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24/09/12

Palavras, pensamento e perceção, mais uma vez (2) [e um estudo fantástico]

Falava eu no texto anterior do ressurgimento da ideia de que a língua condiciona a nossa perceção do mundo e de como estava disposto a rever a minha posição relativamente a essa ideia: se até há pouco a recusava liminarmente, algum trabalho feito ultimamente leva-me a aceitar, em determinadas casos, essa possibilidade[1].
O que quero agora acrescentar é que, se alguns trabalhos destes novos relativistas linguísticos[2] me impressionam pelo seu rigor, fico também por vezes com a sensação de que nem sempre repensam suficientemente os conceitos linguísticos com que trabalham. No tratamento do tempo linguístico, encontram-se muitas vezes exemplos desta ligeireza teórica, como eu digo[3]. Eis um deles: no artigo “Does Your Language Shape How You Think?”, publicado no New York Times de 29 de agosto de 2010, diz-nos o linguista Guy Deutscher (traduzo eu):
Se quiser contar em inglês um jantar com o meu vizinho ou com a minha vizinha (…), tenho de dizer alguma coisa sobre a localização temporal do evento: tenho de decidir se jantámos, se estivemos a jantar, se estamos a jantar, se havemos de jantar, etc. O chinês, em contrapartida, não obriga a especificar o tempo exato da ação desta maneira, porque se pode usar a mesma forma verbal para ações passadas, presentes ou futuras.
A maneira como Deutscher apresenta a questão, por muito que seja seguramente convincente para a maior parte dos leitores do artigo, é demasiado simplificada, ao ponto de ser incorreta. Em primeiro lugar, mistura – ou confunde – tempo com outras categorias: a diferença entre have eaten e have been eating (que só em contextos específicos, note-se, correspondem às formas portuguesas que usei para as traduzir) não é de caráter temporal, mas aspetual, ou seja, não tem a ver com tempo, mas como a ação nos é apresentada, como vista do exterior ou do interior, como terminada ou em curso, etc. Esta falta de rigor, porém, pode desculpar-se-lhe, admitindo que não queira complicar as coisas para o leitor do New York Times. Já mais grave me parece que chame a exprimir tempo linguístico “especificar o tempo exato da ação”. O tempo linguístico tem muito pouco a ver com o “tempo exato” e o tempo exato exprime-se com recurso a horas, dias e meses, não a formas verbais. Mas, em última análise, também isto se lhe pode desculpar, aceito-o perfeitamente. O que vem a seguir, já não.
O tempo linguístico (ou a combinação de tempo e outras categorias, para ser mais rigoroso) não se exprime só através da forma verbal, longe disso, e eu já vi trabalhos sobre marcações de tempo e aspeto em chinês. Deutscher não refere (porquê?) as teorias linguísticas que consideram, e demonstram com bastante subtileza, que o tempo é uma categoria universal, presente em todas as frases de todas as línguas, independentemente de ser ou não marcado nas formas verbais. Não me quero alongar nesta questão nem entrar em pormenores muito técnicos, mas, quando se fala de tempo, há que ter conta não só o verbo e a sua flexão, mas também as propriedades dos seus sujeitos e complementos, os adverbiais, as relações lógicas entre a frase e as frases anteriores do discurso, etc.
O que é estranho no ressurgir das teses de condicionamento do pensamento e da perceção pela língua é que se parece repetir um erro simples do primeiro whorfianismo, que é identificar categorias linguística e formas da língua: Whorf argumentava que em hopi (a língua ameríndia que descreveu) não havia “tempo” como em inglês, mas antes uma diferença entre “manifestado” e “não manifestado”, mas essa afirmação resulta obviamente de uma incompreensão das categorias tempo e modo. Para dar um exemplo óbvio (que não corresponde de maneira alguma ao das categorias verbais do hopi, quero deixar claro), um dos eixos de organização do sistema verbal nas línguas latinas é a oposição entre indicativo e conjuntivo que, embora suficientemente misteriosa para não haver nenhum tipo de consenso entre estudiosos quanto ao seu significado, não é seguramente do tipo temporal e poderia até definir-se (com alguma boa vontade, eu sei…) como um tipo de oposição entre manifestado e não manifestado, pelo menos se se assumir que manifestado pode significar “assumido como factual pelo locutor”… O facto é que, deixando de lado o poder de sugestão que traz agarrada a ela a referência à língua de um povo distante, com uma mundivisão seguramente muito diferente, não parece haver grande diferença na conceção do tempo, e do mundo em geral, entre uma francófona de alguma povoação do cantão suíço do Valais e uma falante do alemânico de uma povoação próxima no cantão de Berna, que tem um sistema verbal muito “temporal” e que não faz diferença nenhuma entre “ando à procura de um restaurante onde fazem bom rösti” e “ando à procura de um restaurante onde façam bom rösti”. De facto, que as formas verbais reflitam direta e essencialmente o tempo é uma característica das línguas germânicas que não se encontra nas línguas latinas, por exemplo, em que o sistema verbal, embora contenha marcas de tempo, é organizado em torno de noções de aspeto (fez vs fazia, etc.).

