Quando publiquei no Facebook umas quantas fotos da região do Samegrelo-Alto
Svaneti, na Geórgia, alguém comentou numa foto de Adishi: «Deram um saltinho a
San Gimignano?» Bom, nunca estive em
San Gimignano,
mas não creio que seja muito parecido com
Adishi. O
que têm de semelhante é só serem ambas localidades muito antigas (San Gimignano
um pouco mais antiga que
Adishi) e terem ambas muitas torres.
Adishi é, infelizmente, uma aldeia que se está a desmoronar. Não tenho
fotografias que cheguem para documentar satisfatoriamente a minha afirmação,
pelo que terão de me acreditar sem evidências, se não é pedir-vos demais: mais
de metade das casas da aldeia de Adishi, estão em ruínas; a outra metade são
guesthouses para turistas a caminho de Ushguli.
É sempre triste ver uma aldeia
assim, não é? Lembro-me de aldeias cheias de ruínas em Portugal e em França — nas
Beiras, na Ardèche, na Lozère, na Drôme, em tanto lado —, desertas ou quase
desertas, habitadas só por alguns anciãos sem maneira de lá sair ou sem
energia já para o fazer. Terras sem perspetivas de futuro, onde ninguém quer
ficar.
Em França, ouvi dizer várias vezes que as mulheres partem primeiro. François
Béranger tem até
uma canção
sobre esse fenómeno do êxodo rural feminino no departamento da Drôme e
sobre a tentativa falhada de importação de mulheres. Ouvi muitas vezes o mesmo sobre zonas rurais do norte da Suécia.
Contavam-me que também lá os homens tentavam importar mulheres do estrangeiro.
São coisas que se dizem, mas será mesmo assim? Uma breve pesquisa na internet
mostra-me que, um pouco por toda a Europa, se tem observado um maior êxodo
rural de mulheres jovens, que se pode explicar sobretudo por terem, nas zonas
rurais, menos opções de emprego que os homens e por cada vez mais procurarem
um nível de educação a que nem sempre aí têm acesso. É claro, as coisas nem
sempre se passam exatamente assim em todas as regiões, mas parece haver alguma
justificação para o que se ouve dizer.
Em Adishi, há o turismo, valha-lhe isso. Quando se chega à aldeia vindo de
Zhabeshi*, uma placa anuncia que há ali «Market, Taxi, Wi-Fi, Fast
Food».
A povoação deve ter uma quinzena de guesthouses, talvez mais. Ao que vimos
e ao que se pode ver nas avaliações nos sites agregadores de ofertas de
alojamento, a quase totalidade de guesthouses e pensões familiares, em
Adishi e nas zonas rurais da Geórgia em geral, são geridas por mulheres. Não
sei nada sobre as suas expetativas em termos de educação, mas o turismo
dá-lhes seguramente algum rendimento.
Quando é que, de meia em ruínas, a milenária Adishi passará a aldeia fantasma?
________________
* Normalmente, é o segundo dia de
uma magnífica caminhada de quatro dias no Cáucaso: cerca de 57 km de Mestia a Ushguli, pernoitando em Zhabeshi,
Adishi e Iprali. O ponto mais baixo da caminhada é a cerca de 1400 m de altitude e o mais
elevado a cerca de 2730 m. No total, sobem-se 3100 m e descem-se 2100.
Aconselha-se.
O grande poeta e compositor de canções dinamarquês Benny Andersen disse várias vezes que tinha escolhido Povl Dissing para cantar as suas maravilhosas canções, porque toda a gente cantava canções alegres de uma forma alegre e canções tristes de uma forma triste, mas só Dissing cantava de tal forma que não se sabia se a canção era para rir ou para chorar. De tanto que o repetiu e de tanto que isso foi notado, creio que não pode haver dúvidas: o projeto de Benny Andersen era mesmo que o público não conseguisse bem decidir se as suas canções eram «para rir» ou «para chorar». E encontrou, de facto, o cantor ideal para esse projeto.
A minha ideia é fazer aqui uma brevíssima apresentação de Benny Andersen e de Povl Dissing[1]. Se vos não incomodar demasiado a barreira da língua (a mim, nunca me incomodou, porque sempre ouvi música popular em inglês, mesmo muito antes de perceber o que estavam a cantar...), talvez queiram explorar o trabalho do duo. E escolho, para a apresentação, uma famosa canção em que Svante, a personagem da canção, sonha com a Suécia do outro lado do Øresund.
