaram depois a cargo do filho de Peder Vilhelm, Kaare Klint, só terminaram em 1940. A igreja é considerada um excelente exemplar de arquitetura expressionista.

Vivo na Dinamarca há muitos anos, conheço bem o país, interesso-me por arquitetura, vivi não muito longe de Bispebjerg, mas, vá lá saber-se porquê, nunca tinha ido ver a Igreja de Grundtvig. E no fim de semana passado, quando fui, a igreja estava fechada e não pude ver o interior, que é, toda a gente o diz, tão bonito como o exterior. Foi azar. E falta de organização, claro.

05 01 03 04


Agora, se um dia forem ver a Igreja de Grundtvig em Bispebjerg, aconselho-vos mais dois complexos arquitetónicos ali perto. Um é o Hospital de Bispebjerg, construído na maior parte entre 1906 e 1913. O responsável pelo projeto foi Martin Nyrop, um arquiteto da escola romântica nacionalista. Segundo o livro lançado nas comemorações do centenário do hospital, embora mantendo o seu estilo nacionalista, Nyrop deixa-se também influenciar por Art Nouveau, e por outros estilos muito mais antigos. O resultado é, na minha opinião, bastante simpático. E não parece muito um hospital, pois não?

IMG_3783 IMG_3784 IMG_3786 IMG_3788%20A IMG_3789%20A IMG_3791 IMG_3792 IMG_3794%20A

O outro complexo que aconselho a visitar se algum dia forem a Bispebjerg é Bispebjerg Bakke, a «Colina de Bispebjerg». É um conjunto de 11 prédios que contêm 135 apartamentos e se organizam em dois blocos. O que é curioso é que o complexo, construído entre 2004 e 2006, não foi originalmente concebido por arquitetos, mas sim por um escultor, Bjørn Nørgaard, que fez em barro os primeiros modelos do complexo, antes de entregar o trabalho de arquitetura propriamente dito à firma Boldsen & Holm. Além do tradicional tijolo dinamarquês, são usados materiais menos comum, como madeira nua e lajes de cerâmica vidrada. Não sei se o termo neomodernismo se pode aplicar com propriedade a Bispebjerg Bakke, mas as formas arredondadas fazem lembrar as experiências biomórficas de alguma arquitetura modernista. Seria interessante ver como se organizam os apartamentos por dentro. Sei que alguns se dividem por dois ou três andares. 

Sobre as imagens: As fotos da Igreja de Grundtvig são da Wikipedia, daqui, daqui, daqui e daqui. Não consegui, com o meu telefone, tirar boas fotos da igreja, além de que, como disse, não pude visitar o interior. Todas as outras fotos são minhas.


15/12/25

Dormência, hibernação

Ainda não houve este ano, aqui na Fiónia, nenhum dia de temperaturas negativas, nem isso é necessário para se sentir o peso todo do inverno. A escuridão marca o inverno mais que o frio.

Lá fora no quintal, está tudo preparado para hibernar. Já podei as árvores e já cobrimos a horta com um plástico que nos evita, quando a vida retorna à terra, muita erva daninha.  





14/12/25

A riqueza das línguas


Há sempre quem queira fazer contas à riqueza das línguas comparando o número de palavras dicionarizadas, nem sempre com os mesmos resultados (ver aqui, aqui ou aqui, por exemplo). Mas como é que se pode fazer isso quando a noção de palavra é tão vaga e os preceitos de dicionarização diferem tanto de língua para língua e mesmo entre os dicionários de uma mesma língua?

Há dicionários em que encontramos, a par do léxico standard da língua (que já é extremamente difícil de definir, se não impossível…), «estrangeirismos», «calão», gíria profissional e termos técnicos (incluindo, designações extensas de fauna e flora), palavras arcaicas e variantes regionais. Isto pode variar de dicionário para dicionário e pode criar enormes diferenças entre o número de palavras dicionarizadas: não fiz pessoalmente esta pesquisa, mas parece que há dicionários de português que têm oito vezes mais palavras que outros...

A questão do número de entradas de um dicionário leva-nos a perguntas interessantes, mas de impossível resposta. Por exemplo: lanche é uma palavra portuguesa? Se se aceita boate e boîte, devia também estar dicionarizada a forma antiga lunch, de quando a palavra foi importada? E cassetete? E hediondo e ex æquo? E se fenilcetonúrico está num dicionário, porque não está microvilositário? Se está laringotraqueobronquite porque não está lipofuscinose? Deviam estar estas palavras todas? Se pingarelho está no dicionário, não devia também estar pixavelho ou mesmo pixavilhómetro? Se está maçarico-bique-bique, não devia também estar jágara? Se está u, como arcaísmo, porque não está ende ou despobrado? Etc., etc. Alguns dicionários aceitam variantes regionais e ou socioletais de palavras. Deve considerar-se aventesma, abantesma e abentesma, por exemplo, três palavras ou uma só? Etc., etc.