Um estudo fantástico
Um exemplo extremo, mas muito curioso, da falta de rigor no tratamento do tempo linguístico num trabalho whorfiano é o do estudo de M. Keith Chen “O efeito da língua no comportamento económico[4]”. Assim resume Chen o seu trabalho (traduzo eu):
Testo a hipótese de que as línguas que não distinguem gramaticalmente entre eventos presentes e futuros (o que os linguistas chamam línguas de futuro fraco) levam os seus falantes a realizarem ações mais orientadas para o futuro. Primeiro, mostro como esta previsão decorre naturalmente quando a efeitos bem documentados da língua na cognição se juntam modelos de tomada de decisão ao longo do tempo. Em seguida, mostro que, corroborando esta hipótese, falantes de línguas de futuro fraco poupam mais, guardam mais para a reforma, fumam menos e têm menos probabilidades de ser obesos, e gozam de melhor saúde a longo prazo. 
Nem mais: o estudo “demonstra” que há uma influência tão grande das formas linguística de futuro na maneira como as pessoas concebem e sentem o porvir que quem fale uma língua com formas específicas para o futuro não poupa e complacentemente se lança em comportamentos suicidas. Evidentemente, a primeira coisa que nos vem à cabeça é que há que substituir urgentemente a segurança social por uma reforma linguística que proíba o uso dessas formas verbais altamente nocivas para a sociedade. A tese é suficientemente disparatada para merecer ser ignorada com um sorriso apenas ou uma grande gargalhada, consoante o estado de espírito da altura, mas não é assim que um linguista procede. Como diz Julie Sedivy[5],
[a proposta de Chen] é demasiado intrigante para se resistir a falar nela. Na realidade, lembra-me as palavras de um proeminente linguista que uma vez afirmou durante uma palestra: “A explicação em questão é quase de certeza falsa. Se fosse verdadeira, porém, seria incrivelmente interessante, de maneira que não temos outra escolha que não seja explorá-la.”
E depois não é só isso: pode aproveitar-se para mostrar a fragilidade da classificação de Östen Dahl aqui usada por Chen – mas que pode também ser usada em quaisquer outros estudos menos fantásticos que este…
Há muitas críticas que se podem fazer – e foram feitas – ao trabalho de Chen. Críticas sobre a metodologia do trabalho, sobre inferências forçadas, sobre efeitos estatísticos incontrolados, etc. Todas elas são válidas e podem facilmente encontrá-las online com uma pesquisa simples. Muitas delas, aliás, encontram-se nos textos do Language Log para que vos remeto aqui. Mas, como no-lo recorda Geoffrey K. Pullum[6], todas essas críticas são desnecessárias, se pensarmos que a hipótese inicial de Chen dificilmente se tem de pé [tradução minha]:
Chen usa dados descritivos das línguas que vêm do projeto EUROTYP de Östen Dahl, e adota uma classificação do inglês como tendo futuro forte. Mas o inglês usa constantemente, e de forma notória, o presente para referir o tempo futuro:
Meg's mother arrives tomorrow. [“A mãe da Meg chega amanhã”. Negritos meus.]
If the phone rings, don't answer it. [“Se o telefone tocar, não atendas.”]
My flight takes off at 8:30. [“O meu voo parte às 8:30.”]
IBM is declaring its fourth-quarter profits tomorrow. [“A IBM apresenta amanhã os lucros do último trimestre do ano.”]
No próprio exemplo que Berreby dá, usa-se o inglês I am going to + verbo, alegadamente ilustrando uma marcação gramatical do futuro; mas, claro, am é o presente do verbo, por isso teria de defender-se que o uso do verbo de movimento go no seu sentido idiomático de futuro próximo conta como marcador gramatical de tempo verbal, o que levanta questões sobre se o mesmo se deve dizer de am about to e de am on the point of e por aí fora. Se o inglês tem marcadores do futuro verbal, tem pelo menos uma dúzia; mas o uso simples do presente dos verbos é uma maneira muito comum de referir o tempo futuro, e o que havemos de pensar disso? Pela minha parte, desconfio muito que se possa descrever com rigor o inglês como uma língua de “futuro forte”. Quase todos os gramáticos tradicionais descrevem o inglês como tendo um sistema de tempos verbais que inclui uma forma verbal de futuro, mas isso não é bem verdade; will é um auxiliar modal que também tem diversos outros usos. Se a apresentação dos factos é pouco sólida relativamente ao inglês, que probabilidade tem de ser rigorosa em línguas que não foram estudadas de forma tão intensiva?
Podemos ver o caso do português. Mas, primeiro, há que detalhar mais a perspetiva de Chen. Na sua demasiado ligeira introdução à questão da problemática do futuro, diz-nos ele no estudo referido (traduzo eu):
As línguas diferem no facto de exigirem ou não que os seus falantes marquem eventos futuros. Por exemplo, um falante do alemão que preveja chuva pode, de forma natural, fazê-lo no presente, dizendo: Morgen regnet es o que se traduz por “Chove amanhã”. Em contrapartida, o inglês exigiria a utilização de um marcador do futuro como “will” ou “is going to”, como em “It will rain tomorrow”.(…) Desta forma, o inglês obriga os seus falantes a codificar a distinção entre eventos presentes e futuros, ao passo que o alemão não o faz.
E acrescenta, em nota de rodapé:
É possível em inglês a referência ao futuro sem marcadores de futuro em certos contextos: especificamente com acontecimentos programados ou acontecimentos que resultem de propriedades do mundo que sejam como leis (…). Na minha análise, deixo de lado estes casos, porque, como [Dahl] mostra, “em muitas, se não todas, as línguas, este tipo de frase é tratada de uma forma que não a marca gramaticalmente como tendo referência temporal não presente (...), mesmo em línguas em que a referência ao futuro é, noutras situações, altamente gramaticalizada.” Por outras palavras, a forma como os acontecimentos programados são tratados não reflete o tratamento geral da referência ao futuro numa dada língua.
Ora bem, na classificação de Dahl, o português europeu é classificado como língua de futuro forte e o português do Brasil como língua de futuro fraco. Em português, no registo oral quotidiano, cada vez mais a forma verbal do futuro tem um uso a que chamarei exclusivamente modal para simplificar («Onde andará agora a Rita?») e só é usado temporalmente num registo mais cuidado (situações formais, língua escrita)[7].
Como podem facilmente constatar prestando atenção ao que se diz ao vosso redor, usam-se, para indicar o tempo futuro, além das formas chamadas perifrásticas ir+infinitivo e haver de+infinitivo, o presente do indicativo. Mesmo que consideremos as perifrásticas “marcas gramaticais de futuro”, elas não são sempre obrigatórias, longe disso, e o presente parece até ser a forma mais utilizada em frases em que há uma referência temporal explícita no futuro:
«O que é que fazes hoje à tarde/no Natal?»
«Não faço nada de especial, porquê?»
Não é perfeitamente natural em português, digam-me lá, eu perguntar a uma pessoa «Então, amanhã chove ou não?» e essa pessoa responder-me «Chove, pois, de certeza absoluta»?
Então, aceitando as restrições de Chen de não contar subordinadas (porquê?) nem eventos programados, continua a ser muito duvidoso que o português europeu seja classificado como língua de futuro forte, não é verdade? Mesmo sem analisar como se chegou a esta conclusão, posso constatar, pelo que explico atrás, que é fácil considerá-la de rigor extremamente duvidoso. Como é, aliás, extremamente duvidoso que haja na marcação verbal do futuro diferenças tão grandes entre o português dos dois lados do oceano que o português americano seja, ao contrário do português europeu, uma língua de futuro fraco[8].
Podíamos continuar a analisar a expressão do futuro em muitas línguas, em todas até, muito provavelmente para chegarmos sempre a mais dúvida do que aprovação relativamente aos axiomas de que Chen parte. Tenho uma atitude muito mais radical que Pullum ou menos diplomática, se preferirem: a divisão entre línguas de futuro fraco e de futuro forte é impossível de provar. “Os linguistas” não chamam futuro fraco a nada. Há linguistas que usam esse conceito, mas são, obviamente, uma minoria e o conceito é de produtividade duvidosa. O trabalho que Chen se propõe fazer não pode ser feito. E Chen devia referir muitos outros linguistas além de Östen Dahl, para ficarmos então a saber o que dizem “os linguistas” sobre o futuro linguístico e os seus marcadores.
Quero com isto tudo chegar a uma conclusão simples: quem queira estudar uma relação entre um fenómeno linguístico e um fenómeno percetivo ou social deve ter sempre também o cuidado de pensar e repensar muito bem os aspetos linguísticos da questão a estudar – sobretudo os pressupostos linguísticos em que a hipótese assenta… Que o que acabo de escrever é disparatado, por demasiado óbvio? É certo. Mas a verdade é que nem sempre assim se faz…
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[1] Ver também, sobre o tema, este meu texto,  e este e este, todos aqui na Travessa do Fala-Só.
[2] Ou neowhorfianos, como lhes chamo – de Benjamin Lee Whorf, conhecido por propor esta tese, nos anos 30, juntamente com Edward Sapir. Links para 4 resumos da hipótese de Sapir-Whorf: Wikipédia em português (muito pobre), Wikipedia em castelhano, Wikipedia em inglês e Stanford Encyclopedia of Philosophy (em inglês).
[3] O tempo é uma área por que tenho especial interesse e, por isso, reparo mais nas incorreções nessa área e analiso-as com mais facilidade. Já aqui tinha referido a falta de rigor de Lera Boroditsky no tratamento do tempo linguístico: ver a segunda parte deste texto, que começa com “O trabalho de Boroditsky é, repito, um trabalho científico cuidado…”.
[4] Chen, M. Keith. The Effect of Language on Economic Behavior: Evidence from Savings Rates, Health Behaviors, and Retirement Assets, Yale University, School of Management and Cowles Foundation, agosto de 2012. Aqui.  
[5] Em “Thought experiments on language and thought” de no site Language Log. Quem queira aprofundar a discussão do trabalho de Chen pode perfeitamente partir daqui, porque ele foi muito discutido no Language Log.
[6] No seu artigo “Keith Chen, Whorfian economist”, também no Language Log.
[7] Muita gente argumentará que raramente ou nunca se pode isolar o valor “exclusivamente temporal”, mas não quero lançar-me agora nessa discussão.
[8] Pode ser que os brasileiros poupem mais que os portugueses, não sei, mas isso é – pelo menos, para mim – uma questão muito diferente (smile).