O álbum em que a canção aparece chama-se Svantes viser, «As canções de Svante» (pode ouvir-se aqui), e faz parte do Cânone Cultural da Dinamarca, uma lista oficial de 108 obras, elaborada em 2004, sob a égide do Ministério da Cultura: «uma recolha e apresentação das melhores e mais importantes obras do património cultural da Dinamarca», ou seja, basicamente as obras que todos os dinamarqueses deviam conhecer. Uma ideia estranha não é verdade?
Como o nome do álbum indica, todas as canções têm um mesmo protagonista, o escritor de canções Svante Svendsen. Svante nasceu na Suécia, mas perdeu-se dos pais aos nove anos, no barco de Malmö para Copenhaga, e vive desde essa altura na Dinamarca, onde teve de «desenrascar-se sozinho com a ajuda dos outros». Não há, porém, uma narrativa no ciclo de canções. Quando muito, o eu lírico das várias canções mantém, de umas para as outras, alguma coerência psicológica, se se pode dizer assim. Aparece também nalgumas canções (nesta não) uma personagem feminina: Nina, a musa de Svante. Creio que há aqui um piscar de olho a Carl Michael Bellman, um famoso poeta e cantautor sueco do século XVIII, cujas canções se continuam a cantar até hoje. Bellman também tinha uma personagem recorrente, o relojoeiro Jean Fredman, nos seus ciclos de canções Epístolas de Fredman e Canções de Fredman[2].
Tanta digressão! Eis então a canção e a letra traduzida A tradução, bastante livre e prosificada, é minha e é extremamente empobrecedora do texto original, que, como tudo o que Benny Andersen escreveu, é rico em imagens e trocadilhos completamente intraduzíveis:
Aqui estou eu, de olhos fixos na costa da Suécia e a sonhar com montanhas mais altas[3]. Tenho o coração aos pulos no peito – que vontade de apanhar o primeiro ferry e esquecer todo o mal do mudo em bosques claros de bétulas e raparigas risonhas! Mas tenho de ficar, porque eu enjoo quando ando de barco…
É como ver a terra prometida, repleta de dádivas, onde o tempo parece não passar e onde as pessoas cantam canções de Bellman com a boca cheia de bagas silvestres! E eu tenho de aqui ficar a viajar só com os olhos, porque eu enjoo quando ando de barco…
E aqui estou, num paisinho neurótico, habitado por loucos sorridentes. Os suecos sabem fazer muitas coisas que nós não sabemos fazer: mantêm-se corajosamente neutros[4] e são tão saudáveis – em bosques claros de bétulas – e têm sempre tantas ideias! E eu tenho de aqui ficar a definhar, porque eu enjoo quando ando de barco.
As minhas cinzas serão enviadas para a Suécia e espalhadas aos quatro ventos, para eu ser assim levado de praia em praia. Sim, talvez encontre finalmente um lugar onde possa ficar, em bosques claros de bétulas... Mas, até lá, acho que vou ter de viver aqui nesta terra, porque eu enjoo quando ando de barco…
Os escandinavos têm umas bolachas finas e crocantes, com mais centeio que trigo, a que chamam pão estaladiço.
Este knäckebröd (deixem-me usar o nome sueco, já que parece que foi na Suécia que ele surgiu) tem uma característica curiosa: é mais ondulado de um lado que do outro, para assim satisfazer tanto quem gosta de o barrar com muita manteiga ou muito doce como quem gosta de menos manteiga ou menos doce no pão.
Alguns de vocês lembrar-se-ão, como eu me lembro, de um adulto alguma vez vos repreender que «oh filho, isso é não é pão com manteiga (ou queijo, ou o que fosse), isso é mais manteiga com pão»; mas, como não comiam knäckebröd, nunca ninguém vos disse, como a mãe de uma amiga minha lhe dizia, «olha que te enganaste no lado, é do outro lado é que se põe manteiga».
Erik Axel Karlfeldt (1864–1931) era um poeta sueco, que ganhou postumamente o Prémio Nobel em 1931. Muitos poemas de Karlfeldt foram musicados e um dos poemas que deu uma canção conhecida é “Em Lisboa dançam” (“I Lissabon där dansa de”)*, que foi musicado por Bo Sundblad no início dos anos 30.