E depois há a questão da estrutura das línguas: como comparar as línguas românicas com as línguas germânicas, se, nestas últimas, se faz de dois ou mais nomes outro nome, o que é muito raro nas línguas latinas. Num dicionário dinamarquês, vandresko, tennissko, sportssko, herresko e damesko, por exemplo, são entradas distintas, como em alemão Wanderschuhe, Tennisschuhe, Sportschuhe, Herrenschue e Damenschue, embora cada um destes termos seja constituído por sko ou Schue, «sapatos» e palavras que significam «caminhar», «ténis», «desporto», «senhor» e «senhora». Num dicionário duma língua latina, estes tipos de sapato não têm, obviamente, entradas próprias. Ora há línguas com muito maiores possibilidades ainda que as línguas germânicas de aglutinar em palavras maiores outras palavras mais palavras mais pequenas... 

A questão dos limites do conceito de palavra é sobremaneira interessante quando se trata de formas flexionais.  Tradicionalmente, não se consideram palavras diferentes as formas flexionais (em pessoa, tempo, modo, etc.) de um verbo, nem a flexão de género e número de um nome ou adjetivo (masculino/feminino e singular/plural), quando as há; mas há dicionários que as registam, reenviando depois para a entrada no infinitivo ou na forma considerada neutra do nome ou adjetivo, o masculino singular. Também há dicionários que registam as formas ditas de «aumentativo» ou «diminutivo» de nomes e adjetivos – e quando isto é feito sistematicamente, o resultado pode ser divertido, se não parecer apenas ridículo. Evidentemente, se considerarmos as formas flexionais, uma língua como o português tem muitas palavras cujas correspondentes diretas não existem numa língua como o mandarim, em que as formas verbais não mudam (a questão é muito mais complicada, mas essa conversa não cabe agora aqui), ou o inglês, que tem três formas para um verbo regular como to form, (form, forms, formed), ao passo que o português tem 49* para um verbo regular como formar. Por outro lado, uma língua como o português, com uma flexão de caso limitada aos pronomes, tem muito menos nomes que uma língua como o finlandês, que tem flexão de caso para os nomes: se considerarmos que eu, me e mim são palavras diferentes, então o finlandês, em que há 16 casos para cada nome, tem muitas «palavras» para cada palavra: a palavra talo, «casa», tem 26 formas** entre singular e plural, como se pode ver aqui.  

Por fim, embora haja outras maneiras, um pouco mais complicadas, de dividir as unidades que formam o léxico de uma língua, pensamos sempre em palavras, e vemos as palavras como uma unidade da escrita – como aparecem nos dicionários. Ora isto também é, em muitos casos, puramente convencional e a convenção seguida não é a mesma para todas as línguas, mesmo as muito próximas, ou até variantes da mesma língua. Há inclusivamente sistemas de escrita de certas línguas em que não se deixa espaço entre palavras (como acontece de facto em todas as línguas na oralidade...). Depressa, devagar, afinal, portanto, senão, etc., só são palavras por convenção ortográfica, podiam ser locuções. E as locuções de cor ou em cima só o são também por convenção, podiam ter-se tornado palavras. Evidentemente, isto não influi tanto como as questões referidas atrás no número de palavras dicionarizadas, que era a questão inicial, mas também vem à baila quando se repensa o conceito de palavra.

A (minha) conclusão é que palavra é uma palavra vaga demais para se fazer dela a medida da riqueza de uma língua. Outra conclusão é que não se deve tentar comparar o que não tem comparação. E a última é que, quando se fala de léxico (e não só...), ninguém sabe que línguas são mais ou menos ricas... 

______________________

* forma, formado, formai, formais, formam, formamos, formámos, formando, formar, formara, formará, formaram, formáramos, formarão, formaras, formarás, formardes, formarei, formareis, formáreis, formarem, formaremos, formares, formaria, formariam, formaríamos, formarias, formaríeis, formarmos, formas, formasse, formásseis, formassem, formássemos, formasses, formaste, formastes, formava, formavam, formávamos, formavas, formáveis, formei, formeis, formem, formemos, formes, formo e formou 
** talo, taloa, taloihin, taloiksi, taloilla, taloille, taloilta, taloin, taloina, taloine, taloissa, taloista, taloitta, taloja, talojen, taloksi , talolla, talolle, talolta, talon, talona, taloon , talossa, talosta, talot, talotta 


13/12/25

Duas aversões a… versões


Parece-me pacífico afirmar que as canções, como todas as obras de arte, têm sempre uma existência independente do que delas quis quem as criou. O mais que os seus autores podem é estabelecer algumas restrições a essa vida própria que as canções ganham. Um músico e/ou um letrista podem, por exemplo, proibir as suas músicas ou as canções de serem usadas numa campanha política ou publicitária. E acho muito bem. Mas ninguém pode proibir, também por exemplo, que a sua música seja utilizada como música de fundo em lugares públicos, por muito que ache que essa utilização constitua uma violação fundamental do seu projeto artístico. Quer dizer, não sei se tem a capacidade legal de o proibir, mas é uma proibição sem possibilidade de controlo e, por isso, sem possibilidade de penalidade, pelo que não chega a ser proibição nenhuma.

