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17/08/11

Matriculomancia

A matriculomancia (inglês platomancy, francês placomancie) é a adivinhação do futuro a partir das matrículas dos carros. Este método divinatório assenta nos famosos princípios filosóficos de que nada acontece por acaso, porque Deus não joga aos dados, como se sabe; de que tudo está forçosamente interligado, porque senão o universo não faria sentido; e de que o que está em baixo é igual ao que está em cima, sendo o que está escrito nas chapas de matrícula, naturalmente, o mesmo que está escrito no grande livro do destino. Et cætera.

Nenhum carro passa perto de nós sem que haja uma razão para tal. Pensem bem: de todos os carros do mundo porque haveria aquele carro passar naquele lugar naquele momento? Mais do que razão, deve até falar-se de um sentido cósmico dessa passagem. E quem tiver olhos para ver verá. Se estivermos com atenção ao que se passa à nossa volta, todos temos – ou pelo menos eu tenho – várias possibilidades de comprovar na prática que as matrículas dos carros falam frequentemente connosco. Ainda no outro dia, por exemplo, o carro à frente do nosso tinha a matrícula FB 23 183 e era conduzido por uma amiga minha do Facebook. FB = FaceBook. Não vos parece que é demasiada coincidência? É evidente que aquela matrícula me queria dizer alguma coisa. Sabendo ler o significado oculto de letras e números, obtemos da matrícula de qualquer carro informações preciosas sobre o que o fado nos reserva.

Em cada chapa de matrícula, uma mensagem do divino
Como ler o significado oculto das matrículas? Uma entrada de blogue não é o lugar ideal para revelar tão complexo conhecimento, mas, agora que sou dele depositário, estou a pensar, precisamente, em organizar uns seminários e uns cursos por correspondência para o divulgar. E a preços por tal sinal bastante em conta. Manter-vos-ei informados.

O quê, não vos cheira? Bom, não sei porquê. Não é nem mais nem menos plausível do que qualquer outro método divinatório de que já tenham ouvido falar.

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 Atenção!

É frequente a confusão de matriculomancia com matriculomania, o vício de fazer apostas sobre as matrículas dos próximos carros a passar num determinado local. Tirando o facto de se centrarem as duas atividades nos carros que passam e de haver em ambas tentativa de adivinhação, não têm, claro está, nada a ver uma com a outra…

Muitos pensarão que a matriculomancia é uma forma de aritmancia ou numerologia (adivinhação pelos números), de nominomancia (adivinhação através de letras) ou até uma mistura das duas. Mas não. Pensar-se que letras e algarismos fazem sentido só por si ou como componentes de qualquer palavra ou número é, no mínimo, uma ideia abstrusa. Os números só fazem sentido quando reunidos numa placa de matrícula!

23/02/10

Do passado ficam-nos coisas que estranhamos…

Do passado ficam-nos coisas que estranhamos – o que é que isto está aqui a fazer? Fechar um guarda-chuva aberto que encontrei à entrada da despensa, por exemplo, porque fui treinado (pelos vistos, bem treinado) para o fazer. É que um guarda-chuva aberto dentro de casa, não sei se sabem, dá azar... E estas coisas ficam, malvadas, coladas a nós sem que a gente dê por isso...

Agora, ou aceitamos que somos assim, ou então, se somos um bocadinho mais exigentes connosco próprios, temos de estar sempre atentos e negar-nos constantemente (era a expressão que usava um amigo meu que era sábio). É uma proposta mais que batida, esta de deixar de obedecer a superstições e a medos, e a tudo o que, dentro de nós, não tem razão de ser (nos vários sentidos da palavra razão) nem tem o carimbo da nossa moral, mas isso não é motivo para não se continuar a insistir nela.