01/06/10

Com vírgulas e sem elas, as picuinhices do Vitinha ou O que a gente se diverte a cortar cabelos ao meio no sentido do comprimento

Este é um texto sobre pontuação com links para várias coisas interessantes que não têm nada a ver com pontuação:

Há regras de pontuação que são mais complicadas do que outras. Curiosamente, no que respeita a vírgulas, parece que o mais difícil é usá-las de uma forma lógica, ou seja, usá-las para fazer distinções lógicas. Já uma vez aqui disse que regras uso (e proponho, claro está, porque o que acho bom para mim também acho bom para os outros!) para pôr vírgulas, mas algumas delas não são standard, e menos ainda na tradição portuguesa, de maneira que não insisto nelas, nem digo que seja erro fazer doutras maneiras. Agora, há um erro que considero mesmo erro (porque é dizer o que não se quer!), que tenho visto tantas vezes ultimamente que quero insistir aqui na necessidade de distinguir, na escrita, sintagmas restritivos de sintagmas apositivos: os primeiros, sem os quais a frase não passa, não vêm entre vírgulas; os segundos, que dão informação acessória, vêm entre vírgulas.

O exemplo clássico, que dei já aqui e que é o meu favorito, é o seguinte: se eu escrever “A minha irmã que mora no Porto chega amanhã”, esta oração “que mora no Porto” não vem entre vírgulas porque ela é essencial para definir de que irmã estou a falar, já que eu tenho (deve compreender imediatamente quem lê), pelo menos, mais uma, e só a que chega no dia seguinte mora no Porto; mas, se eu escrever “A minha irmã, que mora no Porto, chega amanhã”, ponho entre vírgulas esta oração relativa como a podia pôr entre parênteses: estou a dar sobre a minha irmã a informação suplementar de que ela mora no Porto, que não é fundamental para a identificar, porque eu só tenho uma irmã.