Pode também discutir-se, claro está, se um autor deve poder condicionar a forma como as suas obras hão de chegar a quem as recebe; ou se as adaptações da sua obra, de formas que ele não pode prever, não constituem um natural enriquecimento da sua obra. Etc. O facto é que a legislação em vigor nos vários países e a Convenção de Berna para a Protecção das Obras Literárias e Artísticas, com as suas posteriores adendas e especificações, prevê que carecem de autorização todas as reproduções, traduções e adaptações de uma obra, pelo que temos de concluir que todas as versões gravadas de uma canção são autorizadas, se não pelos autores, pelo menos pelos detentores dos direitos[1]. E uma pessoa não sabe, portanto, em certos casos, a quem se refere ao certo quando exclama «Oh, Deus meu, mas eles autorizaram mesmo estas versões?» É que há casos em que uma pessoa sente que alguém deixou ir longe demais o natural direito que uma obra tem a vida própria e se pergunta até que ponto é que as obras adaptadas são ainda versões das originais… E eu, por muito que não defenda um indefinível  respeito de uma também indefinível essência de uma canção, tenho algumas vezes aversão a certas versões. Duas das minhas maiores aversões: 

1

Patsy Gallant editou em 1975 uma versão já de si bastante inadmissível de “Mon Pays”, de Gilles Vigneault. Gilles Vigneault é um dos maiores cantautores quebequenses e “Mon Pays” é uma das canções históricas da identidade do Quebeque, uma canção que muitas vezes se refere como o hino informal da província. 

Gilles Vigneault: “Mon Pays”, 1966

Mon pays ce n’est pas un pays, c’est l’hiver
Mon jardin ce n’est pas un jardin, c’est la plaine
Mon chemin ce n’est pas un chemin, c’est la neige
Mon pays ce n’est pas un pays, c’est l’hiver

Dans la blanche cérémonie
Où la neige au vent se marie
Dans ce pays de poudrerie
Mon père a fait bâtir maison
Et je m’en vais être fidèle
À sa manière, à son modèle
La chambre d’amis sera telle
Qu’on viendra des autres saisons
Pour se bâtir à côté d’elle

[...]

De mon grand pays solitaire
Je crie avant que de me taire
À tous les hommes de la terre
Ma maison c’est votre maison
Entre mes quatre murs de glace
Je mets mon temps et mon espace
À préparer le feu, la place
Pour les humains de l’horizon
Et les humains sont de ma race

[...]

Mon pays ce n’est pas un pays, c’est l’envers
D’un pays qui n’était ni pays ni patrie
Ma chanson ce n’est pas une chanson, c’est ma vie
C’est pour toi que je veux posséder mes hivers

Independentemente da opinião que se tenha sobre Vigneault, “Mon Pays” e a identidade quebequense, esta versão disco é uma ofensa, senão ao Québec, pelo menos ao bom gosto. Pode agora discutir-se se a versão em língua inglesa que Gallant lançou em 1977, cuja letra não tem nenhuma relação com a letra original, é ainda de mais mau gosto ou não. A versão de Gallant tornou-se um hit internacional, mas não é de estranhar que, segundo li, tenha sido silenciada nas rádios do Québec. 

2

Outro caso é “Seasons in the sun”, a versão inglesa de Rod McKuen de “Le Moribond”, de Jacques Brel.

Jacques Brel: “Le Moribond”, 1961

Se a versão de McKuen e as várias interpretações que dela há são de qualidade muito variável[2], a versão que Terry Jacks lançou em 1973 e se tornou um êxito em todo o mundo é outro bom exemplo do que não se deveria poder fazer a uma canção.

Em ambos casos, é evidente que a esmagadora maioria do público desconhece as canções originais. E estou em crer (ou quero crer…) que quem as conhece sente pelas versões a mesma aversão que eu. Evidentemente, uma pessoa pode perguntar-se se as melodias dos refrães de ambas as canções (não sei se se pode falar mesmo de refrão em “Mon Pays”) não terão já na origem um caráter de popularismo imediato que não só permite como até talvez suscite estas versões. Talvez. Mas, mesmo assim…

___________

[1] A legislação dos EUA é diferente, para as versões de uma canção em que não haja nenhuma modificação do texto e da música originais, já que prevê, neste caso, licenciamento obrigatório, reservando-se o direito de aprovação pelos detentores dos direitos para adaptações da obra.