Por favor, não considerem o que se segue uma tradução do poema de Erik Axel Karlfeldt. O poema é muito difícil de traduzir e é numa língua que não domino, pelo que não sou capaz de fazer uma tradução propriamente dita. O que se segue é só uma versão simplificada e muito livre (e, a espaços, feia), para ficarem com uma ideia de que se trata.
Em Lisboa, dançam
no palácio vermelho do rei,
– coroado, condecorado –
com vivas e salvas de tiros.
Soa o mar como trombone
e violino distantes
e as faces são coradas
da cor do vinho do Porto.
E cantam os rouxinóis
em escuros bosques de moscada
para os príncipes e as princesas
no sono dorido da noite.
E esvoaçam cupidos
de asas de cristal
entre condes e barões,
que passam o dia a suspirar:
Tu, vento oeste de Salvador,
que sopras forte e suave,
desperta a cerva deitada nos lírios,
que é já tempo de folgar.
Sou um cervo na murta orvalhada,
A minha coroa é de ouro
e trago em cada haste uma rosa
que diz de mim o desejo.
Nas falésias da praia de Munga
que atroada se ouve.
Dançam os pares de mãos dadas
na alegre casa de Pillman.
E cada homem que pula
de regozijo na sala
é um imponente toureiro
e Príncipe de Portugal.
Passa uma nuvem, pesada e baça,
que sopra uma granizada,
mas a rapariga encosta a pele primaveril
aos braços esguios de Pillman.
Do alto do poste curvo, em acento outonal,
canta um galo cata-vento,
mas a rapariga sorri nos braços de Pillman
como maio no vale de Munga.
Baloiça um ramo vermelho de fruta,
contra a parede e a vidraça,
p’lo carreiro, ouve-se cantar
a voz grave do nascente.
Vento de outono, enche os foles amplos
e sopra como quem toca a trombeta!
Sou um alce casamenteiro de alta coroa
entre tramazeiras na charneca de Munga.
Abre-se o colchão pardo da nuvem
com o ribombar de um trovão
e a barca da lua, em traje dourado,
avança em roxo ondular.
Naveguemos com ela, desta
murcha casa outonal
até cidades cobertas de lírios
e castelos no silvo das murtas.
Como veem, não é de Lisboa que o poema fala. Como eu o percebo, o poema diz o cio de bichos e gente como fazendo parte do ciclo da natureza, e contrasta primavera e outono, e o frio norte e um sul idealizado – e usa apenas Lisboa como imagem ideal de gáudio e opulência. É uma imagem sem dúvida surpreendente aos meus olhos – e, arriscaria eu, aos olhos de muitos portugueses. Seria esta a imagem da capital portuguesa que prevalecia há cem anos na Suécia, ou é antes uma criação de Karlfeldt que não assenta em nenhuma ideia feita sobre um pretenso fausto português?
***
Passados 60 anos, é muito diferente a imagem de Lisboa que transparece no poema “Lissabon” de outro poeta sueco que também ganhou o Nobel, Tomas Tranströmer**. Evidentemente, um poema de Tranströmer sobre Lisboa não podia deixar de interessar os literatos portugueses. Vasco Graça Moura traduziu o poema para a coletânea 21 Poetas Suecos (Vega, 1980) (ver aqui), e encontro também uma tradução de Luís Costa no blogue Aventar. O poema de Tranströmer é muito mais fácil de traduzir que o de Karlfeldt. É um poema quase todo de frases narrativas curtas e diretas, sem grandes imagens literárias, e ambas estas traduções dão dele uma boa ideia***. Atrevo-me, ainda assim, a apresentar também a minha tradução:
No bairro de Alfama, cantavam os elétricos nas calçadas íngremes.
Havia duas prisões. Uma era para ladrões
e os ladrões acenavam através das grades.
Gritavam que queriam ser fotografados.
«Mas aqui», disse o condutor, rindo baixinho, inseguro,
«aqui estão políticos». Vi a fachada, a fachada, a fachada
e vi, lá em cima, um homem a uma janela,
com binóculos, a olhar para o mar.
Havia roupa estendida a secar no azul. Os muros estavam quentes.
As moscas liam cartas microscópicas.
Seis anos mais tarde, perguntei a uma senhora de Lisboa:
«Isto é verdade ou fui eu que sonhei?»