O mesmo se passa com outros sintagmas que não apenas orações relativas: Se eu escrever “No dia da festa de Kardemomme By, o polícia Bastian tem mais que fazer do que prender ladrões”, não fico a saber que há apenas um polícia em Kardemomme By, mas se escrever “No dia da festa de Kardemomme By, o polícia, Bastian, tem mais que fazer do que prender ladrões”, já tenho essa indicação – se bem que a maior parte das pessoas, de tão estranha que é a ideia de haver um só polícia na localidade, provavelmente não o compreenda assim… 

Ora, tanto em inglês como em português, estou sempre a tropeçar em atropelos à lógica («Tropeçar em atropelos? Credo!») que têm a forma de falta ou de excesso de vírgulas.

Por exemplo (os exemplos que dou aqui são em inglês, mas é só por acaso, porque o erro é comum a outras línguas e comum noutras línguas): anunciava-se no outro dia que “o virtuoso percussionista português, Pedro Carneiro, interpreta One Study, composto pelo neozelandês John Psathas” (Portuguese percussion maestro, Pedro Carneiro, performs One Study, composed by New Zealander John Psathas). Não sei se será o único percussionista virtuoso português, mas não era com certeza isso que se queria dizer – o que se queria dizer era “o virtuoso percussionista português Pedro Carneiro interpreta One Study, composto pelo neozelandês John Psathas”, ou seja, “Portuguese percussion maestro Pedro Carneiro performs One Study, composed by New Zealander John Psathas”, sem vírgulas. Ou então, “um virtuoso percussionista português, Pedro Carneiro, interpreta One Study, composto pelo neozelandês John Psathas (a Portuguese percussion maestro, Pedro Carneiro, performs One Study, composed by New Zealander John Psathas)”*.

Mesmo os grandes escritores (sobretudo se os revisores os não ajudam…), caem nesta armadilha. Li noutro dia num texto de Rudiard Kypling (o conto the “The finest story in the world”) “he was the only son of his mother who was a widow, and he lived in the north of London”, o que quer dizer que “era o único filho da sua mãe que era viúvo, e vivia no Norte de Londres”, mas o que Rudiard Kypling queria escrever era “he was the only son of his mother, who was a widow, and he lived in the north of London”, ou seja “era o único filho da sua mãe, que era viúva, e vivia no Norte de Londres”…Uma falta de vírgula e muda o portador da viuvez…

Agora, há casos limite em que é muito difícil, se não impossível, uma pessoa decidir qual é a intenção de quem escreveu e se há, por conseguinte, erro ou não. Um exemplo:

Se eu ler que “from 1992 to 1999, The Independent ran [Peter] Blegvad's strangely surreal, comic strip, Leviathan, which received much critical praise”, devo entender que, como está escrito, “de 1992 a 1999 foi publicada a [única] banda desenhada estranhamente surreal de Blegvad, Leviathan, que foi muito elogiada pela crítica” ou devo compreender antes que o ser estranhamente surreal é uma qualificação da banda desenhada Leviathan sem se afirmar que esta é a única banda desenhada surreal de Blegvad (“de 1992 a 1999 foi publicada uma banda desenhada de Blegvad, o estranhamente surreal Leviathan, que foi muito elogiada pela crítica” ou, se se preferir, “de 1992 a 1999 foi publicada a estranhamente surreal banda desenhada Leviathan, de Blegvad, que foi muito elogiada pela crítica”)? [O que é erro claro é a vírgula entre surreal e comic, mas isso é outra história…]