E depois, rai’s nos partam!, o que custa levar isto à prática! Nem que seja só (só?) treinar-se para não fechar involuntariamente o guarda-chuva que se encontra aberto à entrada da despensa só por medo de que ele dê azar, e fechá-lo antes com a consciência de estar assim a eliminar um perigo do seu quotidiano, pois, porque guarda-chuvas abertos dentro de casa, e com miúdos, ainda por cima, uma vareta num olho, eu sei lá… Mas guarda-chuvas abertos dentro de casa ainda são o menos. O pior são os sentimentos que descobrimos dentro de nós sem os aprovarmos. As simpatias e as antipatias, as paixões e os ódios, todas essas amoralidades!... Do passado – às vezes, até de um passado tão distante que nem o conseguimos conceber, de muitos milhares de anos antes de nós sermos o ser que pensa nisto… – ficam-nos coisas que estranhamos e que temos de negar, negar, negar, se quisermos ser um bocadinho (só um bocadinho…) melhores. Independentemente, isso é que é curioso, do que queiramos dizer com isso de “ser melhores”.

25/10/08

A razão e o sentimento: vai-te mundo, cada vez a melhor

Desde os ensinamentos de Sidarta Gautama (que dizem que foi buda…) aos trabalhos de vários cientistas modernos, inúmeras vezes tem sido posta em causa a pertinência da velha dicotomia entre o racional e o irracional, o sentido e o pensado, a razão e os sentimentos. Não pretendo defender aqui que a ruptura entre os dois domínios existe de facto, mas digo que, como ferramenta conceptual, ela é importante; e a distinção pode fazer-se com bastante clareza se a linha divisória entre os dois domínios for a capacidade de transmissão do que nos vai dentro. A experiência e os sentimentos são tão pessoais e intransmissíveis como os bilhetes de identidade ou de avião. Há muito quem pense que há formas de os transmitir através de outros tipos de discursos que não a linguagem normal (através da música ou da poesia, por exemplo), mas não há nenhuma prova de que essa transmissão seja possível. O que há, na maior parte dos casos, é antes uma ilusão de transmissão de experiências e sentimentos. Mesmo a partilha de uma vivência concreta não garante uma comunhão da experiência: o medo que eu senti nas estradas de montanha da Bolívia não foi partilhado por muitos dos meus companheiros nessas viagens. O conhecimento, as ideias, o racional, é o que, de dentro de nós, pode ser recebido por todos os outros sem perdas significativas na transmissão e acumular-se como propriedade de todos os humanos.

Pode argumentar-se que o mais importante de cada um para os outros é a maneira como age relativamente a eles. A sua vida moral, digamos assim. E parece-me que o progresso nas relações entre pessoas tem resultado mais de uma discussão racional do que de alguma evolução dos sentimentos. Como o nota Steven Pinker (video aqui, texto aqui) e ao contrário do que postula o senso comum nas catastrofistas conversas que nos enchem o quotidiano, há uma clara e constante diminuição da violência ao longo da história da humanidade. É claro, não é impossível que tenha havido uma evolução da maneira como sentimos os outros, com causas específicas que não estamos ainda em condições de compreender, e que essa evolução tenha tido influência benéfica na nossa relação com eles. Não é impossível, mas não me parece muito plausível. Parece-me muito mais provável que qualquer alteração no nosso sentir (a existir) seja mais um produto das mudanças (racionalmente motivadas, entenda-se) da nossa organização social do que a sua causa. Além disso, creio que é possível demonstrar, contra todos os milenarismos que vêm na acumulação de conhecimentos e na evolução técnica que ela permite a desgraça da humanidade, que o progresso técnico tem contribuído tanto como o progresso moral para melhorar a vida das pessoas. Se há menos gente a sofrer agora do que há 500 anos, é porque a servidão e a escravatura foram abolidas, a justiça social e a igualdade foram aumentando, a violência é cada vez mais encarada como algo a banir, mas também porque melhorou a higiene e evoluíram a medicina, as técnicas de produção, etc.

Aonde quero eu chegar com este delírio? A uma conclusão simples: o Homo sapiens continua provavelmente a sentir pouco mais ou menos como sentia há 100 000 anos atrás, mas evoluíram muito o seu conhecimento e as suas instituições – o que é transmissível, comunicável, passível de ser efectivamente discutido. E ainda bem!