[2] Até à versão de Terry Jacks, as versões da canção são sobretudo por cantores folk da época: pelo Kingston Trio em 1963, pelo próprio Rod McKuen e por Alex Hassilev em 1964, por Nick Taylor em 1965 e por Bud Dashiell em 1968. A partir da versão dos Fortunes em 1968, a canção descamba quase exclusivamente para o formato pop de grande público e atinge o sucesso máximo na versão de Terry Jacks, que foi Top 1 em 20 países 


12/12/25

O que existe e o que não


Deparo-me com frequência, em conversas de amigos, conhecidos e desconhecidos, com a estranha asserção de que a realidade não existe, que o que tomamos por realidade não passa de uma leitura subjetiva do mundo, que há tantas realidades como mentes, etc. Às vezes, não é realidade no todo que é negada, mas antes categorias específicas que, pelo menos aos olhos de um realista como eu, constituem partes fundamentais duma realidade perfeitamente real. O tempo é, nomeadamente, uma dimensão da realidade que muitos gostam de pôr em causa: que é uma ilusão, algo sem matéria própria além do vivido de cada um. Etc. 

Neste descontraído solipsismo cabem também, muitas vezes, apressadas interpretações de versões vulgarizadas de física quântica: que duas coisas podem estar ao mesmo tempo em dois lugares ou em dois estados, duas coisas podem estar íntima e inseparavelmente ligadas entre si independentemente da distância que as separe, que um acontecimento pode ser influenciado ou até determinado por outro acontecimento posterior, que o vazio é a componente essencial de toda a matéria, eu sei lá o que por aí se ouve e vê escrito…

É claro, a esmagadora maioria das pessoas conhece e compreende tanto como eu — ou seja, nada — os complicados cálculos matemáticos que estão na base das esotéricas leis quânticas e muitas pessoas que fazem os artigos de vulgarização também não os compreendem melhor que aquelas para quem os «traduzem» numa linguagem acessível. E depois, as pessoas esquecem-se de que — como os especialistas gostam sempre de nos fazer recordar — as propriedades das partículas subatómicas não se aplicam ao nível macroscópico, em que podemos continuar a guiar-nos pela física newtoniana sem problema absolutamente nenhum. E que, às vezes, quando chamam macroscópicos a certos fenómenos quânticos, como no caso do prémio Nobel da Física recentemente atribuído, trata-se de um macroscópico ainda muito, muito microscópico para os nossos sentidos…  

É claro, não quero com isto dizer que a realidade não seja extremamente complexa, que não haja nuances  individuais na perceção da realidade (apesar de comum a todos nos seus traços gerais) e que, para descrever adequadamente certos aspetos dessa realidade, não seja necessário ir além da mecânica clássica. Claro que é. E longe de mim considerar que as teorias quânticas e as suas estranhas implicações ao nível do extremamente pequeno não se devem levar a sério. Quero apenas sublinhar duas coisas: 

A primeira é que não se deve discutir aquilo que não se compreende e a única maneira que compreender as implicações das teorias quânticas é compreender as equações que lhe dão origem. Não é nada que se possa visualizar, imaginar, explicar de outra forma. Não é nada em que se possa pensar, simplesmente, sem a matemática que lhe subjaz. E isto porque a nossa mente evoluiu para navegar um mundo ao nosso tamanho, em que a matéria é impenetrável e os acontecimentos se sucedem no tempo. 

James Ensor, A queda dos anjos rebeldes
(Val van de opstandige engelen), 1889
Museu Real de Belas Artes de Antuérpia 
A segunda é um pormenor simples de que muitos despreocupados relativistas parecem esquecer-se: se o mundo não tivesse uma realidade dura fora de nós e os nossos sentidos não tivessem evoluído para percecionar adequadamente essa realidade, se mundo, tempo e espaço não fossem senão o resultado de perceções, como poderia constituir um perigo percebê-los de maneira diferente? Ora quem, como eu, lida amiúde com pessoas que vivem efetivamente o espaço e o tempo e realidade em geral apenas como imagens mentais impossíveis de relacionar com as medidas de um relógio ou de uma fita métrica, à margem de relações causais básicas, etc., sabe muito bem que essas pessoas simplesmente pereceriam sem a ajuda das outras pessoas cujas perceções individuais da realidade curiosamente convergem – como devem! Em última análise, afirmar que a realidade não existe fora de nós pode, em certa medida, considerar-se ofensivo para quem sofre (e sofrer aqui não significa apenas «passar por; ser objeto de», mas sim «estar doente de, sentir-se mal») de dissociação da realidade causada por psicoses, demências e outras perturbações mentais. Essas pessoas não vivem apenas numa realidade diferente da minha, padecem muito por terem perdido o contacto com a realidade. Ou que vos parece?




