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30 de agosto de 2019

Vírgulas, mais uma vez

Isto de vírgulas é complicado. Quero aqui falar de um erro comum e pouco notado, que, ao contrário de muitos erros frequentemente criticados, tem implicações importantes em termos de sentido: pôr entre vírgulas sintagmas ou orações restritivas. Está mal. Só os sintagmas apositivos é que se põem entre vírgulas. Ena, tantos palavrões técnicos. Importa-se de trocar isso por miúdos?*

Um modificador restritivo de um nome especifica a que(m) é que o nome se refere. Se eu tiver duas irmãs, a expressão nominal «a minha irmã» pode referir qualquer das duas. Mas se, das duas, há uma «que mora na Suíça» e outra «que mora em Portugal», estes sintagmas podem servir para especificar de qual das duas estou a falar: «A minha irmã que mora na Suíça faz anos amanhã.» São estes modificadores restritivos os que não se escrevem entre vírgulas.

Já um modificador apositivo diz alguma coisa extra daquilo que é referido pelo nome, sem por isso o definir por oposição a outras coisas ou seres designadas pelo mesmo nome. Se eu só tenho uma irmã e ela faz anos amanhã, direi «A minha irmã faz anos amanhã». E posso, claro está, acrescentar a esta afirmação alguma informação adicional sobre a minha irmã, por exemplo, que ela mora na Suíça: «A minha irmã, que mora na Suíça, faz anos amanhã.» Este tipo de frases é muito raro na comunicação oral, pelo que não há normalmente confusão entre os dois tipos de frase na oralidade (seria mais natural qualquer coisa como «A minha irmã faz anos amanhã. Mora na Suíça, essa minha irmã.»), mas ocorre na escrita, porque na escrita há tendência a condensar e concentrar a informação. E os apostos vêm sempre entre vírgulas, porque são sintagmas que se podem escusar ou mover para outro lugar.

Agora, nem todos os modificadores restritivos são orações relativas, como nos exemplos acima. Mas as regras de uso das vírgulas são as mesmas. Escrever, por exemplo, falando de Herman Melville que «Alguns veem no seu livro, The confidence man, uma sátira de Henry Ward Beecher» só faz sentido se Herman Melville não tivesse escrito mais nenhum livro, o que não é certo; e escrever que “O considerado entomologista de Harvard, E.O. Wilson, fez notar que, sem, insetos a vida desapareceria da terra», só estaria correto se o E.O. Wilson fosse o único etimologista considerado de Harvard, o que também não acontece.

Notem que nem sempre o problema deste erro é dar como único o que o não é. Pode também criar outro tipo de alterações do significado da frase onde ocorre. A frase «Alice é uma peça de teatro musicado sobre os conflitos internos do autor, Charles Dodgson, mais conhecido pelo seu pseudónimo literário, Lewis Carroll» dá Charles Dodgson como autor de uma peça de teatro cujos autores são de facto Kathleen Brennan e Tom Waits. O que queriam escrever era «Alice é uma peça de teatro musicado sobre os conflitos internos do autor Charles Dodgson, mais conhecido pelo seu pseudónimo literário, Lewis Carroll».

Lembro-me de que uma vez tive de pedir esclarecimentos à autora de um relatório que estava a traduzir e em que se afirmava que «os camponeses de Ribauè, que foram apoiados pelo projeto, aumentaram de facto a produção de milho». O projeto destinava-se de facto a apoiar todos os camponeses de Ribauè? Não, não, o projeto tinha como grupo-alvo um número restrito de camponeses do distrito – o que ela queria dizer era «os camponeses de Ribauè que foram apoiados pelo projeto aumentaram de facto a produção de milho», ou seja, restringir o número de camponeses que tinham aumentado a sua produção de milho aos que tinham sido apoiados pelo projeto.

Isto de vírgulas é um bocado complicado....


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* Podem ver, por exemplo –  e contrastar com a minha – a explicação que dá o Ciberdúvidas da diferença entre os dois tipos de modificadores. Mas encontram muitas outras na Internet.

1 de junho de 2010

Com vírgulas e sem elas, as picuinhices do Vitinha ou O que a gente se diverte a cortar cabelos ao meio no sentido do comprimento

Este é um texto sobre pontuação com links para várias coisas interessantes que não têm nada a ver com pontuação:

Há regras de pontuação que são mais complicadas do que outras. Curiosamente, no que respeita a vírgulas, parece que o mais difícil é usá-las de uma forma lógica, ou seja, usá-las para fazer distinções lógicas. Já uma vez aqui disse que regras uso (e proponho, claro está, porque o que acho bom para mim também acho bom para os outros!) para pôr vírgulas, mas algumas delas não são standard, e menos ainda na tradição portuguesa, de maneira que não insisto nelas, nem digo que seja erro fazer doutras maneiras. Agora, há um erro que considero mesmo erro (porque é dizer o que não se quer!), que tenho visto tantas vezes ultimamente que quero insistir aqui na necessidade de distinguir, na escrita, sintagmas restritivos de sintagmas apositivos: os primeiros, sem os quais a frase não passa, não vêm entre vírgulas; os segundos, que dão informação acessória, vêm entre vírgulas.