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* A propósito desta construção: Em inglês, como o nota Geoffrey K. Pullum (traduzo eu), «este uso do nome de uma pessoa precedido pelo nome de um emprego, sem um artigo antes (…) é estranho, porque descrições de ocupações, como vendedor de adubos, não são normalmente usadas como títulos. Cardeal é um título; vendedor de adubos é meramente um emprego. É verdade que sintagmas nominais como “fertilizer salesman Scott Peterson” [em português forçosamente com o artigo, parece-me a mim, “o vendedor de adubos Scott Peterson”] se encontram em artigos de jornal [, mas] nunca encontrei ninguém a não ser Dan Brown que usasse esta construção para iniciar uma obra de ficção».  É um facto: Dan Brown começa exactamente da mesma forma Angels and demons (Physicist Leonardo Vetra smelled burning flesh, and he knew it was his own) e The Da Vinci Code (Renowned curator Jacques Saunière staggered through the vaulted archway of the museum's Grand Gallery), sublinhado meu. E conclui Geoffrey K. Pullum: «A construção soa-me mais como o início de um obituário do que como o início de uma sequência de acção. Não é agramatical; só que não dá a sensação certa nem é o estilo certo para uma novela.» É difícil não concordar. Mas, bom, pelo menos Dan Brown tem as vírgulas certas...

24/09/08

Precipitação gelada ou Um texto meu (quase só) com palavras alheias

Digo eu, para introduzir a questão: é comum afirmar-se que “a língua inuíte” tem muito mais palavras do que qualquer outra língua para dizer “neve”*. Já ouvi esta afirmação em muitas levianas conversas de café, mas também em contextos que se pretendiam bem mais rigorosos...