11/12/25

Língua de trapos

A minha avó usava a expressão língua de trapos para referir alguém que lhe custava a entender («ela/ele é uma/um língua de trapos, não se percebe nada do que ela/ele diz»), por algum defeito de pronúncia ou pela desorganização do discurso confuso, por ser um trapalhão, por se atrapalhar na elocução e lhe sair da boca uma trapalhada – para usar três palavras que vêm de trapo, precisamente.

Evidentemente, não era uma expressão exclusiva da minha avó, ouvi-a também a outras pessoas. E estou em crer que a expressão morreu na geração dos meus pais. Ou talvez na minha, não sei, mas não me lembro de a ter ouvido a pessoas mais novas. Procurando nos dicionários em linha, só encontro língua de trapos no Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa com o significado de «pessoa maldizente», aceção com que nunca a ouvi (não será uma confusão com a expressão dizer trapos e farrapos?). Com o significado que lhe conheço, não a encontro. Já a expressão que diretamente lhe equivale em castelhano, lengua de estropajo, está dicionarizada como nome de dois géneros, com o significado esperado (traduzo eu): «Pessoa balbuciante, ou que fala e pronuncia mal, de maneira que mal se entende o que diz».

Sabemos que a língua, como organismo vivo que é, tem de estar em constante mudança – para se conservar viva, precisamente; mas custa-nos, em cada geração, ver desaparecer expressões que acarinhamos, às vezes por nos virem de pessoas que nos mereciam carinho. Neste caso concreto, esta associação dos trapos à dificuldade de expressão vem de longe: acabo de a encontrar numa famosa novela picaresca espanhola de 1528, Retrato de la Lozana Andaluza, de Francisco Delicado. Traduzo eu a passagem em questão (texto original completo aqui):

LOZANA – [...] E que mais? Dir-me-ás CELESTIAL sem gaguejar.
DOMÉSTICA.-  CE LES TI NAL.
LOZANA.-  Ai, pobre de ti, que tanto gaguejas! Diz ALCATARA.
DOMÉSTICA.-  AL CA GO TA RA.
LOZANA.-  Ai, desgraçada! Não é assim! E que fanhosa és! Tens uma língua de trapos! 



10/12/25

Entre as memórias e o sonho: vozes

É capaz de ser da idade, não sei: nos momentos de calma que antecedem o sono ou o dormitar, mas também se ouço música ou se me imobilizo em contemplação de alguma coisa, parece que ouço vozes na minha cabeça. Quer dizer, talvez não seja esta a melhor maneira de o dizer. Não creio que se trate propriamente de alucinações auditivas; não são vozes claras, é tudo mais vago, como num sonho. Não sei ao certo como soam as alucinações auditivas às pessoas que delas sofrem — e que terrível sofrimento! —, mas já vi e ouvi descrições dessas alucinações e não me parece que seja o que me acontece. 
[Uma coisa curiosa é a associação que parece haver entre subvocalizações e alucinações auditivas: «pessoas com esquizofrenia que apresentam alucinações auditivas podem demonstrar o resultado de uma hiperativação dos músculos da laringe», ou, dito de outra maneira, «as alucinações auditivas podem ser projeções dos pensamentos verbais de pacientes esquizofrênicos, subvocalizadas devido a uma deficiente inibição do córtex». Subvocalizações, deixem-me explicar, são movimentos minúsculos, só detetáveis com máquinas, que o nosso aparelho fonador faz quando lemos; e, muito provavelmente, também quando pensamos em frases completas, se preparamos interiormente o que vamos dizer a alguém, ou revemos mentalmente uma conversa, ou corrigimos na mente o que deveríamos ter dito e não dissemos, coisas assim — quando temos, enfim, frases de uma língua na mente, porque, é de crer, a língua é intrinsecamente sonora, mesmo quando não chega a transformar-se realmente em som...]
Albert Maignan: As vozes do rebate, 1888. 
Amiens, Musée de Picardie, daqui.
As vozes que me surgem na mente não dizem nada concreto, e muito menos dizem mal de mim, como nas alucinações auditivas das psicoses. São vozes de pessoas que conheço bem, com expressões e entoações típicas dessas pessoas, mas dizem só coisas vagas, às vezes porque as conversas parecem ir já a meio («e eu cheguei lá, ‘tás a ver?, não encontrei mala nenhuma») ou por faltarem referências na conversa («às vezes, encontro-a, conversamos ali um bocadinho e pronto, não passa disso») Se se queixam, não sei de quem se queixam («bem, também te digo, pá, aquele tipo, quem não o conhecer que o compre…» ou «eh pá, mas então aquela gente não se enxerga?»). 
[Fazem-me lembrar as conversas que ouvia ao jantar quando trabalhei num lar para pessoas com demência. Conseguiam conversar animadamente sem ninguém saber de que estavam a falar: uma pessoa podia começar, por exemplo, com um «de maneira que é assim» a propósito não se sabia de quê, ao que outra pessoa lhe respondia, «ah, pois é, mas isso já se sabe», e uma terceira pessoa comentava «é que não tenha dúvidas, amiga», para depois uma quarta pessoa concordar também, com algum dos anteriores ou todos eles, «olhe, nisso, dou-lhe toda a razão» e assim sucessivamente, e era uma conversa educada e sem conflitos.]
As vozes das minhas fantasias fazem-me lembrar outra voz que me surgia em criança quando tinha febre, também meio sonhada como elas, meio espetral. Naquele doce intermúndio de febre infantil pairava sobre mim a voz da minha mãe. Não era a voz real da minha mãe filtrada pela febre, mas sim uma voz da minha mãe inventada por essa febre. Não me lembro do que essa voz sonhada me dizia, mas recordo bem o seu efeito calmante, como a voz do hipnotizador que se ouve ao longe quando nos deixamos levar pelo sono que ela nos pede (já tentei deixar-me hipnotizar e, cético que sou, que se esperava?, não me aconteceu nada que não fosse quase adormecer...).
É capaz de ser da idade, tudo isto: perder-me assim, às vezes, entre as memórias e o sonho, como numa cantiga que há, numa parte de mim que até há pouco desconhecia. Custa-me não saber dizer isto melhor. Dito assim, quem me ler é capaz de não se perceber muito bem do que falo.