O exemplo clássico, que dei já aqui e que é o meu favorito, é o seguinte: se eu escrever “A minha irmã que mora no Porto chega amanhã”, esta oração “que mora no Porto” não vem entre vírgulas porque ela é essencial para definir de que irmã estou a falar, já que eu tenho (deve compreender imediatamente quem lê), pelo menos, mais uma, e só a que chega no dia seguinte mora no Porto; mas, se eu escrever “A minha irmã, que mora no Porto, chega amanhã”, ponho entre vírgulas esta oração relativa como a podia pôr entre parênteses: estou a dar sobre a minha irmã a informação suplementar de que ela mora no Porto, que não é fundamental para a identificar, porque eu só tenho uma irmã.

O mesmo se passa com outros sintagmas que não apenas orações relativas: Se eu escrever “No dia da festa de Kardemomme By, o polícia Bastian tem mais que fazer do que prender ladrões”, não fico a saber que há apenas um polícia em Kardemomme By, mas se escrever “No dia da festa de Kardemomme By, o polícia, Bastian, tem mais que fazer do que prender ladrões”, já tenho essa indicação – se bem que a maior parte das pessoas, de tão estranha que é a ideia de haver um só polícia na localidade, provavelmente não o compreenda assim… 

Ora, tanto em inglês como em português, estou sempre a tropeçar em atropelos à lógica («Tropeçar em atropelos? Credo!») que têm a forma de falta ou de excesso de vírgulas.

Por exemplo (os exemplos que dou aqui são em inglês, mas é só por acaso, porque o erro é comum a outras línguas e comum noutras línguas): anunciava-se no outro dia que “o virtuoso percussionista português, Pedro Carneiro, interpreta One Study, composto pelo neozelandês John Psathas” (Portuguese percussion maestro, Pedro Carneiro, performs One Study, composed by New Zealander John Psathas). Não sei se será o único percussionista virtuoso português, mas não era com certeza isso que se queria dizer – o que se queria dizer era “o virtuoso percussionista português Pedro Carneiro interpreta One Study, composto pelo neozelandês John Psathas”, ou seja, “Portuguese percussion maestro Pedro Carneiro performs One Study, composed by New Zealander John Psathas”, sem vírgulas. Ou então, “um virtuoso percussionista português, Pedro Carneiro, interpreta One Study, composto pelo neozelandês John Psathas (a Portuguese percussion maestro, Pedro Carneiro, performs One Study, composed by New Zealander John Psathas)”*.

Mesmo os grandes escritores (sobretudo se os revisores os não ajudam…), caem nesta armadilha. Li noutro dia num texto de Rudiard Kypling (o conto the “The finest story in the world”) “he was the only son of his mother who was a widow, and he lived in the north of London”, o que quer dizer que “era o único filho da sua mãe que era viúvo, e vivia no Norte de Londres”, mas o que Rudiard Kypling queria escrever era “he was the only son of his mother, who was a widow, and he lived in the north of London”, ou seja “era o único filho da sua mãe, que era viúva, e vivia no Norte de Londres”…Uma falta de vírgula e muda o portador da viuvez…

Agora, há casos limite em que é muito difícil, se não impossível, uma pessoa decidir qual é a intenção de quem escreveu e se há, por conseguinte, erro ou não. Um exemplo:

Se eu ler que “from 1992 to 1999, The Independent ran [Peter] Blegvad's strangely surreal, comic strip, Leviathan, which received much critical praise”, devo entender que, como está escrito, “de 1992 a 1999 foi publicada a [única] banda desenhada estranhamente surreal de Blegvad, Leviathan, que foi muito elogiada pela crítica” ou devo compreender antes que o ser estranhamente surreal é uma qualificação da banda desenhada Leviathan sem se afirmar que esta é a única banda desenhada surreal de Blegvad (“de 1992 a 1999 foi publicada uma banda desenhada de Blegvad, o estranhamente surreal Leviathan, que foi muito elogiada pela crítica” ou, se se preferir, “de 1992 a 1999 foi publicada a estranhamente surreal banda desenhada Leviathan, de Blegvad, que foi muito elogiada pela crítica”)? [O que é erro claro é a vírgula entre surreal e comic, mas isso é outra história…]

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* A propósito desta construção: Em inglês, como o nota Geoffrey K. Pullum (traduzo eu), «este uso do nome de uma pessoa precedido pelo nome de um emprego, sem um artigo antes (…) é estranho, porque descrições de ocupações, como vendedor de adubos, não são normalmente usadas como títulos. Cardeal é um título; vendedor de adubos é meramente um emprego. É verdade que sintagmas nominais como “fertilizer salesman Scott Peterson” [em português forçosamente com o artigo, parece-me a mim, “o vendedor de adubos Scott Peterson”] se encontram em artigos de jornal [, mas] nunca encontrei ninguém a não ser Dan Brown que usasse esta construção para iniciar uma obra de ficção».  É um facto: Dan Brown começa exactamente da mesma forma Angels and demons (Physicist Leonardo Vetra smelled burning flesh, and he knew it was his own) e The Da Vinci Code (Renowned curator Jacques Saunière staggered through the vaulted archway of the museum's Grand Gallery), sublinhado meu. E conclui Geoffrey K. Pullum: «A construção soa-me mais como o início de um obituário do que como o início de uma sequência de acção. Não é agramatical; só que não dá a sensação certa nem é o estilo certo para uma novela.» É difícil não concordar. Mas, bom, pelo menos Dan Brown tem as vírgulas certas...