______________________
*In Flora och Pomona, 1906. Texto original em sueco aqui. ** In Klanger och spår, 1966. Texto original em sueco aqui (e traduções em alemão, inglês e português). *** Um pequeno comentário a alguns pormenores destas traduções:
Na primeira linha da segunda estrofe, está, no original, «som en kluven människa». Graça Moura traduz por «como se cortado ao meio» e Luís Costa por «como um afectado». É certo que kluven significa «rachado; cortado ao meio» (um toro de lenha, por exemplo), mas en kluven människa é uma expressão fixa e não uma criação individual de Tranströmer e significa «uma pessoa dividida» (entre duas ou mais lealdades, gostos, crenças, etc.).
Graça Moura traduz kikare por «óculo». É verdade que kikare também pode ser um óculo, mas é muito provavelmente de vulgares binóculos que se trata.
É curioso que Vasco Graça Moura acrescente «branca» à roupa estendida a secar. Não é que não fique bem o branco da roupa à cidade branca, mas não há branco no original.
Quanto à «dama» de Luís Costa, acrescenta ao dam sueco uma dimensão que ele não tem: dam é só a palavra comum para «senhora», sem mais.
Um apontamento de uma viagem à Suécia, de há 17 anos, que eu encontrei ontem e a que achei graça (sobretudo porque agora, acho eu, não me passaria pela cabeça escrever uma coisa assim...):
É um coração numa barraca de tiro, numa feira. De facto, é quase um espelho, mas, em vez de um espelho único, são rectangulozinhos pequenos de espelho, como aqueles que cobrem colunas ou paredes de boîtes farsolas, de modo que não se distingue nada do que reflecte. A moldura cordiforme é cor-de-rosa, não se percebe se de madeira se de plástico, e está cravejada de pequenas lâmpadas multicolores.
O coração na barraca de tiro é um símbolo de uma parte da Escandinávia, aquela que a gente conhece do festival da Eurovisão. Não há nada a fazer, nenhum sistema de educação, nenhum Estado-providência, nenhum bem-estar social, nenhuma tradição democrática, o kitsch é uma instituição tão inabalável como a fama dos Abba.
Nós em Portugal também temos kitsch, e muito, mas não é sério. O quê, a gaiola de plástico do periquito ou a Rute e o Nelson do Poço da Morte? Ora... Falta o brilho, faltam as lâmpadas às cores. Está tão baço e gasto, o nosso kitsch, que já nem kitsch é, é mais miséria. Vou dizer de outra maneira – kitsch a sério é o deles, o nosso kitsch é de pechisbeque.
É conhecido: um dos (muitos…) problemas do trabalho de desenvolvimento é o uso de tecnologias pouco ou nada adaptadas à realidade local. Um exemplo claro: vejam o que acontece quando se usa em Chimoio, com 30 graus e 90% de humidade, tecnologia sueca de Natal, nomeadamente uma pepparkakshus, uma simpática casinha doce que as crianças montam e decoram.
Os inconscientes arquitectos, após a conclusão do projecto
Conheço aqui pouca gente e há conversas que não tenho com quem ter. Aqui fica metade dessas conversas. Não querem contribuir com a metade que falta? [Foto da Travessa do Fala-Só de Rodrigo Cortez]
Quem se interessar pelo português falado em Moçambique pode visitar um faz-de-conta-que-blogue que eu fiz, que é, de facto, um glossário de moçambicanismos.
Aqui fica um endereço de e-mail, para o caso de alguém querer comentar ou discutir alguma coisa do que eu para aqui vou escrevendo:
A disposição das imagens está calculada para um ecrã de computador. A maior parte das páginas do blogue vêem-se e lêem-se mal nos formato de tablet ou telemóvel. Aconselho, por isso, que, para ler as páginas do blogue em tablets ou telefones, escolha a opção «Ver a versão da Web».
Gralhas, há muitas. Está visto que não sirvo para revisor, e muito menos dos meus próprios textos... Um pedido, então, à malta amiga que por aqui passar: deixem-me correcções nos comentários, sim?
Já agora, peço também que me digam, se encontrarem links que tenham deixado de funcionar. Antigamente, fazia uma revisão regular dos links, mas agora a Travessa tem muitos textos e muito texto, e uma revisão dessas demora mais tempo do que aquele que normalmente tenho para dedicar ao blogue.
Ah, a propósito de links: Como todos os textos têm uma data de publicação, acho desnecessário estar a escrever em cada link a data de acesso – assumo que a data de todos eles é a data de publicação do post onde eles vêm.
E muito obrigado!
A partir de agosto de 2011, passo a escrever com a nova ortografia.
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