 

Vozes de alguma poesia

 

Um autor pode desejar contextos específicos para se entrar em contacto, ou simplesmente estar em contacto, com a sua poesia. Ninguém é obrigado a respeitá-los, claro está, e, na minha opinião, nada garante, aliás, que deles resulte uma versão de alguma forma mais essencial de uma determinada obra poética, porque não creio em tal essencialidade.

Uma questão interessante é a da voz da poesia. Se é certo que a poesia, em sentido lato, nasceu com voz — porque é, provavelmente, anterior à escrita —, também é certo que, ao cabo de tantos séculos de palavra escrita, ela deve ser já independente dessa voz. A chamada poesia gráfica ou poesia visual é uma expressão clara, se bem que não necessariamente a única, desta independência.

Saint-John%20Perse
Página de Vents, de Saint-John Perse.

«Após a revisão final, o texto é cuidadosamente paginado. 
A escolha deliberada do itálico, o uso do espaço em branco 
e os requisitos tipográficos fazem dele um objeto gráfico
imediatamente reconhecível. A qualidade visual do texto,
a aparência física do livro, mesmo para uma edição padrão,
é de tal importância para Saint-John Perse que ele
 assume sem hesitar o papel de paginador.”

Traduzo eu daqui. Foto daqui.     
Saint-John Perse, que foi prémio Nobel da Literatura em 1960, não gostava que os seus poemas fossem lidos em voz alta (traduzo eu daqui):
«Em princípio, sou contra qualquer recitação poética, que me parece, pelo menos em francês, limitar ou distorcer o alcance da escrita nas suas múltiplas vertentes, convergente e divergentes. [...] E, mais particularmente, no que me diz respeito, nunca consegui suportar a ideia de ler fosse o que fosse em voz alta, nem sequer para mim próprio, e ignoro completamente, como poeta, do som da minha própria voz. A poesia parece-me feita apenas para o ouvido interior.»
No extremo oposto de Saint-John Perse, Allen Ginsberg, por exemplo, dizia que não bastava que os seus poemas fossem bons nas páginas de um livro — tinham também «a dimensão sonora que Ezra Pound sublinhara». 

Não tenho, sobre isto, nenhuma posição definitiva. Parece-me que há poemas que ficam bem em voz alta e há outros que vivem bem do seu silêncio na página, mas não tenho para isso nenhuma justificação sólida… É só uma questão de gosto. E já que estamos em maré de gosto, o que muitas vezes me desagrada, devo confessar, é uma tradição que há de pompa e/ou dramática emotividade na declamação de poesia. 

***

É interessante ver como dizem os poetas os seus próprios poemas. Não que os digam melhor que os outros, ou que se deve seguir o seu estilo de declamação, mas talvez isso nos dê alguma pista sobre uma hipotética voz inicial dos poemas, se a há, quando a há.

Se Pound destacava a dimensão sonora da poesia, a sonoridade que gostava de dar aos seus poemas era sempre excessiva, teatral, e às vezes até algo alucinada, independentemente do tipo de poema que lia. De Ginsberg poder-se-ia esperar talvez uma declamação próxima do falar quotidiano, e às vezes aproxima-se de facto disso, mas não se afasta completamente de alguma teatralidade própria da tradição declamatória.