Diz sl0throp sobre esta pretensa inflação vocabular:
[É] um mito perpetuado por uma série de linguistas, começando com Franz Boas em 1911, que afirmou haver quatro “palavras” para neve na língua esquimó. As línguas esquimós formam palavras de uma maneira diferente do inglês, e não se podem comparar as duas línguas palavra e palavra. Em esquimó, um radical pode transformar-se num número quase infinito de “palavras” juntando-se-lhe múltiplos sufixos.
Acrescenta yerricde:  
Um dialecto inglês médio tem tantas palavras para dizer neve como um dialecto inuktitut médio. Com dez minutos de Google, encontrei estes radicais para “precipitação gelada”: snow (…) / sleet / slush / avalanche / blizzard / ice / freeze, frozen / hail (…) A lista aumenta substancialmente se os termos técnicos dos praticantes de esqui forem incluídos (…). A lenda urbana em questão deriva da natureza aglutinadora da língua inuktitut; como a definição do que é e do que não é uma palavra é um pouco nebulosa, palavras compostas (comparem com o inglês snowball, snowflake, snowstorm, snowblind, snowfall, snowman, snowdrift, snowplow, etc.) são contadas e recontadas.
E afirma gn0sis:  
Toda a gente já ouviu dizer que os esquimós têm quarenta palavras para dizer neve; algumas pessoas também sabem que isto é uma lenda urbana. O que provavelmente não sabem, porém, é que o finlandês tem de facto mais de 40 palavras para neve – pelo menos se esticarmos um pouco a definição de forma a incluir todas as formas de precipitação gelada.
gn0sis apresenta em seguida, depois de explicar que “não estão incluídas quaisquer palavras compostas e [que tentou] até evitar incluir várias palavras com a mesma raiz”, uma lista de palavras finlandesas, a que poupo aqui as minhas leitoras e os meus leitores (têm o link aí atrás, é só ir lá ver), cujo rigor não tenho forma nenhuma de verificar: 40 de finlandês standard; mais 13 de finlandês regional (que só as pessoas de um determinada região compreendem); e, por fim, mais 3 que podem ou não referir-se a “precipitação gelada” consoante o contexto (mas nem todas as palavras designam neve em sentido estrito, longe disso – algumas designam tipos e formações de gelo; outras, formas intermédias entre o gelo e a neve e a chuva, coisas que eu não conheço…). E remata:
E qual é a conclusão disto tudo? Forçosamente, nada de especial. É bastante evidente que uma língua falada num clima do Norte, como o da Finlândia, desenvolve muitas formas concisas para explicar condições atmosféricas comuns. (…) Acrescento, como nota pessoal, que como qualquer finlandês citadino típico que passa a maior parte do tempo dentro de casa no conforto do aquecimento central, acho a maior parte deste vocabulário tão esquisito e inútil como o meu caro leitor provavelmente acha.
Mas é claro! É claro que é porque vivem na neve e têm de a referir amiúde e com precisão que os inuítes têm muitas palavras para neve – como os finlandeses! Mas… será mesmo assim? A verdade, pelos vistos, é que a neve não é uma coisa importante por aí além para os inuítes, como explica Willem J. de Reuse, antropólogo e esquimologista da Universidade do Arizona (é assim que se diz eskimologist? Ou diz-se antes esquimólogo?):
Os esquimós falam de neve tantas vezes como um tuaregue do Saara fala de chuva – por outras palavras, não muito frequentemente. Lembrem-se de que o Árctico é tecnicamente um deserto; isto é, há muito pouca precipitação, embora qualquer neve que caia fique no chão e seja espalhada pelo vento em formas estranhas, para as quais há, claro está, uma terminologia técnica, usada sobretudo por caçadores que precisam de usar estas coisas como pontos de referência. Neve (enquanto cobertura do solo ou precipitação) não é realmente muito importante para os esquimós. Sugiro que comecemos a procurar nalgumas das línguas dos grupos subárcticos do Canadá (Cree, Chipewyan); essas pessoas vivem em neve profunda, e provavelmente falam muito mais de neve.
Quanto ao gelo (que, afinal, também é água no estado sólido, só que não é precipitação), já é outra coisa, pelo menos para alguns esquimós. Ainda Willem J. de Reuse:
Os esquimós que caçam no gelo (tais como os esquimós yupik da Sibéria (…)) têm uma terminologia técnica incrivelmente pormenorizada para condições do gelo, icebergs, espessura e movimentos do gelo. Para os caçadores esquimós, estas coisas são realmente uma questão de vida ou de morte. Por isso, os esquimós têm de facto muitas palavras para “gelo”, e, como no caso de “neve”, trata-se de uma terminologia técnica baseada nalguns radicais que significam de facto “gelo” e em muitos radicais que não significam fundamentalmente “gelo”. Então, pelo menos nalgumas línguas esquimós, como o esquimó yupik da Sibéria Central, há de facto mais expressões (ou, se quiserem, “palavras”) para “gelo” do que para “neve”. (…) A conclusão é que a terminologia técnica para coisas que interessam os esquimós não é diferente da terminologia técnica pertinente para, digamos, os suíços que fazem relógios de cuco.
Para terminar com chave de ouro o “meu” texto, dou a palavra a Geoffrey K. Pullum, autor do texto mais corrosivo que eu conheço sobre a “grande fraude do vocabulário esquimó” (“The great eskimo vocabulary hoax”), um texto que é leitura suficiente para quem queira ficar bem informado sobre a questão (e que é, em vários aspectos, exemplar, pelo que acho que toda a gente que se interesse por questões de língua em geral o devia ler):
Algum dia, talvez até em breve, alguém lhe dirá que os esquimós têm muitas palavras, ou dezenas de palavras, ou montes de palavras, ou centenas de palavras, para designar neve. Deve então, caro leitor, decidir aqui e agora se vai deixar passar isso em claro (…).
A última vez que isso me aconteceu (…) foi em Julho de 1988 no campus de Irvine da Universidade da Califórnia, onde estava a assistir ao curso anual do Instituto de Gestão dessa universidade. Não apenas um, mas dois professores do Instituto conseguiram de alguma forma (não me perguntem como) enfiar o esquimológico embuste nas suas entediantes exposições sobre psicologia da gestão e resolução de problemas administrativos. Da primeira vez, tentei objectar e vieram fixar-se em mim os olhares do professor e dos colegas; da segunda vez, sobrepondo-se por uma vez a discrição à audácia, escondi a cara nas mãos durante um minuto, fechei o dossier e saí discretamente da sala.
Não seja cobarde como eu. Levante-se e diga o seguinte ao orador: o Dicionário da Língua Esquimó da Gronelândia Ocidental de C. W. Schultz-Lorentzen (1927) dá apenas dois radicais que podem ser relevantes para neve: qanik, que significa “neve no ar” ou “flocos de neve”, e aput, que significa “neve no solo”. Acrescente em seguida que estaria interessado em saber se o orador pode citar mais algum.

Não há-de ficar lá muito bem visto na sala. A sua intervenção terá um efeito que se pode mais ou menos comparar a despejar 200 quilos de papa de aveia grossa dentro de um cravo num recital de música barroca. Mas estará a defender a verdade, a responsabilidade, e o nível exigível de provas em linguística.
E pronto, consegui dizer o que queria, praticamente sem usar palavras minhas – e usando até, em parte, palavras que não faço ideia de quem serão (maldito anonimato!)…
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* Outra variante bastante divulgada da mesma lenda é que o inuíte tem várias palavras mais nuanceadas do que qualquer outra língua para designar a(s) cor(es) que nós referimos como “branco”…