***

Uma declamação que sempre achei singular, eu que nada sei de declamação, é a de Alexandre O’Neill ao dizer os seus poemas. O’Neill dizia que, com a sua poesia, queria sobretudo desimportantizar ou aliviar: «aliviar os outros, e a mim primeiro, da importância que julgamos ter». Talvez a maneira de declamar a sua poesia reflita de alguma forma o seu projeto poético, desimportantizando a declamação, aliviando-a do peso e da imponência que ela muitas vezes gosta de conferir à poesia. 

Não sei. O que me parece certo é que, haja ou não desimportantização, a voz que dá aos poemas não se aproxima, como talvez se esperasse, do discurso oral quotidiano, mas martela antes algumas palavras, como que para sublinhar por que motivos — sons, ritmos, sentidos — as escolheu para o poema. Veja-se, por exemplo, como diz “Velhos de Lisboa”:

Mas o que eu pensava que era uma maneira única de dizer poesia é capaz, afinal, de não ser assim tão única: descobri recentemente que a declamação de Mário Cesariny, por exemplo, pode ser muito parecida com a de O’Neill. Eis como Cesariny diz o seu poema “Pastelaria”:

Algumas das muitas vozes, então, que os poemas podem ter...




04/11/25

Mais um aforismo sobre o envelhecimento


Há quem afirme que, apesar da idade (mais ou menos) avançada, se sente «jovem por dentro», querendo com isso significar que, embora reconheça a decadência do corpo, conserva inalteradas  as capacidades mentais. Mas não será antes que essa afirmação já é, por si, sinal de alguma decadência cognitiva?

16/10/25

Weblog: 15 de outubro de 2025 [Crónicas de Svendborg #53]

[Dizem-me várias definições de blogue que, no início, os weblogs, eram sobretudo diários online.  Este blogue, que já nasceu tarde, raramente o tem sido. Mas hoje é. Mais ou menos…]

E eis-nos no fim da primeira quinzena de Outubro. O frio ainda não chegou, mas de manhã, às vezes, já calço luvas quando vou de bicicleta para o trabalho. Já está escuro de manhã quando saio de casa às seis e meia, mas ainda é de dia quando a Karen chega a casa às cinco. Para ser mais concreto, o sol nasceu hoje às 7:48 e vai pôr-se às 18.17 e temos hoje 14 graus de máxima e 11 de mínima.

IMG_3748%20BLOGUE%20
As folhas começam a cair e caem das árvores as últimas maçãs. A horta já pouco ou nada mais dará este ano. Ainda não há perigo de temperaturas negativas, mas vamos apanhando batatas, cenouras, cebolas, alhos e beterrabas, para os guardar na oficina ou na despensa, que são as partes da casa que não aquecemos. Os tupinambos e as beterrabas ainda podem esperar mais um bocadinho. As acelgas, deixamo-las ficar e vamos só tirando as folhas de que vamos precisando, que nunca se cansam de fazer folhas novas, às vezes pelo inverno dentro.




Foto: A horta, ou o que resta dela nesta altura. A cerca de arame, que talvez estranhem, é por causa de corços e gamos, que comem tudo.

Ma%C3%A7%C3%A3s%20BLOGUE
Apanhámos há duas semanas 280 quilos de maçãs, que fomos levar à fábrica de sumo. O modelo de negócio da fábrica é um litro de sumo, já pasteurizado, por cada 10 quilos de maçãs. É claro, não é sumo das nossas maçãs que nos dão, é sumo de maçãs que foram entregues no dia anterior. Mas só aceitam maçãs como as nossas, de amadores que não utilizam pesticidas. É bom negócio para a fábrica, mas não para nós: se contarmos o preço do nosso trabalho, saem-nos muito mais caros estes 28 litros de sumo na fábrica do que comprá-los na loja, as umas 15 coroas (± 2 €) por litro. Mas é só para não se estragar tanta maçã.




Fotos: O ano passado, fiz uma poda bastante radical de algumas macieiras, a ver se lhes reduzia a produção, mas continuam a produzir muito. Foi difícil meter 280 quilos de maçãs no carro (houve anos em que tivemos de usar um atrelado), mas conseguimos. À volta, já havia muito espaço livre.

IMG_3747%20BLOGUE
Agora, mesmo apanhando 280 quilos de maçã, estraga-se sempre muito mais que isso. Começam as maçãs a cair para o chão em julho e só agora, em outubro, caem as últimas. Enquanto não arranjamos tempo para as apanhar e levar à fábrica, como fizemos agora, vão parar várias centenas de quilos ao monte de composto no fundo do quintal. Depois de apanharmos todas as maçãs que conseguíamos apanhar, continuaram a cair as das árvores altas, que já não eram podadas com certeza há muito tempo quando comprámos a casa e que, agora, não há maneira de podar. No fim de semana passado, apanhei e pus no composto, destas maçãs, mais umas centenas de quilos. Agora já poucas mais hão de cair.  
IMG_3746%20BLOGUE
É claro, nós fazemos tudo e mais alguma coisa com maçãs, compotas e doces vários, e fartamo-nos de comer maçãs na época delas, mas não damos vazão nem de um décimo. E nem sequer faz muito sentido convidar os vizinhos a virem-se servir das nossas maçãs — toda a gente aqui na terra tem maçãs e alguns têm o mesmo problema de excesso de produção que nós temos.




Foto: Maçã caramelizada no forno a baixa temperatura com açúcar mascavado e canela. Com um bocadinho crème fraîche por cima, dão uma deliciosa sobremesa.

IMG_3742%20BLOGUE
Na horta, temos feito todos os anos acelgas, batatas, curgetes, fava, feijão-catarino e morangos (muito poucos), mas o resto vai variando de ano para ano. Nos últimos anos, temos também tido sempre beterrabas, espargos, framboesas e uvas. Este ano, tivemos também alho, beterraba, cebola, cenoura, chicória italiana (radicchio) e feijão-branco. Fora da horta, tivemos tomate, pepino e piripiri, na estufa; e há também groselhas pretas, vermelhas e verdes, e amoras, espalhadas pelo quintal. E tivemos pela primeira vez muitos figos e muitas rainhas-cláudias, muito bons tanto aqueles como estas.

Foto: Uma sopa feita só com produtos na nossa horta, tirando, claro, o sal e o azeite: cozi primeiro o feijão-branco fresco, porque não sabia quanto tempo ia demorar a cozer e não o queria muito espapaçado. Noutro tacho refoguei cebola, alho, cenoura, um jalapeño não muito forte e os talos das acelgas, tudo em cubos pequenos, e juntei-lhe depois um bocadinho de tomate. Cozi as acelgas à parte, em água muito salgada, só durante dois minutos e passei depois por água fria. Juntei ao refogado o feijão e a água onde o tinha cozido, e batatas cortadas em cubos grandes. Deixei cozer um bocadinho e juntei curgete cortada em juliana grande. Deixei cozer mais um bocadinho e juntei as acelgas.

IMG_3743%20BLOGUE

Foto: Uma bonita (e saborosa salada) salada que a Karen fez, com flores comestíveis que eu não sei como se chamam. A couve-roxa não é do quintal, mas a beterraba e as flores são. Temos muita beterraba, mais do que conseguimos comer, e eu tento arranjar maneiras de a preparar (borche, assada no forno com molho de tahini e limão, seca no forno em tiras muito fininhas, sei lá que mais...), mas também não se pode comer beterraba todos os dias, não é verdade?
Feij%C3%A3o%20BLOGUE

Foto: Feijão-catarino e feijão-branco e secar. As nozes por baixo do feijão-branco também estão a secar, mas não são do nosso quintal. Comprei-as frescas aqui na aldeia.

Eis-nos então no fim da primeira quinzena de outubro. Até agora, tem sido um outono suave. A próxima tarefa no quintal é podar as macieiras.   


31/07/25

Foisted fast food: uma coincidência


Da primeira vez que fui à Geórgia, tentei aprender o alfabeto georgiano (já aqui falei uma vez disso) e consegui mais ou menos. Pelo menos, foi o que eu pensei. Quando lá voltei cerca de ano e meio mais tarde, já tinha esquecido uma grande parte do que tinha aprendido da primeira vez... Aprender um alfabeto novo é difícil. 

Os georgianos têm, em geral, mais contacto com o nosso alfabeto que nós temos com o deles (por exemplo, as matrículas dos carros deles são com o nosso alfabeto). Além disso, muitos deles aprenderam o alfabeto cirílico russo, que é, apesar de tudo, relativamente parecido com o nosso. Mas isso não quer dizer que todos os georgianos conheçam bem o alfabeto latino. O que se vê escrito em inglês nesta montra em Kutaisi resulta provavelmente de uma interpretação errada de uma letra do nosso alfabeto: alguém pensou que a perna do a fosse um i. Isto seria já curioso se foist não quisesse dizer nada. Mas quis o acaso que, do engano, surgisse uma palavra inglesa: to foist something on someone significa «impingir/impôr alguma coisa a alguém, obrigar/convencer/aliciar alguém a/para consumir ou aceitar alguma coisa». A ideia de fast food não anda muito longe, pois não? Curiosamente, aliás, a frase que o dicionário Cambridge dá como exemplo de utilização do termo foist é She charged that junk food is being foisted on children by TV commercials, «Ela denunciou que as crianças estão a ser aliciadas ao consumo da chamada comida de plástico, através de anúncios na televisão.»